Era madrugada de 30 de abril de 2024 quando a agricultora Jussane Turri, de 46 anos, percebeu que aquela não era uma chuva comum. O barulho da água, mais forte e contínuo do que o habitual, anunciava o que viria nas horas seguintes. O rio que passa próximo a sua propriedade, no Distrito de Arroio Grande, no interior de Santa Maria, começou a subir rapidamente. Entre a noite do dia 29 e a madrugada do dia 30, cerca de 600 milímetros de chuva caíram sobre a região, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Tamanha foi a força da água que destruiu a ponte que liga a propriedade de Jussane ao bairro Camobi, isolando completamente a família. Sem acesso por estrada, eles permaneceram por cinco dias ilhados. “Das cinco pontes aqui da estrada Arroio Lobato, quatro foram levadas. A gente ficou sem acesso. Não tinha ponte nem para sair para a direita, nem para a esquerda”, relembra a agricultora.
Todas as semanas, desde 2017, a família Turri sai, ainda de madrugada, da sua propriedade rumo ao campus sede da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). No carro, levam os produtos preparados na pequena agroindústria de Arroio Grande e vendidos na banca Boutique da Colônia, presença constante na PoliFeira do Agricultor, projeto de extensão da universidade, onde comercializam os alimentos produzidos na propriedade.
Com as enchentes de 2024, a rotina de trabalho da família foi interrompida. Segundo Jussane, no mês de maio daquele ano, a família conseguiu participar apenas de cinco feiras, quando o habitual seriam cerca de 20 ao longo do mês. O impacto financeiro foi imediato. “Dá para se dizer que deu R$ 80 mil a 100 mil [de prejuízo]”, afirma.
Durante o Natal de 2025, quando ainda tentava se recuperar das perdas financeiras do ano anterior, a família insistiu em se reunir para celebrar as festas de fim de ano. Da cozinha, o cheiro do frango assado já se espalhava pela casa quando a chuva começou. Naquela noite, caíram 130 milímetros, de acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “A gente estava com visitas aqui em casa e de repente se armou [a tempestade]. Veio aquela chuvarada do nada e entrou água na nossa casa de novo”, relata Jussane. Sem condições de circulação, familiares que passavam a data com eles precisaram deixar os carros e sair a pé pela propriedade, atravessando áreas de mata até encontrar um ponto onde pudessem seguir viagem.
Segundo nota enviada pela Prefeitura de Santa Maria à Agência de No´tícias da UFSM, há diversos projetos em andamento no Distrito de Arroio Grande, que incluem construção de pontes, contenção de margens de arroios, serviços de desassoreamento de arroios e sangas, além da manutenção de vias de solo exposto. Na Estrada de Arroio Lobato, foram construídas recentemente quatro passagens molhadas, com investimento aproximado de R$ 500 mil, por meio de recursos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e do município.
Os eventos climáticos extremos vividos pela família Turri, deixaram de ser casos isolados há um bom tempo. Conforme o professor do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural Gustavo Pinto, as mudanças climáticas vêm afetando diretamente a capacidade produtiva da agricultura familiar, tanto do ponto de vista material quanto social. “As secas têm representado uma ameaça periódica e atingem muito mais pessoas. Já a enchente assusta, porque é mais localizada, mas também causa perdas severas”, explica.
De acordo com o pesquisador, os eventos extremos comprometem não apenas a produção, mas toda a lógica de funcionamento dessas propriedades. “Há um efeito físico, que é a perda de produção, a impossibilidade de uso da terra. Mas também há um efeito mais subjetivo, que é uma desconfiança em relação ao futuro. O agricultor já começa um ciclo pensando que pode não dar certo”, contextualiza.
No Rio Grande do Sul, o histórico recente mostra a intensificação dos extremos climáticos. Entre os anos de 2020 e 2023, o estado enfrentou períodos prolongados de estiagem, associados ao fenômeno La Niña – caracterizado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico –, que costuma reduzir as chuvas no Sul do Brasil, provocando prejuízos significativos. Na sequência, entre junho de 2023 e junho de 2024, o cenário se inverteu, 929 eventos de precipitação extrema foram registrados, sendo cerca de 70% concentrados em 2024, o que também comprometeu o cultivo e a colheita.
Os meses de abril e maio de 2024 consolidaram esse quadro ao registrarem os maiores volumes de chuva da história do estado, com acumulados muito acima das médias em grande parte dos municípios. O resultado foi a pior catástrofe meteorológica já registrada no Rio Grande do Sul e uma das mais severas do país. De acordo com o Sistema de Levantamento de Perdas (Sisperdas) da Emater/Ascar, 206.604 propriedades rurais foram atingidas, direta ou indiretamente pela catástrofe.
Esse cenário de extremos sucessivos impacta de forma desigual os diferentes modelos de produção agrícola. No caso da agricultura familiar, os efeitos tendem a ser mais imediatos e profundos. “Quando a gente fala de cadeias curtas, como é o caso de quem vende direto na feira, qualquer interrupção já significa perda de renda”, explica Gustavo Pinto. “Se uma ponte cai, por exemplo, esse agricultor não consegue sair para vender. E, diferente de grandes produtores, ele não tem margem de tempo nem escala para absorver esse impacto”, complementa.
Crédito rural ignora nova realidade climática
A especialista Melissa Volpato Curi, advogada e pesquisadora da área socioambiental, com atuação no Ministério dos Povos Indígenas, afirma que o país estruturou, ao longo de décadas, um modelo de desenvolvimento rural voltado prioritariamente à produtividade e à expansão do agronegócio, deixando os pequenos produtores à margem das políticas de incentivo. “O crédito rural foi historicamente concebido para estimular a produção, e não para lidar com os riscos climáticos crescentes”, explica.
No Brasil, os principais instrumentos de apoio financeiro à agricultura familiar estão concentrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que reúne diferentes linhas de crédito voltadas ao custeio, investimento e comercialização da produção. Em 30 anos, a pecuária bovina e os campos de soja consumiram 47% dos recursos do programa, o equivalente a R$ 240,5 bilhões. O levantamento foi feito pelo site O Joio e o Trigo, a partir dos microdados disponíveis no site do Banco Central (Bacen) em fevereiro de 2026. Já a agricultura familiar recebeu, no mesmo período, o equivalente, a 13,9%. Com taxas de juros subsidiadas que variam entre 0,5% e 8% ao ano, o programa busca facilitar o acesso de pequenos produtores a recursos para manutenção e ampliação das atividades.
Porém, Jussane relata que, após os prejuízos causados pelas enchentes, tentou acessar linhas de financiamento, mas não conseguiu avançar por conta das exigências burocráticas. “Se tu tá com o nome negativado, tu não consegue. Só que, se tu tá pedindo crédito, é porque tu tá precisando”, conta. Sem o apoio do governo, a agricultora precisou recorrer a empréstimos pessoais para poder quitar suas dívidas.
Quem vai ficar no campo?
Visitamos a propriedade de Jussane numa atarefada tarde de 6 de abril. Nós a encontramos em um contêiner usado para limpeza e embalo dos ovos produzidos no sistema de galinhas livres de gaiolas. Enquanto trabalhava, a agricultora explicou o processo: após a coleta, os ovos são limpos manualmente, com um pano, para retirar resíduos de sujeira, e depois passam pelo ovoscópio – equipamento que, por meio de uma luz amarelada intensa, permite identificar se há alterações, como ovos impróprios para consumo. Depois de nos mostrar a propriedade, cercada por morros com grandes árvores, a agricultora nos conduziu até a frente de um dos galpões da família, onde, entre uma tarefa e outra, começou a contar sua história.
Nascida em Rodeio Bonito, no noroeste gaúcho, Jussane é filha de pequenos produtores rurais e cresceu acompanhando de perto a rotina da produção familiar no campo. Anos depois, já em Santa Maria, para onde se mudou ainda jovem, construiu sua própria trajetória ao lado do marido, Júlio Turri. Juntos, os dois adquiriram a propriedade onde vivem até hoje. “Aqui a gente começou com um tambo de leite. Como lá os meus pais já tinham essa atividade, nós quisemos manter o que eles faziam”, lembra.
Aos poucos, a produção foi se estruturando e ganhando escala. “A gente chegou a tirar leite de 105 vacas aqui na propriedade. Foi uma época bem promissora”, conta. Com o passar dos anos, a família diversificou as atividades e investiu na agroindústria e na produção de ovos, agregando valor à produção. O leite e outros insumos começaram a ser transformados em queijos, iogurtes e uma variedade de alimentos vendidos diretamente ao consumidor.
Assim como seguiu os passos dos pais na agricultura, Jussane imaginava que o filho daria continuidade ao trabalho da família. Entretanto, essa não será a realidade. “Eu não vou ter sucessão aqui”, relata, ao revelar que o filho não pretende permanecer no campo.
Segundo o professor da UFSM, José Marcos Froehlich, a saída de jovens da agricultura familiar continua significativa e já compromete a produção social dessas propriedades. “Não é mais um problema somente de renda, é um fenômeno multidimensional”, afirma.
De acordo com o pesquisador, fatores como a dificuldade de acesso a políticas públicas, a precariedade da infraestrutura, como estradas e mobilidade influenciam diretamente essa decisão. Para compreender melhor esse cenário, Froehlich desenvolve um estudo em parceria com a Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag-RS) e a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que busca investigar como jovens rurais do Rio Grande do Sul estão lidando com essas transformações. A pesquisa, inicialmente focada na região central do estado, pretende identificar se as políticas existentes atendem às demandas dessa população ou se há falhas no acesso, além de analisar de que forma as mudanças climáticas têm impactado a decisão de permanecer ou ficar no campo.
No dia seguinte à visita da reportagem à propriedade de Jussane, em 7 de abril, uma terça-feira, a agricultora ficou impossibilitada de participar da PoliFeira do Agricultor, realizada na Avenida Roraima, após o alagamento da ponte molhada que dá acesso à estrada. Naquele dia, Santa Maria registrou 88 milímetros de chuva provocados por um ciclone extratropical, segundo dados do Inmet.
Texto: João Victor Souza, estudante de jornalismo e estagiário da Agência de Notícias
Fotos: Jessica Mocelin, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Arte Gráfica: Daniel Michelon De Carli, designer
Edição: Maurício Dias, jornalista