10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 17 Jun 2021 21:12:38 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico 10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/liberdade-expressao-agressao Mon, 10 May 2021 13:00:09 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=6424

Com o crescimento do uso da internet, aumentam também os discursos de ódio às minorias, muitos deles feitos sob o argumento do direito ao livre dizer

“Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. O 19º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos é fundamental para o exercício da cidadania, uma vez que garante, além da comunicação, o acesso à informação. A realidade, entretanto, mostra como essa liberdade de expressão tem sido usada para amparar discursos de ódio.

De acordo com a coordenadora do Núcleo de Direito Informacional da UFSM, professora Rosane Leal, a propagação de discursos de ódio deve-se à ideia de que há uma superioridade do emissor da mensagem e uma inferioridade do grupo destinatário. “Ela é uma mensagem claramente preconceituosa e que, além de discriminar e, muitas vezes, desumanizar o destinatário, também incita a violência”, afirma. 

A professora explica que alguns destes discursos podem ser explícitos, enquanto outros são melhor articulados e possuem como finalidade posicionar a opinião pública de maneira contrária ao grupo cujo qual as agressões são dirigidas. Rosane afirma que em qualquer um dos casos “há tanto uma tentativa de desqualificar o grupo, quanto de incitar alguma forma de violência. Essa violência então precisa ser partilhada. O emitente do discurso de ódio convida outros.” 

Ódio biopolítico 

Por não existir uma lei própria para punir discursos de ódio, eles acabam enquadrados em outros crimes, de acordo com as suas especificidades e consequências geradas. Cabe à justiça classificar como dano moral, assédio, discriminação, racismo ou outros delitos. Entretanto, alguns casos criam margem para interpretações diversas, sobretudo quando resguardadas pelo princípio da liberdade de expressão. 

Diante desse tensionamento tênue e de delicada classificação, o projeto de pesquisa da UFSM “Moralidades contemporâneas, fundamentalismos pós-modernos: a circulação dos discursos de ódio na mídia contemporânea”, coordenado pela professora Aline Dalmolin, trabalha com a conceituação de ódio biopolítico, que desejaria a eliminação de uma raça inteira. “São agressões, já na nossa leitura, que visariam não a pessoa na sua individualidade, mas sim o caráter biológico do envolvido, pela sua cor de pele, gênero, orientação política…que são tratados como se fossem raças”, explica. Segundo Aline, com o direito ao livre dizer e a ascensão da internet, tornou-se maior o espaço que temos para expressarmos nossas opiniões. Porém, o que deveria ser um aspecto positivo traz consequências preocupantes. “Cada pessoa se sente no direito de falar de forma livre e toma por princípio que a liberdade de expressão seja um valor absoluto, quando na verdade ela não é”, destaca. A professora Rosane complementa que, ao mesmo tempo em que tratados internacionais reconhecem a liberdade de expressão, eles também colocam condicionantes, já que ela pode sofrer limitações quando abalar o direito de outras pessoas. 

 

Redes sociais como propagadoras 

Com a popularização da internet, a tecnologia possibilitou aos usuários uma maior difusão de ideias e pensamentos. Consequentemente, os discursos de ódio tiveram sua abrangência amplificada. Nas redes sociais, além dos internautas disporem de uma ferramenta para externalizar e divulgar suas opiniões, eles também encontram apoio de outros que pensam de forma semelhante. 

A tecnologia foi a ferramenta que, além de dar voz a esses grupos, também lhes deu seguidores. A professora Aline explica que, ao encontrarem um público que aceita, compactua e também produz conteúdos que incitam à violência, os emissores sentem-se cada vez mais livres para manifestarem discursos de ódio. 

Sobre os receptores atingidos, a professora Rosane contextualiza que geralmente são minorias sociais, comunidades que possuem uma vulnerabilidade histórica. Essas minorias não são grupos quantitativamente inferiores, mas sim pessoas que sofrem violências estruturais, tanto da sociedade, quanto dos órgãos públicos, que legitimam e reproduzem essa violência. “Ainda que a internet dê fala para esses grupos atingidos, não são as mesmas condições de fala. O grupo é tão desumanizado que todos os dias é perseguido. As vozes são silenciadas ou até mesmo ceifadas”, complementa. 

 

Polarização 

A partir das redes sociais é possível replicar informações em grande escala e, com isso, disseminar fake news. Conteúdos falsos são fundamentais para a propagação de discursos de ódio e contribuem para a polarização da sociedade. Grupos com visões opostas afastam-se, posicionam-se em extremos e, cada vez mais, isolam-se de quaisquer ideias que contraponham-se as suas.

As mídias sociais têm algoritmos, recursos que selecionam públicos e assuntos. Eles coletam nossos dados e nos inserem em uma “bolha”, na qual estão, geralmente, pessoas com posicionamentos semelhantes aos nossos. Para a professora Rosane, nós temos uma falsa ideia de liberdade, mas somos vigiados o tempo inteiro. “Eles vêem tua tendência, quem são as pessoas com quem tu convive…tu vai receber somente notícias que vão acentuar a tua visão política de mundo”, afirma. 

A Organização Não Governamental SaferNet é a primeira entidade brasileira a criar um canal para receber denúncias anônimas de crimes de ódio na internet. No período eleitoral de 2018, entre 16 de agosto e 28 de outubro, foram registradas 39.316 denúncias. Mais do que o dobro em relação ao pleito de 2014, quando foram feitas 14.653. O aumento reflete a polarização no país e as consequências das fake news. 

 

Memes e política 

Populares no ambiente digital, os memes são capazes de transformar qualquer assunto, pessoa ou ação em riso. Mas como separar piada e ofensa? O professor da Universidade Federal Fluminense, Viktor Chagas, é coordenador do Laboratório de Pesquisa em Comunicação, Culturas Políticas e Economia da Colaboração, que fundou o #MUSEUdeMEMES. O projeto nasceu do interesse em discutir o fenômeno de maneira aprofundada. 

Para Viktor, a distinção entre humor e ofensa é um dos problemas mais complexos que o grupo busca responder. Do ponto de vista de quem faz a piada, não há uma resposta. O limite é dado por quem recebe a brincadeira. Cada audiência compreende de determinada maneira. E, se a brincadeira ofende alguém, ela não é e talvez nunca tenha sido uma brincadeira, explica. “Não se trata de cercear a liberdade de expressão, mas de garantir uma condição de equanimidade entre os sujeitos políticos, pois, a natureza do humor é trabalhar com estereótipos, e os estereótipos não incidem sobre as classes hegemônicas, eles incidem sempre sobre as minorias”, complementa. 

Além disso, os memes são resultado do que o professor caracteriza como um novo processo de socialização da informação. Públicos que antes não tinham acesso à informação, com a popularização da internet passaram a ter. Mesmo que seja de uma forma rasa. O pesquisador mostra que, se por um lado é ruim que o conhecimento circule de modo superficial e possa favorecer radicalismos, por outro é bom que esses novos públicos tenham um primeiro contato de letramento político. 

Viktor afirma que os memes são usados para propagar discursos de ódio, mas que tal característica não está sempre presente. “Ela é resultado de uma série de circunstâncias com as quais estamos sendo confrontados em nossa experiência”, comenta. Segundo ele, as figuras de humor são apropriadas pela cultura do ódio, pois tornam mais simples e superficial a informação política, o que garante que todos tenham acesso. 

Reportagem: Melissa Konzen e Paulo Cezar Ferraz

Diagramação e ilustração: Lidiane Castagna

Edição: Maurício Dias

Revisão: Alcione Bidinoto

*Matéria publicada na 11ª edição impressa da revista Arco. 

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/cachaca Mon, 15 Feb 2021 19:06:12 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5568

Ouça este texto:

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Outro dia, eu estava conversando com alguns alunos, e meio que de brincadeira disse que, se existisse internet quando era jovem, hoje eu estaria rico. Como é fácil ter ideias e se informar ali, né?! Mesmo sem as tecnologias, a minha curiosidade fez com que eu aprendesse várias atividades, desde criança. Fui um moleque introspectivo, que não costumava estudar muito, mas aprendia com facilidade. Tinha o hábito de mexer e desmontar alguns itens domésticos, como a máquina de costura da mãe. Assim, aprendi a manusear equipamentos, afiar ferramentas, soldar, fazer instalação elétrica e algumas coisas de mecânica – enfim, uma série de coisas.

Quando me tornei gente, não sabia exatamente que profissão iria abraçar. Fiz um teste vocacional, e o resultado deu “pluriaptidão”, mas com um viés para as ciências médicas. Bom, fiz vestibular para Medicina, quase passei. Faltaram alguns pontos. Tempos antes, comecei a aprender técnicas de marcenaria com meu irmão mais velho. Isso se tornou “uma cachaça”, e comecei a trabalhar na fabricação de móveis. Mesmo assim, fiz vestibular para Ciências Econômicas, por ser um dos únicos cursos noturnos disponíveis na UFSM. Passei com certa facilidade, mas não gostava da área. Meu negócio era a madeira. Mesmo assim, me formei Bacharel em Ciências Econômicas em 1985.

Continuei trabalhando de forma autônoma, lidando com as muitas dificuldades que os planos econômicos da época nos impuseram. Até que, em 1994, abriu um concurso público na UFSM para marceneiro. Para quem já tinha esposa e uma filha de sete anos, pensei que seria uma opção mais segura, dado que, embora o salário fosse pequeno, havia a estabilidade de um emprego público.

Entrei para a UFSM na marcenaria da Proinfra, onde trabalhei até 2007, quando fui convidado por telefone pelo então coordenador do Desenho Industrial, o professor Luiz Antonio Netto, para assumir, no curso, o laboratório que estava sendo criado. Como eu já estava trabalhando há bastante tempo no mesmo lugar, pensei: “Tá na hora de mudar”, mesmo sem conhecer o laboratório.

Quando cheguei, as máquinas ainda estavam todas dentro de caixas, desmontadas. Percebi que tinha muito trabalho para fazer. Minha inquietude se uniu à curiosidade e a todas as coisas que eu havia aprendido. Mesmo sem ser minha responsabilidade, comecei a encaixar os motores, as ligações elétricas e, assim, dia após dia, fui colocando em funcionamento parte do que temos hoje. E aqui estou desde então.

Começo bem cedinho, às sete horas. O tempo todo tem alunos e professores no laboratório. Tenho uma boa relação com todos, e isso ajuda a tocar os desafios que sempre aparecem, em maior ou menor dificuldade. Posso dizer que já fizemos protótipo de geladeira, interior de ônibus, eletrodomésticos, cadeiras, equipamentos e dispositivos para pessoas especiais, sapatos, muitos projetos.

Fico muito contente quando um ex-aluno se encontra num período de sucesso. Isso faz com que esse “quase” idoso tenha mais ânimo e vontade de continuar auxiliando essa meninada a crescer profissionalmente e a se tornar seres humanos melhores.

Daqui a algum tempo irei me aposentar, levando a certeza de que cumpri um papel social importante, auxiliando na formação de novos profissionais. Também trago comigo a realização pessoal de fazer o que gosto, sempre com dedicação e carinho. Penso que só por meio da educação e do conhecimento mudaremos a nossa triste realidade social.

Texto de Darcy Wiethan,  marceneiro do Laboratório de Modelos Tridimensionais (Labtri) do Departamento de Desenho Industrial da UFSM

Ilustração: Noam Wurzel
Lettering: Deirdre Holanda
Locução: Marcelo de Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/somos-todas-medicina Thu, 15 Aug 2019 18:15:59 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5573 Ouça este texto:

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Somos medicina,
Somos mujeres
Somos brujas
Somos todo lo que se puede y quiere ser,
sin miedos ni mordazas.
¿Por que tienen miedo de nosotras?
Porque somos la cura, porque somos el amor, y el amor puede todo lo que quiere, por eso,
por eso tienen miedo de nosotras.
Pueden intentar silenciarnos, pero somos semillas, somos aves en el vuelo,
somos el viento, la lluvia.
No pueden detenernos, no hay cómo detener la fuerza de la naturaleza, del amor.
Yo estoy en todas, todas están en mí.

SOMOS TODAS MEDICINA Somos remédio, / Somos mulheres, / Somos bruxas / Somos tudo o que se pode e quer ser, / sem medos nem mordaças. / Por que têm medo de nós? / Porque somos a cura, porque somos o amor, e o amor pode tudo o que quer, por isso, / por isso têm medo de nós. / Podem tentar nos silenciar, mas somos sementes, somos aves em voo, / somos o vento, a chuva. / Não podem nos deter, não há como deter a força da natureza, do amor. / Eu estou em todas, todas estão em mim.

Autora: Isabel Cristina Lourenço da Silva, Engenheira Agrônoma e mestra em Extensão Rural pela UFSM. Atualmente, é aluna do curso de Licenciatura em Educação do Campo, no polo Seberi da Universidade.
Lettering, Ilustração e Diagramação: Deirdre Holanda
Locução: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/vendedores-do-oriente Thu, 18 Jul 2019 18:58:46 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=5972 Ouça esta reportagem:

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Para as lentes de Ricardo Ravanello, o dia a dia de diferentes pessoas e lugares rende os melhores retratos. Com o objetivo de se inserir em realidades distintas da sua, o professor de fotografia do Departamento de Desenho Industrial da UFSM participou de cursos na Ásia e na África. A partir deles, surgiu a inspiração para a série Vendedores, produzida entre 2015 e 2017, com comerciantes de rua do Marrocos, Índia, Vietnã e Camboja. O fotógrafo considera os mercados públicos “uma espécie de janela para o passado” e retrata, nas suas fotografias, a peculiaridade de uma forma de comércio que passou a ser rara em vários locais do mundo, mas continua fortemente presente nas culturas orientais observadas por ele. Como filosofia de criação, o fotógrafo adotou dois aspectos fundamentais: o primeiro é a materialidade, que explora os processos da impressão química e dá à fotografia condição de originalidade, exclusividade e raridade. O segundo ponto reconhece a essência da foto como produção ficcional, capaz de carregar imaginários – fator que permite explorar a emocionalidade humana, contar histórias e transformar elementos do mundo visível em objetos estéticos. Por terem caráter documental – gênero que trabalha no registro cultural ou artístico de um momento -, a produção das imagens desafiou a introspecção de Ricardo, pois era necessária a sua integração com o lugar e a população: “Você precisa criar um laço com as pessoas antes de fotografar. Isso tem que acontecer quase de forma imediata, porque você está de passagem por um local”, relata o docente, que aliou a compreensão de estética à técnica fotográfica e à intuição na escolha das cenas e dos personagens que podem ser vistos neste ensaio.

Reportagem: Martina Irigoyen, acadêmica de Jornalismo
Diagramação: Lidi Castagna, acadêmica de Desenho Industrial
Locução: Marcelo de Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/entrelacos-artisticos Thu, 11 Jul 2019 14:26:43 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5563 Ouça esta reportagem:

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Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, ou apenas Frida Kahlo, foi artista, professora e tornou-se símbolo de empoderamento feminino. Sua trajetória inspirou filmes biográficos, livros, músicas e outros produtos culturais e políticos no mundo todo. Em 2018, a Editora UFSM lançou a obra O Movimento Criativo e Pedagógico de Frida Kahlo, escrita pelo professor dos cursos de licenciatura e bacharelado em Dança da UFSM Odailso Berté. A partir do processo criativo desenvolvido pela pintora em seus trabalhos, o autor do livro decidiu debruçar-se sobre o trabalho docente de Kahlo e sua lógica combinando corpo, experiências e imagem.

Para Berté, a inspiração para escrever o livro se explica através da “radicalidade de Frida em assumir no corpo a etnia, a identidade afetiva-sexual e a deficiência física de maneira performativa”. Embora não seja seu primeiro trabalho estimulado pela história de Kahlo, o escritor entende que o destaque do livro é explorar diferentes e quase desconhecidos movimentos da pintora. Para ele, é necessário o reconhecimento de aspectos da atividade criadora da artista, enfatizando que “arte é, primeiramente, trabalho, profissão, processo, investigação, e não um mero instrumento de sublimação ou de qualquer outra ação curativa ou salvadora”. Segundo Berté, Frida vivia em constante transformação e movimento.

Um dos períodos destacados pelo autor – e que, não à toa, encontra-se no título do livro – é o que Kahlo dedicou à pedagogia. Foi no período da atuação como professora na Escuela Nacional de Pintura, Escultura y Grabado La Esmeralda, na Cidade do México, que Frida criou obras reconhecidas, como Autorretrato como tehuana, Autorretrato con monos e Raíces, todas de seu primeiro ano na instituição, 1943. Embora tenha permanecido apenas dois anos de maneira oficial, a artista desenvolveu processos artístico-pedagógicos até o final da vida, em 1954, com um pequeno grupo de alunos chamados Los Fridos. Odailso Berté relata que as práticas de ensino da artista eram extremamente ligadas à vida sociocultural e às experiências dos alunos.

De acordo com Berté, que viajou até o México para conhecer sobre o passado da artista, O Movimento Criativo e Pedagógico de Frida Kahlo é “um livro acadêmico-afetivo que pode interessar a artistas, professores, investigadores e admiradores da pintora e professora”. Motivado pela história de Frida, o autor afirma: “Kahlo me move a construir conhecimento e arte com o outro, indo ao encontro da vida e sempre atento ao momento histórico que nos cabe viver”.

Reportagem: Paulo Ferraz
Ilustração e Diagramação: Noam Wurzel
Locução: Marcelo de Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-pesquisa-como-forma-de-prevencao Wed, 03 Jul 2019 17:49:01 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5546 Ouça esta reportagem:

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Alguns mosquitos carregam consigo ameaças à saúde da população, devido às doenças que podem transmitir, como Chikungunya, Dengue e Zika vírus. Em busca de avanços científicos que relacionem a saúde pública a esses insetos, o egresso da UFSM Gabriel da Luz Wallau se especializou na área de Biologia Molecular e Bioinformática e, atualmente, trabalha na unidade da Fundação Oswaldo Cruz de Aggeu Magalhães, em Recife, onde existe um setor de pesquisa dedicado à Entomologia – o estudo dos insetos.

Gabriel ingressou no curso de Ciências Biológicas da UFSM em 2004 e só saiu da Universidade em 2013, ao concluir o doutorado em Biodiversidade Animal. Quando conheceu a disciplina de Biologia Celular, ministrada pelo professor Elgion Loreto, o acadêmico percebeu que havia descoberto o rumo de sua carreira: ser pesquisador. Na disciplina, Gabriel aprendeu como funcionam as células do corpo humano e dos animais, bactérias e plantas. “Ao produzir conhecimento científico, estamos ajudando a humanidade a se conhecer melhor e conhecer melhor as coisas que a rodeia”, observa o biólogo.

Durante o segundo semestre da graduação, o pesquisador iniciou estágio no Laboratório de Biologia Molecular e Sequenciamento, o LabDros, orientado pelo professor Elgion. Ali, estudava as moscas das frutas, chamadas drosófilas – que conferem o sufixo Dros ao Laboratório –, e foi nesse período que se interessou por se aprofundar no estudo do genoma e dos parasitas genéticos.

Entre genomas, mosquitos e computadores

O genoma é o conjunto de letras químicas que determinam características de um organismo, como, por exemplo, cor ou tamanho. O trabalho de Gabriel no momento é sequenciar o DNA de diferentes espécies de mosquitos, ou seja, estudar a sequência do genoma desses insetos. A partir desse estudo, busca-se permitir um melhor controle populacional, podendo diminuir o número de mosquitos ou até mesmo eliminá-los. Segundo o pesquisador, o genoma dos mosquitos é gigante, quase do tamanho do genoma humano (três bilhões de “letras” químicas), e por esse motivo não é possível realizar esse estudo manualmente anotando no caderno. É para suprir essa necessidade que se faz uso da bioinformática, outra área de atuação de Gabriel. A bioinformática utiliza os computadores para organizar, ler e interpretar informações sobre as sequências genômicas. O objetivo
final dessas pesquisas é entender como funciona o mosquito para poder prevenir a transmissão de doenças para os seres humanos.

Mesmo cinco anos depois de ter saído da UFSM, Gabriel ainda mantém contato e colabora com a Universidade, principalmente com o LabDros: “Trocamos ideias sobre projetos, ele nos auxilia na área de Bioinformática e compartilha amostras biológicas para analisar, tanto na UFSM quanto em Recife”, conta o professor Elgion. A área da pesquisa científica fascina Gabriel por estar em constante mudança: “Não existe trabalho repetitivo em ser cientista. Como ficar cansado ou entediado com algo que todo dia apresenta um quebra-cabeças novo para ser resolvido?”, questiona. Tanta admiração por ciência levou Gabriel a ocupar um lugar semelhante ao de quem lhe transmitiu conhecimento. A vontade de buscar e compartilhar descobertas tornou Gabriel orientador, no Instituto Fiocruz, de um grupo de pesquisa na área de patógenos/vetores, que abrange o conhecimento que ele adquiriu durante o período acadêmico na UFSM.

Reportagem: Mirella Joels
Ilustração e Diagramação: Pollyana Santoro
Locução: Marcelo de Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/financas-alem-dos-numeros Thu, 27 Jun 2019 19:40:13 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5543 Ouça esta reportagem:

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Estudar finanças, cuidar das despesas, pesquisar preços e taxas de juros pode parecer complicado, longe da realidade do cotidiano e sem importância – mas não é. Tornou-se, cada vez mais, algo primordial tanto para as finanças pessoais quanto para a economia do país. Ao mostrar que a alfabetização financeira contribui diretamente para reduzir a propensão ao endividamento e a compras compulsivas, a pesquisa Desmistificando a alfabetização financeira: uma análise da perspectiva comportamental foi premiada como o melhor artigo científico da 18ª International Finance Conference. “O objetivo, em geral, é estudar as influências que as pessoas sofrem ao tomar suas decisões financeiras”, explica Kelmara Mendes Vieira, do Departamento de Ciências Administrativas da UFSM, uma das autoras do texto. Ao lado de Ani Caroline Grigion Potrich, doutora em Administração pela UFSM e docente na Universidade Federal de Santa Catarina, a autora afirma que as três condições para que a pessoa se torne alfabetizada financeiramente são: educação financeira, atitude favorável e comportamento adequado na hora de tomar uma decisão.

O primeiro requisito se baseia no conhecimento de finanças, como saber o que é a taxa de juros, compra a prazo, e como elas se aplicam. A atitude favorável, por sua vez, supõe que a pessoa queira usar os conhecimentos financeiros e, por fim, use-os na hora da compra – sendo este o comportamento adequado. “A pessoa sabe o que é juro, mas, na hora da compra, ignora esse fator. Ela não seria, então, completamente alfabetizada financeiramente. O indivíduo tem que ter o conhecimento, mas também a atitude e o comportamento financeiro adequado”, explica Kelmara.

Para realizar a pesquisa, as professoras visitaram, durante dois anos, os 31 municípios da região centro-oeste do Estado, incluindo Santa Maria, onde foram aplicados 2.487 questionários sobre conhecimento, atitude e comportamento financeiro. A partir das respostas, as pesquisadoras fizeram um termômetro de alfabetização financeira, avaliando os aspectos de propensão a compras compulsivas e a endividamentos. Como resultado, concluíram que quanto maior o nível de alfabetização financeira, menos a pessoa está propensa ao endividamento. Esse dado é ainda mais presente quando os indivíduos têm comportamentos de compras compulsivas, como exemplifica Kelmara: “Essas pessoas, quando veem uma liquidação, por exemplo, correm e compram coisas que não precisam. Adquirem aquilo só porque está em liquidação, sem pensar na taxa de juros, no quanto é vantagem ou não”.

Segundo a pesquisadora, o Brasil está atrasado em relação aos níveis de educação financeira, se comparado a países mais desenvolvidos. Pesquisas demonstram que apenas 3% dos jovens de 15 anos têm níveis de educação financeira altos. “Se os jovens não estão aprendendo a lidar com seu dinheiro, nós vamos continuar tendo famílias extremamentes endividadas”, avalia a professora, que complementa: “Precisamos definir maneiras e estratégias para aumentar o nível e o número de pessoas alfabetizadas financeiramente. Com nossa pesquisa, mostramos que ainda faltam investimentos nessa área”.

Uma das iniciativas existentes é a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), que objetiva promover a educação financeira e previdenciária, aumentando a capacidade do cidadão de saber administrar seus recursos, e contribuindo para a eficiência dos mercados financeiro, de capitais, de seguros e de Previdência. Na recente alteração da Base Comum Curricular das escolas, proposta pelo Governo Federal em 2017, a educação financeira passou a ser tratada de forma interdisciplinar. “É uma mudança estrutural, comportamental e de longo prazo, mas os primeiros passos estão sendo dados”, avalia Kelmara. Nesse sentido, Ani Caroline entende que, se as pessoas, o governo, a sociedade como um todo investirem em tornar as pessoas mais educadas financeiramente, a situação econômica, inclusive do país, pode melhorar.

Reportagem: Gabriel de David, acadêmico de Jornalismo
Ilustração e Diagramação: Pollyana Santoro, acadêmica de Desenho Industrial
Locução: Marcelo De Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/afago-no-hospital Thu, 20 Jun 2019 19:38:51 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5539 Ouça esta reportagem:

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Pepê, a terapeuta de quatro patas.

 Quem vê os sorrisos das crianças que esperam a visita semanal da Pepê nem imagina que ela é uma terapeuta pouco convencional. A cadelinha, que exerce função de cão de apoio social no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), anima os corredores do Centro de Atendimento à Criança e Adolescente com Câncer (CtCriaC), acompanhada da psicóloga Fabiane Bortoluzzi Angelo Munhoz, sua tutora.

A inspiração para o projeto Afago no Hospital veio de uma iniciativa de Fabiane, que realizava consultas no seu consultório particular com a presença de Pepê. Devido aos benefícios da presença animal que pode ajudar no tratamento dos pacientes internados –, e com o apoio dos médicos do Husm, as atividades foram ampliadas. A implantação da ideia no Hospital contou com a ajuda do programa Cuidado e Atenção à Criança e ao Adolescente em Tratamento Oncológico (Caacto), do curso de Terapia Ocupacional da UFSM.

Criado e coordenado pela professora do Departamento de Terapia Ocupacional Amara Holanda, o Caacto articula ações de extensão, ensino e pesquisa na promoção da atenção integral à saúde das crianças e adolescentes em tratamento no serviço hematológico e oncológico, e de seus cuidadores. O programa realiza atividades que quebram o cotidiano da internação hospitalar, como sessões de filmes no Cine Pipoca,
visitas guiadas ao Hospital e intervenções musicais.

Além de marcar presença em algumas das ações do Caacto, Pepê realiza visitas semanais aos pacientes do CTCriaC. “O Afago no Hospital tem uma importância fundamental e excelente aceitação por parte das crianças, adolescentes e profissionais da saúde do serviço de hematologia e oncologia do Husm”, comenta Amara.

Por trás da Afago no Hospital

Antes de o projeto ser aplicado, foi preciso muito trabalho. Fabiane, juntamente com a terapeuta ocupacional do Husm Luisiana Onófrio e a residente Natyele Silva, reuniram-se para criar fluxogramas, em conjunto com os médicos do CTCriaC e a Comissão de Controle de Infecção (CCIH). Luisiana explica que o fluxograma é um protocolo que deve ser seguido pelo tutor para que qualquer cão tenha
acesso ao Hospital.

Com a aprovação dos protocolos pelos médicos e pela CCIH, o processo de habilitação da Pepê começou. Após passar por uma avaliação comportamental e seguir acompanhamento médico, a cadelinha aprendeu comandos de obediência e a se habituar com barulhos e toques. “Ter a orientação de um profissional especializado no treinamento de cães é fundamental para que o animal associe positivamente o contato humano”, pontua Fabiane.

No entanto, não é somente o animal que deve ser preparado: a tutora precisa seguir um comportamento específico e prestar atenção nos sinais manifestados pelo cachorro: “Pode ter dias que ele não estará disposto, e temos que respeitar isso. Esse é um dos pilares da Intervenção Assistida com animais: o respeito ao bem-estar animal”, salienta a psicóloga.

Para a elaboração dos fluxogramas, o projeto também teve a ajuda da psicóloga Silvana Fedeli Prado, coordenadora da ONG Patas Therapeutas, de São Paulo e referência no Brasil por trabalhar desde 2004 com cachorros em ambiente hospitalar. Entre os cuidados elencados, estão a limpeza das patas da Pepê com antisséptico antes de entrar e sair do CTCriaC, banho no dia anterior ou no dia da visita, escovação do pelo, vacinas e exames atualizados, e cautela com perfumes e essências para não causar indisposição nos pacientes. Ademais, é essencial que todos os envolvidos na visita lavem as mãos antes e depois do contato com o cão.

Além dos cuidados básicos, existem precauções diferentes para as crianças com a imunidade baixa, como o uso de equipamentos de proteção individual. “No dia que a Pepê vem, eles já esperam de máscara e luva. Com a intervenção da cadelinha, o uso dessas peças fica muito mais leve e humanizado”, comenta Natiely.

O projeto conta ainda com a ajuda das acadêmicas da Terapia Ocupacional Alessandra Freitas, Morgana Machado e Sabrina Franchi. Alessandra comenta que a melhor parte de participar das atividades é poder ver o sorriso de cada criança quando a Pepê adentra o CTCriac: “Faz com que elas esqueçam da dor e da doença, se divirtam, interajam e, de certa forma, aliviem a pressão do contexto hospitalar e do desconhecido gerado pela doença que rompeu sua rotina”.

Bom pra cachorro (e pra humano também)

Um dos benefícios oferecidos pela afagoterapia é a rapidez e a facilidade que o cão tem de auxiliar em tarefas que as crianças podem não se sentir tão motivadas a fazer: “A Pepê estimula a criança a sair do leito, proporcionando melhoras psicológicas, emocionais e sociais”, explica a psicóloga Fabiane.

O amparo não é somente para as crianças. Natiely conta que a presença da cadelinha auxilia na independência das crianças em relação aos pais, os quais, normalmente, são porto seguro durante a experiência de internação. Ademais, ela ajuda a estreitar relações entre as famílias e os pacientes. “O ambiente hospitalar é tenso e doloroso. Então, quanto mais a gente conseguir propiciar para essas pessoas momentos prazerosos, provavelmente melhor vai ser para o tratamento”, comenta a tutora.

Luisiana complementa, contando que a feição dos profissionais do Hospital também muda com a visita da mascote: “Parece que eles ficam mais leves e felizes. Isso é muito nítido, todo mundo percebe”. Até mesmo as pessoas que não têm ligação com o CTCriaC, como funcionários e pacientes de outras unidades, são beneficiadas pelo contato com a cadelinha. “Em um momento de angústia, aguardando a consulta ou o resultado de exames, receber o afago da Pepê por alguns segundos pode ser a única alegria que a pessoa vai ter no dia”, destaca Natiely.

Satisfeita com os benefícios propiciados pelo projeto Afago no Hospital, Fabiane conta que a intenção do grupo é, futuramente, expandir as ações com a ampliação das equipes canina e humana, o atendimento a outros pacientes e, até mesmo, a criação de um grupo de estudos ou um núcleo de pesquisa sobre o assunto.

Reportagem: Martina Irigoyen

Fotografias: Rafael Happke

Lettering e Diagramação: Deidre Holanda

Locução: Marcelo de Franceschi

 

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/voce-sabia-que-se-cogitou-instalar-o-campus-da-ufsm-em-locais-do-centro-de-santa-maria Thu, 06 Jun 2019 17:11:43 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5531 Ouça esta reportagem:

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Nos anos anteriores à fundação da UFSM, o local onde seria instalado o campus da nova instituição era objeto de discussão no poder público do município. Um dos primeiros lugares cogitados para receber o campus foi o antigo Parque Imembuí, onde hoje está situada a Vila Militar, entre as avenidas Liberdade, Presidente Vargas e Borges de Medeiros. Mais tarde, pensou-se no lugar onde hoje fica a escola Manoel Ribas, o Maneco, próximo à Vila Belga e à linha férrea. O professor José Mariano da Rocha Filho, fundador e primeiro reitor da UFSM, pleiteou também, sem sucesso, um espaço no distrito de Boca do Monte, sob administração do governo estadual.
O terreno onde, por fim, construiu-se o campus foi doado pelas famílias Behr e Tonetto, após pedido feito por Mariano da Rocha e pelo então deputado federal Tarso Dutra.

Locução: Marcelo de Franceschi

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10ª edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/muros-e-paredes-que-falam Wed, 29 May 2019 17:53:49 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5536

Ouça esta reportagem:

Pichações e graffitis chamam atenção para as paredes e muros da cidade; por detrás de cada rabisco, há uma história a ser contada. Para o Estado, as pichações são pinturas sem concessão – diferentemente dos graffitis, que têm respaldo da lei e da sociedade. Já na perspectiva dos pichadores/grafiteiros, questões estéticas e de reconhecimento norteiam suas práticas, que permeiam também o campo da arte, expressão, vandalismo e bem privado. Nesse sentido, a dissertação Etnografia de uma cidade redesenhada pela pichação/graffiti se propôs a entender como são vistas as práticas de pichação/graffiti no debate público e, principalmente, sob o olhar de quem as faz.

De 2014 a 2017, o então mestrando em Ciências Sociais Rodrigo Nathan Dantas desenvolveu um trabalho etnográfico com 24 pichadores/grafiteiros em Santa Maria. A pichação esteve na vida do pesquisador desde a adolescência – nos primeiros contatos com a música, principalmente o rock, nos desejos e anseios da juventude e na forma como é percebida a cidade. Já no papel de pesquisador, Rodrigo conta que buscou construir um trabalho polifônico, que foge das interpretações romantizadas, e procura apresentar uma perspectiva “mais barulhenta”, na qual “a pichação/graffiti aparece como ponto de encontros discordantes, onde as identidades e as posições são flexíveis e transitórias”.

Partindo do questionamento da diferença entre pichação e graffiti, o pesquisador levou em conta a própria forma como os entrevistados se identificam – em geral, os grafiteiros são ou já foram pichadores em algum momento, portanto os termos escolhido para referi-los na pesquisa foram “pichação/graffiti” e “pichadores/grafiteiros”. Nas palavras do pesquisador, não se trata simplesmente de pichação – aquilo que é visto como ilegal, sujo, feio ou crime – versus graffiti – aquilo que é visto como legal, limpo, bonito ou arte.

Para traçar aquilo que é comum ao grupo, o pesquisador acompanhou os pichadores/grafiteiros em encontros pela cidade, fez parte do Intelectuais do pixo, interagiu em grupos e páginas do Facebook e dividiu apartamento com um dos pichadores/grafiteiros durante seis meses. As histórias narradas por eles, as observações do pesquisador nos encontros e eventos na cidade e as fotografias de pichações/graffitis construíram o diário de campo da pesquisa. Alguns trechos desse diário que compõem a pesquisa foram selecionados e podem ser conferidos a seguir.

O dono de uma loja de street art

Em oficinas ministradas na sua loja, o dono chama atenção para a inquietude que é a pichação. Nas oficinas, ele sempre procurou frisar que ele vem do “movimento da pichação” e reconhecer que ela está na “origem do graffiti”, afirmando, no entanto, que hoje se identifica mais com este do que com aquela. Percebi que suas falas são de alertas do legal/ilegal: “A pichação dá muita adrenalina. Quando a pessoa tem entre 14 e 18 anos, ela quer e precisa fazer parte de um grupo. Ver a assinatura espalhada pela cidade dá uma sensação muito boa, tem muitos riscos, no início isso é bom, mas depois isso vai passando e o cara vai
entrando em outras”.

Nos trilhos

Na volta de um mutirão de graffiti, um dos pichadores/grafiteiros me convidou para ir embora pelos trilhos em direção à Vila Leste. O pichador que fez o convite narrou sua história: “Bah, sou fissurado por trens e trilhos, não apenas para pintar, mas porque acho que eles têm tudo a ver com a cidade. Esses trilhos são as veias de Santa Maria, foi a partir deles que a coisa começou. Quero ver se volto a fazer uns trampos em trens. Quando você pinta
no trem, quem vai curtir o trem vai ser a galera que tá ligada nessas questões da linha, a grafitagem de trens e seus riscos. E aí, o trem vai daqui até o Paraná, por exemplo, e o pessoal que pinta no Paraná vai ver. E daí entra em contato. Perguntei se todo pichador/grafiteiro da cidade gosta de pintar trens. Respondeu: “Acho que não, isso é mais para quem é ‘das antigas’, as novas gerações preferem muros e subir em prédios”.

Tretas feministas

Como estratégia de introduzir momentos de dissenso nas reuniões e nas aparições públicas do grupo Intelectuais do pixo, o qual participei como forma de discutir sobre pichações/graffitis na cidade, questionei suas próprias pré-noções argumentativas. Com isso, permitiu que viessem à tona informações e questões do campo da pichação/graffiti que talvez não viessem se eu me restringisse a observar ou a ser plenamente conivente com tudo o que o grupo diz e pensa. Relato de uma das pichadoras/grafiteiras, após introduzir questões provocadoras no grupo: “Tem pichador que não suporta a ideia de ter mina pichando no rolê, ainda mais se as mina forem feministas. Tem uma crew de uns guri de bosta que só saem pra atropelar o trampo das minas. Tem muito machismo no meio da pichação. Tem mano que bate na mina. O feminismo é necessário”. “O pior é que tem mina machista também”, disse outra.

Saúde mental e a pichação/graffiti

Em uma roda de conversa sobre pichação e saúde mental, realizada na loja de street art:
Um rapaz perguntou: “pichação não é uma doença? Esse lance de subir em prédio para fazer uns riscos e estragar a parede de alguém não é coisa de gente que precisa se tratar?”. “Pichar pode ser uma maneira de desopilar. A sociedade é que está doente”, respondeu um estudante de psicologia e, em seguida, sua colega: “eu tento entender a pichação enquanto manifestação, uma forma de expressão, mas se for no muro da minha casa eu não gosto (risos)”.

A campanha Santa Maria do Bem

Em 2015, houve dois empreendimentos envolvendo governo, mídia e empresas: a campanha Santa Maria do Bem e a Operação Solvente, para coibir e penalizar os pichadores. A internet virou um campo do conflito de moradores, proprietários e pichadores/grafiteiros. Concomitantemente, a campanha propôs o uso do graffiti para combater a pichação, incentivando os moradores a cederem o muro de suas casas para a produção de graffiti. Um pichador/grafiteiro e uma pichadora/grafiteira, ambos precursores da pichação/graffiti na cidade, participaram da campanha. Na fala da pichadora/grafiteira para jornais, ela se apresentou como ex-pichadora e argumentou que os empreendedores e moradores da cidade não querem suas casas rabiscadas com ofensas. Sua participação e depoimento suscitou críticas: “Às vezes tento entender, sei que ela tem filho e tudo mais, daí não é muito difícil aceitar se juntar ($) à prefeitura, mas usar esse discurso […] fico triste com essa fala dela.” Em resposta, a pichadora/grafiteira disse: “A galera do graffiti não gosta porque é do Poder Público. Eu já sabia de tudo isso. Mas quando é que eu iria ter a oportunidade de pintar e ganhar material bom? Spray é caro. É uma arte cara”.

Estabelecimentos comerciais

Estabelecimento com a seguinte frase: “Pedimos desculpas à cidade de Santa Maria, não pintaremos mais a parede”. As falas de moradores e proprietários de casas ou lojas pichadas também vão majoritariamente nesse sentido: “a gente pinta, e no outro dia eles vão lá e picham tudo de novo”; “a gente trabalha duro, ganha pouco, daí resolvemos pintar a casa, a gente só quer ter uma casinha ajeitada, já que o bairro é humilde, daí os caras vêm e riscam tudo, isso é ruim pra nossa autoestima”. Uns compram a briga, outros jogam a toalha.

Arma na cara

Conversando na volta para casa com um dos pichadores/grafiteiros consagrados na cena local por escalar prédios para pichar/grafitar, ele narrava algumas de suas missões mais arriscadas. “Quando eu estava riscando, o morador acordou e saiu na sacada, me viu lá em cima e mandou eu descer, disse que ia chamar a polícia. Eu disse para ele ficar frio, que eu não era ladrão, que só ia descer depois de terminar meu trampo. Daí ele entrou.Terminei o trampo e desci. Mas o mais doido foi quando cheguei em casa, já de manhã. Deitei a cabeça no travesseiro, não deu uma hora, e acordei com a polícia dentro do meu quarto, com uma arma apontada na minha cara. Era o dia da Operação Rabisco, mandado de busca e apreensão. Levaram sprays, pincéis, tintas e cadernos meus. Já tenho uns vinte BO (boletim de ocorrência) nas costas por causa de pichação. E não pretendo parar tão cedo”.

Reportagem: Bibiana Pinheiro
Ilustração, Lettering e Diagramação: Deirdre Holanda
Locução: Marcelo De Franceschi

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