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Dois anos após as enchentes históricas no RS, como o campo gaúcho está se adaptando às mudanças climáticas

Agricultores ainda enfrentam os impactos no solo, na produção e na economia diante da possibilidade de um novo El Niño em 2026



Ilustração colorida com fundo vermelho escuro e traços brancos formando o mapa do RS, com gotas de chuva e plantas dentro do mapa

Após a divulgação de uma nota técnica do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul alertando para a possibilidade de um novo episódio do fenômeno El Niño em 2026, o Estado voltou a acompanhar com preocupação as previsões de chuvas acima da média para a primavera. O alerta reacende o debate sobre os impactos provocados pelos eventos extremos de 2024, que deixaram cerca de 206 mil propriedades afetadas, segundo dados da EMATER/RS-Ascar e do governo estadual. Apenas no agronegócio, os prejuízos imediatos ultrapassaram R$ 3 bilhões, com perdas severas em lavouras, infraestrutura, maquinários e capacidade produtiva.  

Dois anos após as imagens de cidades inundadas dominarem o noticiário, as marcas da maior tragédia climática do Estado ainda estão presentes no campo gaúcho. Irene Thais Weber, agricultora da área de fruticultura, e Moisés Augusto Prochnow, produtor de arroz, não se conhecem, mas compartilham a mesma experiência. A longa jornada para recuperar as propriedades e os impactos econômicos provocados pelas enchentes que atingiram o estado em maio de 2024.

Nesta segunda reportagem da série especial sobre o El Niño da Agência de Notícias da UFSM, cruzamos as histórias de quem perdeu a produção para entender quais são as demandas atuais, os desafios na recuperação do solo e como o campo gaúcho está se adaptando às mudanças climáticas. Nas próximas semanas, abordaremos os impactos nas cidades, na infraestrutura logística e na ciência produzida pela UFSM a partir das enchentes.

O custo do recomeço nos pomares do Vale do Caí

Irene e seu marido, Ricardo Weber, são agricultores de Montenegro, no Vale do Caí. Há quase quatro décadas, eles trabalham com a produção de bergamotas em uma pequena propriedade de sete hectares, onde cultivam frutas de forma orgânica. Na propriedade, cinco hectares seguem em plena produção, mas outros dois precisaram ser replantados após a cheia de 2024.

O trabalho é conduzido pelo casal, que tem sua fonte de renda vinda exclusivamente da citricultura. Ricardo, aos 56 anos, conta que cresceu acompanhando o pai no cultivo de citros e afirma que a família sempre conviveu com enchentes provocadas pelo Arroio Maratá, que corta a região. Acostumados com cheias sazonais, os produtores relembram que os eventos de 2024 ultrapassaram qualquer situação já vivenciada. 

Na ocasião, a água permaneceu por cerca de 48 horas sobre os pomares, causando a perda de aproximadamente 80% da safra de bergamotas. O prejuízo direto passou dos R$ 80 mil. “A água não chegou na nossa casa, mas perdemos a maior parte da safra”, resume o produtor.

Segundo o professor Gustavo Brunetto, do curso de Fruticultura da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), alagamento prolongado deixou sequelas na plantação. “Quando o solo permanece alagado por muito tempo, a planta sofre estresse porque falta oxigênio para as raízes. Isso prejudica a absorção de nutrientes e compromete o desenvolvimento da produção”, explica. 

Duas safras depois, o desafio dos produtores tem sido justamente devolver o vigor às plantas que sobreviveram ao sufocamento radicular. Apesar das perdas econômicas com as frutas, a família conseguiu preservar a estrutura física da propriedade. Ricardo destaca que o manejo orgânico, com cobertura vegetal e pouca intervenção no solo, foi o que salvou o patrimônio da família a longo prazo. “Perdemos a safra, mas mantivemos o solo”, afirma.

A avaliação do produtor é reforçada pelo professor Brunetto. De acordo com o pesquisador, propriedades que mantêm cobertura vegetal e práticas de conservação do solo tendem a sofrer menos impactos durante eventos extremos de chuva. A vegetação ajuda a reduzir a força da água sobre o solo, diminuindo processos erosivos e a perda de nutrientes. “A planta de cobertura dissipa a energia da gota da chuva e ajuda a preservar a estrutura do solo”, explica. 

Mesmo com a recuperação gradual do pomar em 2026, o receio de novas enchentes acompanha o casal. “A gente pensava que uma enchente maior que essa [de setembro de 2023] vai levar 50 anos. E não levou um ano e pouco, já deu uma maior ainda”, relata Ricardo. 

O impacto no solo 

Imagem colorida em formato horizontal mostra uma lavoura de arroz devastada após as enchentes. O solo aparece tomado por erosões profundas e marcas deixadas pela força da água. Ao fundo, é possível ver o rio, áreas de mata e montanhas sob um céu nublado.
Propriedade em Dona Francisca teve seu solo impactado pelas chuvas de maio de 2024

Diferente da propriedade do casal Weber, diversas áreas rurais do Rio Grande do Sul não contavam com cobertura vegetal suficiente no solo e acabaram sendo fortemente impactadas pela catástrofe climática de 2024. Com o grande volume de chuva em um curto período de tempo, a água passou a escoar rapidamente pela superfície, provocando erosão e carregando junto a camada mais fértil do solo. Nesse processo, nutrientes, matéria orgânica, fertilizantes e sedimentos foram arrastados pela enxurrada, reduzindo a capacidade produtiva das áreas agrícolas e aumentando os prejuízos para os produtores.

Na avaliação do professor Jean Minella, docente do programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo  da UFSM, a ausência de práticas de conservação intensifica os danos causados por eventos extremos. “A água passa a percorrer a superfície com muita velocidade e energia, causando erosão e degradação”, explica. O pesquisador destaca que a cobertura vegetal intensifica a infiltração da água e ajuda a preservar nutrientes e matéria orgânica essenciais para a produção agrícola.

A reconstrução às margens do Jacuí 

Foto horizontal e colorida de um homem branco de meia-idade usando boné preto, que cobre os cabelos grisalhos, e casaco verde com detalhes em azul. Ao fundo, uma floresta verde aparece desfocada, atravessada por raios de sol.
O agricultor Moisés Prochnow ainda está reconstruindo sua propriedade após a enchente de 2024

O agricultor Moisés caminha pela plantação de arroz sem defensivos químicos na cidade de Dona Francisca, relembrando as perdas da enchente de 2024. Sua propriedade fica ao lado do rio Jacuí. Na época da enchente o produtor estava na cidade de Agudo e teve que atravessar o rio de barco para chegar à propriedade. Ao chegar, encontrou um rio totalmente diferente do que existia quando ele partiu. “Ele sai pelas várzeas e vai empurrando tudo o que encontra pela frente. E a água não tem volta”, relata. Para o agricultor, a força da correnteza redesenhou o território, abrindo novos caminhos e levando embora partes inteiras da lavoura.  Na propriedade, a força do rio foi tanta que chegou a criar crateras no meio do terreno. 

Propriedade do agricultor Moisés Prochnow na cidade de Dona Francisca foi severamente atingida pelo evento climático extremo de maio de 2024

A sequência de eventos extremos mudou a rotina do agricultor. Primeiro vieram as estiagens, depois, as chuvas intensas e as enchentes. O excesso de água atrasou o plantio, comprometeu o manejo da lavoura e obrigou o agricultor a utilizar defensivos agrícolas na lavoura, prática que não fazia parte da sua rotina de cultivo, além disso, parte da área precisou ser abandonada. “Cada ano tu tem alguma coisa”, diz. Mesmo trabalhando em uma cultura adaptada à água, como o arroz irrigado, Moisés explica que o problema está no volume e na velocidade da enchente. Quando o Rio Jacuí transborda, a água invade as áreas de produção com força suficiente para arrancar barrancos, abrir valas e carregar embora sementes, insumos e solo fértil. 

Moisés calcula ter perdido cerca de R$100 mil apenas com a destruição da produção durante as enchentes, mas diz ter “perdido as contas” do valor gasto com a reconstrução da propriedade. O agricultor conta que recebeu ajuda pontual de vizinhos e amigos de outras regiões, que doaram sementes e óleo diesel para que ele conseguisse retomar a produção. 

Para Moisés as políticas públicas não chegaram na velocidade necessária. “Faz dois anos e ainda tem coisa que nem saiu do papel”, critica. Mesmo diante da previsão de um possível novo episódio de El Niño em 2026, ele afirma que não há orientação efetiva ou planejamento junto aos produtores rurais. “A única coisa que a gente faz é torcer”, resume. 

Foto horizontal colorida mostra uma lavoura de arroz após a colheita, com marcas de pneus e pequenos canais de água atravessando o solo. Ao fundo, aparecem montanhas cobertas por vegetação sob um céu azul claro com poucas nuvens.
Dois anos depois das enchentes a lavoura de arroz ainda se recupera dos impactos

Mesmo com as perdas sucessivas e as dificuldades financeiras, desistir da agricultura ainda não parece uma possibilidade simples. Filho e neto de agricultores, Moisés cresceu dentro da lavoura e hoje administra sozinho a propriedade da família, conciliando o trabalho no campo com os desafios pessoais e familiares acumulados nos últimos anos. “Isso aqui é que nem cachaça”, brinca, ao tentar explicar a relação com a terra. 

Apesar dos riscos, o doutor em Agronomia e professor da UFSM, Alencar Zanon, destaca que os anos de El Niño costumam favorecer a produção agrícola gaúcha devido ao aumento das chuvas, especialmente para culturas como soja e milho. O problema ocorre quando essas precipitações se concentram em períodos curtos e intensos, como aconteceu em 2024. “Os últimos seis anos foram marcados por grandes secas e por uma grande enchente. Isso reduz significativamente a produtividade das lavouras e faz com que muitos produtores acumulem dívidas gigantescas”, afirma. 

Como o campo pode se adaptar às mudanças climáticas?

Diante da possibilidade de um novo episódio de El Niño em 2026, pesquisadores alertam que os agricultores precisam se preparar desde já para reduzir os impactos das chuvas extremas. Para o professor Jean Minella, o principal desafio é impedir que o excesso de água continue degradando o solo. Entre as principais recomendações, estão a necessidade de conservar o solo com práticas que reduzam a velocidade da água e aumentem a infiltração. 

O pesquisador defende o uso de plantas de cobertura, manutenção da vegetação entre as lavouras e adoção de terraços agrícolas, estruturas de terra construídas em terrenos inclinados que funcionam como degraus diminuindo a velocidade da água da chuva. “O agricultor precisa entender que o solo perdido não volta mais. É um dano permanente. Por isso, a prioridade deve ser evitar essa perda antes que ela aconteça”, afirma.

Na área da Fruticultura, o professor Gustavo Brunetto, reforça que produtores de regiões mais suscetíveis às enchentes precisam investir em estratégias preventivas. Como o uso de resíduos orgânicos e manejo adequado da adubação para fortalecer a estrutura do solo e aumentar sua resistência aos eventos climáticos extremos. Já na produção de grãos, o pesquisador Alencar Zanon chama atenção para o impacto do excesso de chuva no calendário agrícola. Segundo ele, o principal problema do El Niño para culturas como arroz, soja e milho é o atraso da semeadura. “Quanto mais tarde o produtor consegue plantar, menor é o potencial produtivo da lavoura”, destaca. 

Para minimizar os danos, Alencar recomenda que os produtores acompanhem constantemente as previsões climáticas e priorizem sistemas de plantio direto, sem revolvimento do solo. “Quando o produtor revolve o solo e vem muita água, ela leva tudo embora. O que foi construído durante décadas acaba se perdendo”, afirma. Em comum, os pesquisadores defendem que adaptação climática, conservação do solo e planejamento rural serão fundamentais para enfrentar os próximos anos no campo gaúcho. 

Texto: João Victor Souza, estudante de jornalismo e estagiário na Agência de Notícias
Fotos: Arquivo pessoal dos entrevistados e Jessica Mocellin, estudante de jornalismo e bolsista na Agência de Notícias
Arte gráfica: Daniel Michelon de Carli, designer 
Edição: João Ricardo Gazzaneo, jornalista

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