UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Fri, 27 Mar 2026 00:24:02 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2025/09/23/primeiras-pracinhas-infantis-no-campus-sede-da-ufsm-estao-em-construcao Tue, 23 Sep 2025 13:36:28 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=70599 [caption id="attachment_70602" align="alignright" width="537"]foto colorida horizontal de um gramado verde, com uma cerca de tela laranja circundando um espaço, e ao fundo árvores e céu azul com algumas nuvens Uma das pracinhas ficará no gramado próximo ao Planetário[/caption]

O 55BET Pro Sede da UFSM vai passar a oferecer à comunidade suas duas primeiras pracinhas infantis, que estão sendo construídas nas proximidades do Planetário e do Centro de Educação Física e Desporto (CEFD). As obras já estão em andamento e a previsão de entrega é para 12 de outubro, Dia da Criança.

As duas pracinhas contarão com o mesmo kit de brinquedos (confira abaixo). A área dos brinquedos será circundada por pista de material natural compactado para preservar o aspecto natural do ambiente e proporcionar o acesso de pessoas com deficiência e carrinhos de bebê. A pista também faz parte do projeto, já que proporcionará espaço próximo aos pais para que as crianças se locomovam com segurança.

A pracinha que está sendo construída no gramado junto ao bosque, quase em frente ao Planetário, terá 500 m² de área, e a que ficará entre o CEFD e a Casa do Estudante contará com 680 m². As obras contam com investimento de R$ 195.100,08, recursos próprios da UFSM.

Sanitários estão previstos

Também estão em projeto dois conjuntos de banheiros públicos que serão executados próximos a cada pracinha, a fim de fortalecer a estrutura oferecida à comunidade interna e externa, que busca no campus um local de lazer, contemplação e prática de esportes, principalmente nos finais de semana. Como os sanitários requerem aprovação prévia da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), não foram licitados junto com as pracinhas. A previsão é de que a licitação ocorra no início de 2026.

A construção e disponibilização das pracinhas infantis à comunidade está alinhada à política de inclusão das mães na UFSM. As solicitação foi do GT Maternidade, que tem como objetivo pensar em políticas públicas inclusivas às mães na Instituição. O GT partiu de iniciativa da Pró-Reitoria de Extensão (PRE), por meio da Casa Verônica/Observatório de Direitos Humanos (ODH). A construção das pracinhas configura uma primeira fase deste projeto, que ainda prevê a construção dos banheiros para suporte às pracinhas e áreas que deixem a Instituição mais acolhedora às famílias.

O que cada pracinha terá:

Kit de brinquedos completo: conjunto de playground com duas torres cobertas, passarela reta com corrimão, kit de balanço duplo, escada rotomoldada com corrimão, escorregador reto, escalada de cordas, tobogã e kit jogo da velha;

Brinquedos inclusivos – para crianças PCD: balanço inclusivo com quatro pés e cadeira para auxiliar e gangorra inclusiva de dois lugares.
 
Fotos: Ricardo Bonfanti
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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2025/09/16/projeto-faz-levantamento-dos-desafios-enfrentados-por-alunas-e-servidoras-maes-na-ufsm Tue, 16 Sep 2025 19:51:51 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=70509 O projeto Conexões Maternas está realizando uma pesquisa para compreender os principais desafios e necessidades enfrentados pelas mães da UFSM na conciliação das rotinas de estudos e trabalho com a maternidade. O levantamento é destinado a todas as mães com vínculo com a UFSM: estudantes do ensino médio, graduação e pós-graduação, servidoras docentes, servidoras técnico-administrativas em educação e servidoras terceirizadas. Os dados coletados serão fundamentais para formular políticas institucionais que promovam a inclusão, a permanência e a progressão das mães em todas as etapas da vida acadêmica. O questionário pode ser acessado aqui. O Conexões Maternas está registrado como projeto de pesquisa e também como projeto de desenvolvimento institucional, os quais são coordenados pela professora Milena Freire de Oliveira-Cruz, do Departamento de Ciências da Comunicação. As informações fornecidas no questionário pelas participantes são anônimas. O tempo médio de resposta é de aproximadamente 13 minutos. Mais informações constam no perfil do projeto no Instagram.]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pro-reitorias/pre/2025/05/12/grupo-de-trabalho-sobre-maternidade-na-ufsm-realiza-sua-primeira-reuniao Mon, 12 May 2025 12:45:55 +0000 http://www.55bet-pro.com/pro-reitorias/pre/?p=12599 O Grupo de Trabalho (GT) sobre Maternidade na UFSM realizou, na última sexta, 09, a sua primeira reunião. O GT tem por objetivo pensar políticas públicas internas voltadas às mães universitárias, além de propor novas diretrizes e ampliar as discussões sobre a temática no âmbito acadêmico. A instituição do Grupo de Trabalho é uma continuação das atividades e dos avanços conquistados pela Política de Igualdade de Gênero, aprovada em 2021 na UFSM.

Motivado pela busca de mães universitárias para assegurar seus direitos na UFSM, o GT orienta suas ações em articulação com projetos de ensino, pesquisa e extensão que já destacavam a temática no contexto do ensino superior. Além disso, pretende ampliar a efetivação da legislação já existente e assegurar que os direitos das mães sejam conhecidos e reconhecidos na Universidade.

Compõem o GT Maternidade representantes da Pró-Reitoria de Extensão (PRE), Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD), Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPGP) e da Pró-Reitoria de Planejamento (PROPLAN). A iniciativa foi capitaneada pelo Espaço Multiprofissional Casa Verônica, setor vinculado à PRE que visa a promoção da igualdade de gênero na UFSM.

Texto: Wellington Hack, bolsista da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

Revisão: Catharina Viegas, bolsista da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pro-reitorias/pre/2024/12/05/jai-2024-ufsm-viabiliza-seminario-de-gestao-sobre-maternidade Thu, 05 Dec 2024 17:09:13 +0000 http://www.55bet-pro.com/pro-reitorias/pre/?p=10907

Relativo à programação da 39° edição da Jornada Acadêmica Integrada (JAI), a UFSM promoveu uma mesa redonda para discutir sobre parentalidade e vida acadêmica. No evento, estiveram presentes a professora da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Pâmela Billig Mello-Carpes, e a mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Vanessa Suany. O objetivo do debate foi conversar sobre formas de possibilitar um ambiente mais acolhedor e sensível para as mães da Universidade, evitando que elas vislumbrem a evasão escolar. Ambas destacaram a importância da Universidade ser um local de rede de apoio para as mães e seus filhos.

Foram apresentados dados comparativos sobre os índices de produtividade de homens e mulheres antes e depois de terem filhos. Essas informações são produzidas pela organização Parent In Science, cuja uma das organizadoras é a professora Pâmela Billig. Com isso, foi possível determinar que mulheres sofrem mais preconceito e exclusão quando decidem ter filhos, algo que não acontece com os homens, que alcançam, inclusive, um aumento nas produções acadêmicas. 

Vanessa Suany é presidente da Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras (AMPET), participa de um Grupo de Trabalho ainda em desenvolvimento pelo Ministério da Educação e tem como um de seus objetivos de vida viabilizar a maternidade docente, com foco em recorte de raça.

Algumas medidas sugeridas pelas palestrantes para abrandar os impactos trabalhistas na vida das mães foram: ampliação no tempo de avaliação de currículos, bolsas específicas para projetos liderados por mães, creches, salas de amamentação, trocadores em banheiros, etc.

Campanha de apoio para mães universitárias

Também ocorreu o lançamento da campanha “Maternidade plena: entre colo e livros, uma jornada em equilíbrio”, idealizada pela Unidade de Comunicação Integrada (UNICOM) da UFSM. A ideia visa unificar as diretrizes sobre maternidade da Universidade, de modo a facilitar o acesso das mulheres aos seus direitos.

Para a Pró-Reitora adjunta de extensão, Jaciele Sell, essa é uma oportunidade de tirar as mães da invisibilidade: “Nós temos uma proposta de montar um espaço família para acolher mães, pais e crianças em momentos necessários, além de duas pracinhas para os pequenos”.

O seminário contou com a presença de servidoras, alunas e docentes da UFSM que desejavam compreender como podem ter seus direitos garantidos enquanto mães e gestoras em uma instituição pública.


Texto: Myreya Antunes, bolsista de jornalismo da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/ UFSM).

Revisão: Catharina Viegas de Carvalho, Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).

Imagens: Saéli Laureano/ Casa Verônica.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2024/11/28/maternidade-e-academia-e-tema-de-seminario-do-19o-salao-de-extensao Thu, 28 Nov 2024 17:49:31 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=67783 [caption id="attachment_67784" align="alignleft" width="600"] Pâmela dialogou sobre políticas de apoio para mães[/caption]

“Esse evento foi um colo”.  Assim que Fernanda Sagrilo, docente do Departamento de Comunicação, definiu o seminário “Maternidade e Academia: Construindo Políticas para Apoiar Mães no contexto universitário”. Desenvolvido pela Casa Verônica, em parceria com o projeto  “Conexões Maternas” e com o Núcleo de Educação e Desenvolvimento da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, o evento compôs a programação do  19º  Salão de Extensão da UFSM, durante a Jornada Acadêmica Integrada (JAI). 

O seminário teve como objetivo promover o debate e sensibilização da comunidade sobre os desafios relacionados à maternidade no contexto acadêmico. Para isso, contou com a participação de Vanessa Suany, mestranda em Antropologia (UFSC) e presidente da Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras (AMPET), e Pâmela Carpes, professora na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) e integrante da equipe gestora do Movimento Parent in Science

Durante a conversa, dados foram apresentados sobre as dificuldades que mães podem passar dentro do ambiente universitário. “Nós temos evidências de que, embora todos sintam impactos dentro da parentalidade, o impacto é muito maior para as mães”, comentou a professora Pâmela Carpes. 

Também presente no evento, a Vice- reitora Martha Adaime compartilhou sua experiência com a maternidade e a universidade, “me lembro com muita dor o receio que eu tinha de engravidar durante minha pós-graduação”. Martha relembra de como sua bolsa poderia ser colocada em risco com a possibilidade de uma gravidez e, por isso, destaca a importância de campanhas como essa para sensibilizar sobre o tema.

As mulheres espectadoras do seminário eram servidoras e gestoras da UFSM que buscavam entender melhor sobre seus direitos como mães e acadêmicas. Fernanda Sagrilo, voltou recentemente de sua licença maternidade e relatou como a apresentação teve significância para ela. “Me senti acolhida e sensibilizada. A Universidade me recebeu muito bem, mas ter o encontro com outras mães que passam pelas mesmas dificuldades e ver que a nossa Universidade está pensando na gente, dá um abraço, um colo, uma segurança para que possamos ser mães de forma mais plena.” 

Maternidade Plena

Voltada para a segurança das mães na Universidade, a campanha “Maternidade Plena: entre colo e livros, uma jornada em equilíbrio”, foi desenvolvida pelos estudantes André Dellinghausen e Camille Moraes, estagiários da Unidade de Comunicação Integrada (Unicom), vinculada à Coordenadoria de Comunicação Social.  Camille explica a ideia: "A primeira parte abraça a dualidade da vida de uma mãe. O colo remete ao colo materno ou paterno e os livros retomam o ambiente acadêmico". O objetivo da campanha é fomentar uma vivência calma e tranquila para as mães da UFSM. Nesse sentido, espera-se que todas as informações e diretrizes sobre a maternidade na UFSM estejam juntas e mais fáceis de serem compreendidas. 

A professora Milena Freire, coordenadora do grupo de pesquisa "Comunicação Gênero e Desigualdades"  e Embaixadora do Movimento Parent in Science (PiS), comentou sobre a importância do evento para a comunidade. “Primeiro, precisamos sensibilizar a comunidade para o tema. É importante perceber os impactos da maternidade na carreira e vida estudantil. A segunda questão é sobre uma articulação. Que a partir da sensibilização e das ações mostradas pelas palestrantes, possamos começar a fomentar políticas específicas para a nossa Universidade”. 

Após o evento da manhã, uma palestra dá continuidade ao seminário. Ela acontece às 14 horas na sala 314, do prédio 16B e é aberta para toda a comunidade acadêmica. 

 

Texto: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2024/11/08/casa-veronica-promove-evento-sobre-politicas-para-apoiar-maes-no-contexto-universitario Fri, 08 Nov 2024 13:50:24 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=67564

A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio da Pró-Reitoria de Extensão (PRE) e da Casa Verônica UFSM, promove, no dia 28 de novembro, o evento Maternidade e Academia: Construindo Políticas para Apoiar Mães no Contexto Universitário, compondo a programação do 19º  Salão de Extensão da UFSM.

O evento tem como objetivo promover um debate e sensibilização da comunidade sobre os desafios relacionados à maternidade no contexto acadêmico, conta com programação para manhã e tarde. Pela manhã, haverá uma palestra destinada para servidoras(es) e gestoras(es) da UFSM com vistas a capacitar servidores da universidade para que compreendam e implementem políticas e práticas que apoiem mães no contexto acadêmico. Já à tarde, haverá uma palestra aberta a toda comunidade para apresentar dados do cenário nacional e debater sobre o impacto da maternidade na trajetória de estudantes e na carreira das profissionais da educação.

Contaremos com a presença de duas palestrantes convidadas:

Vanessa Suany: Mestranda em Antropologia (UFSC). Presidente da Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras(AMPET). Membro do GT com o MEC para construção da Política Nacional de Permanência Materna no Ensino Superior Brasileiro.

Pâmela Billig Mello Carpes: Professora Associada na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Integrante da equipe gestora do Movimento Parent in Science. Ganhadora o Prêmio Para Mulheres na Ciência L’Oreal/UNESCO/Academia Brasileira de Ciências em 2017.

Este evento conta com apoio do Núcleo de Educação e Desenvolvimento (NED/PROGEP), Projeto Conexões Maternas, Projeto Brinca Mais.

Programação

Manhã: 

9h – Seminário de Gestão para servidoras(es) da UFSM, sobre políticas de apoio para mães servidoras e estudantes. 

Local: Salão Imembuí, Prédio 47, Reitoria
Inscrições: Portal de Capacitação

Tarde: 

Palestra aberta para a comunidade acadêmica, discutindo os desafios e políticas voltadas à maternidade no ambiente universitário.

Local: Centro de Educação (CE) – Prédio 16b, sala 314

Inscrições (para quem deseja certificado): http://forms.gle/WDMa3jJJkNGhZ2hq9

*Haverá Espaço do Brincar para crianças até 12 anos, com o Projeto Brinca Mais. As vagas são limitadas, mediante inscrição

Local: CE – Prédio 16b, sala 23
Inscrições para espaço do brincar:  http://forms.gle/i1H9fXYpnUrL9yFP8

**O prédio também conta espaço família 

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2023/06/14/2a-edicao-do-conexoes-maternas-discute-solidao-materna Wed, 14 Jun 2023 18:23:07 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=62522

No próximo dia 22, às 15 horas, acontece o segundo encontro do Conexões Maternas. A reunião será no Miniauditório da sala 109, do Prédio 14.

O tema do encontro será a solidão materna, debatido a partir da exibição do curta-metragem Além de Mim, dirigido por Gabriela Billwiller e Laís Lorenço. O filme se propõe a acompanhar a trajetória de mulheres-mães em torno dos percalços da maternidade, questionando, a partir de seus depoimentos, o ideal de abnegação, santidade e amor depositado em cima das mulheres. E não se atendo apenas ao papel materno, mas aos sonhos e vivências como mulher. A mediação será feita pela professora Milena Freire.

O evento é aberto para todas as mães da UFSM e, para participar, é preciso realizar inscrição através do formulário. Mais informações podem ser encontradas no Instagram do Conexões Maternas.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2023/06/13/docente-de-filosofia-participa-de-lancamento-de-livro-na-noruega Tue, 13 Jun 2023 12:19:04 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=62498

Durante o mês de maio, a professora do Departamento de Filosofia da UFSM, Mitieli Seixas da Silva, esteve na Noruega para participar do lançamento do livro: “Gender Diversity, Equity, and Inclusion in Academia: A Conceptual Framework for Sustainable Transformation”, da editora Routledge. O evento ocorreu na quinta-feira (31), na Universidade do Ártico da Noruega, em Tromsø, e contou com a participação de mais quatro brasileiros de outras universidades do país. Mitieli é autora do capítulo “Motherhood”.

A participação da docente foi através do convite de uma das editoras, Melina Duarte. O livro também conta com a organização de Katrin Losleben e Kjersti Fjørtoft. “O livro é dedicado aos temas da diversidade de gênero, equidade e inclusão na Academia, ele é voltado para gestores de entidades de ensino superior que queriam aprender, discutir e aplicar políticas públicas na academia que sejam orientadas pelos princípios da inclusão e equidade”, comenta Mitieli.

[caption id="attachment_62499" align="alignleft" width="500"] Mitieli participou de paineis de discussão sobre os assuntos apresentados na obra (Foto: Arquivo pessoal)[/caption]

O capítulo escrito pela professora da UFSM aborda, em uma discussão filosófica, a condição da maternidade, como ela foi tratada no decorrer do tempo e quais são os desafios de inclusão de mães na comunidade acadêmica, tanto para professoras, quanto para estudantes. “Eu vejo esse tema como essencial, pois é preciso não apenas incluir as mulheres na produção do conhecimento, mas garantir que aquelas que são mães tenham sua dignidade e oportunidades respeitadas”, relata Mitieli.

O lançamento do livro contou com falas dos gestores da Universidade do Ártico da Noruega que abordaram a importância de projetos que busquem a equidade de gênero na comunidade acadêmica, com destaque ao projeto Prestige, que financiou a ida da docente para o país. As editoras do livro também deram suas contribuições e, após, ocorreram painéis de discussão dos capítulos da obra. Eu me senti muito bem recepcionada pela equipe da universidade e pelas pessoas que encontramos ao longo dos dias que lá estivemos. Acredito que foi uma oportunidade única de conhecer esse país de cultura tão distante, mas com quem temos muito a aprender e a trocar acerca, por exemplo, da proteção dos povos originários, da luta pela equidade de gênero e por igualdade de oportunidades”, comenta Mitieli.

Tanto na participação da escrita quanto no lançamento do livro, Mitieli pode levar para fora do Brasil um pouco do que é feito na Universidade. “Isso mostra a qualidade da pesquisa e da produção de conhecimento realizada aqui na UFSM”, afirma.

Resultados deixado pela pesquisa

A docente conta que além de ter a possibilidade de ir para o exterior, mostrar a pesquisa que é realizada na UFSM e contribuir com a internacionalização da Instituição, sua pesquisa também deixou marcas na Universidade: “Quando comecei a pesquisar a maternidade como um problema filosófico, eu escrevi uma coluna para o site da nossa Associação Nacional e como resultado disso meus colegas sugeriram uma mudança nos critérios de recredenciamento para professoras mães em nosso Programa de Pós-Graduação. Além disso, em nosso próximo edital de bolsas para estudantes de pós-graduação, teremos reserva de vagas para gestantes e mães com filhos pequenos. Não é sempre que a pesquisa teórica que fazemos tem resultados práticos na forma de políticas públicas, mas quando isso acontece, temos que comemorar”, finaliza.

A edição física do livro já está sendo vendida, e a edição eletrônica é de acesso livre.

Texto: Gabriel Escobar, estudante de jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2023/05/29/conexoes-maternas-promove-espaco-de-acolhimento-e-escuta-para-maes-da-ufsm Mon, 29 May 2023 11:40:38 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=62367 [caption id="attachment_62369" align="alignleft" width="600"] Cerca de 15 mães se reuniram na última quinta-feira, 25, na Casa Verônica[/caption]

Diálogo, acolhimento e gestos de carinho estiveram presentes no espaço da Casa Verônica durante o primeiro encontro do projeto Conexões Maternas. O evento, realizado na tarde da quinta-feira, 25, reuniu acadêmicas de graduação, pós-graduação, além de servidoras. O objetivo da iniciativa é discutir as demandas das mães da UFSM e transformá-las em ações práticas.

Uma das idealizadoras do projeto, a estudante de pós-graduação Carol Farneze, esclarece que a iniciativa surge, especialmente, para tornar a Universidade um ambiente agradável para as mães e para atender as necessidades específicas de cada uma delas, afinal, todas vivenciam realidades distintas. “A gente quer simplesmente acolher e falar ‘olha, você é uma pessoa, estamos te vendo, vem falar com a gente’. Porque a todo momento, nós [mães] somos jogadas para fora porque as demandas e os horários não acomodam a nossa rotina”, completa Carol. 

Por conta disso, o projeto surge a partir da necessidade de observar o contexto das mães na instituição e oferecer um espaço de acolhimento em que a sororidade ganha forma - com gestos de carinho, empatia, escuta sensível e troca de experiências. Foi assim que o primeiro encontro aconteceu na última quinta-feira. Após uma rodada de apresentações, as mães presentes compartilharam palavras que completaram a frase “Ser mãe na Universidade é…”. Sentimentos como solitário, desafiador, excludente, maravilhoso e inspirador foram relatados.

[caption id="attachment_62368" align="alignright" width="600"] No início do encontro, um mapa mental com a frase “Ser mãe na Universidade é…” foi proposto às mães[/caption]

Para a docente do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH) e também idealizadora do projeto, Milena Freire, o Conexões Maternas é o início de um movimento já presente em outras instituições do país, que busca dar visibilidade aos direitos que essas mães já têm, além de fazer reivindicações de maneira adequada. “E ao mesmo tempo é um espaço para a gente se encontrar. Hoje, boa parte das mães coloca como palavra-chave a solidão e isso é tão representativo, porque há uma invisibilidade em relação a essa pauta [maternidade]”, afirma Milena.

O olhar para a colega ao lado 

A acadêmica de pedagogia, Maria Júlia Santos da Silva, esteve presente no encontro acompanhada da filha Clarice, de quatro anos. Ela conta que quando chegou na UFSM, em 2019, não encontrou espaços em que as mães pudessem se reunir com uma certa frequência. “É maravilhoso estar vivendo isso. Eu me senti muito acolhida, livre para falar o que sentia e como são as minhas experiências. É bom olhar para a colega do lado e ver que ela tem as mesmas demandas. E também entender outras necessidades que são diferentes das minhas”, afirma a acadêmica de pedagogia.

Para Maria Júlia, o projeto é importante para auxiliar as mães da UFSM, mas também para pensar em políticas públicas a nível federal - já que, em todos os locais, as mães precisam estar na Universidade. Entre as demandas que trouxe para o encontro, ela destaca a situação da Casa do Estudante, local onde reside. Segundo ela, é necessário atender não só a demanda das mães, mas também das crianças que têm necessidades diferentes dos adultos.

Mãe da Andrieli e do Emanuel, Alice Lameira Farias é Técnica Administrativa em Educação (TAE) na UFSM. Ela compartilha a experiência no projeto, que vê como fundamental para entender diferentes vivências em relação à maternagem. “São nesses momentos que vemos que não estamos sozinhas. E também aprendemos uma com as outras”, revela.

A união faz a força e as reivindicações necessárias

[caption id="attachment_62370" align="alignleft" width="600"] Maria Júlia foi ao encontro acompanhada da filha, a pequena Clarice[/caption]

Pautas como flexibilização de horários, retorno da licença maternidade, produtividade acadêmica e assédio moral foram levantadas em um segundo momento do encontro. A partir delas, será possível entender as demandas prioritárias das mães e realizar os encaminhamentos necessários. “Estamos recolhendo essas reivindicações para transformá-las em ações práticas, ou seja, acionar reitoria, pró-reitorias e outros espaços institucionais que a gente conseguir. Também é um desejo nosso promover um projeto de sensibilização junto à comunidade acadêmica”, revela Carol. 

Além de mapear demandas vindas de diferentes setores da Universidade, um dos objetivos é trazer outras mulheres para o espaço e fazer um levantamento de dados referente às mães ativas na Instituição - informação que ainda não está disponível. “Eu realmente fiquei muito emocionada de ver esse passo concretizado. O próximo é a manutenção dessas reuniões, porque estamos só começando”, afirma Milena.

O Conexões Maternas vai acontecer quinzenalmente, em turnos alternados, para que o horário dos encontros possa contemplar diferentes mães. Para se inscrever, basta preencher um formulário disponível no Instagram do projeto

Para conferir registros do evento, assista a matéria da TV 55BET Pro:

http://www.youtube.com/watch?v=bJIiTBjlBaM

Texto: Thais Immig, estudante de jornalismo e voluntária da Agência de Notícias
Fotos: Milene Eichelberger, estudante de jornalismo e voluntária da Agência de Notícias
Edição: Mariana Henriques, jornalista

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/2022/08/10/luto-perinatal-uma-dor-silenciosa Wed, 10 Aug 2022 20:00:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/revistatxt/?p=3619
Ilustração colorida da silhueta de uma mulher grávida. Ela é branca e está nua, com uma das mãos sobre a barriga. Acima do pescoço, girassóis amarelos com cabos e folhas verdes.

Em 2018, segundo a Fiocruz, 45.875 óbitos perinatais foram registrados no Brasil. Este luto é sentido pelas milhares de mães que perdem seus bebês entre a 22ª semana de gestação e o 7º dia após o parto. Dor, vazio e tristeza são os sentimentos das três mulheres com idades, experiências e vidas diferentes, que desejaram seus filhos, esperaram por eles e não puderam sequer levá-los para casa. O sofrimento do luto perinatal é o que une as histórias de Jeniffer Weschenfelder, Jaqueline Sandra Rigon e Bruna Fani.

A estudante de Biomedicina, Jeniffer Weschenfelder, aos 19 anos, descobriu a gravidez e, mesmo sem ter sido planejada, a partir da primeira consulta, ao ouvir os batimentos cardíacos de Helena, encarou a gestação com felicidade. A emoção dela e do marido Leonardo Schneider Vega, logo compartilharia lugar com a preocupação. Ao realizar os primeiros exames de rotina, sua médica observou alterações e percebeu que Helena tinha um cisto na nuca. Os pais foram orientados a buscar uma análise mais detalhada em Porto Alegre. Na capital, o médico informou que o diagnóstico do bebê só poderia ser dado de fato, na hora do nascimento, portanto, não seria possível garantir que a menina não tivesse complicações futuras.

Com quase oito meses de gestação, Jeniffer sentiu-se mal e notou que Helena não estava se mexendo. Acompanhada por seu esposo, foi ao Hospital Vida & Saúde, em Santa Rosa para fazer um ultrassom. No exame, após mostrar a neném para a mãe, o médico responsável apontou para o coraçãozinho de Helena no monitor e disse: “aqui está parado”. Naquele momento, a mãe relata que sentiu o coração parar e, ao saber sobre o falecimento da pequena, desejou petrificar aquele momento para as duas ficarem para sempre juntas. "A Helena foi muito desejada, a gente a queria do jeito que fosse, só queríamos ela viva”, disse a mãe relembrando o caos do momento. 

Após o parto, ela e seu marido tiveram um tempo com a filha, puderam escolher a roupa, pegar no colo e fazer algumas fotos para recordação. Em tom emotivo, Jeniffer conta: “se eu fechar os olhos agora é como se eu sentisse o cheirinho dela”. Após um ano e três meses, a jovem mãe diz estar finalmente se permitindo ser feliz de novo, mas ressalta que o luto é para vida toda, a dor nunca passa. 

A professora de ensino fundamental, Jaqueline Sandra Rigon, de 49 anos, sempre teve o sonho de ser mãe.  Ao encontrar dificuldades para engravidar, no ano de 2006, realizou um tratamento que resultou na gravidez das gêmeas, Luísa e Lara. As meninas vieram ao mundo no Hospital Vida & Saúde de Santa Rosa, com oito meses e peso abaixo do esperado, algo comum no desenvolvimento de uma gravidez gemelar.  

As bebês recém-nascidas foram para a UTI Neonatal. Luísa foi para casa no quinto dia e Lara ficou hospitalizada, pois ainda não estava dentro dos limites de peso. No sétimo dia após o nascimento, o hospital informou à família que a menina estava sentindo falta de ar e seus batimentos estavam irregulares. Foi constatado que Lara possuía problemas cardíacos e deveria ser submetida a uma cirurgia em Porto Alegre. O pai Carlos Vladimir Petry acompanhou a neném em seu procedimento de emergência e Jaqueline, em casa, se recuperava da cirurgia e cuidava da recém nascida Luisa.

Após ouvir comentários sobre a cirurgia ser muito comum em bebês, Jaqueline estava esperançosa e confiante, sentimentos que logo foram suprimidos quando o ex-marido ligou para comunicar o falecimento de Lara durante a cirurgia. “A expectativa era muito grande: iria ter duas meninas. Estava tudo preparado, tinham duas caminhas, pares de tudo. Já se passaram 16 anos desde a perda da minha filha, mas a dor ainda existe”, destacou a mãe. 

“Ele nasceu mal”, isso foi tudo que a professora de português e redação, formada pela UFSM, Bruna Fani ouviu de seu pediatra ao dar à luz ao seu filho Vicente. Grávida aos 23 anos, ela relata ter sido vítima de um caso de violência obstétrica no Hospital Casa de Saúde em Santa Maria, no ano de 2016.

O fato, que ganhou repercussão nacional, mobilizou a comunidade materna em busca de respostas. Bruna relata que teve suas palavras deslegitimadas ao explicar para as enfermeiras sobre a dor que estava sentindo, de fato, não ser normal. Segundo ela, seu corpo não suportava o sofrimento. Após Fani ficar horas sem receber nenhuma observação, as enfermeiras concordaram em ouvir os sinais do bebê e perceberam que algo não estava certo com Vicente. 

O parto ocorreu durante a troca de plantão do hospital. A médica obstetra, apressada,  disse: “vamos mãe, você não está se ajudando. Precisamos de mais força, senão vamos ficar aqui até de noite...”. Quando Vicente nasceu, a mãe não ouviu o choro. Sem demora, ele foi encaminhado para a sala do pediatra. Esses instantes foram apenas uma prova dos momentos tensos que Bruna viveria em seguida. 

Segundo o pediatra de plantão, seu filho teve uma asfixia durante o parto: seis longos minutos sem respirar. Após ser reanimado, foi encaminhado à UTI Neonatal do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), onde foi entubado. Após dias de luta e agonia, três paradas cardíacas tiraram a vida de Vicente. Quando foi informada sobre o quadro do menino, a mãe se desolou: “a pediatria era no sexto andar, acredito que os seis andares ouviram os meus gritos, meu choro… ninguém me continha”.

Protocolo médico

Não existe um protocolo hospitalar, propriamente dito, apenas para informar os familiares sobre um óbito perinatal, segundo a pediatra neonatal do HUSM, Roseli Henn. Contudo, há uma série de ações, não obrigatórias, que a equipe médica costuma realizar prezando o zelo para com os familiares. O óbito é informado pela equipe em um ambiente secundário. Em seguida, são oferecidos a ida até o leito para ver o bebê, o pegar no colo, a opção de gravar alguma digital, ou outro registro, e a oportunidade de vesti-lo com alguma roupinha da preferência.

A pediatra ressalta que, durante a estadia do neném na UTI neonatal, nenhuma informação sobre a gravidade do caso pode ser omitida. Apesar de a maioria dos casos não evoluírem ao óbito, é necessário que se oriente sobre a possibilidade. Em situações de extrema emergência, como em um quadro de evolução para uma paralisia cerebral, é recomendado que a equipe dos cuidados paliativos seja acionada para comunicar aos pais sobre o que, de fato, está acontecendo.

Em situações de falecimento intrauterino, acima de 20 semanas de gestação, é realizado o parto vaginal ou o parto cesáreo, de forma cirúrgica. Conforme a enfermeira obstétrica do HUSM, Amanda Zubiaurre de Barros, a escolha do parto baseia-se em uma série de fatores: é preferível que seja realizada a indução ao parto normal, ou de forma espontânea. Caso a mulher tenha cesarianas anteriores ou algo que contraindique o parto vaginal, opta-se pelo método cirúrgico.

É ideal que em todo parto haja um acompanhante – companheiro, familiar ou amigo – de escolha materna, para notar as ações do obstetra e do pediatra, em casos de complicações durante a operação, como asfixia (mais comum), visto que a mãe se encontra em situação vulnerável. Ter a certeza de que foi realizado o possível para reanimar o recém-nascido, porém sem resultado, facilita a compreensão. Além disso, caso não haja alguém presente, a mãe terá que ser informada sobre o óbito sozinha.

Tabu

“Você é jovem, terá outros filhos”, “quem sabe você não seria uma boa mãe”, “foi a vontade de Deus”. Esses são exemplos de comentários que as mães ouvidas nesta reportagem relataram ter ouvido de familiares, amigos, conhecidos, e que tiveram impactos negativos ao invés de confortar. A psicóloga Janete Judite De Conti explica que existe uma dificuldade na sociedade em falar e entender o luto perinatal.

Depressão e síndrome do pânico foram citadas pelas mães como consequências do vivenciado. Tanto Jeniffer quanto Jaqueline e Bruna buscaram acompanhamento psicológico para expressar a dor e criar novos sentidos (existenciais) à experiência da perda e do sofrimento. O HUSM oferece atendimento psicológico e assistência social para mães e pais durante a internação da criança e após o óbito, conforme a enfermeira obstétrica Amanda Zubiaurre de Barros.

O suporte emocional e os vínculos saudáveis são necessários para que a mãe possa realmente sentir a ausência, caso contrário, o luto pode se tornar silencioso e negado, podendo evoluir para um luto complicado, segundo a psicóloga. Pela resistência que algumas pessoas e famílias têm em entender o fato da perda perinatal como um luto, cria-se uma barreira ou impedimento para que o outro possa sofrer e viver sua dor. Com isso, o sentimento acaba sendo reprimido e, internamente, devastador, complementa a psicóloga.

Segundo o relato das mães, os comentários religiosos feitos em redes e círculos sociais, na tentativa de acolher, provocaram revolta e descrença. Frases como: "Vivi uma situação parecida, mas graças a Deus meu filho sobreviveu” provocaram em Jeniffer e Bruna inúmeras revoltas contra suas crenças divinas. “Por que Deus ajudou essas crianças e o meu filho não?”, indagou-se Bruna ao relatar não entender como o amor e a piedade podem se  transformar em preconceito e críticas. 

Dor transformada em ativismo

Nas redes sociais, Bruna recebeu mensagens de mulheres que haviam passado por situações semelhantes. A partir disso, ela buscou engajar-se na causa e lutar para que casos como o de Vicente não se repitam. “O amor e a energia da minha maternidade foram para o ativismo. Vivi minha maternidade nas ruas, por meu filho e pelas crianças que virão.”, destacou a mãe. 

A ONG Amada Helena, de Porto Alegre, realiza projetos focados na transformação social acerca do luto parental. Entre eles, uma cartilha de orientação, com instruções sobre o que é positivo e o que é negativo de se dizer aos pais que perderam seus filhos recentemente, para não causar uma reação contrária ao seu objetivo: acolhê-los na dor.

Para mais informações sobre a ONG, acompanhe o Instagram: @ong.amadahelena ou visite o site: amada-helena.org

Reportagem:  Gabriela Wohlenberg e Nathalia Espindola

Ilustração: Andressa Gonçalves

Galeria: Arquivo pessoal de Bruna Fani

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/maternidade-nas-midias-entre-a-critica-a-romantizacao-e-a-pressao-social Fri, 06 May 2022 14:15:14 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9226 Depois do nascimento da segunda filha, há cinco anos, Milena Freire se deparou com um dilema: a vontade de voltar ao trabalho e o sentimento de não se sentir preparada para o retorno. Ela é pesquisadora no campo da Comunicação, coordenadora no Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM) e docente do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no curso de Publicidade e Propaganda. Diante do impasse, ela usou suas redes sociais digitais para compartilhar o misto de sentimentos: “Eu escrevi um post em que coloquei algo do tipo: ‘não tá tudo bem, não sei se quero voltar, eu não estou pronta, mas ao mesmo tempo eu quero’”, conta.

Captura de tela de post do Facebook em formato vertical. Na parte superior, fotografia circular ao lado do nome "Milena Freire" em azul. Abaixo, texto em preto: "Eu não estou pronta. Amanhã é o meu último dia de licença maternidade (+ férias). Foram precisamente 228 dias que tive para me renovar como mãe e como mulher. Tenho consciência do meu privilégio em acompanhar integralmente os primeiros meses da Nina. Mas isso não me tira do pensamento a intranquilidade a que são submetidas as mães, sejam elas trabalhadoras do mercado ou do lar. A maternidade nos faz experimentar os sentimentos mais ambivalentes: força/cansaço; alegria/tristeza; companhia/solidão; coragem/insegurança. A licença, nesse contexto, parece o momento "legal" que lhe foi destinado a viver e ajustar todos os sentimentos, além dos cuidados objetivos que o bebê precisa. Como se todo o restante da vida ficasse parado nesse período ou como se ela voltasse ao "normal" após sua passagem. Nos primeiros meses da maternidade, cada demonstrava do desenvolvimento do bebê nos faz sentir alegria e orgulho, na mesma medida em que a soma de cada nova tarefa traz uma angústia que parece incompreensível aos olhos de quem vê de fora. Fralda, sono, peito, banho, mamadeira, roupa, remédio, médico, vacina, brinquedo, estímulo, choro, satisfação. Tudo se soma ao que já existia antes, mas não tem a mesma cara. Foi preciso administrar o que de alguma forma mudou com a chegada da Nina: a casa, a relação com o marido, com o próprio corpo, com o filho que virou "mano" (e que sentiu ciúmes). Quantas vezes achei que não conseguiria dar conta. Quantas efetivamente não dei. O que mais me inquieta, de fato, é saber que a maior parte destas preocupações e expectativas são criadas. Por mim e pelo entorno. E o que é mais intrigante: não se fala sobre isso. A maior parte das mães (para não dizer todas), vive estes sentimentos mas não se encoraja a falar do que lhes fragiliza. Somos estimuladas a sustentar a ideia de que tudo está maravilhoso e sob controle. Para mim, o momento de voltar ao trabalho, retomar a rotina sem que nada (nem eu mesma) seja como antes, faz abrir um abismo. Uma série de dúvidas, inseguranças, cobranças desorganizam (um pouco mais) a cabeça e o coração. É hora de saber dividir o tempo, a atenção, de fazer um encaixe entre as novas e as velhas tarefas e preocupações. O sentimento (e a certeza) de que será necessário estar em falta com algo/alguém por vezes me desconforta. Olho para Nina, tão doce e tranquila, e penso que ser mar de uma menina pode ser ainda mais desafiador. Talvez eu precise lhe mostrar ao longo da vida que não é possível nem necessário ser "super" ou "dar conta de tudo". Mas que podemos ser "o melhor possível", com todo o afeto e intensidade que desejarmos empenhar em cada relação, seja como mãe, como esposa, como filha, como amiga, como profissional ou como dona-de-casa. Que venha a segunda-feira. Eu não estou pronta. Mas talvez não precise mesmo estar.
Captura de tela de post de Milena Freire

Sobre a repercussão, Milena comenta que um dos pontos que chamou a atenção é que só as mulheres da sua rede comentaram a postagem. O outro ponto foi a ambivalência desses comentários: “algumas se identificaram e outras tinham o discurso de que ser mãe é padecer no paraíso”, relembra. A partir disso, a pesquisadora percebeu a necessidade de discussão da intersecção entre maternidades e mídias.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida em tons de azul e verde turquesa. No lado direito da imagem, tela vertical de seleção de foto do Instagram. No centro superior, fotografia de uma mulher com um bebê recém-nascido no colo. A mulher tem pele branca, tem cabelos escuros, ondulados e curtos; ela sorri amplamente; veste regata branca. O bebê veste roupa e touca verde turquesa, e uma chupeta da mesma cor. O fundo da imagem é verde turquesa. Na parte superior da foto, o texto "Nova publicação". Na parte inferior, sobre fundo branco, o texto "galeria", e, abaixo, oito fotografias de diferentes ângulos do bebê dispostos em duas fileiras. No centro esquerdo da ilustração, atrás da tela, a mesma mulher, de olhos arregalados, cabelos despenteados, com alguns fios para cima. O bebê está com a boca aberta. Acima e abaixo, recortes de seis comentários: "Realidade de praticamente toda a mãe :)"; "Tá cansada? Ninguém pediu pra nascer?"; "Texto maravilhoso"; "Como eu amo esses textos"; "Tá reclamando por que? Não quis ser mãe?". O fundo é cinza escuro.

No próximo domingo (08), ocorre o Dia das Mães, e, em referência à data, a Revista Arco entrevistou Milena Freire para falar sobre sua pesquisa e sua relação com a maternidade, e de que forma ela se intersecciona com as mídias. Confira:

Arco: Por que a escolha da maternidade como temática de estudo?

Milena: Essa motivação veio a partir da minha experiência pessoal. Mais do que a temática de estudo, acho que a maternidade implicou em uma posição mais afinada e em um reconhecimento da necessidade do estudo e do engajamento feminista. Foi a partir do reconhecimento das desigualdades que me eram postas - e do reconhecimento da existência dessas desigualdades na vida de outras mulheres - que, há treze anos, me coloquei de modo mais próximo e hoje me reconheço como uma mulher e uma pesquisadora feminista. Embora reconhecesse a necessidade de pensar e refletir sobre as desigualdades, foi a experiência da maternidade que me colocou nesse lugar. 

No momento em que ingressei no Programa de Pós-Graduação (Poscom) como docente, apresentei o projeto para ingressar no PPG. Eu já tinha feito, na minha pesquisa de doutorado, um trabalho que falava sobre gênero e desigualdade, mas a partir de uma perspectiva do trabalho feminino, interseccionado por questões de classe social e por questões que observam o trabalho desde o mercado até o trabalho doméstico. Conforme fui concluindo a tese, essas questões da maternidade se apresentaram entre as minhas entrevistadas que eram mulheres de classe popular. Aí eu parti para o reconhecimento da maternidade como um trabalho.

Acho que isso foi algo que conjugou meus interesses anteriores, de observar questões relacionadas ao trabalho, mas de entender que a maternidade inclui uma série de demandas que são colocadas para as mulheres de modo cultural, histórico e social e que, como são atravessadas pela intermediação de questões como afeto, não são reconhecidas como um trabalho. São colocadas como um destino, um prazer, um desígnio de Deus, mas não são vistas como trabalho.

O meu projeto trabalha as representações da maternidade nas redes sociais. Desde a última década, nos vemos performando ou construindo uma parte importante da nossa sociabilidade a partir das redes sociais digitais. A maternidade, nesse caso, também está bastante implicada no processo, na medida em que se sugere ou se exige das mães que compartilhem essa experiência majoritariamente de modo positivo. Eu me vi pessoalmente demandada e implicada a refletir sobre isso.

Descrição da imagem: ilustração quadrada e em tons de azul e verde turquesa de uma mulher em primeiro plano. Ela tem pele branca, cabelos escuros, curtos e levemente ondulados, expressão facial tranquila, faixa etária em torno de quarenta anos. Tem olhos esverdeados, sobrancelha fina e escura. Sorri levemente. Usa camiseta azul marinho. O fundo é verde turquesa.
Milena Freire.

Arco: Qual é o maior desafio de pesquisar a maternidade?

Milena: Eu acho que o primeiro desafio é sair do circuito materno, porque a maior parte das trocas que consigo estabelecer no campo de pesquisa são com outras pesquisadoras mães. A maternidade parece, mesmo dentro do campo do feminismo, um assunto menor, doméstico, relacionado ao afeto, ou seja, individual. Um dos pareceres sobre o meu projeto dizia para tomar cuidado para que o projeto não fosse uma questão pessoal, como se a pesquisa não pudesse ser política. Eu, particularmente, me vi envolvida e estimulada a pensar sobre esse tema a partir da minha experiência. Mas não quer dizer que somente pessoas que têm a experiência materna possam falar sobre. A maternidade é uma questão da sociedade.

O principal desafio de pesquisar a maternidade é o tanto que esse tema é colocado como menor, como algo que é do interesse apenas de quem está vivendo. E não pode ser. A maternidade é uma questão política.

Nós como sociedade precisamos continuar existindo. Esse é um grande mérito do neoliberalismo: entregar para a mãe ou para a  mulher a ideia de que a maternidade é uma escolha, logo, é um problema da mulher. Isso tudo é uma falácia. Nós lidamos, na nossa sociedade machista e patriarcal, com uma maternidade que é compulsória. Muitas vezes, as mulheres não escolhem ser mães, nós vivemos em uma sociedade cujos preceitos religiosos e legais não nos permitem interromper uma gravidez. Então a maternidade não é uma escolha. Vivemos em uma sociedade em que a paternidade pode ser negligenciada, basta levantarmos dados estatísticos da quantidade de filhos que não têm o registro paterno [segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 34 milhões de mulheres são chefes de família no Brasil]  e tantos outros que não têm os seus pais próximos no processo de educação. Nesse contexto, quando falamos da pesquisa da maternidade, se diz que isso é coisa de mulherzinha, de mãezinha. Do ponto de vista da pesquisa, se vê que, mesmo dentro dos estudos feministas, não existe um espaço para discutir as questões de maternidade. A minha pesquisa, do ponto de vista teórico, é filiada ao feminismo matricêntrico, de uma pesquisadora canadense chamada Andrea O'Reilly, que diz que a maternidade é um elefante na sala do feminismo. 

Arco: Quais são as principais características da intersecção entre maternidades e mídias? 

Milena: Como uma pesquisadora do campo dos estudos culturais e que tem foco voltado ao que as pessoas fazem com aquilo que elas lêem, consomem, produzem e projetam nesse grande campo comunicacional, meu foco de pesquisa é voltado para entender como as mulheres se relacionam com essas representações de maternidade que elas consomem, mas que elas também produzem. Essas representações são distintas e por vezes antagônicas, às vezes falamos da romantização da maternidade, do que se fala e do que se espera de uma mãe, de que ela também reforce a perspectiva de uma experiência transformadora, de um amor incondicional e assim por diante. Mas, por outro lado, existem outros discursos que fazem esse questionamento. Nós, como partícipes desse grande processo que são as redes sociais digitais, construímos a nossa própria subjetividade materna à medida que partilhamos dessas experiências. Existem pesquisas muito interessantes que vão falar sobre as representações da maternidade na mídia específica e dirigida para as mães, que são os blogs maternos, as revistas, programas, documentários e séries específicos: são saberes quase disciplinares, que vão reportar o saber médico, os grandes especialistas que vão dizer para mãe o que e como se deve fazer alguma coisa. Podemos ver muitas representações da maternidade na publicidade, nas artes e em várias outras intersecções sobre as quais podemos pensar o modo a partir do qual entendemos o que é ser mãe e como ser mãe, que está, muitas vezes, sustentado ou reforçado pela mídia.

 

Arco: No artigo ‘Mãe é mãe, né pai?’, usa-se a expressão ‘maternidade opressora’. É possível estabelecer, na sociedade de hoje, uma maternidade que não seja opressora?

Milena: Sim, é  para isso que a gente batalha, mas isso não quer dizer que seja fácil. A ideia da maternidade opressora é trabalhada pela Andrea O'Rilley no sentido de entendermos a maternidade como uma opressão adicional às mulheres. Por isso que ela reivindica que devemos observar, no estudo do feminismo, a maternidade no centro da discussão. Existem as opressões que são vividas pelas mulheres e existem as opressões que são vividas pelas mulheres que são mães. Quando eu falo de uma opressão adicional, trata-se de um atravessamento. Pensar nas interseccionalidades não significa pensar em quem é mais oprimido. Não é um concurso, não é um somatório que vai dizer quem é mais oprimido, mas são opressões que precisamos pensar de acordo com o contexto e a realidade. As mulheres mães de classe popular passam por opressões e dificuldades diferentes daquelas mulheres que são mães de classe média, entre outros exemplos. Eu acho que é possível a gente pensar em uma maternidade que não é opressora, mas dentro de um contexto bem específico. Em um contexto social amplo, infelizmente não.

A maternidade é opressora porque restringe uma série de cuidados e expectativas à figura da mulher mãe. Mas por que a maternidade pode não ser opressora? Porque a maternagem não é uma condição específica da mulher.

A maternagem é o conjunto de atividades culturalmente atribuídas à mulher, que são relacionados a uma criança para sua educação e para o seu desenvolvimento. Se a maternagem for compartilhada e reconhecida como uma questão social, a maternidade deixa de ser opressora.

Arco: O que definiria a maternidade patriarcal?

Milena: A Andrea O'Reilly nos faz uma contribuição a partir de dez pressupostos construídos na sociedade patriarcal:: princípio da individualização, da biologização, da essencialização, da privatização, da naturalização, da normalização, da especialização, da intensificação, da idealização e da despolitização. São pressupostos que vão dizer que é a mulher que performa a maternidade e que a mulher que é mãe sabe fazer melhor. Isso é um conceito, mas eu posso observar a maternidade a partir de várias outras lentes. A construção da maternidade patriarcal se dá dentro do que é reconhecido como pressuposto básico da maternidade na nossa cultura. É interessante e é difícil enxergarmos uma maternidade que não seja patriarcal, porque isso está dentro da cultura, mas conseguimos observar como esses preceitos aprisionam a mulher. À medida que esses problemas se tornam evidentes, conseguimos desmistificar determinadas questões e dizer ‘olha, aqui está o momento em que eu me torno oprimida por esse patriarcado’.

Arco: A maternidade é permeada de desigualdades de gênero, padrões e pressões sociais. De que forma essas questões que permeiam a maternidade reverberam nas redes sociais digitais?

Milena: A maternidade romantizada não aparece como uma opressão, muito pelo contrário. Ela aparece como uma dádiva, como a melhor experiência do mundo. Parece até um contrassenso. Cadê a opressão, se está sendo dado a ela a melhor experiência que se pode ter? Mas existe uma série de outros discursos que circulam na rede que tem demonstrado essas opressões, que é aquilo que vamos denominar de maternidade real. Existem perfis que precisam ser observados, o da Andressa Reis é muito interessante: ela é uma mulher negra de classe popular, da periferia do Rio de Janeiro. Ela faz um questionamento muito interessante sobre as posições que são colocadas para as mulheres que são mães. Ela consegue criticar e fazer comparativos a partir de cenas do cotidiano. É um conteúdo que extrapola as redes e circula entre as mulheres, que começam a se identificar. É interessante esse movimento. Quanto mais damos visibilidade, mais as mulheres se veem identificadas. Em 2020, nós fizemos um questionário com mais de 2000 respostas para a pesquisa “Maternidade e uso das redes em tempos de pandemia”, do Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM): por um lado, 80% das mulheres que são mães afirmaram que leem e consomem esse material que critica e que questiona determinados aspectos da maternidade. No entanto, uma parte considerável delas afirmou que não se sente confortável para repostar ou produzir material com esse conteúdo. Isso é interessante porque demonstra a existência dessa engrenagem:

 Na mesma medida em que essas mulheres consomem, leem e se interessam por esse questionamento da maternidade, elas não se sentem à vontade para expôr a crítica nas suas páginas pessoais. Em alguma medida, elas sabem que, se colocarem essa crítica nas suas páginas, vão ter que enfrentar a opressão da maternidade patriarcal.

Mas, ainda assim, consumir esse material já é um movimento importante. A  crítica está circulando e as mulheres, em alguma medida, podem se sentir aptas a construir o discurso e a crítica nas suas rotinas. Isso tem um valor significativo e precisamos reconhecer como uma prática desse movimento.

Descrição da imagem: fotografia horizontal e colorida de uma mulher e duas crianças. No centro, mulher de pele branca, cabelos castanho claros, curtos e lisos levemente ondulados, tem olhos escuros, algumas rugas e sorri amplamente; veste casaco escuro e lenço xadrez em tons terrosos. Na esquerda, menina de cinco anos, de pele branca, cabelos loiro escuros e lisos, olhos escuros; ela veste um moletom cinza claro com uma borboleta dourada. No lado direito, menino de em torno de dez anos, tem pele branca, cabelos loiro escuros e ondulados, olhos escuros; veste moletom preto. Ao fundo, estante com livros.
Milena Freire e os filhos, Nina e Tomás.

Arco: De que forma os perfis em redes sociais digitais que contestam  os papéis de gênero e a maternidade enquanto instituição podem contribuir no debate além de fazer circular a crítica?

Milena: A pandemia elucidou e demonstrou que estamos atravessando uma crise do cuidado, e ela se intensificou a partir da pandemia. Naquele momento em que estávamos em isolamento, em que a casa se tornou o principal espaço de sociabilidade e de cuidado, foram as mulheres que mais foram sobrecarregadas, tanto no cuidado com os filhos como com o cuidado com o ambiente doméstico e com os próprios familiares. A ideia do cuidado ultrapassa o cuidado com os filhos e ela vai até o cuidado com toda a família. A crise do cuidado fez eclodir coletivos maternos, que se constituem e se fortalecem a partir das redes. Eles se consolidam e se juntam para reivindicar políticas públicas de combate a essas desigualdades. Dentro do ambiente universitário, as mães que mais sofreram com a pandemia são as estudantes que precisaram manter sua rotina de estudos e, por muitas vezes, perderam os seus benefícios socioeconômicos e não tinham onde deixar os seus filhos em creche ou em escola. Além disso,  há algo que eu acho que é interessante pensarmos no que diz respeito aos leitores da Arco: nós não temos um respaldo substancial que dê conta das demandas das mães estudantes. Para mães estudantes, não há licença maternidade - é um período de afastamento tal como uma licença de exercícios domiciliares. Mas esse filho continua adoecendo, precisa ir ao médico. Quando essa estudante mãe precisa faltar, ela precisa contar com a boa vontade dos professores. Nós precisamos de espaços em que essas mães possam deixar seus filhos quando precisam fazer um trabalho coletivo. É a partir desses coletivos maternos que as mães se juntam para falar sobre suas questões e para reivindicar a maior parte dos seus direitos. 

Arco: Como se constitui a representação da maternidade pela mídia hegemônica? 

Milena: A mídia hegemônica tende a não fazer maiores questionamentos. Não é ela que propõe desestruturar o que está posto. Só acontece quando já é questionado na sociedade. A mídia hegemônica vai dar conta de determinadas pautas, e a telenovela é uma excelente representação para isso. Não estou dizendo que não é importante que a mídia hegemônica faça esse questionamento, mas ela amplia um movimento que já está fundado na própria sociedade.  A publicidade não consegue fazer isso, nunca conseguiu e não sei se ela está interessada em fazer. O máximo que ela vai fazer é colocar a dupla maternidade, colocar mulheres negras no comercial, mas o pai continua aparecendo como um sujeito coadjuvante, como aquele que brinca ou como desastrado. Ele não aparece como alguém que exerce a maternagem. O humor é usado como um elemento sofisticado para dizer e reiterar isso, e acaba por favorecer uma lógica que é nociva. Existem representações de desconstrução dessa mídia hegemônica, mas elas são tímidas. Eu vejo como um movimento que já é pulsante na própria sociedade. A mídia especializada e o cinema conseguem questionar mais. Mas, se olhar para o jornalismo, para a publicidade e para a telenovela como discursos hegemônicos, o que mais vemos é o reforço do padrão que oprime as mulheres. 

Arco: Qual o espaço que ocupa a romantização da maternidade nessas diferentes mídias? 

Milena: É o maior espaço. Eu acho que o que a gente tem visto nos últimos anos é uma quebra. Quando entrevistamos as mulheres, elas reproduzem isso, elas dizem que o laço entre a mãe e o filho é diferente porque a mãe é que gera desde a barriga. O espaço é predominante e o questionamento é mínimo. Precisamos pensar sobre isso, inclusive como esse questionamento aparece. Na nossa configuração social e política, o jornalismo às vezes traz o discurso de protagonismo de famílias monoparentais e das mulheres chefes de família como se elas estivessem protagonizando uma revolução. Isso aparece como positivo, mas não se descortina. É um grande problema social que está posto. Ou temos um discurso absolutamente nocivo da mídia, ou um discurso que é sustentado e que circula na sociedade e que se o jornalismo não tomar conta e não cuidar com o que fala, acaba por reforçar e reproduzir como uma verdade.

Falar sobre maternidade é também falar sobre uma estrutura social mais ampla que condiciona ou que coloca a mulher em um espaço difícil. 

Expediente:

Entrevista: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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A Paleontologia é um campo tradicionalmente reconhecido como masculino em todo o mundo. Uma forma de demonstrar isso é bem simples: quando pesquiso o termo no Google Imagens, o algoritmo mostra principalmente homens em campo - mulheres demoram a aparecer nos resultados da busca. Ou seja, influenciados pela representação midiática, associamos a profissão a homens brancos (independentemente de sermos leigos ou escolarizados). Mas será que esse cenário condiz com a realidade da pesquisa paleontológica no Brasil?

Captura de tela de resultado de busca no Google, na aba imagens. A aba de busca tem o texto "Paleontologia". Abaixo, oito imagens em duas linhas. São quatro imagens de fósseis de dinossauros, um carta, de curso sobre Paleontologia básica, duas imagens de homens mexendo com fósseis e uma ilustração de um fóssil de lagarto com o título "Paleontologia: o que é?"

Em um resumo publicado em 2017 pelas pesquisadoras  Mell Siciliano e Jacqueline Leta, foi observado que, em trabalhos de autoria compartilhada na Revista Brasileira de Paleontologia, “praticamente para cada autor há metade de uma autora”. Essas informações reforçam a predominância de autores masculinos na área da Paleontologia no Brasil.

 

Outro exemplo é a história dos estudos de roedores no Brasil (área de Paleomastozoologia, na qual eu atuo), que iniciou no século 19, com os trabalhos de Peter W. Lund (1801-1880) e posteriormente com Herluf Winge (1857-1923), ambos naturalistas dinamarqueses. Na década de 1940, após um hiato nos estudos de roedores do Brasil, Bryan Paterson realizou algumas descobertas sobre o grupo de animais. Somente a partir da década de 1960, esses estudos se intensificaram, começando pelos trabalhos de George Gaylord Simpson (1902-1984), paleontólogo e evolucionista estadunidense. Na década de 1980, destacaram-se os trabalhos de Kenneth E. Campbell Jr. e David Frailey, do Museu de História Natural da cidade de Los Angeles. 

 

Atualmente, têm se dedicado ao estudo de roedores caviomorfos (roedores sul-americanos, como chinchilas e capivaras) os professores Ricardo Francisco Negri e Leonardo Kerber. Ou seja, até aqui, todos homens. Após quase dois séculos, eu sou primeira mulher brasileira a também me dedicar a esta área de estudos (em outros países, como na Argentina, existem mulheres paleontólogas que estudam roedores extintos, como  María Guiomar Vucetich, Michelle Arnal, María Encarnación Pérez, Myriam Boivin - francesa, mas atualmente trabalhando na Argentina, entre outras).

Fotografia horizontal e colorida de três mulheres agachadas sobre solo de terra vermelha. Elas vestem camiseta branca e calça preta, e chapéu de tecido bege ou boné branco. Mexem no solo com ferramentas como martelo, espátula e pincel de limpeza. Ao lado, uma bacia de plástico transparente. Ao fundo, é possível ver água.
Da esquerda para direita: Paula Dentzien Dias, Débora Diniz e Emmanuelle Fontoura. Arquivo pessoal.

O coletivo Mulheres na Paleontologia,  é composto por docentes, pesquisadoras e estudantes que atuam na Paleontologia brasileira. Foi criado em 2017, sob a coordenação da pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Annie Schmaltz Hsiou, a partir de denúncias de discriminação, violência e assédio relatadas por mulheres da graduação e pós-graduação. Em 2020, essas cientistas criaram o projeto de pesquisa ‘Perfil de Gênero da Paleontologia’, que tem o  objetivo de “realizar o levantamento do perfil de gênero na Paleontologia brasileira, compreendendo qual a sua diversidade atual e como esse perfil se alterou ao longo da história da Sociedade Brasileira de Paleontologia”. O projeto busca gerar “argumentos baseados em evidências para debates sobre a estrutura opressora do machismo na academia e no universo científico”, segundo consta nas redes sociais da iniciativa. Alguns dos resultados mostram que há uma diversidade muito grande na área paleontológica (49,4% homens, 47,8% mulheres, 1,9% não-binários, 0,5% homens trans, 0,2% mulheres trans e 0,2% agêneros). Entretanto, ainda há  predominância de homens quando comparamos gênero em cada área dentro da Paleontologia (Paleoinvertebrados: 57.1% homens, 42.9% mulheres; Paleovertebrados: 60.1% homens, 39.9% mulheres; Paleoicnologia: 60.5% homens, 39.5% mulheres; Paleopalinologia: 32.3% homens, 67.7% mulheres; Paleobotânica: 40% homens, 60% mulheres; Micropaleontologia: 42% homens, 58% mulheres; Tafonomia: 56.9% homens, 43.1% mulheres).

 

Recentemente, o coletivo publicou uma Carta Aberta da Rede Mulheres na Paleontologia - PaleoMulheres, em razão de um paleontólogo, servidor público e docente ter sido denunciado por assédio moral e sexual - fato que foi reportado no programa televisivo Fantástico. Nesta carta, as mulheres manifestaram seu repúdio e fizeram solicitações à Sociedade Brasileira de Paleontologia, além de se dispor para auxiliar as vítimas.

Fotografia horizontal e colorida de duas mulheres e um homem trabalhando sobre uma mesa branca. Na mesa, há pedaços de pedra, pedras dentro de plásticos, caixa de papelão, ferramentas como pincéis e pinças. As pedras com as quais mexem estão sobre almofadas. Os três tem pele branca, cabelos castanho escuros e lisos, presos em um coque. Vestem jaleco branco. As duas mulheres usam óculos. Ao fundo, prateleiras de alvenaria com cerâmica, em que estão depositadas caixas e variados ossos.
Da esquerda para direita: Débora Moro, Emmanuelle Fontoura e Yan Silva.

Maternidade e Paleontologia

A desconsideração da licença maternidade na aferição de produção acadêmica e científica era um fator importante na produção científica feminina. Apenas no ano de 2021, a plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou inserir os registros de períodos de licença maternidade no currículo. Até então, a qualidade e capacidade profissional do cientista, que é medido através da quantidade de publicações e atividades inseridas no Lattes, era mensurado de forma semelhante para homens e mulheres, desconsiderando que as mulheres teriam 120 dias ausentes das atividades acadêmicas por motivos intransferíveis, além de que elas têm que ultrapassar mais barreiras para estruturar suas carreiras do que homens, como dupla jornada, preconceito, competição e segregação. Uma pauta feminista e materna, que finalmente foi conquistada. 

 

Além de tudo que foi citado, a paleontologia possui a necessidade de saídas de campo para coleta de material (outras áreas científicas também têm essa necessidade, porém vou comentar sobre a área na qual eu atuo). Para além do deslocamento até o sítio paleontológico - que exige aptidão física para caminhar longas distâncias, desbravar mata fechada, escalar morros escorregadios ou lamosos -, a coleta de material fóssil necessita de força física para remover um bloco rochoso do chão e transportá-lo até o laboratório. Nesse cenário, o machismo é presente de diversas formas, seja no pensamento das pessoas de que esse é um “trabalho para homens” e que mulheres não são capazes de realizá-lo - portanto, preferem contratar homens para esse emprego; seja quando presenciamos homens constantemente interrompendo nossa atuação para “fazer um trabalho melhor”; ou até no conhecido “mansplaining”, em que homens tentam explicar algo que sabemos - e muitas vezes somos especialistas no assunto. 

Fotografia horizontal e colorida de seis pessoas. No centro, duas pessoas estão agachadas ao redor de um círculo na terra, em meio a uma estrada de chão. No círculo, há um fóssil. São dois homens, um de pele branca e outro de pele negra, que seguram marretas na mão. Outro homem, em pé ao lado, também segura uma marretinha. Na esquerda, mulher de pele branca em pé; ela está de costas, tem cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo; veste camiseta branca, calça preta e usa Chapéu de tecido bege. Está grávida e aponta o dedo para o círculo. Ao fundo, outra mulher, de pele parda, em pé, sorri. Estão em uma estrada de chão. O fundo é uma paisagem de campo, com gramíneas baixas e árvores ao fundo.
À esquerda, professora Paula Dentzien-Dias, grávida de sete meses, coordenando a coleta de pegada de dinossauro na Formação Guará. Imagem cedida pela Paula.

A maternidade ou a própria manutenção da família e da casa podem afetar a produtividade acadêmica das paleontólogas mulheres, uma vez que  algumas saídas de campos podem durar horas, dias ou semanas, o que pode ser um tempo longo para uma mulher que é mãe se ausentar de casa. Essa preocupação ainda não é tão comum para homens, pois eles costumavam ser moldados para se dedicar ao seu trabalho - e apenas isso. 

 

Para as paleontólogas realizarem as saídas de campo, é necessário encontrar um espaço seguro, um familiar ou uma amiga para deixar os filhos.  Os campos costumam ser  ambientes perigosos para uma criança. Ou seja, a situação exige uma rede de apoio, muitas vezes negligenciada. Tenho certeza que muitas mães já ouviram frases como: “por que resolveu ser mãe agora?”, “deveria ter se planejado melhor”, ou então “uma mãe ausente não é uma boa mãe”. São inúmeras críticas às mulheres cientistasque querem conciliar o trabalho e a família. 

“Uma vez feita a opção pela carreira científica, a mulher se depara com o conflito da maternidade, da atenção e obrigação com a família vis-a-vis as exigências da vida acadêmica. Algumas sucumbem e optam pela família, outras, pela academia, e um número decide combinar as duas. Sobre essas últimas, não é necessário dizer quanto têm que se desdobrar para dar conta não apenas das tarefas múltiplas, mas também para conviver com a consciência duplamente culposa: por não se dedicar mais aos filhos e por não ser tão produtiva quanto se esperaria (ou gostaria). (VELHO, 2006, p. xv, retirado de Silva e Ribeiro, 2014)

 

Para exemplificar, pedi à minha orientadora da graduação, a professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Paula Dentzien-Dias, que me enviasse uma foto de alguma situação relativa à maternidade, visto que ela recentemente tornou-se mãe do Vicente. Ela me enviou esta imagem, um frame de um vídeo para aula prática de uma disciplina de Icnologia atual e fóssil da Pós-Graduação em Oceanologia que ela ministra. Ela se deslocou até o local onde seria realizada a aula prática de campo com os alunos, se não estivessemos em pandemia, para fazer a gravação e levou o Vicente junto - e ele acabou aparecendo sem querer no vídeo. 

Fotografia vertical e colorida de um pedaço do chão. Há areia ao redor de um pedaço de fóssil branco. No canto superior esquerdo, sobre o fóssil, pedaço de pé de bebê.
Imagem cedida pela professora Paula Dentzien-Dias

O “Teto de Vidro”

A autora Londa Schiebinger utiliza a expressão “teto de vidro” para se referir, como metáfora, à “barreira supostamente invisível que impede as mulheres de atingirem o topo”, pois não existem barreiras físicas que explicam o porquê de as mulheres não conseguirem avançar  profissionalmente na mesma proporção que os homens.

 

Além disso, é válido destacar que a ciência ainda permanece com uma estrutura patriarcal, baseada em um “modelo masculino” de carreira, com valores e padrões também tidos como masculinos. Isso seria aquele modelo em que a ciência deve ocupar o tempo integral das nossas vidas, já que homens estruturalmente ainda não possuem a responsabilidade da casa e da família. Esse modelo dificulta e limita a participação feminina na ciência. As pesquisadoras Silva e Ribeiro escreveram um artigo intitulado “Trajetórias de mulheres na ciência: "ser cientista" e "ser mulher" no qual trazem a ideia de Fanny Tabak sobre a dificuldade de ser uma mulher cientista, ainda no século 21: “é muito mais difícil para a mulher seguir uma carreira científica numa sociedade ainda de caráter patriarcal e em que as instituições sociais capazes de facilitar o trabalho da mulher ainda são uma aspiração a conquistar’.” 

 

E talvez estejamos pensando: “como fazer para quebrar o ‘teto de vidro’”? Essa é uma pergunta que não tem uma resposta precisa, mas muitas atitudes que tomamos no nosso dia a dia podem influenciar na fragilidade que este vidro possui - e facilitar a sua quebra total no futuro. Por exemplo, podemos buscar exemplos de mulheres cientistas para mostrar o que é ciência; buscar parcerias femininas para trabalhos; incluir mulheres nas suas pesquisas; divulgar a ciência feita por mulheres e as próprias cientistas; dar oportunidades para mulheres na iniciação científica; respeitar o tempo e ter empatia por mães cientistas; mostrar para colegas quando eles têm uma atitude machista; introduzir na ciência uma perspectiva de gênero;  reforma curricular na ciência, abordando temáticas de gênero; entre muitas outras atitudes. A ciência não é neutra.

 

Dentro da paleontologia, é importante destacar algumas ações fundamentais: contratar paleontólogas e geólogas para trabalhos pesados e de campo; repreender quando ouvir alguma frase machista, como “preparar um fóssil exige delicadeza e, por isso, é um trabalho feminino”; não excluir mulheres das saídas de campos; não fazer comparações sobre capacidade e esforço físico entre homens e mulheres; ao presenciarem comentários ou piadas sobre uma mulher no campo, repreender imediatamente; não se oferecer para carregar alguma ferramenta, mochila e equipamento só porque é uma mulher; na dúvida, se ainda houver, trate sua colega da mesma forma que você trataria seus colegas homens. Nós não precisamos de ajuda, conseguimos fazer tudo sozinhas, sim! O que precisamos é de respeito.

Fotografia horizontal e colorida de uma mulher em frente a uma patrola. A mulher está de costas, tem pele branca, cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo. Usa Chapéu de tecido bege. Veste camiseta branca, calça preta e calçado marrom. A patrola é cinza, velha e com aspecto enferrujado, passa po uma estrada de chão. Ao lado esquerdo, três pessoas paradas olham para a patrola. Duas são mulheres e um é homem. O homem tem pele negra e as mulheres tem pele branca. Estão no acostamento, sobre gramínea baixa e acinzentada. O fundo é o céu azul.
Paula Dentzien-Dias (de branco), grávida de 7 meses, protegendo a pegada de dinossauro da patrola que estava passando. Imagem cedida pela pesquisadora.

“O preconceito de gênero, como produto social, cultural e histórico, que institui e determina constantemente uma imagem negativa e inferiorizada das mulheres, nem sempre se dá de forma explícita; muitas vezes, ele se dá de forma velada, sutil, e aí residem, justamente, sua força e eficácia.” (Silva e Ribeiro, 2014)

 

A seguir divulgarei o trabalho de algumas cientistas, paleontólogas e estudantes. Que seja uma fonte de inspiração às nossas meninas e mulheres para que consigam quebrar o “teto de vidro” e ocupar espaços que, por muito tempo,  foram ocupados por homens devido à disparidade de gênero. De antemão, peço desculpas às cientistas que não citei por mero esquecimento ou porque nossos caminhos ainda não se cruzaram. Todas vocês são importantes! Alguns textos foram retirados e adaptados dos currículos Lattes das pesquisadoras, outros do site do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM e outros, ainda, foram enviados pelas próprias paleontólogas. 

Paula Dentzien Dias: Professora associada da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com atuação no Programa de Pós-Graduação em Oceanologia e líder do Grupo de Pesquisa em Icnologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Icnologia (estudo de vestígios), Permiano, Jurássico, Quaternário, Bacias de Pelotas, Paraná e Parnaíba. Tem atuado na área de extensão e pesquisa, trabalha com icnofósseis, principalmente coprólitos (fezes fossilizadas), e já encontrou espécies novas de actinomicetos (bactérias)actinomisseti e os parasitas de tênia mais antigos de tênia, ambos em coprólitos! 

 

Aline Ghilardi: Paleontóloga com foco em Paleobiologia, Paleoicnologia e Osteohistologia de Vertebrados e atua na área de Divulgação Científica. Ela é criadora da rede "Colecionadores de Ossos", vinculada às iniciativas Science Blogs e Science Vlogs Brasil, e também realiza divulgação de forma independente em suas redes sociais. Atualmente, Aline é professora adjunta de Paleontologia no Departamento de Geologia e do Programa de Pós-Graduação em Geodinâmica e Geofísica (PPGG) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Annie Hsiou: Professora associada e livre docente junto ao Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), ligado à Universidade de São Paulo (USP). É membra efetiva da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) e foi diretora da SBP, ocupando o cargo de vice-presidente (gestão 2017/2019), além de ter sido 1ª tesoureira (gestões 2013/2015 e 2015/2017). Atualmente é a 1ª vice-presidente da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). Estuda morfologia comparada de lepidossauros fósseis (esfenodontes, lagartos e serpentes) através do Mesozóico e Cenozóico sul-americano. Também atua na compreensão e evolução da biota do Neógeno da Amazônia Brasileira da Bacia do Acre, com ênfase nas faunas de répteis, idade e resolução temporal do Mioceno do norte da América do Sul. É mãe de dois filhos e esteve de licença maternidade entre maio a outubro de 2014 e entre junho e dezembro de 2018.

 

Ana Maria Ribeiro: Bióloga/pesquisadora da Seção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul  (SEMA/RS), coordenadora do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/CNPq  e curadora da coleção científica

de Paleontologia no Museu de Ciências Naturais (MCN), editora da Revista Brasileira

de Paleontologia, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em

Geociências na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Programa

de Pós-Graduação em Sistemática e Conservação da Diversidade Biológica (SEMA - UERGS). Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas: sistemática de mamíferos e cinodontes, Triássico e Cenozóico. 

Elizete Holanda: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2011. Atualmente é professora associada do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua/UFRR) e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais. Atua principalmente nos temas da Paleontologia da Amazônia e Ensino em Geociências.

 

Marina Bento Soares: Professora associada Nível 3 do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e orientadora permanente do PPGeo - Patrimônio Geopaleontológico do Museu Nacional

e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional. Também atua como docente colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Geociências -PPGGeo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem experiência na área de Paleontologia (Paleozoologia e Paleontologia Estratigráfica), com ênfase em

Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas:

Morfo-anatomia, Filogenia, Histologia, Tafonomia e Bioestratigrafia de tetrápodes

fósseis do Permo-Triássico do Rio Grande do Sul. Sua pesquisa tem como foco principal

o estudo dos cinodontes não-mamaliaformes (Therapsida, Cynodontia), como

Exaeretodon, e paleohistologia de tetrápodes fósseis. 

 

Taissa Rodrigues (Mulheres na Paleontologia (@paleomulheres)): Professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2011, onde realiza atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. Orienta discentes de mestrado e doutorado em Biologia Animal no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGBAN) da mesma instituição. Possui graduação em Ciências Biológicas (bacharelado em Zoologia dos Vertebrados) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/2004) e mestrado (2007) e doutorado (2011) em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa tem como foco  a anatomia e sistemática de pterossauros e a evolução da biota do Cretáceo. Atua também nos temas da diversidade de gênero na paleontologia e tráfico de fósseis, além de realizar divulgação científica. Atualmente, é podcaster no “Cinema com Ciência”, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC)  e membra dos comitês de Assuntos Governamentais e do Prêmio Alfred Sherwood Romer da Society of Vertebrate Paleontology (EUA).

 

Ana Emilia Quezado de Figueiredo: Bióloga  pela Universidade Estadual do 

Ceará (UECE/2005), este em Geociências e paleontologia na Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/2009).  É doutoranda em Geociências e Paleontologia na UFRGS. Tem experiência em paleontologia, atuando  principalmente nos seguintes temas: Curadoria, Ensino de Paleontologia,

Icnologia de Vertebrados, Tafonomia de Vertebrados e Taxonomia de Peixes.

Carolina Saldanha Scherer: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente trabalha como professora adjunta na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na área de Paleontologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Mamíferos Fósseis, atuando principalmente nos seguintes temas: camelídeos fósseis, ungulados pleistocênicos e mamíferos fósseis.

Dimila Mothé: Doutora em Zoologia pelo Museu Nacional/Universidade Federal do

Rio de Janeiro (UFRJ),  e  Pós-Doutora em Paleoecologia na Universidade

Federal de Pernambuco (UFPE) e na Universidade Federal do Estado do Rio de

Janeiro (Unirio). Atualmente faz Pós-doutorado na Unirio com o estudo da

evolução e sistemática de Tethytheria. Tem experiência na área de Zoologia, com

ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas:

Proboscidea, Paleoecologia, Morfologia, Taxonomia, Evolução, Sistemática e

Biogeografia.

Estudantes do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia - CAPPA

Micheli Stefanello: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2015), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM e estudante de doutorado na mesma instituição. Desenvolve estudo sobre sistemática e anatomia de cinodontes Probainognathia. 

 

Tiane Macedo Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do

Pampa (Unipampa/2016), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade

Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e estudante de doutorado na

mesma instituição. Atualmente desenvolve estudo sobre sistemática e

anatomia de Archosauromorpha do Triássico Inferior. 

 

Emmanuelle Fontoura: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG/2019). Mestra (2021) e estudante de Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de cetartiodáctilos terrestres do Pleistoceno e paleoneurologia de cervídeos. Atualmente desenvolve estudos sobre roedores caviomorfos do Mioceno da Amazônia.

Gabriela Menezes Cerqueira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa/2017), mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas pela mesma instituição (2019) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Atualmente desenvolve pesquisa com o uso de proporções corporais como critério taxonômico para Pterosauria.

Débora Moro: Licenciada em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal Farroupilha – 55BET Pro São Vicente do Sul (IFFar-SVS/2019), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021), e estudante de doutorado na mesma instituição.  Atualmente desenvolve estudos  anatômicos e filogenéticos de novos espécimes de dinossauros sauropodomorfos do Rio Grande do Sul, dedicando-se também a estudos paleoautoecológicos dos primeiros dinossauros.

Tabata Freitas Klimeck: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2017). Estudante de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de Cingulata do Paleogeno da Bacia de Curitiba e da Fauna da Formação Guabirotuba.

Letícia Rezende de Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2019) e estudante de mestrado pelo Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Animal na mesma instituição. Desenvolve estudos na área de sistemática de Archosauria. 

 

Lívia Roese Miron: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de

Santa Maria (UFSM/2019). Estudante de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Comparada da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente

estuda a neuroanatomia de répteis rincocefálios fósseis do Triássico do Rio Grande do

Sul e viventes da Nova Zelândia. Recentemente foi aprovada no Doutorado em Biodiversidade Animal (UFSM). 

 

Estudantes do laboratório de Estratigrafia e Paleontologia - LEP

Lísie Damke: Bacharela e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021). Ao longo da graduação dedicou-se ao estudo morfológico de Loricata basais do Triássico e às atividades de extensão. Recentemente foi aprovada no mestrado pelo PPG Biodiversidade Animal (UFSM) e estudará dinossauros basais do Triássico. 

 

Franciele Fischer Ortiz: Técnica em Controle Ambiental pelo Instituto Federal

Farroupilha - 55BET Pro Panambi (IFFar/2019), licenciada em Ciências Biológicas pelo

mesmo 55BET Pro (2021). Pós-Graduanda em Docência no Ensino Superior pelo

Centro Universitário Leonardo Da Vinci - UNIASSELVI e mestranda pelo PPG em

Biodiversidade Animal da UFSM. Atualmente desenvolve estudos sobre registros de

Cingulata no Rio Grande do Sul.

 

Referências:

Casagrande, S. L; Schwartz, J; Carvalho, M. G. de; Leszczynski, S. A. 2005. Mulher e ciência: uma relação possível? Cadernos De Gênero E Tecnologia. ISSN: 2674-5704, v. 1, n. 4 

Mary Anning: como uma mulher pobre se tornou uma das maiores paleontólogas do mundo (socientifica.com.br)

Silva, F. F. da, & Ribeiro, P. R. C. (2014). Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher.” Ciência & Educação (Bauru), 20(2), 449–466. doi:10.1590/1516-73132014000200012

SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? São Paulo: EDUSC, 2001

VELHO, L. Prefácio. In: SANTOS, L. W.; ICHIKAWA, E. Y.; CARGANO, D. F. (Org.). Ciência,

tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: IAPAR, 2006. p. xiii-xviii.

 

Expediente:Texto: Emmanuelle Fontoura Machado, bacharela em Ciências Biológicas pela FURG, mestra e doutoranda em Biodiversidade Animal pelo PPGBA-UFSM;Ilustração de capa: Joana Ancinello, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;  Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/agosto-dourado-aleitamento-materno Mon, 30 Aug 2021 13:46:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8641 “O leite materno é a base da vida”. Essa frase é da professora Beatriz da Silveira Porto, do Departamento de Pediatria e Puericultura do Centro de Ciências da Saúde da UFSM. Para ela, que também é Coordenadora do Comitê de Aleitamento Materno do HUSM/UFSM, o leite materno é o melhor alimento para o bebê - mesmo prematuro, pois tem um grande poder para o desenvolvimento e é determinante na saúde do mesmo.  “É um alimento espécie-específico, aprimorado por milhares de anos para o filhote humano. É um alimento vivo, produzido especificamente para o bebê e, por isso, o mais indicado sob qualquer ponto de vista”, complementa. O leite materno está ligado ao desenvolvimento nutricional, metabólico, imunológico, motor e cognitivo.

Entre os benefícios do aleitamento materno desde os primeiros minutos de vida está a formação da microbiota intestinal, também conhecida como flora intestinal. Ela é um conjunto de microorganismos, formado de bactérias, que vivem e se desenvolvem no intestino, mas que são benéficas para a saúde humana e a influenciam do nascer até a idade adulta. A microbiota não existe no intra-útero, ou seja, dentro do útero da mãe, e começa a ser formada a partir do nascimento do bebê. “Ela começa a se desenvolver no momento que o neném nasce. Então aquele primeiro alimento que você coloca é aquele que vai dar a base para aquela plantação, e isso vai até o resto da vida”, explica Beatriz. 

Outra vantagem do leite materno como alimento principal é na prevenção de doenças. Isso acontece pela prevenção de gatilhos que podem ser ativados nos dois primeiros anos de vida de um ser humano. Estes podem ser de herança genética, que são maleáveis nesse período. Para Beatriz Silveira Porto, quando há um desbalance importante nesse início, há possibilidade de ativação desses gatilhos e, como consequência, problemas de saúde na idade adulta. Com a amamentação, a criança está mais protegida dessa ativação. Como exemplos ela cita a proteção contra obesidade, síndromes metabólicas, doenças cardiovasculares e diabetes. 

Além disso, o leite materno também ajuda no desenvolvimento cerebral e no aumento dos índices de quociente intelectual. É possível observar os pequenos progressos que a criança tem nos primeiros meses de vida, como a descoberta dos dedos, mãos e pés, os movimentos dos braços e pernas, o olhar atento para o mundo à sua volta. Com o passar dos meses, o bebê começa a segurar objetos, fazer sons e buscar a repetição dos sons que ouve. O ganho de peso também tem a ver com isso: “Nos primeiros três meses de vida, ela [a criança] ganha tanto peso, a velocidade de crescimento dela é tão grande que é como se a gente fosse de cinquenta para noventa quilos em três meses”, explica Beatriz.

Agosto Dourado e a livre demanda

Agosto Dourado é considerado o mês do incentivo ao aleitamento materno. A cor faz referência ao leite materno, avaliado como “alimento de ouro”, uma vez que tem tudo que o bebê necessita para um crescimento saudável. Além disso, a intenção é que haja incentivo ao aleitamento por livre demanda. 

O movimento é mundial, e o lema da Semana de Aleitamento Materno deste ano, que aconteceu de 1º a 7 de agosto, foi “Proteger o Aleitamento Materno: Uma responsabilidade compartilhada”. Paola Souza Castro Weis, enfermeira assistencial no HUSM e consultora em Aleitamento Materno, explica que o tema leva em conta que amamentar é um direito de todos. “O bebê que é alimentado no peito demanda mais, com certeza. A gente defende a amamentação por livre demanda, que é quando o bebê vai mamar sempre que precisar”, reitera. Ela expõe que, nesse sistema, a metabolização do alimento é mais rápida, assim como a evacuação. Por ser um alimento ajustado ao bebê, a metabolização é feita naturalmente e o estômago esvazia mais rapidamente. Por isso que um bebê mama em intervalos curtos, geralmente de duas em duas horas.

Beatriz Silveira explica que a livre demanda é fundamental, uma vez que está relacionada aos mecanismos de autorregulação do bebê e que são importantes também para a idade adulta. “Quando a criança tem esse sistema de autorregulação protegido nos primeiros meses, ela leva isso para a idade adulta, os distúrbios alimentares são mais raros, porque ela preservou esse sistema de autorregulação que também é da espécie”. Paola diz que é por esse motivo que a chupeta não é recomendada, uma vez que o exercício de sucção que deveria ser feito na mama é feito no bico artificial. Por causa do formato, o movimento não é o mesmo e, no caso da chupeta, é incorreto, o que confunde o movimento que deveria ser feito na sucção do leite do seio da mãe.

Quem determina a produção do leite materno é o bebê

A indicação profissional é de que o aleitamento materno se inicie em até uma hora após o nascimento, de preferência nos primeiros minutos de vida. Essa prática facilita a pega correta do seio da mãe, o que propicia que o bebê tenha mais agilidade em sugar o leite. “Logo após o nascimento, o bebê está alerta e se posicionará instintivamente, abocanhando corretamente o mamilo e a aréola, sendo muito importante para o sucesso do aleitamento”, explica Beatriz. A recomendação é de que ele saia do útero direto para o peito. Se houver banho e outros procedimentos antes, a criança poderá estar sonolenta e cansada, o que dificulta a pega correta e, logo, a amamentação, desde o início do processo. 

Em casos em que não há pega correta desde o início, a produção de leite da mãe pode cair e ser prejudicada por fatores como nervosismo e estresse. Marinez Casarotto, médica pediatra neonatologista e chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do HUSM, conta que a mãe produz o leite conforme a necessidade do bebê, e que a demanda muito frequente é mais intensa nos primeiros dias de vida. Já Paola Weis explicita que essa produção de leite materno é diretamente ligada à sucção, que precisa ser frequente no início para que a produção se ajuste. É como se fosse uma fábrica comandada pelo bebê: “o peito não é estoque, ele é fábrica, ele não tem que estar cheio para amamentar. Conforme amamenta, ele vai produzindo e alimentando o bebê”. Beatriz complementa a metáfora ao dizer que a fábrica trabalha sob demanda a partir dos sinais do mamar: é a sucção que ativa a produção de leite para a próxima mamada. 

A sucção gera impulsos sensoriais no mamilo e faz com que as terminações nervosas que ficam no seio levem os estímulos - ou “avisos”, para a glândula adeno-hipófise, que fica no cérebro, e é responsável por produzir e liberar a prolactina e a ocitocina, os dois hormônios da amamentação. A prolactina atua nas células alveolares mamárias, produzindo o leite; e a ocitocina ativa o reflexo da “descida” do leite, que é liberado nos ductos e seios lactíferos até os orifícios do mamilo, pelos quais o bebê suga. “Por isso que é importante que haja sempre a sucção, porque se a sucção parar, a fábrica vai entender que não tem mais saída, que o produto não tá vendendo mais, então não precisa mais fazer, né?”, detalha a coordenadora. Esse processo se relaciona com a autorregulação que, para Beatriz, é um dos mecanismos fantásticos do aleitamento.

Há casos, no entanto, em que a produção do leite materno cai ou cessa completamente. Um dos motivos, de acordo com as três profissionais, é quando não há sucção da mama, ou então quando os ductos lactíferos estão cheios, com muita produção, e esta não é liberada pelos seios e mamilos. Segundo Beatriz Silveira, a ausência da ocitocina também pode contribuir nesta interrupção da produção, e esta inibição pode ser por fatores como preocupação, estresse, dúvidas e até mesmo a dor. Beatriz destaca que a ocitocina é o “hormônio do amor”, uma vez que é favorecida quando a mãe está confiante, quando olha, interage e ouve os sons do bebê. “Por isso, se diz que a produção do leite materno decorre de uma complexa interação neuro-psico-endócrina, necessitando um olhar atento e amplo dos profissionais e da rede de apoio”. Ela salienta que todos os mecanismos de promoção, proteção e orientação ao aleitamento materno são importantes para a manutenção do mesmo a longo prazo. É a partir desse princípio que o Comitê de Aleitamento Materno do HUSM da UFSM atua.

A promoção do aleitamento materno é um trabalho multiprofissional

O Comitê de Aleitamento Materno do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) é um grupo multiprofissional que atua a partir de ações de promoção e proteção do aleitamento materno. Eles definem diretrizes, protocolos e fluxos dentro do HUSM, além de promover capacitações sobre amamentação tanto para as mães quanto para os diversos profissionais envolvidos. A equipe é formada por professores, enfermeiras (os), médicas (os), obstetras, pediatras, fisioterapeutas, fonoaudiólogas (os), psicólogas (os), assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, e também conta com o apoio de estudantes residentes, residentes médicos e multiprofissionais. 

Beatriz Silveira destaca que o processo da amamentação é amplo e não envolve apenas aspectos técnicos, mas também emocionais e fisiológicos. “A fisiologia do aleitamento envolve muitos aspectos emocionais. A própria estimulação dos hormônios da lactação dependem de disposições emocionais, também de anatômicas e fisiológicas”, comenta. O sucesso da amamentação envolve muitas etapas e, por isso, é importante que a equipe do comitê seja multidisciplinar. “São vários contextos, precisa, justamente, esse apoio mais multidisciplinar que enxergue toda essa integralidade, todos os aspectos em um contexto mais integral da saúde”, expõe. Cada um dos profissionais tem um ponto de abordagem e ajudam, a partir de seus conhecimentos específicos, para o sucesso da amamentação.

Uma das maneiras de atuação do comitê é a partir de capacitações que ensinam, para a mãe, a pega correta e os pormenores do processo, e para os profissionais do hospital, as necessidades de acompanhamento da execução da amamentação. Paola conta que a capacitação para os funcionários surgiu do comitê: “Mas não apenas aqueles que atuam diretamente com o aleitamento materno, a capacitação vai desde o porteiro até a copa, então afeta todos os profissionais”. A ideia é que todos saibam o que é melhor para a criança.

Outra função do comitê é por meio da extração do leite materno quando os bebês estão nas unidades de internação do HUSM - que incluem a Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal, o Alojamento Conjunto, a Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrico e a Unidade de Internação Pediátrica, seja por terem nascido prematuros, seja por terem alguma doença ou problema que necessite de mais cuidados. Nesses casos, não há possibilidade de amamentação no seio da mãe. A fim de não perder o contato com o leite materno, os profissionais do comitê auxiliam na extração do leite e administram ele ao bebê. Marinez Casarotto explica que é feita a oferta somente do leite fresco, in natura, em até 12 horas depois da extração, uma vez que ainda não há banco de leite no hospital.

Nem sempre a extração é possível, uma vez que muitas mães não são de Santa Maria e não têm condições de estar presentes no hospital cem por cento do tempo: às vezes tem outros filhos pequenos em casa ou não conseguem se deslocar até a cidade todos os dias, principalmente quando a internação é duradoura. Nesses casos, os profissionais precisam ofertar a fórmula láctea em substituição ao leite materno. Beatriz explica que há boas fórmulas lácteas disponíveis no mercado, alinhadas com o perfil de macronutrientes e micronutrientes do leite humano, mas que, ainda assim, as características nutricionais do último são superiores a qualquer fórmula. Por exemplo, as gorduras de cadeia longa presentes no leite materno são difíceis de mimetizar nas fórmulas, tanto na proporção quanto na especificidade. Com as fórmulas, nem sempre há a absorção de todos os nutrientes presentes pelos bebês, justamente por essa dificuldade de reprodução de todas as características do leite materno.

Paola revela que uma das conquistas do comitê é a necessidade de prescrição da fórmula láctea por um médico. “Antes a gente tinha a fórmula ali, disponível. Hoje ela não é mais disponibilizada, ela só é ofertada com prescrição médica”. Essa prescrição segue protocolos rígidos, que definem em quais situações há a prescrição dessa fórmula. A intenção é o incentivo ao aleitamento materno em todas as situações em que este for possível.

Além do comitê, o HUSM possui um Posto de Coleta, que permite a realização das coletas de leite das mães, do envase no lactário e da administração aos bebês internados - de cada mãe para seu bebê. O posto de coleta é vinculado ao Banco de Leite de Rio Grande. A diferença entre o primeiro e o segundo é que o banco de leite é uma unidade que faz todas as etapas do processamento, desde a promoção do aleitamento por meio das atividades de coleta, quanto do processamento e controle de qualidade do leite que é produzido nos primeiros dias após o parto. O posto de coleta não possui as fases de processamento e análise do leite; neste, o leite é coletado na mãe e administrado em seu bebê. Nos bancos de leite humano, cuja estrutura é mais completa, há a possibilidade de doação de leite de mães com excesso de produção para outros bebês que não os seus. O leite também dura mais tempo, já que é processado. 

Um dos próximos passos do Comitê de Aleitamento Materno do HUSM é a busca da instalação de um Banco de Leite Humano em Santa Maria. As profissionais entrevistadas contaram que é uma das prioridades do hospital, e que, para isso, há necessidade de investimento em equipamentos, materiais, profissionais e ampliação da área do atual Posto de Coleta. No entanto, devido à estrutura e às ações que já existem, é um objetivo palpável.

Expediente

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Eloíze Moraes estagiária de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/maternidade-no-lattes Thu, 06 May 2021 12:55:45 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=6592 Em abril deste ano, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou uma mudança significativa na plataforma do Currículo Lattes: uma seção para o registro dos períodos de licença-maternidade de pesquisadoras. Tal mudança tem como objetivo justificar os períodos de queda na produção científica por parte das pesquisadoras mães. A plataforma Lattes, mantida pelo CNPq, consiste em um ambiente virtual no qual são integrados dados curriculares, grupos de pesquisa e instituições em um único sistema de informações, o que resulta em um currículo acadêmico dos pesquisadores e pesquisadoras, o Currículo Lattes.

A adição desse registro na plataforma é fruto de um pedido, feito em 2019, pelo projeto Parent In Science, coordenado pela professora Fernanda Staniscuaski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O Parent In Science surgiu com o intuito de levar a discussão sobre maternidade e paternidade para dentro do universo da ciência do Brasil, e a luta por equidade para pesquisadoras (e pesquisadores) que tiveram filhos. O “evento da maternidade” pode desacelerar por um período a produção científica e afetar o currículo, o que gera desvantagem em relação a outros colegas ou possíveis concorrentes em, por exemplo, processos seletivos.

De acordo com a pesquisa “Mulheres e Maternidade no Ensino Superior no Brasil”, da mesma organização, a presença de mulheres na área científica brasileira sofre um efeito tesoura: conforme se avança no nível da carreira científica, reduz o percentual de mulheres. Na iniciação científica - primeira etapa de uma carreira de pesquisa e que acontece na graduação, 55% dos bolsistas são mulheres. Mas, quando se olha para as bolsistas de produtividade em pesquisa - etapa mais avançada da carreira científica, geralmente vinculada ao CNPq -, as mulheres são apenas 36% do total de pesquisadores.

A maternidade romantizada e a desigualdade de gênero

Milena Freire é professora do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, embaixadora do Parent In Science e coordenadora do grupo de pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades. A docente desenvolve uma pesquisa cuja temática central é voltada para observações da maternidade no Instagram e que visa problematizar a sua romantização. No estudo, busca-se reforçar que outras pessoas devem fazer parte do cuidado com as crianças, com serviços que podem vir a ser feitos por outras pessoas que não apenas a mãe. Essas problemáticas escancaram a desigualdade de gênero em todos os espaços, sejam eles familiares, de trabalho ou científicos. Para a pesquisadora, as redes sociais digitais são um espaço muito representativo na nossa cultura, no qual atuam valores, convenções e papéis sociais e a sua pesquisa visa demonstrar a apropriação de determinados valores pelas pessoas: “apesar de estarmos falando de um aparato técnico, o que na verdade a gente vê é como as pessoas se apropriam e fazem circular determinados valores. Então, no que diz respeito à maternidade, o que a gente vê é muito o ideal dessa maternidade, uma maternidade que a gente tá chamando de “romantizada”, mas que muitas vezes reforça o papel da mulher como principal cuidadora, como responsável”, conta a pesquisadora.

Além da docência, Milena Freire também é mãe pesquisadora, e dedica seu tempo entre ser professora da UFSM e mãe de Tomás, de 12 anos, e Nina, de quatro. Ela conta que o trabalho no Parent In Science se dá no sentido de sensibilizar as universidades e as agências de fomento públicas e privadas para a temática da parentalidade. Além disso, objetiva a consideração do tempo da licença-maternidade e do evento de ser mãe como algo que é significativo na produção das pesquisadoras. “Isso é uma busca que pretende impactar essa realidade que é vivida por essas mães em razão do trabalho que elas assumem a partir do momento que elas são mães.”

Apoio como elemento essencial

Mariana Fauerharmel tem 34 anos e é mãe da Maria Rita, de 17 anos, e da Helena, de dois anos. Também é doutora em Engenharia Florestal. Para ela, “ser mãe pesquisadora não é tarefa fácil, especialmente em um país como o Brasil, onde os pesquisadores não recebem a devida valorização, e quando esta função se soma à maternidade, as dificuldades aumentam”. 

A gestação da filha mais nova aconteceu durante o doutorado, em 2018. Mariana menciona que teve direito a quatro meses de licença maternidade. “Ao retornar do período de licença, entrei em processo de depressão pós-parto, que certamente foi agravado pela pressão e cobrança em função do doutorado”. Para Mariana, o apoio do orientador, da família, dos amigos e da própria UFSM, por meio de afastamento por motivos de saúde, foi fundamental para retornar às atividades posteriormente. 

A vida como equilibrista

Juliana Petterman, de 39 anos, é mãe do Moreno, de um ano. E também é professora no Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM e pesquisadora apaixonada pela área de Publicidade e Propaganda. “Ser mãe pesquisadora é ser uma grande equilibrista: é tentar ser mãe e ser pesquisadora da melhor forma, gerando a menor ansiedade possível. Isso porque é muito fácil de se deixar levar pela sensação de estar sempre em débito”. 

Ela relata situações em que sentiu que não foi uma boa mãe - quando respondia e-mails enquanto cuidava do bebê ou quando o pensamento voava para a lembrança da coleta de dados enquanto brincava com ele - ou que não foi uma boa pesquisadora - quando não conseguiu enviar um artigo para o principal congresso da área, ou quando atrasou a correção de textos de orientandos e orientandas. A docente menciona que precisou aprender a ser paciente consigo mesma: “Eu sempre fui apaixonada pelo meu trabalho e acabei trabalhando muito mais do que deveria, comprometendo inclusive minha saúde mental. A maternidade veio para me ensinar a eleger prioridades, para me ajudar a entender que eu não sou uma máquina e que é preciso mudar muitas coisas em relação ao modo como a maternidade é vista na universidade.”

Mãe pesquisadora X Pai pesquisador

As diferenças entre uma mãe pesquisadora e um pai pesquisador começam no tempo concedido para o período de licença: seis meses para a mãe, e de cinco a 20 dias corridos para o pai. Dessa forma, as obrigações da parentalidade e do cuidado com a criança iniciam de forma desigual e reforçam estereótipos de gênero. Milena Freire trouxe, durante a entrevista, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD, de 2019, anterior à pandemia. A pesquisa revela que, em média, no Brasil, as mulheres brasileiras usam 21,4 horas semanais no envolvimento com o trabalho doméstico, enquanto o tempo gasto por homens nas mesmas tarefas é de 11 horas por semana.

“Enquanto as mulheres estão trabalhando na casa ou cuidando das pessoas da casa, homens têm a possibilidade ou de descansar, ou de se aperfeiçoar, se dedicar mais ao trabalho remunerado e assim por diante. Então, essa desigualdade acaba se mantendo, e é por isso que a gente chama a dupla jornada como um conceito que é feminino. Não escutamos falar da dupla jornada do homem, porque nós temos a manutenção da mulher em casa”, explica Milena.

Para Juliana Petterman, a mãe pesquisadora já é vista de antemão como aquela que não conseguirá manter sua produtividade depois do nascimento do bebê. “Eu lembro que, antes de sair de licença-maternidade, uma pessoa, no contexto da universidade, me sugeriu que eu me desligasse do programa de pós-graduação, visto que minha produção cairia”. Mesmo com planejamento e consciência da queda de produção, julgamentos como os que Juliana recebeu são comuns no meio acadêmico. “Meu barrigão de nove meses - que eu carregava na ocasião deste acontecimento - era sinônimo de algo que me impediria de dar conta do recado. E, ainda que minha produção caia,  o ambiente da universidade deveria ser de apoio e não de pré-julgamentos ou de crítica. Dificilmente um pai pesquisador passaria por uma situação parecida com essa que relatei”, desabafa.

Mariana Fauerharmel diz que a principal diferença entre uma mãe pesquisadora e um pai pesquisador é a falta de tempo que as mães têm para a pesquisa. Para ela, “é muito difícil conciliar a maternidade e a vida acadêmica, além de tantas outras demandas que temos diariamente. Acredito que isso afeta diretamente a carreira de uma mãe pesquisadora”. Milena Freire, quando fala sobre essa diferença, relembra que, quando os homens se tornam pais, tornam-se os “provedores”, e por isso passam a se dedicar mais ao trabalho remunerado do que à família. “Parece um pensamento até arcaico, mas muito presente na nossa sociedade ainda hoje, e isso se dá no âmbito da academia também, porque nós não vemos, de modo geral, os pesquisadores diminuindo a sua produção acadêmica quando seus filhos nascem”.

Uma pesquisa da Parent in Science mostra, em estudo detalhado, o impacto da maternidade na carreira das mulheres. 78% das pesquisadoras são mães, e o nascimento do primeiro filho acontece, em média, dois anos e oito meses depois da contratação. Sobre os cuidados com os filhos, 54% das crianças têm como única cuidadora a mãe, contraste relevante contra as 34% das crianças cuidadas por ambos os pais. 

Juliana Pettermann foi mãe durante a pandemia: “eu senti muito a falta da rede de apoio nos primeiros meses de vida do meu bebê e hoje sinto muito a falta de ter um tempo exclusivo com ele e um tempo exclusivo para o trabalho. De ter limites. Hoje eu trabalho enquanto meu bebê dorme e nos turnos que revezo com meu companheiro”. Ela conta que a falta da rede de apoio e a pandemia, com todas as consequências que trazem, pode afetar também a capacidade de produção: “um exemplo bem concreto: se antes eu lia e corrigia cem páginas de uma tese em um dia, hoje eu consigo ler umas dez páginas. Outra coisa que percebo: às vezes as pessoas querem marcar uma reunião pela manhã e outra no turno da tarde. Para mim, isso é impensável”.

Muito mais que uma mudança no Lattes

Uma das maneiras de mensurar a carreira científica é pela taxa de produtividade, que leva em conta o número de publicações, ou seja, quanto mais publicações a pesquisadora faz em um ano, mais esse índice sobe. 

De acordo com pesquisa da Parent in Science, estima-se que a produtividade de mães pesquisadoras caia por até quatro anos após o nascimento do bebê. Por isso que a inclusão do período da licença-maternidade no Lattes é importante. “O levantamento do Parent In Science, que foi feito a partir de uma pesquisa estatística com mães pesquisadoras do Brasil inteiro, vem dar conta de que existe esse espaço, em que as mulheres, depois que são mães, param ou diminuem bastante a sua produção. Então, essa inclusão da maternidade no Lattes busca dar visibilidade da questão da maternidade e paralelamente na intenção de que seja incluída nos editais de fomento à pesquisa, seja de iniciação científica, no credenciamento em programas de pós-graduação, no caso das estudantes, e possa vir a ser considerado a maternidade um espaço de tempo que passa a ser contabilizado a mais na vida acadêmica dessa mãe”, diz a professora Milena. 

Para Juliana, “inserir a licença-maternidade no currículo é, para além de uma questão informacional muito importante, também um ato político.” Mariana concorda que a conquista é importante, uma vez que “muitas mães têm sua produtividade acadêmica afetada durante o período de licença e posteriormente também”. 

No entanto, mesmo que a conquista seja importante, ela ainda não é suficiente. É necessário avançar no modo de entendimento da maternidade e da paternidade. É importante pontuar que a maternidade não é o problema para a carreira dessas mulheres, mas sim o modo como a avaliação acadêmica e de produtividade é feita. Juliana explica que algumas possibilidades de mudança podem estar na concessão de licença-paternidade com o mesmo período da licença-maternidade, que os congressos e eventos científicos preparem-se melhor para receber pessoas com filhos, na discussão dos sistemas de avaliação e, inclusive, na diversificação das pessoas que avaliam. “Precisaríamos que a própria universidade fosse um lugar mais compreensivo com a parentalidade. Precisaríamos discutir o próprio produtivismo e o sistema de competição que faz parte da lógica da universidade, substituindo-o por uma lógica mais sensível e de cooperação”, exemplifica.

Mariana diz que a mudança é pequena, mas significativa, e que ainda há muito a avançar, e “isso só será possível quando nossa sociedade for mais justa, igualitária e menos machista. Felizmente, temos pessoas que lutaram pelos direitos das mães e mulheres pesquisadoras”. Ainda que a maternidade e a pesquisa são escolhas pessoais do âmbito das mulheres, elas são condicionadas também pelo medo do impacto da maternidade em suas carreiras. Ela conta: “o sistema nos pressiona por uma produtividade acadêmica muitas vezes abusiva e incompatível com todas as demandas da maternidade e da sociedade em que vivemos. Então nos resta a escolha: vida acadêmica ou maternidade? Aquelas que optam pelos dois certamente terão que abrir mão de algumas coisas”.

Juliana destaca que as dificuldades da maternidade não podem ser vistas como falta de organização e planejamento: “as pessoas normalmente ouvem as questões relacionadas à maternidade com a seguinte resposta pronta: ‘mas, então, por que teve filhos?’. Já imaginou se as mães fizessem uma greve? Ninguém mais nasceria e a humanidade acabaria rapidinho. Ainda mais agora, neste contexto pandêmico, que já morrem mais pessoas do que nascem”.

Como destacado pelas três pesquisadoras, a conquista da inclusão da licença maternidade no currículo Lattes é importante, mas não apaga as desigualdades de gênero da academia. A luta pela equidade na pesquisa científica deve ser fomentada através do debate e de ações concretas, objetivos que vão ao encontro do movimento proposto pelo Parent in Science. 

Expediente

Repórteres: Alice Santos e Samara Wobeto, acadêmicas de Jornalismo e voluntárias

Ilustração: Renata Costa, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Editora de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/maternidade-pandemia Fri, 08 Jan 2021 12:24:55 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=6357 Consequências do isolamento para a saúde física e mental de mães e bebês

Como é ser mãe em meio à pandemia? Só o fato de gerar um bebê, mesmo com os cuidados e as orientações do pré-natal, já provoca ansiedade. Imagina durante a maior crise sanitária do século XXI. Essa é uma das preocupações do projeto de pesquisa do grupo Exercício e Saúde Mental da UFSM, do Centro de Educação Física e Desporto, que conta com a participação de 65 mulheres.

O grupo de ensino e pesquisa, coordenado pelo professor Felipe Barreto Schuch, é conhecido por investigar os benefícios da atividade física para a saúde mental. No atual estudo, o foco é a alteração da rotina e as consequências na saúde física e mental das gestantes, bem como os comprometimentos no desenvolvimento motor dos bebês.

“Essa pesquisa é importante para pensarmos em estratégias de promover a atividade física, por meio de aconselhamento, orientações, escuta qualificada”, explica a co-orientadora da pesquisa, Ariadine Rodrigues, educadora física e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Física.

Conforme a pesquisadora Ariadine, gestantes e mães que ganharam bebê no último ano são convidadas a responder um questionário online. O instrumento de pesquisa identifica qualidade de vida das famílias, sinais de depressão e ansiedade das mães, cuidados e variedade de estímulos oferecidos às crianças na primeira infância. 

“Ao observar o número imenso de registros de recém-mães durante a pandemia, principalmente no Instagram, me questionei como seria vivenciar a maternidade na pandemia causada pelo Sars-cov-2 e os possíveis reflexos nos filhos e filhas”, conta a estudante Mayara Lindorfer, do curso de Fisioterapia, uma das idealizadoras da pesquisa.

Riscos da gravidez durante a epidemia do novo coronavírus

Segundo artigo publicado no periódico JAMA Psychiatry, a saúde mental materna é um termômetro da pandemia e soluções imediatas devem ser buscadas. Mulheres grávidas fazem parte dos grupos de risco da Covid-19, assim como idosos e pessoas com comorbidades, como diabetes, pressão alta e tuberculose. Durante a gestação, as mulheres ficam mais vulneráveis devido ao estresse, à mudança de humor e à ansiedade.

A pandemia trouxe novos fatores de preocupação, como o receio de contrair o vírus durante os procedimentos de rotina. Para que isso não ocorra, existem protocolos de biossegurança indicados para as instituições de saúde e recomendações, como as da Fiocruz, para que as gestantes sejam atendidas e recebam as orientações adequadas do pré-natal.

Ainda que os estudos acerca dos efeitos da Covid-19 em grávidas sejam recentes, sabe-se que gestantes são mais prováveis de necessitar cuidados intensivos no tratamento da doença - segundo revisão sistemática do PregCOV-19 Living Systematic Review Consortium  publicada no periódico BMJ.

Comorbidades pré-existentes, maior massa corporal e idade avançada são fatores que podem ameaçar as mães que contraem o vírus. Além disso, as gestantes infectadas podem ter parto prematuro ou  pré-eclâmpsia, complicação potencialmente perigosa, caracterizada pelo aumento da pressão arterial da gestante. Já os riscos ao bebê dependem da gravidade do quadro da mãe.

Gestante teve covid-19 antes de engravidar

A produtora de conteúdo Lauryen Américo deu à luz a Louise nesta quarta (6), com 38 semanas. Pouco antes de descobrir a gravidez, sentiu-se indisposta e ficou de cama por três dias. Ela procurou atendimento por suspeitar de Covid-19, mas como ainda não havia testes disponíveis pelo SUS, mandaram-na para casa. 

Depois, ficou 15 dias sem sentir cheiro nem gosto, e acabou por ter a confirmação de que estava contaminada. “Aquela primeira semana que eu estava doente fiquei na casa dos meus pais. Por incrível que pareça, não passei para eles. Após isso, meu obstetra disse que estava tudo bem, e que não teria riscos para a criança”, comenta.

No âmbito financeiro, Lauryen conta que não sentiu tanto impacto em relação à pandemia. Atualmente ela trabalha com produção de conteúdo para Instagram e Youtube, inclusive sobre a gestação no perfil @louisebylau. 

“A única angústia que tive foi que eu recém tinha voltado da Austrália. Morei lá por seis anos. E eu não pude sair, nem conhecer pessoas novas aqui no Brasil, então me senti muito sozinha. Por ser mãe solteira, foi bem complicado no início, mas agora já estou bem mais feliz”, desabafa.

A recém mãe permitirá apenas a visita de seus pais e de amigos próximos, com o máximo de cuidado e sem aglomeração. 

Família conhece bebê só por fotos

Alegria e medo: Crisciane Werbes Wesner Bevilaqua conta que esse foi o processo de gestação e do nascimento da pequena Emília, que está com 5 meses. Com o pré-natal completo, ela relembra os períodos de consultas. Apesar dos cuidados necessários em relação ao coronavírus, o receio era constante: medo de pegar em papéis, de encostar em portas e bancadas. Foi com diversas restrições e muita ansiedade pelo desenvolvimento da filha que Crisciane se manteve cuidadosa durante a gestação.  

“O parto ocorreu da mesma forma, nós agendamos a data com o obstetra que me acompanhou desde o início e tivemos todos os cuidados necessários. O andar da maternidade do Hospital de Caridade estava seguro, com limpeza completa da área, profissionais cuidadosos e sempre protegidos”, relata.  

Ainda que com condições diferentes, Crisciane contou com a companhia do marido durante o procedimento. O Ministério da Saúde permite que haja um acompanhante presente até mesmo se a mulher estiver positiva para o Sars-Cov-2. Existem apenas duas ressalvas: não haver revezamentos e o visitante não pertencer a nenhum grupo de risco. O parto normal também pode ser realizado em mães infectadas, caso elas não apresentem nenhuma complicação. 

Após o parto, Crisciane explica que contou com a ajuda de seu marido e de sua mãe, enquanto o resto da família conheceu o bebê através de fotografias. Ainda assim, a dualidade continua: por um lado, risos e gargalhadas, causadas pelo desenvolvimento de sua filha; por outro, angústia e incerteza, sentimentos presentes em cada passo da rotina do casal. 

Expediente

Repórter: Milena Camilo, acadêmica de Jornalismo da UFN e estagiária

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial e estagiária

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Editora de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Editor Geral: Maurício Dias, jornalista

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-exigencia-e-toda-em-cima-da-mae Thu, 23 Aug 2018 22:56:06 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4432 Ter filhos reflete na vida pessoal e profissional, tanto do homem quanto da mulher. No ambiente acadêmico, por exemplo, onde a produtividade precisa ser constante, é preciso uma adaptação para equilibrar as duas tarefas. Grupos e espaços para discutir o papel da mãe e do pai cientistas na vida e educação dos filhos têm sido um espaço para troca de ideias e informações. O grupo Parent in Science, criado em 2017, tem como objetivo debater a temática da maternidade e paternidade na ciência.   A sociedade ainda possui traços patriarcais que permitem a pouca participação da figura paterna na criação dos filhos, o que leva que a temática da presença paternal ainda seja pouco discutida. Um dos aspectos que reforça a ideia da mãe como protagonista na criação dos filhos é que a licença-paternidade no Brasil dura entre cinco e 20 dias. Alguns projetos de Lei pretendem mudar essa realidade e aumentar a licença paternidade para até 44 dias. Atitudes como essa são necessárias para que haja uma divisão mais justa de tarefas domésticas e cuidados com os filhos.   Felipe Ricachenevsky é pai de uma filha de dois anos e meio. Ele conta que tirou a licença paternidade quando sua filha nasceu: “Era de cinco dias corridos. Ela nasceu num sábado de manhã, então tive licença até quarta feira”.  Felipe é pós-doutor no Laboratório de Fisiologia Vegetal da UFRGS, e atualmente é professor do Departamento de Biologia da UFSM. Além disso, é o único homem do Parent in Science.   A Revista Arco conversou com Felipe para saber mais sobre paternidade e ciência. O pesquisador irá palestrar na UFSM, junto a Fernanda Stanisçuaski , nesta sexta-feira (24), às 14h no Auditório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Eles conversarão  sobre diferentes características e perspectivas de ser mãe e pai durante a vida acadêmica. [caption id="attachment_4433" align="alignright" width="400"]Homem de barba e óculos com um bebê no colo Felipe Ricachenevsky e a filha Maya[/caption]     ARCO: Você passa muito tempo longe da sua filha? Onde ela fica durante seus horários de trabalho? Felipe: Evito ao máximo viagens, reuniões desnecessárias, compromissos que exijam dormir fora de casa. Consegui nesses dois anos organizar minha rotina de trabalho para passar o máximo de tempo com ela e com a minha esposa. Hoje, minha filha está na escola em turno integral. Sempre buscamos ela na escola juntos, e levo ela junto com minha esposa dois ou três dias por semana. Nos outros, dou aula bem cedo, e minha esposa faz essa rotina.   ARCO: O que motivou você a seguir a carreira acadêmica? As questões que te motivaram no início são as mesmas que te movem depois da paternidade? Felipe: Sempre gostei da ideia de ser cientista, embora não soubesse bem como era a vida de um. Mesmo pequeno, tinha vontade de ser paleontólogo, e por isso tive interesse em biologia. Depois, no segundo ano do ensino médio, assisti à uma aula sobre DNA da minha professora de biologia, e decidi que iria trabalhar com aquilo. Tive dúvida, em alguns momentos, sobre seguir a carreira, mas sempre foi meu principal interesse. Certamente a paternidade mudou muita coisa. Antes, eu "vivia no laboratório", e mesmo em casa, estava frequentemente no computador pensando em algo, analisando dados, entre outras atividades. Hoje, meu trabalho fica no trabalho, e em casa, estou sempre com minha filha e esposa. Se tenho que trabalhar, é depois de minha filha ter ido dormir. Uma das diferenças que percebo (porque acho que vamos nos transformando sempre como pais) é que olho cada vez mais o lado pessoal das pessoas com que convivo. É muito comum dividirmos as pessoas entre "dedicados" e "não-dedicados". Mas há muitos motivos pelo qual alguém pode não se concentrar numa aula ou no laboratório como esperávamos. Tenho alunos que têm filhos, alunos que têm outros empregos, moram longe e precisam se deslocar muito para estar na universidade. Percebo que diversas coisas do meio acadêmico deixam de ser urgentes quando minha filha precisa de alguma atenção especial ou está doente. Passei a ver muito melhor que cada pessoa tem dificuldades próprias, situações que não permitem o nível de concentração e dedicação ideal, e passei a ver muito melhor que cada pessoa tem dificuldades próprias, situações que não permitem o nível de concentração e dedicação ideal, ou que um professor pode esperar.Essas pessoas são inteligentes, dedicadas, esforçadas e estão fazendo o melhor que podem, dadas as múltiplas tarefas que cada um tem. Tento ao máximo falar da minha filha e de como lido com ela e com o trabalho, pois acho importante que as próximas gerações saibam equilibrar a vida pessoal com a profissional.   ARCO: Qual era o seu nível de produção acadêmica antes da paternidade? Houve uma queda ou aumento da atividade? Felipe: Sempre fui relativamente produtivo e, até o momento, não houve uma queda no número de artigos publicados ou projetos submetidos, pois muita coisa já estava "engatilhada", e também porque minha filha nasceu ainda no meu primeiro ano como professor da UFSM (ou seja, ela nasceu quando eu comecei a ter alunos meus, laboratório, etc). Isso me permitiu delegar um pouco de trabalho. E eu também tenho colegas e colaboradores fantásticos, que muitas vezes me ajudam a finalizar trabalhos para que possamos publicá-los. Mesmo assim, já deixei de fazer algumas coisas. Como exemplo mais claro, recentemente tinha uma visita a um laboratório na Alemanha, no qual ficaria por 20 dias. Cancelei quando minha filha ficou doente. Mas sinto uma diferença enorme na minha produtividade em termos de capacidade de trabalho: hoje, preciso ser mais eficiente, pois tenho menos horas para terminar tarefas (e nem sempre consigo). A minha concentração, especialmente quando minha filha está doente ou dormiu mal (e nós também por consequência), é menor do que era antes. Esqueço mais frequentemente de algumas coisas, e também é comum ter que adiar reuniões e pedir mais prazo para cumprir revisões ou enviar artigos. De maneira geral, vejo que sou menos produtivo do que poderia.   ARCO: Quais as dificuldades em aliar a paternidade à pesquisa? Você precisou adaptar sua rotina para realizar ambas tarefas? Felipe: Sem dúvida. A rotina é completamente outra. As dificuldades em aliar a paternidade à pesquisa são relativas ao tempo de dedicação. A pesquisa é linda, mas é extenuante para que se possa realizar algo realmente bem feito. A paternidade é a melhor coisa do mundo, e esses primeiros anos em especial são fantásticos. Precisamos definir que queremos pais e mães presentes nessa fase em especial. E isso vem com um certo custo de tempo e foco na carreira. O que eu acho que esquecemos é que um docente pai/mãe é produtivo por ter certas qualidades (criatividade, habilidade em fazer boas perguntas, ser bom orientador, etc), e essas qualidades não são perdidas nos anos iniciais da vida dos filhos. Elas estão apenas em modo stand by, ou slow motion: as pessoas estão dividindo mais o seu tempo, cumprindo as tarefas profissionais, mas dedicando menos tempo extra do que dedicavam antes (e provavelmente do que dedicarão no futuro).   ARCO: Você sente uma pressão da sociedade para administrar as situações da vida acadêmica e da vida pessoal em relação à paternidade? Felipe: Sinceramente, não. Mas acho que é porque sou pai, e não mãe. A exigência é toda em cima da mãe. Sempre falo que o pai quase não erra: se ele não vai à uma reunião, porque ficou cuidando da filha, é paizão; se vai, é profissional, pois vai mesmo com a filha doente. A mãe, ao contrário, parece que está sob pressão de ser duas: mãe zelosa e profissional competitiva. Se a balança pende para um lado, ela sofre a crítica. É cruel. Nós, os homens, e os pais em especial, precisamos assumir o ônus também. Precisamos mostrar que conosco deve ser igual, que também queremos nos dedicar aos filhos e que vamos estar menos disponíveis profissionalmente. E que se alguém quer criticar uma mãe por essa postura, deve fazer o mesmo com os pais, pois nossa responsabilidade e a nossa vontade é a mesma. Queremos dividir tudo, pessoal e profissionalmente, com quem decidimos ter filhos.   ARCO: Alguém já parou ou diminuiu o investimento em você por saber da jornada dupla? Felipe: Não sei, mas na verdade não me preocupo. Mas, como disse, acho que ainda se releva mais as faltas dos pais.   ARCO: O que motivou você a fazer parte do Parent in Science? Felipe: A ideia do grupo é da Fernanda. Considero o grupo como uma novidade em termos de discutir o problema de dentro da academia. O grupo está rapidamente tendo cada vez mais voz, e está começando a motivar mudanças importantes. Nada melhor do que termos profissionais de boas universidades apontando problemas em uma mentalidade que já é arraigada. Se conseguirmos deixar a academia mais cuidadosa com quem tem filhos, que todos possam se dedicar a esse momento único da vida, e pudermos ajudar para que pesquisadoras e pesquisadores retomem suas atividades e potencial produtivo quando os filhos já estão maiores, acho que teremos contribuído muito mais do que com qualquer artigo publicado ou projeto individual executado.   ARCO:  Qual a sua atual relação com o Parent in Science? Quais experiências proporciona para você? Felipe:  É engraçado, mas também com o Parent eu sinto que estou sempre devendo pela falta de tempo!   Repórter: Mirella Joels Ilustração: Deirdre Holanda Fotografia: Arquivo Pessoal  ]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/paguei-um-preco-alto-por-me-dedicar-a-criacao-dos-meus-filhos Thu, 23 Aug 2018 22:48:44 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4431 Algumas pessoas arriscam dizer que finalizar uma pesquisa é o nascimento de um filho, devido ao esforço envolvido. Mas, de fato, ter um filho envolve muito mais cuidado e presença.   Uma das dificuldades de quem é mãe e pesquisadora é a diminuição da produtividade, pela dedicação à segunda jornada de trabalho. Outro fator difícil de lidar é a diferença entre as licenças maternidade e paternidade. Enquanto as mães ganham entre 120 e 180 dias para cuidar de seus filhos, os pais recebem muito menos (entre cinco e 20 dias), reforçando a imagem de que mães são mais responsáveis pela criação do que os pais.   Muitos assuntos acerca da temática da maternidade na ciência ainda precisam ser discutidos. O grupo Parent in Science surgiu, em 2017, para levantar a discussão sobre a temática de ser mãe ou pai no meio acadêmico e fornecer suporte para esse grupo.   Fernanda Stanisçuaski é uma das idealizadoras do Parent in Science. Mãe de dois filhos e grávida do terceiro, Fernanda teve licença de 180 dias após as gestações. “O mesmo se repetirá agora”, adianta. Ela é também pós-doutora em Ciências Biológicas, professora do Departamento de Biologia e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).   A Revista Arco entrevistou Fernanda para conhecer melhor a rotina de uma mulher pesquisadora que pratica ciência e cuida dos filhos. Fernanda irá palestrar na UFSM junto a Felipe Ricachenevsky, nesta sexta-feira (24), às 14h no Auditório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Eles conversarão  sobre diferentes características e perspectivas de ser mãe e pai durante a vida acadêmica.   ARCO: O que motivou você a seguir a carreira acadêmica? As questões que te motivaram no início são as mesmas que te movem depois da maternidade ? Fernanda: Desde a adolescência, eu não tinha dúvida da carreira que queria seguir. Não lembro exatamente como descobri isso, nem tenho alguém que me inspirou. Talvez tenha sido o momento em que estávamos vivendo em relação à descobertas científicas. Eu estava no ensino médio quando foi anunciada a clonagem da ovelha Dolly. Achei aquilo fantástico e até comprei livros sobre o assunto. Tenho guardada até hoje uma pasta de recortes de notícias de jornais e revistas sobre ciência. Eu era fascinada por genética, mas acabei encontrando meu caminho em outra área, durante a faculdade. Obviamente as motivações para seguir na ciência mudaram ao longo da carreira, mas nada relacionado à maternidade.   ARCO: Você passa muito tempo longe de seus filhos? Onde eles ficam durante seus horários de trabalho? Fernanda: Tentamos minimizar ao máximo o tempo longe dos filhos, tanto eu quanto o marido. Eles frequentam uma escola de educação infantil. Geralmente, ficam das 9h30 às 18h. Quando podemos, levamos mais tarde ou buscamos mais cedo. Sempre que viajo a trabalho, tento fazer um “bate e volta”, ficando no máximo uma noite fora de casa.   ARCO: Qual era o seu nível de produção acadêmica antes da maternidade? Houve uma queda ou aumento da atividade? Fernanda: Eu vinha numa ascensão em termos de publicações por ano, se olharmos a trajetória desde o meu doutorado. 2013 (ano de nascimento do meu primeiro filho), foi o pico do número de papers por ano. Depois, uma queda acentuada. Não publiquei em 2015 e 2016. Em 2017, retornei aos níveis de 2013.   ARCO: Quais as dificuldades em aliar a maternidade à pesquisa? Você teve que adaptar sua rotina para realizar ambas tarefas? Fernanda: A maior dificuldade para mim é a questão de tempo. Foi uma mudança muito drástica na minha rotina, no laboratório principalmente. Estava acostumada a ter disponibilidade para poder trabalhar das 7h da manhã às 7h da noite, se necessário. Podia escrever projetos e preparar aula em casa. E depois que os guris nasceram, isso não acontece mais. Tanto por escolha quanto por demanda mesmo. Afinal, eles querem (e merecem) nossa atenção quando estamos juntos. E esta restrição de tempo certamente impactou minha carreira científica. Não posso deixar de dar aula, nem quero! Então quando o tempo fica escasso, é a ciência que fica para trás, tanto em relação a poder estar fisicamente presente no laboratório (para fazer experimentos ou orientar os alunos), quanto a conseguir escrever artigos, projetos, relatórios. [caption id="attachment_4435" align="alignnone" width="1024"]Mulher junto a duas crianças brincando Fernanda Staniscuaski junto aos dois filhos[/caption]   ARCO: Você sente uma pressão da sociedade para administrar as situações da vida acadêmica e da vida pessoal em relação à maternidade? Fernanda: Com certeza existe a pressão de que temos que dar conta de tudo. A sociedade adora vender a imagem da super mulher, que consegue ser a melhor mãe, a melhor profissional, a melhor esposa, simultaneamente. Demora muito tempo, assim como demanda muito auto-conhecimento, para aceitarmos que esta ideia de super mulher é mais do que falsa. Em relação à maternidade, particularmente, ainda vivemos em uma sociedade que acredita que todas as responsabilidades na criação de um filho são da mãe. O pai ajuda, e olha lá! Não é minha experiência pessoal, pois meu marido é igualmente pai dos guris quanto eu sou mãe, mas infelizmente esta ainda não é a regra.   ARCO: Alguém já parou ou diminuiu o investimento em você por saber da jornada dupla? Fernanda: Aqui no Brasil, quase não temos políticas públicas para ajudar a recém-mãe no campo da ciência. Não temos qualquer tipo de bolsa de pesquisa ou de financiamento específicos disponíveis para as mulheres que retornam à ciência após a licença maternidade. Nossas agências financiadoras não contabilizam o impacto da maternidade na produtividade ao analisarem as propostas em editais de financiamento ou pedidos de bolsas. A única exceção, até hoje, foi o primeiro edital do Instituto Serrapilheira, que aumentava o prazo de obtenção do doutorado para cientistas mães, nos critérios de elegibilidade. Depois do nascimento do meu primeiro filho, tive vários pedidos de bolsa/financiamento negados, devido à queda da produção científica (publicações de artigos).   ARCO: Você se considera igualmente ativa/presente na vida acadêmica pós-maternidade e na criação dos filhos? Fernanda: Com certeza. Minha prioridade, desde o nascimento dos guris, foi a criação deles. Certamente não divido o tempo igualmente, às vezes por escolha, às vezes por necessidade.   ARCO: O que motivou você a criar o Parent in Science? Quais experiências esse projeto proporciona para você? Fernanda: O Parent in Science surgiu a partir da minha experiência pessoal, após me tornar mãe. Comecei a enfrentar uma série de dificuldades, principalmente em relação ao tempo de dedicação para o laboratório, mesmo depois da licença maternidade. E eu não via ninguém falando sobre isso.... o máximo ouvia que “é difícil, mas dá”; comecei a me questionar sobre ser capaz de conciliar ser mãe e cientista. Aí um dia fiz um post, em uma rede social, sobre como estava pagando um preço alto (principalmente em relação a conseguir recursos para o laboratório) pela escolha de me dedicar aos meus filhos. E muitas outras pessoas começaram a comentar que estavam passando pela mesma situação. Então, junto a algumas destas pessoas, criamos o Parent in Science Nosso objetivo inicial era, de alguma maneira, buscar recursos para criar um fundo de pesquisa específico para cientistas mães. Mas aí nos deparamos com um obstáculo.... não tínhamos dados, principalmente quantitativos, sobre o impacto da maternidade na carreira científica no Brasil. Até mesmo em termos mundiais, a quantidade de dados era limitada. Então o Parent in Science virou um projeto de pesquisa, que visa entender o impacto da maternidade, em termos de produção científica e obtenção de financiamento, na carreira das cientistas brasileiras. Para levantar dados, criamos alguns questionários online. Os questionários ainda estão disponíveis para participação (mais informações na nossa página: www.parentinscience.com). A principal experiência pessoal com o Parent in Science é a troca de informações/experiências/angústias e vitórias com outras mães e pais. Nossos seminários são sempre acompanhados de conversas longas, sobre todos os aspectos da maternidade e da vida acadêmica, desde o aspecto mais profissional, até o lado mais pessoal. E esta troca não tem preço.   Repórter: Mirella Joels Ilustração: Deirdre Holanda Fotografia: Arquivo Pessoal    ]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post467 Mon, 15 May 2017 14:15:33 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2017/05/15/post467/ O parto costuma ser um momento especial para mulheres ao redor do mundo. Após a Segunda Guerra Mundial, os partos domiciliares foram substituídos por maternidades institucionalizadas e os nascimentos passaram a acontecer cercados de rotinas rígidas, sem levar em conta a individualidade de cada mãe, o que resulta muitas vezes na desumanização da assistência às mulheres e, em casos extremos, leva a violência obstétrica.

Conforme a Fundação Oswaldo Cruz, 52% dos partos feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são cesáreas, sendo que na rede privada chega a 88% – índices superiores aos 15% recomendados pela Organização Mundial de Saúde. No entanto, há mulheres que buscam outras possibilidades. Na pesquisa de Rosimery Barão Kruno, mestra em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicada na Revista Saúde da UFS em abril deste ano, foram entrevistadas oito mulheres que optaram pelo parto domiciliar planejado com o objetivo de conhecer as razões para essa escolha e saber mais detalhes sobre suas vivências de partos em casa.

O estudo analisou aspectos como as motivações para realizar o parto em casa, a vivência desse momento, empoderamento e transformação e a reação da família. As oito mulheres, que moram em Porto Alegre (RS), foram entrevistados em outubro de 2014, elas também participam de um grupo de incentivo ao parto humanizado, chamado “Saber Materno”.

Segundo Rosimery, o parto domiciliar planejado tem crescido no Brasil nos últimos anos devido à disseminação de informações na internet sobre o procedimento e ações de políticas públicas que prezam pela humanização do nascimento. Para as mães, o parto foi considerado um processo saudável e natural, que não requer nenhuma intervenção desnecessária. Entretanto isso não significa que desejem um parto desassistido, já que desde o pré-natal buscam profissionais que lhe transmitem segurança, respeito e o direito de protagonizarem o processo. As mulheres relatam a vivência de uma forma intensa, em que o ambiente propiciou mais segurança e intimidade do que um ambiente hospitalar.

A situação brasileira

Conforme a pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento”, publicada em 2014, as gestantes que têm parto normal nos hospitais brasileiros são submetidas a um modelo intervencionista baseado no uso excessivo de medicamentos. A maioria das mulheres fica restrita ao leito e em jejum, além de receberem remédios para acelerar as contrações, e dão à luz deitadas de costas. Estes procedimentos causam dor e sofrimento desnecessários, e não são recomendados pela OMS como rotina.

 

Também é estimado que quase um milhão de mulheres ao ano são submetidas a cesarianas desnecessárias no Brasil. Dessa forma, essas mães acabam expostas a maiores riscos de contrair doenças no ambiente hospitalar que podem levar em casos extremos a morte, o que aumenta os gastos com a saúde. Além disso, alguns estudos mostram que a forma como o parto é realizado afeta a saúde futura dos bebês, incluindo um aumento no risco para diabetes, asma, obesidade e outras doenças.

 

No Brasil, muitas entidades médicas são resistentes aos partos feitos em casa, alegando que o ato fora do ambiente hospitalar expõe a parturiente e a criança a riscos que podem ser evitados dentro de um centro obstétrico. Porém, pesquisas científicas divulgadas pela OMS têm confirmado que o parto domiciliar é seguro, desde que a gestação seja de risco habitual, além de ter um planejamento prévio e que profissionais qualificados para o procedimento sejam contratados.

Além disso, uma revisão sistemática de 22 estudos, publicada em 2012 no jornal Australian Health Review, constatou que não há diferença nos índices de mortalidade perinatal entre partos domiciliares e hospitalares, considerando as situações de gravidez normal assistidas por profissionais capacitados. Apesar de questões econômicas, políticas e corporativas atrapalharem sua efetivação, o modelo de assistência obstétrica apresentado pelos hospitais têm deixado gradativamente de ser hegemônico, assim dando espaço para um número crescente de partos domiciliares planejados no Brasil.

 

Repórter: Gabriela Pagel Ilustração: Filipe Duarte Gráfico: ENSP / Fiocruz]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post465 Sat, 13 May 2017 14:10:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2017/05/13/post465/ Nos últimos 15 anos, o número de mulheres privadas de liberdade no Brasil cresceu 567%, mais do que o dobro do número de encarcerados homens. Em 2000, existiam 5.601 mulheres no sistema penitenciário, já em 2015 esse número era de 37.380 encarceradas. Segundo o último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, de 2014, 75% das penitenciárias recebem apenas homens, 17% recebem homens e mulheres e apenas 7% apenas mulheres. Uma das principais repercussões desse cenário para a vida das mulheres apenadas está relacionada às dificuldades com a maternidade. Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) mostrou que há uma correlação entre sintomas de depressão apresentados pelas apenadas e o afastamento dos filhos. Elas relataram sentirem-se tristes por não poderem manter contato próximo com os filhos e ficam preocupadas com as condições em que eles vivem. O estudo foi desenvolvido pela psicóloga Fernanda Hoffmeister e defendido no ano passado no Mestrado em Psicologia da UFSM. “Apesar de hoje cada vez mais se falar sobre a problemática prisional, ainda são poucos os que querem discutir o assunto. Muitas pessoas tem uma visão deturpada da situação, então eu acredito que é importante discutir esse assunto para dar visibilidade e, quem sabe, abrir os olhos das pessoas, para que possam ver de outro ângulo e não só com aquele pensamento fechado”, ressalta Fernanda. Além de Fernanda, a jornalista Nana Queiroz também pesquisou sobre a vida das mulheres que passam pelo sistema penitenciário no Brasil. Ela ouviu sobre a vida e a situação do cárcere através de histórias e experiências contadas por estas mulheres, por agentes penitenciários e por familiares. Nana viajou pelo Brasil conhecendo os estabelecimentos prisionais e conta que existem diferenças entre a prisão de um homem e de uma mulher. Quando homens são encarcerados, a estrutura familiar se mantém e aguarda seu regresso, quando mulheres são encarceradas, elas perdem a casa e o marido, e seus filhos são redistribuídos entre familiares ou entregues ao Estado. As histórias dessas mulheres foram registradas no livro “Presos que Menstruam” (Editora, 2016). Em maio de 2009, a Lei 11.942, que dava nova redação à Lei de Execução Penal de 1984, foi sancionada pelo então Presidente Luiz Inácio da Silva “para assegurar às mães presas e aos recém-nascidos condições mínimas de assistência”. A nova redação da lei propõe-se a assegurar acompanhamento médico à mulher, principalmente pré-natal e pós-parto, além de garantir a amamentação de no mínimo seis meses, disponibilidade de berçário e creche para crianças com mais de seis meses e menos de 7 anos. Apesar da sanção desta Lei, das penitenciárias que recebem somente mulheres - que representam apenas 7% do total de unidades - em torno de 30% garantem dormitórios adequados para gestantes e disponibilizam berçários. Das penitenciárias que recebem homens e mulheres - que correspondem a 17% do total de unidades prisionais no Brasil  - a porcentagem daquelas que garantem dormitórios adequados para gestantes diminui para 13% e 3% que disponibilizam berçários. Durante os seis primeiros meses de vida, portanto, as mulheres apenadas em instituições com a estrutura adequada podem ter garantido o direito à convivência com seus bebês. Mas a partir disso, a criança é entregue ao pai, familiares ou ao Estado. No caso daquelas que não estão apenadas em instituições com a estrutura adequada, nem mesmo essa garantia de contato nos primeiros meses de vida está garantida. Como sabemos que a maior parte das mulheres que são privadas de liberdade perdem a casa e o marido, seus filhos acabam sendo encaminhados para abrigos. Quando isso acontece, a mulher, após o cumprimento da sua pena, pode reconquistar a guarda dos filhos, mas para isso é necessário comprovar que possui emprego e endereço. Depressão e maternidade no sistema penitenciário A pesquisa de Fernanda foi aplicada em três estabelecimentos prisionais do Rio Grande do Sul: Presídio Regional de Santa Maria e Presídio Estadual de Santiago, que atendem homens e mulheres, e a Penitenciária Feminina de Guaíba, que atende apenas mulheres. O estudo foi dividido em duas parte, a primeira investiga a relação da maternidade com a personalidade de mulheres em privação de liberdade e a segunda correlaciona duas escalas, a Psychopathy Checklist Revised - PCR-L e a Medida Interpessoal de Psicopatia - IM-P, que identificam tendências comportamentais antissociais e psicopatia.   A primeira parte do estudo, que investiga a relação da maternidade com a personalidade de mulheres em privação de liberdade, foi aplicada nas três penitenciárias citadas acima. Para não prejudicar o resultado do estudo, foram aplicados dois instrumentos de exclusão, o Structured Clinical Interview for DSM Disorders (SCID), ferramenta que fornece diagnóstico psiquiátrico, e a escala Psychopathy Checklist Revised - PCR-L, ferramenta utilizada exclusivamente no sistema carcerário para avaliação de psicopatia e comportamentos antissociais. Com a ferramenta de exclusão, ao total, 28 mulheres concordaram em participar das entrevistas. Para diagnosticar os sintomas de depressão, foi utilizada a Escala Beck de Depressão (BDI) além de um questionário produzido por Fernanda para reunir dados sociodemográficos das entrevistadas. Ao serem questionadas sobre o afastamento dos filhos, 14 das 28 mulheres sentiam-se muito mal e duas sentiam-se mal com o afastamento, oito sentiam-se muito bem, pois sabiam que os filhos estavam bem cuidados, uma sentia-se bem e uma não sentia-se nem bem, nem mal. Depois das entrevistas, seis mulheres apresentaram sintomas de depressão e, com seus consentimentos, foram encaminhadas para atendimento psicológico da equipe do estabelecimento. Além disso, a pesquisa relata que 22 das 28 entrevistadas respondiam por crime de tráfico ou associação ao tráfico. As mulheres contaram que seu envolvimento com tráfico teve início por causa do marido ou companheiro, quando transportavam droga para dentro do presídio em que o marido estava, ao presenciar a circulação do tráfico dentro da sua casa ou até mesmo como alternativa para sobrevivência quando o marido era preso.   O estudo ressalta que apesar da limitação em relação ao tamanho da amostra, sabe-se que mulheres no cárcere, assim como as fora deste contexto, possuem maior índice de depressão em relação aos homens. Isso, aliado com a situação precária que vivem essas mulheres dentro do sistema prisional e o afastamento em relação a seus filhos, pode indicar um agravamento desses sintomas depressivos, apesar de não ser a causa primária.   Repórter: Paola Dias Ilustração: Filipe Duarte]]>