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A cultura redpill na vida escolar e digital de jovens brasileiros

Pesquisa aponta crescimento de conteúdos misóginos na internet enquanto especialistas alertam para impactos entre adolescentes



Ilustração com fundo azul-marinho escuro e várias cápsulas vermelhas espalhadas pela imagem, em referência à estética da cultura “redpill”. A composição é minimalista, com contraste entre o vermelho intenso das pílulas e o fundo escuro.

Era 1999 quando o termo redpill nasceu. Em português, significa “pílula vermelha”, e apareceu pela primeira vez no filme Matrix. No contexto do longa, o personagem Neo é indagado por Morpheus a escolher entre dois caminhos, a redpill, onde há uma realidade fora da matrix (universo artificial) e a bluepill (pílula azul), onde seguiria em uma vida ilusória e submissa àquela realidade falsa. Neo escolheu a redpill.

Fora do contexto cinematográfico, a palavra redpill ganhou um significado completamente diferente, mas ainda relacionado. Por volta de 2010, o termo passou a ser usado nos cantos da internet para representar uma cultura onde os homens são submissos às mulheres que, nas teorias deste grupo, acreditam viver em uma sociedade controlada por mulheres.

Assim como no filme, o efeito da redpill, que seria a libertação das amarras submissas, é associado à libertação dos homens na busca pela aceitação feminina. Hoje, o contexto é ainda mais preocupante. Isso porque, essa subcultura tem ganhado cada vez mais espaço na internet e, de certa forma, obtém “aprovação” para legitimar ideias misóginas, infelizmente permitidas pela pouca regulamentação no mundo digital e pela atuação pouco eficaz das plataformas. 

A professora do Departamento de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisadora sobre criança e adolescente na sociedade informacional Rosane Leal da Silva explica que a chamada cultura redpill não é um fenômeno recente, mas que passou a ganhar maior visibilidade com a ampliação das redes sociais e do engajamento digital. Para ela, trata-se de uma reação às transformações nas relações de gênero. “Esse movimento representa uma certa agonia do patriarcado”, explica à Agência de Notícias. 

Conforme a pesquisadora, esse cenário está relacionado ao empoderamento das mulheres nas últimas décadas. Rosane aponta que parte dos homens que aderem a esses discursos tende a deslocar frustrações pessoais para as mulheres. “É um movimento que reúne homens que passam a se sentir e atribuir a responsabilidade muitas vezes pelos seus fracassos”, contextualiza. Ela acrescenta que isso se conecta a uma nostalgia de relações hierárquicas. “É muito confortável ter mulheres que ficam em casa, que são submissas, que se mantêm à disposição do marido e são tratadas como objetos”, observa.

A pesquisadora destaca também que esses discursos se organizam em ambientes digitais, onde encontram maior alcance e reforço. “Esse movimento é como uma resposta a esse empoderamento das mulheres e vai reunindo esses homens que se sentem incomodados com esse perfil de atuação”, explica. Segundo Rosane, as redes sociais funcionam como espaço de encontro e amplificação dessas ideias, muitas vezes baseadas em ódio e violência simbólica.

Dados da SaferNet Brasil mostram que a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu 87.689 denúncias únicas em 2025, um aumento de 28,4% em relação ao ano anterior. Entre as categorias monitoradas, a misoginia apresentou uma das maiores altas proporcionais, evidenciando o crescimento de conteúdos que promovem hostilidade, humilhação e violência contra mulheres no ambiente digital.  

O problema também foi identificado em pesquisa do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Ministério das Mulheres. Em apenas 28 dias de monitoramento, o estudo analisou 1.565 anúncios considerados problemáticos, irregulares ou ilegais em plataformas como Facebook e Instagram, ambas mantidas pela Meta. Entre os anúncios, 44,3% continham reforço de estereótipos de gênero, machismo e objetificação da mulher. 

A pesquisadora também chama a atenção para o papel dos algoritmos na propagação desses conteúdos. “As redes sociais têm potencializado esses discursos, porque o algoritmo percebe que temáticas que geram afeto, inclusive o ódio, mobilizam os espectadores”, constata. Para a professora Rosane, isso contribui para a formação de bolhas digitais. “As pessoas vão se colocando cada vez mais dentro de uma bolha, em um universo que dissemina violência”, observa.

Conforme a pesquisadora, essa dinâmica pode levar à naturalização de discursos misóginos. “Essa violência vai se naturalizando, assim como responsabilizar as mulheres pelas suas frustrações vai se naturalizando também”, pontua. Rosane acrescenta que há uma construção de identidade masculina baseada em poder e dominação: “eles recuperam essa visão de homem forte, um macho alfa que vai atuar e que é o detentor desse poder nas relações”.

Infográfico com fundo azul-marinho e cápsulas vermelhas espalhadas pela imagem. O título “MISOGINIA NA INTERNET” aparece em letras maiúsculas. A arte destaca dados da SaferNet Brasil sobre o aumento de denúncias de misoginia online em 2025, incluindo o número de 87.689 denúncias únicas e crescimento de 28,4% em relação ao ano anterior.

Violência materializada: uma mulher é violentada a cada seis minutos no Brasil

No contexto da cultura redpill, a violência contra a mulher continua em alta no Brasil. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025 com dados referentes a 2024, o país registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde que esse crime ganhou nome em 2015. A maioria das vítimas era negra (64%), tinha entre 18 e 44 anos (70%) e foi morta dentro de casa (64%), geralmente pelo companheiro ou ex-companheiro (80%). 

No mesmo período, também foram contabilizados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica, o que representa uma média de uma mulher ou menina violentada a cada seis minutos no país. Especialistas apontam que esses números refletem a persistência de uma cultura de misoginia e controle sobre o corpo e a autonomia feminina, frequentemente reforçada por discursos disseminados nas redes sociais e em comunidades masculinistas, como a chamada cultura redpill.  

As raízes do problema não estão limitadas aos adultos. Hoje o problema tem começado cedo, além das redes e, inclusive, nas escolas. Embora não existam estatísticas oficiais que revelem diretamente a adesão de adolescentes à cultura redpill, os indicadores de violência escolar ajudam a dimensionar o terreno em que discursos misóginos encontram espaço para se disseminar. 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)em 2026 com base em informações coletadas em 2024, mostram que 39,8% dos estudantes de 13 a 17 anos já sofreram bullying, 27,2% relataram humilhações recorrentes e 16,6% afirmaram ter sido agredidos fisicamente por colegas. Entre as meninas, o percentual de vítimas de bullying chega a 43,3%. 

Em paralelo, uma pesquisa com professores apontou que sete em cada dez docentes já presenciaram episódios de assédio ou agressão contra alunas no ambiente escolar. O cenário é agravado pela dificuldade das instituições de ensino em enfrentar essas situações: levantamento da Fundação Carlos Chagas revelou que 71,7% dos gestores escolares relatam obstáculos para lidar com casos de violência, racismo e bullying

Essa realidade faz com que Rosane destaque onde a cultura redpill têm chegado. “Esse conteúdo tem chegado até adolescentes e jovens nos mesmos grupos que eles frequentam e navegam”, explica. A docente ainda complementa que há sinais comportamentais dessa influência: “o menino passa a ter um comportamento mais rude, mais grosseiro, mais agressivo, resultado dessa radicalização”.

Para o psicólogo e mestrando em Psicologia pela UFSM Emanuel Chiamenti, a adolescência é um período particularmente vulnerável a esse tipo de discurso justamente porque envolve a construção da identidade e das referências de masculinidade e feminilidade. Segundo o pesquisador, os jovens atravessam mudanças corporais, sociais e emocionais enquanto tentam compreender “o que significa ser homem” e o que se espera deles dentro das relações sociais. “As redes sociais, a escola, a religião e a família acabam oferecendo respostas prontas para essas dúvidas. O adolescente tenta encontrar um lugar simbólico diante dessas normas”, esclarece o pesquisador.

Emanuel afirma que a adesão a discursos extremistas não pode ser entendida apenas individualmente, mas como resultado de atravessamentos sociais e subjetivos. “Quando existe uma fragilidade narcísica, marcada por sentimentos de fracasso, inadequação e desamparo, alguns sujeitos tendem a buscar discursos rígidos e extremistas para reafirmação identitária”, diz. Segundo ele, comunidades masculinistas oferecem sensação de pertencimento, inimigos declarados e uma ideia de recuperação de um suposto poder perdido.

A professora Rosane alerta para os impactos desse fenômeno nas relações sociais e de gênero. “Esse discurso silencia e amedronta mulheres”, descreve. Ela observa que isso afeta diretamente o desenvolvimento e a segurança emocional das vítimas, além de prejudicar relações de confiança. Já Emanuel considera que o ambiente digital ocupa hoje um papel central na formação subjetiva dos adolescentes. “O inconsciente se constitui nas relações com o outro, com imagens, discursos e identificações. As redes sociais atravessam significativamente nossos ideais de eu, aquilo que sentimos que deveríamos ser”, aponta.

O psicólogo explica que a cultura redpill radicaliza modelos tradicionais de masculinidade, associados ao domínio, poder financeiro, controle emocional e autoridade sobre as mulheres. “Há um ressentimento com as transformações sociais das últimas décadas e com a maior liberdade feminina. Alguns homens passam a interpretar essas mudanças como perda de poder”, analisa Emanuel no mesmo sentido que a professora Rosane.

Para o mestrando, embora exista um discurso sobre uma suposta “crise da masculinidade”, o fenômeno está profundamente ligado às transformações econômicas e sociais contemporâneas. “O capitalismo não está dando aos homens aquilo que prometeu: estabilidade financeira, capacidade de prover sozinho uma família e poder absoluto. Muitos acabam deslocando essa frustração para as mulheres e para o feminismo”, frisa.

Infográfico com fundo azul-marinho e detalhes em vermelho e branco. O título “VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS” aparece em destaque. A imagem apresenta dados da pesquisa PeNSE sobre bullying, humilhações e agressões entre estudantes de 13 a 17 anos, além do percentual de meninas vítimas de bullying. Cápsulas vermelhas aparecem na parte inferior da arte.

Os papéis sociais e o debate nas escolas

A professora Rosane Leal defende que a escola deve atuar diretamente na prevenção e no enfrentamento desses discursos. “É papel da escola trazer essa pauta, discutir, ver como estão as relações dentro da sala de aula e proporcionar rodas de conversa”, destaca. Ela também enfatiza a importância de mostrar os impactos: “especialmente mostrando os impactos que isso causa na vítima, no seu sofrimento, no seu adoecimento”.

Emanuel também defende que a escola precisa ser compreendida como um espaço de formação humana e não apenas de transmissão de conteúdo. De acordo com o psicólogo, discutir gênero e relações afetivas não significa “ensinar alguém a ser algo”, mas criar condições para que adolescentes reflitam criticamente sobre normas sociais naturalizadas. “A escola participa disso tanto ao abordar o tema explicitamente quanto ao silenciar”, compara. Para Emanuel, a educação tem um papel importante na construção de relações menos violentas, principalmente por oferecer experiências coletivas, diálogo e mediação crítica, algo que as redes sociais frequentemente não conseguem proporcionar.

No campo jurídico, a professora relaciona esses discursos a diferentes formas de violência previstas na legislação brasileira. “Não se trata de uma mera brincadeira e é papel também da escola e das famílias chamar atenção sobre isso”, alerta. Ela cita que essas condutas podem configurar crimes como feminicídio, lesão corporal, estupro, importunação sexual, assédio, perseguição e violência psicológica.

Rosane ressalta que essas violências frequentemente se interligam e podem se agravar. “É muito difícil ter uma situação de violência psicológica que depois não derive para uma violência física”, pondera. Para ela, esse conjunto de práticas evidencia a gravidade do fenômeno e sua relação com o aumento de casos de violência contra mulheres.

Apesar do crescimento desses discursos, Emanuel acredita que crenças misóginas podem ser desconstruídas, especialmente durante a adolescência. “A subjetividade nunca está completamente pronta. O sujeito continua sendo atravessado por novos afetos, experiências e formas de pertencimento”, explica.

De acordo com ele, espaços de escuta e acolhimento são fundamentais para enfrentar a radicalização masculina. “Não se trata de validar discursos violentos, mas de compreender a função psíquica que eles ocupam para aquele adolescente. É preciso criar possibilidades de elaboração emocional, responsabilização e construção de formas mais saudáveis de relação com o outro”.

Texto e artes gráficas: Pedro Moro, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias

Edição: Maurício Dias

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