
Uma descoberta feita no interior do Maranhão está ajudando a reconstruir a história da dispersão dos grandes dinossauros herbívoros no início do Cretáceo. Pesquisadores brasileiros descreveram uma nova espécie de saurópode que viveu há cerca de 120 milhões de anos (Aptiano), em um momento em que América do Sul, África e Europa ainda mantinham conexões terrestres. O animal foi nomeado Dasosaurus tocantinensis e pertence ao grupo dos titanossauriformes, linhagem que inclui alguns dos maiores vertebrados terrestres de todos os tempos. O estudo liderado por Elver Mayer, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, com coautoria de cientistas de diversas universidades brasileiras, foi publicado no periódico internacional Journal of Systematic Palaeontology e contou com a participação do paleontólogo Leonardo Kerber, do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa) da UFSM, que integrou as escavações e a equipe responsável pela análise do material.

O nome Dasosaurus vem do grego: “dasos”, que significa floresta ou bosque, e “sauros”, que quer dizer réptil. A escolha faz referência ao local onde os fósseis foram encontrados, dentro da região conhecida como Amazônia Legal, que abrange grande parte das áreas de floresta amazônica no Brasil. O nome também dialoga com o próprio estado do Maranhão. Uma possível origem do nome Maranhão é a palavra portuguesa “emaranhado”, ligada à ideia de vegetação densa e entrelaçada. Assim, o nome do dinossauro conecta tanto a paisagem florestal da região quanto a identidade geográfica do local da descoberta. O nome da espécie, D. tocantinensis, faz referência ao rio Tocantins, um dos grandes rios da América do Sul. A região onde os fósseis foram encontrados, no estado do Maranhão, leva o nome desse rio, já que fica próxima às suas margens orientais
O aspecto mais relevante da nova espécie está em suas relações evolutivas. As análises filogenéticas indicam que Dasosaurus tocantinensis é o parente mais próximo conhecido de Garumbatitan morellensis, espécie descrita na Espanha. Essa proximidade anatômica é sustentada por características compartilhadas nas vértebras caudais e no fêmur, sugerindo que ambas as espécies formam um grupo exclusivo dentro de Somphospondyli. Modelagens biogeográficas realizadas pelos pesquisadores apontam que essa linhagem pode ter se originado na Europa e, posteriormente, dispersado para a América do Sul entre aproximadamente 140 e 120 milhões de anos atrás, possivelmente via norte da África. Esse cenário reforça a hipótese de que, no início do Cretáceo, ainda existiam rotas terrestres que permitiam a circulação de grandes dinossauros entre porções da Laurásia e de Gondwana, antes da abertura definitiva do Oceano Atlântico.
Os fósseis foram encontrados em 2021 no município de Davinópolis (MA), em um corte rochoso associado a obras de infraestrutura, durante atividades de monitoramento paleontológico. O material estava preservado em sedimentos atribuídos à porção inferior da Formação Itapecuru, datados do Aptiano. O conjunto fossilífero corresponde a um único indivíduo e inclui vértebras da cauda, costelas, ossos do antebraço, elementos da pelve, fêmur, tíbia, fíbula e ossos do pé. O fêmur preservado mede cerca de 1,5 metro de comprimento, o que indica um animal com aproximadamente 20 metros de comprimento total, situando-se próximo ao limite entre saurópodes de médio e grande porte. O espécime está depositado no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (CPHNAM), em São Luís, onde permanece acessível para estudos científicos.

Do ponto de vista anatômico, Dasosaurus tocantinensis apresenta uma combinação única de características. Entre elas, destacam-se três cristas alongadas nas vértebras caudais associadas à inserção muscular e uma saliência lateral bem desenvolvida no fêmur, além de proporções ósseas que indicam uma condição intermediária entre formas mais basais e titanossauros mais derivados. Essas características ajudam a esclarecer etapas importantes da evolução dos titanossauriformes e ampliam o conhecimento sobre a diversidade de saurópodes no norte do Brasil, região ainda pouco explorada em comparação com outras áreas do país.
O estudo também incluiu análises histológicas do tecido ósseo, permitindo avaliar padrões de crescimento e remodelação. Os resultados indicam uma combinação de traços observados em titanossauriformes mais primitivos e em titanossauros mais avançados, sugerindo que certas adaptações esqueléticas típicas do grupo já estavam em desenvolvimento no início do Cretáceo. Assim, além de revelar uma nova espécie, a descoberta contribui para compreender quando e como se consolidaram características fundamentais dos grandes dinossauros herbívoros que dominaram os ecossistemas terrestres do Cretáceo.
Texto: Cappa