UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Thu, 12 Mar 2026 12:02:11 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2025/10/02/radio-universidade-resiste Thu, 02 Oct 2025 16:36:39 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/?p=4106

O rádio alcança semanalmente 80% da população brasileira, segundo a Kantar IBOPE Media, mas enfrenta limitações técnicas: 68% das emissoras utilizam equipamentos com mais de dez anos de uso, de acordo com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). Além disso, muitas emissoras AM enfrentam desafios logísticos e financeiros para migrar para a faixa FM, um processo iniciado em 2013 com o Decreto nº 8.139, que visa melhorar a qualidade de áudio e competitividade frente às mídias digitais. A migração exige investimentos em novos equipamentos, pagamento de outorgas (que variam de R$ 8 mil a R$ 4 milhões a depender da cidade e potência) e, em grandes centros, depende da liberação da faixa estendida após o desligamento do sinal analógico de TV, concluído em 2023. Esses custos e a demora na aprovação de projetos pelo Ministério das Comunicações e Anatel dificultam o processo, especialmente para emissoras menores. 

O sistema de Amplitude Modulada (AM) surgiu em 1906 e se consolidou no período pós-Primeira Guerra Mundial, com destaque para o grande alcance do sinal. A Frequência Modulada (FM), que surgiu em 1933 e se consolidou nos anos 1960, trouxe qualidade sonora superior, menos interferência e programação mais variada. Com o tempo, o rádio enfrentou novos desafios trazidos pela televisão, pela internet e pelas plataformas digitais. A sobrevivência do meio passou a depender da reinvenção de sua linguagem e formatos. 

Em meio a esse cenário, a Rádio Universidade 800 AM, da UFSM, destaca-se como exemplo de adaptação e compromisso com a comunidade, com operação mantida em AM e alcance ampliado via streaming online. A emissora resiste aos desafios e inova com a transmissão online, que expande sua audiência globalmente. Durante a enchente de maio de 2024, no Rio Grande do Sul, a Rádio Universidade permaneceu no ar enquanto outras mídias sofreram interrupção por falta de infraestrutura digital. O diretor do Núcleo de Rádios da UFSM, Jonathan Ferreira, relembra o período: “A FM ficou fora do ar por 15 dias. Já a AM seguiu no ar e informou a população.” A equipe da universidade organizou uma campanha que arrecadou rádios AM e os distribuiu às comunidades afetadas, o que reforçou sua relevância social. 

A UFSM mantém duas emissoras: a Rádio Universidade, inaugurada em 1968, e a UniFM 107.9, lançada em 2017. Ambas desempenham papel relevante na formação universitária e na prestação de serviço público. A Rádio Universidade e a UniFM nasceram com o objetivo de divulgar as atividades da instituição e, conforme estimativa do Núcleo de Rádios da UFSM em 2020, chegou a ultrapassar um milhão de ouvintes. De acordo com dados fornecidos pela direção das Rádios, a Universidade AM alcança 51 cidades da região, enquanto a UniFM cobre cerca de 20 municípios, com audiência aproximada de 480 mil pessoas. A programação educativa, cultural e científica, apoiada por uma equipe multidisciplinar integrada à comunidade acadêmica, consolida a missão pública das emissoras, que transcendem a lógica comercial.

A programação da 800 AM inclui coberturas de vestibulares, congressos, projetos acadêmicos e eventos institucionais, além de conteúdos de cidadania e divulgação científica. “O rádio público não pode ser pensado com lógica comercial. Ele tem que chegar aonde o mercado não tem interesse em ir”, afirma Ferreira. A emissora conta com 10 servidores, entre jornalistas, sonoplastas e programadores, dois operadores terceirizados e bolsistas dos cursos de Jornalismo,  Jornalismo, Relações Públicas, Produção Editorial, Engenharia Acústica, Música e Tecnologia.


Ao longo de mais de cinco décadas, a 800 AM passou por diversas mudanças técnicas. Discos e fitas foram substituídos por sistemas digitais por computador, sistema esse que foi ampliado com o surgimento da conexão Wi-Fi. O locutor Roberto Montagner destaca que, com o streaming, a diferença de qualidade entre AM e FM deixa de ser relevante. “Hoje qualquer rádio pode ser ouvida online, de qualquer lugar do mundo”, explica. Embora muitas AM tenham migrado para FM, a 800 AM permanece em sua frequência original. “O grande diferencial do AM é o alcance geográfico. Ele chega a lugares que o FM não alcança, especialmente em regiões remotas”, observa Jonathan

Segundo o site Tudo Rádio, apenas três universidades no Rio Grande do Sul ainda mantêm estações AM: a UFSM, a UFRGS e a UCPel. O Atlas da Notícia de 2023 aponta que mais de 26 milhões de brasileiros vivem em “desertos de notícia” — municípios sem veículos jornalísticos locais. Neste contexto, emissoras universitárias, como a 800 AM desempenham um papel essencial ao oferecer informações de interesse público, programação educativa e cultural, além de dar visibilidade a comunidades negligenciadas pela grande mídia.

O pesquisador Luiz Arthur Ferraretto, da UFRGS, define em seu artigo científico “Uma proposta de periodização para a história do rádio no Brasil” que o atual momento da radiodifusão é de convergência, em que o rádio expande sua presença em podcasts, streamings e web rádios. Para ele, o futuro do AM dependerá de sua capacidade de adaptação às transformações tecnológicas e culturais. A Rádio Universidade AM mostra que é possível inovar sem abandonar a missão pública que a originou. Seu papel pedagógico, cultural e social sustenta sua relevância, mesmo em meio às ondas da crise.

Desesrtos de Informação

Quem vive em um deserto de informação enfrenta uma realidade distante e desconexa com o resto do mundo e até mesmo da sociedade, e são vulneráveis a possíveis desastres socioambientais. Um exemplo claro disso foi durante as enchentes de Maio de 2024 no Rio Grande do Sul que deixou centenas de famílias desabrigadas. Durante a tragédia as pessoas afetadas tinham dificuldade para se informar sobre pontos de coletas de doações e locais de abrigo, pois a energia elétrica foi afetada e a internet instável.

Para tentar mitigar este problema, foi lançado no dia 24 de Março de 2025 o Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ). A primeira iniciativa no Brasil com o objetivo de apoiar o Jornalismo Local. Foram selecionadas até 15 organizações, que receberam entre R$75 mil e R$150 mil por ano durante três anos. Quem empreendia nesse setor sabe que, embora não fosse uma quantia absurdamente volumosa, esse tipo de recurso tem o potencial de transformar completamente organizações pequenas em veículos profissionais e de qualidade.


Repórteres: Renan Silveira, Pedro Felipe de Almeida, João Pedro Amaral

Fotos: Matheus Lanzarin/Acervo Rádios UFSM 

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Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:

Foto: Mathias Ilnick

Para o senso comum, a moda pode parecer isto mesmo: um sistema superficial, movido pela lógica irracional do consumo. A acadêmica de Artes Visuais da UFSM Dárica Gomes não enxerga assim. “É algo afetivo, emocional, das raízes. É ancestral”, comenta a jovem a respeito de sua relação com o fazer artístico e a confecção de roupas. Ela afirma que a costura é uma forma de se conectar com as origens e alcançar um estilo único. 

Além de estudante, Dárica é uma das colaboradoras do Brechó Apenas, um empreendimento coletivo que expõe seu acervo, geralmente, no brique da Vila Belga e no hall do Restaurante Universitário I (RU I). O espaço de convivência do RU é casa para muitos outros negócios, organizados, inclusive, pelos próprios estudantes. Para expor, nenhum acordo é necessário; o Brechó Apenas, por exemplo, somente se instala e põe à venda peças de garimpo e de fabricação própria - muitas delas, com o uso do upcycling.

Trata-se não apenas de uma técnica, mas da “epítome da autenticidade”, como descreve Pedro Ivo Vieira, idealizador do Relance Brechó. O upcycling é uma abordagem sustentável na qual materiais que seriam descartados são transformados em novos produtos. Diferente da reciclagem tradicional, não há decomposição de matéria - o novo produto é criado a partir do velho, sem destruir sua forma original. No universo da moda, o upcycling acontece com recortes, costuras, pinturas e outras personalizações que dão continuidade à história das peças. 

No Perspectiv é o nome dado pelo relações públicas formado pela UFSM Brenner Barbosa à linha de peças sustentáveis produzida para seu Trabalho de Conclusão de Curso. As roupas, inspiradas nos estilos Y2K, Clubber Punk e Hip-Hop, foram produzidas a partir da reutilização de aparatos encontrados em pequenos bazares, todos bastante gastos e com avarias. Barbosa define-as como peças que atingiram o seu ciclo máximo na visão comercial. 

O projeto, acompanhado de uma série de vídeos e fotografias, simboliza o que o profissional de Relações Públicas descreveu como a falta de perspectiva para encontrar sua visão de mundo dentro de Santa Maria. Os artistas visuais Leo Penna e Rayssa Barcelos, amigos de Brenner, foram responsáveis pela tradução desses sentimentos nas peças ao trabalharem com estamparias que cobriam os rasgos das roupas originais. “Foi uma ligação de relações que eu tive durante a minha graduação, que diziam respeito às coisas que eu era e que eu sou”, explica.

Muito mais que uma iniciativa sustentável para a indústria têxtil - visto que o setor é responsável por, aproximadamente, 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estudo de 2017 da Ellen MacArthur Foundation -, o upcycling se mostra, também, uma maneira singular de expressão pessoal. Para Brenner, a técnica ressignifica algo criado por outra pessoa e produzido em larga escala. Ele acrescenta: “você revive uma coisa que poderia estar morta. Você transmite a sua realidade, a sua verdade, os seus consumos, as coisas em que você acredita”.

Sustentabilidade ainda não é tendência

Mesmo que velados, estigmas relacionados ao mercado da moda sustentável ainda persistem. Em questionário realizado de forma on-line com 62 estudantes da UFSM, 25% informaram que não costumam comprar roupas em brechós. Dárica, do Brechó Apenas, ratifica o dado: “muitas vezes, a gente recebe críticas do tipo: ‘olha ali, aquele pessoal comprando roupa velha’”. 

O Relance Brechó, empreendimento inaugurado em Santa Maria no ano de 2021 e atualmente localizado no bairro Botafogo, no Rio de Janeiro, faz sucesso com o público carioca - mas não foi assim em todos os lugares por onde passou. Pedro Ivo percebe, desde a mudança, uma “diferença gritante” no interesse dos gaúchos e dos cariocas por moda sustentável. Segundo seu relato, os compradores da cidade maravilhosa deteriam maior poder aquisitivo, fator que incentiva a valorização de seu trabalho e das roupas comercializadas.

O fato é que a moda sustentável - nisso, inclui-se a técnica de reciclagem têxtil - ainda não faz parte da corrente de consumo cultural dominante. Para entusiastas da temática, “o upcycling, realmente, é o futuro”, como manifestou Pedro Ivo. Essa opinião é reiterada não só pelos artistas independentes, mas por grandes nomes da indústria como a estilista britânica Vivienne Westwood. Ela costumava dizer que o único efeito possível que alguém pode ter no mundo é por meio de ideias impopulares.


Repórteres: Camille Moraes e Pedro Gonçalves

Contato: camille.moraes@acad.55bet-pro.com/ pedro.marion@acad.55bet-pro.com

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Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:

Alvino Bitencourt utiliza aplicativo da universidade | Foto: Luana Pereira

A década de 1950 foi marcada por avanços tecnológicos e transformações importantes no mundo todo. No Brasil, houve a inauguração da TV Tupi, o início do que seria um dos principais meios de comunicação e entretenimento do país: a televisão. A UFSM ainda nem existia nessa época e a troca de informações era feita por telefone com discagem manual, no início da década de 60. As telas digitais estavam longe de fazer parte do cotidiano.
Pessoas que nasceram nesse contexto tentam acompanhar uma grande quantidade de telas, cliques e plataformas digitais. Para elas, voltar a estudar é também entrar em uma nova era, onde a alfabetização digital se torna tão importante quanto a leitura dos livros. Essa é a realidade de Alvino Ferreira Bitencourt, 73, que precisa acompanhar aulas e agendar almoços através do aplicativo UFSM digital.
Alvino inicia seu dia às 6h15min, quando pega o primeiro ônibus na zona Sul em direção ao Centro. De lá, embarca em um segundo transporte coletivo até a universidade, onde cursa o Técnico em Zootecnia no Colégio Politécnico. Após ser dono de um mercado por 43 anos, decidiu voltar a estudar quando o estabelecimento fechou.  Concluiu o ensino médio e, incentivado pelos professores, fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para concorrer a uma vaga no curso de Medicina Veterinária. Como não atingiu a nota mínima, decidiu participar do processo seletivo do curso técnico e foi aprovado em 19° lugar, num total de 50 vagas.

Alvino é um dos sete alunos com mais de 70 anos matriculados nos cursos técnicos do Colégio Politécnico, o que representa 0,6% do total de 1.248 estudantes. Há 198 estudantes com mais de 50 anos (15,9%). Destes, 120 estão na faixa etária de 50 a 59 anos (9,6%) e 71 têm entre 60 e 69 anos (5,7%). Os dados são relativos ao mês de maio de 2025, de acordo com o Centro de Processamento de Dados da UFSM (CPD). Ele afirma que os problemas começaram na inscrição para o processo seletivo, feita exclusivamente através do site da instituição: “eu vim aqui [na UFSM] para eles me inscreverem e depois voltei para fazer a matrícula.” Ele tinha e ainda tem muita dificuldade em realizar atividades nos meios digitais.  Para agendar as refeições no Restaurante Universitário e colocar saldo, Alvino pede para seus colegas, que fazem tudo para ele. Além disso, comenta que uma professora permitiu que entregasse um trabalho escrito à mão por não saber digitar. Ele elogia os docentes por facilitarem sua rotina acadêmica e entenderem sua difícil adaptação aos meios digitais.

Alvino se adapta entre cadernos e meios digitais | Foto: Luana Pereira

Outro exemplo é o estudante de Jornalismo João Veigas, 54, que ingressou na UFSM em 2020 e foi o primeiro da família a entrar em uma universidade. Atualmente, sua rotina é dividida entre os estudos e o trabalho. Ele estuda durante o dia e, em seguida, encara turnos de 12 horas, seguidos por 36 horas de folga, em uma escala conhecida como 12 por 36. João relata que gostaria de dedicar mais tempo aos estudos, mas precisa focar mais no trabalho.

João comenta que sabe utilizar funções básicas no celular, mas as plataformas da instituição foram um desafio na sua vida acadêmica. Quando entrou, não recebeu orientações necessárias para acessá-las, apenas instruções de como fazer o e-mail institucional. Também afirma não ter encontrado nenhum departamento específico na UFSM que pudesse auxiliá-lo.

João Veigas na Rádio Comunitária Caraí | Foto: Luana Borgmann

João faz parte dos 1,8% de alunos matriculados em cursos de graduação com mais de 50 anos, o que representa 494 do total de 26.835. Na UFSM,  há 367 acadêmicos na faixa etária entre 50 e 59 anos (1,4%), 117 de 60 a 69 (0,4 %) e apenas 10 têm mais de 70 (0,04 %), de acordo com dados do CPD em maio de 2025.                                           

A universidade está inserida em um contexto digital em que o Moodle, o site institucional e o aplicativo “UFSM Digital” são ferramentas necessárias para o dia a dia. Entretanto, Alvino e João dependem da ajuda de colegas, veteranos e professores para conseguirem fazer tarefas diárias, essenciais para se manterem na universidade.    O que evidencia isso é uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC/CGI, 2021) que mostra que 76% das pessoas mais velhas afirmam nunca ter utilizado um computador. Ainda que 77% possuam celular, 46% delas nunca acessaram a internet. 

O papel do rádio

“Muita gente ainda não tem acesso à internet. O radinho de pilha continua a ser o canal de comunicação mais acessível”, explica João Veigas, que além de estudante, também é diretor da Rádio Comunitária Caraí. Para ele, a emissora ainda é uma das principais fontes de informação para a população mais velha da zona sul da cidade. “A rádio leva a informação local, faz a ponte entre a comunidade e os serviços que ela precisa acessar”, completa.

 A experiência cotidiana na estação radiofônica também evidencia as limitações digitais. “As pessoas nos dizem que preferem comprar um radinho do que tentar acessar a rádio pela internet. A barreira não é só econômica, é também de conhecimento”, relata João. Mesmo com iniciativas digitais, o alcance ainda depende da familiaridade dos ouvintes com dispositivos e aplicativos, algo distante da realidade de muitas famílias da periferia.

João Veigas na Rádio Comunitária Caraí | Foto: Luana Borgmann
Logotipo da Rádio Caraí | Foto: Luana Borgmann

A Subdivisão de Ações Afirmativas Sociais, Étnico-Raciais e Indígenas da Coordenadoria de Ações Educacionais (Caed), vinculada à Prograd, disponibiliza a Monitoria de Apoio às Tecnologias Digitais para todos os estudantes. Porém, ela é divulgada apenas no site da Caed, o que dificulta o acolhimento do público-alvo. O Pró-Reitor de Graduação Substituto, Félix Alexandre Antunes Soares, afirma: “nós atendemos pessoas que têm dificuldade direto por telefone ou por e-mail, mas, para quem quer tirar dúvida presencial, sempre tem alguém para ajudar”. 

Felix acrescenta que todo aluno que entra na universidade precisa ter um e-mail institucional, canal por onde as principais informações da UFSM são repassadas.  A exigência, embora padronizada, desconsidera realidades diversas. Isso evidencia a necessidade de políticas de inclusão que considerem a diversidade etária. 

Um exemplo é o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que desenvolve iniciativas voltadas à inclusão digital de pessoas idosas. Entre elas, destaca-se a Unidade de Inclusão Digital para Idosos (UNIDI), que tem como objetivo aprimorar a interação desse público com as tecnologias. É de suma importância que a UFSM siga este modelo, para que pessoas como Alvino e João possam estudar com autonomia, sem depender da ajuda de terceiros. De acordo com o jornalista da Agência de Notícias da universidade, membro do Comitê da Política de Comunicação, Maurício Dias, as emissoras de rádio e de TV da instituição fazem o papel de transmitir as informações para aqueles que não  estão acostumados a acessar o site.  Elas atuam com duplo foco: comunicação institucional (temas ligados à universidade) e comunicação pública, mais ampla. Além disso, Dias comenta que são contemplados diferentes tipos de públicos e levados em consideração as especificidades, conforme as diretrizes gerais que fazem parte da política de comunicação, aprovada em 2018. As tecnologias não são prejudiciais, ao contrário, oferecem uma série de benefícios em diversas áreas da vida cotidiana. Porém, com a tendência crescente de digitalização, torna-se fundamental promover a educação digital e oferecer orientação, especialmente às pessoas mais velhas, que muitas vezes enfrentam dificuldades para acessar e utilizar as plataformas digitais de forma autônoma e segura.

Gráficos de comparação:

Reportagem: Luana Borgmann e Tainá De Carli Nascimento

Contato: luana.borgmann@acad.55bet-pro.com/taina.nascimento@acad.55bet-pro.com

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2025/07/22/__trashed-4__trashed Tue, 22 Jul 2025 12:42:05 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/?p=3993

Segundo o Monitoramento dos indicadores de Violência Contra as Mulheres do Rio Grande do Sul no ano de 2025 da Secretaria de Segurança Pública (SSP), aconteceram 18 mil casos de violência contra a mulher entre janeiro e abril, em uma média de 4,6 ocorrências por mês. Os crimes enquadrados são de feminicídio tentado, feminicídio consumado, ameaça, estupro e lesão corporal.

Em plena Sexta-feira Santa, feriado marcado por reflexões religiosas e familiares, seis mulheres foram brutalmente assassinadas em diferentes cidades do Rio Grande do Sul. Os crimes, registrados ao longo de poucas horas, levantam uma grave preocupação: até quando a violência contra a mulher será tratada como rotina no Brasil? Os casos chamam atenção não apenas pela quantidade de vítimas em um único dia, mas pela reincidência de um padrão trágico que expõe a vulnerabilidade feminina diante da violência doméstica, da negligência institucional e da cultura machista ainda enraizada na sociedade brasileira

Na UFSM, duas professoras de áreas distintas se destacam por transformar ensino, pesquisa e extensão em ações concretas de enfrentamento à violência contra as mulheres e nos concederam entrevistas para a revista .TXT. 

De um lado, a professora do curso Técnico em Enfermagem do Colégio Politécnico da UFSM, Laura Ferreira Cortes, une a prática da saúde ao ativismo social com projetos de extensão voltados ao empoderamento feminino, à formação de profissionais e à articulação de serviços públicos. De outro, a professora do curso de serviço social Laura Regina da Silva Camara Mauricio da Fonseca tem mais de três décadas de experiências dedicadas à reflexão crítica sobre gênero, vulnerabilidade e cidadania, com atuação direta em políticas públicas e formação universitária.

Ambas lideram iniciativas que colocam a universidade em diálogo com a realidade social e constroem pontes entre a academia e a rede de proteção às mulheres em Santa Maria. Seus projetos não apenas acolhem vítimas de violência, também formam profissionais mais conscientes e preparados para atuar em contextos complexos. Com diferentes abordagens, elas mostram como o compromisso com os

direitos humanos e a equidade de gênero podem e devem atravessar os muros da Universidade.

Entrevista

A .TXT conversou com as professoras da Universidade Federal de Santa Maria, Laura Ferreira Cortes e Laura Regina da Silva Camara.

.TXT: Fale um pouco sobre a sua trajetória profissional e sua experiência em relação a projetos de apoio a mulheres em situação de violência?

Laura Ferreira: Minha trajetória profissional, ela vem em boa parte da graduação ainda na enfermagem, da área da saúde, tem inquietações muito relacionadas com a nossa formação ser ainda muito biológica, focada nas lesões, no cuidado físico e pouco abrangente em termos da realidade social das pessoas. A violência é um problema de saúde pública e afeta diretamente a saúde das mulheres e das famílias. E aí, vendo isso, durante a formação, essa fragilidade nessa abordagem, eu despertei então para esse olhar das questões de gênero, alinhado a docentes que trabalhavam com isso na época. E aí, a partir disso, então, eu comecei a pesquisar no mestrado e principalmente no doutorado pensando nesse olhar ampliado para a rede de atendimento. Então, como essas mulheres circulavam após o atendimento na saúde, para onde elas iam, se elas eram encaminhadas para algum local, se elas iam para a rede, se elas voltavam para casa, enfim, fragilizadas, não tinham esse apoio. Foi aí que eu comecei a despertar o interesse no tema e eu trabalhei então na pesquisa do mestrado com enfermeiras, entrevistando enfermeiras sobre esse processo de trabalho das portas de entrada dos serviços de emergência do município. E depois no doutorado eu trabalhei com profissionais em um grupo de trabalho para a gente pensar como era essa rede de atendimento, quais eram as fragilidades, quais eram as potencialidades e se existia essa rede de atendimento.

E daí, dos resultados da pesquisa do doutorado, a gente conclui que existem muitas falhas nessa rede, que os serviços não estavam organizados, compondo uma rede conectada, integrada. Então, existiam buracos nessa rede e a mulher acabava percorrendo muitos serviços e, às vezes, sem nenhuma ajuda ou, muitas vezes, só centrados na delegacia. E aí, essa continuidade, esse acompanhamento não existia. Então, isso, os resultados da pesquisa, da minha tese.

Quando entrei na universidade, em 2018 como professora aqui no Politécnico, criei um projeto de extensão: o Fórum de enfrentamento à violência por parceiro íntimo contra as mulheres do Município de Santa Maria: promoção da cultura de paz e superação da violência, que é esse espaço, que é o fórum, que é um espaço permanente para a gente discutir, nós nos reunimos mensalmente e a gente contempla lá todos os serviços da rede. E é um espaço para a gente tentar integrar a ação profissional. Então, tem vários setores, segurança pública, assistência social, saúde, educação, conselho tutelar, enfim, segurança pública, são profissionais que estão à frente dos serviços e a gente busca discutir melhorias no atendimento e na integração desses serviços, justamente para que essa rede funcione de forma mais integrada. Nós temos o Centro de Referência da Mulher, também, que é um serviço que o fórum ajudou a criar aqui em Santa Maria, que não existia, que ele busca, justamente, a articulação desses serviços entre si. Então, a minha trajetória é um pouco a partir dessa história, da prática. 

.TXT: Fale um pouco sobre a sua trajetória profissional e sua experiência em relação a projetos de apoio a mulheres em situação de violência?

Laura Ferreira: Minha trajetória profissional, ela vem em boa parte da graduação ainda na enfermagem, da área da saúde, tem inquietações muito relacionadas com a nossa formação ser ainda muito biológica, focada nas lesões, no cuidado físico e pouco abrangente em termos da realidade social das pessoas. A violência é um problema de saúde pública e afeta diretamente a saúde das mulheres e das famílias. E aí, vendo isso, durante a formação, essa fragilidade nessa abordagem, eu despertei então para esse olhar das questões de gênero, alinhado a docentes que trabalhavam com isso na época. E aí, a partir disso, então, eu comecei a pesquisar no mestrado e principalmente no doutorado pensando nesse olhar ampliado para a rede de atendimento. Então, como essas mulheres circulavam após o atendimento na saúde, para onde elas iam, se elas eram encaminhadas para algum local, se elas iam para a rede, se elas voltavam para casa, enfim, fragilizadas, não tinham esse apoio. Foi aí que eu comecei a despertar o interesse no tema e eu trabalhei então na pesquisa do mestrado com enfermeiras, entrevistando enfermeiras sobre esse processo de trabalho das portas de entrada dos serviços de emergência do município. E depois no doutorado eu trabalhei com profissionais em um grupo de trabalho para a gente pensar como era essa rede de atendimento, quais eram as fragilidades, quais eram as potencialidades e se existia essa rede de atendimento. E daí, dos resultados da pesquisa do doutorado, a gente conclui que existem muitas falhas nessa rede, que os serviços não estavam organizados, compondo uma rede conectada, integrada. Então, existiam buracos nessa rede e a mulher acabava percorrendo muitos serviços e, às vezes, sem nenhuma ajuda ou, muitas vezes, só centrados na delegacia. E aí, essa continuidade, esse acompanhamento não existia. Então, isso, os resultados da pesquisa, da minha tese. Quando entrei na universidade, em 2018 como professora aqui no Politécnico, criei um projeto de extensão: o Fórum de enfrentamento à violência por parceiro íntimo contra as mulheres do Município de Santa Maria: promoção da cultura de paz e superação da violência, que é esse espaço, que é o fórum, que é um espaço permanente para a gente discutir, nós nos reunimos mensalmente e a gente contempla lá todos os serviços da rede. E é um espaço para a gente tentar integrar a ação profissional. Então, tem vários setores, segurança pública, assistência social, saúde, educação, conselho tutelar, enfim, segurança pública, são profissionais que estão à frente dos serviços e a gente busca discutir melhorias no atendimento e na integração desses serviços, justamente para que essa rede funcione de forma mais integrada. Nós temos o Centro de Referência da Mulher, também, que é um serviço que o fórum ajudou a criar aqui em Santa Maria, que não existia, que ele busca, justamente, a articulação desses serviços entre si. Então, a minha trajetória é um pouco a partir dessa história, da prática. 


TXT: Quais as ações o projeto promove para amparar essas mulheres vítimas de violência em Santa Maria?

Laura Ferreira: Então, o fórum em si trabalha com essa integração da rede. Então, nós construímos um fluxograma de atendimento junto aos serviços, aos profissionais, que não existia. Então, hoje nós temos um direcionamento de como essa mulher deve circular na rede. Então, esse apoio técnico foi feito. A gente busca, então, essa qualificação por meio desse curso de extensão de profissionais, para que eles possam refletir sobre o seu processo de trabalho, sobre os aspectos psicossociais e humanitários no atendimento dessas mulheres, as questões étnico-raciais, também nós discutimos bastante no curso. Então, pensando na formação de profissionais, nós temos contribuído nesse aspecto. E, além disso, a gente traz mulheres diretamente lá do CAPES. Então, nas terças-feiras à tarde, por meio dessas oficinas, é um grupo que é do CAPES, o Mulheres no Corre, que é um grupo de mulheres em abuso de substâncias, em uso de álcool e outras drogas. E ele visa a geração de renda, mas o empoderamento também e a promoção da saúde mental. Então, elas produzem artesanatos, camisetas e ecobags. E elas vendem em feiras de artesanato e participam de eventos também. A gente faz muito essa interlocução com a universidade. Elas vêm para cá também em aulas, participam, fazem apresentações sobre projetos. E a gente trabalha muito a questão desse empoderamento. Então, gênero é a base do que a gente discute, as desigualdades de gênero, pensando nesse empoderamento feminino. E elas acabam construindo esse empoderamento juntas no grupo, compartilhando as vivências. Cada uma fala sobre as suas dificuldades, sobre seus processos, sobre as violências que sofreram. E elas vão se apoiando umas nas outras e a gente vai mediando isso. Por meio das discussões teóricas, claro, mas que são da vida. Então, a gente trabalha nessa lógica lá dentro do CAPES, nesse sentido. E na minha prática também, como docente, junto com os estudantes do Técnico de Enfermagem, a gente faz atendimento na unidade de saúde, no posto de saúde. Então, a gente faz atendimento direto a mulheres também, mas não tem nenhum projeto específico para isso. Mas no nosso cotidiano, como eu trabalho essas temáticas em sala de aula, a gente acaba trabalhando também o serviço, acolhendo de uma forma mais diferenciada. Fazendo os encaminhamentos, as articulações necessárias lá também.

.TXT: Como essas atividades colaboram para a garantia da proteção dessas mulheres?

Laura Ferreira: Então, a proteção é justamente pensando no empoderamento delas, porque a superação da violência exige o empoderamento feminino. E o empoderamento é uma categoria de análise que a gente compreende como sendo algo que é construído. Não sou eu, Laura, que vou lá empoderar aquela mulher. Eu posso mediar esse empoderamento, posso levar elementos, meios para ela conhecer os seus direitos, para ela conseguir perceber a situação de violência, para se enxergar no mundo, posso mediar isso. Mas essa tomada de consciência é um processo, ela é gradual. E se for coletiva, vai ser muito melhor, vai ser muito mais rápido também. Então, a gente contribui nesse sentido, de mediar esse empoderamento delas, fazer a escuta dessas mulheres também, porque violência dói muito, sofrer violência dói muito. Então, escutar elas se escutarem e a gente tentar pensar nas potencialidades que elas têm para que elas consigam se libertar daquela situação, para que elas enxergue outras possibilidades de vida. Mas isso é um grande desafio, então a gente faz esse atendimento lá, mas nessa perspectiva, pensando na geração de renda. E o fórum tem contribuído muito para fomentar que o município possa pensar e propor mais políticas públicas para as mulheres, porque a gente entende que antes da violência a gente tem que ter a base da igualdade de gênero para conseguir prevenir a violência contra as mulheres. Então, a gente trabalha muito nessa ideia da prevenção, em alguns aspectos. Até vamos em algumas escolas com algumas ações, quando somos chamados. Os cursos, então, nós temos feito as duas últimas edições dos cursos, elas têm sido focadas para profissionais da educação, para professores e professoras de educação básica da cidade, justamente para que eles consigam tentar lidar com essas situações no ambiente escolar, mas também na saúde. Geralmente a gente abre a vaga para diferentes cursos, e esse curso é bem interessante porque ele exige, a avaliação dele, o processo avaliativo dele, consiste na criação de um produto para ser desenvolvido no seu contexto de trabalho. Então, os professores, as professoras que participam do curso, precisam levar para as escolas um instrumento, alguma tecnologia, um produto, alguma tecnologia para usar com os alunos, que pode ser jogos, tem várias dinâmicas que eles constroem, e tem sido muito rico, ele já vai para a quinta edição agora, o curso. Então, a gente aposta muito na estratégia educativa desses profissionais de formação e profissionais já formados, para a gente estar qualificando esse atendimento. E a manutenção desse fluxo, porque exige, para que a gente tenha um projeto do fórum, ele consiste nas reuniões, onde a gente tenta integrar as ações dos serviços e criar estratégias para que os serviços se integram na rede. Para que essa mulher não fique sem acolhimento, para que essa mulher possa ter uma perspectiva no momento que ela resolve denunciar e também antes da denúncia. É aí que o centro de referência, que é o serviço-chave hoje, peça-chave do fluxo, ele é fundamental para que isso aconteça. Lá no centro de referência elas são acolhidas, elas recebem o atendimento psicológico do serviço social e também orientações jurídicas. E elas vão percorrendo esse fluxograma, que é o desenho da rede. A gente trabalha junto com o Ministério Público também, a gente faz as reuniões geralmente lá. Então é uma parceria interessante. A gente tem apostado também bastante nessa questão da qualificação por meio de eventos. E vamos começar um projeto em parceria. Na verdade é do ADH e a gente está entrando na parceria, que é um projeto para atendimento dos agressores, dos homens. A gente vai começar com grupos reflexivos para homens, para tentar prevenir novos incidentes de violência.

.TXT: Quais ligações o projeto tem com redes de proteção e garantia dos direitos às mulheres? 

Laura Ferreira: Na verdade, o fórum vem para articular essa rede. Então como é que funciona? Existe uma política nacional do enfrentamento à violência contra as mulheres, que é de 2007. Ela vem para concretizar a Lei Maria da Penha. Que foi criada em 2006. E aí essa política, um dos seus eixos, que é a dimensão da assistência a essas mulheres, ela contempla a rede. A rede de atendimento. E a rede de atendimento tem quatro braços. Que é o direito e a justiça, a segurança pública, a saúde e a assistência. Então esses serviços, o que incluem? Vou falar um pouquinho dessa rede, para ficar um pouco mais explícito. Na justiça, são criados os juizados especializados em violência doméstica. Todos os casos entravam dentro das varas comuns, criminais. E agora não. Existe um juizado específico. No Santa Maria nós temos um juizado específico para os casos de violência doméstica. Isso agiliza muito mais os julgamentos. As medidas protetivas. O juiz tem até 48 horas para expedir as medidas protetivas. E agora, mais recentemente, em função dos números de homicídios que tiveram agora no feriado de Páscoa, a gente tem as medidas protetivas sendo solicitadas online também. Então esse é o sistema de justiça. Além disso tem as promotorias e ainda as defensorias. Que vão advogar por essas mulheres também. E o sistema de segurança pública. Nós temos a polícia civil. Por meio das delegacias da mulher. Ou as delegacias de atendimento geral. Aqui em Santa Maria nós temos a delegacia funcionando de segunda a sexta. Até as 18 horas. Então não temos uma delegacia da mulher 24 horas. A delegacia que nós temos é uma delegacia de plantão geral. Que atende todos os tipos de situações aos finais de semana, o que é uma dificuldade. Porque as mulheres não têm um atendimento especializado aos finais de semana. E nem à noite.

E aí nós temos também um serviço que é a Patrulha Maria da Penha. Que é da Brigada Militar. Que atende as mulheres com medidas protetivas. Então como é que funciona? Ela vai fazer o boletim de ocorrência. E aí ela pode solicitar. Independente do risco que esse agressor está expondo. Ela solicita uma medida. Que essa medida é um papel que o juiz vai expedir. Ordenando que esse agressor não se aproxime dessa mulher ou da sua família. Suspendendo porte de arma. Enfim, existem vários tipos de medidas. Dessas medidas. Então elas são fiscalizadas aqui em Santa Maria. Pela Patrulha Maria da Penha. Que é um grupo de policiais. Que vai nas casas das mulheres com medidas. Para acompanhar o andamento da situação. Se ela continua afastada. Se ela não está em risco. Se o agressor continua afastado dela. O serviço social que seria assistência social, todos os serviços, como por exemplo, os CRAS. Que são os centros de referência de assistência social. Os CRES. Que são os centros especializados em assistência social. O centro de referência da mulher. Que é um serviço de assistência social. E também a casa abrigo.As casas abrigo. Que são casas onde as mulheres podem ficar abrigadas. Com seus filhos por um período. Até que ela consiga achar um outro lugar para ir. Então enquanto ela estiver em risco. Ela pode permanecer abrigada nessa casa. E ainda tem a casa de passagem. Que é para mulheres em situação de rua. Isso são serviços de assistência social. Depois os serviços de saúde, que seriam todos os serviços de saúde do município. A gente tem um específico para a mulher em situação de violência. Especialmente sexual. Que é o centro obstétrico do hospital universitário. E depois todas as unidades de saúde, as unidades básicas do município. Mas para que eles funcionem como uma rede mesmo de produção. Eles precisam estar em comunicação. Eles precisam estar articulados. E é por isso que o centro de referência vem fazer esse grande braço articulador. A ideia é que essa mulher digamos entrou na saúde. A saúde já articula esse centro de referência. Que vai articular o município público. Vai articular com a delegacia. A mesma coisa quando a mulher vai denunciar. O ideal é que ela já seja vinculada ao centro de referência. Para que ele vai fazer esse acolhimento psicológico. Com serviço social. E já articula. Já mapeia onde que essa mulher mora. Como é que pode transportar ela para que ela não corra perigo na rua. Então só assim a gente consegue evitar feminicídios. E mesmo assim já é muito complexo a gente evitar. Mesmo com toda uma rede operando. O sistema machista patriarcal. Ele é muito muito forte. E muitas vezes essas mulheres não estão na rede. Às vezes até o medo. O medo porque como eu falei antes. A medida protetiva é um papel. Também nós temos aqui uma patrulha para patrulhar todas as mulheres. Então são mais de 300 medidas protetivas por mês. Então são muitas mulheres para poucos policiais. Em uma cidade de médio porte. Então com uma viatura policial. Então a gente ainda precisa avançar nisso. E para além disso tem essa questão da dependência emocional. De todo um contexto. Dos papéis de gênero, o que é estar numa relação para essa mulher. Então essas representações do relacionamento fazem com que elas permaneçam muitas vezes. E desistam de denunciar. Então é um movimento muito ambivalente. Uma hora ela quer denunciar. Outra hora ela não quer. Então é bem complicado. Então isso tudo existe em políticas públicas que possam fortalecer essa rede. Mas ampliar esse papel dessa rede. Também na prevenção. É toda uma cultura que precisa mudar. Para que a gente chegue ao feminicídio zero. Mas a gente já melhorou muito. Só que precisamos avançar muito ainda.

.TXT: Como o projeto age diante dos desafios de violência dessas mulheres?

Laura Ferreira: O projeto ele se responde nele mesmo. Por exemplo, quando a gente está lá no CAPES e tem uma situação muito complexa. Um caso de uma mulher que é muito complexo. A gente tenta discutir esse caso em rede. Tentar assim a gente articula. Vou te dar um exemplo, por exemplo, teve um caso de uma mulher que estava em risco extremo de feminicídio. E aí a gente fez uma articulação com o Ministério Público pra gente pensar junto com o promotor e com a delegada o que nós podíamos fazer naquele momento. Que ela não tinha pra onde ir. Que a gente não tinha uma eminência de pagamento de aluguel social. Ela não tinha onde ficar. E ela estava sendo perseguida. Então a gente leva pra própria rede discutir e acolher esse caso. Então, parece simples. Mas é muito difícil a gente conseguir articular a saúde com a justiça, por exemplo. Porque nós somos áreas completamente diferentes. Formações completamente diferentes. Não existe um sistema de comunicação único no Brasil inteiro. Não é só Santa Maria. No Brasil inteiro. No mundo inteiro. Os serviços estão aprendendo a se organizar mais articulados. Então, a gente tem essa experiência de aparecer um problema mais extremo, um desafio maior a gente tenta articular essa rede caso a caso. Porque cada uma vai exigir uma coisa. No caso dela, ela não tinha rede de apoio nenhuma nem para onde ir. Aí já muda um pouco o cenário. Então, vai depender de cada caso. Então, os desafios mais complexos principalmente estão relacionados à habitação para onde elas vão, a questão da renda. Nesse caso, ela não conseguia ir pra casa de abrigo onde ela tinha tido uma experiência que não foi positiva lá. E aí, a gente realmente não tinha onde acolher essa mulher. Os casos mais desafiadores têm que ser discutidos com a rede entre os serviços. Então, é isso que a gente ajuda a mediar essa articulação da rede. 

.TXT: De que forma o projeto prepara os profissionais para realizar atendimento às vítimas? 

Laura Ferreira: É por meio da qualificação do curso que a gente tem de extensão que acontece geralmente no segundo semestre e na discussão do caso. Por exemplo, para os estudantes de enfermagem na prática quando a gente está no serviço de saúde a gente vai receber o caso da situação, a gente vai fazer todo o acolhimento dela, a escuta dela vai tentar, então, orientar sobre os seus direitos sobre os direitos dela e aí a gente vai fazer a notificação da violência, que é uma notificação da saúde, onde a gente preenche uma ficha para lançar num sistema que é o SINAN, então, do SUS que vai para a violência epidemiológica. E aí a gente faz essa articulação direta com o centro de referência a gente já marca o atendimento para ela ir no centro de referência. Então, a formação é caso a caso, a gente trabalha esses conteúdos em sala de aula também, isso acho que é bem importante destacar aqui dentro da universidade nas minhas disciplinas a gente trabalha nas salas de aula e ofertamos esse curso de extensão que é anualmente,  fora algumas formações que a gente faz, por exemplo, semana passada eu fui fazer uma fala com policiais da Patrulha Maria da Penha e da Brigada da Região então a gente foi fazer uma contribuição num curso de formação deles então é mais pela educação permanente mesmo, sobre essa temática.

.TXT: Como as experiências do projeto impactam a percepção dos futuros profissionais de enfermagem? 

Laura Ferreira: Sim, eu percebo que elas e eles, geralmente a maioria é mulher primeiro acho que é um processo de empoderamento delas mesmo, empoderamento feminino então como é um projeto também que demanda muito articulação com outros setores com o judiciário também manda e-mail, se comunica então elas aprendem também a se comunicar de uma maneira mais formal e isso também contribui nesse processo formativo como conectar conhecer a rede, eu tenho que enviar o convite para tais e tais setores para o conselho tutelar, para o juiz como que eu ativo isso, então essa formação de articulação é interessante mas também sobre a apropriação do tema, então é muita reflexão, elas conseguem enxergar as situações de violência até para si mesmas e para familiares então elas ampliam o olhar para além do atendimento da ferida, do curativo da lesão, da medicação elas conseguem olhar para esse problema que é social, então para o que está por trás daquela lesão. É um aprendizado que a gente consegue estimular psicologicamente para as questões emocionais, psicológicas exatamente para o trauma, para os abusos para essa dor, esse sofrimento que ele não é mensurável, ele não é tão objetivo, ele é emocional muitas vezes psíquico então essa construção se dá dentro da formação e também no espaço do projeto e essa questão do olhar para a rede de entender que não é só a saúde que vai dar conta de um problema complexo desse tamanho então que a saúde ela tem tantas dimensões que ela precisa de uma rede de vários serviços, vários setores só que isso não é quase trabalhado na formação em saúde então esse é um déficit que a gente ainda tem, então eles conseguem enxergar essa rede e para serem ativadores dessa rede serem sujeitos e ativadores desses outros serviços, então acho que a grande contribuição, resumindo é a ampliação desse olhar para além da doença olhar para todos os aspectos do indivíduo, a questão do conhecimento e da ativação dessa rede e de pensar também nessas questões de prevenção do gênero de mudar a cultura machista então elas passam por esse processo de empoderamento também que eu acredito que todas nós precisamos nos empoderar para a gente conseguir fazer alguma coisa porque todos nós estamos nessa cultura machista e patriarcal então para a gente conseguir fazer alguma coisa, a gente também precisa passar por esse empoderamento e a leitura, os estudos a academia é muito importante para nos ajudar a fortalecer isso.

.TXT: Poderia citar alguns projetos específicos voltados para o enfrentamento da violência doméstica, saúde da mulher na perspectiva de gênero, direitos humanos, cidadania e políticas públicas?

Laura Ferreira: o Fórum do Enfrentamento à Violência contra as Mulheres de Santa Maria temos então o curso de extensão segura e esse outro projeto que é o apoio matricial como dispositivo de cuidado à mulher em situação de violência também tem um outro projeto no Departamento de Terapia Ocupacional coordenado pela professora Tatiana de Move, que é um projeto também que apoia as mulheres no Corre dentro do CAPES, que é para ficar com as crianças, é um espaço lúdico terapêutico para as crianças que acompanham essas mulheres durante o atendimento porque uma grande dificuldade que a gente tinha é que as mulheres não vinculavam o CAPES muitas vezes porque elas não tinham com quem deixar os filhos elas não tinham esse apoio para elas poderem estar lá no serviço então a gente entendeu que esse era um espaço importante, um espaço para as crianças então a professora Tatiana tem as estudantes de terapia ocupacional que vão para ficar com essas crianças também nesse espaço, ofertando atividades lúdicas e ocupacionais para elas nesse espaço tem também o o projeto da professora Miliana Freire, que é sobre maternagem.

TXT: Fale um pouco sobre a sua trajetória profissional e sua experiência em relação a projetos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Laura Fonseca: Tudo começou ainda no século passado, quando eu atuava como docente na Universidade de Brasília (UnB). No mestrado, desenvolvi uma pesquisa que relacionava gênero, pobreza e HIV. Na época, estávamos por volta de 1997, 1998. Acompanhamos mulheres em situação de vulnerabilidade por meio de um projeto de extensão no ambulatório de infectologia. Observamos a dinâmica da contaminação e recontaminação dessas mulheres, e o contexto social em que estavam inseridas. Alguns anos depois, ingressei na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, bem distante do Centro-Oeste. Lá, além dos projetos de pesquisa, também desenvolvi atividades de extensão voltadas às mulheres que chegavam à delegacia na época, ainda não havia uma delegacia especializada em vítimas de violência doméstica ou intrafamiliar, principalmente. Começamos então a realizar ações por meio da universidade, em parceria com o sistema de segurança pública. Inicialmente, atuamos na capacitação das equipes das delegacias para que estivessem mais preparadas para lidar com essas mulheres. De certa forma, conseguimos alcançá-las através da formação desses profissionais. Desde o final de 2013, já na UFSM, comecei a atuar, a partir de 2014, no Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão Hegemônicas que chamamos de Hegemônicas com ações de pesquisa e extensão voltadas para grupos mais vulneráveis.

Temos um trabalho de mediação que vai além da pesquisa e das palestras: atuamos principalmente por meio dos estágios em Serviço Social, realizados em espaços institucionais com vínculo direto com a temática, como o CRM (Centro de Referência da Mulher) em Santa Maria. Então, essa trajetória já soma cerca de 30 anos de atuação.

.TXT: Quais ações o curso de Serviço Social desenvolve para apoiar essas mulheres?

Laura Fonseca: As ações ocorrem principalmente por meio dos projetos de extensão. Esses projetos têm momentos e etapas voltadas à formação de profissionais que atuam diretamente com essa população. Temos, por exemplo, um projeto coordenado por uma professora do curso que trabalha com profissionais da assistência social e da segurança pública que atuam junto a mulheres vítimas de violência. Esse projeto é voltado especialmente à formação de assistentes sociais, psicólogos e outras pessoas de equipes multidisciplinares que trabalham com esses grupos. Também desenvolvemos ações de ensino por meio dos estágios curriculares em espaços sócio ocupacionais diretamente relacionados à violência contra a mulher. Embora não tenhamos um projeto exclusivo voltado diretamente às mulheres, nossas ações permeiam os contextos de vulnerabilidade que as afetam.

.TXT: Como essas atividades contribuem para a garantia dos direitos e a autonomia das mulheres?

Laura Fonseca: Acreditamos que essas ações contribuem, primeiramente, por darem visibilidade à realidade vivida por essas mulheres. Elas revelam o que está acontecendo e apresentam essa realidade também aos nossos estudantes. Como é um curso superior, é fundamental que desde o início os alunos tenham contato não só com os temas, mas com as situações concretas do município, do estado e do país. Por exemplo, no segundo semestre do curso, temos uma disciplina obrigatória chamada "Gênero, Políticas Sociais e Serviço Social", destinada a estudantes ingressantes. É uma disciplina obrigatória, não optativa, e desde o início buscamos problematizar essa realidade em sala de aula.

.TXT: Quais parcerias o curso tem com redes de proteção social, ONGs e políticas públicas?

Laura Fonseca: Mantemos parcerias com todas as secretarias do município de Santa Maria, tanto para estágios quanto para projetos de extensão não só na área da violência, mas também em outras, como segurança alimentar e assistência social. Temos parceria com as secretarias de Assistência Social, Saúde e educação. Atuamos também com o terceiro setor, especialmente com ONGs que atendem mulheres e outros grupos em situação de vulnerabilidade.

.TXT: Como o curso lida com os desafios da vulnerabilidade social dessas mulheres? 

Laura Fonseca: Essa pergunta é muito boa. Primeiro, partimos do entendimento de que essas vulnerabilidades não são naturais; elas expressam uma realidade social mais ampla, na qual a universidade também está inserida. Assim, lidamos com essas questões por meio do ensino, da pesquisa e da extensão. Alguns núcleos são mais organizados em torno da questão da vulnerabilidade das mulheres, outros nem tanto, mas todos compartilham o compromisso de colocar a universidade a serviço da sociedade e trazer a sociedade para dentro da universidade. Buscamos reconhecer e concretizar essa relação, pois é a partir dela que conseguimos promover mudanças. Os projetos são formas concretas de dialogar com a sociedade. 

.TXT: De que maneira o curso prepara os profissionais para a defesa dos direitos dessas mulheres? 

Laura Fonseca: Desde o início da formação. O curso de Serviço Social tem como base essa fundamentação. Surgiu há quase 100 anos, no final da década de 1930, exatamente para lidar com as expressões da "questão social", ou seja, com as contradições e desigualdades presentes na sociedade. O curso tem nove semestres e, do primeiro ao último, visa preparar profissionais para garantir direitos, atuar na sua defesa e desenvolver habilidades para fortalecer ações práticas em seus contextos de trabalho. Destaco algumas disciplinas como "Cidadania e Direitos Humanos", "Gênero", "Família e Segmentos Vulneráveis" e "Gerontologia Crítica", esta última voltada à população idosa, também vulnerável. Todas essas disciplinas dialogam constantemente com a defesa de direitos.

.TXT: Como as experiências no curso impactam a percepção dos futuros assistentes sociais sobre a equidade de gênero? 

Laura Fonseca: Acredito que o impacto ocorre de maneiras diferentes, dependendo de como cada estudante recebe e vivencia a formação. O conceito de equidade, por exemplo, é muito presente na área da saúde, e se diferencia da igualdade justamente por reconhecer as diferenças e propor ações a partir delas. A formação acadêmica não garante sozinha essa percepção, mas ela potencializa o entendimento e coloca o estudante diante da necessidade de incorporar essa perspectiva no exercício profissional. Essa diretriz está também assegurada em nosso Código de Ética Profissional, em vigor desde 1993, que já apontava a equidade como um princípio e valor fundamental. Então, embora o debate esteja mais presente atualmente, essa preocupação não é nova na profissão. Claro que a forma como cada um irá materializar essa visão dependerá também de sua trajetória cultural e social. 

.TXT: Poderia citar alguns projetos específicos voltados para o enfrentamento da violência doméstica, desigualdade econômica e outras formas de opressão contra as mulheres?

Laura Fonseca: Temos um projeto coordenado pela professora Cristina Fraga, voltado à formação de profissionais da segurança pública para o enfrentamento da violência contra a mulher. Também temos o Núcleo Hegemônicas, que coordena ações como o "Quartas Hegemônicas" e grupos de estudos de gênero, voltados à discussão das vulnerabilidades e de como elas afetam especialmente as mulheres. Além disso, temos atuação junto à Casa Verônica e outras iniciativas dentro da própria universidade.


Repórteres: Joice Figueiredo e Raíssa Dietrich

Contato: joice.scherer@acad.55bet-pro.com / raissa.dietrich@acad.55bet-pro.com

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Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:

Protótipo da colher desenvolvido no CTISM

Para muitas pessoas, o simples ato de segurar uma colher para se alimentar se torna uma grande missão. Isso ocorre devido aos tremores causados por doenças degenerativas, como o Parkinson e outros distúrbios com esse tipo de sintoma. José Juraci Carvalho, 69, é um desses casos. Ele iniciou o tratamento para a Doença de Parkinson em abril de 2025, após passar 4 anos com o diagnóstico incorreto e teve seu caso tratado como Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Um dia eu acordei com o lado esquerdo do corpo paralisado, mas pensei que tivesse dormido em cima. Conforme os dias foram passando e aquilo não melhorava, fui ao médico fazer exames neurológicos e fui diagnosticado com AVC. Passei muito tempo tomando medicação para a doença errada, quase morri”, explica José. 

De acordo com uma pesquisa publicada na Revista Científica The Lancet Regional Health e realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em parceria com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), em 2024, mais de 500 mil brasileiros acima de 50 anos convivem com Parkinson. Conforme dados divulgados pelo Ministério da Saúde, aproximadamente 20% da população mundial acima dos 65 anos tem chance de desenvolver Tremor Essencial (TE) em algum período da vida. A doença de Parkinson é uma enfermidade neurológica crônica que compromete a coordenação motora. Entre os principais sintomas estão os tremores, lentidão nos movimentos, rigidez muscular, problemas de equilíbrio e alterações na fala e na escrita. O quadro de parkinson é resultado da degeneração de células localizadas em uma área do cérebro chamada substância negra. Essas células são responsáveis pela produção da substância dopamina - um neurotransmissor essencial para a transmissão de impulsos nervosos aos músculos. A redução ou ausência dessa substância compromete os movimentos corporais, provocando os indícios característicos da doença. O diagnóstico da doença é clínico, baseado na análise do paciente e em exames neurológicos. Até o momento, não existem exames laboratoriais ou testes específicos que confirmem a doença ou maneiras de prevenção. A doença progride de forma lenta e contínua e os tremores ficam mais evidentes quando o paciente segura objetos leves, como uma colher. Esses movimentos são chamados de “tremores de repouso” porque ocorrem quando o corpo está parado e tendem a se intensificar em momentos de estresse ou nervosismo. No entanto, não é apenas o parkinsonismo que causa tremores. Outras condições neurológicas também são afetadas por essa circunstância e o Tremor Essencial (TE) é uma das mais comuns. Diferente do parkinson, o tremor essencial geralmente afeta as mãos durante os movimentos voluntários, como escrever, segurar objetos, e tende a ter origem familiar, ou seja, pode ser herdado geneticamente. Outras causas de tremores incluem esclerose múltipla, que afeta a comunicação entre o cérebro e o corpo; distúrbios da tireoide, como o hipertireoidismo; além de efeitos colaterais de certos medicamentos ou abstinência de álcool. 

A fonoaudióloga do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), integrante das equipes de Cuidados Paliativos e Geriatria, Marília Trevisan Sonego, explica que os momentos de avaliação clínica possibilitam a identificação de disfagias - dificuldade de engolir alimentos e até mesmo a própria saliva. No momento da alimentação, o tremor pode gerar angústia e preocupação para tentar controlar os movimentos. “Os pacientes acabam esquecendo de deglutir a própria saliva ou resíduos alimentares. Nesse sentido, a colher estabilizadora tem o potencial de dar segurança ao paciente”, afirma Marília.

Apesar de ainda não haver cura para a doença de Parkinson, é possível tratar os sintomas e desacelerar a sua progressão. A dificuldade em encontrar cura está relacionada à genética humana, pois as células nervosas perdidas na substância negra não se regeneram. O tratamento pode envolver o uso de medicamentos que atuam sobre a dopamina, fisioterapia para manter a mobilidade e em alguns casos intervenções cirúrgicas. Além disso, a fonoaudiologia desempenha um papel fundamental no tratamento de dificuldades na fala e na voz que muitos pacientes enfrentam.  Embora o tremor possa ser apenas um sintoma, ele é um sinal de que o corpo está pedindo atenção. E, muitas vezes, um diagnóstico precoce faz toda a diferença na qualidade de vida do paciente.

Mais que um projeto, uma causa

Diante desse cenário, surgiu o projeto “Desenvolvimento de Sistemas Eletroeletrônicos voltados à Tecnologia Assistiva, coordenado pelos professores do Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (CTISM), Thiago Cattani Naidon e Saul Azzolin Bonaldo. Vinculada ao grupo de pesquisa “NightWind”, desde 2023 a iniciativa produz acessibilidade ao criar itens de baixo custo pensados para pessoas com algum tipo de deficiência e que não têm condições de pagar por uma Tecnologia Assistiva  (TA).  “A gente começou a ver que não é só para quem tem Parkinson, tem muita gente que tem problemas de tremor, e aí pensamos: Como desenvolver algo acessível? Porque hoje, uma colher importada que estabiliza o movimento custa cerca de R$ 20 mil. Isso é inviável para a maioria das pessoas”, comenta Saul.                     

Interface do site que será disponibilizado para uso

Entre os produtos, desenvolve-se uma colher ergonômica que visa estabilizar os tremores durante as refeições e busca garantir uma maior independência aos pacientes. Essa demanda surgiu a partir da experiência da fonoaudióloga Marília em seus atendimentos hospitalares. Ela percebeu que os pacientes não conseguiam se alimentar sozinhos devido aos tremores e sugeriu o desenvolvimento de uma peça que pudesse proporcionar essa autonomia. Em sua primeira versão, o protótipo da colher utiliza a plataforma microcontrolada Arduino, que é manipulada na criação de eletrônicos interativos como impressoras. Porém, o professor Thiago menciona que, para o produto final, o planejamento é substituir o Arduíno pela plataforma ESP, que oferece um maior controle da amplitude de movimento. “Estamos verificando a possibilidade de usar a plataforma ESP, que é outro microcontrolador mais potente porque como o processo de correção de ângulo e inclinação envolve técnicas de controle é necessário um dispositivo que dê conta de executar operações lógico-matemáticas”, explica Naidon. Além disso, o modelo da colher possui um servomotor, um acelerômetro e um giroscópio que garantem a funcionalidade do produto. Toda a produção da colher é feita no CTISM, onde os participantes do projeto têm acesso a equipamentos, como a impressora 3D, na qual são feitas as impressões dos acessórios.                                                                                           

Bolsista do projeto, Gustavo Carabajal

Para o discente do terceiro ano do Curso Técnico em Mecânica Integrado ao Ensino Médio e bolsista do projeto, Gustavo Carneiro Carabajal, a oportunidade de trabalhar em um grupo como esse é uma forma de colecionar memórias e aprendizados. Gustavo tem sob sua responsabilidade  o desenvolvimento do protótipo da colher, com auxílio e supervisão do professor Thiago. Aliado a isso, o estudante também trabalha na criação de um site sobre o produto, que irá conter informações técnicas sobre a utilização e será disponibilizado para médicos, usuários da ferramenta e familiares. Antes de ser finalizada e disponibilizada para uso no HUSM e no Sistema Único de Saúde (SUS), a colher estabilizadora passará por um rigoroso processo de testes para aplicação em pacientes que enfrentam dificuldades diariamente.

Uma dessas pessoas é José, que convive com tremores constantes nas mãos, especialmente perceptíveis durante as refeições. Para sua esposa e principal cuidadora, Diva Ilga Bessauer Carvalho, 69, a existência de uma ferramenta como a colher desenvolvida pela NightWind poderia transformar sua rotina. “Ele tem bastante dificuldade para se alimentar por causa dos tremores. Todas as pessoas que têm Parkinson deveriam ter acesso a esse tipo de coisa”, comenta Diva. O caso de José evidencia a urgência e a relevância de iniciativas como esta, que aliam tecnologia e responsabilidade social para promover mais autonomia e qualidade de vida a quem precisa.

Para saber mais sobre o projeto, acompanhe o Instagram:@ctism_nightwind


Repórteres: Maria Eduarda Camargo e Myreya Antunes

Contato: eduarda.carvalho@acad.55bet-pro.com/myreya.antunes@acad.55bet-pro.com

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Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:

Impressão da prótese

Reconhecer o que constitui a sua identidade é enxergar as atividades que preenchem o tempo e lhe dão sentido. Cada gesto simples da rotina é carregado por autonomia, significado e pertencimento. Essa é a perspectiva de ocupação que guia o trabalho de terapeutas ocupacionais. Quando o corpo enfrenta barreiras para se expressar, os profissionais entram em ação para devolver essa capacidade e, assim, reconstruir sua independência.

Fazer as unhas, abrir o fecho da mochila, cortar carne, tocar piano e tantas outras ações imersas no cotidiano revelam-se objetivos de pessoas com diferenças funcionais. A Terapia Ocupacional (TO) desenvolve o olhar atento para essas minuciosidades, a percepção sutil torna-se ferramenta clínica. Seu trabalho é moldar estratégias para que seus pacientes possam viver práticas diárias com dignidade.

No curso de Terapia Ocupacional da UFSM, o projeto de extensão Incluir Tecnologias Assistivas (IncluirTA) representa a união entre sensibilidade e técnica. A iniciativa desenvolve dispositivos de tecnologia assistiva para dar suporte a pacientes que, por motivos físicos, mentais ou emocionais, apresentam dificuldades em realizar tarefas do dia a dia. Os recursos produzidos pelo grupo fazem parte do campo da Tecnologia Assistiva (TA), dedicado a desenvolver uma variedade de soluções, das ferramentas mais simples até sistemas complexos. São exemplos disso próteses, órteses, cadeira de rodas, aparelhos auditivos e bengalas, os quais proporcionam participação ativa de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida na sociedade.

As múltiplas possibilidades de criação e inclusão proporcionadas pela área chamaram a atenção da professora Daniela Tonús desde a graduação. Quando o departamento do curso adquiriu uma impressora 3D, a docente viu uma oportunidade de colocar seus estudos em prática. A iniciativa resultou na criação de uma ação extensionista e na incorporação do tema à disciplina de Prática Supervisionada. O Incluir Tecnologias Assistivas iniciou suas atividades no início de 2025 e, junto da coordenadora, trabalham seis extensionistas, um responsável pela modelagem e impressão 3D, o estudante Julio Cesar Lima, e  também a docente do curso de TO, a Dra. Aline Ponte. Para abraçar as demandas da comunidade, o projeto tem parcerias com instituições que trabalham com qualidade de vida e inclusão. Entre elas, destaca-se a Associação Colibri, organização de Santa Maria que promove o bem-estar para pessoas que necessitam de suporte físico ou intelectual.

Quando ouvir é acolher

No primeiro contato com os pacientes, a equipe do IncluirTA busca identificar mais do que limitações físicas. Por meio de um questionário específico aplicado pelas estudantes de TO, as expectativas, motivações e receios de cada caso são revelados. A professora Daniela explica que as prioridades do paciente ficam em primeiro plano: “Eu trabalho uma perspectiva muito do que o paciente me traz como desejo, não do que eu vejo como uma possibilidade para ele”.

A escuta sensível e atenta foi essencial para a idealização da prótese de Fernando Moro, funcionário da Imprensa Universitária da UFSM e  primeiro paciente atendido pelo IncluirTA, encaminhado pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP). Após um acidente de carro em 2023, Fernando teve parte do braço esquerdo amputado, acima do cotovelo. Antes do projeto, utilizava uma prótese fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contudo, sua adaptação não foi bem-sucedida. “Ela era grande demais, pesada demais. Usei poucas vezes, não me acertei”, reconhece Fernando. Além de instruções básicas, ele não recebeu treinamento para usar o aparelho, o que levou ao quase total abandono.

O trabalho desenvolvido pelo projeto busca produzir tecnologias assistivas únicas, conforme as necessidades diárias de cada paciente. A voluntária e aluna de TO, Maria Eduarda Witschoreck, expressa como esse trabalho de escuta e pensamento clínico contribui para uma produção final mais assertiva. “A Terapia Ocupacional é muito focada nisso, na escuta real do sujeito, das suas necessidades, suas vontades e a realidade do seu contexto”.

No caso do Fernando, o grupo identificou questões relacionadas à produtividade e lazer que mereciam atenção ao elaborar o planejamento da prótese. “Ele tinha uma vida muito agitada - carregava peso, praticava esportes, tocava teclado -, isso são marcas importantes para levar em conta na produção”, explica a coordenadora. A solução foi um dispositivo leve, funcional e adaptado às suas atividades reais.

Análise do planejamento da prótese. | Foto: Mathias Ilnicki.

Conexão entre a mente e a realidade

No IncluirTA, a impressora 3D é a ferramenta que inaugura a possibilidade de criar tecnologias assistivas personalizadas, moldadas com precisão às demandas de cada paciente. O responsável técnico é o estudante do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Técnico Industrial de Santa Maria da UFSM (CTISM), Julio Cesar Lima. Autodidata em impressão 3D, Julio passou a integrar o projeto ao ser chamado para resolver problemas técnicos no equipamento. “Quando me convidaram, o projeto já estava em andamento, mas faltava alguém para ajudar com os aspectos técnicos da impressão”, afirma o estudante.

Além da manutenção e operação da impressora, Julio lidera a modelagem das peças no software Fusion 360, em um processo que envolve toda a equipe. Ter a oportunidade de trabalhar com uma tecnologia de alto nível enquanto estudante era algo que Maria não esperava: “É um processo demorado e desafiador, não vou negar. Mas é incrível ver o que eu criei no meu computador ser impresso de forma material com potencial de ajudar um paciente de verdade”, completa a extensionista.

Chegado o momento da impressão, entre camadas e fatiamentos, o dispositivo toma forma. A prótese de Fernando ainda não foi testada, mas o servidor da UFSM já demonstra sua satisfação com o projeto: “Acho que vai suprir as necessidades, estou na expectativa. Mas fui muito bem recebido pelas alunas, pelas professoras e fiquei bem agradecido”. O projeto Incluir Tecnologias Assistivas demonstra que tecnologia e cuidado podem caminhar juntos. A escuta às particularidades do cotidiano e a busca por soluções adequadas para cada caso tornam o atendimento um processo construído em conjunto entre paciente e profissionais. No encontro entre a Terapia Ocupacional e a tecnologia assistiva, dispositivos ganham um novo sentido: o de resgatar a autonomia.

Estudo de modelagem no Fusion 360 | Foto: Mathias Ilnicki

Para saber mais sobre o projeto, acompanhe o Instagram: @incluirta


Repórteres: Amanda Borin e Mathias Ilnick

Contato: amanda.borin@acad.55bet-pro.com / mathias.dalla@acad.55bet-pro.com

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Para ouvir o áudio do dossiê, clique abaixo:

As tecnologias assistivas (TA) são recursos criados para promover mais acessibilidade e autonomia para pessoas com deficiência. Elas têm como objetivo permitir que essas pessoas realizem suas atividades de maneira mais independente.  As TAs não são voltadas apenas para pessoas com deficiências permanentes, mas também para aquelas que possuem deficiências temporárias ou situacionais. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) assegura o direito à acessibilidade em todos os espaços, sejam eles físicos ou digitais. 

Neste dossiê, iremos abordar dois projetos que utilizam desses recursos para promover a autonomia e acessibilidade para pessoas com deficiência:

O projeto Incluir Tecnologias Assistivas do curso de Terapia Ocupacional da UFSM faz uso da impressora 3D para criar dispositivos únicos, adaptados às necessidades de cada paciente. A ação extensionista proporciona maior independência às pessoas com mobilidade reduzida, com impacto direto na qualidade de vida.

O projeto Desenvolvimento de Sistemas Eletroeletrônicos voltados à Tecnologia Assistiva integra o grupo de pesquisa NightWind do CTISM. A iniciativa tem como objetivo a criação de produtos de baixo custo que promovam uma ampliação na autonomia na vida de pessoas com algum tipo de deficiência ou doenças degenerativas que causam uma redução das capacidades motoras.

Para saber mais sobre as iniciativas, leia as reportagens:

http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2025/07/14/inclusao-sob-medida
http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2025/07/14/tecnologia-a-servico-da-acessibilidade

Repórteres: Amanda Borin, Mathias Ilnick, Maria Eduarda Camargo e Myreya Antunes

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