UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com Universidade Federal de Santa Maria Mon, 20 Apr 2026 12:51:06 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com 32 32 UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/2020/10/20/35a-jai-professor-marcelo-gleiser-debate-a-relacao-entre-ciencia-e-espiritualidade Tue, 20 Oct 2020 11:51:35 +0000 http://www.55bet-pro.com/?p=54149

A 35ª Jornada Acadêmica Integrada da UFSM iniciou na segunda-feira (19), em sua primeira edição no formato virtual. A palestra plenária de abertura foi proferida por um dos principais nomes da ciência brasileira atual, o professor Dr. Marcelo Gleiser, físico, astrônomo e escritor.   Com o tema “Ciência e Espiritualidade: Incompatíveis?”, o professor apontou as semelhanças e diferenças entre a ciência e religião, e como ambas podem fazer parte da vida de um indivíduo sem conflitos, desde que os limites e a função de cada uma sejam plenamente compreendidos. 

Atualmente, Gleiser é professor titular de Física e Astronomia no Dartmouth College, nos Estados Unidos. É vencedor de três prêmios Jabuti, autor de 14 livros com traduções em 15 idiomas. Em 2019, foi o primeiro latino-americano a vencer o Prêmio Templeton, um dos mais prestigiados do mundo, honra que divide com Madre Teresa, Dalai Lama, Desmond Tutu, Aleksandr Solzhenitsyn, os cientistas Freeman Dyson, Martin Rees e outros líderes religiosos e intelectuais.

Com as restrições impostas pela pandemia de Covid-19, a transmissão foi realizada ao vivo e de forma aberta através do Youtube. Mais de 900 pessoas assistiram à palestra simultaneamente, o que corresponde a uma lotação do Centro de Convenções da universidade.

Para o reitor Paulo Afonso Burmann “ a nossa Jornada Acadêmica Integrada é o evento científico mais importante do interior do estado do Rio Grande do Sul, envolvendo nitidamente os três pilares que sustentam e norteiam o funcionamento da UFSM, o ensino ,a pesquisa e a extensão, integrados e dando vazão a toda experiência do conhecimento a nossa universidade,” comentou, em mensagem de agradecimento à organização do comitê executivo da 35ª edição da JAI e à todos os participantes deste ano.

Também participaram da abertura do evento, o vice-reitor, professor Luciano Schuch,  o Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Prof. Paulo Renato Schneider, a Pró-Reitoria de Graduação, Profª. Martha Bohrer Adaime , o Pró-Reitor de Extensão Prof. Flavi Ferreira Lisboa, e o Prof. Paulo Cesar Piquini, coordenador de Iniciação Científica (PRPGP) e presidente do comitê executivo da 35ªJAI.

Ciência e Fé: entre o conflito e o entendimento

Palestra com o professor Marcelo Gleiser teve mais de 900 espectadores simultâneos

Para o professor Marcelo Gleiser, a ciência anda em conjunto com a história da humanidade, pois o ser humano sempre esteve em busca de conhecer e entender de onde viemos, como viemos parar aqui e qual o sentido da vida. Para responder essas questões, a ciência e a religião geralmente são colocadas em lados divergentes.

Para explicar os motivos dessa incompatibilidade entre ciência e religião, Gleiser relembra alguns exemplos da história da ciência e de alguns conflitos entre ciência e religião através dos tempos. “Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Einstein esclareceram muitas questões sobre o universo, o planeta e a vida, mas é impossível chegar ao fim do conhecimento. Vivemos no paradoxo do Conhecimento, onde o nosso conhecimento em determinado assunto aumenta nos levando a pensar novas questões e conhecer o desconhecido. Portanto, a natureza do Conhecimento é essencialmente incompleta.”

O professor enfatizou ao longo da palestra que a ciência e a religião ou espiritualidade não são inimigas. “Quando você remove o conflito entre essa relação da ciência e fé todo mundo ganha. A partir do momento em que não há uma invasão no conhecimento e território de ambas as partes existe uma complementaridade de saberes que devem ser celebradas e não levadas ao patamar de guerra. A guerra entre elas resulta no afastamento das pessoas e o empobrecimento do espírito humano, a ciência celebra o saber, a nossa capacidade de nos relacionar com o desconhecido” encerra o professor Marcelo.

Ao final da palestra, o professor Gleiser respondeu aos questionamentos dos espectadores do evento. A primeira palestra plenária da edição de 2020 da JAI está completa e disponível para todos no canal do Youtube do evento .

A 35ª Jornada Acadêmica Integrada apresenta durante os dias do evento as palestras plenárias todos os dias, sempre às 9h, e as palestras temáticas terão início às 16h. A transmissão online será feita pelo Youtube. Acompanhe a programação no site oficial e no Instagram

Texto: Ana Júlia Müller Fernandes, bolsista da Agência de Notícias da USFSM e acadêmica de jornalismo
Edição: Davi Pereira

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UFSM - Feed Customizado RSS-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/finados-judaismo Sat, 02 Nov 2019 13:50:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=6075

A morte não é o fim, senão o princípio. Este mundo é um corredor que nos prepara para o mundo vindouro. Essa é a crença dos judeus. Eles supõem que as almas nobres, que cumpriram a maioria dos 613 mandamentos divinos, prosperam. As almas são eternas, porém precisam ser purificadas. Por isso, ao se passarem quatro gerações, retornam à terra, para cumprirem pendências ou castigos anteriores e, então, evoluírem.

Na tradição judaica, a morte é vista com tristeza, mas não com aflição. Assim, seus rituais fúnebres incluem uma série de tradições, que existem para prestigiar o falecido e também para confortar a família. Este é outro aspecto a ser destacado: são considerados enlutados somente pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, esposo e esposa. 

O empresário Jairo Amiel, que presidiu por 23 anos a Sociedade Beneficente Israelita de Santa Maria, explica que as pessoas são formadas por corpo e alma. “Quando adormecemos, a alma sai do nosso corpo e circunda. É um momento em que tu está desconectado dela. A mente pode ficar em funcionamento, mas a alma consegue se libertar e, quando tu acorda, ela volta para ti”, explica.  

Assim, quando alguém morre, também a alma se desprende do corpo. Porém, por motivos de enraizamento, ela ainda permanece por um tempo neste mundo. Essa é uma das razões pela qual o corpo de um falecido não pode ficar só. É necessário que as pessoas se revezem para acompanhá-lo em todos os momentos, até que seja sepultado. 

Tahará, a preparação do corpo

O primeiro passo após a morte de um judeu é a Tahará, ou seja, a limpeza de cada parte do corpo para que ele seja devolvido à terra. Durante o processo são recitadas bênçãos e, então, é colocada a mortalha. Ela é feita com o tecido morim, utilizado para confeccionar faixas e forrar sofás, na cor branca, com o qual são costurados dois “capuzes”. Antes de colocá-los no falecido há um momento em que as pessoas podem fazer sua despedida. Depois, um “capuz” é colocado no corpo e outro na cabeça do finado. “É o momento em que nós nos tornamos iguais, quando percebemos que não somos nada e que, independente das riquezas que juntamos durante a vida, no final vamos nos desprender de tudo”, afirma Jairo.  Após a colocação da mortalha, o falecido é depositado em um caixão, que deve ser o mais simples possível, já que a morte nos iguala. A tampa, que não possui vidro, é cerrada ali mesmo. Na tradição judaica, o corpo é considerado uma matéria impura e contaminante, uma vez que, quando a vida termina, ele entra em processo de decomposição. Assim, quem tocá-lo precisa realizar rituais de purificação. Além dessa questão de limpeza, o caixão também é mantido fechado para que se preserve uma memória bonita da pessoa em vida.

Pés direcionados para a porta

Quando levado ao local em que será velado, o caixão deve ser posicionado de forma em que os pés do morto estejam direcionados para a porta. De cada lado da cabeça é colocada uma vela, que, assim como a alma, representa a centelha divina. Por cima do caixão é posto um manto preto com a estrela de Davi.  Os enlutados ou amigos do morto também realizam um momento de homenagem, no qual falam sobre todas as coisas boas que ele fez durante sua vida. Se o finado for um homem, coloca-se por cima da mortalha seu Talit, uma espécie de manto de orações, que ele usou desde os 13 anos e que, neste momento, é rasgado, pois deixará de ser usado.  

Enlutados recebem cortes verticais em suas roupas

Ao chegarem no cemitério, quem não for Onem (enlutado) e não tiver visitado o local nos últimos 30 dias deve recitar a Bênção do Cemitério. A cerimônia fúnebre conta com vários momentos de oração, leituras de salmos e bênçãos em hebraico. O oficiante também faz um pedido de perdão ao falecido, em nome de todos ali presentes.  Um dos momentos de maior emoção é a Keriá. Com um estilete é feito um corte na roupa dos familiares enlutados, em sentido vertical. Ele simboliza a dor da perda e a forma como eles sentem seu coração dilacerado. Quando a perda é de um pai ou mãe, o talho é realizado do lado esquerdo, para mostrar que essa é a pior dor que existe.  Os judeus não colocam os corpos dos falecidos em construções de alvenaria, como carneiras. O caixão precisa ser enterrado sete palmos abaixo da terra. Cada Onem joga em cima dele três pás de terra, até cobri-lo. Também repete-se três vezes “porque do pó vieste e ao pó retornarás”.   Os demais presentes pegam então uma pedrinha - que fica em uma caixa na entrada do cemitério - e a depositam em cima do monte de terra, que agora cobre o morto. Ela tem a finalidade de mostrar que ali houve a visita de alguém. Sem nome ou informações, é apenas uma pedrinha para indicar que alguém gostava daquela pessoa e sente a sua falta. Terminado o sepultamento, há ainda a cerimônia de higienização das mãos, uma vez que irão sair de um local impuro.

Sepultamentos não ocorrem no Shabat e Yom Tov

Outra regra judaica proíbe a realização de sepultamentos no Yom Tov e no Shabat. O primeiro corresponde a todos os dias de festas religiosas. Já o segundo ao 7º dia de cada semana, que pode variar de acordo com o local, já que seu início é definido pelo crepúsculo - em Santa Maria começa por volta das 17:30 de sexta-feira e termina no mesmo horário ao sábado.  Se alguém falece nesse período, é preciso aguardar ele passar para realizar os atos fúnebres. Jairo Amiel destaca que “são dias que guardamos, então não se pode ir ao cemitério. Sábado é um dia feliz e ir no cemitério não é. É algo de saudade, tristeza, lembrança…”

As privações do luto

Passado o enterro, aqueles que fazem parte do grupo de enlutados possuem três períodos de observação. Denominado Shivá, ele compreende os sete primeiros dias, nos quais os Onem devem ficar na casa do falecido, já que sua alma visita o local durante esse período. Eles têm limitações como: não comer carne, não beber vinho, não tomar banho, não trabalhar, não cortar o cabelo, não fazer a barba, não ter relações conjugais, não cortar as unhas e não comprar roupas novas. São restrições de higiene e alegria em detrimento da perda sofrida.  A família também senta em bancos mais baixos ou no chão durante esse período, cobre os espelhos e quadros de fotografia, mantém sempre uma vela ou lamparina acesa e pratica caridade em nome do falecido. É deixada uma caixinha na casa, para recolher doações de quem a visita e, ao final, o valor é doado para alguém que necessita, em forma de homenagem a quem partiu.  O segundo período é de 30 dias após o falecimento, chamado Sheloshim. As atividades normais são retomadas, entretanto, os enlutados não podem comprar e usar roupas novas, participar de festas com música, ver TV ou ir ao cinema e os homens seguem sem poder se barbear. Ao completar o 30º dia, os Onem devem visitar o cemitério e recitar alguns salmos.  Por fim, há o Avelut, que corresponde aos 12 meses após o falecimento. O período é exclusivo para quem perdeu o pai ou a mãe e proíbe o uso de roupas novas, participação em festas, idas ao cinema, teatro ou viagens de turismo, entre outras. Ao completar os 12 meses eles precisam visitar o túmulo.  

Descoberta da Matzeiva

Em hebraico, Matzeiva quer dizer túmulo. “Segundo o livro de Gênesis, a pedra tumular é um ato de reverência e respeito ao falecido. A Descoberta da Matzeiva é um convite para uma cerimônia de apresentação do túmulo”, explica Jairo Amiel.  Ela deve ser feita no período de 30 dias até 11 meses após o sepultamento, para apresentar a todos a última morada do finado. Geralmente a celebração ocorre no domingo de manhã. A partir daí um último ritual se repete: a cada visita, uma pedrinha.  

Repórter: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Ilustração: Lidiane Castagna, acadêmica de Desenho Industrial

Mídia Social: Nataly Dandara, acadêmica de Relações Públicas

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista

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Na sexta-feira (7), acontece a palestra “A aquisição de crenças religiosas e a atribuição de crenças patológicas”, de José Eduardo Porcher. O evento acontece às 14h, na sala 2323 do prédio 74A (3º andar), com entrada livre. O objetivo da palestra é examinar a pergunta ‘Por que a crença em  Deus não é um delírio?’ 

O palestrante é pesquisador de pós-doutorado na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), tendo atuado anteriormente por dois anos na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em sua pesquisa, tem concentrado-se em problemas conceituais e explicativos relacionados à natureza de crenças anômalas e extraordinárias.

A promoção da palestra é do Grupo de Estudos em Cognição e Realidade (GECR) do Departamento de Filosofia. 

Com informações do Núcleo de Comunicação Institucional do CCSH

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Helaysa estava em uma doutrina dominical no centro de umbanda quando o Cacique do terreiro perguntou aos presentes: “Quem aqui nunca tomou antidepressivo?” Muitos levantaram a mão em resposta. A partir disso, ela passou a se questionar como seria o tratamento para a depressão naquele grupo em específico,  e se haveria alguma relação da doença com a mediunidade. Disto, surgiu sua pesquisa intitulada Psicoterapia e depressão na umbanda: um estudo de caso. Quem procura tratamento para a depressão com um psiquiatra, e é diagnosticado com esta doença, provavelmente receberá uma receita de antidepressivo. Porém, há quem acredite que sintomas como estes não são solucionados somente de maneira “material” e passa a procurar sistemas simbólicos, como a umbanda, para o tratamento da doença. A egressa do curso de Ciências Sociais Helaysa Kurtz Gressler Pires escreveu em seu trabalho de conclusão de curso que, ao ler um texto do autor Clifford Geertz, de 1989, intitulado “A Religião como Sistema Cultural”, ela começou a pensar em maneiras de estudar o grupo religioso ao qual pertencia. Para iniciar o trabalho, em 2011, Helaysa pediu permissão ao cacique. A maior “autoridade” do terreiro, porém, é o “Guia-chefe” da casa, Pai Ogum Beira-Mar, que lidera através do cacique, seu médium. A pesquisadora teve a oportunidade de perguntar ao Guia como a depressão era vista por ele. O Guia lhe respondeu que, pela visão da umbanda, esta doença se refere a tipos de desencontros decorrentes de uma má ligação entre o espírito e o corpo. O espírito pode estar muito além de seu tempo, e não consegue se adaptar; a pessoa pode não ter sido bem recebida no momento em que nasceu; ou está muito voltada aos bens materiais, preocupada somente com o “ter”. O diário de campo começou a ser produzido no final de 2011. Atualmente, Helaysa está cursando o mestrado em Ciências Sociais e, desde então, continua coletando dados, já que o tema também é parte de seu projeto. O diário contém o que a pesquisadora pôde observar dentro da casa de umbanda. Já as entrevistas foram realizadas com alguns médiuns para tentar descobrir o que levara aquelas pessoas a procurar o terreiro e a religião da umbanda. Os médiuns contaram sobre o ingresso na casa, e a maioria relatou ter alguma dificuldade na época, como problemas familiares, de relacionamento, ou uso de drogas. Helaysa verificou sintomas e características presentes em manuais de psicologia que poderiam ser relacionados à depressão, apesar de nem sempre serem percebidos pelos seus entrevistados como tal. “As pessoas falavam de como elas eram, e de como elas são. De como hoje (após a inserção no terreiro) se consideram mais fiéis a si mesmas. [...] Não existe um remédio ali, algo racional. Mas existe uma lógica”, ela completa.

 22 DE SETEMBRO DE 2011

Nesta noite de sessão aberta ao público, chamada “assistência”, iniciei minhas observações no terreiro, ao qual eu já pertencia há dois anos. Porém, agora ele tomava outra forma, pois eu não estava mais participando do grupo como uma integrante e sim como uma neófita pesquisadora que fazia suas primeiras incursões em campo. Não sabendo exatamente o que anotar/observar, registrei que havia 20 mulheres e 8 homens vestidos de branco e participando do trabalho na “corrente mediúnica”. Entre as 20 mulheres médiuns, 10 delas eram “passistas”; e entre os 8 homens, 5 eram “passistas”. Os passistas são os que recebem as entidades e também atendem as pessoas da “assistência”. Enquanto o “cacique”, médium-sacerdote responsável pelos acontecimentos da sessão, proferia sua fala inicial, eu anotava “essa primeira fala é um momento em que uma reflexão é proposta para a assistência, e também contém algumas informações sobre o modo de funcionamento do terreiro que marcam fronteiras religiosas, por exemplo, não usar sacrifício de animais nos seus rituais e não cobrar.” Desviando meu olhar para os médiuns que formavam a corrente mediúnica, observei que cada um deles encontrava uma forma diferente de se concentrar: uns se balançavam para frente e para trás; outros, com a mão no coração, fechavam os olhos e ficavam em um estado de meditação; outros estavam escutando a fala do cacique; outros, olhando para o congá (altar).

18 DE JANEIRO DE 2012

Depois de um período de preparação e exploração, decidi que seria mais oportuno realizar a pesquisa trabalhando como “cambona”. Então, me propus a iniciar o ano de 2012 nesse lugar. E nesse dia foi a primeira sessão de caridade do ano. Cheguei como sempre chego: colocando a roupa branca, cumprimentando o congá (altar) e me colocando à disposição para o trabalho daquela noite. Depois disso, preparei o material de que eu iria precisar para aquela sessão: o bloco e o lápis. Ajudei outra cambona a arrumar uma porta que estava fechando mal, cortei o papel com as fichas numéricas que são distribuídas por ordem de chegada às pessoas (consulentes) que vão buscar o terreiro para passe e orientações. Busquei saber como deveriam ser feitas as anotações que as entidades passam aos consulentes e onde seria o meu lugar na distribuição das tarefas de cada cambono. Fiquei responsável pelas balas que são distribuídas para as crianças e por abrir a porta de saída. Mas, depois do ritual de abertura, eu acabei me deslocando um pouco de função e acabei realizando outras tarefas também.

15 DE FEVEREIRO DE 2012

Nesse dia era sessão de pretos-velhos. Antes de iniciar a sessão, conversei com uma médium, que me explicou sobre o significado da sua guia (colar de contas), que me chamou muito a atenção. Além de um significado que remetia ao trabalho de suas entidades no terreiro, essa guia também identificava a transposição para seu trabalho como agente de saúde. Depois disso, conversei com uma médium cambona, que estava em fase de transição para a condição de médium passista, que já é capaz de dar passes. Frequentemente, os médiuns em desenvolvimento passam por um período trabalhando como cambonos para aprender observando e ajudando nos trabalhos. Essa médium que estava em transição não sabia exatamente o que fazia, se ficava como cambona ou não. Mas, com a minha participação no grupo dos cambonos, ela poderia ficar na corrente mediúnica. E, depois de iniciados os trabalhos, ajudei os outros cambonos a colocar os bancos na frente dos médiuns passistas incorporados com seus pretos-velhos e pretas-velhas. No transcorrer dos trabalhos de cambona, anotei receitas com conjuntos de ervas e cachaça, que serviam para dores no corpo, observei que nesse dia muitas pessoas da assistência levavam roupas e fotos de familiares. Próximo ao final da sessão, eu e os outros cambonos estávamos sonolentos, nos sentindo pesados e cansados. Eu cheguei a ficar com dor de cabeça, então direcionei um pedido de ajuda aos guias para que eles levassem aquelas energias que não eram minhas e a dor amenizou. E depois que já não havia mais pessoas na assistência, fomos ao centro do terreiro, onde fomos descarregados. Na sessão seguinte questionei o cacique Paulo sobre a minha dor de cabeça e descobri que, mesmo realizando o trabalho de “cambona”, a minha concentração deveria estar focada nas energias do congá, pois lá está o centro das energias da sessão e nós, cambonos, “somos as pontes entre o mundo espiritual, através da corrente mediúnica, e o mundo material da assistência”.

ENTREVISTA COM A MÉDIUM MARTA EM JULHO DE 2012

Marta estava no terreiro há 6 anos e sua porta de entrada foi buscar orientações através do Tarô. “Eu coloquei um tarô, ele [cacique Paulo] conversou comigo e me falou da mediunidade, me falou que eu poderia aceitar ali, ou eu poderia ir em qualquer lugar, em qualquer religião, aquela em que eu gostasse, ele me falou. Aí, eu fui lá na terreira tomar um passe, fui uma vez, duas vezes. Porque, na verdade, eu e o Leonardo [seu esposo], nós tínhamos muitos problemas de convivência. Hoje, eu até entendo, eu sei que nós somos duas pessoas bem diferentes, com opiniões diferentes. [...] Às vezes a gente acabava brigando, e a gente acabou se separando umas três vezes. E, aos pouquinhos, a gente foi levando. Nessa época em que eu fui conversar com o Paulo, ele botou tarô e me disse que a maior parte dos meus problemas seria a mediunidade desajustada. Então, eu não tinha um controle do que... [...] ‘Tá, mas e aí, o que faz?’; ‘Ah, tu tem que achar um lugar!’ Passou um tempo, eu fui tomar um passe, a coisa complicou de novo e eu fui marcar outro tarô. Aí, ele conversou comigo, me acalmou, me falou sobre a mediunidade de novo e tal e coisa. A coisa melhorou. Complicou de novo e eu marquei o tarô de novo. [...] Tá, tudo bem, acalmou. Parecia que aquilo era mágico, eu é quem não entendia que aquele tarô e aquela conversa dele mexia comigo, mexia com a minha energia, na verdade, cada vez que eu chegava ali. E trabalhava, modificava o meu pensamento, e aí, acalmava. Por quê? Porque eu me acalmava. E nesse tarô, o último, o terceiro tarô que eu marquei, ele simplesmente abriu e disse para mim que ele não tinha nada mais para me dizer, e o meu problema era mediunidade, que ele já tinha me falado, e o meu problema estava todo em torno da mediunidade desajustada. Aí, eu meio desnorteada da cabeça, que não sabe para que lado tu vai, eu peguei e disse para ele ‘Bom, eu quero ouvir alguma coisa, eu estou te pagando o tarô!’ Ele disse assim: ‘Não seja por isso, eu te devolvo o dinheiro!’ E aquilo parece que me deu um choque de realidade e ele me disse: ‘Eu te pedi para tu procurar uma religião e tu procurou, para ir lá de vez em quando. Tu não entrou de cabeça na tua religião, tu não modificou as tuas atitudes. Então, como tu quer um resultado?’”

ENTREVISTA COM A MÉDIUM AMANDA EM JULHO DE 2012

Amanda estava há 4 anos no terreiro e sua história envolveu uso e abuso de álcool e psicoativos. Ela foi a uma sessão junto com sua tia. Segue ela: “Eu tomei um passe com um mentor (guia) muito bom, mas saí de lá ainda com muita vibração. Voltei e falei com o cambono, falei que eu estava ruim de novo. Aí, Pai Ogum pediu que eu esperasse até o final. E eu esperei até o final. Quando ele me chamou para trabalhar e eu cheguei na frente dele com muita vibração, tremendo toda e ele disse assim para mim: ‘Bem-vinda! Eu estava te esperando!’ Quando ele abriu os braços para mim, eu não vi mais nada, eu só sentia que meu corpo estava levitando e aqueles pontos de Iemanjá. Ele trabalhou, acalmou a vibração e disse que eu tinha muita mediunidade e que eu tinha que desenvolver. [...] Eu lembro que eu chorava muito, eu não conseguia falar de tanto que eu chorava. Na outra semana eu marquei um tarô com o Paulo. Quando eu entrei na sala e o Paulo me olhou, eu comecei a chorar, eu chorava, chorava e eu comecei a contar a minha vida para ele. Das pessoas com quem eu tinha me envolvido, porque até aquele momento eu ainda era viciada em droga, eu ainda era viciada no álcool, porque eu bebia muito, eu ganhava a minha vida dançando na “zona” e aí eu comecei a contar para ele. Só o que ele disse para mim foi que era só para eu aceitar a minha missão e me ajudar, que as coisas iam melhorar. Eu lembro que, naquele dia, ele fez um reiki comigo e eu não acreditava em amor, eu não acreditava em paixão, eu não acreditava que a gente podia ser feliz. Para mim era o momento e mais nada, era aquilo e mais nada, não tinha sentimento pelas pessoas. Eu era como se tivesse uma pedra no coração. Aí, ele conversando comigo, ele disse que ia me ajudar, mas que para isso eu precisava me ajudar e que era para eu aceitar a espiritualidade na minha caminhada. E eu comecei a pensar.” Depois de contar todo processo pelo qual ela passou para deixar seus vícios e contar sobre como conheceu seu marido, ela disse: “Hoje eu sei o que é amar, hoje eu sei o que é ser feliz, hoje eu sei o que é tu estar no fundo do poço e tu recomeçar de novo.”
Repórter: Myrella Allgayer
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