UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Sat, 25 Apr 2026 17:40:33 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-passado-continuavivo-nas-lembrancas Wed, 07 Feb 2024 11:57:49 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9793 A migração italiana no Brasil começou no período da República, no final do século 19. No Rio Grande do Sul, iniciou com mais intensidade em 1875, para as colônias de Conde D’Eu (hoje a cidade de Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Caxias (Caxias do Sul). Já na região central do Estado, o movimento ocorreu a partir de 1877. A presença italiana no sul do Brasil pode ser percebida em diversos elementos, como o cultivo da uva; a culinária (pratos como nhoque, capeletti e ravióli); e o catolicismo (manifestado na construção de grutas e monumentos erguidos em homenagem a santos). Diante disso, a professora Maria Catarina Chitolina, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), realizou uma pesquisa etnográfica com descendentes de imigrantes italianos no Brasil, onde pesquisa desde 1997, e na Itália, onde realiza o trabalho desde 2012. O objetivo é analisar a importância do papel desempenhado pelas narrativas, objetos e lugares em relação ao pertencimento do “mundo italiano” por meio desses descendentes. Ao longo dos anos de estudo, a pesquisadora entrou em contato com fotografias, livretos de orações, bilhete de viagem ilegível, documento apagado e incompreensível, crochê da nonna, cadernos de receitas, imagens que estavam digitalizadas nas telas dos computadores e celulares ou revitalizadas em molduras. Algumas vezes, eram objetos que não podiam ser tocados devido à importância sentimental. Além dos objetos materiais, locais também evocam sentimentos de pertencimento, como estações de trem, livrarias, restaurantes, avenidas e cafés. Para os descendentes, tanto no Brasil quanto na Itália, a narrativa relacionada aos antepassados por meio de artefatos e lugares é a maneira de imortalizar, em cada palavra, um tempo que não volta mais. As pesquisas centraram-se na região do Lázio e Vêneto, na Itália; no Brasil, foram focadas na região Central do Rio Grande do Sul, como no distrito de Vale Vêneto. As investigações originaram diversos trabalhos da pesquisadora Maria Catarina, entre eles o artigo do qual extraímos alguns trechos para compor este Diário de Campo: “Eu ficava ali, olhando o céu: Narrativas, imagens, objetos, personagens e lugares em pesquisas etnográficas com descendentes de imigrantes italianos no Brasil e na Itália". O texto foi publicado em 2020, no livro Entre a Itália e o Brasil Meridional - História oral e narrativa de imigrantes.

“Uma pausa para olhar o céu e a paisagem”

A maior parte das entrevistas na Itália foi efetuada em locais considerados especiais para os entrevistados: em Roma, pude conhecer estações de trem e metrô, locais históricos, ruas e avenidas, cafés, monumentos, livrarias, restaurantes, mercados, lojas, feiras, igrejas, casas, partes da cidade que traziam memórias e algum vínculo de pertencimento para os ítalo-brasileiros que lá estavam habitando. Fui apresentada a alguns destes cenários da metrópole urbana como lugares repletos de significados. Aquele café, no qual se ficava um pouco, na saída de uma estação de metrô, entre o trabalho da manhã e o trabalho da tarde, quando se tinha um pouco de tempo e uma pausa para olhar o céu e a paisagem. Depois de algumas entrevistas, era comum me convidarem para passear por determinados lugares, salientando a importância que tiveram em seu processo “migratório” e na nova vida na Itália. Seja de metrô, de ônibus, de carro ou a pé, fiz muitos passeios na Itália com meus entrevistados.

“Eu visitei seu passado pelas ruas de Roma”

Se no Brasil eu era convidada a conhecer jardins, hortas, galpões, mobílias, pedaços de terra, capitéis e casas, na Itália também fui convidada a fazer passeios por paisagens exteriores e interiores dos descendentes de imigrantes italianos. Nos entrecruzamentos entre exterioridades e interioridades, as narrativas se tornam possíveis ou mais absorvíveis, por vezes. Em Roma, uma entrevistada (ítalo-brasileira) me levou para o local no qual começou sua estadia na cidade, décadas atrás, em tempos que, para ela, foram muito difíceis e me mostrou os lugares nos quais caminhava nos horários de folga do trabalho, quando saía para estar um pouco “consigo mesma”. Não eram locais de consumo, mas de passeio contemplativo. Andamos bastante pela cidade e pude compreender, por meio da narrativa e da caminhada, como teria sido sua experiência de ítalo-brasileira na Itália. Anos narrados em palavras, compreensíveis e agora também, reflexivamente, olhados pela interlocutora. Eu visitei seu passado pelas ruas de Roma e ela também. Fizemos juntas. E esta possibilidade do encontro etnográfico é sempre surpreendente. Assim, pelas ruas de Roma, conheci um pouco dos ciclos de vida de uma ítalo-brasileira, relatados como fatos da juventude (no passado) e fatos da maturidade (no presente da narrativa).

“Evocação ao vivido e experienciado”

Muitos dos objetos, lugares e imagens que conheci durante as pesquisas são por mim compreendidos como portadores de “mana” - valor mágico, valor religioso, até mesmo valor social - de uma energia especial, de uma força e poder simbólico imenso e potencializador de narrativas e pertencimentos [...] A vida de gerações sendo ali narradas e décadas de história familiar e individual também. O bilhete de viagem já ilegível, o documento apagado e incompreensível, o pano de louça encardido pelo tempo, mas com o crochê da nonna, a tigela quebrada, a panela sem tampa, o sapatinho usado pelos filhos quando bebês, enfim, objetos que, para os narradores, eram potencialmente repletos de sentimentos e plenos em si mesmos. Algumas vezes havia objetos que estavam guardados em caixas simples (mas especiais), muito bem cuidados, aguardando o momento de serem novamente manuseados e narrados. Eram uma evocação ao vivido e experienciado, seja dos próprios descendentes ou das narrativas acerca dos antepassados, das origens, da família, de acontecimentos ou ciclos de vida.

“construções das memórias e das narrativas”

E, nas situações por mim presenciadas, do importante papel das origens familiares, da família como importante valor e das narrativas acerca do pertencimento do “mundo italiano” advindo do processo migratório dos antepassados. E, entre os ítalo-brasileiros na Itália, pude conhecer o poder das imagens e das novas tecnologias de comunicação nos processos de identificação e nos pertencimentos, especialmente na manutenção de vínculos afetivos, familiares e nas construções das memórias e das narrativas. Cada fotografia compartilhada virtualmente, cada imagem, áudio ou vídeo era recebido pelos descendentes que lá estavam com muita emoção e narrativas. Conheci muitas famílias extensas ao longo dos anos de pesquisa [...]. Os cenários, os personagens, a vida que se expressava por meio destas trocas virtuais era algo muito significativo para os descendentes (ítalo-brasileiros) que estavam habitando na Itália. Da saudade de casa (brasileira), da família, dos amigos, dos lugares e sentidos, das comidas, as imagens e áudios via aplicativos (Facebook, Instagram, WhatsApp e outros), emails e outras novas tecnologias de comunicação, possibilitavam a noção de estar/ser em tempos e espaços diferentes.

“Represálias, prisões ou perseguições”

E muitas foram as narrativas que tive acerca deste período (a Segunda Guerra Mundial) e dos procedimentos que cada família teve para se proteger, esconder ou destruir objetos com receio de represálias, prisões ou perseguições. Estas ofensivas foram mais comuns na zona urbana, contudo, em muitas localidades rurais também estiveram presentes.

“Tive pudor e algo de estranhamento”

Mas o que muito me marcou foi, certa vez, quando fui apresentada a roupas íntimas femininas das antepassadas que eram guardadas e muito bem cuidadas por uma senhora e tudo o que isto provocou em mim. Ao olhar uma roupa íntima usada no passado, muito limpa e bem zelada e apresentada a mim com naturalidade, senti que eu estava entrando no domínio da intimidade. Tive pudor e algo de estranhamento, o que me fez pensar o quanto não estamos, às vezes, preparados para algumas situações. Era um dom da entrevistada para comigo. E me senti responsável por tudo o que aprendi sobre o mundo das “antigas”. Por antigas se entende a geração considerada pela senhora como distante temporalmente da sua, no tempo presente. Aqui falava de sua mãe e de sua avó, mais especificamente. Como estas produziam suas roupas, como se cuidavam, como cuidavam do corpo. Enfim, por meio de uma roupa íntima ingressei no mundo narrativo das mulheres do passado.

“O ritual, a sociabilidade”

Na região do Vêneto italiano e seus interiores, fui apresentada a casas, espaços de trabalho, paisagens encantadoras e a cenários diversos, em diálogos nos quais muitas vezes eu era alertada acerca da semelhança entre o Rio Grande do Sul e aquele pedaço da Itália, especialmente. Na casa dos ítalo-brasileiros, um dos objetos mostrados eram a cuia e a bomba para chimarrão, hábito que tinham no Brasil, especialmente os descendentes provindos do sul. E me mostravam porque, como também sou originária do sul do Brasil, talvez esperassem que eu compreendesse o ritual, a sociabilidade e demais elementos que estão presentes na prática de “beber o chimarrão” e da falta que sentiam deste hábito cotidianamente. Em minhas viagens do Brasil para a Itália, quase sempre levei com muito gosto erva-mate para chimarrão e outros produtos que me eram solicitados. Compreendia que era um gesto de retribuição e carinho pelo tempo que minhas perguntas de pesquisa tomavam das pessoas, sempre sobrecarregadas com muito trabalho e afazeres. Também era interessante observar as redes de comunicação que se estabeleciam virtualmente para saber onde encontrar, na Itália, a erva mate, o feijão preto, a farofa e outros elementos considerados típicos da “comida brasileira”.

“Para que as Pessoas que ali passassem pudessem fazer alguma prece”

Visitei casas nas quais havia imagens de santos católicos convivendo em harmonia no espaço com objetos do budismo ou de religiões afro-brasileiras. Durante as pesquisas, pude também conhecer lugares considerados sagrados por alguns descendentes, como a gruta da Nossa Senhora de Lourdes em Vale Vêneto (Rio Grande do Sul). Depois de saber de sua importância para muitos descendentes e também da beleza do lugar, eu a tornei um passeio obrigatório quando apresentava a região para pessoas vindas de outros lugares. Também eu hoje tenho muitas memórias sobre a gruta e os passeios e preces que pude lá fazer. Conheci, igualmente, alguns capitéis, que eram pequenas capelas que os imigrantes e seus descendentes construíam nas estradas ou nos caminhos entre propriedades para que eles mesmos ou as pessoas que ali passassem pudessem fazer alguma prece.

“Ser e estar no mundo”

Por entre fotografias, objetos variados e narrativas, pude entrar e conhecer muitas casas em seus interiores, muita mobília antiga, muita vida presente nestes espaços. O espaço é habitado também pelo tempo e por personagens, por meio do que ali está, sejam objetos materiais ou imaterialidades também. Alguns destes objetos também se relacionam com as pessoas (algumas vivas, outras já falecidas), com suas temporalidades, processos de identificação e com noções de ser/estar no mundo. Reportagem: Eduarda Paz Ilustração e diagramação: Luiz Figueiró]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2021/10/13/entrevista-universidade-e-migracoes-em-tempos-de-pandemia Wed, 13 Oct 2021 17:55:19 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=56882

Acolhimento da primeira turma de estudantes ingressantes pela Resolução 041/2016

Compreender a realidade enfrentada por migrantes e refugiados é um grande desafio. Porém, mais do que isso, o projeto Migraidh da UFSM, busca a proteção e promoção de direitos humanos destas populações. O Migraidh é um Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão dos Direitos Humanos e Mobilidade Humana Internacional da UFSM, com atuação desde 2013. Por meio dele são realizadas ações dirigidas à proteção e promoção de direitos humanos, ao acesso à direitos, ao combate à xenofobia, ao desenvolvimento de processos legislativos e políticas públicas e de integração local da população migrante e refugiada, principalmente aquela estruturalmente vulnerável. 

Reunindo participantes de diversas áreas do conhecimento interessados na temática da migração e direitos humanos, o programa de extensão trabalha em assessoria a Migrantes e Refugiados. Isso ocorre por meio das seis linhas de pesquisa que o projeto possui, nas áreas do Direito, Ciências Sociais, Comunicação Social, Letras e Psicologia da UFSM, liderado pela professora Giuliana Redin, coordenadora do projeto.

Conversamos com a professora Giuliana a fim de ampliar o espaço de conhecimento de um projeto de desmedida importância social, principalmente, relacionado a sua importância em um cenário de restrições pandêmicas.

Agência de Notícias - O Migraidh é um projeto que une diversos cursos da UFSM em prol de melhores condições para os imigrantes. Sendo assim, quais são as ações em desenvolvimento pelo Programa de Extensão nesse momento?

Giuliana Redin - Desde a pandemia, o Programa de Extensão do Migraidh, Assessoria a Imigrantes e Refugiados, mantém suas atividades adaptadas aos protocolos sanitários e mais intensamente realizadas de forma remota. Contudo, essas atividades nunca foram suspensas, pois estão ligadas à atenção à população migrante e refugiada, ainda mais vulnerável no contexto da pandemia. Então foram estruturadas as Mesas de Informações, um projeto que conta com o apoio direto do ACNUR, Agência das Nações Unidas para Refugiados, para o atendimento por canal de WhatsApp nos eixos da assessoria jurídica e documental, atendimento clínico psicológico, que é feito pelo convênio do Migraidh com o Núcleo de Psicanálise da UFSM, acesso aos serviços públicos e assistência social, oferta de rodas de conversa para o ensino do português como língua de acolhimento e apoio e acolhimento. Muitas dessas ações requerem o acompanhamento presencial, nestas situações a equipe de extensionistas atua com rigorosa observância dos protocolos sanitários. O contexto da pandemia agravou a situação de muitos imigrantes relativamente à regularização migratória e segurança alimentar: por mais de um ano, perduraram os efeitos de sucessivas portarias do governo federal de fechamento de fronteiras às migrações por razão humanitária, em violação aos direitos fundamentais assegurados na Lei de Migração e Lei do Refúgio, como o direito de regularização documental, de solicitar refúgio e não sofrer deportação sumária, que é uma Política de Estado; na prática essas portarias não impediram o acesso dos imigrantes no território nacional, mas os deixaram sem acesso ao direito de documentação; a maior dificuldade do acesso a trabalho e renda, situação agravada pelo fato de que muitos imigrantes estavam em situação de indocumentação e encontravam ainda maior dificuldade de inserção no mercado formal de trabalho. Atuamos no enfrentamento a essas situações, não apenas pela incidência junto aos Poderes Legislativo e Executivo, de forma colaborativa e em conjunto com outras organizações e espaços coletivos, como o Fórum Permanente de Mobilidade Humana do Rio Grande do Sul e a RAC, Rede Advocacy Colaborativo, como também nas redes de atenção à agenda da segurança alimentar, de forma mais pontual. 

Neste ano, abrimos edital para novos/as participantes nas seis linhas de pesquisa nas áreas do Direito, Ciências Sociais, Comunicação Social, Letras e Psicologia com participação concomitante no Programa de Extensão. Estamos fortalecendo projeto estratégicos, a exemplo a oferta de mais uma edição do Curso de Capacitação para Servidores Públicos e Atores Sociais em Direitos Humanos, voltado ao atendimento, acolhimento e integração de migrantes e refugiados e a confecção de material informativo para acesso da população migrante aos serviços públicos e também de orientação a servidores e atores sociais. O desenvolvimento do trabalho cotidiano do Migraidh também conta no ano de 2021 com bolsas do Observatório de Direitos Humanos da UFSM e das Ações do COREDE Centro da Pró-Reitoria de Extensão da UFSM e são as seguintes: Atendimento e assessoria jurídica individualizada e coletiva, também colaborativa com órgãos públicos, por meio de peticionamentos e pareceres; Apoio psicossocial e atendimento psicológico, este prestado por meio do convênio interno firmado com o Núcleo de Psicanálise do Curso de Psicologia da UFSM; Apoio para o acesso a serviços públicos; Ensino do português como língua de acolhimento no âmbito das Rodas de Conversa; Ações de integração local da população migrante e refugiada; Fortalecimento de redes voltadas ao acolhimento, atendimento e inserção laboral da população migrante e refugiada; Mediação junto ao Executivo e Legislativo municipais para as agendas de políticas públicas para a população migrante e refugiada; Atuação em advocacy: iniciativa e proposição de políticas públicas e incidência em processos legislativos e administrativos relativos à agenda das migrações; Apoio técnico à aplicação da Resolução 41/2016 (art. 8º), que institui a Política de Ingresso de Migrantes e Refugiados na UFSM, e desenvolvimento das práticas de acolhida e permanência de estudantes imigrantes e refugiados na universidade; Ativismo na promoção dos direitos humanos da população migrante e refugiada por meio de ações de combate à xenofobia e todas as formas de discriminação. 

Agência de Notícias - Quais os principais desafios que já eram enfrentados anteriormente por imigrantes e refugiados que optam pelo Brasil como país de destino? E quais são os principais desafios agora em meio a pandemia?

Giuliana Redin - Migrantes internacionais estão sujeitos a vulnerabilidades decorrentes da condição jurídica frente ao Estado, como a documental, a diferença cultural e linguística, a xenofobia estrutural, as condições socioeconômicas e psíquicas que decorrem dos deslocamentos humanos. São dimensões da exclusão estrutural, tanto em relação ao Estado, no campo político-jurídico, como diante da sociedade de acolhida e da subjetividade do sujeito em mobilidade. A agenda das migrações é altamente atravessada por uma lógica de securitização, que faz recair sobre o estrangeiro a estigmatização e que reforçam a discriminação e relações de sujeição. Na pandemia, como referido na primeira questão, o fechamento de fronteiras aos migrantes por razão humanitária e refugiados foi um desastre do ponto de vista dos direitos humanos, porque sujeitou migrantes e refugiados à rotas de migração inseguras, os expôs ainda mais a situações de exploração, impedindo-os de acessarem o direito fundamental à regularização documental e solicitação de refúgio, e, com isso, estabeleceu um clima de deportabilidade no país, implicando na impossibilidade de fato de acessarem outros direitos, a exemplo, o trabalho.

Celebração do Grand Magal, manifestação religiosa senegalesa, em Santa Maria.

Agência de Notícias - Como promover um diálogo intercultural eficiente entre o meio acadêmico, a sociedade geral e os imigrantes em um momento com tantas restrições?

Giuliana Redin - Esse diálogo é sempre desafiador, porque o meio acadêmico espelha a própria sociedade, o racismo estrutural e a xenofobia arraigada na ideia de identidade nacional, que trata diferente o imigrante europeu em relação ao imigrante do Sul Global. Então, em qualquer tempo, os esforços estão voltados à construção de espaços de promoção da interculturalidade. Um bom exemplo são as Rodas de Conversa para o ensino do português como língua de acolhimento, que atualmente estão sendo ofertadas de forma remota. Esse espaço associa a aprendizagem da língua portuguesa à integração local de migrantes e à construção de uma consciência intercultural, de respeito à singularidade e à diferença. É um espaço construído pelos imigrantes, principais difusores e interlocutores, como oportunidade de inserção do migrante no laço social da comunidade, fortalecimento das redes de informação para acessibilidade ao trabalho e renda, saúde, educação, necessidades cotidianas e socialização de vivências, motivações e dificuldades. Ainda de forma remota, oferecem interação, aproximação e apoio. Outras atividades também estão sendo realizadas neste momento, como os diálogos interculturais promovidos com o apoio do Laboratório EntreLínguas da UFSM, para o desenvolvimento de materiais voltados ao atendimento das necessidades linguísticas dos imigrantes estudantes na universidade. As restrições da pandemia implicaram na impossibilidade de realização do Grand Magal, organizado pela comunidade senegalesa de Santa Maria, em 2020, evento de significativa importância na integração e para a diversidade cultural.

Agência de Notícias - Ainda sem a possibilidade de encontros presenciais, como estão sendo feitas as ações e encontros de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pelo Migraidh? E como está sendo o apoio da Universidade ao projeto?

Giuliana Redin - As atividades são realizadas prioritariamente de forma remota, com encontros semanais do coletivo, não apenas de planejamento das ações, que estão organizadas em Grupos de Trabalho, mas também relativas aos grupos de estudos das linhas de pesquisa. As ações de atendimento a migrantes e refugiados são desenvolvidas diariamente de forma remota ou presencial, a depender da demanda, pelas ações das/os bolsistas. São bolsas custeadas pelo Observatório de Direitos Humanos e pela Pró-Reitoria de Extensão, referente ao edital das ações voltadas ao COREDE Central, Conselho de Desenvolvimento Regional de Desenvolvimento do estado do Rio Grande do Sul. O espaço físico das ações do Migraidh é alocado no prédio da Antiga Reitoria, no centro de Santa Maria, e será mantido ali com as demais iniciativas que comporão o Espaço de Ações Comunitárias e Empreendedoras que está em implantação no referido prédio. Isso é muito importante, pois o Migraidh manterá sua atuação no território, no centro da cidade, permitindo assim uma maior aproximação e acesso por parte da população migrante e refugiada que vive em Santa Maria. 

Agência de Notícias - E a assistência direta aos imigrantes nesse período pandêmico, como está acontecendo?

Giuliana Redin - Preferencialmente de forma remota. As Mesas de Informações envolvem uma equipe de bolsistas e voluntários de diversas áreas que realizam atendimento pelo canal de WhatsApp nos eixos da assessoria jurídica e documental, atendimento clínico psicológico, acesso aos serviços públicos e assistência social e ensino do português como língua de acolhimento. Alguns atendimentos presenciais são necessários para que a resposta à demanda seja possível, ocasião em que todos os protocolos sanitários são respeitados. 

Agência de Notícias - Em função das atividades remotas propostas, nesse ano os encontros do projeto tiveram a participação de pesquisadores, profissionais e representantes da sociedade civil de diferentes partes do Brasil. Qual a importância dessa participação e, principalmente, de integrantes, para além da academia, no projeto?

Giuliana Redin - As possibilidades de desenvolvimento de atividades remotas, encontros, reuniões, conferências, potencializaram muito a interação de atores sociais envolvidos com a temática, no âmbito acadêmico, poderes públicos e sociedade civil, bem como a própria participação do Migraidh em reuniões de redes, que até então, eram presenciais. Um exemplo, foi a participação nos espaços do Fórum Permanente de Mobilidade Humana do Rio Grande do Sul, a principal instância de articulação de sociedade civil, bem como na Rede Advocacy Colaborativo, que atua na incidência nos processos legislativos e junto ao Poder Executivo em Brasília. Apenas a modalidade remota poderia permitir essa interação, que tem gerado muitos resultados em ações integradas ligadas à agenda. No ingresso de novo/as participantes no Migraidh de 2021, o grupo passou a contar com a participação de pessoas de vários estados do Brasil e ligadas a diversas universidades e outros coletivos, o que é extremamente rico do ponto de vista do intercâmbio e fortalecimento de redes. Atualmente, participam do grupo 43 integrantes, dentre docentes, estudantes de graduação e pós-graduação e profissionais voluntários. 

Agência de Notícias - Muitos alunos neste momento encontram dificuldades para acompanhar as aulas e atividades acadêmicas devido à falta de acesso às tecnologias. Essa também é uma realidade para alunos imigrantes? O Migraidh possui ações que auxiliam nessa questão e no auxílio da inserção dos imigrantes na universidade?

Giuliana Redin - As dificuldades de acesso às tecnologias para aulas e atividades acadêmicas remotas agravadas pela situação socioeconômica são as mesmas para imigrantes e estudantes nacionais que necessitam da assistência estudantil. O Migraidh não conta com fonte de financiamento própria, mas atua no apoio para acesso aos editais da UFSM. Especificamente em decorrência da pandemia, do ensino no âmbito do REDE e do distanciamento social, os imigrantes moradores da casa do estudante, a grande maioria, por não possuírem família no Brasil, mantiveram-se nas dependências da casa. Nesse contexto, o Migraidh atuou oferecendo Rodas de Conversa de promoção de cuidado em saúde mental, com  participantes do coletivo e estudantes migrantes e refugiados da UFSM. Um espaço de escuta, diálogo, aproximação e promoção de saúde, muitos foram os temas abordados que permitiram convívio e interação em tempos de maior distanciamento social.  

Agência de Notícias - Que papel você acredita que a Universidade deve assumir na promoção de políticas públicas eficientes voltadas para os imigrantes que chegam até aqui?

Giuliana Redin - Em dezembro 2016, pela autonomia da universidade, conquistamos na UFSM a Política de Ingresso para Migrantes e Refugiados. A Resolução 041/2016, cuja proposição foi de iniciativa do Migraidh, prevê critérios diferenciados para o acesso dessa população ao ensino, como uma modalidade de ação afirmativa, baseada na igualdade de oportunidades. Apesar da importância desta ação afirmativa - inserida em uma realidade potencial de exclusão deste grupo social do acesso à educação superior, já que, conforme dados do ACNUR, apenas 3% dos refugiados conseguem acessar a educação superior, em um comparativo com 37% da população em geral que acessa a educação superior no mundo -, foram abertos apenas dois editais nos anos de 2017 e 2018. Neste momento, a nossa luta é pela retomada desta importante política na universidade, não apenas pelo que representa do ponto de vista da inclusão social e democratização da universidade, mas também por promover internacionalização do conhecimento e o fortalecimento dos processos educacionais, sociais e humanos, pela riqueza da diversidade cultural que a imigração oportuniza. Essa política, instituída pela autonomia universitária, reconhece o direito à igualdade e à integração, está baseada no compromisso da universidade afirmado no Plano de Desenvolvimento Institucional com a inclusão social, com os direitos humanos e a democratização do ensino, assim como no convênio firmado com a Agência das Nações Unidas para Refugiados, que instituiu na UFSM a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, a qual o Migraidh é responsável técnico, além dos princípios constitucionais, tratados internacionais e direitos consagrados Política de Estado para migrantes e refugiados. 

É importante destacar que se trata de política pública no âmbito da autonomia da universidade, portanto institui direitos e não pode ser encarada como “caridade”, ideia que pode ser associada a uma desvalorização objetiva e social do diferente. Em relação às políticas de permanência na universidade, para além do acesso aos benefícios da assistência estudantil em igualdade de condições aos nacionais, também é fundamental que possamos avançar nas nas ações baseadas no reconhecimento das especificidades que decorrem das migrações internacionais, como a língua, a cultura, a formação educacional. Em 2019 e agora em 2021, a universidade lançou editais de bolsas para os estudantes migrantes e refugiados participarem em projetos de pesquisa, ensino e extensão, o que é significativo do ponto de vista da possibilidade de inserção deste grupo, que traz a riqueza da diversidade cultural na construção dos processos educacionais. A autonomia universitária também pode promover integração por meio da desburocratização e facilitação documental no que concerne a revalidação e reconhecimento de diplomas universitários. O Migraidh atua neste momento nesta demanda.

Com as ações desenvolvidas pelo Migraidh e Cátedra Sérgio Vieira de Mello, a universidade atua no local, para além dos muros, prestando atendimento e contribuindo para a integração de migrantes e refugiados, no escopo de suas ações. Além disso, colabora com o processo de formulação e construção de políticas públicas voltadas a migrantes e refugiados e fortalecimento da cooperação com os poderes públicos e sociedade civil. Exemplo desta atuação, foi a Moção de Apoio concedida em 2017 pela Câmara de Vereadores à Carta de Santa Maria sobre Políticas Públicas para Migrantes e Refugiados. Neste ano, o Migraidh promoverá uma conferência preparatória à Conferência Municipal de Saúde Mental do Município de Santa Maria. 

Mais informações sobre o Migraidh

E-mail: migraidh@gmail.com

Entrevista: Katiana Campeol, estudante e estagiária de Jornalismo
Fotos: Alessandra Jungs de Almeida, acervo do Migraidh
Edição: Davi Pereira, jornalista

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Escrito por Breno Antonio Sponchiado e organizado por Maria Medianeira Padoin e Jorge Alberto Soares Cruz, o livro “Imigração e Quarta Colônia: Nova Palma e Pe. Luizinho”, da Editora UFSM, terá lançamento em Nova Palma na sexta-feira (31), às 19h, na Igreja Matriz Santíssima Trindade.

O evento é organizado em comemoração aos 100 anos da Paróquia Nova Palma e aos 25 anos de criação do Circolo Veneto da cidade. Após a cerimônia, ocorrerá jantar de confraternização no Salão Paroquial, no valor de R$ 25,00. As reservas podem ser feitas através do telefone (55) 3266-1440.

Fonte: Assessoria de Comunicação da Editora UFSM 

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