UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Tue, 21 Apr 2026 01:30:43 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2024/10/29/eleicoes-2024-tv-campus-entrevista-o-professor-da-ufsm-eleito-vereador-luiz-fernando-cuozzo-lemos Tue, 29 Oct 2024 16:49:07 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=67437

Ensino e cidadania: da sala de aula à câmara - Neste episódio, a TV 55BET Pro recebeu Luiz Fernando Cuozzo Lemos, professor do Centro de Educação Física da UFSM e vereador eleito para atuar na câmara de Santa Maria à partir de 2025.

Em entrevista, Luiz Fernando explicou os motivos de entrar para a política, as causas e projetos que pretende defender na Câmara de Vereadores, de que forma pretende equilibrar as funções na UFSM com as novas responsabilidades como vereador entre outros assuntos. 

Você assiste ao programa completo no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=0B04ImZXsuQ&t=647s]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/laboratorios/lageolam/2024/07/03/professores-do-laboratorio-de-geologia-ambiental-lageolam-participam-de-entrevista-no-jornal-diario-acerca-dos-efeitos-dos-desastres-ocorridos-ha-dois-meses-no-rs Wed, 03 Jul 2024 14:34:40 +0000 http://www.55bet-pro.com/laboratorios/lageolam/?p=293 Após dois meses das chuvas intensas que assolaram o Rio Grande do Sul, a cidade de Santa Maria ainda possui os vestígios do desastre. 

Além das inundações e alagamentos, os movimentos de massa foram eventos ocorridos em grandes proporções e com danos irreversíveis, ceifando a vida de duas pessoas e impactando a de centenas que moram em áreas de risco, 

Os professores do Lageolam, Andréa Valli Nummer, Romário Trentin e Luis Eduardo de Souza Robaina, foram convidados pelo Jornal Diário a conversar sobre as características geológicas dos morros e os fatores externos que podem ter agravado a situação de deslizamento, que ocorreu em quatro locais de Santa Maria:  Rua Canário, Vila Churupa, Vila Santa Tereza e Vila Bilibio.

"Conforme a geóloga da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Andréa Nummer, os montes de Santa Maria são formados por rochas sedimentares, que desgastam facilmente com o tempo. No topo, rochas vulcânicas, mais resistentes. Toda essa estrutura ainda tem a cobertura de um material chamado de colúvio (sedimentos soltos que foram depositados na base das encostas).

– São blocos de rocha de todos os tamanhos misturados com solo mais fino que cobre as encostas, o que gera um material instável. Então, várias áreas da encosta dos morros têm esse processo que chamamos de rastejo, quando o solo anda um pouquinho e para. Esse é um processo natural. O problema é quando temos ocupação, porque pode causar risco e danos – explica Andréa. 

Conforme o geógrafo Romário Trentin, no caso de áreas ocupadas, o que ocorre é um agravamento do dano no momento que atinge estruturas e coloca em risco quem reside no local:

– A ocupação pode, sim, em algumas situações, condicionar novos escorregamentos. A encosta tem uma inclinação natural e, no momento que uma casa é construída, faz um corte na condição natural. Se andarmos por aí, em quase todas as regiões houve escorregamento do solo, mas que não causaram danos porque não havia construções perto." (Jornal Diário, 1 de julho de 2024).

Fonte: Diário Santa Maria

Segundo a matéria publicada no Diário, 80 das 250 famílias que moram em locais de risco ainda estão resididos no local, aguardando e procurando um local seguro e permanente para morar. 

Esses dados aliados às falas dos professores, traz a tona a reflexão sobre a questão de moradia na cidade, a dinâmica das ocupações e a falta de atenção e suporte às pessoas que residem em áreas de risco. Fatores esses refletidos nas falas dos moradores entrevistados pelo Diário, tais como: 

"- Eu não vejo a hora de sair, tenho medo de ficar aqui."

"- Com as últimas chuvas, os barrancos estão caindo mais e mais."

"-  É um terror, assustador mesmo cada vez que ouço o barulho de chuva ou trovão."

"- Eu me medico para dormir porque tenho um grande trauma daquele dia.

"- (...) não é por falta de vontade que ainda estamos aqui. Realmente, não estamos conseguindo. E alguns proprietários têm medo de locar pelo Aluguel Social porque eles devem ter preconceito, alguma coisa assim, com quem mora em áreas de risco."

Acesse a máteria na íntegra ]]>
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O Rio Grande do Sul (RS) atravessa o maior desastre ambiental de sua história, completando, nesta semana, um mês de consequências devastadoras relativas às chuvas fortes, alagamentos e inundações. Segundo dados atualizados da Defesa Civil do RS, até o momento foram contabilizados 469 municípios afetados, resultando em 169 óbitos, 53 desaparecimentos, 806 feridos, 48.789 pessoas em abrigos, 581.638 desalojados e 2.345.400 afetados. Nesse cenário, estão atuando um efetivo de 28.181 pessoas, 4.046 viaturas, 208 embarcações e 14 aeronaves. Este mega acontecimento estadual, que toma proporções de discussão nacionais e, no contexto acadêmico e comunicacional, internacionais, denuncia a necessidade inadiável de colocar a temática socioambiental em evidência.

No Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Poscom) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), há docentes cuja trajetória de pesquisa é atravessada por esse tema há cerca de 20 anos. A fim de discutir o papel do jornalismo e da comunicação diante da conjuntura atual, bem como as possibilidades de trabalho conjunto entre jornalistas, comunicadores e cientistas, os convites de pesquisa que emergem nesse contexto e os principais desafios projetados aos pesquisadores ao tratar do assunto, foram entrevistados Márcia Franz Amaral e Reges Schwaab.

[caption id="attachment_65932" align="alignleft" width="502"] Marcia e Reges atuam no POSCOM e pesquisam a cobertura de catástrofes e desastres e problemas socioambientais[/caption]

Márcia é professora do Departamento de Ciências da Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria. É vice-líder do EJOR - Grupo de Estudos em Jornalismo (CNPq/UFSM). Foi professora visitante da Universidad Rey Juan Carlos, na Espanha, e realizou pós-doutorado em Comunicação na Universitat Pompeu Fabra, também na Espanha. Atua na área de Comunicação, com ênfase em discurso jornalístico, jornalismo popular, sensacionalismo, jornalismo e emoção, e cobertura de catástrofes e desastres.

Reges é professor do Departamento de Ciências da Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria, atuando no campus de Frederico Westphalen (RS). É líder do milpa - laboratório de jornalismo (CNPq/UFSM). Dirige o podcast Palavra Terra. Realizou pós-doutorado em Comunicação na Universidad de Antioquia, na Colômbia. Atua na área de Comunicação, com ênfase em jornalismo, antropoceno, problemáticas socioambientais, método de reportagem, narrativa e discurso midiático.

ANNA JÚLIA: Como você descreve o papel do jornalismo/da comunicação diante da tragédia climática que observamos no RS?

MÁRCIA: Eu prefiro trabalhar com esta sucessão de acontecimentos que vivemos no RS na chave do termo desastre, numa dimensão não só climática, mas também socioambiental. Me embaso em alguns aportes da Sociologia dos Desastres, pois o termo tragédia está muito associado com uma dimensão do inevitável. Entretanto, é preciso dizer que o termo desastre é também bastante limitado, porque ele se denomina epicentro de um entorno complexo e deve ser tratado no escopo de largos processos sociais.

Podemos afirmar que um desastre é sempre multicausal. O desastre que vivemos é o encontro de eventos extremos com vulnerabilidades e abriga uma sucessão de crises agravadas por  problemas sociais cronificados. Assim, um desastre surge sempre pelos seus impactos, mas ele nunca começa quando eclode. São várias camadas de questões de diferentes ordens que requerem abordagens múltiplas. E, ademais, outras  crises virão após o ápice do desastre, evidenciando o quanto nossa sociedade é frágil e o quanto tem fracassado em diferentes aspectos.O desastre é climático, mas é também uma crise de modelos de desenvolvimento. Neste mega acontecimento, a sociedade, de costas para a ciência, foi empurrada a entender subitamente que há extremos de clima e de tempo intensificados e mais frequentes que, ao se encontrarem com extremos de outras ordens, eclodem crises imensas. 

Neste momento avassalador, o jornalismo é refém dos acontecimentos e das fontes que já estão previamente organizadas e treinadas para reproduzir suas visões de mundo. A informação ao vivo e as imagens cinematográficas que podem salvar vidas são as mesmas que geram comoção e espetáculo. Compassada com a emergência, a apuração da cobertura em tempo real é sempre um tanto deficiente, pois é sincrônica, ou seja, realizada a partir de informações que chegam muito fragmentadas. Num segundo momento após o estalido da crise, temos a cobertura das ações de solidariedade que são fundamentais, mas de alguma maneira também são catárticas e paralisam a crise no tempo. Muitas coberturas de desastres tradicionalmente se encerram neste momento. Não será o caso do desastre no RS, em função de ser um mega acontecimento. Assim, o jornalismo precisa manter esta discussão viva.

É com muita dificuldade que o jornalismo consegue operar em outras dimensões, mais especificamente, no “antes” e no “depois” do acontecido. E é justamente aí que está sua potência. Comunicar riscos que são invisíveis, identificar vulnerabilidades sem “ganchos” aparentes e acompanhar o desenrolar da vida das pessoas afetadas por um largo período de tempo e, mais, fazer um jornalismo de precaução, buscando evitar o próximo desastre, são grandes desafios. O problema é que essas necessidades subvertem as lógicas jornalísticas a que estamos acostumados, pois o jornalismo é pautado pelo factual e por critérios de noticiabilidade que precisam ser superados.Precisamos desnaturalizar os problemas sociais crônicos e considerarmos que a as questões ambientais e a visão antecipada dos riscos climáticos integram as exigências de um jornalismo que faça a diferença. 

REGES: Um primeiro papel é a cobertura imediata, com ética e com a perspectiva de orientação e de prestação de serviços. O trabalho jornalístico bem feito tem a capacidade de ajudar nas ações imediatas e dar a correta dimensão do que está acontecendo. Gradativamente, vemos a necessidade de começar a buscar o contexto e as explicações. Esse é um papel fundamental, o coração da prática jornalística, ou seja, a apuração precisa, completa e capaz de oferecer interpretações sem simplificar as questões ou negar as suas complexidades.Um acontecimento como o que temos presenciado no RS, que terá duras consequências, requer uma leitura que articule o social, o político, o econômico, o cultural, todos, inevitavelmente, atravessados pelo ambiental. No atual cenário, o jornalismo precisa ser interpretativo, precisa mostrar conexões e ser plural.

Talvez a gente acabe percebendo, em um acontecimento como este – que é difícil classificar como desastre, como tragédia, ou qualquer um desses nomes –, que estamos diante de algo que não se esgota, que talvez não passe, no sentido de que volte a se repetir em diferentes intensidades. Ou seja, estamos diante de um tipo de acontecimento, nesse contexto climático, que é multifacetado, com muitas camadas e diversos fatores que o desencadeiam. Ao mesmo tempo, ele tem consequências difíceis de mensurar, pois parte delas está relacionada a sérias questões sociais que já enfrentamos há muito tempo. É algo que inclusive se mostra mais complexo e até transcende a ideia de uma leitura socioambiental. Isto é, estamos diante de múltiplos fatores que, com intensidades variáveis, vão fazer com que esse tipo de fenômeno se replique e chegue nesses pontos extremos. Então, estamos sendo lembrados, quando olhamos para um acontecimento tão difícil, tão duro nas suas consequências, que precisamos passar a operar dentro de outro tipo de paradigma.

 

ANNA JÚLIA: Como jornalistas/comunicadores e cientistas podem trabalhar juntos para melhorar a comunicação sobre questões ambientais emergentes?

REGES: No jornalismo, especialmente, a gente precisa de uma formação que incorpore uma visão transversal atravessada pelas questões sociais e ambientais que trazem a necessidade de compreensão de campos como os direitos humanos, os direitos da terra, os direitos dos animais, a justiça climática e os elementos das chaves de leitura interseccional.Então, as questões de raça, de gênero e de classe, a perspectiva da vulnerabilidade, das pessoas e de outras formas de vida, são elementos aos quais a gente não pode negar o protagonismo para que seja possível produzir algo relevante narrativamente. Ou seja, nós precisamos atuar muito fortemente no diálogo, na mediação dessas distintas maneiras de habitar o mundo. Nós precisamos ser abertos a diferentes narrativas e para isso precisamos reorientar o nosso olhar e a nossa escuta na consideração daquilo que é necessário para entender qual é esta Terra que a gente habita hoje, o que está acontecendo efetivamente, compreendendo que esse cenário de extremos talvez não possibilite que haja um tipo de solução única. 

Atuar no sentido de uma lógica de diálogo social, de mediação dessa conversa, é algo que vai exigir muito do jornalismo, ainda mais dentro de outros cenários que hoje se colocam, como grandes disputas em relação a entendimentos políticos e discursivos sobre o que estamos vivendo. Então, incorporar outros vocabulários, entender o que significa um planeta em emergência climática e que há um atravessamento muito sério em relação às consequências do que tem acontecido quando a gente olha pela lógica da vulnerabilidade de parte da vida humana e de parte também dos não humanos, significa compreender que é necessário uma atitude realmente muito pensada e que é preciso ter clareza em relação à motivação de porque nós fazemos jornalismo e de porque nós fazemos comunicação num mundo como esse.

MÁRCIA: A precarização do trabalho jornalístico é um ponto que não pode ser esquecido, visto que muitas vezes sabemos o que é preciso ser feito, mas uma cobertura mais sistemática e profunda é inviável nas condições atuais de trabalho. E durante um desastre, os jornalistas também são afetados individualmente ou a comunicação como um todo pode sofrer um apagão. Neste caso do RS, tivemos jornalistas do interior que atuaram como resgatistas, jornalistas que perderam suas casas, ficaram ilhados ou ficaram sem internet. As sedes de grupos de comunicação e setores de informação do governo ficaram alagados. Neste vazio de informações, crescem iniciativas comunitárias de informação e mobilização, mas também atuam as informações falsas.

Também há uma baixa autonomia dos jornalistas nestas coberturas que, ao não conseguirem se especializar ou aprofundar suas matérias, acabam dependendo muito de fontes detentoras de poder ou de alguns especialistas já “conhecidos/tarimbados”, os “intelectuais midiáticos” que circulam repetidamente na mídia, muitas vezes falando de questões que não são suas expertises e, em outras vezes, pessoas sem conexão com as realidades e saberes locais. Após a pandemia, houve um reencontro entre cientistas e jornalistas que não pode se perder. Por mais que sejam campos de lógica completamente diferentes, há um lugar tanto na ciência quanto no jornalismo que exige que a informação aprofundada, mesmo passível de incertezas, deve ser democratizada.

 

ANNA JÚLIA: Quais convites de pesquisa emergem a partir deste cenário?

MÁRCIA: Na minha avaliação, as zonas de sombra do ponto de vista comunicacional mais amplo são ainda visibilizar as vulnerabilidades sociais e comunicar as necessidades de cidades reprogramadas para outros patamares de riscos climáticos, ambientais e sociais. De maneira mais específica, ao abordar o momento de um desastre , o que me deixa mais assustada é o fato de que nem as defesas civis, nem os gestores e muito menos a população sabem como proceder na hora de um alerta de chuvas extremas ou de deslizamentos. Este é um caminho complexo que precisamos rever. O que é de fato um alerta de risco hidrológico ou de movimento de massa, como ler sua gravidade, o quanto ele está próximo de A ou B, o que pode e deve a Defesa Civil fazer, como deve o comunicador agir e em que medida a população consegue dar atenção a ele. 

São ações que dependem de ações comunicacionais sobretudo locais.A ideia de que o alerta meteorológico por si funciona precisa ser revista. Há um período de sensibilização e de criação de redes de confiança e credibilidade que precisa ser construído antes deste alerta poder funcionar.

REGES: Pensando o cenário que temos hoje na pesquisa em comunicação, está colocado um certo compromisso ou um convite inescapável, digamos assim, para que a gente intensifique o diálogo com outros campos de conhecimento, trazendo esse diálogo abertamente e de uma forma orgânica – não é meramente incorporar conceitos, mas realmente fazer com que haja uma conversa para complexificação do modo como a gente vai ler os fenômenos sociais. Dentro desta chamada nova época da terra, dentro do Antropoceno, o que a gente tem é a necessidade de convivência com distintos saberes e a necessidade de incorporação de elementos que têm aparecido dentro de chaves como a interseccionalidade, a decolonialidade e também a aproximação com campos das ciências da terra e do clima. 

Hoje, fazer Ciências Sociais e Humanas, fazer pesquisa em comunicação, requer a associação, a convivência, o diálogo, no sentido de uma reconstrução do nosso olhar para essa multiplicidade de mundos e para a necessidade de realmente contribuir para desarmar essa impossibilidade da vida, esse anunciado fim da vida, já que temos somente um planeta e que precisamos achar uma maneira de continuar habitando ele sem que isso signifique a aniquilação de mundos com os quais a gente deve conviver. Então, temos a necessidade real de abrir o fazer científico para uma atitude essencialmente de diálogo, de convivência e de incorporação orgânica e respeitosa com outras lógicas de pensamento, modos de habitar e modos de pensar a terra.

 

ANNA JÚLIA: Quais são os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores da área ao tratar destas questões ambientais emergentes?

REGES: Talvez, por muito tempo as pesquisas que alertaram para essas questões, as pesquisas que discutiram as questões climáticas dentro da comunicação, entraram nesse espaço, que socialmente a gente acabou desenvolvendo, que é uma espécie de uma dissonância em relação ao tempo que a gente vive, um descrédito de parte da sociedade em relação a real possibilidade de tantas catástrofes acontecerem. Uma procrastinação, uma não atenção à emergência climática como algo real, concreto e localizado em todos os espaços geográficos que a gente conhece, sendo que em alguns deles já a vemos de maneira muito contundente. Então, assim como os alertas que midiaticamente circulavam, partes dessas pesquisas, talvez na avaliação de algumas pessoas, pudessem soar um tanto alarmistas. 

O que acontece também é que parte das nossas pesquisas de alguma forma tentaram ver qual era a presença e de que modo essa narrativa ou esse discurso da emergência climática aparecia nos produtos midiáticos ou nos produtos jornalísticos. Essa foi uma perspectiva bastante grande de abordagem desse tema, e aos poucos, para além disso,a gente passou a ver que o campo precisava atuar no sentido de reorientar o que era necessário para que a gente pudesse transcender algo, mais no sentido de recomendação ou prescrição, mas achar o caminho para que a gente incorporasse de fato a transversalidade do tema ambiental naquilo que a gente faz. E esse continua sendo um desafio.

MÁRCIA: O principal desafio é uma cobertura aprofundada das questões ambientais e climáticas  de forma contínua, persistente e transversal, com a revelação das contradições e conflitos que estão envolvidos neste tema e a ampliação de fontes jornalísticas que possam dar outros enquadramentos e angulação. Precisamos ouvir cientistas em outras dimensões, como a Sociologia e a Antropologia, e também ouvir as pessoas afetadas e permitir que elas não apenas ilustrem um drama, mas portem-se como cidadãs reivindicadoras de seus direitos.

Também citaria a necessidade de desenvolvermos modos de inteligibilidade em que todos se sentissem responsáveis pelas questões ambientais e não apenas fizéssemos o movimento de apontar como culpados os gestores públicos ou os interesses econômicos.Seriam necessários enquadramentos jornalísticos que provocassem maior afetação nos cidadãos, no sentido de se sentirem implicados. E nem estou me referindo somente à necessidade de uma vida mais sustentável, mas de os cidadãos entenderem que seu voto, por exemplo, tem repercussão direta nos desastres que vai ou não viver. Pesquisas mostram que a maioria da população reconhece as mudanças climáticas, mas boa parte do Legislativo eleito no país pela mesma população flexibilizou a legislação ambiental ou trabalha para isso.

Um terceiro desafio seria a construção de uma rede de comunicadores das principais instituições, da mídia e das comunidades para entrar em ação em momentos de crises e/ou emergências específicas. A única viabilidade de uma comunicação efetiva numa crise é dispor de uma rede preexistente para ser acionada quando o problema desponta. Concordo com a colega Cilene Victor (UMESP) que classifica a comunicação de redução de riscos em quatro dimensões: a comunicação no interior das instituições, entre as instituições, a midiática e a comunitária. 

Esta entrevista foi editada para fins de concisão.

Texto: Anna Júlia C. da Silva, Doutoranda (Poscom/UFSM) e pesquisadora discente do milpa – laboratório de jornalismo (CNPq/UFSM)

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2023/07/30/tina-viero-uma-historia-de-esperanca Sun, 30 Jul 2023 14:55:55 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/?p=3792
Fotografia quadrada e colorida de Tina, uma mulher branca de meia idade em frente a um quadro. A fotografia está em primeiro plano. Tina tem estatura baixa, cabelos curtos, loiros e lisos, tem olhos castanhos. Ela usa óculos de grau com armação transparente e brincos pequenos e dourados. Ela veste uma jaqueta com capuz, que é grossa, nas cores azul, branca e rosa, sobre camiseta branca. Atrás dela, um quadro colorido da "Turma do Ique" em uma parede branca. O quadro tem as cores laranja, azul marinho e branco. No lado esquerdo do quadro, desenho de uma criança em pé, que sorri e está com o punho direito para cima. Ao lado da criança, o nome "Turma do Ique". O quadro tem moldura branca. Ao fundo, parede branca.
Tina Viero | Foto: Vitória Sarturi

Ao chegar na Turma do Ique, fui recebida por Tina, uma figura acolhedora que me cumprimentou com um sorriso. Ela vestia um uniforme, o que indicava seu envolvimento com o projeto.  O ambiente estava movimentado, com crianças que corriam pelo playground e adolescentes acompanhados de seus familiares. Apesar da diferença de idade, todos estavam ali pelo mesmo motivo: consultas médicas.

Na tentativa de encontrar um lugar silencioso, fomos ao escritório. Mas ainda assim houveram algumas interrupções: crianças e adolescentes procuravam por Tina para dar um beijo de bom dia. Essas demonstrações de carinho chamaram minha atenção e levantaram o questionamento sobre o envolvimento dela na Turma do Ique. Por que ela é tão querida pelos jovens atendidos no projeto?

O CENTRO DE TRATAMENTO E CONVIVÊNCIA:
Desde sua criação, a Turma do Ique é um espaço acolhedor e foi criado com o intuito de trazer um pouco de alegria à vida de jovens que passam pelo câncer.

Maria Cristina Faria Corrêa Viero, mais conhecida como Tina, é a primeira a chegar todos os dias, pontualmente às 6h20 da manhã. Mesmo que não seja uma obrigação, ela abre  as portas da instituição, o que demonstra  cuidado e consideração pelos pacientes - especialmente aqueles que enfrentam longas viagens, principalmente durante o inverno. Sua preocupação é visível já que  muitos deles realizam trajetos noturnos para chegar até o centro de convivência.

Sua história com a instituição começou em um momento delicado na vida pessoal, o que resultou no afastamento do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), onde trabalhava como Técnica em Enfermagem há mais de 30 anos. Foi nesse período que Lenir Gebert, uma amiga, a convidou para participar da Turma do Ique. Desde então, Tina encontrou seu propósito: auxiliar e cuidar das crianças e adolescentes em tratamento e levar a eles esperança e carinho em meio às adversidades.

Segundo ela, a Turma do Ique é um céu aberto para quem frequenta o local, sendo um contraste com épocas anteriores em que crianças ficavam nos corredores do hospital com os adultos. Embora o trabalho com jovens tenha acontecido por acaso, Tina percebeu que tinha um dom para isso.”É maravilhoso para mim deixá-los à vontade e ser escolhida por eles. Meu papel é dar colo a cada um que chega aqui. Sinto que é uma missão cumprida na minha vida’’. 

Durante a conversa, fomos interrompidas por uma adolescente que abriu a porta do escritório em busca de Tina. Um sorriso se formou no rosto da enfermeira ao receber um simples ‘’bom dia’’ e um carinhoso beijo em sua bochecha. Ela comenta que esses gestos, como o da jovem, sempre chegam a ela de forma espontânea. Sobre os afetos que recebe, Tina os compara com um plantio: ‘’Se você plantar morangos, colhe morangos, e eu colho um monte de moranguinhos. É uma sensação muito boa’’.

Tina diz que todos os dias há momentos marcantes na Turma do Ique. Para ela, os melhores são quando o paciente está no projeto apenas para uma revisão. Com o consentimento dos pais, faz questão de compartilhá-los em suas redes sociais. Para isso, conta que precisa ter cautela, já que às vezes pode ocorrer a recidiva do câncer. Ao falar de sua rotina no projeto, ela expressa seu amor e cuidado pelos jovens: "São filhos que a enfermagem me deu para cuidar e proteger’’. 

“O câncer não para”

Durante a pandemia, a Turma do Ique não fechou as portas porque ‘’o câncer não para’’, conforme relata Tina. Como Técnica de Enfermagem, ela conta que recepcionava os pacientes na portaria e verificava suas temperaturas. Mesmo com o medo do desconhecido, os funcionários da instituição trabalharam normalmente.

A dedicação de Tina é evidente em cada gesto de carinho e cuidado com os jovens em tratamento. A Turma do Ique não é apenas um trabalho, mas um compromisso que vai além das responsabilidades profissionais. Para Tina,  é o amor que impulsiona a sua atuação diária em que vocação e paixão se entrelaçam para fazer a diferença na vida daqueles que precisam: “A Turma do Ique para mim é profissão paixão.’’  


Uma história de esperança

Tina ingressou na UFSM por meio de concurso público em 1983, quando o HUSM chegava ao décimo terceiro ano de funcionamento. O interesse dela  pela área da saúde surgiu na infância por conta de seu pai, Miguel Sevi Viero, que era médico e tinha o consultório em casa. Nessa época, antes de iniciar o curso, já auxiliava o pai como instrumentadora cirúrgica. Ela conta que antes de iniciar no curso, já o auxiliava sendo instrumentadora cirúrgica.

Tina começou sua carreira na ala psiquiátrica, mas como descobriu que não era o que gostava de fazer, ficou na função por apenas seis meses.  Decidida a explorar outras oportunidades, foi para o CTI, em que permaneceu por dez anos. Mais tarde, por necessidades de serviço, fez sua última mudança: foi para a  Hemato-Oncologia. Desde então, já são 30 anos no serviço.

O serviço de Hemato-Oncologia é especializado no cuidado de crianças e adolescentes com leucemias, tumores e distúrbios hematológicos. Nessa unidade é fornecida assistência multiprofissional com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reintegrá-los à vida social.

Segundo Tina, na época em que começou, Santa Maria era referência no tratamento de câncer infantil. Ela conta que no passado, as crianças eram acomodadas em lugares que não eram apropriados, como em alas de pediatria ou junto aos adultos. Por isso, houve a necessidade de criar um centro de transplante e uma ala específica para crianças imunodeprimidas. Foi nessa época que, em parceria com sua amiga Lenir Gebert, participou da fundação do Centro de Transplante de Medula Óssea (CTMO) e do Centro de Atendimento à Criança e Adolescente com Câncer (CTCriaC). Nessas circunstâncias, as condições de trabalho eram diferentes: ‘’Havia menos chefes e conseguimos muitas coisas através da parceria e boa vontade das pessoas. Todos eram muito focados.’’ conta Tina.

A Técnica em Enfermagem relata que passou por todas as áreas da Hemato-Oncologia: coletas de medula óssea e células tronco, além da aféreses - área em que ocorre a separação dos componentes do sangue por meio de um equipamento automatizado. Também auxiliou as colegas no isolamento protetor, ou seja, quarto privado para pacientes que têm algum tipo de infecção comprometida.‘’A Hemato-Oncologia enfrentava uma grande demanda em um espaço limitado, então foram realizadas mudanças para garantir a segurança e o bem-estar dos pacientes’’, complementa Tina. 

Ela enfatiza que a Hemato-Oncologia, a partir desses serviços, oferece melhores condições para as crianças e os adolescentes, ao proporcionar um espaço ao ar livre e protegido. 

O paciente hemato-oncológico desenvolve uma conexão afetiva muito forte com a equipe. Por isso, durante sua trajetória no hospital, ela lembra que presenciou vitórias que a marcaram muito. Também enfrentou perdas que foram difíceis de assimilar porque o  hospital não oferece apoio psicológico adequado para lidar com essas situações.


Reportagem: Maria Eduarda Silva da Silva
Contato: maria-silva.2@acad.55bet-pro.com

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Fotografia retangular e colorida de homem branco de meia-idade, que está de perfil. Ele tem barba, bigode e cabelos em transição do preto ao grisalho, tem nariz pontudo e olhos castanhos. Ele veste uma camisa jeans fina e azul em um tom médio. Usa óculos de grau em armação redonda. Está com expressão facial séria e olha para o lado direito da imagem. Atrás dele, uma estante com dois analisadores de espectros de cor branca em formato retangular. Ao fundo, uma parede com tomadas dispostas na horizontal para que os aparelhos sejam conectados.
Professor André Luiz Aita | Foto: Vitória Sarturi

Docente da UFSM há mais de 20 anos, André Luiz Aita tem graduação em Engenharia Elétrica e mestrado em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutorado pela Delft University of Technology (Delft), na Holanda, e hoje é docente do Programa de Pós-Graduação de Ciências da Computação na UFSM. 

Com experiência na área de ciência da computação, Aita explora as possibilidades transformadoras proporcionadas e discute os desafios éticos e de privacidade associados ao seu uso. Em entrevista para a .TXT, ele compartilha sua visão sobre as responsabilidades dos desenvolvedores em garantir o uso ético e responsável das inovações. 

.TXT: Como a ciência da computação ajuda a resolver problemas complexos que antes eram considerados insolúveis?

André: Não eram insolúveis. A solução que ainda não era conhecida. Por exemplo, a matemática, às vezes, tem problemas insolúveis talvez porque ainda não se tenha descoberto a solução. A computação trabalha com programação, que necessita de processadores, de computadores, para que o algoritmo e o programa rode. E a tecnologia, nos últimos anos, vem evoluindo de tal forma que esses processadores e esses computadores evoluíram muito. Então, aquelas tarefas que a princípio eram insolúveis porque consumiam muito tempo, hoje conseguimos fazer talvez em um dia ou em uma hora. 

.TXT: Você acredita que existam desvantagens no uso excessivo da tecnologia na pesquisa?

André: Todo excesso é prejudicial e não só nessa área. Então nós temos que saber dosar. Eu diria assim: excessos são prejudiciais. A resposta é simples e não está associada à tecnologia. Se você toma a tecnologia e a usa em excesso, pode ter algum problema, algum revés em função desse uso demasiado. 

.TXT: Quais são os desafios éticos e de privacidade associados ao uso da tecnologia na pesquisa científica?

André: A tecnologia permite a fácil comunicação. Não é a tecnologia que resulta nessa suposta falta de privacidade. Nós observamos as pessoas se expondo a partir de uma ferramenta que existe, certo? Quantas fotos você e eu temos publicadas na internet hoje? E essas fotos não se apagam nunca mais. A ferramenta que você tem disponível é que te permite se expor. A tecnologia está disponível, mas é você que escolhe se vai querer se expor ou não. 

.TXT: Como os avanços em tecnologia afetam a forma como a ciência é aprendida? 

André: Durante a pandemia percebemos um enorme avanço da tecnologia para ensino remoto e aprendizado. Antigamente, nós tínhamos uma única referência, que era a biblioteca, ou íamos ao professor, que era quem tinha o conhecimento. Hoje temos uma abundância de informações: não necessariamente são todas verdadeiras, mas há uma abundância delas.

.TXT: Quais são as responsabilidades dos desenvolvedores de tecnologia em garantir que suas inovações sejam utilizadas de forma ética e responsável? 

André: O fabricante de uma faca é responsável por sua produção. Qual é a responsabilidade dele durante a fabricação da faca? Seria a mesma que aquele responsável pela tecnologia tem? Em outras palavras, qual será o uso que você dará a essa faca? No momento que se disponibiliza esse recurso, você sabe que permite que pessoas de má índole o utilizem. Que façam mau uso da tecnologia. De certa forma, têm responsabilidade. Às vezes, você constrói algo para o melhor uso e nem imagina que aquilo que produz terá um uso que não esperava. Normalmente projetamos coisas para que sejam bem utilizadas.

Reportagem: Maria Fernanda Dias
Contato: mariafernanda2001.mfm@gmail.com

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-que-sao-os-solos-negros-fundamentais-para-a-seguranca-alimentar-e-controle-das-mudancas-climaticas Thu, 15 Dec 2022 17:16:42 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9575 Em meio às consequências das mudanças climáticas e da insegurança alimentar, pesquisadores do mundo todo se mobilizam para pensar estratégias de desenvolvimento sustentável para o futuro. A Rede Internacional de Solos Negros (INBS), órgão integrante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), é uma dessas iniciativas que reúne especialistas para discutir questões relacionadas à conservação e ao manejo dos chamados black soils.

Os solos negros são caracterizados pela cor escura e se destacam pelo alto potencial de armazenamento de carbono, característica fundamental na luta contra as mudanças climáticas. Isso porque, ao aumentar os estoques de carbono no solo, os níveis de dióxido de carbono (principal gás responsável pelo efeito estufa) são reduzidos na atmosfera. Além disso, a presença do carbono no solo traz melhorias em suas propriedades físicas, químicas e biológicas, tornando-o mais produtivo e fértil.

Mas, segundo a FAO, os solos negros estão sob ameaça. Atualmente, parte do solo preto é usada para produção agrícola de forma inadequada, o que contribui para a degradação severa de grandes extensões de terra.

O professor Ricardo Bergamo Schenato, coordenador do Núcleo de Estudos e Pequisas em Recuperação de Áreas Degradadas (Neprade) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi indicado pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS) para ser o representante do Brasil na Rede que busca uma colaboração global para pensar o uso dos solos negros. A Revista Arco conversou com o professor Ricardo para entender mais sobre o assunto:

Arco: Poderia explicar sobre as principais pesquisas que você desenvolve atualmente?

Ricardo: As principais pesquisas que realizamos são para entender o solo dentro da sua variabilidade no espaço e no tempo. Nesse contexto, precisamos compreender o solo como um componente da natureza que é essencial para a vida como conhecemos no nosso planeta, por isso, (re)conhecer suas múltiplas funções, medir diversas variáveis, restaurar sua capacidade de suportar a vida são muito importantes não só como linha de pesquisa, mas para a nossa sobrevivência. No setor de Pedologia [ciência que estuda o solo] e junto ao Neprade, as minhas pesquisas são direcionadas a entender como o solo funciona na paisagem e na modelagem do carbono em diferentes contextos ambientais, e como preservá-lo.

 

Arco: O que são os “black soils” e onde se localizam?

Ricardo: Os black soils são um tipo especial de solo cujas características principais são ter uma camada superficial de cor preta e enriquecido com carbono até 25cm de profundidade. Esses solos são encontrados em diversas regiões do planeta, existe uma área de aproximadamente 725 milhões de hectares, o que compreende 7% dos solos do mundo. Cerca de metade desses solos estão no território da Rússia, seguido por Cazaquistão e China. Outros países em que eles ocorrem são Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Hungria, Indonésia, Polônia, Ucrânia, Estados Unidos, Brasil, entre outros.

    

Arco: Qual é a importância da preservação destes solos?

Ricardo: Os black soils têm uma importância muito grande na segurança alimentar e nas mudanças climáticas. Eles são essenciais para sustentar a produção de alimentos, a diversidade da vida e uma série de serviços ecossistêmicos. Em muitos países eles são considerados a "cesta de alimentos", pois são os solos que sustentam a produção agrícola, garantem os alimentos à população e sustentam boa parte da economia. Para se ter uma dimensão da importância desses solos, podemos citar alguns dados: aproximadamente 66% da produção de sementes de girassol, 30% da produção de trigo e 26% da produção de batata no mundo provêm dos black soils. Milho, cevada, soja, pastagens e algodão são outros exemplos de culturas desenvolvidas sobre eles. Além disso, muitas comunidades vivem sobre esses solos, como é o caso de 93% da população da Moldávia e 52% da população da Ucrânia. Não é por acaso que dois terços desses solos são usados com a agricultura e parte dessa fração encontra-se ameaçada pela degradação do solo.

Arco: Pode explicar como se dá a relação desse tipo de solo com as mudanças climáticas e a segurança alimentar?férti

Ricardo: Devido a essa característica especial, de conseguir armazenar grande quantidade de carbono, os black soils são grandes reservas de carbono no nosso planeta. Na Europa, por exemplo, esses solos são responsáveis por metade do potencial de sequestro de carbono do continente. Em um planeta que já experimenta as consequências das mudanças climáticas, a capacidade de manter o carbono no solo é a diferença entre o planeta que conhecemos hoje e um planeta com grandes áreas em que a agricultura se inviabilize como resultado de mudanças nos padrões de chuva e temperatura. Por isso, conhecer, preservar e desenvolver processos tecnológicos para a agropecuária em áreas de black soils é vital.

Em relação à segurança alimentar, o fundamental é que esses solos são muito férteis e, consequentemente, muito produtivos. O próprio teor alto de carbono já garante uma boa capacidade de armazenar nutrientes e água, mas os black soils, em sua maioria, ainda são ricos em nutrientes essenciais às plantas, como o potássio e o fósforo. Essas características permitem aos agricultores boas colheitas com menor dependência de insumos externos.  

 

Sequestro de Carbono é o termo utilizado para indicar a exclusão do gás carbônico (CO₂) da atmosfera e sua transformação em oxigênio (O₂). Este processo ocorre principalmente de forma natural através do solo e dos oceanos. Os principais agentes do sequestro de carbono são os organismos fotossintetizantes como plantas, algas e bactérias. Em vez de o carbono capturado ser liberado para a atmosfera, ele fica retido no solo e contribui para o desenvolvimento dos microrganismos.

 

Arco: Há algum risco no manejo? 

Ricardo: Sim! Quando os cultivos são realizados além da capacidade natural desses solos, eles são degradados. A erosão é o principal processo de degradação em termos globais e pode levar à perda do solo em curtos períodos de tempo, com queda paulatina da produtividade e, em casos extremos, inviabiliza a produção. Os black soils devem ser manejados com mais cuidado ainda devido ao alto teor de carbono que eles têm, pois se forem mal manejados, todo esse carbono pode passar para atmosfera na forma de CO2 e aumentar ainda mais os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, o comprometimento da produtividade leva a problemas econômicos e sociais ao longo do tempo.  

 

Arco: Recentemente você foi indicado pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo para ser o representante do Brasil no International Network of Black Soils (INBS). Qual o objetivo da formação dessa rede?

Ricardo: Essa rede faz parte de uma iniciativa global da ONU/FAO de reunir cientistas de diversos países para tratar de diferentes temas relacionados aos solos. Os objetivos do grupo de black soils são melhorar o mapeamento desses solos, trocar dados e informações entre os grupos de pesquisa, desenvolver tecnologias para manejo sustentável, prover documentação e curadoria de dados sobre esses solos e encontrar as lacunas ainda existentes nas pesquisas, para apontar os caminhos mais promissores para estudos na área. Isso tudo com o foco em subsidiar tomadores de decisão, técnicos e agricultores para a produção sustentável.

 

Arco: Quais são os principais desafios em relação aos estudos na área de Black Soils?

Ricardo: De uma forma geral o desafio comum é conhecer melhor e desenvolver técnicas mais adequadas para cultivar os black soils. É claro que em cada lugar os desafios são diferentes. Na Rússia e na Ucrânia, por exemplo, o conflito entre esses países inviabiliza pesquisas de campo na maior área de black soils do mundo. No Brasil, os efeitos da falta de investimento na ciência têm sido desastrosos, a ponto de não termos nenhuma linha de fomento para pesquisa em black soils atualmente. Os poucos pesquisadores que investigam essa temática o fazem no escopo de outros projetos e, muitas vezes, investindo recursos próprios em coletas, análises, publicações e congressos. Uma situação completamente diferente é encontrada na China. Por lá, existe uma preocupação muito grande com os black soils, que estão em uma vasta região do nordeste do país. Os chineses têm uma visão de longo prazo, planejamento e suporte às pesquisas. Recentemente, na Universidade de Agricultura da China, eles fundaram um instituto de pesquisa que se dedica somente a pesquisar black soils, têm um museu de solos exclusivo para black soils e, em julho de 2022, sediaram o 2° Fórum Internacional de Conservação e Utilização de Black Soil e o 8° Fórum de Black Soil de Lishu, avançam em legislação de proteção dos black soils e em campanhas para conter a erosão e perda de carbono nesses solos. Todas essas decisões são políticas públicas baseadas em ciência. Isso diferencia um país sério, que olha para o futuro com responsabilidade, daqueles que produzem degradando os seus solos e demais recursos naturais.

 

Arco: Qual é a importância da inserção do Brasil junto a outros países nesta rede?

Ricardo: O Brasil sempre foi um ator de grande importância nas temáticas de meio ambiente e agricultura, ainda que nos últimos anos tenha perdido seu protagonismo global devido ao descaso com as questões ambientais. Estar presente nesses espaços é uma questão estratégica, de geopolítica, por isso, o nosso país não pode ficar de fora dos grandes debates ambientais e de produção agrícola. No entanto, para ser ouvido é necessário investir em pesquisa, desenvolver tecnologia e planejar o longo prazo. Se nós não pesquisarmos sobre os nossos recursos naturais, outros países irão fazê-lo e, nesse sentido, é uma questão de soberania nacional. Nenhum país é completamente soberano sem conhecer o seu próprio território e recursos. Por outro lado, todos os países querem ouvir o Brasil e reconhecem nossa importância em um mundo em transformação, muitas vezes esse reconhecimento é até maior lá fora do que aqui. 

 

Arco: O que essa indicação significa para você e para os seus planos acerca de sua carreira?

Ricardo: Eu encaro essa indicação com muita responsabilidade, pois estou representando todos os pesquisadores da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, a UFSM, o Departamento de Solos e o Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo. Levar o nome dessas instituições é um orgulho e fonte de grande motivação. Ajudar na internacionalização e ampliar as redes de contato é muito importante para qualquer pesquisador, pois é a partir dessa exposição que temos contato com as ideias mais avançadas em nossas linhas de pesquisa e o que nos faz evoluir constantemente. Tenho certeza que vai ser uma experiência inesquecível e farei o meu melhor para representar o nosso país.

Expediente:

Entrevista: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Júlia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/resistencia-e-a-terra-nao-morrer Tue, 08 Nov 2022 21:25:22 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9533 Davi Kopenawa Yanomami nasceu por volta de 1956, na grande casa comunal de Marakana, que fica no alto do rio Toototobi, extremo norte do Amazonas. Reconhecido, nas últimas décadas, como importante líder político dos indígenas Yanomami, também é xamã, ativista na defesa dos povos indígenas e da floresta amazônica, presidente da Hutukara Associação Yanomami e autor, roteirista, produtor cultural e palestrante. Seu primeiro nome, Davi, foi recebido de homens brancos “da gente de Teosi” (ou seja, de Deus), que se instalaram na floresta quando ele ainda era criança. Já a origem de ‘Kopenawa’ tem uma história diferente: o líder indígena passou um período na  terra dos brancos como intérprete da Fundação Nacional do Índio (Funai). Aproximadamente em 1987, quando cerca de 40 mil garimpeiros invadiram o território indígena, Davi foi enviado pela Funai para encontrar os corpos de quatro homens yanomami que foram assassinados:

 

“Só os espíritos xapiri estavam do meu lado naquele momento. Foram eles que quiseram me nomear. Deram-me esse nome, Kopenawa, em razão da fúria que havia em mim para enfrentar os brancos. O pai de minha esposa, o grande homem de nossa casa de Watoriki, ao pé da montanha do vento, tinha me feito beber o pó que os xamãs tiram da árvore yãkoana hi. Sob efeito do seu poder, vi descer em mim os espíritos das vespas kopena. Disseram-me: “Estamos com você e iremos protegê-lo. Por isso você passará a ter esse nome: Kopenawa!”. Esse nome vem dos espíritos vespa que beberam o sangue derramado por Arowë, um grande guerreiro do primeiro tempo. [...] “Haixopë! Então foi esse antepassado que pôs em nós a coragem guerreira! Esse é o verdadeiro rastro daquele que nos ensinou a bravura!”

 

Trecho do livro “A queda do céu - Palavras de um xamã yanomami”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert - p. 71 - 72.

 
Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de Davi Kopenawa Yanomami, homem indígena idoso. Ele esta em primeiro plano, com semblante pensativo, pele escura. Tem olhos pretos e cabelos pretos e lisos. Veste camiseta preta com o texto "Survival". Ele está com os dedos na boca. Usa um cocar nas cores amarela, azul e verde.
Davi Kopenawa Yanomami. Foto: Ana Alicia Flores

A história do nome de Davi Kopenawa Yanomami é importante para compreender sua trajetória: saído da aldeia para atuar como intérprete, o líder voltou a viver com seu povo para lutar pela preservação da floresta e contra a invasão de garimpeiros por meio da demarcação do território indígena. Depois da invasão de 1987, que trouxe mortes aos yanomami por meio de violência, doenças, desnutrição e envenenamento por mercúrio, Kopenawa juntou-se a outros ativistas na Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY) para a luta pela demarcação do território. Em 1992, na Cúpula da Terra do Rio de Janeiro, o território indígena foi homologado.

 

Em 2010, junto a Bruce Albert, importante antropólogo francês que trabalha com os Yanomami desde 1975, Davi Kopenawa lançou o livro “A queda do céu - Palavras de um xamã yanomami”, com o objetivo de sensibilizar e fazer o homem branco compreender a visão dos povos indígenas sobre a floresta, o ‘povo da mercadoria’ e as mudanças climáticas. A queda do céu significa o fim do mundo, provocado pelas mudanças climáticas. “A Última Floresta” também é outra produção que conta com a participação de Kopenawa. No audiovisual que mistura documentário e ficção e que está disponível na Netflix, são apresentados os espíritos da floresta e as tradições, além da chegada dos garimpeiros, que traz morte e doenças para a comunidade.


Nesta semana, Davi Kopenawa marca presença na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no evento satélite da 37ª Jornada Acadêmica Integrada (JAI), ‘Brasil, Terra Indígena: 522 anos de resistência’. O evento que ocorre de segunda (07) a quarta (09) é uma organização da Liga Yandê/UFSM, do Coletivo Indígena da UFSM, do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, dos cursos de licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais, do Departamento de Ciências Sociais e do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI/UFSM). A Revista Arco conversou com Davi Kopenawa Yanomami sobre os povos indígenas, a queda do céu e a resistência dos povos da floresta. A entrevista aconteceu em conjunto com o jornal Zero Hora (ZH). Confira:

Arco:  Como surgiu o livro ‘A queda do céu’?

Davi Kopenawa: Primeiro, eu vi o antropólogo, o Bruce Albert. Eu não sabia o que esse antropólogo faz. Ele vem de longe, chegou no Brasil, aí ele pensou que ele queria escutar, escutar a liderança tradicional, a liderança da comunidade, e foi perguntando devagar e aprendendo nossa língua yanomami. Ele viveu mais ou menos um ano na floresta yanomami. Encontrei ele na minha comunidade que se chama Toototobi. Lá ele tava tirando foto e conversando com meu pata, pata é uma liderança antiga que guarda a história. Aí eu descobri que quando ele tava lá, ele escreveu o livro antropológico dele pra vocês. Aí eu abri o livro dele, olhei, tinha nome do pata yanomami que explicava pra ele sobre a queda do céu, contando como surgiu a terra, como surgiu a lua, o sol, e claridade e escuridão, e várias perguntas que eles fizeram. Eu falei pra ele: ‘Bruce, eu tô te conhecendo agora. Antes de você escrever, você não consultou, você não conversou comigo e os outros”, explicando pro antropólogo que ele tá coletando a nossa sabedoria, coletando o nome bonito para o livro dele sair bonito. Então eu falei: ‘Bruce, eu tô meio chateado com vocês, pouquinho né, então vamos conversar. Esse livro de antropologia pro não indígena que você escreveu, esse aí não vai contar. Quem vai contar? Eu. Eu sou yanomami. Você é antropólogo e não é yanomami, você não nasceu na comunidade”. E assim que nós começamos. Eu falei: ‘Eu vou gravar com gravador, depois você vai escrever’. Assim que nós combinamos pra contar xapiri. O que é xapiri? É o espírito da floresta que vive nas montanhas. Para nós é muito importante. O histórico do povo yanomami é muito rico. Eu sou yanomami e não conheci tudo, mas metade eu conheço. Então assim que nós fomos escrever. Quem vai contar? Eu, que estou lutando, que estou andando pra explicar, ele escreve no papel o que eu tô falando. ‘A minha palavra você não pode tirar fora, do jeito que eu tô falando você escreve pra outras pessoas não pensar que você tá inventando’. Aí ele me respeitou. Ele contou como surgiu o yanomami, de onde que eles vieram, como que xapiri funciona, como que sonha, de onde vem a xawara, uma doença, a fumaça do metal. Nós gravamos e ficamos duas ou três semanas na minha comunidade yanomami, sem sair. Assim que eu pensei: eu falando com você - como eu tô falando aqui e vocês anotando - vocês não entendem. Aí olhei outro não indígena que ficava abrindo um livro e lendo e pensei: ‘eu falando ele não tá acreditando, mas se escrever no papel, o papel não vai sair, o livro vai ficar na casa dele. Lê pouquinho, depois ele sai, volta de novo, vai lendo’. Acho que o meu pensamento, a minha luta, eles vão entender o que eu tô lutando.

 

ZH: Teve uma conferência online que acompanhei em que você falou o seguinte: “Nós, yanomami, não somos coitadinhos. Vocês é que estão doentes”. Eu queria que o senhor falasse um pouco mais a respeito disso. O que significa essa mensagem?

Davi Kopenawa: Falei assim: olha, nós, originários, não somos coitadinhos não. Índio não é coitadinho. Índio, yanomami, ele sabe pensar. Sabe pensar, sabe falar, sabe explicar, sabe fazer xapiri, sabe fazer grande festa, sabe pensar o mundo inteiro, sabe pensar lua, o sol, e sabe pensar claridade, escuridão, onde que nós estamos vivendo. Eu vou falar certas coisas: índio não é coitadinho, essa plantinha [aponta para um cactus em cima da mesa] tá coitadinha, ela não tem pai, não tem pensamento, não tem energia. Nós, yanomami, não somos coitados. Da natureza o yanomami tá cuidando. Nós estamos conectados com a floresta, com a terra, com a chuva, com ar limpo. É por isso que eu falei ‘índio não é coitado’, quem tá coitadinho é o povo da cidade, tá sofrendo. As casas são pequenas, não tem lugar pra caçar, pra pescar, pra trabalhar, o homem que tá cuidando tudo não tá repartindo, não tá distribuindo pro povo da cidade não ficar coitadinho. Eu falei isso porque eu vi que na cidade de São Paulo tem muita gente dormindo no chão, com fome, doente, sem apoio, e a criança comendo lixo, e não só criança, a pessoa não tem lugar pra mijar, pra cagar, pra tomar água. Nós somos livres, nós, povos indígenas, povos originários, somos livres, nós temos espaço pra andar, pra buscar nosso alimento, pra comer, nós temos xapiri grande pra cuidar quando espírito mau da floresta pega nossa sombra e deixa doente. Então nós temos xapiri pra deixar a gente ficar com saúde de novo. Nós não usamos remédios, nós usamos o xapiri, usamos a força da natureza pra cuidar o povo do planeta terra.

 

O pensamento da sociedade não indígena está preocupado, vocês tão doentes na cabeça e é preocupante. A briga é muito ruim pra cidade e vocês tão preocupados, com pouco dinheiro pra pagar casa, pagar água, pagar luz, vocês tão preocupados e doentes. Vocês não estão conseguindo seguir no caminho. Vocês tão com pensamento doente, não tão conseguindo pensar direito, escutar, sonhar, olhar longe. O capital tá crescendo, mas ele não tá deixando o seu pensamento andar pra frente pra descobrir pra onde nós vamos, o pensamento com saúde, pensamento bom, pensamento livre, pra não ficar triste, andando triste, com cabeça abaixada. 

 

ZH: O senhor fala dessa liberdade que vocês têm na floresta. Na década de 1970, teve aquela primeira invasão do garimpo que o senhor lutou e aí se tornou uma voz. Depois, a terra indígena foi reconhecida e esta homologação está completando 30 anos agora, mas o garimpo está de novo aí: de alguma forma eles estão impedindo a liberdade de vocês?

Davi Kopenawa: Sobre o garimpo a história é muito antiga. O garimpo começou, os homens sem terra começaram a busca de pedras preciosas nos Estados Unidos, os americanos que inventaram, que começaram a garimpar nos igarapés, nos rios, na procura das pedras preciosas. As pedras preciosas, ouro, diamante, areia, terra, elas são união, elas estão unidas para não desequilibrar nossa terra planeta. Os garimpeiros vieram andando por aqui, eles chegaram aqui, fizeram caminho, estrada. Os invasores não são só garimpeiros, também políticos, a colonização. Os garimpeiros que estão aí não têm terra. Quarenta mil garimpeiros que entraram sem consulta do povo originário, sem consultar a liderança que fala português, como Raoni Metuktire, Ailton Krenak, eu, nós já tava lutando contra outros invasores, os fazendeiros e arrozeiros que estavam desmatando, eu tava lutando contra garimpeiro. Eles entraram. Entrou primeiro na Perimetral Norte [BR 210, na região Norte], passou dentro da terra yanomami, mataram meu povo, mataram meu pai e minha mãe, e por isso que entrei na briga. Garimpeiro não é bom. 

 

ZH: Mas eles estão mais violentos agora do que em anos anteriores?

Davi Kopenawa: Tentaram entrar pra matar. Mataram metade, os garimpeiros são teimosos, eles são bravos, com grupo grande, eles têm armas pesadas. Aconteceu isso. Mataram quatro yanomami em 1986, o Haximu. Eu fui lá pra ajudar a comunidade yanomami, mas eles começaram a matar nossos parentes. Hoje é pior. São os mesmos garimpeiros que estavam lá garimpando em 1986 até 1991. Pra mim tava muito difícil, eu era sozinho junto com os parceiros não indígenas, mas  conseguimos [homologar o território dos povos indígenas yanomami]. Em 2016, [os garimpeiros] entraram de novo e hoje tá pior: aumentou o número dos garimpeiros, pra mim é de 70 mil a 100 mil garimpeiros atuando. Uma pessoa que compra ouro, o dono do avião, o dono da loja, e estrangeiros que estão comprando, tão mandando dinheiro, dão apoio ao garimpo. Quem compra ouro é garimpeiro também.

 

Arco: Qual é a importância das universidades terem políticas de inclusão e de permanência para indígenas, como a casa do estudante e a lei de cotas?

Davi Kopenawa: A universidade é do governo. Eu não conheço muito bem. Mas eu sou um yanomami desconfiado. Eu tenho dois pensamentos, tem dois caminhos: na universidade, tem o jovem que estuda pensamentos diferentes, de trabalho, de político, e que é pela destruição, pra destruir e garimpar, botar mineração e desmatamento. Nesse caminho, nós, povos indígenas,  estamos preocupados. E o outro lado, o caminho que escolhemos, é aonde estamos indo, vivendo bem, com saúde, muito contente, trabalhando e cuidando da nossa beleza, do nosso país. E nesse caminho, eu, Davi, também sou estudante, do xamanismo que aprendi, que conheci nesse caminho. Então é muito importante vocês pensarem em nós, não é só pra pensar a cidade, não é só pra pensar trabalho de capitalista, que não serve pra nós. 

 

Arco: Por que é importante falar do Brasil como terra indígena?

Davi Kopenawa: Brasil: essa palavra não é minha. Botaram o nome do Brasil. A minha língua yanomami, urihi, é terra-floresta, e a terra é dos índios. Vocês me chamam índio. Eu não sou índio, eu sou yanomami. Yanomami, yekuana, kayapó, xavante e outros parentes. A nossa terra é dos povos originários, que o nosso povo, o nosso pai, protegeram. Protegiam. Hoje está destruída.

 

Arco: E o que é resistência pra vocês?

Davi Kopenawa: Resistência é a terra não morrer. Nós morreremos. A terra não tem fim, a terra não morre. Ela está sofrendo, mas não vai morrer. As árvores vão morrer, morrer queimado, morrer derrubado e morrer raspado. A terra não. A terra está sofrendo, mas é resistência. Então quando tem resistência, a terra está viva, e por isso os povos indígenas lutamos: resistência junto com a terra e a floresta.

 

Arco: Se você tivesse que destacar uma coisa que os homens brancos deveriam aprender com os povos indígenas, o que seria?

Davi Kopenawa: [Ri] Bom, nós estamos ensinando. O ensinamento mesmo já tem aí [aponta para o livro que está sobre a mesa]. O livro “A queda do céu” tá entrando na universidade e, em cada universidade, nós estamos ensinando. Ailton Krenak também tem um livro que é ensinamento para vocês, para vocês abrirem as ideias e olharem para frente. Então nós estamos iniciando e vocês estão começando a abrir os olhos. Vocês, jovens, tão sabendo que nós temos ensinamento através do livro e da fala também. Isso é importante para nós todos, não só para os yanomami, não só pro povo indígena, é pra você também. A floresta vive. Sem nós, o outro povo exterior que chega aqui vai derrubar tudo, vai colocar do jeito que quer.

 

ZH: O senhor falou na entrevista dada anteriormente para a rádio UniFM que é muito bom ter um Ministério dos Povos Originários. Qual seria a primeira ação que que precisaria ser feita por esse ministério, se ele realmente for criado?

Davi Kopenawa: Awë! Nós nunca pensamos isso. Quem falou isso é Lula, Lula que fala a todo mundo pra nos escutar. Eu penso que tá dando oportunidade pra ter ministério dos povos originários dentro do congresso nacional, tá faltando isso. Congresso Nacional tendo alguém, tem cadeira pra ele pra começar a conversar entre deputados, entre outros ministérios, deputados não indígenas e outras autoridades. Pensar o que se é criado pro ministério indígena originário, com as jovens mulheres [deputadas indígenas eleitas] que já aprenderam a falar as suas línguas, sabem escrever, sabem mexer no computador e sabem mandar mensagem para outros lugares. Pra mim é estaca, como se coloca estaca pra fazer uma casa.

 

ZH: É o começo?

Davi Kopenawa: É o começo pra nascer as árvores, nascer as nossas frutas e crescer as nossas raízes, pra ficar seguro. Então essa oportunidade é muito importante pro meu povo e o de vocês também.

 

ZH:  Está acontecendo agora a COP 27 , que é a Conferência Mundial do Clima, organizada pela ONU lá no Egito. Se o senhor estivesse lá, o que falaria para aquelas lideranças mundiais que estão reunidas falando sobre o clima?

Davi Kopenawa: [Ri] Eu não tô com vontade de ir não, o problema é deles. Do jeito que estragaram, eles vão conseguir tapar os buracos. Essa mudança climática que eles falam, pra mim é a insignificância da nossa terra-planeta. A insignificância da natureza está deixando acontecer e adoecer nossos rios, a água é vida. A terra fica revoltada com o estrago capitalista sempre usando, explorando, derrubando, queimando, então a nossa mãe-terra fica brava. A chuva tá suja, em outro lugar não tem sol, em outro lugar tá muito quente e em outro lugar tá rachando a terra. Então isso significa a insignificância do nosso mundo. A mudança climática não vai ser sarada, vai crescer, vai chegar a doença como chegou a doença coronavírus. 

 

Arco: Com as mudanças climáticas, há perigo de o céu cair novamente?

Davi Kopenawa: Sem índio, sem nós, sem xapiri, vai acontecer, esse é o meu sonho*, o que eu aprendi com o grande pajé que já faleceu no território yanomami. Ele passou esse conhecimento pra mim e falou, ‘você escreve e ensina pros não indígenas’. Não indígenas estão usando muito máquinas pesadas, cavando buraco, arrancando as pedras e com fábricas muito grandes, a fumaça tá venenosa, vai sair no ar, vai chegar lá em cima e se juntar com xawara grande e o peito do hotomösi fica enferrujado, fica doente. Eu falo sempre essa mensagem pra vocês: muito cuidado, eu acredito que sem índio, vai acontecer. Sem índio, não estamos protegidos. Eu e as lideranças da aldeia que estão fazendo o trabalho pra cuidar do nosso universo, pro universo não desequilibrar. Nós estamos lutando por isso. Pra nós é perigoso e é perigoso pra vocês. Como aconteceu antigamente, vai acontecer. Não é agora. Nós estamos vivos ainda: eu e pata estamos fazendo xapiri, estamos lutando para cuidar do nosso planeta, pra não acontecer como aconteceu antigamente.

 

ZH: O senhor já sofreu algumas ameaças, inclusive de morte. O que faz o senhor não se calar e continuar trabalhando e defendendo a natureza e a floresta?

Davi Kopenawa: Eu fui ameaçado. Eu sofri ameaça dos fazendeiros, garimpeiros e outras pessoas da cidade, porque eu tô atrapalhando o trabalho deles, divulgando, denunciando, é direito meu, é direito do meu povo, pra não deixar fazer mal pra gente. Eles tão revoltados comigo. Eles me procuram na cidade, eles querem acabar com a minha vida. Mas eu me protejo, eu me cuido com os pajés, eu fico na minha comunidade. Eu fico na cidade só pra trabalhar e pra lutar, não pra ganhar dinheiro. É trabalhar pra lutar e pra defender o direito do meu povo, direito da nossa terra, da nossa família, da floresta, tudo que existe dentro no universo. Então, realmente, eles não gostam de mim, até hoje tão brabos porque o presidente atual perdeu. Duas vezes perdeu: quando nós conseguimos, conquistamos a homologação da terra yanomami, eles perderam. E agora o presidente Bolsonaro perdeu de novo, e eles tão p*** comigo, p*** mesmo, com meu filho e outras lideranças que tão lutando.

 

ZH: O senhor não vai parar?

Davi Kopenawa: Não, eu não vou parar. Eu não vou parar, porque eu não tô roubando. Eu não tô roubando a terra dele - terra é pra todo mundo - , eu não tô roubando a casa, o que eles têm, eu não tô roubando dinheiro, eu não tô roubando nada. Eu tô fazendo um bom trabalho, em parte pra viver bem e pro povo indígena viver bem. Esse é meu papel de liderança. Essa é minha missão pra continuar. A luta não vai parar. A minha luta vai ficar até o fim. Isso aí eu sempre falo.

Glossário:

*Sonho, para os povos indígenas yanomami, não tem o mesmo significado que para os homens brancos. É uma visão que abarca os desejos inconscientes do sujeito e do mundo.


Xapiri: espíritos da floresta que habitam as montanhas e que descem à terra por meio de chamados dos xamãs em rituais.

Expediente:

Entrevista: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Fotografia: Ana Alicia Flores, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/arco-entrevista-erico-flores-primeiro-pesquisador-latino-americano-a-receber-a-medalha-ioannes-marcus-marci Mon, 05 Sep 2022 17:49:20 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9482 Considerada mundialmente uma das mais importantes premiações na área de química, há 45 anos a medalha Ioannes Marcus Marci é concedida a pesquisadores que, ao longo de suas trajetórias, contribuíram para a área de espectroscopia e espectrometria atômica. O professor Érico Marlon de Moraes Flores, do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é o primeiro pesquisador da América Latina a receber essa distinção, compartilhada com outros cientistas relevantes da Química — entre eles, inclusive, ganhadores do Prêmio Nobel. 

A medalha, conferida pela Slovak Spectroscopic Society e pela Ioannes Marcus Marci Spectroscopic Society, reconhece o pioneirismo do docente no desenvolvimento de métodos analíticos para o controle de qualidade de fármacos e de amostras industriais de alta pureza empregando a espectrometria atômica e sistemas de preparo de amostras baseados na aplicação de micro-ondas e ultrassom. A entrega será no dia 6 de setembro, em solenidade especial durante o Simpósio Europeu de Espectrometria Analítica (ESAS), na cidade de Brno, situada na República Tcheca.

Espectroscopia é o estudo de como a luz interage com as propriedades da matéria, e a espectrometria atômica estuda a absorção e emissão de radiação por átomos. O trabalho nessas áreas requer laboratórios que atendam a inúmeros requisitos, com condições necessárias para a operação de equipamentos sensíveis. Na UFSM, o Laboratório de Análises Químicas Industriais e Ambientais (LAQIA) e o Centro de Estudos em Petróleo (Cepetro), ambos sob coordenação do professor Érico, apresentam uma infraestrutura completa e equipamentos de última geração e possibilitam as pesquisas em espectrometria atômica. A Revista Arco conversou com o professor Érico Flores para saber mais sobre a pesquisa desenvolvida na UFSM e a trajetória que o levou a conquistar o prêmio.

ARCO: Quais foram as suas motivações para começar a pesquisar nessa área? 

Érico: Desde jovem eu sempre gostei de ler e aprender sobre as áreas de química e de física, mesmo antes de entrar na universidade. Após me formar em Química Industrial pela UFSM, fui fazer o curso de mestrado em Química, no Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ-UFSM), e comecei a trabalhar com a técnica de espectrometria de absorção atômica sob orientação do professor Ayrton F. Martins, um grande motivador das gerações de químicos formados na UFSM. Essa técnica, que envolve princípios de física e de química, conquistou meu interesse e, desde então, tenho trabalhado nessa área desenvolvendo pesquisas de caráter inter e transdisciplinares, especialmente com a utilização de técnicas de espectrometria atômica mais modernas. A área de espectrometria atômica é fascinante e podemos ver os resultados quase que simultaneamente à operação dos equipamentos. Desde meu ingresso na UFSM eu tenho trabalhado com esses equipamentos e são uma das bases que emprego para meus trabalhos de orientação junto aos Programas de Pós-Graduação em Química (PPGQ) e de Engenharia Química (PPGEQ), ambos de excelente reputação nacional e internacional.

ARCO: Você foi o primeiro pesquisador latino-americano a receber a medalha internacional da Sociedade de Espectroscopia da Europa. Você pode nos explicar mais sobre a sua pesquisa, sobre métodos analíticos e como ela se tornou pioneira? 

Érico: Acredito que eu tenha sido escolhido em vista dos trabalhos de espectrometria atômica relacionados ao desenvolvimento de novos sistemas para a análise direta de sólidos, ao trabalho pioneiro que descobriu a causa das mortes, em meados de 2001, de pacientes com leishmaniose que eram tratados com medicamentos à base de antimônio e que continham, na época, altas concentrações de metais pesados e, também, dos trabalhos na área de preparo de amostras de modo a permitir a posterior determinação elementar por técnicas de espectrometria atômica. Nessa última área, nosso grupo de pesquisa foi o descobridor do sistema de combustão iniciada por micro-ondas, que permitiu a análise mais segura de amostras de materiais de alta pureza, assim como de amostras de carvão, petróleo e até de nanomateriais e aqui eu preciso destacar a contribuição do professor Juliano S. Barin, meu ex-aluno de doutorado e hoje docente do Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da UFSM, que foi um dos pioneiros em todos esses trabalhos e que consegue se reinventar sem perder o rigor científico, sem o qual não é possível avançar de maneira consistente.

ARCO: Em termos didáticos, o que é a espectrometria atômica? Qual a sua importância? 

Érico: Os princípios da espectrometria atômica são muito antigos e remetem aos primeiros estudos da teoria atômica. Apesar de ser uma técnica que tem muitas décadas de existência, novas abordagens e os avanços recentes da microeletrônica e de novos materiais têm trazido importantes modificações que fazem com que essa área seja cada vez mais importante para o controle de qualidade de diversas matrizes, para o controle ambiental, assim como para diagnósticos importantes para a saúde. Há vários princípios envolvidos, dependendo de cada técnica. Por exemplo, a espectrometria de absorção atômica emprega temperaturas da ordem de 2.000 a 3.000 °C para atomizar vários elementos, ou seja, convertê-los para a forma de átomos livres em fase gasosa. Nessa forma, os átomos podem absorver a radiação do espectro do visível ou do ultravioleta e a quantidade de luz absorvida é proporcional à concentração de átomos em uma determinada amostra. Assim, é possível saber de maneira seletiva a concentração de cada elemento em uma dada matriz. Outras técnicas mais modernas de espectrometria atômica, como a espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS) operam com um princípio um pouco diferente. Nesta técnica, são utilizadas altas temperaturas (em geral de 8.000 a 10.000 °C) para converter os átomos e formas moleculares em íons carregados. Esses íons são direcionados para um separador de massas que utiliza a razão entre a massa e a carga de cada íon, sendo que o número de contagens de cada íon é proporcional à concentração do elemento respectivo na amostra. Isso permite que se consiga a determinação de elementos em concentração tão baixa quanto uma parte em um trilhão de partes. Essa é uma quantidade tão pequena que é difícil até de imaginar, mas muitas decisões de interesse ambiental, industrial ou de saúde são tomadas considerando esse tipo de análise.

ARCO: Quais são os principais benefícios que a sua pesquisa pode trazer para a área da Química e para sociedade?

Érico: As pesquisas que nosso grupo desenvolve na área de espectrometria atômica têm contribuído de maneira significativa para o avanço na determinação de elementos, especialmente os com reconhecido grau de toxidade em baixas concentrações. Neste sentido, é quase impossível pensar em tomar qualquer decisão, seja no desenvolvimento de novos materiais e de medicamentos, seja na área de alimentos ou ambiental, sem se conhecer a concentração desses elementos e o potencial dano que podem causar. Do ponto de vista ambiental e para a saúde humana, por exemplo, são necessárias informações diversas, referentes à concentração de elementos químicos ou a forma química, desde aqueles considerados como essenciais e benéficos para a saúde ou para o meio ambiente, assim como aqueles que podem ser tóxicos e que precisam de monitoramento contínuo. O mesmo ocorre para o controle de qualidade dos mais diversos produtos, desde alimentos, medicamentos, materiais eletrônicos diversos, produtos de alta tecnologia, enfim uma gama muito grande de matrizes. Para esses casos, a espectrometria atômica tem sido uma ferramenta essencial para permitir decisões corretas ou com menos risco de erros. Atualmente, é difícil ou quase impossível novos avanços na medicina, na indústria ou no controle de qualidade de alimentos ou do meio ambiente sem as análises executadas empregando os mais diversos equipamentos baseados na espectrometria atômica. Além disso, essas pesquisas possibilitam estabelecer estudos com outras áreas do conhecimento complementando informações imprescindíveis em questões de segurança à saúde e ao meio ambiente de uma forma geral, o que considero uma grande contribuição para a sociedade.

ARCO: Você recebeu a Medalha Ioannes Marcus Marci. O que essa medalha significa? Como você reagiu ao saber que receberia esse prêmio? 

Érico: Minha primeira reação ao ser comunicado que receberia essa medalha tão importante foi de muita surpresa, pois eu sabia que a concorrência em nível internacional é ferrenha e somente pesquisadores com uma carreira com boa reputação são considerados como candidatos para serem avaliados. Ao longo de minha carreira, já recebi muitas homenagens, condecorações e destaque científico, a maioria no exterior como o recente título de Golden Jubilee Visiting Fellowship Endowment oferecido há poucos meses pelo Instituto Nacional de Tecnologia Química de Mumbai (ICT-Mumbai), que é a mais importante e reconhecida instituição na área de engenharia da Índia, sendo a primeira vez que essa distinção é outorgada a um pesquisador sul-americano. Assim, receber mais essa medalha é como o coroamento de mais de três décadas de trabalho dedicado, com muita seriedade e competência. Mas mais importante que o prestígio e reconhecimento pessoal, entendo ser uma distinção para nosso grupo de pesquisa, para o Departamento de Química e os Programas de Pós-Graduação que oriento, mas fundamentalmente para a UFSM, que ganha uma visibilidade diferenciada em nível internacional. Essa medalha serve, também, para motivar os jovens estudantes a seguirem a carreira científica e de inovação, sem nunca esquecer que a base e o domínio dos fundamentos da ciência são a base para se fazer trabalhos inovadores. 

ARCO: Qual a importância da UFSM na sua trajetória como pesquisador? 

Érico: Sempre recordo para meus estudantes que é preciso agradecer e, de certa forma, até reverenciar a oportunidade de estudar em uma universidade da qualidade da UFSM, pois os benefícios para uma formação profissional e científica sólida são imensuráveis. Assim, a UFSM proporciona um ambiente qualificado para as atividades de ensino, extensão e pesquisa e, também, de inovação. Por outro lado, apesar das possibilidades e benefícios, tangíveis e principalmente intangíveis, que a UFSM oferece para a sociedade, noto, muitas vezes com assombro e tristeza, algumas visões arcaicas e retrógradas sobre o entendimento do que realmente é uma universidade e qual a sua finalidade. Tenho visto pessoas atacando as universidades federais de uma maneira muito covarde e sem qualquer embasamento. Porém, também vejo que tais ataques não são somente fruto da ignorância ou da falta de uma avaliação mais profunda do contexto em que esta se insere. Em muitos casos, percebo que isso é decorrência de um ressentimento pela dificuldade de compreensão ou de reconhecimento de sua importância. É preciso entender que as universidades públicas precisam ter autonomia em exercer o ensino com as melhores ferramentas disponíveis sem depender, necessariamente, de interesses econômicos muitas vezes inconfessáveis.

Digo aos meus estudantes para, sempre que for fazer uma crítica para uma universidade, pensar antes de emitir qualquer opinião. É importante que a crítica, que sempre é bem-vinda, venha acompanhada de uma sugestão de melhoria de forma realista e fundamentada. Sim, críticas são muito importantes, mas devem ser responsáveis, principalmente quando se trata de uma atividade essencial para o desenvolvimento de qualquer país. Estamos em constante busca de qualidade e de melhorias para a formação qualificada de profissionais em níveis de graduação e pós-graduação, que é o nosso papel principal como instituição pública. Lembro que em um ranking internacional recente, tivemos 21 universidades brasileiras entre as melhores do mundo e sendo todas públicas. Assim, reforço que a UFSM teve e tem um papel fundamental na minha trajetória, pois obtive minha formação profissional aqui e agora tenho a oportunidade de formar novos profissionais, além de poder desenvolver atividades de pesquisa, extensão e inovação que contribuem de maneira significativa para a sociedade.

ARCO: Os cortes de verbas para as áreas de pesquisa brasileira têm afetado o desenvolvimento da ciência no país. Qual a importância de uma premiação como essa neste momento? E quais os próximos passos na luta por um maior reconhecimento da ciência?

Érico: Esse é um aspecto que me causa muita apreensão e, principalmente, espanto. Não consigo entender que existam governantes que não compreendam a importância de termos universidades de qualidade e com um mínimo de garantia de recursos para suas atividades de ensino e pesquisa. Todos os países mais desenvolvidos entendem isso com muita clareza e é por isso que a proporção de gastos com educação e com ciência e tecnologia é bem maior do que ocorre no Brasil onde, por incrível que possa parecer, estamos gastando cada vez menos nessas áreas que são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer nação. Basta apenas citar como exemplos os cortes recentes e absurdos no orçamento das universidades e centros de pesquisa, praticamente inviabilizando seu funcionamento. 

A premiação recebida vem, por um lado, mostrar que mesmo com todas as dificuldades, a ciência brasileira ainda teima em sobreviver e trabalhar com qualidade e, por outro lado, escancarar a insensatez que representam os cortes de verbas na área de educação, pois se tivéssemos mais investimentos teríamos, certamente, mais pesquisadores da UFSM e de outras universidades brasileiras recebendo distinções similares. Acredito que o recebimento dessa medalha é um incentivo para os jovens pesquisadores para, apesar das dificuldades, não desistirem e perceberem a importância que cada um tem para o desenvolvimento do nosso país, desde a pesquisa básica até a aplicação tecnológica. Eu, particularmente, tenho buscado estimular os mais jovens, pois formei muitos mestres e doutores que hoje estão nucleando grupos em outras universidades e centros de pesquisa, e acredito que este reconhecimento internacional dê a eles mais motivação para perseverar no caminho da ciência de qualidade.

Expediente: Entrevista: Jéssica Medeiros, acadêmica de Jornalismo e estagiária; Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista; Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Camilly Barros, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário; Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2022/08/12/aluna-de-ouro Fri, 12 Aug 2022 20:00:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/?p=3649
 Fotografia horizontal e colorida de uma mulher de pele branca na parte direita da imagem. Ela está de perfil direito, em plano médio longo. Ela está com expressão facial de vibração, a boca está aberta, os braços estão dobrados para cima e o corpo está inclinado para trás. Tem pele branca, rosto angular, olhos escuros e cabelos loiros e lisos presos em um coque na parte superior da cabeça. Ela veste camiseta amarela com detalhes em verde nas mangas e a bandeira do Brasil no lado direito do peito, short azul marinho justo e joelheiras brancas. Ela está em uma quadra de vôlei  na cor salmão. O fundo é dividido, de forma horizontal, em três linhas: na parte superior, a cor roxa; na parte central, a cor azul celeste, e na parte inferior, a cor salmão.
Foto: Tiago Moreira

A audição é um sentido capaz de promover sensações únicas e incomparáveis. Para os que a possuem na sua totalidade, ouvir uma música, conversar pelo telefone e escutar os sons da natureza são coisas comuns que passam na maioria das vezes despercebidas. Imagine viver sem isso. 

No dia 13 de junho, a TXT entrevistou a doutoranda em Medicina Veterinária pela UFSM, Eduarda Santi. Natural de Nova Palma, RS, a estudante foi diagnosticada com deficiência auditiva e, desde a infância, se acostumou a quebrar barreiras com a ajuda das duas paixões de sua vida: o esporte e o estudo.

Inúmeras vezes campeã pelo Santa Maria Soldiers, Eduarda alcançou a sua maior glória esportiva no ano de 2022, quando disputou as Surdolimpíadas Mundiais na modalidade vôlei. O evento ocorreu no mês de maio, em Caxias do Sul. Quanto aos estudos, dedicou uma década de sua vida à UFSM. Dos dez anos, quase nove foram vividos na Medicina Veterinária e o resto na Odontologia, que cursou até o terceiro semestre. 

.TXT: Há quanto tempo você está na UFSM? Como foi o seu início na Instituição?

Eduarda: Estou há 10 anos na UFSM. Eu me formei no ensino médio no final de 2010 e passei por meio do PEIES em Odontologia. Na época, eu escolhi esse curso em decorrência da minha deficiência auditiva e da questão da mulher no mercado de trabalho da Veterinária. Os meus pais queriam que eu fizesse um curso mais tranquilo, porque o meu pai é veterinário, então ele sabe que se trata de um trabalho mais pesado e mais sujo. No fim, eu fiz até o terceiro semestre de Odontologia, aguentei só as cadeiras básicas. No terceiro semestre, passei a ter aulas de “Saúde Coletiva” e tínhamos que atender jovens em uma escola aqui de Santa Maria. Na primeira vez que fui atender uma criança, percebi que não era o que eu queria. Além disso, eu tenho umas amigas que faziam Veterinária e me falaram muito bem do curso, eu só conseguia pensar que eu devia fazer também. Então, resolvi começar umas cadeiras do curso como aluna especial e eu amei. No ano seguinte fiz o vestibular e fui aprovada.

.TXT: Como é a sua relação com a Medicina Veterinária dentro da UFSM?

Eduarda: Dentre todas as áreas da Veterinária, eu sempre pensei em trabalhar com campo. No 3º semestre, acabei conhecendo o Laboratório de Parasitologia e gostei muito, tanto que estou no laboratório até hoje. Eu me formei no final de 2018 e em 2019 comecei o mestrado. Em 2020 veio a pandemia e essa parte do mestrado ficou complicada, porque eu estava no início do experimento, que tinha como objetivo testar a eficácia de um tipo de cogumelos contra larvas e adultos de uma espécie de mosca varejeira. Por causa disso, eu disse que nunca faria doutorado porque queria fazer um ano sabático. Nessa época, voltei a praticar esportes e entrei na Associação de Surdos de Santa Maria. Eu joguei os Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), e quando você está na universidade, tem muitas oportunidades nesses eventos. Então, fui conversar com algumas pessoas da UFSM e me falaram para começar o doutorado. Conversei com a professora Gláucia, que eu já admirava, manifestei interesse em fazer o doutorado e ela aceitou me orientar.

.TXT: Como você sente a questão da acessibilidade na UFSM? Ocorreram mudanças nos 10 anos que você está na Instituição?

Eduarda: Falando sobre mim, eu sou surda oralizada, então, não preciso de intérprete. Na Odontologia, por exemplo, achava que a coordenação pudesse avisar os professores. Então, fui para a aula achando que eles já tinham sido avisados sobre a minha deficiência. Eu cheguei a sofrer preconceito, colegas dando risada, e isso foi um dos motivos para eu mudar de curso. Quando eu cheguei na Veterinária, o coordenador disse que eu tinha que avisar os professores e os colegas da minha deficiência, explicar a situação para eles. A questão da acessibilidade em si, no que diz respeito ao pessoal, melhorou muito, mas só me ajudou porque eu já falava, ninguém foi atrás de mim para perguntar se estava tudo bem. No doutorado, por causa da pandemia, o uso de máscara foi complicado, porque como eu faço muita leitura labial, foi horrível para mim. Quanto aos professores, a professora do laboratório que eu trabalho, por exemplo, ficou com medo no início, mas ela foi muito receptiva. O pessoal todo da Veterinária foi muito receptivo.

.TXT: Como começou essa sua relação com o esporte? Quando passou a ser algo mais sério?

Eduarda: Desde criança eu não gostava de brincar de boneca, mas adorava jogar futebol por causa dos meus tios. A minha mãe me influenciava muito, ela gostava que eu pudesse conversar com pessoas diferentes e então, eu jogava em vários times. Joguei handebol, futebol, vôlei, tênis de mesa, tudo que possa imaginar. O momento que eu passei a ver o esporte de forma mais séria foi quando eu comecei a jogar futebol americano no Santa Maria Soldiers. Eu competi durante 5 anos, mas por causa do doutorado, tive que limitar algumas coisas, já que era muita tarefa para mim. 

Fotografia horizontal e colorida em tons de verde e azul, de uma mulher de pele branca que segura uma bola de futebol americano atrás da cabeça. Ela está no centro da imagem, de perfil, em plano geral fechado, e tem pele branca, cabelos lisos e compridos na cor loiro escuro, presos em rabo de cavalo. Veste camisa branca com detalhes em verde escuro, calção escuro, meias pretas longas e chuteiras verdes com detalhes escuros. Está com o braço direito inclinado para trás, e com uma bola avermelhada de futebol americano na mão. Ao fundo, em desfoque, sete mulheres com camisas com camisa azul e calção preto, e dois homens com roupas em cinza e em preto. Estão em um gramado verde claro e, ao fundo, estrutura de metal cinza e alta, um muro de concreto cinza e árvores em tons de verde.
Foto: Arquivo pessoal de Eduarda Santi

.TXT: Em uma partida, você sente dificuldades para se comunicar com companheiras ouvintes?

Eduarda: Toda vez que eu ia treinar em um time de ouvintes, eu tinha que avisar da minha deficiência. Se alguém me chama de costas, eu dificilmente escuto, então tem que vir e fazer o toque para eu virar de frente. São coisas meio complicadas, porque as pessoas precisam se dar conta que precisam estar de frente para mim. No futebol americano, por exemplo, que eu joguei por 5 anos, o treinador não podia gritar ou falar para mim, então a gente se comunicava muito por sinais. Nós treinamos algumas jogadas e ele fazia o uso das mãos, ou só mexia a boca, porque eu faço leitura labial. Outra alternativa era com a ajuda de uma colega que ia falar com ele e passava a mensagem para mim. Mas é uma situação complicada, às vezes, o colega esquece, acontecia algum probleminha e a pessoa vinha pedir desculpas. 

.TXT: Como foi o convite para disputar as Surdolimpíadas?

Eduarda: Uma menina da Veterinária queria jogar vôlei de areia, e eu não jogava há muito tempo. Nós jogamos e ela disse que tinha gostado do meu estilo de jogo. Uma semana depois, tinha a convocação da UFSM para jogar o JUBs, os Jogos Universitários Brasileiros em Brasília, e isso foi meio que um convite, porque tinham 10 meninas e precisavam de mais uma. Então, eu fiquei dois meses treinando e fomos para Brasília, ficamos bem colocadas. Passou um tempo e a treinadora da seleção gaúcha masculina soube, por um amigo do meu treinador, que tinha uma deficiente auditiva que jogava vôlei com ouvintes. Assim, ela disse para eu entrar no time da seleção gaúcha para jogar as Surdolimpíadas Nacionais em São José dos Campos (SP). Na competição, estava o treinador da seleção brasileira e ele me viu. Depois disso, ele me mandou mensagens dizendo que queria me ver na seletiva da seleção. Isso foi em janeiro deste ano e logo depois fui convocada.

.TXT: Como é para você conciliar o esporte com os estudos?

Eduarda: Em função das Surdolimpíadas, eu fiquei 2 semanas longe dos estudos. Quando eu voltei para o laboratório, tinha muita informação, foi bem difícil, porque o doutorado ainda é muito novo para mim. Então, agora eu quero recuperar o ritmo dos estudos para depois voltar a treinar, porque eu penso que se é para fazer algo, tem que ser bem feito. Não quero fazer "meia boca”. Se fosse assim eu jogava vôlei com a cabeça no laboratório e ficava preocupada pensando nas coisas que teria que fazer, a maneira que eu teria que estudar.

.TXT: Qual a sensação de representar o Brasil em uma competição dessa relevância?

Eduarda: É muito incrível saber que você está ali representando o Brasil. Achei uma experiência muito legal, que eu vou levar para a vida. Só que ao mesmo tempo, foi muito exaustivo. Tinha muita pressão, muita informação nova. Mas eu pretendo continuar, tanto que, quando eu fui para lá, me chamaram para o time de handebol, para jogar o mundial na Dinamarca no ano que vem. Já no vôlei, o treinador me disse para treinar de levantadora, porque ele quer me levar para jogar as Surdolimpíadas Mundiais de 2025 no Japão.

 .TXT: Você já pensou em seguir na carreira esportiva de forma profissional?

Eduarda: Eu não sei. Realizei o meu sonho, que era servir o Brasil, e quero continuar porque é uma emoção diferente. É muito legal ver as pessoas te dando apoio, crianças pedindo foto e autógrafo, isso é legal, porque você acaba sendo uma inspiração para elas. Sendo sincera, você tem que investir muito no esporte, é uma coisa cara. Eu consegui um patrocínio para ir para as Surdolimpíadas para pagar o funcional, nutricionista, comprar tênis, roupa, foi muito caro. No fim, o esporte precisa de muito investimento para dar um retorno, a Veterinária eu sei que vai me dar um retorno futuramente. 

.TXT: Quais são as suas maiores inspirações?

Eduarda: As pessoas que eu mais me inspiro na vida são os meus pais. Minha mãe, porque, se não fosse por ela, eu não estaria aqui falando. Deram o diagnóstico para a minha mãe dizendo que eu não ia falar, que era para fazer libras, mas a minha mãe botou na cabeça que eu ia falar sim e fiquei fazendo fono durante 15 anos. O meu pai também, porque ele sempre foi muito trabalhador, pensando no melhor a se fazer por nós, pensando sempre na frente.

.TXT: Quanto ao seu futuro, você já tem planos?

Eduarda: Eu sempre pensei em ter uma empresa própria e em prestar concurso, mas também já pensei em trabalhar com o meu pai na lavoura dele. Mas eu pensava isso antes de fazer o doutorado, quando entrei aqui, comecei a gostar de ensinar e dar aulas. Então, quem sabe eu não sigo como professora? Eu tenho um certo receio por causa da minha deficiência, mas por que não? Eu falo de concurso e de empresa própria, mas no fundo sinto que eu quero ser professora.

Reportagem: Antonio Oliveira e Kauã Mello

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No mês de maio de 2022 estreou, na Rádio Universidade 800 AM, o Programa Te Move – Temas Emergentes em Movimento. O programa é uma realização da Coordenadoria de Tecnologia Educacional (CTE/Prograd) e vai ao ar toda terça-feira, às 18 horas, na frequência 800 AM em Santa Maria e pelo site 55bet-pro.com/radio.

O Te Move tem como objetivo propor um novo espaço de conversas e reflexões sobre os Temas Emergentes na Educação Básica e Superior, através de entrevistas com convidados semanais. A apresentação é conduzida pela Pedagoga da CTE, Maria Aparecida Azzolin, e pelo Professor Clayton Hillig. Além dos bate-papos, também ocorrem os momentos drops em educação. 

Os convidados das primeiras edições do programa foram:  

  • 03/05/22 – Professores Luciano Schuch (Reitor da Universidade Federal de Santa Maria) e Jerônimo Tybusch (Pró-Reitor de Graduação da UFSM); 
  • 10/05/22 – Professor e pesquisador José Moran; 
  • 17/05/22 – Professor Valdo Barcelos (UFSM);
  • 24/05/22 – Professores Martha Adaime (Vice-Reitora da UFSM) e Jerônimo Tybusch (Pró-Reitor de Graduação);
  • 31/05/22 – Psicólogo Patrick Camargo. 

A produção do programa é realizada pela Comunicadora Social Luísa Peixoto e pela Coordenadora da CTE, Profª. Liziany Müller. A responsabilidade técnica é do Radialista Gian Noal.

O acervo de entrevistas do programa pode ser acessado no Canal do YouTube "Te Move - CTE PROGRAD UFSM". 

Fonte: Coordenadoria de Tecnologia Educacional

 

 
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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/animais-na-pesquisa-principios-eticos-para-o-avanco-cientifico Wed, 18 May 2022 13:04:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9271 O uso de animais em experimentos científicos e atividades didáticas é necessário para o avanço do conhecimento em áreas como a da saúde. A busca pelo bem estar dos animais e a aplicação de métodos alternativos para reduzir o uso em pesquisas têm sido prioridade da comunidade científica. O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) é um órgão nacional que estabelece normativas que orientam o uso de animais. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), quem cumpre esse papel é a Comissão de Ética no Uso de Animais (Ceua), presente em instituições em que são utilizados para atividades de ensino ou de pesquisa científica.

Descrição da imagem: imagem de capa horizontal e colorida em tons pasteis. No centro, rato branco e grande, com olhos vermelhos, patas e orelhas rosas. Ao lado esquerdo, rato pequeno e na cor cinza escuro, com olhos escuros e orelhas e patas acinzentadas. Ao lado direito, rato pequeno e branco, com olhos vermelhos e patas e orelhas em rosa claro. Há cinco círculos em tamanhos diferentes e nas cores rosa claro, rosa pastel e verde escuro. Os círculos estão espalhados pela imagem. No círculo rosa pastel pequeno, no centro superior esquerdo da imagem, em branco, o texto "Parte 02". Ao lado, em caixa alta, tamanho grande e na cor verde escuro, o título "Entrevista". O fundo é branco.

Em 2021, a Comissão recebeu e analisou 77 projetos. Já em 2019, antes da pandemia, foram 130. Profissionais de diferentes áreas integram a Ceua, como biólogos, médicos veterinários, zootecnistas, farmacêuticos, estatísticos, além de representantes da Sociedade Protetora dos Animais.


A Revista Arco entrevistou a farmacêutica Patrícia Bräunig, atual presidente da Ceua; a professora do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular, Vânia Loro, vice-presidente da Ceua; e a técnica administrativa Liciani Pauli, secretária da Ceua, para entender a atuação do órgão na Universidade. Confira a seguir:

 

Arco: O que é a Comissão de Ética no Uso de Animais e como esse órgão atua na UFSM? 

Patrícia: Todos os projetos de pesquisa científica, assim como as atividades didáticas e de ensino, que irão utilizar animais do Filo Chordata e subfilo Vertebrata devem ser analisadas por comitês de ética em pesquisa. Isso visa à qualificação desses projetos e evita o uso inapropriado, inadequado ou abusivo dos animais. 

Nossa Comissão é formada por 34 profissionais: são 17 titulares e 17 suplentes. Todos os departamentos da Universidade que usam os animais, tanto em projetos científicos como em atividades didáticas de aula práticas, precisam indicar membros para compor a Ceua.

Box horizontal nas cores verde escuro e branco. Em seis linhas, caixa alta e na cor branca, o texto "Os vertebrados constituem um subfilo dos animais cordados, compreendendo os peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Caracterizam-se pela presença de coluna vertebral segmentada e de crânio que lhes protege o cérebro". O fundo é verde escuro com textura.

Arco: Quais são os critérios que uma pesquisa deve cumprir para utilizar animais? 

 

Patrícia: O pesquisador escreve o projeto de pesquisa e o submete à Ceua, pela qual ele é avaliado por dois profissionais. São diversos pontos que são checados para ver se estão adequados. Entre eles está a qualificação e a capacitação dos profissionais, dos pesquisadores ou estudantes envolvidos na pesquisa para lidar com os animais. 

Também tem a questão da justificativa do “N” amostral [quantidade de animais] que vai ser utilizado, que precisa estar justificado - ou por cálculo estatístico ou por referências bibliográficas. Então, quando o pesquisador solicita um determinado número de animais, ele precisa embasar de uma forma sólida por que ele está pedindo aquela quantidade. 

Sobre o biotério, nós também cuidamos bastante onde os animais vão ficar alojados, as condições a que eles são submetidos, o grau de invasividade e de estresse. São vários requisitos que a Ceua confere quando avalia um projeto.

 

Arco: Quais são os passos que um pesquisador deve seguir para ter a aprovação do uso de animais? 

 

Liciani: Tendo tido o projeto aprovado pela Ceua a cada ano, o pesquisador precisa encaminhar um relatório anual de atividades. Um relatório parcial, no caso. E, no final da pesquisa, conforme o cronograma que ele informa na submissão do projeto, ele precisa encaminhar um relatório final das atividades. Nesse relatório, ele informa o número de animais já utilizados -  nunca podemos ultrapassar o número de animais aprovados pela Ceua. Ele coloca as etapas já executadas, informa quais foram os resultados obtidos e também os produtos originados, como artigo, dissertação, tese e participação em eventos. As modificações do projeto, tipo de fármaco utilizado, tipo de procedimento, tudo isso precisa ser informado à Ceua, pois precisa  ter a aprovação da Comissão. E, no decorrer da execução do projeto, a Ceua acompanha todos os processos.

 

Arco: Quais as áreas e os tipos de pesquisa que mais fazem esse uso? 

 

Patrícia: Seria a área da saúde humana, farmácia e medicina. Os projetos que nós analisamos são da bioquímica, da farmacologia e da toxicologia. A medicina veterinária, zootecnia e a educação física também são áreas que utilizam animais. Recentemente estamos recebendo muitos projetos de engenharia sanitária ambiental. Enfim, são diversas áreas da Universidade que utilizam os animais em pesquisa científica.

 

Arco: Sobre a questão ética, qual a importância do uso de animais em pesquisas  científicas? São realmente necessários? 

 

Patrícia: O uso dos animais na pesquisa é muito importante: eles nos ajudam a gerar conhecimento, avançar tanto na área da saúde animal quanto na saúde humana e também na geração de tecnologia. Os animais são utilizados em pesquisas para desenvolvimento de medicamentos e de vacinas. Nos ajudam a entender de forma aprofundada uma doença e também seus possíveis potenciais terapêuticos.

 

Arco: O que mudou ao longo do tempo no uso de animais em pesquisas? 

 

Vânia: O que mudou foi a questão da regulamentação dos biotérios de experimentação: o que qualifica um biotério? O que é um biotério? O local onde o animal fica por mais de doze horas. Quais são os tipos? Pode ser classificado como de experimentação, de manutenção, ou de criação. Então isso passou a ser regulamentado e a gente tem obrigação de verificar. E essa foi a principal mudança que aconteceu. 

 

Arco: Sobre os métodos alternativos, quais são os mais utilizados? 

 

Patrícia: A questão é que, devido ao avanço da tecnologia e do conhecimento, nós temos poucos métodos alternativos. Uma das áreas que mais utiliza métodos alternativos é a do desenvolvimento de cosméticos. E o que é um método alternativo? É qualquer método que possa ser utilizado para substituir, reduzir ou refinar o uso de animais em atividades de pesquisa. O Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) já publicou métodos alternativos amplamente utilizados e por isso são reconhecidos e validados nacionalmente e internacionalmente. 

Esses métodos são In vitro, In silico e In químico. O In vitro é realizado em laboratório, o In silico são modelos computacionais e o In químico são reações químicas utilizadas para substituir o uso de animais. 

 

Arco: Esses métodos alternativos costumam ser priorizados?

Vânia: Sim, principalmente nas aulas, quando possível. Claro que alguns cursos demandam o uso de animais, como a Medicina Veterinária, em que é praticamente impossível não tê-los em pelo menos uma parte do ensino. Mas, em outros cursos em que não há essa necessidade, ele é substituído pela BioInformática

 

Patrícia: Na questão da pesquisa, tem programas de BioInformática que colocam as variáveis e simulam os possíveis resultados. Então, não precisa de animais para fazer essa primeira triagem. E está começando a ser utilizado também, na área da medicina, um modelo que imita o animal como se fosse um bonequinho para aprender a fazer uma administração como uma injeção, com uma agulha. Ele tem todas as veias e o pesquisador e o aluno podem treinar primeiro nesse modelo. 

Expediente:

Reportagem: Eduarda Paz, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Caroline de Souza Silva, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/psicologia-feminista-terapeutica-desigualdades-genero Fri, 18 Mar 2022 12:11:52 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9116 A psicologia social feminista é um subcampo da psicologia que se dedica tanto à pesquisa acadêmica quanto à prática profissional e leva em conta a intersecção do campo com as compreensões de gênero, de identidades de gênero e de orientações sexuais. Um grupo de pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) ofereceum curso sobre Psicologia Feminista com o objetivo de familiarizar os participantes com os conceitos do campo feminista, além de fomentar uma compreensão da psicologia que esteja implicada com o contexto social, político e cultural. O curso se destina tanto à comunidade acadêmica quanto ao público externo e as vagas são limitadas. As inscrições estão abertas até sábado (19) e podem ser feitas por meio deste link.

Ilustração horizontal e colorida de uma mulher saindo de uma caixa. A ilustração tem tons de lilás e cinza. Ela é dividida em três linhas. A mulher tem corpo lilás com contornos em roxo berinjela, e cabelos roxo berinjela, curtos e ondulados. Na primeira linha, três caixas. Caixa um: mulher sentada com as pernas junto ao corpo, mãos seguram os joelhos e olha para frente. Caixa dois: mulher sentada com as pernas junto ao corpo, e as mãos empurrando a caixa na parte da direita. Caixa três: mulher sentada, com as pernas se cruzando, e as mãos empurrando a lateral direita da caixa, que está entortando. Na linha dois, uma caixa e uma ilustração. Caixa quatro: mulher sentada com as pernas cruzadas, empurra para a lateral direita. A linha da caixa está rompida. Ao lado, mulher caída, deitada com uma das pernas para cima e um braço sobre os olhos. A caixa virou uma linha. Na linha três, quatro ilustrações da mulher. Primeiro, ela está deitada, com uma das mãos apoiadas no chão, sobre uma linha preta. Ao lado, está levantando, com um joelho no chão e o outro dobrado, está levemente curvada. Ao lado, está de pé, em perfil direito. Ao lado, outra vez de pé, mas bem no canto inferior direito; a imagem corte metade do seu corpo. O fundo é cinza claro.

O curso é desenvolvido e ministrado pelas doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) Caroline Matos Romio, Mariana de Almeida Pfitscher e Mirela Sanfelice. Caroline atua como psicóloga na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da UFSM e tem graduação em Psicologia e mestrado também na instituição. Mariana é docente e coordenadora do curso de Psicologia da Ulbra de Santa Maria, é formada em Psicologia pela mesma instituição e licenciada pelo Programa Especial de Formação de Professores da UFSM. Mirela tem mestrado em Ciências Sociais pela UFSM e experiência em psicologia de emergências e desastres. A coordenação da iniciativa é da professora Adriane Roso, docente no Curso de Psicologia, no PPGP, no curso de Especialização em Estudos de Gênero e coordenadora do Núcleo VIDAS, de Pesquisa, Ensino e Extensão em Psicologia Clínica שםל Social. De acordo com a doutoranda Caroline Romio, esses caracteres em hebraico que interligam as palavras clínica e social indicam a palavra complementaridade.

A Revista Arco conversou com as doutorandas responsáveis pelo curso para saber mais sobre ele e as teorias que articulam psicologia e feminismo. Confira:

 

Arco - De onde surgiu a ideia de montar e ofertar um curso sobre a Psicologia Feminista? Poderiam falar sobre a iniciativa?

Caroline, Mariana e Mirela - Nós somos psicólogas e feministas, o interesse surgiu do desejo de promover, através de uma atividade de extensão, o compartilhamento de conhecimentos científicos e experiências acerca dos feminismos, enfatizando as possíveis intersecções entre feminismo e psicologia. O curso também está articulado à disciplina de Estágio de Docência Orientada previsto pelo PPGP.

 

Arco - Os dois primeiros módulos do curso abordam teorias feministas. Qual a importância de primeiro ter esse conhecimento teórico básico para, posteriormente, abordar a intersecção entre psicologia e feminismo?

Caroline, Mariana e Mirela - O nosso propósito é disponibilizar o curso para todas as pessoas que se interessarem pela temática e, para isso, consideramos indispensável apresentar como estamos compreendendo o feminismo, a pluralidade de expressões do movimento, suas reivindicações históricas, desde a ampla conquista do voto pelas mulheres até as temáticas emergentes e atuais. Após a apresentação dessa base, propomos algumas intersecções com o campo da psicologia. Lembrando que uma vez que o curso não se dedica exclusivamente a psicólogas e psicólogos, as articulações propostas são conceituais e abrangentes.

 

Arco - A intersecção entre feminismo e psicologia é uma linha de pesquisa/estudo na área? Poderiam explicar um pouco sobre isso?

Caroline, Mariana e Mirela - Sim, é uma linha de estudos. É importante dizer que a psicologia é um campo de conhecimento plural. Nós compreendemos o feminismo em intersecção com a vertente da psicologia social. A psicologia social apresenta alicerces para pensarmos a intervenção da psicóloga e do psicólogo comprometidos com a escuta do sujeito integrado à sua realidade social, buscando produzir conhecimentos que contribuam para a superação das iniquidades e injustiças sociais.

As epistemologias feministas se integram com a psicologia produzindo saberes que fomentem relações mais equitativas e respeitosas entre todas as pessoas, indiferente de sua identidade de gênero ou orientação sexual.

 

Arco - O que é a psicologia social feminista? 

Caroline, Mariana e Mirela: A psicologia social feminista é um subcampo da psicologia que se dedica à pesquisa acadêmica e à prática profissional dedicada à compreensão do gênero, das identidades de gênero e orientações sexuais. A psicologia social feminista também questionou modelos de produção de conhecimento na psicologia centrados em uma compreensão que seria supostamente neutra e universal, destituída de contexto histórico e político. A psicologia social feminista desafiou crenças culturais sobre a natureza feminina inata e, também, estereótipos sobre vários grupos de mulheres. As psicólogas feministas também estudaram e destacaram o papel que o gênero desempenha na distribuição de poder na sociedade.

 

Arco - Existe uma diferença de abordagem da psicologia feminista para outros métodos de atuação na área? Poderiam citar características específicas que a prática da psicologia feminista engloba?

 Caroline, Mariana e Mirela - A psicologia feminista sustenta teoricamente tanto a produção de pesquisas quanto o fazer prático dos profissionais. Por ser uma base epistemológica para a prática, vai instrumentalizar as profissionais sobre como fazer o seu trabalho.  Podemos dizer que, a partir da psicologia feminista, as profissionais irão se posicionar criticamente e auxiliar na superação das iniquidades e opressões sociais, políticas e culturais da sociedade. 

Arco - O que são terapias feministas? Poderiam citar um exemplo?

Caroline, Mariana e Mirela - Terapias feministas tratam de práticas de intervenções psicossociais que se fundamentam nas teorias feministas e nos referenciais teóricos/técnicos da psicologia. Entre os diferentes contextos de intervenções, podemos citar o trabalho com grupos, uma prática importante nas instituições, tais como escolas, organizações, políticas públicas e intervenções comunitárias. No contexto das terapias feministas, práticas grupais de escuta podem ser desenvolvidas voltadas a vivências de mulheres vítimas de violência; grupos voltados às experiências com a maternidade; grupos com adolescentes sobre direitos sexuais e reprodutivos, entre outras demandas. Destacamos que o Núcleo VIDAS desenvolve um projeto de extensão que realiza atendimentos à comunidade acadêmica e externa que são periodicamente planejados e divulgados a quem se interessar em participar. Além disso, cabe lembrar que, além de intervenções grupais, existem outras metodologias terapêuticas que podem ser desenvolvidas e planejadas no contexto feminista, como práticas de acompanhamento. As terapias feministas somam o campo do fazer psicológico, indicando o compromisso ético e político da profissão que deve acompanhar a história da nossa sociedade e as necessidades subjetivas de uma cultura, os reflexos das desigualdades sociais e as práticas excludentes.

 

 

Arco - Pode falar sobre a intersecção entre feminismo e psicanálise?

Caroline, Mariana e Mirela - A teoria psicanalítica consolidada por Sigmund Freud no final do século 19 e por mais de três décadas do século 20 marca a descoberta e os estudos sobre o inconsciente. As investigações psicanalíticas partiram da escuta das mulheres e suas manifestações de sofrimento psíquico que se refletiam no corpo. Nesta perspectiva, o ponto de encontro da psicanálise e do feminismo se constitui na medida em que as teorias propõem um olhar para a cultura, os destinos atribuídos à mulher e ao seu corpo, os ideais sociais e sua posição nos espaços públicos. Assim, a intersecção entre os dois campos se constitui em encontros que se somam e potencializam o lugar de fala das mulheres, descortinando um silenciamento histórico e cultural.

 

Arco - De que forma uma abordagem feminista pode contribuir no tratamento psicológico?

Caroline, Mariana e Mirela - Acreditamos que integrada a essa pergunta está a pergunta sobre qual a finalidade de um tratamento psicológico. Ignácio Martin-Baró, um importante intelectual e psicólogo social que morreu reivindicando a garantia dos direitos humanos em El Salvador sinalizava a importância da construção de uma psicologia capaz de produzir saberes que dialoguem diretamente com as demandas vivenciadas pelas pessoas.

Quando pensamos no tratamento psicológico, podemos dizer que ele objetiva construir possibilidades para as pessoas produzirem espaços de fala sobre si e seus sofrimentos, da elaboração das suas narrativas de vida, e da construção de novas experiências de vida sustentadas em um referencial de autonomia, respeito e cuidado.

Dessa forma, a abordagem feminista contribui para compreender os sofrimentos, especialmente das mulheres e meninas, localizando esses sofrimentos em uma realidade social perpassada por iniquidades de gênero. Ainda, a abordagem feminista oferece saberes que podem auxiliar a toda a sociedade no processo de superação dessas iniquidades.

 

Arco - A abordagem feminista no tratamento psicológico pode auxiliar mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência, qualquer que seja seu escopo? De que forma?

Caroline, Mariana e Mirela - A abordagem feminista pode contribuir para que a atuação da psicóloga e do psicólogo em todos os seus âmbitos seja comprometida com a construção de uma sociedade mais equitativa. Quando pensamos especificamente no tratamento psicológico, a profissional estará presente no atendimento para escutar toda a complexidade da experiência subjetiva vivenciada pela pessoa em atendimento que foi vítima de violência. Mas a compreensão que a profissional produzirá sobre a experiência dessa pessoa também será amparada no reconhecimento das dinâmicas de poder que tornam mulheres, crianças e adolescentes mais suscetíveis a enfrentarem violências em nossa sociedade.

Expediente:

Entrevista: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll. acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/ufsm-detecta-e-referencia-em-testes-da-covid-19 Thu, 03 Mar 2022 19:22:41 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8944 Coordenado pelos professores Terimar Moresco, Ângela Batista e Daniel Graichen, o projeto de extensão chamado de UFSM Detecta, sediado no campus de Palmeira das Missões, atua na testagem da Covid-19 desde março de 2020. O projeto já realizou mais de 30 mil testes desde o início da pandemia no país e possui contrato para a realização de testes em 50 municípios do Rio Grande do Sul.

Descrição da imagem: Fotografia com intervenções de elementos artísticos em azul marinho. Na fotografia, mulher de pele branca sorri e está sentada em frente a uma mesa com um notebook. Ela tem rosto redondo, cabelos loiros, lisos e na altura do peito; tem olhos escuros e sobrancelhas arqueadas e na cor loira; usa batom vermelho e rímel nos olhos; veste jaleco branco de mangas compridas; no bolso, brasão da UFSM e os nomes "Terimar" e "Cemicro". Está sentada, com o braço direito apoiado em uma mesa branca. Sobre a mesa, notebook preto aberto, representação 3D de célula e uma caneca branca com "UFSM detecta" em azul claro. A fotografia é contornada por riscos arredondados em azul claro.

Devido a tamanha demanda, coordenadores e alunos tiveram que rapidamente desenvolver um método organizado de trabalho. O processo se tornou de fácil compreensão: as amostras são recolhidas nos laboratórios pertencentes aos municípios vinculados e enviadas para a equipe para a checagem, que é efetuada a partir do teste do tipo RT-PCR, o qual é feito através de um swab nasal para verifi car a existência do vírus na secreção respiratória. Assim, o resultado fica disponível em até 48 horas para os pacientes.

A Arco conversou com a professora Terimar Moresco, Doutora em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde pela UFSM, para saber mais sobre essa ação pioneira em testagens da Covid-19.

“A comunidade tem muito orgulho de ter a Universidade aqui, porque ela entende isso como uma conquista. Então, quando eles viram que a instituição estava realizando os tão procurados testes, quiseram ajudar.”

Vocês possuem uma rotina de produção preestipulada?

Sim! Nós somos um laboratório de ensino e pesquisa dentro da Universidade, e dia 30 de março [de 2020], nós demos início à proposta de fazer os testes. Naquele momento, não tínhamos o laboratório organizado, o pessoal treinado, nem uma requisição de exames. Então, fomos organizando tudo e chamamos uma equipe de alunos para nos ajudar, principalmente os que já haviam tido contato com o laboratório antes da pandemia, por estarem mais familiarizados. Inicialmente, distribuímos as tarefas conforme o treinamento do aluno, até aderirmos a protocolos e formação de setores – que é como funcionamos hoje: à medida que membros da equipe saem, novos entram, passam por todos setor específico.

 

Como foi partir do mundo da pesquisa acadêmica para a experiência prática de desenvolver as testagens da Covid-19?

Foi bem desafiador, porque nós tivemos que aprender, além da técnica da testagem propriamente dita, a sermos empreendedores. Também precisamos dar entrevistas, que é algo novo para mim. Tivemos que sair do nosso mundo de professor, pesquisador, onde fazíamos uma pesquisa e o resultado não necessitava de urgência, para partir para uma realidade em que o resultado do teste precisa sair rapidamente, o paciente está lá precisando saber se vai para a UTI ou não.

Foi também importante em relação ao aprendizado, porque sempre trabalhamos com a formação de alunos, mas a gente teve que formar uma equipe e montar um laboratório de diagnósticos – que não era o que nós fazíamos de costume. Eu acho que essas coisas foram importantes, porque tivemos que ter uma responsabilidade, não maior, mas diferente – da que tínhamos antes. Aprendemos a lidar com a comunidade, o que também foi muito gratificante, porque as pessoas compreenderam a importância do nosso trabalho na região.

 

Ao mudar o rumo do trabalho desenvolvido no laboratório por causa da pandemia, como foram obtidos os recursos necessários?

Foram necessárias todas as adaptações que tu imaginas. O primeiro equipamento, que dava início a tudo, foi doado pela comunidade. Com ele, nós tínhamos a pretensão de realizar dois mil testes; agora já estamos com mais de 30 mil. Aí, como a região acabou vendo a importância disso, nos doaram outro desse mesmo equipamento. Tínhamos os dois equipamentos e uma entidade da cidade fez um consórcio com alguns municípios para comprar os reagentes. Porém, faltavam ainda os EPIs – máscara, propré, touca, luva. Então, a Universidade fez um chamamento e a comunidade doou dinheiro, caixas de luvas, caixas de máscaras, jalecos – inclusive, nos traziam comida, porque nós não tínhamos Restaurante Universitário durante o expediente. Dessa forma, mudamos toda a estrutura do laboratório e seguimos até hoje, com a ajuda da comunidade e da UFSM.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de uma pessoa em laboratório mexendo com equipamentos. A fotografia é em detalhe, e mostra o jaleco branco com bolso bordado em azul, com o nome "UFSM detecta"; usa luvas azuis nas mãos e segura uma pipeta e um frasco. Ao fundo, bancada de mármore cinza com diferentes equipamentos de laboratório nas cores azul, branco, preto, amarelo e cinza. Há uma parede bege com tomadas brancas.

O valor arrecadado para testagens de Covid-19 na comunidade de Palmeira das Missões é consideravelmente alto, visto que o Brasil não tem essa tradição de filantropia científica. A que fatores você atribui isso?

A comunidade sempre ajudou. Acho que isso é uma característica de Palmeira das Missões. Além disso, a comunidade também tem muito orgulho de ter a Universidade aqui, porque ela entende isso como uma conquista. Então, quando eles viram que a instituição estava realizando os tão procurados testes, quiseram ajudar. A gente ficou muito feliz com isso e, ao mesmo tempo, aumentou muito a nossa responsabilidade. Depois, precisamos mostrar para a comunidade que aquele dinheiro que eles investiram – aquela confiança no nosso trabalho – valeu a pena.

Alunos da instituição estão atuando na pesquisa laboratorial. Qual a importância para eles de adquirirem experiência prática na linha de frente contra o vírus nesse momento histórico?

Eu acho que mostra a importância da pesquisa na Universidade e, para eles, é fundamental, porque aprenderam a lidar com o compromisso, a responsabilidade, a questão ética, a biossegurança – e isso é tudo muito diferente de um trabalho de pesquisa. Alguns dos alunos que estavam no início, inclusive, já foram pegos por outros laboratórios da região, pelo mercado de trabalho; outros entraram na pós-graduação. Eu acho que os que passam por aqui saem muito melhores, tanto em relação à empatia da situação, quanto em relação à própria formação técnico-científica.

Quais são as perspectivas para o projeto?

Várias coordenadorias de saúde aqui da região já nos procuraram para fazer o diagnóstico de outras doenças infectocontagiosas – HIV, tuberculose e dengue são as que mais nos solicitam. Essa seria uma ideia para o futuro. Além disso, nós estamos com a ideia de fazer outras coisas, como análise da qualidade de água e validação de produtos para salmonella em aviário. Ou seja, pretendemos, a partir de agora, prestar serviço para a comunidade tanto na área de microbiologia, diagnóstico, quanto na área de biologia molecular. Além disso, a gente trabalha com educação e saúde – dentro do UFSM Detecta temos um braço que chamamos de “Educa Detecta”, que, quando solicitado, oferecemos treinamento para profissionais da saúde, professores e servidores. A gente pretende continuar com esse também.

Expediente:

Reportagem: Paula Appolinario, acadêmica de Jornalismo;

Diagramação: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial;

Fotografias: Gabriela Carvalho.

Conteúdo produzido para a 12ª edição impressa da Revista Arco (Dezembro 2021)

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/professora-historia-ufsm-premio-acorianos Wed, 16 Feb 2022 13:50:36 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9012 Criado em 1977 pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, o Açorianos é uma das mais importantes premiações culturais do Rio Grande do Sul e que, além da literatura, também reconhece os trabalhos de destaques nas áreas de música, teatro, dança e artes plásticas. O prêmio Açorianos de Literatura contempla obras de dez categorias: Conto, Crônica, Ensaio de Literatura e Humanidades, Especial, Infantil, Infanto-Juvenil, Narrativa Longa e Poesia. O vencedor de cada categoria concorre ao Livro do Ano.  

 

A premiação desta edição, que ocorre em 17 de fevereiro de 2022, tem na lista de indicados dois docentes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM): Nikelen Witter e Andre Zanki Cordenonsi. Na reportagem de hoje, a Revista Arco  entrevista a escritora e professora Nikelen Witter.

Colagem horizontal e colorida. Na direita da imagem, fotografia de uma mulher, em preto e branco, de perfil; ela olha para baixo e segura uma caneta em uma das mãos; tem pele clara, cabelos escuros, curtos e cacheados; usa óculos e veste casaco escuro; na gola do casaco, ilustração da gola glorida em azul claro. Abaixo da caneta, pedaço de papel rasgado com escritos. Ao lado esquerdo, colagem de flores nas cores amarelo, branco, laranja e rosa, um livro aberto, um olho e um mosquito. Na parte inferior, colagem de texturas: lisa na cor marrom e branco e preto quadriculado, juntadas por pedaços de fita. Acima, ao fundo da fotografia, um sol laranja, duas nuvens pequenas, uma borboleta laranja, ilustração de revoada de 12 pássaros roxos sobre fundo de textura amarela. o fundo é roxo.

Nikelen é graduada em História pela UFSM, tem mestrado em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e é doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É autora do livro ‘Dizem que foi Feitiço: as práticas de cura no sul do Brasil (1845-1890)’. Atualmente, é professora do Departamento de História da UFSM e se dedica a investigações de questões que envolvem Gênero e História das Mulheres na época contemporânea. É também escritora com diversas obras de ficção como ‘Guanabara Real e a Alcova da Morte’; ‘Territórios Invisíveis, Viajantes do Abismo’ e ‘Dezessete mortos’, livro com o qual ela concorre ao Prêmio Açorianos de Literatura. Confira a entrevista a seguir:

ARCO - Qual foi sua primeira reação ao receber a notícia da indicação ao prêmio?

 

NIKELEN WITTER - Quase descrença. Vou te dizer que, no [Prêmio] Jabuti, havia uma categoria em que era possível concorrer, a categoria do romance de entretenimento. No Açorianos, eu achava mais difícil que uma coletânea com textos góticos fosse colocada entre os finalistas. Então minha reação foi “Nossa, como assim?”. Mas foi muito legal.

 

ARCO - Quais livros formaram a professora e a escritora que você é hoje?

 

NIKELEN- Eu sempre fui muito leitora, então é muito difícil selecionar alguns livros. Quando eu tinha treze anos, minha família se mudou, eu saí de um bairro para outro, saí de um lugar onde eu tinha vivido a minha infância, em que tinha amiguinhas na rua, para outra região de Santa Maria. Quando eu tinha 17 anos, perguntaram para minha mãe se eu era visita, porque ninguém me via, eu ia do colégio para casa e em casa eu estava no meu quarto lendo o tempo todo. Quando eu tinha dez anos, meu presente de aniversário foi um dicionário de mitologia grega e eu acho que ele foi um dos livros mais importantes que eu já tive. Até hoje, 38 anos depois, eu me sirvo dele para pegar bases para histórias que eu estou escrevendo. E quem já teve aula comigo sabe que eu uso muito a mitologia como exemplo ou alegoria de várias coisas, então acho que esse é um livro bem fundamental na minha vida.

Mas te dizer qual foi o livro que me fez pensar “eu quero ser escritora ou eu quero ser professora, eu quero trabalhar com História” é difícil, porque foram coisas que eu sempre quis: escrever livros e estudar História.    

 

  

ARCO - ‘Dezessete Mortos’ é um livro de contos com uma pegada de terror. De onde surgiu a inspiração para a escrita e o que te motivou a escrever sobre essa temática? 

 

NIKELEN- Eu não curto filmes de terror, mas eu sempre gostei de livros de terror, especialmente esse terror não declarado, gótico, que não é simplesmente assassinato, mas que tem uma sombra. Sempre foi uma coisa que eu curti muito, ainda mais quando mescla  com elementos históricos, lendários, com histórias que contamos à noite para crianças. Eram as histórias que eu ouvia e essas histórias sempre me povoaram. Quando aparecia algum edital, alguma coisa que pedisse contos nessa linha, eu recuperava essas ideias lá do fundo e escrevia.

"Acho que sempre foi algo que me habitou, eu curto esse imaginário gótico, escuro e não bem definido: a coisa de você entrar em um quarto escuro e não saber o que tem lá e, em geral, não é nada vivo."

ARCO - Qual o estilo que você mais gosta de utilizar na escrita?

 

NIKELEN- Eu gosto da escrita do fantástico, daquilo que não é absolutamente realista, talvez até para diferenciar da minha escrita para a História. Desde a primeira história de ficção que escrevi, durante a 7ª série,  me voltei para esses elementos fantasiosos e fantásticos. Depois, à medida que fui me desenvolvendo na área da História, o meu tema de trabalho, pelo menos nos primeiros dez anos como pesquisadora, foi a questão da saúde. E ela envolve doença e morte, não é um tema leve, é um tema que me exigia como pesquisadora e como escritora; e que usa muito o sofrimento humano como base para pesquisa, para tentar entender como as pessoas lidavam com isso. Quando eu decidi que queria escrever de forma profissional, me sentia mais confortável colocando na escrita esses elementos fantásticos e fantasiosos.  Isso também tem a ver com a minha leitura de passatempo e de entretenimento, com a literatura que costumo consumir. Minha leitura é voltada para esse tipo de livro, então escrevo sobre isso, tenho muito mais dificuldade de me apegar a um livro de ficção que seja realista. 

 

ARCO - Em 2019, você ofertou uma disciplina que pensava a inserção da História em livros distópicos e de ficção, a exemplo de Harry Potter. Pensando nisso e nos seus livros, existe uma intersecção entre o lado professora e o lado escritora? De que maneira?

 

NIKELEN- Acho que sim. ‘Dezessete mortos’, por exemplo, tem muitos elementos de História, até mesmo uma história quase alternativa. No conto ‘O terror dos teus inimigos’, eu uso um personagem do Rio Grande do Sul, o Moringue, que foi um dos líderes legalistas durante a Revolução Farroupilha, então acho que ali tem muitas conexões. O próprio ‘Viajantes do Abismo’, livro que foi um dos finalistas do Jabuti, partiu de um processo crime, e a partir dele fui trabalhando com elementos que envolviam o caos ecológico que vivemos e que, como professora, eu historicizo esse momento e como nós chegamos a ele. Acaba sendo uma alegoria para falar de diversos elementos que são absolutamente realistas, só que escritos de forma muito alegórica.

"Eu acho que é nesse caminho que eu vejo a minha intersecção entre a professora-pesquisadora e a escritora. A escritora se alimenta desses elementos e os transforma em um texto ficcional que alfineta alguns pontos sensíveis da nossa percepção da realidade. " 

ARCO - A literatura se insere em seus objetos de pesquisa? De que forma?

 

NIKELEN- Eu defendi meu doutorado em 2007 e, quando saímos do doutorado, não queremos olhar aquele material porque estamos muito cansadas. Mas, depois de dois anos, decidi que queria estudar e pesquisar outras coisas. Aí surgiu a ideia da História da Leitura, como as pessoas leem e colocam o livro como um material fundacional delas. A partir daí, não consegui mais me separar da literatura, eu uso como base de pesquisa, de aula e de formação. A literatura nos dá um alcance da mentalidade de uma determinada época que nenhum livro de História te dá, tanto com o conteúdo do livro quanto com a forma com que as pessoas leram e receberam aquele livro.

Eu fiz um projeto de extensão no ano retrasado [2020], em que lemos autoras brasileiras que estiveram de fora do cânone, e as perguntas eram: Por que estavam fora do cânone? Por que elas foram esquecidas pelo cânone?  Por que não foram lidas? Por que foram alijadas pelos leitores, crítica da época e pelo próprio mercado? Isso diz muito da época em que elas escreveram e também diz muito sobre a gente, uma vez que estamos resgatando e lendo elas. A partir daí, faço a minha análise histórico-social, que envolve uma “marca” da minha pesquisa que é a questão do gênero. Um exemplo são perguntas como: Por que ainda encontramos homens que dizem não ler livros escritos por mulheres?; ou Por que a leitura de determinadas mulheres modifica a forma como determinados homens atuam no mundo? Isso é muito legal e eu acabo interseccionando esses elementos nos meus afazeres de pesquisadora. 

 

ARCO - A literatura pode ser considerada uma ferramenta para o ensino? Por quê?

 

NIKELEN- Acho que sim, na verdade eu acho que ela é fundamental. Eu sou daquele tipo de leitora que acredita o seguinte: eu vivo coisas tão maravilhosas e incríveis lendo, que fico muito triste de conhecer uma pessoa que não lê, porque eu penso o que essa pessoa está perdendo de viver, saber e se divertir. Quando pequena, eu não entendia quando as pessoas me diziam que eu não estava fazendo nada, só lendo. Como assim não estou fazendo nada? Eu estou em outro lugar, em outra época, navegando os sete mares, puxando espada, eu estou fazendo milhões de coisas!

E acho que é algo importante para mim, como professora e formadora de professores, mostrar o quanto essa paixão pode ser enriquecedora no processo de ensino e aprendizagem. Nas minhas disciplinas correntes, atualmente História Contemporânea do Século 20, eu sempre peço um ensaio acadêmico de um livro escrito na época que estamos estudando. Isso é usado para destrinchar livros,  textos  e debates que fizemos em aula, e os resultados são sempre fantásticos e incríveis. Alunos já me disseram que encontram o livro da sua vida nessa leitura, outros que foram fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre os livros que escolheram.

Então acho que, se eu conseguir formar professores que se apaixonem pela leitura da ficção, eles vão levar isso para seus alunos também, vão envolver seus alunos no processo.

Eu não sou das Letras, sou da História, mas acho que isso não precisa ficar restrito às Letras, pode estar em qualquer disciplina que tenha uma professora ou professor que use essa paixão, porque a literatura nos permite passear por todas essa nuances. Sempre tem uma forma para puxarmos a História e isso é riquíssimo. Por exemplo, a própria ficção científica,  o que tem a ver  com a História? Não podemos esquecer que, embora a ficção científica imagine o futuro, ela é escrita do presente e são as angústias do presente que ela vai responder.

É isto que eu penso que é legal e interessante  trabalhar: que você pode trazer mais estudantes a se encantarem com a sua disciplina - em vez de chegar com aquele conteúdo quadradinho sempre -, por isso me interessa formar professores que tenham essa bagagem, porque eles serão mais efetivos em sala de aula, na hora de conquistar e levar coisas diferentes para seus alunos.

 

ARCO - Para finalizar, gostaria de saber: o que significa a literatura para você? 

 

NIKELEN WITTER - Viver mais, com mais profundidade, amplitude e horizonte. Literatura para mim é isso. 

 

Expediente:Entrevista: Karoline Rosa, acadêmica de Jornalismo e voluntária;Design Gráfico: Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;
Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/dri/2021/12/17/video-internacionalizacao-da-ufsm-com-a-china-entrevista-com-o-reitor-paulo-burmann Fri, 17 Dec 2021 15:39:14 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-de-apoio/sai/?p=2939

A assessora adjunta da Secretaria de Apoio Internacional (SAI), professora Paola de Azevedo Mello, entrevistou recentemente o reitor professor Paulo Afonso Burmann sobre o processo de internacionalização da UFSM com a China. A conversa celebrou os acordos que unem a universidade com instituições chinesas, desenvolvidos com excelência desde 2017. Mesmo com as dificuldades culturais impostas pela distância, também celebraram alianças mediadas pela SAI, que promovem uma aproximação da universidade com o âmbito internacional.

Nesse sentido, o reitor destaca a UFSM como protagonista nesse movimento, visto sua escolha como vice-presidente do Centro Brasil-China de Pesquisa em Agricultura Sustentável (China-Latin America Agricultural Education and Research Innovation Alliance - CLAERIA), alcançado um de seus principais objetivos: a internacionalização. O Centro une 40 instituições de ensino superior em toda a América Latina, promovendo cooperação mútua que se manifesta, por exemplo, pela oferta de vagas em cursos de graduação e pós-graduação.

Além disso, também são citados os convênios assinados pela UFSM com instituições chinesas nestes últimos anos, são elas: a South China Agricultural University, localizada na cidade de Guangzhou e coordenado pelo professor Jerson Vanderlei Carus Guedes; a Fujian Medical University, localizada na cidade de Fuzhou e coordenado pelo professor Félix Alexandre Antunes Soares; e a Hebei Normal University, localizada em Shijiazhuang e coordenado pelo professor Érico Marlon de Moraes Flores.

Ainda sobre estes convênios, o Reitor Paulo Burmann comenta sobre a realização de cursos oferecidos pela Universidade Normal de Hebei para a UFSM e instituições parceiras no Rio Grande do Sul, resultado justamente da aproximação da UFSM com universidades estrangeiras. Ao todo foram oferecidas 375 vagas em nove turmas divididas entre os dois semestres de 2021, distribuídas entre os cursos de “Introdução à Cultura Chinesa”, “Introdução à Medicina Tradicional Chinesa”, “Chinês I” e “Chinês II”. A cerimônia de encerramento das turmas do segundo semestre aconteceu na última quarta-feira, dia 15 de dezembro, e contou com a presença de discentes, docentes, autoridades chinesas, técnicos-administrativos e o reitor da UFSM. É possível conferir informações sobre o evento através da notícia publicada na página da SAI.

Para o futuro, o reitor antecipa que, graças a sua aptidão internacionalista, a UFSM se destacará ainda mais, estreitando os laços com outros países. Nesse sentido, a universidade tem potencial para se tornar um polo de mediação entre China e Brasil, o que tende a ser positivo para ambos, já que une uma trajetória acadêmica de 60 anos com a cultura milenar chinesa, país que também tem grande importância econômica para o Brasil.

Você pode conferir a entrevista completa a seguir:

 

Texto: Pedro Souza, acadêmico de Jornalismo, bolsista na SAI

Revisão: Núcleo de Comunicação da SAI

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2021/11/10/professora-da-ufsm-foi-jurada-do-premio-jabuti-na-categoria-projeto-grafico Wed, 10 Nov 2021 21:54:56 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=57174

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) divulgou na terça-feira (9) a lista dos finalistas nas 20 categorias do 63º Prêmio Jabuti, que é uma das mais importantes premiações literárias do Brasil. A ocasião serviu também para tornar pública a relação dos jurados, cujos nomes eram mantidos em sigilo, em conformidade com o regulamento da premiação. Entre os nomes revelados está o da professora Marilia de Araujo Barcellos, do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, que está entre os três jurados da categoria Projeto Gráfico.

Apesar de trabalhar no mercado editorial desde 1989, esta foi a primeira vez em que ela foi convidada a ser jurada de uma premiação. Na opinião dela, houve “um movimento muito saudável de descentralização na composição dos jurados em todas as categorias”, com a inclusão de nomes de fora do eixo Rio/São Paulo.

[caption id="attachment_57175" align="alignright" width="458"] “Um bom projeto gráfico faz a gente ler sem esforço”, afirma a professora Marilia Barcellos[/caption]

Da organização do Jabuti, ela recebeu em sua casa vários livros para análise. “Resido num prédio mais antigo, sem elevador, e para subir as caixas até o terceiro andar foi uma ‘novela’!”, relembra a professora. Marilia passou então as suas férias acadêmicas analisando as obras, das quais, em uma primeira triagem, selecionou cerca de 40%. “Daí fiquei um tempo me familiarizando com cada um deles, e aos poucos, excluindo ou destacando-os da minha listagem.”

De acordo com o regulamento do Prêmio Jabuti, são três os critérios para avaliar o projeto gráfico dos livros: composição estética; originalidade e inovação; funcionalidade e adequação ao perfil da obra.

“O projeto gráfico é uma etapa muito importante do processo editorial. Um bom projeto deve atender harmoniosamente o conteúdo e a sua materialidade em toda sua estrutura: elementos extratextuais, pré-textuais, textuais e pós-textuais, ou seja, uma composição que permita uma leitura agradável, um manuseio confortável, a fim de que o conteúdo seja recebido da melhor maneira possível. É só lembrar, por exemplo, daqueles livros que a gente não consegue lê-los porque têm a letra muito pequenininha, ou frases compridas, a largura da página que o olho não alcança, ou mesmo a sensação estranha de segurar um livro pesado em mãos, ou que tenhamos de abrir as páginas ao máximo para podermos ler o texto próximo à margem interna da folha”, explica Marilia.

Para concluir o julgamento, cada jurado teve de indicar 13 livros para a organização do Jabuti, aos quais atribuíram notas de 7 a 10, sendo uma nota diferente para cada critério de avaliação. Marília resume as características que para ela compõem um bom projeto gráfico:

“Eu diria que alguns itens essenciais para quem trabalha na área parecem supérfluos para alguns, mas são extremamente importantes, por exemplo: a inserção do colofão, no final do livro, com os dados do material utilizado na obra. Houve quem o ignorasse, mas são informações preciosas que valorizam o projeto gráfico identificando onde foi impresso, qual o papel utilizado, dentre outras coisas que valorizam a produção. Um bom projeto gráfico ajuda a gente a efetuar a leitura, a partir de uma boa disposição das imagens, do arejamento entre as linhas, das ilustrações pertinentes inseridas (com a possibilidade de um toque especial ao folhear o papel macio), das cores. Um bom projeto gráfico faz a gente ler sem esforço”.

Na lista divulgada na terça-feira, há dez finalistas em cada categoria; antes da divulgação do resultado final, essa lista passará por um afunilamento, com cinco concorrentes por categoria, cuja divulgação está prevista para a próxima terça-feira (16). Por fim, os vencedores nas 20 categorias serão divulgados em uma solenidade on-line (a ser transmitida no canal da CBL no Youtube) no dia 25 de novembro, às 19h, a qual terá o ator Dan Stulbach como mestre de cerimônias.

Os vencedores em cada categoria vão receber um prêmio de R$ 5 mil cada um e a estatueta do Jabuti. Entre os concorrentes está o professor Enéias Tavares, dos cursos de Letras da UFSM, que tem se destacado na literatura fantástica. Ele é o autor do romance Parthenon Místico, que é um dos dez finalistas na categoria Romance de Entretenimento. Na cerimônia, também será revelado o título escolhido como Livro do Ano, cujo autor ganhará um prêmio de R$ 100 mil. O homenageado da noite será o escritor Ignácio de Loyola Brandão, nomeado como a Personalidade Literária do 63º Prêmio Jabuti.

Texto: Lucas Casali

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Egresso da UFSM, o engenheiro eletrecista Clezio Marcos De Nardin tomou posse como diretor geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no dia 2 de outubro. A nomeação foi feita pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes.

Em entrevista para o programa Editoria 107.9, da UniFM, com o jornalista Gilson Piber, Nardin falou sobre a aproximação com universidades que planeja para os próximos quatro anos. “Com a reestruturação que o ex-diretor Darcton (Policarpo Damião) promoveu, nós tivemos a oportunidade de facilitar a dinâmica de funcionamento, então vamos concentrar as ações nas áreas de pesquisa espacial e pesquisa ambiental, usando para tanto, o acesso ao espaço e desenvolvimento de artefatos espaciais. O ponto principal é que nós faremos isso nos aproximando com as universidades”, afirmou.

Quando questionado sobre a relação com a UFSM, o novo diretor do instituto informou que  gostaria de fazer uma visita ao reitor Paulo Burmann para discutir o envolvimento de pesquisadores de áreas além das tradicionalmente associadas ao setor espacial, como Engenharia, Física e Matemática, mas também Administração e Economia, importantes para o programa espacial e que, em sua visão, devem ser implementados, incorporados e potencializados.

A parceria entre o Inpe e a UFSM tem como um de seus maiores exemplos o NanosatC-BR, Programa de Desenvolvimento de CubeSats. O  primeiro nano-satélite produzido pelo programa, o NanosatC-BR1, foi lançado em 2014 e está em órbita desde então. O segundo, NanosatC-BR2, começou em julho a etapa de montagem, integração e testes, e tem previsão de lançamento para novembro de 2020, na Rússia, a bordo de foguete Soyuz.

Para expandir essa parceria, Nardin visa verificar com universidades a necessidade de um pequeno satélite para realização estudos. O Inpe seria responsável pela execução e gerenciamento do projeto e a universidade pelo desenvolvimento da carga útil. “Nós projetaríamos a plataforma, reduzindo os custos para a universidade, e a universidade teria seus estudos ampliados em, por exemplo, mapeamento hídrico e mapeamento agrícola”, disse o novo diretor. Segundo ele, com isso também seria possível o desenvolvimento de teses no Departamento de Economia, sobre os custos e as vantagens financeiras de monitorar plantações com satélites. 

A entrevista na íntegra você pode conferir no canal da UniFM no Farol UFSM.

Currículo:

Clezio De Nardin formou-se no curso de engenharia elétrica da UFSM em 1996. Entre 1999, se tornou mestre, e em 2003, doutor em Geofísica Espacial, ambos pelo Inpe. Em 2004 realizou um pós-doutorado, também no instituto, e se tornou pesquisador adjunto. Em 2008, passou em um concurso público para ser pesquisador associado do Inpe. Antes de ser anunciado como novo diretor do Inpe, Nardin ocupava o cargo de  coordenador geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Inpe e vice-presidente da Latinamerican Association of Space Geophysics (Alage). Atualmente também é o representante brasileiro na Equipe Inter-Programa sobre Informação, Sistemas e Serviços do Clima Espacial (IPT-SWeISS) da OMM e membro do Grupo de Espertos em Clima.


Texto: Ana Laura Iwai, acadêmica de Jornalismo, bolsista da Agência de Notícias.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2020/10/15/egresso-da-ufsm-novo-diretor-do-inpe-aponta-para-insercao-de-novas-areas-do-conhecimento-na-pesquisa-espacial Thu, 15 Oct 2020 13:54:57 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=54095 [caption id="attachment_54101" align="alignleft" width="300"] Clezio De Nardin foi também coordenador geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Inpe[/caption]

Egresso da UFSM, o engenheiro eletricista Clezio Marcos De Nardin tomou posse como diretor geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no dia 2 de outubro. A nomeação foi feita pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes.

Em entrevista para o programa Editoria 107.9, da UniFM, com o jornalista Gilson Piber, Nardin falou sobre a aproximação com universidades que planeja para os próximos quatro anos. “Com a reestruturação que o ex-diretor Darcton (Policarpo Damião) promoveu, nós tivemos a oportunidade de facilitar a dinâmica de funcionamento, então vamos concentrar as ações nas áreas de pesquisa espacial e pesquisa ambiental, usando para tanto, o acesso ao espaço e desenvolvimento de artefatos espaciais. O ponto principal é que nós faremos isso nos aproximando com as universidades”, afirmou.

Quando questionado sobre a relação com a UFSM, o novo diretor do instituto informou que  gostaria de fazer uma visita ao reitor Paulo Burmann para discutir o envolvimento de pesquisadores de áreas além das tradicionalmente associadas ao setor espacial, como Engenharia, Física e Matemática, mas também Administração e Economia, importantes para o programa espacial e que, em sua visão, devem ser implementados, incorporados e potencializados.

A parceria entre o Inpe e a UFSM tem como um de seus maiores exemplos o NanosatC-BR, Programa de Desenvolvimento de CubeSats. O  primeiro nano-satélite produzido pelo programa, o NanosatC-BR1, foi lançado em 2014 e está em órbita desde então. O segundo, NanosatC-BR2, começou em julho a etapa de montagem, integração e testes, e tem previsão de lançamento para novembro de 2020, na Rússia, a bordo de foguete Soyuz.

Para expandir essa parceria, Nardin visa verificar com universidades a necessidade de um pequeno satélite para realização estudos. O Inpe seria responsável pela execução e gerenciamento do projeto e a universidade pelo desenvolvimento da carga útil. “Nós projetaríamos a plataforma, reduzindo os custos para a universidade, e a universidade teria seus estudos ampliados em, por exemplo, mapeamento hídrico e mapeamento agrícola”, disse o novo diretor. Segundo ele, com isso também seria possível o desenvolvimento de teses no Departamento de Economia, sobre os custos e as vantagens financeiras de monitorar plantações com satélites. 

A entrevista na íntegra você pode conferir no canal da UniFM no Farol UFSM.

Currículo:

Clezio De Nardin formou-se no curso de engenharia elétrica da UFSM em 1996. Entre 1999, se tornou mestre, e em 2003, doutor em Geofísica Espacial, ambos pelo Inpe. Em 2004 realizou um pós-doutorado, também no instituto, e se tornou pesquisador adjunto. Em 2008, passou em um concurso público para ser pesquisador associado do Inpe. Antes de ser anunciado como novo diretor do Inpe, Nardin ocupava o cargo de  coordenador geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Inpe e vice-presidente da Latinamerican Association of Space Geophysics (Alage). Atualmente também é o representante brasileiro na Equipe Inter-Programa sobre Informação, Sistemas e Serviços do Clima Espacial (IPT-SWeISS) da OMM e membro do Grupo de Espertos em Clima.


Texto: Ana Laura Iwai, acadêmica de Jornalismo, bolsista da Agência de Notícias.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/alucinacao-ou-realidade Tue, 09 Jul 2019 18:20:08 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=5958

As drogas psicodélicas eram usadas nos anos 1960 e 1970 para expandir a consciência. A partir de experiências alucinógenas artistas produziram pinturas e músicas que representaram a fuga da realidade. Após décadas de proibição, substâncias como o ácido lisérgico (LSD) podem ser usadas para tratar vícios em álcool e cigarro, bem como traumas, compulsões e outros problemas relacionados à saúde mental. Tudo é feito com base em pesquisas e com microdoses manipuladas. 

Investigações sobre o assunto são desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa, com a participação de pesquisadores brasileiros. Mas, segundo a professora Eliane Maria Zanchet, do Departamento de Fisiologia e Farmacologia, do Centro de Ciências da Saúde da UFSM, esse tipo de estudo não fornece resultados aceitáveis para a Food and Drug Administration (FDA), órgão americano que regula a liberação de medicamentos, equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil.

Na UFSM, a Liga Acadêmica da Neurociência, a Neuroliga, promove anualmente a Educação Continuada, inspirada no Congresso de Neurociência Brain. Foram realizadas, em Santa Maria, palestras entre 10 de junho e 1º de julho. A Neuroliga é multidisciplinar e atualmente conta com 23 estudantes dos seguintes cursos:  engenharia da computação, farmácia, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina e psicologia. 

Segundo o presidente da Neuroliga, Danilo Alencar, os temas são escolhidos pela curiosidade. “A gente traz aquilo que as pessoas pesquisariam numa tarde em casa”, comenta. Para Luís Fernando Camargo, membro da liga, a importância do encontro está em disseminar a neurociência com alunos de diferentes unidades universitárias.  

A abertura do evento foi realizada por Eliane, que falou sobre o uso de drogas psicodélicas e a relação delas com a área da saúde, abordando estudos antigos e novas descobertas. 

A Revista Arco conversou com Eliane sobre os mitos e verdades que envolvem as drogas psicodélicas. Confira a entrevista:

 

ARCO - O que caracteriza a droga como psicodélica? 

Eliane Zanchet - As drogas psicodélicas têm como característica principal a alteração da consciência, trazendo sensações semelhantes às do sonho. Também faz com que o indivíduo tenha percepção de aspectos da mente que antes desconhecia. Tais drogas afetam os pensamentos e percepções, que se tornam distorcidos; ocorrem alucinações visuais, auditivas, táteis ou olfativas; objetos inanimados parecem animados. As modalidades sensitivas podem ficar confusas, de modo que os sons podem ser percebidos como visões.

As drogas psicodélicas são: LSD, psilocibina, mescalina, DMT, DOM, MDMA, ibogaína, salvinorina A, cetamina e fenciclidina. Somente o LSD, MDMA, cetamina e fenciclidina são de origem sintética. As demais são encontradas na natureza, em plantas, fungos e animais.

 

ARCO - Essas drogas viciam?

Eliane - As drogas psicodélicas não causam dependência.

 

ARCO - É possível utilizar drogas psicodélicas para combater vícios? 

Eliane - Os resultados de estudos mostram o efeito positivo de drogas psicodélicas, como o LSD e a psilocibina, no tratamento de vício em nicotina e álcool. Outros trabalhos também mostram o uso do DMT (encontrado no chá Ayahuasca) no tratamento de dependência de drogas de abuso. A Ibogaína tem sido usada há muitos anos em tratamentos no Brasil. Pesquisadores da UNIFESP publicaram em 2014, no periódico The Journal of Psychopharmacology, trabalho mostrando que a Ibogaína pode interromper a dependência de cocaína, crack e outras formas de vício em 72% dos casos. Convém ressaltar que todos os tratamentos, experimentais ou não, são feitos em hospitais ou centros de pesquisa, com acompanhamento médico e psicológico durante e depois do tratamento.

 

ARCO - Como eram realizados os tratamentos com LSD nas décadas passadas? 

Eliane - O LSD foi sintetizado em 1938. Somente em 1947 passou a ser comercializado com o nome de Delysid. Ele foi distribuído pela própria Sandoz (farmacêutica que o sintetizou) para pesquisadores do mundo inteiro testarem e estudarem o efeito do LSD em pacientes com distúrbios psiquiátricos. Na época, os estudos mostraram efeitos benéficos, como auxiliar na psicoterapia, no tratamento da ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, alcoolismo, medo da morte e distúrbios alimentares.

O LSD foi proibido na metade da década de 1960, quando ele e a psilocibina passaram a serem usadas como drogas recreativas, especialmente pelo hippies. O movimento da contracultura, com seus comportamentos e questionamentos, chocava a sociedade e o governo americano. Ao mesmo tempo, a mídia passou a noticiar o lado negro das drogas psicodélicas, por meio de relatos de bad trip, flashbacks, surtos psicóticos e suicídios. Então, no final da década de 60, as drogas psicodélicas, que eram legais na maioria dos lugares, foram banidas e relegadas à clandestinidade. Também foram proibidas todas as pesquisas que vinham sendo feitas.

ARCO - As pesquisas mais recentes da área da saúde revelam os benefícios do LSD quando utilizado em microdoses. O que já foi descoberto com essas pesquisas? 

Eliane - Várias reportagens têm descrito o uso de microdoses de LSD, especialmente por pessoas que trabalham na área de tecnologia digital (Vale do Silício). Neste ano, um artigo científico mostrou um estudo em que dois pesquisadores recrutaram pessoas de 18 a 80 anos que faziam uso de microdoses de LSD ou de psilocibina, para seguirem por um mês o protocolo de usar a microdose no dia um e ficar os dias dois e três sem microdose. Depois desse período, os participantes fizeram relatos de como se sentiram, e enviaram aos pesquisadores - foi, na verdade, um auto-estudo, sem grupos controles. 

Os resultados analisados e publicados mostraram que a maioria das pessoas descreve aumento das emoções positivas, interação social mais fácil, menos dor de cabeça, mais criatividade, inspiração, paciência, generosidade, abertura aos membros da família e diminuição de dores crônicas. No entanto, apesar de tais benefícios, a maioria das pessoas resolveu parar de usar a microdose depois de um mês. Outras, passaram a usar uma vez por semana ou uma vez ao mês. 

Mesmo que já existam pesquisas são necessários estudos mais completos e com resultados mais confiáveis.

 

ARCO - Quais doenças elas podem curar ou minimizar os sintomas? 

Eliane - Depressão associada à câncer terminal, depressão grave não responsiva aos antidepressivos, tratamento da ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares, enxaqueca, dependência de drogas, alcoolismo e no transtorno do estresse pós-traumático. Geralmente é usada somente uma ou duas doses dos psicodélicos, com efeitos que podem durar até seis meses.

 

ARCO - Onde as pesquisas envolvendo substâncias psicodélicas estão sendo desenvolvidas? 

Eliane - Estados Unidos e Europa. Pesquisadores brasileiros estão participando dos estudos da Fase III do uso de MDMA e do LSD no tratamento de transtorno do estresse pós-traumático. Essas drogas eram fármacos que tiveram seu uso proibido. O que os pesquisadores querem é que as mesmas voltem a ser liberadas para uso clínico. Para isso, são necessárias pesquisas que mostrem o real benefício em determinados quadros psiquiátricos. 

 

Repórter: Mirella Joels, acadêmica de Jornalismo

Ilustradora: Marcele Reis, acadêmica de Publicidade e Propaganda

Editora de produção: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Editor chefe: Maurício Dias, jornalista

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2019/06/05/interesse-pela-escrita-cientifica-reune-120-participantes-na-2a-edicao-do-propague Wed, 05 Jun 2019 20:57:12 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=48017 A foto mostra, o palestrante em pé, segurando microfone. À esquerda um cartaz com a marca Propague, que é um lâmpada, e à direita a mesa. Maurício Pereira foi o conferencista do 2º Propague, atividade promovida pela Editora UFSM[/caption] Com o tema “Como redigir, publicar e avaliar artigos científicos”, a edição deste ano trouxe o professor Maurício Gomes Pereira, doutor em Epidemiologia e professor emérito da Universidade de Brasília. Ele foi responsável por ministrar o curso de aperfeiçoamento da escrita científica. Em entrevista à Agência de Notícias, da Coordenadoria de Comunicação Social da UFSM, o professor Maurício contou sobre a sua relação com a escrita e deu dicas de como qualificar o texto acadêmico. Agência de notícias - O que motivou o seu interesse pela escrita científica? Maurício Pereira - Primeiro, a minha família é de leitores. Eu vivia no meio de bibliotecas, meu pai me contava histórias e me presenteava com livros. Sentia desde sempre que a ciência me atraía e, foi isso, que me guiou para essa área. O fato de trabalhar em uma universidade também contribuiu muito porque eu sou pago para dar aula, me atualizar e produzir artigos científicos. Eu aproveitei essa oportunidade, desenvolvi a mentalidade científica e passei a orientar os alunos. Por ser médico, já recebi muitos convites para trabalhar em clínicas mas eu não quis. Tento ao máximo direcionar minha carreira para a escrita científica, que é pelo que eu me interesso. AN - Qual a importância de saber escrever um bom texto científico? MP - É essencial porque ninguém lê textos difíceis. Então tem que saber comunicar o que você sabe. Se não conseguir fazer isso, as pessoas não vão te dar valor. A escrita científica é nada mais que saber comunicar o que você está pesquisando de uma maneira simples para que as pessoas entendam. AN - A propagação da escrita científica pode beneficiar não só o pesquisador mas também o público a que se dirige? Como? MP - Fundamentalmente. No meu caso, faço pesquisa para melhorar a saúde da população, mas essa relação não ocorre de forma direta. O pesquisador detém um conhecimento que a pessoa leiga não domina, então tem que fazer o texto científico chegar até a outra ponta do processo. Para isso acontecer devem ser feitas duas coisas igualmente importantes: publicar e divulgar [artigos científicos]. Com isso você colabora para que a população possa utilizar do conhecimento que é produzido na academia. Se isso não acontecer, a pesquisa científica não faz sentido. AN -  Quais são os erros mais comuns que você identifica na escrita acadêmica que impedem o texto de atingir um nível de excelência? MP - A maior dificuldade é transformar o método científico, que é uma sistematização de procedimentos, em texto escrito. O pesquisador tem que dominar o método que ele utilizou para poder explicar as etapas que foram percorridas e qual a conclusão que se obteve ao final do processo. Essa transposição é muito difícil, principalmente para os iniciantes. AN - Quais sugestões você dá para quem quer aperfeiçoar a escrita científica e busca eficiência na publicação de trabalhos? MP - Revisão de texto é essencial e precisa ter foco. Em muitas das bancas que eu participo, a pergunta em torno da qual se desenvolve o artigo é mal formulada. Na progressão do trabalho, o pesquisador fica tateando e a conclusão não responde a problemática proposta. A pergunta tem que ser direta e objetiva, o que facilita o desenrolar da pesquisa. Para mim, os pontos cruciais são uma boa pergunta e um método assertivo. Depois que o texto está escrito é hora de aplicar as três dicas que eu dei durante o curso: revisão, revisão, revisão. Você tem que fazer com que a pessoa que vai ler entenda e se encante com seu texto, esse é o caminho. AN - Em relação à capacitação para obter aprovação de artigos em revistas de alto impacto, a redação científica é em si um diferencial ou o que conta é um trabalho metodologicamente bem feito? Quais são os fatores que influenciam as seleções de trabalhos? MP - É a união do texto bem escrito com um método eficiente. Outro fator decisivo é que as revistas de prestígio não aceitam artigos grandes. O trabalho tem que ser o mais conciso e claro possível. AN - Quais são os maiores desafios para quem quer fazer ciência hoje no Brasil? MP - O Brasil é um país complicado. Você demora anos para construir um grupo de pesquisa. De repente falta dinheiro e dentro de dias o grupo desaparece. Um grupo de pesquisa precisa de estabilidade para progredir. Nos países desenvolvidos existe disponibilidade de recursos porque são realizados investimentos em ciência e tecnologia. Existe um desconhecimento dos requisitos mínimos necessários para produção científica. Sem recurso nada funciona. Texto e foto: Bruna Eduarda Meinen Feil, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2018/11/01/entrevista-nei-lisboa-fala-sobre-sua-apresentacao-com-a-banda-sinfonica-da-ufsm Thu, 01 Nov 2018 19:55:32 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=45400 Nei Lisboa se apresentou com Banda Sinfônica no Centro de Convenções[/caption] O cantor e compositor gaúcho Nei Lisboa nasceu em Caxias do Sul, mas reside em Porto Alegre desde sua infância. Iniciou sua carreira em 1979 e possui onze discos lançados. Algumas de suas músicas fizeram parte de trilhas sonoras de filmes nacionais, como Deu pra Ti Anos 70, Verdes Anos e Houve uma Vez Dois Verões. No filme Meu Tio Matou um Cara, de Jorge Furtado, um dos principais temas é a canção Pra te Lembrar, na interpretada por Caetano Veloso. Além do cenário musical, Nei explorou também o seu lado literário com dois livros publicados. Em 2018, essa é a segunda passagem do cantor por Santa Maria, mas é a primeira no palco do Centro de Convenções da UFSM. Ele foi o escolhido pela Banda Sinfônica da UFSM para dar a partida em uma nova proposta cultural, o projeto “Banda Sinfônica Recebe”, que anualmente pretende convidar nomes renomados da música para apresentações. O show ocorreu na noite da última quarta-feira (31). Em entrevista à Agência de Notícias da UFSM, o cantor contou um pouco sobre a relevância desse momento em sua carreira. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - Para você, como é poder subir ao palco de uma universidade? NEI LISBOA - Olha, é um ambiente que sempre me alegra, porque eu comecei a tocar dentro de uma universidade. Eu cursei quatro semestres do curso de Composição e Regência da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mas eu confesso que eu não era um bom aluno. Porém, fiz disso um início da minha carreira musical, porque havia uma movimentação cultural muito forte nos anos 70 e eu participava de rodas de som e festivais. Então a universidade é um ambiente em que eu me sinto muito bem. Me sinto em casa. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS -  Como surgiu o convite para se apresentar junto à Banda Sinfônica da UFSM? NEI LISBOA - Surgiu através do Diego e do João Batista, que são os maestros. Nós já tivemos a oportunidade de tocar juntos em outros trabalhos e quando eles pensaram em alguém pra dar a partida nesse projeto, me procuraram e na hora eu aceitei. Confesso que me senti muito alegre. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS -  Como foi a construção do repertório da apresentação? NEI LISBOA - O repertório é fruto das circunstâncias. Porque as orquestras são conhecidas pelos arranjos que elas têm que atravessar. Por isso, as músicas escolhidas foram canções que se adaptassem musicalmente melhor a esse tipo de trabalho. Então não são os maiores sucessos que fazem parte desse repertório, às vezes pode ser uma música de um lado B de algum disco de anos atrás bem desconhecida, mas que foi eleita por ter um caráter “jazzístico” e que se encaixa na construção desse tipo de arranjo . AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - Você já teve a oportunidade de fazer trabalhos parecidos, tocando junto a orquestras, como a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e Banda Municipal de Porto Alegre. De que forma você vê a relevância de fazer integrações musicais como essa? NEI LISBOA - É interessantíssimo e muito enriquecedor. Porque é uma chance de aprender coisas novas e de você desfrutar de uma releitura do teu trabalho e enxergar a tua música com outra potencialidade. Além do mais, o espetáculo fica bem diferenciado e a plateia com certeza gosta, por ter esse caráter de mistura de ritmos. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS -  Por ser uma apresentação diferente das outras, como a da sua turnê que você faz por todo o país celebrando os 30 anos de lançamento do álbum Hein?! e Hi-Fi, qual a importância desse momento pra você? NEI LISBOA - É um refresco e é algo que oxigena o dia-a-dia. Por exemplo, o show Duplo H eu venho todo o ano fazendo e é algo que se repete e é sempre a mesma coisa. Então, de repente, esse acidente no meio dessa estrada é muito interessante. Vira a cabeça da gente. E Santa Maria é um lugar especial, porque minha esposa viveu muitos anos aqui, e está sendo uma oportunidade de voltar pra casa também. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS -  De que maneira você acredita que o seu estilo musical contribui para o show? NEI LISBOA - É uma pergunta muito difícil de responder, porque na verdade o meu estilo é tipo Millôr Fernandes, escritor sem estilo. Mas eu caminhei por muitas praias ao longos dos anos, e não tem uma coisa que eu possa dizer que eu trouxe de berço. Eu sou um personagem mais urbano. Cresci ouvindo rádio nos anos 60 e é uma enorme mistura de coisas que ali aconteciam, como o rock, o erudito e o folk. Então eu acredito que eu estou contribuindo com esse mix. Com músicas que são puxadas um pouquinho para o jazz, outra mais puxada para o tango e uma ou duas baladas, que é o meu chão musical. AGÊNCIA DE NOTÍCIAS -  No próximo ano, você completará 40 anos de carreira. Ao longo dessa trajetória, muitos sucessos foram emplacados, algumas de suas músicas foram trilha de filmes e você tem dois livros publicados. Como você se vê ao longo desses 40 anos? NEI LISBOA - Me vejo satisfeito. Se eu parasse hoje, posso dizer que deixei um legado. Mas ao mesmo tempo me vejo desafiado, porque estou chegando aos 60 anos e a tendência é batalhar para provar que tu está ali presente, produtivo, criativo e com novidades para mostrar mesmo de cabelos brancos. Já em relação ao ano que vem, eu quero fazer um ano de comemoração e de celebração dessa trajetória. Vou relembrar muitas coisas com um repertório de panorâmica de carreira, porém, quero mostrar um novo trabalho, com composições novas que projetem pelo menos a próxima década de trabalho. Texto: Pablo Iglesias, acadêmico de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias Fotos: Maria Luísa Viana, acadêmica de Jornalismo da UFN e estagiária da Agência de Notícias]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-fusao-dos-corpos-atraves-da-arte Mon, 09 Apr 2018 15:40:07 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=3381 A performance é uma forma de manifestação artística. Segundo o Dicionário Aurélio, 'per' significa intensidade e 'forma' pode significar limites exteriores da matéria de que é constituído um corpo. Mateus Scota, hoje mestre em Artes Visuais, ficou conhecido por uma de suas performances. Pesquisador da área de artes e visualidades e interessado em recriar a relação entre corpo e natureza, Mateus apresentou a Pequena Morte à comunidade universitária em três oportunidades: em 2016, durante o 3º Descubra UFSM e o 2º Colóquio Internacional de Ética, Estética e Política, realizado no Caixa Preta, e em 2017, em frente ao Centro de Artes e Letras (CAL). Nesta última, nu e utilizando o crânio de uma vaca no rosto, Mateus ficou suspenso em uma árvore, amarrado pelos pés, durante algumas horas. A manifestação, considerada curiosa por muitos, era parte de sua dissertação Humano - Animal (suspensão): uma poética em performance, defendida no dia 27 de março de 2018. O mestrado foi realizado na UFSM pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGART), com orientação da professora Rebeca Stumm. Mateus é bacharel em Artes Cênicas e possui habilitação em Interpretação Teatral pela UFSM.  A Revista Arco conversou com o pesquisador sobre a questão humano-animal abordada na Pequena Morte e em outras oportunidades, nas performances O Brete, Couraça e Vênus Animal. Mateus: “Este processo de pesquisa poética iniciou com o desejo de (1) realizar uma ação na qual meu corpo fosse parte da obra e (2) criar cruzamentos entre meu corpo e outros materiais. Minha intenção com os cruzamentos era deslocar a visualidade do humano como agente (e centro) da performance, colocando em seu/meu lugar (na realização das ações) um corpo distinto. Assim, se era do corpo que eu estava partindo, nada mais justo que concentrar minha atenção em um enraizamento pessoal, observando em minhas experiências de vida algumas situações em que havia inter-relações entre os corpos ou entre corpo e natureza (como uma interpenetração entre os sujeitos e o meio no qual habitam). Encontrei nos benzimentos e simpatias, passados de geração em geração, um grande direcionamento da atenção sobre o corpo, bem como, sobre sua sincronia com o meio em que se encontra. [caption id="attachment_3419" align="aligncenter" width="700"] Performance Couraça, realizada em Silveira Martins, em 2016[/caption] Nestas práticas – benzimentos – que tangenciam uma qualidade sagrada, percebi na figura da curandeira (as que conheci) um vínculo afinado com a natureza que as rodeava, chegando em alguns momentos a uma 'fusão' com o meio em que se encontrava. As curandeiras recolhiam ervas, desenhavam partes do corpo do paciente em árvores, enterravam roupas, traçavam linhas (gestualmente) em torno de feridas, retiravam ar solar da cabeça de um indivíduo com uma garrafa de água, enfim, operavam o meio ao seu redor e se deixavam guiar pela própria intuição durante o benzimento. Muitos dos processos de cura, aparentemente, não possuíam explicação de causa e efeito em sua realização. As próprias curandeiras muitas vezes não sabiam explicar o sentido das ações implicadas em seus rituais, entretanto, realizavam suas ações como um xamã executa uma série de movimentos mágicos. A inter-relação das curandeiras com o meio em que se encontravam, bem como suas operações intuitivas (ou poderíamos dizer instintivas?) no processo de benzimento, aproximaram humanos e animais em minhas observações, à medida em que sua figura se encontrava em interdependência com o meio ao seu redor.  Ou seja: se separássemos a curandeira e o meio, provavelmente seu 'ser no mundo' seria dissolvido. Foi neste ponto que conectei e resgatei algumas experiências vividas no campo com as vacas como 'universo' de minha poética artística. [caption id="attachment_3385" align="aligncenter" width="700"] Performance Couraça, premiada com Grande Prêmio Destaque no XV Salão Latino Americano de Artes Plásticas (2017), junto ao Museu de Artes de Santa Maria (Masm)[/caption] Minhas experiências de vida no campo – especificamente com a vaca (animal domesticado) – acessadas através de uma experiência interior, constelaram diversas imagens em minha consciência. Esta constelação de imagens de vaca me fazer perceber esta relação humano-animal como importante e que deveria estar em evidência neste trabalho. Procurando entender o universo que se abriu ante minha percepção, realizei projetos de performances nos quais pude elaborar poeticamente as imagens que emergiram nesta etapa da pesquisa. Desta forma, passei a ver os corpos meu e da vaca como coincidentes e coexistentes no tempo. Me  apropriei – assim como o homem se apropria do animal ao domesticá-lo – dos resíduos de seu corpo para construir entrecruzamentos visuais que mantivessem características de ambas as partes envolvidas na composição. [caption id="attachment_3417" align="aligncenter" width="700"] Performances Pequena Morte, realizadas no 3º Descubra UFSM, em 2016[/caption] Acredito que, neste processo, não estive interessado em responder pergunta alguma. Todos os questionamentos foram utilizados como provocações que reverberaram em meu corpo inteiro. “Quais são os limites do/entre humano e animal? Quem domestica quem? É possível distanciar as ideias de humano e animal sem que estes conceitos se dissolvam? Quais as certezas implicadas nestes conceitos?” Estas perguntas que fiz a mim mesmo só me levaram a uma direção, a pensar/conceber performances. Assim, enquanto vivi este processo criativo não procurei responder aos meus questionamentos, mas sim, articulá-los materialmente, procurando dar forma e elaboração concreta às ações que puderam ser testemunhadas. Então, como me utilizo destas perguntas para (des)construir arte, especificamente, para criar uma performance? Esta resposta é a própria obra e depende da experiência de cada testemunha frente ao acontecimento performático”.   ARCO: Como foi realizado o processo de pesquisa? Mateus: Esta pesquisa foi desenvolvida durante processos imersivos que denominamos Residências Artísticas juntamente com o Grupo de Pesquisa em Artes Momentos Específicos. Nestes processos coletivos, cada artista-pesquisador procura desenvolver sua própria poética, articulando-a com evidências empíricas levantadas sobre o espaço residido, a comunidade na qual este espaço se localiza, bem como de questões históricas e culturais que contextualizam o espaço ocupado em residência. Cada performance que concebi teve seu ponto de partida mobilizado por questionamentos pessoais e observações empíricas advindas destas residências artísticas. Cada conexão entre as experiências vivenciadas em residência e minhas experiências de vida no campo mobilizaram imagens em meu corpo e me levaram em direção aos acontecimentos/performances que os espectadores testemunharam. Os processos de pesquisa em artes, geralmente, não se desenvolvem por caminhos lógicos, previsíveis ou racionais (como experiências de soma). Podemos dizer que o processo de pesquisa que eu vivenciei impôs suas próprias regras. Partindo de um projeto de ação, muitas vezes algum evento externo (externo aos meus planos, causal) mudou o rumo das investigações, fazendo com que o projeto todo mudasse. Tive que estar atento (o tempo todo, e, por isso denomino processo imersivo) para acompanhar estes movimentos sem perder o sentido das investigações a que me propus. ARCO: Quais foram suas referências para esta performance? Mateus: Dentre as inúmeras referências que utilizo estão artistas da performance como Oleg Kulik, Rodrigo Braga e a artista sérvia Marina Abramović. Também encontro respaldo em alguns teóricos como Andreas Lommel e Mike Williams em suas discussões sobre a arte primitiva, o animal e o xamanismo; Bataille e Agamben em seus ensaios sobre o animal; bem como Bachelard (noturno) em suas sábias palavras sobre a imaginação.   [caption id="attachment_3388" align="aligncenter" width="700"] Artista sérvia Marina Abramović[/caption] [caption id="attachment_3394" align="aligncenter" width="670"] Rodrigo Braga[/caption] [caption id="attachment_3425" align="aligncenter" width="700"] Oleg Kulik[/caption] ARCO: Quais foram os resultados encontrados com a conclusão da pesquisa? Mateus: Artisticamente acho difícil falar em resultados, porque não há parâmetros de análise. Os pontos que considero avaliar para falar em resultados são paralácticos, portanto são móveis e devem ser considerados sob certas perspectivas. Algumas performances que realizei geraram discussões, desestabilizações e questionamentos sobre política, sobre a função da pós-graduação, sobre a relação arte vs. academia, sobre os limites éticos e estéticos da própria arte contemporânea ou da performance. Isso, em certo sentido, é um resultado. Quer dizer que minhas propostas chegaram até o outro, tocaram alguma dimensão em seus corpos que os levou a alguma reação. Desta forma, o impacto passa a ser uma espécie de resultado, não somente de um acontecimento performático, mas também da própria pesquisa em arte (poéticas visuais), pois a qualidade implicada no impacto oferece novos rastros a serem investigados, novas pistas, outros questionamentos que podem impulsionar outros trabalhos. Além destes questionamentos, surgiram outros trabalhos artísticos impulsionados pelas discussões acerca de minha poética, que podem ser entendidos como desdobramentos do acontecimento performático provocando outras manifestações. De qualquer forma, não estou tão focado em resultados quanto no processo poético vivido e na experiência coletiva que a performance possibilitou construir. Esta experiência modificou não apenas as pessoas que testemunharam a performance (e se manifestaram através de questionamentos) mas também meu fazer artístico. Assim, esta transformação pessoal (oriunda da experiência coletiva da performance) também pode ser considerada um resultado desta pesquisa, à medida em que me leva a outras percepções, a pensar outras maneiras de (e outros campos de investigação para) performar.    As performances de Mateus podem ser acompanhadas através do site Suspensão e Fronteira, administrado por ele. No vídeo está a Pequena Morte, durante o 3º Descubra UFSM.

Reportagem: Mirella Joels

Fotografia em destaque: Performance Pequena Morte II, realizada durante o 2º Colóquio Internacional de Ética, Estética e Política, em 2016

Fotografias: acervo de Mateus Scota/site Suspensão e Fronteira]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/na-cara-e-na-coragem Thu, 05 Apr 2018 19:57:57 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=3374 Rodrigo dos Santos Ramos, também conhecido como Rodrigo Sabiah, se denomina como reciclador de lixo e de vidas. Ele estará em Santa Maria nesta sexta-feira (6) para o evento Ampla - exato é ser humano, realizado pela ONG Engenheiros Sem Fronteiras. No espaço, Sabiah contará sobre sua história e sobre o trabalho da cooperativa de reciclagem Recomeçar!, fundada por ele na Zona Sul de Porto Alegre, bairro onde ele cresceu. A iniciativa propõe oferecer oportunidade de trabalho a quem, como ele, é egresso de presídio, abrigo ou Fase-RS (Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul).   O reciclador e idealizador da Recomeçar! tem a história parecida com a de muitos outros brasileiros. Entrou para a vida do crime na periferia da capital do Estado, e logo jovem foi detido pela primeira vez. Voltou a cometer delitos e acabou preso novamente. Durante os cinco anos que permaneceu no Presídio Central de Porto Alegre, teve contato com a literatura e leu um livro inteiro pela primeira vez. Isso o motivou a mudar de vida, a traçar novas metas e a decidir por um caminho diferente.   Entretanto, ele explica que, ao sair da prisão, mesmo com tantos planos, é difícil conseguir colocar todos em prática. Um egresso tem dificuldades para se inserir na sociedade. Não só ele tem dificuldades para se inserir, assim como a sociedade tem dificuldades para aceitá-lo, pois o egresso chega muitas vezes com vontade de trabalhar e fazer as coisas e a sociedade o recebe cheia de preconceitos e desconfiança. Tive que dar a volta por cima na cara e na coragem, com o apoio da minha família e amigos. Nunca foi fácil, pois enfrentei preconceito e muito convite para fazer diversas coisas erradas, ainda mais nos momentos em que eu mais estava mal financeiramente”, relata Sabiah. Ele acredita que muitos dos problemas enfrentados na reinserção social está dentro da própria lógica dos presídios. O maior culpado de tudo isso é o governo, que larga o preso dentro da cadeia e fala ‘te vira aí, neguinho’. Lá dentro tu tem que sobreviver em um lugar sem a menor dignidade. Um lugar hostil, onde se tu não é bandido, tu acaba aprendendo na marra a ser. Tu não é nem um pouco preparado para o mundo aqui fora, e nem a sociedade está preparada para te receber”, pontua.   O ex-carcerário, empreendedor e reciclador, agora trabalha para ajudar a mudar a realidade de ex-presidiários. Usa a cooperativa para contratá-los, e virou presidente da Associação Humanitária Assistencial de Apoio à Vida e à Reinserção Social (AHAAVRS), a mesma que um dia o ajudou a ter um caminho diferente. Além disso, também realiza palestras usando a sua história de recomeço para inspirar outros jovens a se reinventarem.   “Existe um monte de Sabiah por esse Brasil. A única diferença é que eu divulgo esse trabalho e levo para outras pessoas a ideia de que é possível uma mudança, e que devemos acreditar em nós e no nosso próximo”, diz ele.   O evento Ampla - exato é ser humano acontecerá no auditório Wilson Aita, localizado no Centro de Tecnologia (CT) da UFSM, nos dias 6 e 7 de abril.   Reportagem: Mayara Souto Fotografias: Acervo pessoal de Rodrigo Sabiah]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/ufsm-e-inpe-novo-convenio-para-manter-a-parceria Mon, 02 Apr 2018 19:54:01 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=3350 O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nasceu em 1960 e, desde então, desempenha papel substancial para a ciência brasileira. Na Universidade Federal Santa Maria, sua criação como Centro Regional Sul se deu há 22 anos, através de uma parceria entre a Universidade, que cedeu o espaço físico do campus em um contrato de 50 anos, e o Inpe, que teve o compromisso de construir o prédio e de abrigar nele colaborações científicas de natureza inovadora. Isto de fato foi feito. É o que prova as já conhecidas pesquisas do Inpe na Antártica e Oceano Atlântico Sul; a operação do nanosatélite NanosatC-Br1; além das contribuições a respeito de clima e tempo. Neste percurso, porém, houve alguns contratempos: a divisão pouco específica dos espaços do prédio entre UFSM e Instituto, e as próprias questões financeiras foram determinantes para a grande mudança que ocorre nesta semana. Com a PEC do Teto dos Gastos Públicos aprovada em 2016, o Novo Regime Fiscal diminuiu drasticamente o investimento para pesquisas científicas. Essa situação fez com que o Centro Regional Sul tivesse de escolher entre fechar as portas ou tratar com a Universidade uma nova política de gestão. Assim, após dois anos de negociações, chegou-se ao dia 3 de abril de 2018, quando será assinado o novo convênio da parceria entre o Inpe e a UFSM. O evento acontece na Reitoria, às 10h30, e contará com a presença de autoridades, como representantes da Prefeitura de Santa Maria e do Exército Brasileiro. Para esta ocasião a Universidade receberá o diretor-geral do Inpe, Ricardo Magnus Osório Galvão. Graduado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1969, o diretor é mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Física de Plasmas Aplicada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) nos Estados Unidos. Galvão já geriu outros órgãos científicos importantes: foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) de 2004 a 2011, e também presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF) de 2013 até ser nomeado diretor do Inpe, em setembro de 2016. [caption id="attachment_3363" align="aligncenter" width="639"] Diretor-geral do Inpe, Ricardo Galvão, estará na UFSM nesta semana[/caption] A Revista Arco conversou com Galvão para dimensionar o impacto destas mudanças e mensurar as estratégias que poderão vir em seguida. ARCO: Pensando no público leigo, que muitas vezes não conhece o trabalho desenvolvido pelo Inpe: quais são os principais serviços e produtos desenvolvidos pelo Instituto?   Galvão: O Inpe é um instituto de pesquisas espaciais e sua principal missão é promover o avanço científico em ciências espaciais e a utilização de seus produtos para o benefício da sociedade brasileira. Nomeadamente, alguns dos produtos mais em evidência para o público leigo são a previsão numérica do tempo e estudo de mudanças climáticas feitos pelo CPTEC. Esta coordenação do Inpe é responsável por fornecer os dados necessários para praticamente todas as previsões meteorológicas feitas no país, com enorme relevância para várias aplicações, como agricultura, previsão de desastres naturais e de períodos de seca, navegação marítima e aérea, etc. O Inpe também realiza o monitoramento, por imagens de satélites, de desflorestamento e queimadas na Amazônia e outros biomas, em particular o cerrado, fornecendo os dados essenciais para as ações de controle exercidas pelo Ibama. Ainda, o monitoramento da incidência de descargas elétricas em todo o país, fornecendo dados essenciais para as ações do Operador Nacional do Sistema Elétrico, bem como o monitoramento dos efeitos de erupções solares, relacionadas com o chamado Clima Espacial, que, em condições adversas, pode afetar sistemas de telecomunicações, GPS, etc. Além disso, o Inpe é responsável pela produção do Atlas Brasileiro de Energia Solar que permite o planejamento de instalações de produção de energia elétrica fotovoltaica. Também cabe ao Inpe projetar, desenvolver e controlar satélites artificiais para aplicações em sensoriamento remoto e missões científicas, com os satélites Amazônia 1, CBERS 4A, NanosatC-Br1, UbatubaSat, satélite SPORT, em colaboração com a NASA, etc. Através desta atividade, o INPE permite ao país ter o domínio soberano de uma tecnologia de grande relevância para a sociedade. ARCO: Há um contingenciamento orçamentário em curso que poderá enxugar os centros regionais do Inpe? Galvão: Em primeiro lugar, não houve contingenciamento orçamentário este ano, como no ano passado. O que houve foi uma redução orçamentária de cerca de 39% na Lei Orçamentária Anual deste ano, em relação ao valor do ano passado, que acabou sendo contingenciado. Felizmente, a Secretaria Executiva do MCTIC está fazendo grande esforço para recompor o orçamento de suas unidades de pesquisa e já obteve notável êxito. Esta semana fomos comunicados de que o orçamento do Inpe terá um acréscimo de R$ 16.091.090,88, sendo R$11.623.955,70 referentes à recomposição do patamar de empenho 2017 mais R$ 4.467.135,18 de valor adicional. Em particular, quero deixar claro que não há nenhuma determinação de “enxugar” ou fechar os centros regionais. Esta informação é absolutamente despropositada! Ao contrário, através da criação da Coordenação do Centros Regionais, o Inpe está fazendo grande esforço em promover as atividades nesses centros, em associação com as universidades junto às quais estão sediados. O principal problema que está, de fato, afetando as atividades desenvolvidas não somente nos centros regionais, mas em todo o Inpe, é a forte taxa de redução de seu quadro de pessoal, devido principalmente às aposentadorias, sem perspectiva de recuperação em futuro próximo através de concursos públicos. Mas esse é um problema que afeta a todas as unidades de pesquisa do MCTIC e interpretá-lo como ação diretamente focalizada nos centros regionais não é correto. ARCO: Como o senhor, como gestor, percebe os impactos cotidianos desta mudança, e as consequências de tamanho corte de verba para pesquisas? Galvão: Algumas das pesquisas que ocorrem no CRCRS – Centro Regional Sul de Pesquisas Espaciais contam com a colaboração de pesquisadores da UFSM. Neste contexto, o Inpe assinará um novo acordo de colaboração com a UFSM que define, de forma bastante clara e objetiva, o compartilhamento de suas instalações no campus da Universidade e os encargos de cada instituição. Este instrumento permitirá uma redução dos custos de manutenção pelo Inpe, de forma que parte do orçamento que era utilizada no custeio de serviços poderá ser utilizada nas atividades finalísticas no CRCRS. [caption id="attachment_3359" align="aligncenter" width="786"] Linha do tempo da parceria entre Inpe e UFSM[/caption] Reportagem: Taísa Medeiros Fotografias: Infocampus UFSM/Arquivo e Marcos Santos/USP Imagens Ilustrações: Pollyana Santoro]]>