UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Thu, 30 Apr 2026 18:01:46 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2026/04/15/as-marcas-dos-maus-tratos-em-animais-domesticos Wed, 15 Apr 2026 20:32:16 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=72494 Montagem horizontal e colorida composta por três fotografias lado a lado, separadas por cortes diagonais. À esquerda, em preto e branco, um cachorro de porte médio aparece de frente, com a boca aberta e expressão amigável, em um ambiente externo. No centro, em cores, um gato preto e branco está deitado sobre cobertores, com as patas enfaixadas em rosa e um tubo conectado, indicando atendimento veterinário; ele olha diretamente para a câmera com expressão alerta. À direita, também em preto e branco, um cachorro de pelagem clara está atrás de grades verticais, com a cabeça levemente baixa, em um espaço que sugere confinamento. A montagem cria contraste entre cuidado, abandono e restrição
Orelha, Meia-Noite e Maria Sol: retratos da violência contra animais

Como de costume, a gata de rua Maria buscava comida no bairro onde vivia, em Uruguaiana, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Em uma dessas incursões, encontrou um prato de frango sobre a pia de uma cozinha. Pulou a janela e foi direto ao alimento. O susto veio logo depois. A moradora percebeu a invasão do animal e, sem hesitar, pegou um pedaço de madeira e passou a golpeá-lo. Maria teve múltiplas fraturas e saiu desorientada.

Pouco tempo depois, a gatinha foi encontrada por uma vizinha, que a levou a uma clínica veterinária da cidade. Lá, os especialistas identificaram as lesões no corpo de Maria e, quase que de prontidão, fizeram um boletim de ocorrência contra a agressora. O processo tardou e não teve desfecho. Assim como em muitos casos, a vizinha que salvou a felina não tinha condições de adotá-la. Por isso, decidiu deixar a gata na clínica.

Os veterinários avaliaram que seria necessário amputar uma das patas. “Foi o membro direito, o bracinho direito”, lembra Alice de Figueiredo Rocha, auxiliar veterinária da clínica e estudante de Medicina Veterinária na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), que socorreu a felina em 2024. Havia a possibilidade de reconstrução por cirurgia ortopédica, mas o custo inviabilizou o procedimento. “Naquela época, custaria quase R$ 5 mil, e a pessoa não tinha condições de arcar”, explica. A decisão também levou em conta o sofrimento do animal. “Para não deixá-la com dor, porque as fraturas já estavam expostas, a equipe decidiu pela amputação”, conta.

Sem tutor ou respaldo, Maria estava mais uma vez sozinha. Mas não por muito tempo. Alice, que acompanhou a recuperação da gata, resolveu adotá-la. “Levei ela para minha casa e fiquei com ela”, lembra. Apesar de ter sido acolhida, a recuperação e a adaptação da felina foram difíceis. “Quando ela chegou lá em casa, ela não tinha aquele bracinho. Mesmo assim, tentava fugir”, comenta. 

Segundo Alice, Maria levou cerca de três meses para se sentir em casa. “Foi uma coisa bem delicada, porque ela ficou muito traumatizada, então ela se escondia dependendo de quem chegava”, recorda. “Ela ficou muito arisca naquele tempo”. Hoje, tutora e pet não estão mais juntas. Em 2025, quando já morava em Santa Maria, a gata morreu. “Ela teve um outro trauma, mas foi um acidente doméstico e aí eu perdi ela no ano passado”, conta.

A gata Maria foi resgatada após ter sofrido maus-tratos em Uruguaiana (RS)
Foto horizontal e colorida de um cachorro de porte médio, com pelagem marrom clara e branca, está dentro de um espaço cercado por grades verticais azuis. Ele aparece em pé, com o corpo levemente inclinado para frente e a cabeça baixa, olhando em direção ao chão. O ambiente parece um canil ou área externa cimentada, com paredes claras ao fundo. Há uma abertura escura à direita que pode ser uma porta ou abrigo. Na parte superior esquerda da imagem, vê-se um objeto vermelho fixado na parede, possivelmente um extintor ou recipiente. A cena transmite sensação de confinamento.
A caramelo Maria Sol foi abandonada na UFSM em 2018, com sinais de abuso sexual. Na foto acima, ela estava abrigada no antigo Centro de Eventos da Universidade (Foto: Fabiana Stecca/Projeto Zelo)

A outra Maria de Alice

Em 2018, antes de se mudar para a Uruguaiana na intenção de cursar Medicina Veterinária, Alice de Figueiredo Rocha se matriculou em Zootecnia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na metade de 2018, ingressou  na Casa do Estudante, onde, pouco tempo depois, teve que aprender a conviver com a chegada da maior crise sanitária do século. “Eu cursei por sete semestres e fiquei na pandemia”, conta. Apesar de não ter finalizado a graduação na época, a aptidão no contato com animais fez com que a estudante se unisse ao projeto Zelo, iniciativa extensionista da UFSM que busca atender aos animais presentes no campus sede, em Santa Maria. “Eu entrei no Zelo como voluntária já em 2018, tudo por causa da [Maria] Sol”, afirma. 

Era madrugada de agosto de 2018, época de frio intenso no Rio Grande do Sul, quando um carro não identificado transitava pelo campus sede da UFSM. O veículo parou nos fundos do Restaurante Universitário I e abandonou Maria Sol, uma vira-lata caramelo de porte médio para grande. “Ela foi jogada de dentro de um carro”, recorda Alice.

Depois de um tempo, quando tomou conhecimento sobre o caso, Alice se aproximou da história de Sol, e do projeto Zelo, que havia resgatado a vira-lata. Foi então que a estudante descobriu que a caramelo havia sido abandonada com sinais de abuso sexual, em função dos “sinais que ela apresentava”. Depois de uma cirurgia de emergência, Sol passou a viver livre no campus. “Só que dessa situação, ela passou a ter transtorno obsessivo compulsivo”, afirma Alice sobre o estado de saúde da vira-lata. “Ela atacava a si mesma e atacava, especialmente, homens na universidade”, rememora.

Alice, ao lado de voluntários e bolsistas do Zelo na época, montaram um pequeno lar para a cachorrinha atrás da Casa do Estudante. “A gente construiu um cercado, colocamos casinha, e a Sol ficava presa naquele cercado”, relembra. Com o lar provisório, os cuidados com a vira-lata viraram rotina. “Tirávamos ela para passear duas vezes por dia”, conta. 

Depois de um tempo, o cercado foi desmanchado para dar lugar a uma nova obra da Universidade. Com isso, Sol voltou a ficar solta pela UFSM. Isso, segundo Alice, gerou uma nova confusão. “Por causa dos ataques, no caso”. O grupo, então, conseguiu abrigar Sol em uma pequena ala no antigo Centro de Eventos da UFSM, mas por pouco tempo. 

Nessa mesma época, o transtorno decorrente do trauma se agravou. “Tinha piorado muito porque não conseguimos tratar ela com medicamentos que não fossem homeopáticos”, pondera. Conforme Alice, para seguir com um tratamento adequado, seria necessário que a vira-lata tivesse acompanhamento integral e, como ela era estudante na época, não pode assumir essa responsabilidade, nem os outros voluntários que acompanhavam o caso. “A condição era que ela fosse adotada e a gente nunca conseguiu adoção”,lamenta.

Certa vez, Sol entrou em uma grave crise devido ao transtorno. “Ela rodopiava e se atacava”. Foi levada ao Hospital Veterinário Universitário (HVU), onde ficou sedada por três dias. Naquele momento, os veterinários da instituição entenderam que Sol não poderia voltar a circular pela Universidade, tanto pela sua segurança, quanto pela de quem passa pelo campus. Em fevereiro de 2020, Maria Sol foi submetida à eutanásia.

Depois do Sol, a Meia-Noite

Com a ausência de suas Marias, a vida de Alice abriu espaço para outra visitante. Certa noite no início de 2025, uma felina circulava pelo centro de Santa Maria, era a Meia-Noite, uma pequena gata de olhos amarelos e pelos brancos e pretos. Na região, tinha até outro nome. Alguns moradores da região a chamavam de Furiosa, referindo-se ao quão arisca é. 

Era habitualmente vista perto de uma farmácia, a poucos metros do Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo, localizado na avenida Presidente Vargas. Por ser uma avenida, o local possui intensa circulação de pessoas, carros e ônibus. Não demorou muito até que Meia-Noite viesse a sentir os efeitos dessa intensa vida urbana. Segundo boatos dos funcionários da farmácia, a gata foi atropelada e, no acidente, teve uma das patas arrancadas.

Assustada, Meia-Noite fugiu e não se deixou ser socorrida. Quase um ano depois, em março de 2026, Alice conheceu o curioso caso da gata. “Uma amiga me mandou mensagem e um vídeo da gata e me perguntou se eu ajudava ela a resgatar", conta. Moradora nas redondezas onde a Meia-Noite é comumente vista, Alice não hesitou em dar apoio no socorro. “Levamos três noites para pegar ela”, relembra.

Quando socorrida, Alice soube da história da felina. Apavorou-se ainda mais quando descobriu sobre a deficiência de Meia-Noite e o acidente que a deixou daquela forma. “Naquele tempo todo, a pata dela não sarou”. A gata foi prontamente levada a uma clínica particular da cidade, onde ficou sedada devido a sua brabeza. Não querendo que Meia-Noite passasse seus dias desacordada, Alice optou por transferi-la a um lugar mais adequado no tratamento de felinos agressivos. “Ela passou por três clínicas privadas antes de chegar na clínica de hoje”, diz.

Na época, uma outra surpresa: Meia-Noite estava gestante. Por conta disso, precisou passar por uma cesariana e atrasar o tratamento ideal para sua pata machucada. “Eram seis filhotes. A gente perdeu cinco”, ressalta Alice. Quando os filhotes nasceram, foram nomeados a caráter: “Os nomes eram Lua Nova, Eclipse, Amanhecer, Meio-Dia, Madrugada e, o único vivo foi o Crepúsculo”.

Hoje, Meia-Noite espera a cirurgia de amputação da pata e o tratamento adequado para a ferida. Sob os cuidados de Alice, a gata amamenta Crepúsculo e outros cinco filhotes adotivos. “Ela vai amputar a perna assim que desmamar as crianças”, afirma.

Foto horizontal e colorida de um gato preto e branco está deitado sobre cobertores macios, um azul e outro com estampa clara. O gato tem expressão alerta, com olhos abertos e voltados para a câmera. Suas patas dianteiras e traseiras estão enfaixadas com bandagens rosa, e há um tubo transparente conectado a uma das patas, indicando atendimento veterinário. O ambiente sugere uma clínica ou local de cuidado, com tecidos organizados ao redor do animal. A imagem destaca o estado de recuperação e fragilidade do gato.
A gata Meia-Noite, um dia após ser resgatada em março deste ano (Foto: Alice Figueiredo)

Uma violência crescente

Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que casos como o de Maria, Sol e Meia-Noite não são singulares. Segundo o órgão, o Brasil registrou, só em 2025, 4.919 processos por maus-tratos a animais. Esse número representa um aumento de 21% em relação a 2024, quando 4.057 processos foram registrados. Em paralelo à estatística, casos recentes ganharam a atenção da imprensa nacional. Também no início deste ano, o cão comunitário Orelha foi alvo de um ataque violento, que provocou a morte do animal, na Praia Brava, ao norte de Florianópolis, em Santa Catarina. 

O caso gerou forte comoção pública. Moradores da Praia Brava organizaram protestos e vigílias em memória do cachorro, enquanto ativistas da causa animal ampliaram a mobilização. Nas redes sociais, o caso também ganhou repercussão nacional, com milhares de compartilhamentos e pedidos por justiça. A comoção se transformou em pressão direta sobre as autoridades, com cobranças por investigação rigorosa e punição dos responsáveis.

Conforme Nina Trícia Disconzi Rodrigues Pigato, docente da UFSM, doutora em Direito pela USP e especialista em Direito Animal, sempre houve muito sofrimento animal, mas ele ficava invisível ou era tratado como normal. “As redes sociais, os protetores e os grupos ajudaram a dar voz a quem antes não denunciava por medo ou desconhecimento”, constata. 

A entrada em vigor do Decreto nº 12.877/2026, anunciado em 12 de março de 2026 e rapidamente apelidado de “Decreto Orelha”, marcou uma inflexão na forma como o poder público brasileiro responde aos crimes contra a fauna. A norma atualizou o regime de infrações ambientais, elevando significativamente o valor das multas e detalhando condutas enquadradas como maus-tratos, além de fortalecer a atuação de órgãos como o Ibama na aplicação imediata de penalidades. 

Nina Disconzi recorda de outro caso recente: “em março de 2026, um caso brutal na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, serviu como o primeiro teste real para as novas leis de proteção animal”. Ela conta que um grupo de homens agrediu uma capivara com barras de ferro e pedaços de madeira com pregos. O animal sofreu traumatismo craniano e lesão ocular grave. “Este foi o primeiro caso em que o Decreto Orelha foi aplicado pelo Ibama. Cada agressor foi multado em R$ 20 mil, totalizando R$ 160 mil em multas”, conta a docente. Os envolvidos tiveram a prisão em flagrante convertida em prisão preventiva. “O Ministério Público denunciou os agressores não apenas por maus-tratos, mas também por caça ilegal, já que a intenção declarada era o abate para consumo”, complementa.

Embora episódios como o de Orelha chamem atenção pela violência explícita, outras formas de morte de animais seguem naturalizadas. Em rodovias do sul do país, o problema aparece de forma silenciosa e contínua. Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizado em um trecho de cerca de 100 quilômetros da BR-293, no pampa gaúcho, aponta que o atropelamento de fauna está entre os principais impactos humanos sobre animais silvestres naquela região. A pesquisa ainda aborda que muitas dessas ocorrências não entram em estatísticas oficiais ou sequer são registradas, o que amplia a subnotificação e dificulta dimensionar a real escala da violência.

Mesmo quando há legislação que prevê a obrigação de prestar socorro ou acionar autoridades, a aplicação é rara. A ausência de fiscalização contínua e de estruturas como passagens de fauna, cercamentos ou redutores de velocidade contribui para que o problema persista. Na prática, trata-se de uma violência dispersa, cotidiana e pouco visível, mas não menos letal.

Para a professora Nina, esse tipo de situação expõe um limite estrutural do próprio Direito. “O Direito ainda lida mal com violências difusas. O processo chamado estrutural tem sido utilizado para resolver alguns problemas complexos como resgate de animais em enchentes, mas ainda é incipiente em nosso país. Nosso sistema é essencialmente individualista. Ele precisa de autor identificado, de dano direto, de vítima com titularidade clara”, afirma. Segundo a pesquisadora, atropelamentos de animais acabam ficando nesse “limbo jurídico”, em que, embora possam ser enquadrados como crime ambiental, a fiscalização é pequena e a responsabilização, rara. “Às vezes se enquadra como crime ambiental, no artigo 32 da Lei 9.605/98, mas a fiscalização é pequena, embora esteja aumentando”, aponta.

A docente também diz que a legislação brasileira ainda apresenta uma lacuna importante quando se trata de animais que sobrevivem a maus-tratos. De acordo com Nina, não existe uma previsão legal geral e clara que assegure tratamento ou reabilitação às vítimas. “A legislação brasileira foca principalmente na punição do agressor, mas não garante tratamento ou reabilitação para o animal”, contextualiza. 

Em alguns casos, o Judiciário tem determinado que o agressor arque com os custos ou que o animal seja encaminhado a um santuário, mas essas decisões ainda são exceção. Para a docente, seria fundamental a criação de uma lei federal que obrigue o Estado a oferecer reabilitação veterinária e acompanhamento comportamental sempre que possível.

Em relação ao papel do Estado, Nina Disconzi destaca que não há, na legislação federal, uma obrigação expressa de garantir tratamento e reabilitação para animais vítimas de violência. O que existe, conforme a professora, são iniciativas pontuais em alguns municípios e estados, leis estaduais e municipais, geralmente resultado da pressão de protetores independentes, advogados animalistas ou do Ministério Público. Ainda assim, a docente ressalta que a Constituição Federal, no artigo 225, impõe ao poder público o dever de proteger a fauna e vedar práticas cruéis. “Uma interpretação sistemática permite sustentar que a reabilitação do animal vítima de maus-tratos é uma forma de dar efetividade a esse dever”, reforça.

Ao analisar a atuação dos municípios, Nina descreve um cenário desigual. Embora existam exemplos positivos, com políticas estruturadas, como castração gratuita, centros de reabilitação e canais de denúncia, a maior parte das cidades brasileiras ainda carece de iniciativas consistentes. “A maioria dos municípios brasileiros simplesmente não tem política pública estruturante para proteção animal”. Entre as principais lacunas, ela cita a falta de fiscalização, educação nas escolas e canais efetivos de denúncia. Além disso, quando políticas existem, tendem a ser reativas, focadas no recolhimento de animais, sem ações preventivas ou educativas. 

Em um contexto mais amplo, na avaliação de Nina, o Brasil tem avançado no enfrentamento à violência contra animais, mas ainda mantém traços de permissividade. Ela aponta que práticas como rodeios, vaquejadas e exploração industrial ainda são amplamente naturalizadas. 

Para a docente, o Direito, por si só, não é capaz de transformar essa realidade enquanto a sociedade continuar a enxergar os animais como objetos ou mercadorias. Assim, apesar dos avanços legislativos e do aumento da visibilidade do tema, a mudança estrutural ainda depende de uma transformação cultural mais profunda. “A verdadeira transformação exige educação”, frisa Nina.

Foto horizontal e colorida de um cachorro de porte médio, com pelagem marrom escura e patas mais claras, em pé sobre uma calçada. Ele está posicionado de frente para a câmera, com a boca aberta e a língua para fora, transmitindo uma expressão amigável. À esquerda da imagem, há uma casinha de madeira, parcialmente visível, que parece ser o abrigo do animal. O chão é de concreto, com uma rua ao fundo. A cauda do cachorro está levemente levantada, sugerindo um estado de alerta ou interação.
Orelha foi encontrado gravemente ferido em área de mata após dias de desaparecimento na Praia Brava, em Florianópolis (Foto: Google Imagens)

Outro problema antigo, mas que anda junto

Além da violência, outro problema que chama a atenção de cuidadores como Alice é o abandono, que muitas vezes acompanha os casos de maus-tratos. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que o Brasil tem cerca de 30 milhões de animais vivendo nas ruas. Dados mais recentes reforçam esse cenário: o relatório parcial de 2025 da iniciativa Medicina de Abrigos Brasil (Infodados de Abrigos de Animais) aponta um aumento expressivo no número de animais acolhidos. Entre janeiro e junho, as entradas de cães e gatos cresceram 91,7% em relação ao semestre anterior, somando 5.325 animais, sendo 2.929 cães e 2.396 gatos.

Ao olhar para o Rio Grande do Sul, o abandono aparece de forma difusa, mas persistente. Durante as enchentes que atingiram o estado em 2024, cerca de 20 mil cães e gatos foram resgatados e distribuídos em quase 500 abrigos temporários. Meses depois, milhares ainda aguardavam adoção, evidenciando um problema que vai além do resgate emergencial. “A gente vê que não é só resgatar. Tem muito animal que fica sem ter para onde ir depois”, enfatiza Alice. “Às vezes a pessoa ajuda no momento, mas não consegue ficar com o animal, e aí ele acaba voltando para a mesma situação”, alerta. 

Na UFSM, a luta contra o abandono animal é emplacada pelo projeto Zelo. Segundo a coordenadora da iniciativa, Fabiana Stecca, a Universidade acaba se tornando um local propício para o abandono devido às diversas formas de acesso ao campus. “Temos vários pontos de acesso e áreas rurais. Apesar de termos um sistema de vigilância, os animais que são abandonados próximos a instituição, eles acabam chegando ao campus”, conta.

Em 2025, o projeto registrou e denunciou 35 abandonos no campus sede da UFSM. Apesar disso, Fabiana afirma que muitos casos “não dão em nada”. Bem como a história da vira-lata Maria Sol, outras pessoas que abandonaram animais na UFSM tiveram seus nomes identificados e foram denunciados. “Já comprovamos abandono proposital. Mas, infelizmente, em alguns casos não temos como comprovar”, explica.

Para Fabiana, um dos principais desafios ainda é a conscientização e sensibilização. “Nas publicações, pessoas dizem ‘aí, coitadinho, pobrezinho’, mas no final não dão um apoio”, desabafa. “Infelizmente, em Santa Maria, temos vários locais que são ‘preferidos para o abandono’, como o campus”.  Tendo isso em mente, a professora acredita que deveria haver uma mobilização do poder público mais intensa para lidar com essa realidade. “Isso é um trabalho que não deveria ser só da Universidade. Isso é um problema estrutural”, defende. 

A coordenadora ainda destaca que a própria comunidade universitária infelizmente colabora para a estatística do abandono nas dependências da instituição. “Todo final de semestre, moradores da Casa do Estudante vão embora e abandonam os animais que cuidavam”, alerta. Fabiana afirma que o projeto tem elaborado iniciativas que buscam uma sensibilização popular. Nesse contexto difícil de se lidar, assim como Nina Disconzi, Fabiana reforça: “precisamos trabalhar a consciência”.

Em 2026, Alice Figueiredo de Rocha deu mais um passo nessa trajetória: ingressou no curso de Medicina Veterinária na UFSM. Em 2025, realizou o Vestibular da UFSM onde atingiu a nota para seguir com o sonho iniciado ainda em 2018, quando ingressou na Zootecnia. Depois de anos atuando em resgates, clínicas e projetos voluntários, a escolha formaliza um caminho que, na prática, já vinha sendo trilhado há muito tempo. E, além disso tudo, ela continua a contribuir no projeto Zelo. “Os filhos adotivos da Meia-Noite são gatinhos que o projeto precisou dar suporte”, conta.

Enquanto vive a rotina de cuidados que Meia-Noite e os filhotes precisam, Alice, que trabalha como Pet Sitter (Babá de Animais) mantém o coração aberto caso mais visitantes precisem de espaço. É nesse gesto repetido que algumas vidas ainda encontram a chance de continuar.

Conheça os serviços de Alice pelo Instagram @amorpet.alice.

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Texto e montagem com fotos em destaque: Pedro Moro, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias

Fotos: Alice Figueiredo da Rocha, Fabiana Stecca e Google Imagens

Edição: Maurício Dias, jornalista

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