UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Sun, 22 Mar 2026 00:27:29 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/representatividade-negra-na-arte-gaucha Mon, 18 Dec 2023 12:55:05 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9852 Ao imaginar uma pessoa gaúcha, é comum que se pense em um indivíduo cisgênero, heterossexual e branco. Essa representação normativa perturbou o artista Márcio Cardozo, que passou a vida tentando se encontrar em cenas do seu cotidiano, ora no Centro de Tradições Gaúchas (CTG), ora na arte e, infelizmente, nunca com sucesso.

A partir da angústia de não se sentir representado nos espaços que ocupava, Márcio propôs uma reconstrução artística para preencher lacunas existentes na imagem de peões e prendas. O pintor utilizou-se da tela de algodão e da tinta a óleo de linhaça para criar corpos negros gaúchos com expressividade e irreverência.

A intenção de Márcio com seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Artes Visuais, intitulado Representatividade Pictórica Negra: Ressignificações de Cenas Características da Cultura Gaúcha, foi a de fazer uma provocação e incitar um novo olhar sobre a cultura gaúcha. Para atingir esses objetivos, ele criou uma narrativa repleta de personagens negros intelectuais, famílias pretas bem estruturadas (rompendo com o estereótipo de família preta brasileira sem estruturas) e cenas típicas do pampa sul-riograndense.

 

Para eliminar a marginalização de pessoas negras e trazer o elemento do intelecto às suas obras, Márcio buscou retratar nas pinturas o jornal O Exemplo, um noticiário pós-abolicionista gaúcho financiado por pessoas negras e antirracistas. “A arte é uma válvula para recontar a história com uma potência transformadora que possibilita uma nova postura e reflexão”, pontua Márcio sobre os elementos que compuseram sua criação artística.

Além disso, ele foi responsável por fabricar grande parte do material de pintura durante a criação das telas. Como vegano, ele não utilizou nenhum utensílio que prejudicasse animais, fez uso de tintas naturais, madeira, algodão cru e pincéis de fibra. Confira algumas das obras resultantes do trabalho de Márcio neste Ensaio.

Reportagem: Isadora Pellegrini
Diagramação: Noam Wurzel

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2023/01/27/curso-vai-preparar-pessoas-negras-para-concurso-tecnico-administrativo-da-ufsm Fri, 27 Jan 2023 12:41:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=61044
Compreendendo a importância de se ter cada vez mais servidores negros na Instituição, o Templo de Candomblé ílé àṣẹ ìyá omin òrun, o Observatório de Direitos Humanos e o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da UFSM estão promovendo o curso preparatório para o Concurso de Técnico-Administrativo da UFSM regido pelo Edital 044/22.
 
O curso é exclusivo para pessoas negras (pretas ou pardas). As aulas serão realizadas no Centro de Referência Negro da Antiga Reitoria e na sede do Templo a partir de 6 de fevereiro, segunda-feira, às 19h, estendendo-se até a data da prova.
 
Será trabalhado todo o conteúdo programático presente no edital, incluindo as disciplinas de Língua Portuguesa, Legislação, Matemática, Informática e Redação Oficial. Serão disponibilizadas 10 vagas. 
 
As inscrições para o curso podem ser feitas até 31 de janeiro pelo link
 
Mais informações sobre o curso podem ser obtidas junto ao Observatório de Direitos Humanos, pelo email observatoriodh@55bet-pro.com.
 
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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/esporte-alem-das-quatro-linhas Fri, 13 Aug 2021 15:18:10 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8624 O ano de 2021 entrará para a história do esporte não só pela realização da Eurocopa e das Olimpíadas, adiadas em 2020 devido à pandemia, mas também por questões e bandeiras levadas por atletas que vão muito além das fronteiras de suas modalidades e de seus países. As edições de ambas competições refletem o aumento da diversidade. A Eurocopa, disputa entre seleções europeias que ocorre a cada quatro anos, já havia atingido um marco histórico na sua penúltima edição, em 2016. A final entre Portugal e França contou com mais jogadores de origem africana do que europeia. Dos 22 jogadores que iniciaram a partida, 12 eram negros. Ao somar os reservas, o número sobe para 15 dos 28 atletas que participaram da partida. Éder, nascido em Guiné-Bissau, saiu do banco de reservas para entrar para a história com seu gol, marcado durante a prorrogação, que rendeu à seleção portuguesa o primeiro título. Nesta edição do campeonato europeu, 15% eram imigrantes ou filhos de imigrantes, o que tornou este torneio o mais diverso até então. Outro fator que marcou a 16ª edição da Eurocopa foi o aumento do protagonismo de jogadores negros nas principais seleções. Dos cinco times campeões do Velho Continente da Copa do Mundo, três tinham atletas negros com a camisa 10. Kylian Mbappé (França), Raheem Sterling (Inglaterra) e Leroy Sané (Alemanha) usaram o número reservado ao principal jogador do time. A final de 2021 do Mundial não bateu o recorde da edição anterior, mesmo assim foi multicultural. Pela seleção inglesa, cinco jogadores negros, entre titulares e reserva, participaram da partida. A campeã Itália, por sua vez, tinha em seu elenco três jogadores nascidos no Brasil. Rafael Tolói, Emerson Palmieri e, principalmente, Jorginho foram peças importantes da campanha que rendeu o bicampeonato para a Squadra Azzurra. Os Jogos Olímpicos de Tóquio trouxeram mais do que aquilo que o público espera do evento mais importante do esporte, como os melhores atletas e histórias que serão lembradas por gerações. O maior legado não foram as estreias bem sucedidas do surf e do skate, mas sim a maior diversidade já vista em uma Olimpíadas. Segundo levantamento do site Out Sports, 183 atletas LGBTQIA+ participaram da última edição das olimpíadas. O número é três vezes maior que o recorde anterior, dos jogos de 2016 no Rio de Janeiro, que contou com  56 atletas. Se fossem uma delegação, os atletas LGBTQIA+, com 11 medalhas de ouro, 12 de prata e 9 de bronze, ficariam em sétimo lugar no quadro de medalhas. Estariam à frente de países como Holanda, Alemanha, França, Itália e Brasil - que fez sua melhor campanha em uma olimpíada, com 7 medalhas de ouro, 6 de prata e 8 de bronze. A edição também foi a que contou com maior participação feminina, que correspondeu a 48,9% do total de atletas. A marca deve ser superada em breve, já que a previsão é que a edição de Paris, em 2024, seja a primeira com representação igualitária entre mulheres e homens.

Política e esporte: juntos e misturados

As manifestações políticas no esporte começaram a se intensificar no ano de 2020, muito por influência do movimento Black Lives Matter (BLM) - que surgiu em 2013, nos Estados Unidos, com o objetivo de combater a supremacia branca, e ganhou destaque com as mobilizações após George Floyd ser assassinado por um policial de Minneapolis, Minnesota. Há quem não goste desses atos por acreditar que “política e esporte não se misturam”. Neste sentido, pode-se citar a regra 50 da Carta Olímpica, que proíbe “qualquer tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial em instalações olímpicas”. Entretanto, por influência do aumento das manifestações políticas nas mais diversas modalidades esportivas, o Comitê Olímpico Internacional (COI) flexibilizou a norma e passou a permitir atos políticos nos ambientes desportivos e antes do início das competições. Por outro lado, as manifestações no pódio - como os punhos erguidos de Tommie Smith e John Carlos em referência aos Panteras Negras nas Olimpíadas de 1968 - seguem proibidas. Rubens Guilherme Santos, estudante de Jornalismo e integrante do Ponta de Lança, portal de notícias focado no esporte, cultura e política no continente africano, destaca a importância de desconstruir a ideia de incompatibilidade entre esporte e política. “O esporte é mais um espaço de interação/disputa social e política da sociedade”, argumenta. A própria história brasileira reforça que a separação entre esporte e política não passa de um mito. Muito antes de os atletas usarem o esporte como espaço de atos políticas em prol da igualdade, políticos já o usavam em manifestações a favor de seus próprios interesses. “As pessoas querem que os esportistas sejam apolíticos, falam que futebol, política e religião não se misturam, mas essa aproximação é histórica. A Era Vargas e a ditadura civil militar, por exemplo, se aproveitaram do esporte para conseguir alavancar os seus objetivos políticos”, explica Taiane Lima, mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFSM. Mesmo assim, atletas que ousam cruzar a fronteira ou reagir a uma injustiça podem sofrer por isso. Um exemplo trazido por Taiane é o de Taison, jogador do Internacional com passagem de 11 anos pelo Shakhtar Donetsk da Ucrânia. No clássico ucraniano entre Shakhtar e Dínamo de Kiev, parte da torcida adversária proferiu insultos racistas ao atleta, que reagiu e foi expulso. Além da suspensão automática gerada pelo cartão vermelho, a Associação Ucraniana de Futebol puniu Taison com um jogo de suspensão. “Ele foi punido, não as pessoas que praticaram o ato racista”, destaca. Para Taiane, o atleta não deve deixar de se posicionar por medo de críticas ou punições, já que sua influência pode ajudar a chamar a atenção do público para causas importantes. “Esporte e política se misturam sim e essas pessoas têm relevância, elas não são alienadas, elas precisam se posicionar. Sempre terá alguém para criticar, dizer que não pode. Mas outras pessoas irão perceber e olhar com mais atenção para essas pautas", defende.

Unidos até que as derrotas os separem

O estudante Rubens  explica que a maior parte dos atletas que representam as seleções europeias são da segunda ou terceira geração de imigrantes africanos no continente. As dificuldades enfrentadas pelas suas famílias, como ausência de políticas públicas que lhes assegurassem direitos básicos, além da resistência em reconhecer os filhos de imigrantes como cidadãos europeus, tornaram o esporte a única ferramenta possível para ascender socialmente. “O futebol passa a ser um ambiente de inclusão de jovens em busca de superar as adversidades da vida”, observa. O talento desses jogadores que viam no futebol a sua única chance de conseguir uma vida melhor passou a auxiliar os clubes europeus. Não demorou muito para que esses atletas fossem incorporados às seleções. “A diversidade étnica propiciou o ápice de muitas seleções de futebol. O caso mais conhecido é o da França”, afirma Rubens.  No final da década de 1990, surgiu a geração mais vitoriosa da história da seleção francesa até o momento. Pela diversidade étnica de seus jogadores, a equipe ficou conhecida como “black-blanc-beur” (negra, branca e árabe). Em 1998, o time conquistou o título inédito da Copa do Mundo. Dois anos depois, os bleus conquistaram o bicampeonato da Eurocopa. Essa geração foi tão bem sucedida que se tornou propaganda de uma França multicultural. Em 2018, a seleção francesa voltaria a conquistar o mundial, com um time que conseguiu ser mais multiétnico. Dos 23 jogadores convocados, 14 tinham ascendência africana.  A história no esporte também é feita de derrotas. E quando uma seleção multirracial é derrotada, logo surgem aqueles que apontam a diversidade como problema. “A atribuição de fracassos e reveses a atletas negros e negras infelizmente é comum no futebol, espaço que, muitas vezes, serve de descarrego de preconceitos”, afirma Rubens. Nem mesmo a geração francesa de 1998 escapou disso. As campanhas sem título da seleção, somadas à forte polarização presente nos debates sobre migração na Europa, fizeram com que as tensões raciais ressurgissem rapidamente e com força na França.  Talvez o caso mais conhecido pelos brasileiros seja o de Moacyr Barbosa na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil. Dias antes da final contra o Uruguai, o país todo comemorava o título antecipadamente. Na final, a seleção saiu na frente, parecia confirmar o que todos achavam saber. A seleção uruguaia fez o gol de empate, mas o clima ainda era de festa, o resultado dava o título para o Brasil. Porém, aos 34 minutos do segundo tempo,  a seleção uruguaia conseguiu virar o jogo e calar os 200 mil espectadores presentes no estádio do Maracanã, construído especialmente para a competição. O fatídico episódio ficou conhecido como Maracanaço. Barbosa, homem negro, era goleiro da seleção brasileiro e foi eleito como o culpado pela derrota. Ao falar sobre o ostracismo ao qual foi condenado pela derrota, o ex-goleiro disse: “No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”. Barbosa carregou esse fardo por quase 50 anos, até sua morte em 2000. No entanto, Barbosa não foi o único a sofrer as consequências do racismo. Após a derrota, criou-se a crença de que pessoas negras não servem para jogarem em posições defensivas. “Há poucos goleiros negros, poucos zagueiros negros, porque, quando se precisa de confiança, parece que o jogador negro ou a jogadora negra não é adequado. Então a gente percebe que esse acontecimento da copa de 1950 impacta até hoje”, pondera Taiane. Até hoje, as derrotas são catalisadoras do racismo. A final da Eurocopa de 2021, que foi decidida nos pênaltis, é um exemplo. Após o final do jogo, torcedores ingleses lotaram as redes sociais de Jadon Sancho, Marcus Rashford e Bukayo Saka com ofensas racistas pelos pênaltis desperdiçados na final. Algumas ofensas diziam para que os jogadores, que ajudaram a levar a seleção inglesa para sua primeira final em 55 anos, fossem embora da Inglaterra e voltassem para a África.

A questão da representatividade

Daiane dos Santos, que, em 2003, tornou-se a primeira atleta brasileira a ser campeã mundial de ginástica e a primeira mulher negra a ganhar uma medalha de ouro na modalidade, viveu um dos momentos mais marcantes das Olimpíadas de Tóquio. Como comentarista de ginástica, ela contou como sofreu com o racismo e a segregação enquanto competia. Outros atletas da seleção se recusaram a usar o mesmo banheiro que ela, por isso havia um banheiro para os atletas brancos e outro para ela. O momento de maior emoção para a ginasta foi quando Rebeca Andrade conquistou a primeira medalha olímpica feminina para o Brasil. A atleta sempre foi fã de Daiane e tinha ela como referência. Ao presenciar a vitória de Rebeca, aos prantos, Daiane lembrou que a primeira medalha de ouro em mundiais do Brasil na ginástica, entre homens e mulheres, foi conquistada por ela, uma mulher negra. Agora, mais uma vez, uma mulher negra levou a primeira medalha brasileira na ginástica olímpica. “Diziam que a gente não podia estar nesses lugares”, recordou. Uma das principais formas de se perceber o racismo é por meio das ausências, entre elas a falta de referência de pessoas negras tanto na mídia quanto no esporte. “A grande questão da representatividade é se olhar nas diversas modalidades do esporte e não se enxergar. Parece que é um esporte apenas para pessoas brancas. Ainda mais quando se é criança e está desenvolvendo esta consciência”, explica Taiane. No entanto, a historiadora adverte que é preciso mais do que referências para que uma pessoa negra possa se tornar medalhista olímpica. É preciso investimento, não apenas nos clubes que formam atletas, mas principalmente em comunidades mais pobres, que concentram a maior parte da população negra. Sem investimento, modalidades elitizadas continuarão praticamente inacessíveis para jovens negros e periféricos. Por mais que alguns consigam contornar as dificuldades, a diversidade nessas modalidades se torna a exceção, não a regra. Rubens acredita que o esporte auxilia no combate de qualquer tipo de preconceito. Mas, para isso, é preciso que a diversidade vá além dos atletas, que, não raro, são vistos apenas como mão de obra para as conquistas desportivas. A diversidade deve se estender aos cargos políticos de entidades esportivas, espaços que pouco mudaram sua demografia ao longo dos anos. “Não é falta de interesse. É falta de oportunidade e discriminação”, conclui Taiane. Expediente Repórter: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista Mídia Social: Samara Wobeto e Eloíze Moraes, acadêmicas de Jornalismo e bolsistas Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2020/10/07/poscom-debate-a-representatividade-de-pesquisadores-negros-na-pos-graduacao-nesta-quinta-8 Wed, 07 Oct 2020 14:20:11 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=53910

O Programa de Pós-Graduação em Comunicação (Poscom) da UFSM promove, desde abril, lives que enaltecem o protagonismo discente e que versam sobre temáticas diversas estudadas no programa. Neste mês, terá início uma nova etapa do projeto, o ciclo de debates.

Nesta quinta-feira (8), a partir das 15h, o debate será sobre a representatividade de pesquisadores negros na pós-graduação brasileira. Entre os temas discutidos estarão: cotas raciais e o discurso da mídia; o intelectual negro em espaço dominado pela branquitude; e gênero e raça no contexto da produção audiovisual.

Os debatedores serão Zilda Martins, doutora em Comunicação e Cultura (ECO/UFRJ) e pós-doutorada pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França, fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos sobre Relações Raciais no Brasil do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC/UFRJ); Denise Lima, egressa do doutorado do Poscom, professora da Unipampa com atuação em pautas como afroempreendedorismo e desigualdade racial; e Aleone Higidio, doutorando do Poscom, foi diretor do documentário "LGBT de periferia: resistência, luta e empoderamento", além de desenvolver pesquisas sobre diversidade sexual, negritude e de gênero.

O debate será mediado pela mestranda em Comunicação da UFSM Carla Ernesto, que direciona sua pesquisa para a representação da mulher negra na publicidade, em especial, no audiovisual.

O link para acesso à live já está disponível no canal do Poscom/UFSM no Youtube.

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/diario-de-um-cotista Tue, 27 Nov 2018 19:17:25 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4946 Na tese Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho, apresentada por Maria Rita Py Dutra no Programa de Pós-Graduação em Educação, são levantadas também as percepções sobre o mundo de trabalho, acesso e permanência na Universidade - desde o ingresso até a formatura. A narrativa é construída a partir de relatos pessoais de 11 estudantes que se graduaram na UFSM, sendo 4 homens e 7 mulheres. Na pesquisa, todos os entrevistados são identificados com nomes fictícios de origem africana ou de personagens dos livros infantis da Coleção Histórias da Vó Preta, de autoria de Maria Rita. Primeiras percepções da Universidade A entrada na universidade é uma experiência particular à cada pessoa. Alcançar o êxito no vestibular é motivo de felicidade para qualquer candidato, mas para os estudantes negros, geralmente, vem acompanhado de significados e de desafios ainda maiores. Maria Rita destaca em sua tese que “tais estudantes terão seus atributos categorizados”, a partir do estereótipo do grupo hegemônico. Segundo ela, "são colocadas sobre o estudante cotista uma série de expectativas”. O cotista passa a ser considerado, frente aos demais, como “menos desejável”, alguém que carrega consigo um forte estigma. Ao iniciar a vida acadêmica - com idade mais avançada - Idia, estudante de Sociologia, se preocupava em como se apresentar frente aos colegas, como se vestir, consciente de que participava de outro campo social. O processo de desconstrução desse estereótipo foi se dando aos poucos e teve forte influência da ação dos professores em sala de aula:

“Como uma mulher muito pobre, eu sempre pensava: como eu vou chegar na Universidade? Eu não tenho roupa, eu não tenho calçado, eu não tenho dinheiro para as passagens. Eu trabalho. Eu saio do município (escola), pego faxina, saio das faxinas, vou pra Universidade. Chegando lá, eu me deparava com as minhas colegas alemãs, descendentes de alemães, descendentes de italianos, de chinelo, de crocs, mas por que eu não posso? Uma negra de chinelo é empregada doméstica, uma italiana, uma alemã, descendente de alemãs, de italiana, é uma filha de colono? É filha de empresário (...). E daí eu vi de que nós não precisamos... Não é a roupa que nos faz, não são os calçados, mas sim o nosso conhecimento e a maneira como nos tratamos.” (Idia, Sociologia)

Para se referir ao posicionamento dos professores no âmbito acadêmico, Maria Rita cria duas categorias: o “professor empático” e o “professor inconformado”. No relato mais aprofundado de Idia, a pesquisadora Maria Rita identifica a presença de ambos. Uma que tomou postura empática e estimulou a estudante a não desistir e a enfrentar as dificuldades inerentes aos estudos e, ao mesmo tempo, um “professor inconformado”, que após o fracasso da estudante na primeira prova, classificou-a como "não detentora de pensamento lógico, sem qualquer análise mais aprofundada”. Frente ao segundo caso, Maria Rita reflete: “O que leva um professor afirmar à aluna negra, de idade superior a 40 anos, que o lugar dela não é na Federal, por ela não ter raciocínio lógico? Sou forçada a afirmar que é o racismo que faz isso; é o fato de o negro ocupar espaços que até então eram interditos para ele.” Em outra entrevista - com a estudante Jamila, que ingressou na UFSM em 2010 no curso de Serviço Social-, Maria Rita também descreve certa atitude de um professor, enquadrando-o como “professor inconformado”, umas vez que demonstra inabilidade de trabalhar com estudantes com outro nível étnico. O episódio descrito em um relato se referia ao discurso proferido contrário às cotas, logo na primeira aula por um professor que se deparava com cinco estudantes cotistas negros na turma. Enquanto isso, Anaya, formada em Medicina Veterinária, relata não ter vivenciado situações de racismo no período da graduação, mas sim, depois, já no mestrado. Ao presenciar o posicionamento de um professor que discorria sobre procedimentos veterinários, o mesmo alertava aos estudantes para agirem corretamente: "pessoal, a gente tem que fazer a coisa certa, tem que fazer coisa de gente branca.”

“(...) não adianta ser fluente em várias línguas, ser pós-doutor e tratar as pessoas dessa forma, e ter esse tipo de pensamento que não cabe numa academia. Me passava pela cabeça que eu tenho irmãos que vão passar por isso, que os meus pais se orgulham de eu estar aqui, que minha mãe como uma mulher negra se orgulha de eu estar aqui e espera que eu seja tratada com respeito. Então isso foi o que mais me chocou.” (Anaya,  Medicina Veterinária)

Além disso, um desafio a ser adquirido por estudantes negros é o capital cultural, isto é, o acúmulo de riqueza cultural erudita de cultura escolar - que pode influenciar diretamente no desempenho acadêmico do estudante. Isso diz respeito também ao ambiente familiar ao qual o estudante está acostumado. Entre as mães dos entrevistados, por exemplo, apenas uma cursou ensino superior incompleto e duas, o ensino superior completo; enquanto que entre os pais, somente um cursou o ensino superior completo. Ao destacar as pesquisas de importantes estudiosos na área, Maria Rita aponta que existem uma relação entre o nível cultural das famílias e o sucesso dos filhos na vida escolar. No entanto, é um erro afirmar que a renda familiar e o diploma dos pais são fatores cruciais para condenar filhos de famílias pobres ao fracasso. A pesquisadora ressalta que “há como reverter essa situação, sendo a atuação do professor empático decisiva, pois o estudante necessitará de orientação.” Estudante-trabalhador De acordo com a pesquisadora, a condição de estudante- trabalhador desafia o estudante cotista a estabelecer novas metas, pois além de ter que dar conta dos estudos, precisará atender às exigências do trabalho. Na pesquisa, todos os entrevistados, em algum momento, trabalharam, e apenas Kadija e Mulalo não foram bolsistas durante a graduação.

“Um turno eu estava trabalhando, o outro turno eu estava com ele completo de aula. Quando ficava alguma cadeira pra trás, eu tinha que deixar a cadeira, porque eu tinha um turno inteiro pelo trabalho e um turno só pra estudar, e na Medicina Veterinária tu tens um turno de manhã, com disciplinas e outro turno de tarde. Então quando virava o semestre, que viravam os horários, eu ficava com choque de horários, e eu fui segurando algumas cadeiras, né. Então teve um semestre que eu fiz só as DCG’s, e segurei um pouco as cadeiras, por isso eu demorei um pouco mais, também pra me formar, não é, pra conseguir continuar trabalhando.”(Anaya, Medicina Veterinária)

Entre os entrevistados, apenas cinco homens e uma mulher relataram terem ingressado no mercado de trabalho somente depois do ingresso na faculdade. As demais mulheres afirmaram ter começado a trabalhar ainda no período escolar - sendo duas delas, no trabalho doméstico. Após a formatura, dois permaneceram apenas trabalhando (o enfermeiro e o comerciário do setor moveleiro), os demais investiram na formação acadêmica, continuando a cursar uma nova graduação, especialização ou pós-graduação. Três fazem doutorado: em Medicina Veterinária, Sociologia e História; Ayo (relações públicas) faz mestrado em Patrimônio Cultural; Alíca cursa Pedagogia - mantendo-se com uma bolsa e fazendo tranças - e Kadija cursa Sociologia. As cotas e a permanência na Universidade A política de cotas foi implementada na UFSM em 2012, com o objetivo de erradicar desigualdades sociais e étnico-raciais e democratizar o acesso ao ensino superior. Maria Rita ressalta que, apesar de ser um instrumento legítimo de validação do ingresso na Universidade, a vitimização é uma acusação frequentemente atribuída aos negros, em especial nas redes sociais. Esse discurso é evidenciado em algumas das entrevistas:

“Tinha colegas (...) que o discurso deles era: - Tu não precisou de cota para entrar aqui no Colégio Militar, tu não precisas de cotas agora. Quando eu falava que ia prestar vestibular e que eu achava importante prestar com cotas, (ouvia:) tá, mas tu não precisas, tu podes passar sem cotas (...). Foi nesse período, no final do Ensino Médio, que veio toda a discussão da inclusão das cotas na UFSM, e no Brasil.. Eu passei por situações assim, né. Dos próprios colegas falarem: - Não, a Anaya é negra, mas é como se ela fosse... (...) aquilo foi me marcando, e eu digo: nossa! eu vou prestar vestibular com cota, eu acho, sim, que a gente precisa, porque a gente passa mesmo por isso. Tá na nossa luta diária. Então esse enfrentamento diário, assim (...).  Me inscrevi então em Medicina Veterinária e consegui entrar, com o programa de cotas.” (Anaya, Mecidina Veterinária)

Da mesma forma como Anaya observa a necessidade e importância da política de cotas, segue o discurso de outra entrevistada que afirma ter orgulho de ser cotista:

“(...) eu sempre, aonde vou, levo a questão de ser cotista, porque pra mim é um orgulho, é uma bandeira, é uma luta que representa tudo isso. Cada cotista da universidade acho que tem que difundir isso, para que as pessoas introjetem isso, para que na sociedade não seja diferente ser cotista, pra legitimar! (...) Tem que ter orgulho de ser cotista e tem que ter toda uma luta, saber que isso foi uma luta, uma bandeira." (Jamila, Serviço Social)

A tese de Maria Rita também evidencia a necessidade de melhorias da política de permanência dos alunos na Universidade. Segundo ela, não basta criar mecanismos de acesso, se não são levadas em conta as dificuldades enfrentadas pelos alunos cotistas durante a graduação, até alcançar o Benefício Socioeconômico. A entrevista com Atinuké revelou a burocracia do processo que acabou por adiar o direito ao seu benefício por um semestre.

Eu consegui naquele momento, era uma burocracia, o Benefício Socioeconômico, eu não sei como é que está agora. No ano que eu entrei, no primeiro semestre foi negado, porque eu não tinha como comprovar a escritura de onde eu morava. Eu moro numa ocupação, a gente não tem escritura. (...) Só no segundo semestre eu consegui comprovar, e eles aceitaram (...) Precisam conhecer a realidade dos alunos que estão chegando na Universidade! (...) Tem limites para todos, imagina para nós, que viemos de uma realidade difícil, todo o contexto de acessar. (...) Pra mim foi muito positivo, do ponto de vista da inclusão. Aqui na Vila agora tu vês inúmeros alunos cotistas. A minha irmã é uma aluna cotista. O meu irmão é um aluno cotista. Meu irmão está quase se formando, está no 7º semestre da Administração e a minha irmã está indo para o terceiro semestre da Enfermagem. Então uma geração de cotistas, só aqui nessa casa. Vários alunos cotistas aqui na volta. Coisa que não se tinha acesso há um tempo atrás (Atinuké, Sociologia).

Falta de referências negras nos espaços acadêmicos Dentre os relatos de vida dos entrevistados, destacam-se outros  pontos considerados como dificuldades para os cotistas negros: o tema a ser abordado no trabalho de conclusão de curso, a falta de referências e bibliografias negras e a ausência ou invisibilidade de professores negros na Universidade.

“Eu não vou dizer que sofri um preconceito direto, por parte de professores, mas eu me senti extremamente negligenciado. Diretamente do curso, uma das minhas maiores dificuldades antes de eu encontrar meu orientador foi que eu sempre quis entender a minha religiosidade, só que de fato, ninguém trabalhava com religião de matriz africana. Eu não tinha uma fonte, eu não tinha alguém que me orientasse. (...) Durante todos os meus anos de  formação de Ensino Fundamental e Médio, eu não tive nenhum professor negro”. (Odé, História)

Maria Rita destaca que, como o acesso dos estudantes negros se deu em ampla maioria após a aprovação da política de cotas na universidade, “brevemente estaremos assistindo a defesas de teses dos nossos primeiros intelectuais negros da recente leva que, após prestarem concursos públicos, poderão ingressar em programas de Pós-Graduação.” A formação de novos pesquisadores, conhecedores da causa negra, desta forma, deve ampliar o conhecimento sobre a temática afro - questões relativas à religiosidade de matriz africana; do genocídio da juventude negra; sobre a mulher negra e sexualidade; e questões que envolvam o racismo, a justiça e a violência e criminalidade. Formado em Enfermagem, Agotime - um dos entrevistados - falou sobre a falta de referências negras durante a graduação e sua passagem pelo Hospital Universitário de Santa Maria, nas práticas acadêmicas. Agotime revelou que que foi gratificante, por fim, encontrar no trabalho uma enfermeira negra, em Pelotas. Ele afirma que se sentiu “protegido” por ela.

“Porque tu acaba te enxergando ali. Tu acaba só te enxergando e tu sabes que quando fores trabalhar, aquela inspiração pode servir para uma outra pessoa. Eu não sei. Não tem um sentimento que explique, mas a gente acaba assim. Por exemplo, eu e essa enfermeira, nossa relação acaba assim, mesmo sem falar, ela sabe que é uma referência pra mim. Sei que ela sabe. É uma troca mútua assim, que só no conversar, a gente vai conversando, eu acabo me apegando nela e ela acaba te protegendo de certa forma.” (Agotime, Enfermagem).

O cotista no mundo do trabalho   Findada a experiência acadêmica, a entrada no mercado é relatada de diversas maneiras pelos entrevistados. No caso de Kadja, formada em Ciências Sociais, as cotas não contribuíram para que acessasse o mundo do trabalho. A cientista social já trabalhava em um escritório de contabilidade, mas confessa que ter estudado em uma instituição pública fez um grande diferencial em seu ambiente de trabalho. Após ter ingressado no ensino superior, percebeu que alguns clientes passaram a tratá-la com mais consideração e passaram a cumprimentá-la, coisa que não acontecia antes. Por sua vez, Agotime, formado em Enfermagem, pontua que as ações afirmativas ajudaram tanto para ingresso no ensino, como no mundo do trabalho:

“Foi a porta que me abriu para o mundo. Não só ali na entrada, na Universidade, como a entrada no mercado de trabalho, agora. As cotas foram um divisor de águas na minha vida. Não tem como definir como outra coisa assim, porque realmente foi minha entrada na Universidade através das cotas e depois, a entrada no mercado de trabalho, pelas cotas.” (Agotime, Enfermagem)

Para Jamila, formada em Serviço Social, as cotas abriram novos caminhos, e acha que as pessoas precisam divulgar que foram cotistas. Jamila procura sempre declarar que foi estudante cotista da UFSM e acredita que isso é necessário para que haja uma cultura de reconhecimento e pertencimento da luta pela igualdade racial.

“Porque muitas pessoas se utilizam das cotas, até tem negros que não se afirmam, não tem uma identidade negra, mas na hora das cotas: Vou nas cotas”! Tanto é que pro meu filho, agora no ENEM, quando ele foi colocar, ele disse: - “Mãe, por onde eu me inscrevo? Eu disse: - o que é que a tua identidade, que tanto a gente fala, te diz? Ele me disse, assim: - Eu acho que sou legitimo pra cotista! Eu disse: - Então te inscreva! Ele ficou em primeiro lugar, enquanto cotista, e eu fiquei muito feliz. Eu acho que a gente está perpetuando, tá passando de geração a geração." (Jamila, Serviço Social)

Reportagem: Tainara Liesenfeld, acadêmica de Jornalismo Edição: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo Ilustração da capa: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial – A inspiração são as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou às artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As questões raciais e a população negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produção do artista, que é negro.]]>
UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-universidade-se-pinta-de-povo Tue, 13 Nov 2018 19:40:36 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4854 *Esta matéria foi atualizada em 21/11/2018, às 14:37. Dos 205,5 milhões de habitantes do Brasil, 46,7% se autodeclaram pardos e 8,2%, pretos. Apesar de, juntas, formarem a parcela majoritária da população nacional, essas pessoas raramente são vistas em comerciais de TV ou revistas, no atendimento de bancos, ocupando cargos de chefia em empresas e, até pouco tempo atrás, nas salas de aula das universidades. A luta contra a invisibilidade e as desigualdades faz parte da trajetória de Maria Rita Py Dutra, terceira mulher negra a se tornar doutora no Programa de Pós-Graduação do Centro de Educação da UFSM. A tese Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho, defendida pela professora em agosto de 2018, discute as situações e condições que influenciam os cotistas negros desde a formação na UFSM até a inserção, ou não, no mercado de trabalho. Para isso, Maria Rita ouviu relatos de experiências e analisou o universo que está por detrás da problemática, como a desigualdade nos âmbitos econômico e de acesso, o apanhado histórico, a construção de identidades e o conflito de interesses. Foram entrevistados formandos dos cursos de Ciências Sociais, Enfermagem, Fisioterapia, Relações Públicas, Medicina Veterinária, Serviço Social, Educação Especial e História Licenciatura. Como resultado, Maria Rita aponta que, para os estudantes entrevistados, a  política de cotas representou um divisor de águas, mudando totalmente suas vidas. “Foram as cotas que abriram um mundo de possibilidades para esses estudantes, em que o ingresso e a superação do discurso racista foi necessária para a conclusão do curso. Na maioria dos casos, o primeiro diploma de ensino superior na família”, comenta Maria Rita, que celebra: “A universidade se pinta de povo”. A pesquisadora entende que uma sociedade igualitária e justa é construída e orientada nos bancos escolares. “Faz parte disso possibilitar que excluídos ingressem no espaço acadêmico, mas que, para além, a estrutura acadêmica seja repensada para que ocorram mudanças radicais em busca da igualdade”, afirma Maria Rita no decorrer da pesquisa. Ela compreende, ainda, que olhar para a conclusão do curso e a entrada no mundo do trabalho “fornece informações importantes para pensarmos em resultados na educação e reavaliarmos, por exemplo, as barreiras que cotistas enfrentam”. Na tese, Maria Rita compartilha que estudar as ações afirmativas e o racismo fez com que ela refletisse sobre questões que a marcaram de forma indelével nos quase 30 anos de carreira no magistério público estadual, sobre as quais ainda carrega marcas e dores não removidas.   Política de cotas no Brasil e na UFSM O debate sobre as ações afirmativas reverberou no Brasil após a participação do país, em 2001, na III Conferência contra o Racismo e a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Em 2003, foi pautado na UFSM pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), e definiu-se como Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social. O sistema inclui o ingresso de afro-brasileiros, pessoas com deficiências, alunos de escolas públicas e indígenas no ensino superior. Em 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei das Cotas (nº 12.711/2012), que estabeleceu o sistema de cotas sociais e raciais para ingresso em universidades e institutos federais de todo o país. A legislação prevê a reserva de, no mínimo, 50% de vagas, por curso e turno, para estudantes oriundos de escolas públicas, além de destinar vagas para estudantes negros, pardos e indígenas, de acordo com o percentual populacional local dessas etnias. Perante a aprovação, surgiram várias perguntas quanto à legitimidade constitucional da política de cotas, às quais o Supremo Tribunal Federal (STF) respondeu, entendendo que a política fazia parte de um processo de correção das desigualdades sociais, inclusive daquelas baseadas na cor da pele. Atualmente, a UFSM não dispõe de uma política de acompanhamento e avaliação do processo de permanência dos cotistas negros. Segundo Maria Rita, essa questão ainda não despertou interesse nos pesquisadores por haver poucas referências de estudos sobre. Em sua tese, a professora salienta que a presença de alunos afro-brasileiros, indígenas, portadores de deficiência e provenientes de escolas públicas é asseguradora da diversidade e da democracia nas universidades públicas brasileiras. “A política afirmativa é necessária para reparar os aspectos discriminatórios que impedem o acesso de pessoas pertencentes a diversos grupos sociais às mais diferentes oportunidades”, pontua. Trajetória de Maria Rita Professora desde 1967, quando concluiu o Curso Normal, passou 30 anos ensinando e se especializando em diferentes áreas, como química, pedagogia, história, ciências sociais. Desde 1988, seu trabalho envolve a temática étnico-racial e o racismo. Na intenção de romper barreiras, Maria Rita fez parte do projeto Combatendo o Racismo através da Literatura Infantil entre 2003 e 2008, criado por um grupo de estudantes do curso de Museologia da Universidade Franciscana. Ali, contava histórias de questões raciais, além de ministrar oficinas e cursos a estudantes e professores no Museu Treze de Maio.   A experiência gerou frutos literários, como O Aniversário de Aziza e Dia dos Negros. Na UFSM, Maria Rita participa do grupo Negros e o Movimento Social Negro (MN), que trata sobre direitos e igualdades, buscando contribuir para o aperfeiçoamento das políticas de cotas na Universidade. Pelo que ela representa, organizadores e coletivos que construíram a programação das atividades do mês da Consciência Negra em 2018 na UFSM homenageiam Maria Rita como a primeira patronesse da data. O momento marca, ainda, uma década de política de ações afirmativas na Universidade. Reportagem: Bibiana Pinheiro, acadêmica de Jornalismo Edição: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo Fotografia: Dartanhan Baldez Figueiredo Ilustração da capa: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial - A inspiração são as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou às artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As questões raciais e a população negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produção do artista, que é negro.]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2018/11/05/dez-anos-de-acoes-afirmativas-na-ufsm Mon, 05 Nov 2018 14:58:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=45415 Processo Seletivo Indígena realizado em janeiro de 2017[/caption] A Universidade Federal de Santa Maria completa, em 2018, dez anos de atividades voltadas ao incentivo e monitoramento do acesso, permanência e aprendizagem dos estudantes cotistas de escolas públicas, pretos, pardos, quilombolas, indígenas, e, mais recentemente, migrantes e refugiados da Instituição. O Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Social e Racial foi instituído na Universidade por meio da Resolução 011/2007, com o objetivo de atender às reivindicações do movimento negro, indígena e dos estudantes com necessidades especiais, além de garantir a diminuição das desigualdades sociais e democratizar o acesso ao ensino superior. A resolução previu ainda a reserva de vagas para estudantes pretos e pardos, além dos estudantes oriundos de escolas públicas, indígenas e portadores de necessidades especiais a partir de 2008. Conforme a coordenadora do Núcleo de Ações Afirmativas, Sociais, Étnico-Raciais e Indígenas da UFSM, Rosane Brum Mello, até 2016 o Programa de Ações Afirmativas esteve submetido à Pró-Reitoria de Graduação (Prograd). Em maio de 2016 foi criada a Coordenadoria de Ações Educacionais (Caed), composta por três núcleos: o Núcleo de Ações Afirmativas, Sociais, Étnico-Raciais e Indígena, o Núcleo de Acessibilidade e o Núcleo de Apoio à Aprendizagem. Para garantir a efetividade das atividades desenvolvidas pelo Núcleo de Ações Afirmativas, foram organizadas três comissões, responsáveis por monitorar, assessorar e propor mudanças nas ações realizadas, pensando as necessidades de cada público assistido pelo núcleo: as comissões étnico-racial, indígena e social. Cada uma é composta por representantes da Instituição, além de representações dos movimentos sociais, como as centrais sindicais, entre elas Assufsm e Sedufsm, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e estudantes da Universidade representando os campi de Santa Maria, Cachoeira do Sul, Frederico Westphalen e Palmeira das Missões. Segundo Rosane, a comissão social constitui a última unidade formada no núcleo. A partir dela, são discutidas questões relacionadas à saúde mental dos estudantes e servidores, além de temas que envolvem o assédio moral e sexual, questões de gênero e a importância do sistema de cotas na Instituição. A comissão social possui, entre outras, representações do Colégio Politécnico e do Ctism. As atividades desenvolvidas pelo núcleo abrangem o processo de acesso e permanência na Universidade. Em relação ao acesso, Rosane explica que o trabalho é realizado de maneira integrada à Prograd, principalmente em relação ao Processo Seletivo Indígena. Nesse sentido, chama atenção para as atividades desenvolvidas com o intuito de divulgar o processo seletivo em 25 aldeias no Rio Grande do Sul. O contato com as comunidades é feito a partir de uma equipe formada por uma liderança indígena, um servidor da Universidade, além de dois estudantes indígenas, que levam as informações sobre a seleção para as aldeias. Como resultado desse processo de aproximação, em dez anos houve o ingresso de 100 estudantes indígenas na UFSM. Sete deles estão formados e, até o final de 2018, duas alunas indígenas do curso de Pedagogia receberão o diploma. Além disso, a partir da divulgação, o número de inscrições para o Processo Seletivo Indígena chegou a 461 em 2017, sendo que 303 foram homologadas. No total, mais de 500 pessoas foram contatadas pela Comissão. Rosane destaca ainda a importância de aproximar a Universidade das escolas públicas da região. Para ela, é preciso que os estudantes tenham conhecimento do processo de ingresso na Instituição, bem como saibam da existência do Núcleo e que ele está preparado para auxiliá-los e assisti-los. Diversas ações são realizadas As ações de incentivo e monitoramento ao acesso à Universidade envolvem ainda os estudantes pretos, pardos, quilombolas, além dos migrantes e refugiados. O Núcleo de Ações Afirmativas também desenvolve projetos voltados à questão da permanência na Universidade. Os programas envolvem monitorias, palestras, rodas de conversa, cursos, além de projetos de orientação e aconselhamento para a comunidade acadêmica. Entre as atividades desenvolvidas, destaca-se a série de rodas de conversas desenvolvidas em 2017, intitulada "Diálogos ressignificados em tempos de racismo", importante para refletir e discutir sobre as manifestações racistas que aconteceram na Universidade naquele ano. “As rodas de conversa são sempre com esse intuito de estabelecer o diálogo, discutir sobre temas emergentes, sobre questões que são importantes”, explica Rosane. As atividades têm como público-alvo a comunidade acadêmica, os colégios técnicos da Universidade e a comunidade externa. As questões trabalhadas envolvem a reflexão sobre as relações étnico-raciais na educação, aos preconceitos envolvendo racismo, homofobia e xenofobia. Outros aspectos abordados nas discussões dizem respeito à valorização da diversidade e ao combate a qualquer forma de discriminação. Segundo Rosane, um dos projetos que aborda essas temáticas é o “Interculturalidades”, que, só em 2017, contou com a participação de 420 pessoas. Além destas, o núcleo oferece ainda orientações para a comunidade acadêmica, palestras e cursos que podem ser solicitados pelo preenchimento do formulário disponível na página da Caed. O intuito de todas as atividades desenvolvidas pelo programa se baseia no princípio da redução das desigualdades educacionais e sociais, incluindo as ações de caráter homoafetivas e do etnodireito, conforme ressalta Rosane. Texto: Bárbara Marmor, acadêmica de Jornalismo, bolsista da Agência de Notícias Edição: Ricardo Bonfanti  ]]> UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/cultura-gaucha-para-todos-e-todas Wed, 19 Sep 2018 19:37:06 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4602 Nesta quinta-feira (20), no Rio Grande do Sul, celebra-se o Dia do Gaúcho. Nesta data, em 1835, iniciava a Revolução Farroupilha na então Província de São Pedro. A guerra, de caráter republicano, foi uma insurreição contra o governo imperial do Brasil. O dia 20, de tão emblemático, tornou-se feriado estadual instituído por lei em 1991, e é motivo de orgulho para muitos gaúchos.   No entanto, por trás da história da Revolução, alguns pontos ainda não foram plenamente esclarecidos, muitos dos quais causam divergências, especialmente na literatura. Um dos autores que trata sobre o assunto é o jornalista e historiador Juremir Machado da Silva, da Rádio Guaíba, Jornal Correio do Povo e docente da PUCRS. No livro História Regional da Infâmia - o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras, o autor desmistifica dados relacionados à presença dos negros durante a Revolução Farroupilha. Conforme a obra, escrita com base em mais de 15 mil documentos, houve uma possível traição na Batalha de Porongos, a última travada na guerra, em 1844. Neste episódio, grande parte dos negros do exército gaúcho foi massacrada durante um ataque surpresa, à noite, no acampamento, pelas forças imperiais. Juremir defende a tese de que a batalha serviu de estratégia vinda dos próprios comandantes gaúchos para o aniquilamento dos negros revolucionários.     Para debater esta e outras questões relacionadas à cultura e às tradições gaúchas, o Sesc/SM e a Gadea Produções promoveram um evento na UFSM, no dia 10 de setembro. Nele, a doutoranda em Etnomusicologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Clarissa Ferreira, confirmou a tese de Juremir. Além disso, compartilhou experiências próprias em festivais de música gaúcha, fazendo alusão à construção de identidade do gaúcho por meio desta arte. Este, inclusive, é o tema da tese de Clarissa, que será publicada em breve. A pesquisadora, nascida em Bagé, na região da Campanha, graduou-se em Música pela UFPel e fez mestrado, também na área de Etnomusicologia, na UFRGS. Atualmente, além de se dedicar à pós-graduação, mantém o blog Gauchismo Líquido e é colunista do jornal independente Sul 21. Durante o debate, a jovem ainda performatizou algumas canções do seu repertório - inclusive, no dia 20 foi lançada a música Manifesto Líquido, disponível em Streaming e no Youtube.   A reportagem da revista Arco conversou com a pesquisadora e musicista ao final do debate. Confira:           ARCO: Você acha que a cultura gaúcha é excludente com as minorias? Clarissa: Nas minhas pesquisas, percebi que a cultura gaúcha foi uma construção a partir de quem detinha esse poder. E aí houve uma escolha nessa construção, pensando que todas as tradições são inventadas, que houve uma escolha no que deveria ser representado ou não. Então, a gente vê nos escritos do Barbosa Lessa, por exemplo, de como naqueles primeiros resgates do Movimento Tradicionalista Gaúcho houve uma escolha do que seria contado. Nossa cultura é baseada na cultura das elites e é entendida como uma cultura superior, que é super questionável isso no pensamento de hoje. Também tem essa questão da representação do gaúcho pela macheza, pela virilidade, que acabou ficando muito em volta das representações do masculino, negligenciando outras identidades que não ficassem nesse papel, desse mito ocidental do gaúcho.   ARCO: Como foram suas vivências nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e nos festivais pelos quais vocês passou? Clarissa: Eu estive por uns oito anos em CTGs e por uns 10 anos em festivais nativistas. Foi um meio onde pude me profissionalizar como instrumentista, tive muita experiência prática do instrumento, do palco e de tudo que abarca essa minha atuação como musicista. Consegui conhecer vários músicos, conhecer sobre outros universos musicais a partir dessas vivências, mas também não me senti, só como violinista, completamente falando sobre o que eu deveria. Daí, em um período posterior, veio a composição, pela necessidade que eu tinha de falar através da canção.   ARCO: O tradicionalismo gaúcho ainda possui um pensamento conservador? Como ele se propõe na sociedade? Clarissa: Vai desde questões ideológicas até questões estético-musicais. Ideológico, porque vejo que é um tanto excludente em algumas esferas, que ainda tratam as mulheres de forma machista nas microconvivências, não só nas representações musicais. Especificamente nesse âmbito, a mulher ainda é muito subestimada. Há um patriarcado musical, e são sempre os homens que fazem as músicas, que fazem os arranjos.   ARCO: A mulher ainda é vítima de opressão na música gaúcha? Clarissa: A cultura gaúcha é muito baseada na cultura patriarcal, então vê a mulher como coadjuvante. A gente vê como a literatura gaúcha é sempre baseada em personagens masculinos, e na música é igual. São casos explícitos de violência simbólica e violência física, além da objetificação da mulher e a coisificação. Efetivamente, isso acaba se refletindo quando não nos dão espaço, não nos dão voz, interrompendo quando a mulher fala. São coisas ainda tidas como naturais. Quando eu começo a pensar sobre essa questão do machismo, vejo que não é igualitária a questão de gênero na música gaúcha.     ARCO: Do que o teu blog Gauchismo Líquido trata e por que você o criou? Clarissa: O blog busca trazer reflexões sobre a identidade gaúcha a partir de um viés da pós-modernidade, desse líquido que o Zygmunt Bauman fala que as coisas, hoje em dia, não são tão estanques. Elas são, na verdade, mais fluidas, que as identidades são de acordo com o lugar e com cada indivíduo. Assim, o blog surgiu quando eu estava no final do mestrado, em 2014, em um momento que eu tive várias reflexões sobre a cultura gaúcha. Além disso, eu já tinha convivido bastante nesse ambiente musical e sentia muito que não havia esse debate nas rodas de conversa. Por isso, criei um lugar de reflexão nesse espaço virtual.   ARCO: Você falou que as mulheres ainda não podem participar do festival Barranca, considerado um dos patrimônios do Estado. Por quê? Clarissa: O festival iniciou há mais de 45 anos, na cidade de São Borja, e começou como um acampamento de uma família, o grupo musical Angueras, destinado aos homens. Com o tempo, tomou maior proporção. Ter sido considerado patrimônio do Estado elucida bem o quanto esse festival representa para o Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, o quanto ele é excludente, porque na comunidade existem homens e mulheres. O contraditório no argumento das pessoas que proíbem a inserção de mulheres é que acham que nós vamos sofrer muito assédio. É como se os homens não pudessem controlar ou respeitar uma mulher. Acho que isso elucida bem o machismo. Colocam a proibição pelo fato de o festival não ter uma condição boa, porque lá é preciso ficar acampado e não existe estrutura de banheiros. Essa, para mim, é uma interpretação de ver a mulher como frágil e incapaz de passar por essas condições. A gente poderia passar por isso porque o que nos dá energia é compor e fazer música. A música também é importante para nós e não só para os homens.   ARCO: E a cultura gaúcha para os LGBTQs? Clarissa: Eu, inclusive, escrevi um texto que se chama Tradicionalismo, está na hora de sair do armário, a partir do qual eu fui percebendo como, na verdade, quem banca e quem realiza muitos dos eventos dos CTGs são homoafetivos, em grande maioria. Depois, percebi como isso é muito velado dentro do movimento e também muito criticado em outras esferas não explícitas. A partir dessas representações da macheza houve a proibição de alguns modos porque, dentro da cultura gaúcha, tem toda essa questão ideológica que se constrói, mas tem toda uma questão referente ao controle dos gestos e do comportamento da pessoas, de como se deve apresentar em um CTG, de como performatizar um “gaúcho machão” e como isso pode ser muito mais múltiplo porque existem pessoas de diferentes orientações sexuais. Dicotomizar homens e mulheres como identidade em um momento em que discutimos tanto questões de gênero e uma desconstrução de gênero para as pessoas se identificarem como bem quiserem é bastante questionável. Sem falar de outros preconceitos. Quando alguns homossessuais conseguem expor essa opinião, acabam, infelizmente, tendo que se excluir desse ambiente.   ARCO: Em dado momento de sua fala, você expõe alguns pontos que esclarecem bastante a respeito do mito de uma cultura estadual totalmente autêntica, sem, talvez, adaptações vindas de outros povos. Então, podemos afirmar que a cultura gaúcha nunca foi pura? Clarissa: Nunca foi. A própria miscigenação já comprova que a cultura do Rio Grande do Sul vem de uma hibridização do índio, do negro e do europeu. Todos os povos nativos que estão aqui, por mais que a historiografia tente ocultar, estão no nosso DNA. O chimarrão, por exemplo, é uma prática indígena, a própria erva-mate, também. Têm tantas coisas que a gente não dá os nomes certos aos criadores, esses cultivadores.        Repórter: Guilherme de Vargas, acadêmico de Jornalismo Editora: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo Fotos: Dartanhan Baldez Figueiredo  ]]>