UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Wed, 01 Apr 2026 22:21:40 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/arco-entrevista-gava-ricos-e-malandros Wed, 03 Nov 2021 11:25:29 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8730 Conforme dados apresentados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a evolução da proporção de pobres no Brasil era, no final de 2020, de 9,41%. Atingiu a marca de 16,09% no início de 2021 e chegou ao mês de julho na marca de 12,98%. Muito se fala  da pobreza e seus desdobramentos sociais, como a fome, por exemplo. Já em relação aos ricos, a história é outra: pouco se fala. Em pesquisa publicada em agosto de 2020 pela FGV, que leva em consideração o total populacional através dos dados de rendimentos declarados no Imposto de Renda Pessoa Física, a capital do Brasil que possui a maior renda por habitante é Florianópolis, com R$ 3.998 mensais, seguida de Porto Alegre e Vitória.  

Em entrevista à Revista Arco, Rodrigo Gava, doutor em Ciência Política pelo Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), fala de seu livro, ‘Ricos & Malandros - a riqueza na estrutura da desigualdade brasileira: como os ricos atuam na sociedade’. A obra traz uma reflexão sobre a atuação dos ricos em nossa sociedade. O exemplar pode ser adquirido no site da Editora UFSM e está disponível nos formatos de livro impresso e ebook.

ARCO - Ao ler a obra ‘Ricos & Malandros - A riqueza na estrutura da desigualdade brasileira: como os ricos atuam na sociedade’, é possível ver que ela é baseada em sua tese de doutorado. Em qual momento e por qual motivo você decidiu transformá-la em um livro?

Um doutoramento consome quatro anos das nossas vidas e a expectativa, enquanto escrever, rezar e estudar faz parte da nossa rotina diária, é ao final ver a tese pronta e que se conseguiu dar uma mínima contribuição à sociedade e, no meu caso, ao pensamento social. Ocorre que uma tese não costuma chegar ao grande público: a liturgia do texto acadêmico, o espaço de exposição e a distância do cotidiano costumam inviabilizar que mais pessoas leiam esses trabalhos. E, assim, vi a necessidade – e tive a vontade, como a vanglória há de justificar – de transformar a tese em livro, o que exigiu tempo e paciência para esta necessária adaptação. 

ARCO - Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao transformar sua tese em um livro? 

Todo autor enfrenta os desafios inerentes à indústria do livro. São os vícios e os obstáculos que o negócio impõe, sob suas premissas de lucro e consumo.  Sem entrar no mérito do “gosto” e da “moda” em vigência (dicas de vida, mandingas para ficar rico, táticas para o sucesso), costuma-se ver a qualidade do livro (seja uma obra literária ou científica) submetida aos interesses do setor – é comum ser visto e prestigiado o nome da capa bem antes do conteúdo, motivo pelo qual as editoras garantem desproporcional espaço para gente midiática (ou indicada por gente midiática). Afora isso, vemos um protagonismo da prática que o mercado chama de “coparticipação”, na qual os autores pagam para publicar seus livros, o que acaba restringindo ainda mais o espaço para a grande maioria que não pode pagar ou não se dispõe a isso. E, como o único critério passa a ser o monetário, o curioso disso é que o próprio leitor acaba refém dessa dinâmica: quilos de livros publicados sem qualidade e que entopem as prateleiras das livrarias ou os canais dos sites de venda, dificultando a seleção. Há exceções nisso tudo? Sim, como aquelas relacionadas ao garimpo feito por pequenas editoras – e como todo garimpo, a sorte é elemento crucial. 

ARCO - Seu doutorado foi no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF) no estado do Rio de Janeiro (RJ). O que levou você a publicar pela Editora UFSM?  

Retomo ao final da resposta anterior: albergando-me nas exceções, neste caso, nas editoras das universidades públicas. Lamentavelmente sucateadas sob orçamentos que, desde 2015, viraram pó, essas editoras herculeamente continuam a fazer o seu trabalho, editando trabalhos muito importantes para as ciências brasileiras e visando suprir o abandono das editoras privadas que não têm interesse em publicar dissertações e teses, já que, em regra, parecem despreocupadas em dispor de um robusto catálogo acadêmico, ao contrário do que se faz lá fora.  E mesmo com todas as adversidades políticas e financeiras, a Editora da UFSM tem conseguido publicar com frequência, continuidade e excelência técnica, dando-me agora esta oportunidade. Ainda, o fato de o livro ser publicado por uma editora como a da UFSM não é só uma questão de orgulho para mim, na medida em que também serve ao leitor como uma espécie de chancela, um selo de controle de independência e qualidade – uma vez que o livro não está ali por mera indicação ou patrocínio pessoal – cujo filtro não é apenas interessar ao público, mas estar ali sob interesse público. 

ARCO - Em relação ao título da obra, o termo ‘Malandros’ chama a atenção. Qual a principal ideia ao utilizar esse termo associado aos ricos?  

A ideia deste título veio no momento da publicação e tem uma origem de forma e outra de fundo.  Primeiro, ela surge quando lembrei do meu outro livro, “Ricos e Mendazes”, fruto da minha dissertação de mestrado e publicado pela Editora Almedina (Portugal). Ainda que em áreas distintas, a questão da riqueza é central – se lá eu tinha a hipocrisia dos países ricos nas relações de comércio internacional, aqui eu tenho a malandragem dos endinheirados nas relações da vida nacional.  Depois, embora a temática do malandro em si não seja objeto deste estudo, é inegável que o seu perfil ilustre a nossa gramática moral e, assim, sirva de pano de fundo para todo o livro, do início ao fim, como paradigma da atuação dos ricos. 

"A dialética da malandragem, enraizada no hibridismo sociocultural de uma certa brasilidade, compunha-se por traços marginais que beiravam o ilegal e uma presença lúdica que tocava o imoral."

A sua imagem de outrora firmava-se na ginga maliciosa do viver entre as lacunas e as contextualizações das regras e das leis, com uma vida solitária de anti-herói, mas também como resistência negra à exploração de um país que se modernizava.  

Agora, se na dinâmica social faz-se o epitáfio desta malandragem, outra se pronuncia, abdicando do ethos histórico, mas assumindo a parte mais indesejada da sua construção normativa e que vai muito além do “jeitinho”.  

E assim sobressai o malandro embranquecido “de gravata e capital” e que “nunca se dá mal”, transformando-se em senhor da ordem vigente, intrincando inescrupulosamente as esferas política e econômica e se encastelando no lusco-fusco do direito, e que hoje samba em outro ritmo sobre o corpo do povo brasileiro.  

ARCO - Logo no início, na página 19, aparece a expressão ‘Se os tubarões fossem homens’. Poderia falar sobre ela e como está relacionada com o seu objetivo com a obra? 

Bertolt Brecht, um dos gênios alemães, escreveu esta pequena parábola “Se os tubarões fossem homens” para ilustrar a nossa história, uma história marcada a ferro e fogo pelos processos de dominação, exploração, desigualdade, autoritarismo e alienação, permeados por gestos de crueldade, ganância, hipocrisia... tão longe de um mundo próximo do ideal e de valores como a cooperação, a solidariedade, a igualdade, a justiça, a liberdade, a emancipação do povo e o engrandecimento do homem.  

Como na alegoria de Brecht – cuja representação traz ideologia, gaiolas, guerras, opressão, pão e circo como metáforas da sociedade humanas –, a civilização que criamos parece não ter muito o que ensinar ao reino animal, só a aprender: sim, os nossos tubarões são bastante piores que os tubarões dos outros mares.  

É uma bela crítica à organização social e às relações humanas, tão simplesmente bela que recentemente mereceu uma edição destinada ao público infantil – sim, é muito importante que desde cedo os nossos peixinhos saibam que a civilização da Terra pode ser outra. Afinal, não são peixinhos, mas são homens e mulheres capazes de transformar o mundo. 

ARCO - Com a obra ‘Ricos & Malandros - A riqueza na estrutura da desigualdade brasileira: como os ricos atuam na sociedade’, você objetiva estudar a questão da desigualdade, mas pelo olhar dos ricos. Por que você decidiu focar neste grupo?  

A desigualdade é estudada há séculos. A questão é que, invariavelmente, explora-se apenas um lado do problema.  Enquanto a pobreza se deixa auscultar, desnudar, dissecar, inventariar, saborear; enquanto são inúmeros os estudos que promovem verdadeiras autópsias sociológicas sobre os pobres e miseráveis, sobre o habitus da ralé, sobre as famílias no submundo do trabalho, sobre os jovens em situação de marginalidade, sobre as comunidades de sem-teto ou erguidas sobre palafitas e barracos de pau a pique, com a riqueza isso não ocorre.  

Afinal, o modo e o campo de atuação dos ricos permanecem sutilmente ignorados, como se fossem abstrações irrelevantes, como se sua existência estivesse desconectada da estrutura de poder e das disputas na repartição da renda.  

"A ainda pobre existência de dados e informações permitem que os ricos, absolutamente fosforescentes pelo consumo, jactem-se pela sua invisibilidade no controle dos mecanismos de manutenção e de concentração da riqueza."

Um lado para o qual invariavelmente se demonstram atitudes de reverência e êxtase e de receio e intocabilidade,  é a ideia de “totem e tabu”, em alusão freudiana à antropologia social, sobre o qual não há o devido reconhecimento dos efeitos danosos que exercem no tecido social brasileiro, sublimando-o. 

Por isso, constitui um desafio para as Ciências Sociais (como meio) e para a sociedade (como fim) a superação dos problemas no estudo dos ricos e, principalmente, a superação do equivocado entendimento de que a pobreza é um problema e que esta riqueza, em seu nível e forma, não o é. 

ARCO - Ainda sobre a temática do livro. A seu ver, enquanto pesquisador, qual é a importância de se estudar esse tema? Como sua obra contribui para o debate sobre o assunto? 

Estive bem longe de descobrir a pólvora – antes e melhor, outros tantos já o fizeram –, só ajudei a riscar os fósforos para trazer um pouco mais luz, também como sinal de que não desertamos nosso posto, como pediu o Veríssimo pai.

"Sem receio do exagero podemos afirmar que inexiste no Brasil tema mais importante para se conhecer, estudar e trabalhar, de verdade e a fundo, do que a desigualdade social."

Claro que a necessária superação do capitalismo deve estar no nosso horizonte como estado e nação, porém, hoje, ela é a nossa prioridade zero, ao lado de toda a urgente agenda ambiental. Afinal, a desigualdade social é, como se diz nas ciências sociais, um “fato total”, atingindo – no nosso caso, tingindo e manchando com a cor da dor e do pavor milhões de brasileiros – todas as áreas e todas as dimensões da vida.  

O que busquei nesta obra é ajudar a clarear a realidade, pois, como sentenciou Noam Chomsky, a população em geral não sabe o que está acontecendo e sequer sabe que não sabe.  

Disponho-me a participar da luta contra os erros, as mentiras e os preconceitos do senso conservador e da agenda liberal martelados diariamente na cabeça dos cidadãos pelas formas mais ou menos tradicionais da mídia, mais ou menos retrógradas da paróquia e mais ou menos encaixotadas da escola. Nesse pacote, a lógica é esconder os reais problemas e maquiar as suas soluções para torná-los ininteligíveis ou, ainda pior, para pretensamente resolvê-los na base de alguma saída heróica, mitológica ou divinal que apenas mantém intocada uma ideia de ordem sem progresso. 

ARCO - Para quem deseja ler sua obra, o que essa pessoa deve esperar? 

Um modesto manifesto, pensado e escrito com o lado esquerdo do peito. Uma tentativa de mostrar o buraco no qual há tanto tempo estamos metidos, contribuindo para uma “abertura de olhos” capaz de revelar o que temos acima e em volta e, a partir disso, conhecer um pouco o que fazer e acreditar que ainda é possível sair disso, de modo a construir uma sociedade (e um lugar) diferente – afinal, como traz José Saramago na abertura do seu “Ensaio sobre a cegueira”: se podes olhar, vê; se podes ver, repara. 

A obra, e isso é importante destacar, constitui uma “proposta de ação” que se insurge sobre o modo de atuação dos ricos e a lógica da ordem que os sustentam – o neoliberalismo como a última máscara do capitalismo –, buscando desestruturar argumentos ideológicos e construções institucionais e propondo alterar o olhar sobre o problema da concentração de riqueza e imaginar alternativas a ele. 

Afinal – e é este o compromisso que pretendo manter com o leitor –, como certa vez me disse o professor Avelãs Nunes, lá de Coimbra, acreditamos que as ciências sociais não podem ser boa ciência social se não incorporar à sua análise a consciência social, sem a hipocrisia beata dos que, apesar das “mãos sujas” de compromissos inconfessáveis, juram que a sua ciência é uma ciência “neutra” em relação aos fins, como um terreno etéreo sem lugar para os homens de carne e osso.  

ARCO - Há algo que não perguntei que você gostaria de destacar? 

Antônio Abujamra, em uma segunda fase do seu “Provocações”, passou a encerrar o programa perguntando ao entrevistado: “me diga, afinal, o que é a vida?”.  Não ouso propor aqui essa máxima divagação, mas é preciso destacar o quanto da vida da imensa maioria do povo brasileiro é refém desta escolha política: a desigualdade social.  

E nesse cenário mostra-se inadiável outro olhar sobre a desigualdade, olhada para cima. O objetivo é alcançar o "topo" da pirâmide social, microcosmos dos endinheirados cuja compreensão é vital para a redescoberta do país, a emancipação da sua gente e a construção de uma ordem que seja capaz de dar outra razão à vida, de modo a constituir na nova sociedade as conexões reconstituintes do espírito social e humano. 

A vida, pois, a ser ajustada sob uma nova sociabilidade: igualitária, solidária, coletiva, cooperativa, sustentável e democrática, horizonte para a efetiva transformação do Brasil.

Expediente

Repórter: Gustavo Salin Nuh, acadêmico de jornalismo e voluntário

Ilustrador: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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No último ano, as desigualdades sociais no Brasil aumentaram. A pandemia da Covid-19, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março de 2020, escancarou e aprofundou os abismos sociais que separam a “favela” do “asfalto”,  contraste que influencia no combate e na proteção da população periférica. Essa é a conclusão do estudo realizado por duas pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sobre as interfaces entre saúde global, desigualdade social e a consequente (des)proteção nas periferias brasileiras. A pesquisa é fruto das reflexões da dissertação da mestranda em Direito, Raquel Ceolin, com orientação da professora Valéria Ribas Nascimento. 

O olhar de investigação foi para o objeto desse estudo, que são as favelas brasileiras, e busca responder o seguinte questionamento: como têm se dado o enfrentamento à pandemia nas favelas brasileiras e as políticas públicas por parte do governo federal, em um cenário de intensa desigualdade social? 

As pesquisadoras buscam, nos conceitos da saúde global e do “Direito de Pasárgada”, o embasamento para um olhar sobre a desigualdade social, que se aprofundou no ano passado. As periferias se encontram à margem, uma vez que as condições de enfrentamento da pandemia - que passam também por possibilidades de isolamento social, acesso a itens de proteção individual como máscaras descartáveis e álcool gel, além de acesso aos serviços de saúde e à possibilidade de realizar o trabalho de casa - interferem no acesso e garantia da saúde em um momento em que ela é considerada das características mais importantes. 

Saúde global versus 

O estudo de Raquel e Valéria utiliza a saúde global como um de seus conceitos centrais. Este diz respeito a um olhar mais amplo sobre o campo da saúde, uma vez que considera os múltiplos fatores que interferem e influenciam em sua promoção, garantia e preservação. Raquel diz que “a saúde não se restringe a um mero acesso à ela ou aos serviços de saúde, mas são múltiplos os fatores que influenciam nesse campo, como questões habitacionais, econômicas, ambientais e sociais". Além disso, a saúde global abrange os conceitos da saúde internacional e da saúde pública. “Ela é mais assimétrica, no sentido de que também está relacionada à Organização Mundial do Comércio, aos blocos econômicos e às ONGs internacionais que trabalham com a saúde”, complementa Valéria.

No entanto, mesmo que a saúde pública e a saúde internacional estejam dentro do escopo da saúde global, os conceitos das mesmas diferem. A primeira se relaciona à saúde da coletividade e se dá em uma perspectiva constitucional interna, enquanto a segunda tem mais relação com tratados entre países e leva em conta a ideia da saúde para além das fronteiras dos mesmos.

“[...] com a globalização ocorreram transformações na sociedade que impactaram também no campo da saúde, momento em que diversos sistemas de saúde foram precarizados e essa enquanto direito humano passou a ser uma realidade distante, em um ambiente de privatização e desfinanciamento dos sistemas públicos em muitos lugares.”

Uma das caracterizações importantes para entender a saúde global e quais os  fatores que interferem no acesso e na manutenção da saúde na vida das pessoas é a influência da globalização. Com ela, o aspecto econômico se desenvolve com maior potência que o aspecto social. Uma das maiores consequências é o agravamento das desigualdades sociais. Nesse escopo, entra a precarização da saúde, que afeta, em maior intensidade, as pessoas que já vivem em condições de vulnerabilidade. 

A saúde é um direito universal no Brasil, garantido pela Constituição Federal (CF) de 1988. A CF prevê diferentes tipos de direitos: os individuais, os coletivos, os sociais e os políticos. Valéria Nascimento, que também é professora de Direito Constitucional na UFSM, explica que os direitos fundamentais, ou seja, aqueles que são garantidos a toda a população, também abrangem os econômicos: “quando a gente fala do direito à liberdade, ela é um direito individual, né? Só que a liberdade está diretamente ligada à questão econômica”. Para Valéria, mesmo que o Brasil seja um Estado democrático de direito e voltado ao social, ele também é liberal. A constituição é social e capitalista já que privilegia aspectos econômicos. 

 A saúde, enquanto direito fundamental, também está sujeita às mesmas lógicas capitalistas. Para Raquel, a privatização de serviços como a energia (exemplo da venda da CEEE-D, no RS), a água (Vale do Rio Doce, empresa federal privatizada em 1997) e a falta de financiamento de serviços públicos precariza ainda mais esses sistemas. O Sistema Único de Saúde, o SUS, é a principal ferramenta no combate à pandemia e, no contexto das favelas, é ainda mais importante, dado que 96% de seus moradores não possuem plano de saúde. Entretanto, nos últimos anos sofre sucessivos ataques principalmente por meio do desfinanciamento. A emenda constitucional 95/2016 instituiu um teto de investimentos em saúde e educação por um período de 20 anos. De acordo com o Conselho Nacional de Saúde (CNS), o reflexo é de prejuízo de até R$400 bilhões até 2036. A medida, aprovada em 2018, é significativa no enfrentamento à doença que já fez mais de 398 mil vítimas no Brasil. Para Raquel Ceolin, mesmo com o desfinanciamento, o SUS ainda é uma realidade de privilégio, uma vez que é um sistema público de saúde. “Mas como a Deisy Ventura fala e nós mencionamos no texto, a implantação do SUS nunca foi concluída devido ao subfinanciamento”, reflete.

“A autora [VENTURA] indica, nesse sentido, que quando se subfinancia um sistema desse nível e amplitude, se gera um círculo vicioso, no sentido de que o sistema não dá conta de atender toda a demanda e, como não dá conta, buscam-se outras alternativas. No entanto, ao fomentar essas outras alternativas, acabam por desfigurar as principais características do SUS.”

Desigualdade(S)

Uma das primeiras mortes da pandemia no Brasil foi de uma doméstica que pegou coronavírus de sua empregadora que, em março de 2020, havia acabado de voltar da Itália, trazendo consigo a doença. Em junho de 2020, um menino negro de cinco anos caiu do 9º andar de um prédio de luxo em Recife. Ele estava aos cuidados da patroa, enquanto a mãe passeava com os cachorros dela. Esses são apenas dois casos que ilustram uma face da desigualdade social e do acesso à saúde no contexto atual. 

Em uma pandemia que já matou mais de 398 mil brasileiros e brasileiras, a possibilidade de fazer isolamento social é, literalmente, vital. O trabalho remoto, também conhecido como home office, não era a realidade da doméstica do Rio de Janeiro, nem de Mirtes, mãe do menino Miguel. Assim como elas, milhares de outras pessoas que vivem em comunidades periféricas não têm a oportunidade de se isolar para se proteger do vírus. 

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 60% das pessoas que trabalham na informalidade são negras. A população negra também é a que mais morre em decorrência da doença. Um levantamento inédito da Agência Pública mostra que, até metade de março, das 169 mil mortes por coronavírus, 89 mil eram de pessoas negras e, em menor número, 80 mil eram de pessoas brancas. Ainda segundo a investigação, o número de pessoas brancas vacinadas (3,2 mi) é praticamente o dobro da vacinação de pessoas negras (1,7 mi). O dado é expressivo quando se olha para a população brasileira: são 30,5 milhões de pessoas negras a mais do que brancas (IBGE 2019).

“Nesse ambiente de precarização da saúde, os mais afetados são aqueles indivíduos que já vivem em condições mais vulneráveis e não têm um acesso à saúde de forma efetiva. Entretanto, ressalta-se que quando se fala na saúde da população, a problemática não se limita ao acesso à saúde, mas aos múltiplos fatores que se refletem nesse campo”.

Para a realização da pesquisa, Raquel e Valéria utilizaram uma base de dados do Instituto Data Favela, que reúne informações de 239 favelas brasileiras. Com base nesse banco de dados, das 13,6 milhões de pessoas que vivem nas periferias, dois terços dos moradores só possuem reservas para aguentar uma semana em casa sem trabalhar e 29% destes não conseguiriam ficar um dia sem trabalhar. Esses dados mostram que o isolamento social não é uma realidade de todos. Entregadores no sistema delivery e domésticas são duas das profissões que não têm a oportunidade de trabalhar de casa e, consequentemente, de fazer isolamento. A classe social dos mais pobres tem, portanto, mais chance de ser infectada pela Covid-19.

Além disso, as condições de isolamento das periferias também são prejudicadas pelas condições de moradia. Metade dos domicílios são ocupados por quatro pessoas ou mais, e 60% deles possuem no máximo dois quartos, que são ocupados, em média, por quatro pessoas ou mais. 

Ainda segundo os dados do Instituto Data Favela, 80% das famílias das periferias estão sobrevivendo com menos da metade da renda. Os maiores reflexos da perda da renda estão, principalmente, na alimentação. Em 76% das famílias, ao menos em um dia faltou dinheiro para comprar comida, 89% receberam doações de ONGs, empresas e amigos e, caso não tivessem recebido doações, oito em cada 10 famílias não teriam condições de alimentação, compra de produtos de higiene e pagamento de contas básicas. 

Esses dados são expressivos: em 2021, o Brasil retorna ao mapa da fome com mais de 19 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Somados às preocupações da perda da renda, estão a subida dos preços dos supermercados e do gás de cozinha, além do aumento do preço de itens de proteção individual, como as máscaras PFF2 - consideradas as mais eficazes na prevenção do contágio, inclusive das variantes - , do álcool em gel e de antibactericidas para a lavagem das mãos.

“Nesse cenário de desigualdade social e intensificação das vulnerabilidades, é o Poder Público que deve agir por meio de políticas públicas a fim de minimizar os impactos na sociedade – e a urgência da situação requer respostas igualmente urgentes”.

Uma das medidas criadas em 2020 pelo Congresso Nacional foi a implantação do auxílio emergencial no valor de R$ 600. Em um comparativo, em janeiro a cesta básica custava R$654, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Políticas públicas como o auxílio emergencial são uma forma de ajuda para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Sete em cada dez famílias das periferias fizeram o pedido. No entanto, 41% destas não tinham recebido nenhuma parcela, de acordo com os dados do Instituto Data Favela. O valor do auxílio emergencial é importante para as famílias que, além da diminuição da renda, viram os preços subirem. No caso de 87% delas, os gastos aumentaram porque os filhos deixaram de ir para a escola. Muitas crianças, inclusive, tinham na merenda escolar a principal refeição do dia.

Os maiores centros de saúde não ficam nas periferias, mas sim nos centros das cidades. Hospitais mais estruturados, que são os que possuem Unidades de Terapia Intensiva, Pronto-Socorro e uma maior infraestrutura para atender pacientes infectados com Covid-19, estão localizados no “asfalto”. A distância das favelas aos centros de saúde também pode constituir uma dificuldade para salvar a vida de uma pessoa quando a situação é de emergência. 

Raquel Ceolin e Valéria Nascimento utilizam, na construção da pesquisa, o conceito do “Direito de Pasárgada”, elaborado por Boaventura de Sousa Santos em 1970 e que leva em conta as noções de “asfalto” - grandes centros e comunidades onde há melhores condições de vida, e “favela”, onde vivem as pessoas pobres, consideradas “marginais”.  A ideia se refere à uma autorregulação e autogerenciamento da favela. Isto acontece na ausência da atuação do Estado, que deveria atuar para garantia dos direitos individuais, coletivos, sociais e universais. Essa ausência reproduz formas de exclusão social que, mesmo em 2021, são perceptíveis por meio dos dados trazidos nesta reportagem. A impossibilidade de isolamento social e consequente exposição maior ao contágio, a diminuição da renda, a fome, as condições de moradia, a distância geográfica das favelas (que foram isoladas dos grandes centros), constituem os múltiplos fatores que incidem no acesso e garantia da saúde. São esses fatores que Raquel e Valéria usam no artigo e que levam em conta a perspectiva da saúde global.

A organização própria da favela também ocorre em meio ao momento em que vivemos, principalmente através da ação de ONGs e campanhas que buscam arrecadar alimentos e itens de higiene para aqueles  que estão em situação de vulnerabilidade.

Expediente

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Ilustrações: Renata Costa, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista, e Ana Ribeiro, acadêmica de Produção Editorial e voluntária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Precariedade em moradia e saneamento básico é um dos os maiores desafios no enfrentamento da pandemia no Brasil

Durante a pandemia causada pelo novo coronavírus, o  Observatório de Dados da COVID-19 da UFSM tem reunido esforços de diferentes setores da universidade no fornecimento de informações sobre a evolução e distribuição territorial dos casos no Rio Grande do Sul. Entre os colaboradores está o Núcleo de Pesquisa em Geografia da Saúde (NePeGS). O Núcleo  mapeou os locais do município de Santa Maria em condições precárias e mais suscetíveis à proliferação do vírus, reunindo informações estratégicas para que o poder público possa combater a pandemia em um contexto de desigualdade social. 

População às margens do Arroio Cadena, em Santa Maria, estão entre as mais vulneráveis à pandemia de COVID-19

A função do Núcleo no Observatório é georreferenciar, geocodificar e especializar dados sobre casos confirmados,  suspeitos e descartados, além de fornecer um mapa que mostre demonstre as localizações de casos no território. Outras informações são agregadas e fornecidas à vigilância epidemiológica para que ela possa desenvolver estratégias para conter a difusão espacial, como, por exemplo, a existência de casos em uma área de ocupação irregular, ou entre a população indígena.

O Núcleo leva em consideração as particularidades de cada cidade e região, pois a forma como a COVID-19 se comporta depende das condições de saneamento, habitação e infraestrutura, além de outros aspectos, como extensão territorial. A variação de comportamento pode ser diferente em áreas do mesmo bairro. Segundo o professor Rivaldo Faria, fundador e coordenador do NePeGS, o Brasil possui profunda desigualdade social e quando uma doença se instala em uma cidade como Santa Maria, é efetivamente tão ou mais grave conforme as desigualdades territoriais. 

O grupo  desenvolveu um mapeamento da pobreza em Santa Maria, que conclui que entre 30% a 35% da população do município vive em situação extremamente precária em relação a habitação, saneamento e infraestrutura, distribuídos em bairros ao norte, oeste, sul e algumas áreas de Camobi. Porém a maior concentração de população em situação de vulnerabilidade está ao longo do Arroio Cadena, da ferrovia e ao redor do Morro Cechella. 

De acordo com Faria, o enfrentamento em locais com essas condições é mais difícil por diversos aspectos, como por exemplo, a impossibilidade de realizar distanciamento social em casas com muitos moradores. Outro mapeamento realizado foi o da população idosa de Santa Maria, o maior grupo de risco à COVID-19, assim como a população que possui alguma doença crônica, pois condições precárias das casas destas pessoas é um fator extremamente perigoso.

Geografia da Saúde é estratégica nas ações de combate à pandemia

Criado em 2017 para entender como os fenômenos da doença e da morte se expressam geograficamente no território, o Núcleo de Pesquisa em Geografia da Saúde é o único no estado do Rio Grande do Sul especializado no tema. Atualmente, conta com um grupo significativo de doutorandos, mestrandos e alunos de graduação, que atuam tanto na pesquisa científica quanto em projetos de extensão. 

Segundo o professor Rivaldo Faria, a Geografia da Saúde é essencial porque a COVID-19, além de um problema médico, biológico e econômico, é também um evento geográfico, desde a contaminação - que depende de uma coincidência espacial entre uma superfície ou pessoa infectada e a pessoa que será infectada -  à difusão, visto que começou na China e se tornou uma pandemia. 

No Brasil, a doença seguiu um roteiro geográfico, chegando primeiro às capitais, onde estão os maiores núcleos populacionais e fluxos de pessoas  mais intensos. Após, se espalhou na rede urbana e para cidades próximas, se estendendo para as cidades médias e chegando então aos pequenos municípios. Como ainda não há tratamento ou vacina, a técnica utilizada é também geográfica: no isolamento social, a população de uma área evita o contato social para reduzir o número de pessoas infectadas.

Além disso, a partir da aplicação da geografia da epidemiologia e da geografia social, é realizado o monitoramento dos equipamentos médicos. É necessário saber se o número de leitos, médicos e ambulâncias é suficiente para a demanda, baseada no número de casos de coronavírus. Caso a equação demonstre que os equipamentos médicos serão insuficientes durante o durante o pico de contaminação da doença, os gestores devem atuar para evitar  incapacidade de atendimento.

Reportagem: Ana Laura Iwai, bolsista da Agência de Notícias da UFSM
Edição: Davi Pereira
Fotografia: Bibiana Pinheiro

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