13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 29 Feb 2024 13:02:14 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico 13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/seguranca-alimentar-em-xeque Thu, 29 Feb 2024 13:02:11 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9822

Milho, soja, feijão, arroz, leite, carne bovina e frango tiveram aumento significativo de preços em 2022. Além da crise econômica, os eventos climáticos extremos que atingiram o Brasil em 2021 e 2022 também são motivos do maior custo dos alimentos. Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro registraram enchentes com centenas de mortos, de acordo com o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Ministério do Desenvolvimento Regional (S2ID/MDR). Além disso, no sudeste e sul do país, principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul, a ausência de chuvas provocou uma estiagem severa que, no estado gaúcho, é a segunda maior já registrada, de acordo com o Monitor de Secas do Brasil, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Tanto o excesso quanto a falta de água afetam a produção de alimentos: a agricultura funciona por meio de ciclos e de cadeias de produtividade e, caso haja desequilíbrios em alguma etapa, a safra pode ser prejudicada. De acordo com o relatório de 2021 do Painel Intergovernamental sobre o Clima (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), com a intensificação dos fenômenos das mudanças climáticas, a produção de alimentos brasileira será menor, principalmente em função da maior frequência dos eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e incêndios.

Para Dilson Bisognin, professor no Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o aumento da temperatura impacta todas as populações de plantas, inclusive no crescimento de patógenos – como bactérias, fungos e vírus – e plantas daninhas mais resistentes, além de afetar os animais. “Qualquer mudança no ambiente vai afetar a vida do planeta. Mínimas mudanças têm um enorme efeito nas populações. Por exemplo, em 2022, os meses de restrição hídrica tiveram um enorme impacto nas plantas e microorganismos”, explica o docente. Segundo o relatório “Mudanças Climáticas e Eventos Extremos no Brasil”, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), durante os últimos 50 anos, a América do Sul teve ampliação de intensidade e frequência dos eventos climáticos extremos. Isso aumenta os custos econômicos e sociais e impacta principalmente os setores da agricultura, da geração de hidroeletricidade, os centros urbanos e a biodiversidade.

4 pilares

A segurança alimentar se baseia em quatro pilares: disponibilidade, utilização, estabilidade e acesso.

Com base em dados do relatório do IPCC 2020 – 2021.

DISPONIBILIDADE

Resultado dos processos de produção, armazenamento, processamento, distribuição e troca de alimentos. Se a produção é afetada, as outras etapas também serão. Em uma estiagem, a ausência de água na produção pode acarretar, por exemplo, a falta de tomate na prateleira do supermercado.

UTILIZAÇÃO

Modo como se utilizam os alimentos (envolve a composição nutricional, a preparação e a qualidade). As mudanças climáticas influenciam o modo como os alimentos serão consumidos. Na safra de tomate prejudicada pela estiagem, a pouca disponibilidade eleva os preços, o que impacta a capacidade de compra das pessoas, que deixam de consumir o alimento.

ESTABILIDADE

Capacidade das pessoas em acessar e usar alimentos diariamente. Em um cenário de aumento do preço dos alimentos, que é intensificado pelos eventos climáticos extremos, uma família de média ou baixa renda pode não ter dinheiro para comprar comida de qualidade todos os dias.

ACESSO

Capacidade de obter comida com preços acessíveis. Os itens mais afetados com o aumento de preços costumam ser os cereais e produtos de origem animal. O acesso influencia a estabilidade alimentar.

Sistemas produtivos

Os últimos relatórios do IPCC, inclusive o de 2022, apontam que as mudanças climáticas podem afetar diferentes sistemas produtivos, como a pecuária, a polinização, a aquicultura e a agricultura familiar (veja detalhes na próxima página). Além disso, são os locais mais vulneráveis que têm maior possibilidade de serem atingidos pelos efeitos de eventos climáticos extremos. “Os alimentos, nos últimos tempos, têm sido encarados enquanto mercadoria e não são produzidos com a finalidade de consumo e de alimentar as pessoas”, argumenta Cleder Fontana, docente no Departamento de Geociências da UFSM e líder do Núcleo de Estudos em Geografia, Agricultura e Alimentação (NUGAAL). Ou seja, a produção de commodities – em grande escala, como os grãos – deve continuar crescendo globalmente e gerar riscos à segurança alimentar, devido à conversão de áreas produtoras de alimentos em áreas produtoras de matéria-prima para os agrocombustíveis.

Efeito cascata

De acordo com Juliano Barin, docente no Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da UFSM, elementos como os insumos, a água, o solo e o trabalho humano também são parte integrante dos sistemas produtivos alimentares. “São cadeias que estão interligadas. Por exemplo, o milho é muito usado para ração animal. Então, se tiver uma quebra na produção do milho, o preço da carne vai aumentar, especialmente a de frango. Qualquer alteração climática que tenha uma quebra na produção vai impactar em efeito cascata”, explica.

1. Quando há estiagem, a safra de milho é prejudicada (tanto para a colheita do grão quanto para o corte da planta).

2. Para o gado, a ração e a silagem (milho picado e fermentado) tem custo maior e menos qualidade. O frango também é afetado, a ração, que é a base da alimentação, é feita de milho, cujo custo fica maior.

3. Com isso, os preços do leite, dos ovos, da carne de gado e de frango aumentam. Nos supermercados, nem todas as pessoas conseguem adquirir estes e outros itens básicos da alimentação.

Insegurança alimentar e fome

Somente no Brasil, são mais de 33 milhões de pessoas que passam fome, de acordo com dados do 2º inquérito sobre insegurança alimentar produzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). Conduzida em 2022,
a pesquisa mostra que só quatro a cada dez famílias têm acesso pleno à alimentação. Os números altos mostram um cenário preocupante. Os relatórios do IPCC alertam que a insegurança alimentar e a fome podem aumentar com o cenário de maior frequência
e intensidade dos eventos climáticos extremos. No entanto, para Cleder Fontana, é preciso cautela na análise, uma vez que a fome não é causada apenas pelas mudanças climáticas. “Temos que pensar que a fome é um problema, sobretudo, político. E quando fazemos a relação de mudanças climáticas, aquecimento global e fome, corremos o risco de dar uma explicação simplista, de que a fome é um problema que deriva de uma condição natural, apesar de que os dois problemas guardam similaridades, pois ambos são sociais”, alerta. O docente reforça que abordar outros aspectos que causam a fome e a insegurança alimentar não vão contra o consenso científico da existência das mudanças climáticas e seus efeitos.

Mesmo assim, de acordo com estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as mudanças climáticas vão impactar, de forma negativa, os pilares da segurança alimentar. De acordo com o IPCC e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCDD), os mais afetados serão os produtores e consumidores de baixa renda, principalmente por conta da ausência de recursos que possibilitem o investimento em adaptações, tanto em sistemas produtivos quanto no consumo. “Com certeza pode afetar as populações e produções locais, que abastecem as pessoas com alimentos, especialmente no contexto em que as pessoas não têm recursos financeiros para comprar”, afirma Cleder.

Insegurança alimentar e fome

Com base em dados do relatório do IPCC 2020 – 2021.

PECUÁRIA: impactado pela combinação de temperaturas mais altas, a variação da precipitação, a concentração de
dióxido de carbono atmosférico (CO₂) e a disponibilidade da água. Consequências são a diminuição da oferta e o aumento do preço de carnes, problemas na reprodução, na saúde animal e na qualidade das pastagens, além do aumento de doenças.

AGRICULTURA FAMILIAR: eventos como estiagens e inundações, principalmente, impedem a produção de alimentos que, muitas vezes, são, além da única fonte de renda, também a fonte alimentar das famílias do campo.

POLINIZAÇÃO: afetado, principalmente, pelo aumento de patógenos mais virulentos, como o fungo Nosema cerana, que se prolifera em temperaturas mais altas.

AQUICULTURA: inundações trazem perda na produção, mais risco de doenças, algas tóxicas e parasitas, aumenta o risco de eutrofização (ausência de oxigênio na água, que leva à morte de plantas e animais) e pode provocar a escassez das sementes silvestres.

Insegurança alimentar e fome

Em documento de 2021, o IPCC alerta que ao menos um terço da produção de alimentos está em risco como resultado do aquecimento
global. Apesar de a agricultura familiar figurar como a mais afetada pelas mudanças climáticas, o agronegócio não fica de fora. Dilson Bisognin concorda com essa afirmação e alerta que, uma vez que há alterações em pragas e doenças de plantas, que se tornam mais resistentes, cultivares mais adequadas devem ser desenvolvidas, tanto para cenários de temperaturas mais altas quanto para o enfrentamento dos patógenos. O docente ainda afirma que o cenário brasileiro é preocupante, uma vez que houve redução e restrição de recursos para a ciência e o desenvolvimento tecnológico. “Nós vamos ter que ter uma preparação a longo prazo, e nós não temos uma preocupação a longo prazo. Vamos ter muita dificuldade em ter pessoas qualificadas, tecnologia e ciência para dar resposta a isso. A partir
do momento que se tira recurso da ciência e da tecnologia, está atrasando toda a resposta”, evidencia Dilson.

Um exemplo de como os eventos climáticos extremos afetam o agronegócio está na estimativa feita pela Associação das Empresas Cerealistas do Estado do Rio Grande do Sul (Acergs) em maio de 2022: 65% da safra de milho do ano foi comprometida, o que corresponde a uma perda de quatro milhões de toneladas e R$ 6,3 bilhões. Na soja, a redução da produção no mesmo período é de 48,7% (10,2 milhões de toneladas ou R$ 32,4 bilhões), de acordo com a Rede Técnica Cooperativa (RTC), filiada à Cooperativa Central Gaúcha Ltda (CCGL). No entanto, o setor do agronegócio tem mais recursos para lidar com o cenário, principalmente por meio do uso e desenvolvimento de tecnologias. Para Dilson, apesar de ser fundamental, a tecnologia não pode ser a única solução para a problemática. “A tecnologia é excludente, e as mudanças climáticas vão favorecer e justificar novas tecnologias”, afirma. Para o docente, a agricultura familiar é mais afetada pelos eventos climáticos extremos já que tem menos recursos financeiros para investir em tecnologia. 

Em 2010, Dilson coordenou um estudo no Departamento de Fitotecnia sobre os efeitos da evolução das temperaturas no cultivo de batatas. Na época, a conclusão da pesquisa já apontava que o aumento do CO₂ e de temperatura resulta em consequências para este cultivo, como o menor crescimento da planta, redução do ciclo de desenvolvimento, menor produtividade e mais risco de doenças. “A grande resposta desses estudos é mostrar qual é o impacto que pode ter uma alteração muito pequena de temperatura, que vai causar grandes consequências, porque ela afeta todas as populações de seres vivos. Vão surgir novos patógenos, cada vez mais difíceis de serem controlados porque eles vão chegar em um ambiente que está em desequilíbrio”, destaca Dilson. O docente também afirma que hoje, mais de dez anos depois, o cenário é diferente e que, na época em que desenvolveu a pesquisa, havia mais possibilidades e condições de remediação das consequências. “Estamos muito atrasados”, pontua.

Outro estudo que mede esses impactos foi desenvolvido no campus da UFSM de Cachoeira do Sul. Com as estimativas de crescimento de temperatura de 1º a 1,5º, a produção leiteira no Rio Grande do Sul pode diminuir até cinco litros por dia. “À medida que aumenta a temperatura, vai aumentar o calor e o estresse calórico e, no verão, vai ter muito prejuízo na produção de leite”, afirma Zanandra Boff de Oliveira, docente do curso de Engenharia Agrícola na UFSM Cachoeira do Sul.

Para a pesquisadora, apesar de ter uma cadeia mais desafiadora, a produção não vai diminuir: “Vamos conseguir avançar para encontrar a melhor forma de produzir diante desse contexto. Talvez com aumento de custo, mas não um desequilíbrio. Não acredito que vai faltar produto. Vamos evoluir junto com o problema”. Soluções possíveis seriam sistemas de pastoreio com mais sombras ou galpões de alimentação com ventilação para a redução do estresse corporal, tipo de construção que demanda investimento.

Reportagem: Samara Wobetto
Diagramação: Evandro Bertol
Ilustrração: Noam Wurzel.

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-passado-continuavivo-nas-lembrancas Wed, 07 Feb 2024 11:57:49 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9793

Para contadores de história, descobrir objetos, lugares e costumes de antepassados é manter tradições e memórias vivas. A nostalgia de um tempo em que não se viveu permite ao narrador ter o sentimento de pertencimento a um lugar no mundo, mesmo que de forma subjetiva.

A migração italiana no Brasil começou no período da República, no final do século 19. No Rio Grande do Sul, iniciou com mais intensidade em 1875, para as colônias de Conde D’Eu (hoje a cidade de Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e Caxias (Caxias do Sul). Já na região central do Estado, o movimento ocorreu a partir de 1877.

A presença italiana no sul do Brasil pode ser percebida em diversos elementos, como o cultivo da uva; a culinária (pratos como nhoque, capeletti e ravióli); e o catolicismo (manifestado na construção de grutas e monumentos erguidos em homenagem a santos).

Diante disso, a professora Maria Catarina Chitolina, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), realizou uma pesquisa etnográfica com descendentes de imigrantes italianos no Brasil, onde pesquisa desde 1997, e na Itália, onde realiza o trabalho desde 2012. O objetivo é analisar a importância do papel desempenhado pelas narrativas, objetos e lugares em relação ao pertencimento do “mundo italiano” por meio desses descendentes.

Ao longo dos anos de estudo, a pesquisadora entrou em contato com fotografias, livretos de orações, bilhete de viagem ilegível, documento apagado e incompreensível, crochê da nonna, cadernos de receitas, imagens que estavam digitalizadas nas telas dos computadores e celulares ou revitalizadas em molduras. Algumas vezes, eram objetos que não podiam ser tocados devido à importância sentimental.

Além dos objetos materiais, locais também evocam sentimentos de pertencimento, como estações de trem, livrarias, restaurantes, avenidas e cafés. Para os descendentes, tanto no Brasil quanto na Itália, a narrativa relacionada aos antepassados por meio de artefatos e lugares é a maneira de imortalizar, em cada palavra, um tempo que não volta mais.

As pesquisas centraram-se na região do Lázio e Vêneto, na Itália; no Brasil, foram focadas na região Central do Rio Grande do Sul, como no distrito de Vale Vêneto. As investigações originaram diversos trabalhos da pesquisadora Maria Catarina, entre eles o artigo do qual extraímos alguns trechos para compor este Diário de Campo: “Eu ficava ali, olhando o céu: Narrativas, imagens, objetos, personagens e lugares em pesquisas etnográficas com descendentes de imigrantes italianos no Brasil e na Itália”. O texto foi publicado em 2020, no livro Entre a Itália e o Brasil Meridional – História oral e narrativa de imigrantes.

“Uma pausa para olhar o céu e a paisagem”

A maior parte das entrevistas na Itália foi efetuada em locais considerados especiais para os entrevistados: em Roma, pude conhecer estações de trem e metrô, locais históricos, ruas e avenidas, cafés, monumentos, livrarias, restaurantes, mercados, lojas, feiras, igrejas, casas, partes da cidade que traziam memórias e algum vínculo de pertencimento para os ítalo-brasileiros que lá estavam habitando.

Fui apresentada a alguns destes cenários da metrópole urbana como lugares repletos de significados. Aquele café, no qual se ficava um pouco, na saída de uma estação de metrô, entre o trabalho da manhã e o trabalho da tarde, quando se tinha um pouco de tempo e uma pausa para olhar o céu e a paisagem.

Depois de algumas entrevistas, era comum me convidarem para passear por determinados lugares, salientando a importância que tiveram em seu processo “migratório” e na nova vida na Itália. Seja de metrô, de ônibus, de carro ou a pé, fiz muitos passeios na Itália com meus entrevistados.

“Eu visitei seu passado pelas ruas de Roma”

Se no Brasil eu era convidada a conhecer jardins, hortas, galpões, mobílias, pedaços de terra, capitéis e casas, na Itália também fui convidada a fazer passeios por paisagens exteriores e interiores dos descendentes de imigrantes italianos. Nos entrecruzamentos entre exterioridades e interioridades, as narrativas se tornam possíveis ou mais absorvíveis, por vezes.

Em Roma, uma entrevistada (ítalo-brasileira) me levou para o local no qual começou sua estadia na cidade, décadas atrás, em tempos que, para ela, foram muito difíceis e me mostrou os lugares nos quais caminhava nos horários de folga do trabalho, quando saía para estar um pouco “consigo mesma”. Não eram locais de consumo, mas de passeio contemplativo. Andamos bastante pela cidade e pude compreender, por meio da narrativa e da caminhada, como teria sido sua experiência de ítalo-brasileira na Itália.

Anos narrados em palavras, compreensíveis e agora também, reflexivamente, olhados pela interlocutora. Eu visitei seu passado pelas ruas de Roma e ela também. Fizemos juntas. E esta possibilidade do encontro etnográfico é sempre surpreendente.

Assim, pelas ruas de Roma, conheci um pouco dos ciclos de vida de uma ítalo-brasileira, relatados como fatos da juventude (no passado) e fatos da maturidade (no presente da narrativa).

“Evocação ao vivido e experienciado”

Muitos dos objetos, lugares e imagens que conheci durante as pesquisas são por mim compreendidos como portadores de “mana” – valor mágico, valor religioso, até mesmo valor social – de uma energia especial, de uma força e poder simbólico imenso e potencializador de narrativas e pertencimentos […] A vida de gerações sendo ali narradas e décadas de história familiar e individual também.

O bilhete de viagem já ilegível, o documento apagado e incompreensível, o pano de louça encardido pelo tempo, mas com o crochê da nonna, a tigela quebrada, a panela sem tampa, o sapatinho usado pelos filhos quando bebês, enfim, objetos que, para os narradores, eram potencialmente repletos de sentimentos e plenos em si mesmos.

Algumas vezes havia objetos que estavam guardados em caixas simples (mas especiais), muito bem cuidados, aguardando o momento de serem novamente manuseados e narrados. Eram uma evocação ao vivido e experienciado, seja dos próprios descendentes ou das narrativas acerca dos antepassados, das origens, da família, de acontecimentos ou ciclos de vida.

“construções das memórias e das narrativas”

E, nas situações por mim presenciadas, do importante papel das origens familiares, da família como importante valor e das narrativas acerca do pertencimento do “mundo italiano” advindo do processo migratório dos antepassados.

E, entre os ítalo-brasileiros na Itália, pude conhecer o poder das imagens e das novas tecnologias de comunicação nos processos de identificação e nos pertencimentos, especialmente na manutenção de vínculos afetivos, familiares e nas construções das memórias e das narrativas.

Cada fotografia compartilhada virtualmente, cada imagem, áudio ou vídeo era recebido pelos descendentes que lá estavam com muita emoção e narrativas. Conheci muitas famílias extensas ao longo dos anos de pesquisa […].

Os cenários, os personagens, a vida que se expressava por meio destas trocas virtuais era algo muito significativo para os descendentes (ítalo-brasileiros) que estavam habitando na Itália. Da saudade de casa (brasileira), da família, dos amigos, dos lugares e sentidos, das comidas, as imagens e áudios via aplicativos (Facebook, Instagram, WhatsApp e outros), emails e outras novas tecnologias de comunicação, possibilitavam a noção de estar/ser em tempos e espaços diferentes.

“Represálias, prisões ou perseguições”

E muitas foram as narrativas que tive acerca deste período (a Segunda Guerra Mundial) e dos procedimentos que cada família teve para se proteger, esconder ou destruir objetos com receio de represálias, prisões ou perseguições. Estas ofensivas foram mais comuns na zona urbana, contudo, em muitas localidades rurais também estiveram presentes.

“Tive pudor e algo de estranhamento”

Mas o que muito me marcou foi, certa vez, quando fui apresentada a roupas íntimas femininas das antepassadas que eram guardadas e muito bem cuidadas por uma senhora e tudo o que isto provocou em mim. Ao olhar uma roupa íntima usada no passado, muito limpa e bem zelada e apresentada a mim com naturalidade, senti que eu estava entrando no domínio da intimidade.

Tive pudor e algo de estranhamento, o que me fez pensar o quanto não estamos, às vezes, preparados para algumas situações. Era um dom da entrevistada para comigo. E me senti responsável por tudo o que aprendi sobre o mundo das “antigas”.

Por antigas se entende a geração considerada pela senhora como distante temporalmente da sua, no tempo presente. Aqui falava de sua mãe e de sua avó, mais especificamente. Como estas produziam suas roupas, como se cuidavam, como cuidavam do corpo. Enfim, por meio de uma roupa íntima ingressei no mundo narrativo das mulheres do passado.

“O ritual, a sociabilidade”

Na região do Vêneto italiano e seus interiores, fui apresentada a casas, espaços de trabalho, paisagens encantadoras e a cenários diversos, em diálogos nos quais muitas vezes eu era alertada acerca da semelhança entre o Rio Grande do Sul e aquele pedaço da Itália, especialmente.

Na casa dos ítalo-brasileiros, um dos objetos mostrados eram a cuia e a bomba para chimarrão, hábito que tinham no Brasil, especialmente os descendentes provindos do sul. E me mostravam porque, como também sou originária do sul do Brasil, talvez esperassem que eu compreendesse o ritual, a sociabilidade e demais elementos que estão presentes na prática de “beber o chimarrão” e da falta que sentiam deste hábito cotidianamente.

Em minhas viagens do Brasil para a Itália, quase sempre levei com muito gosto erva-mate para chimarrão e outros produtos que me eram solicitados. Compreendia que era um gesto de retribuição e carinho pelo tempo que minhas perguntas de pesquisa tomavam das pessoas, sempre sobrecarregadas com muito trabalho e afazeres.

Também era interessante observar as redes de comunicação que se estabeleciam virtualmente para saber onde encontrar, na Itália, a erva mate, o feijão preto, a farofa e outros elementos considerados típicos da “comida brasileira”.

“Para que as Pessoas que ali passassem pudessem fazer alguma prece”

Visitei casas nas quais havia imagens de santos católicos convivendo em harmonia no espaço com objetos do budismo ou de religiões afro-brasileiras. Durante as pesquisas, pude também conhecer lugares considerados sagrados por alguns descendentes, como a gruta da Nossa Senhora de Lourdes em Vale Vêneto (Rio Grande do Sul).

Depois de saber de sua importância para muitos descendentes e também da beleza do lugar, eu a tornei um passeio obrigatório quando apresentava a região para pessoas vindas de outros lugares. Também eu hoje tenho muitas memórias sobre a gruta e os passeios e preces que pude lá fazer.

Conheci, igualmente, alguns capitéis, que eram pequenas capelas que os imigrantes e seus descendentes construíam nas estradas ou nos caminhos entre propriedades para que eles mesmos ou as pessoas que ali passassem pudessem fazer alguma prece.

“Ser e estar no mundo”

Por entre fotografias, objetos variados e narrativas, pude entrar e conhecer muitas casas em seus interiores, muita mobília antiga, muita vida presente nestes espaços. O espaço é habitado também pelo tempo e por personagens, por meio do que ali está, sejam objetos materiais ou imaterialidades também. Alguns destes objetos também se relacionam com as pessoas (algumas vivas, outras já falecidas), com suas temporalidades, processos de identificação e com noções de ser/estar no mundo.

Reportagem: Eduarda Paz
Ilustração e diagramação: Luiz Figueiró

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/da-custodia-a-penitencia-como-surgiram-as-prisoes Fri, 05 Jan 2024 11:40:46 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9790

Detenção, reclusão, encarceramento. Na história da humanidade, o sistema de punições sempre existiu, tanto na forma de castigos corporais como de privação da liberdade. Atualmente, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), são mais de 830 mil pessoas no sistema carcerário brasileiro, composto por prisões federais e estaduais, masculinas e femininas.

A privação de liberdade

Segundo Michel Foucault, os povos primitivos utilizavam a privação da liberdade para aplicar medidas punitivas. Os castigos repressivos eram baseados nas mais variadas formas de vingança (como a tortura). A maneira de punir indivíduos por atos cometidos variava de acordo com a cultura e a civilização, até o surgimento das primeiras prisões.

Primeiros cativeiros

Os cativeiros existem desde 1700 a.C. no Egito. Esses locais serviam para manter os escravos sob a custódia dos egípcios. Porém, segundo Foucault, até o século 15, o encarceramento não era visto como uma forma de pena, mas de custódia, ou seja, o indivíduo era privado da sua liberdade até receber a punição referente ao ato cometido.

Idade Média

O conceito de prisão como forma de punir os indivíduos surgiu na Idade Média, quando os membros do clérigo (padres e sacerdotes) eram forçados a se recolherem em suas celas quando não realizavam suas atividades de forma correta. Lá eles ficavam para meditar e se arrepender dos seus atos. O Hospício de San Michel, em Roma, foi a primeira instituição penal construída no mundo. O local era destinado ao encarceramento dos jovens que tinham condutas condenadas pela sociedade, chamados de “meninos incorrigíveis”.

House of Correction

A escritora Elizabeth Misciasci explica que a primeira prisão com a proposta de recolher criminosos foi criada em 1550, em Londres, com o nome de House of Correction (Casa da Correção, em português). Mas a privação da liberdade como pena foi aplicada no Direito somente em 1596, na Holanda, quando foi construído o Rasphuis – uma prisão para jovens do sexo masculino que praticavam atos criminosos. Com o surgimento das prisões, a pena de morte foi cada vez menos usada como punição. Dessa forma, a privação da liberdade se tornou uma medida repressiva com caráter punitivo. Esse foi o início de uma nova era para as prisões.

Prisões no Brasil

O sistema penitenciário brasileiro iniciou com a criação da Carta Régia de 8 de julho de 1796. O documento determinava a construção da Casa de Correção da Corte. Porém, foi apenas em 1834 que iniciaram as construções da instituição no Rio de Janeiro – na época, capital do país. No dia 6 de julho de 1850, aconteceu a inauguração desta que foi considerada a primeira prisão do Brasil.

Transformação das prisões

Os primeiros locais brasileiros com celas individuais surgiram no século 19. Por ser uma colônia portuguesa, o Brasil ainda não tinha um Código Penal e se submetia às Ordenações das Filipinas – um conjunto de normas instituídas por Portugal ainda no século 17. A Constituição de 1824 determinou que os espaços destinados à reclusão separassem os apenados por tipo de crime. O mesmo documento exigia que a estrutura fosse adaptada para que os detentos pudessem trabalhar enquanto cumpriam o regime. Em 1828, com a precariedade dos locais destinados à reclusão, a Lei Imperial organizou uma comissão para visitar esses locais e realizar um estudo. Essa comissão deveria relatar os problemas e articular as melhorias a serem feitas.

Primeiro Código Penal

O primeiro Código Penal brasileiro, instalado em 1830, fazia distinção entre negros escravizados e cidadãos livres, mesmo que os crimes cometidos fossem os mesmos. O Código Penal de 1890 possibilitou o estabelecimento de novas modalidades de prisão, considerando que não haveria mais penas perpétuas, e com limite de pena de trinta anos. No século 21, a privação de liberdade é a mais comum de todas as penas adotadas no mundo. O Brasil conta com 1.381 presídios em todo o território nacional, segundo o Depen. O Código utilizado hoje no país foi criado em 1940, no governo do presidente Getúlio Vargas.

Projetos sociais na UFSM

A UFSM tem projetos que visam que os estudantes conheçam a realidade dos presídios e das pessoas inseridas nesse sistema. O Projeto Práxis – Coletivo de Educação Popular realiza ações para levar educação a presídios da região. As atividades são realizadas por educadores que buscam a ressocialização por meio da leitura e da discussão de diferentes temáticas. Segundo Esther Farias, educadora de Literatura do Práxis, o projeto surgiu com a ideia de incentivar a leitura: a cada livro lido, três dias de pena eram reduzidos. Em razão da pandemia, as atividades nos presídios foram suspensas, mas retornaram em julho de 2022.

O projeto “A escuta do inimigo na prisão e as prisões da escuta: narrativas diante dos enredos aprisionantes do sentido”, que atuou nos anos de 2020 e 2021, tinha o objetivo de construir uma narrativa sobre a história do Presídio de Júlio de Castilhos. O projeto também possibilitou a criação de espaços para reflexão e conversa com os presos.

Outra iniciativa, surgida com o avanço da Covid-19, envolveu pesquisadores da UFSM que se interessaram pela discussão sobre medidas sanitárias em presídios. O projeto “Covid-19 no sistema prisional brasileiro: consequências das medidas tomadas para evitar o avanço da epidemia nas prisões” analisou as medidas adotadas nas prisões regionais e investigou a quantidade de detentos infectados pela doença – tanto em regime fechado quanto em prisão domiciliar.

*As informações desse texto foram retiradas das obras: A Primeira Prisão e Como Surgiram os Presídios, de Elizabeth Misciasci; Vigiar e Punir: nascimento da prisão, de Michel Foucault; História das Prisões no Brasil, de Clarissa Nunes Maia; Constituição de 1824.

Reportagem: Tayline Alves Manganeli 
Ilustração e diagramação: Cristielle Luise

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/voce-sabia-e-verdade-quevoce-sabia Tue, 02 Jan 2024 10:08:31 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9767

Por que os gatos ronronam?

Da mesma forma que sorrimos ou choramos para expressar emoções, os gatos também têm formas de comunicação.  companhado do miado, o ronronar é uma maneira de os felinos demonstrarem alegria ou tristeza. Segundo a médica veterinária Ana Paula da Silva, o ruído é produzido na laringe, região da garganta que acompanha a musculatura do diafragma e vibra quando fecha a glote – o espaço entre as cordas vocais. Essa contração, que gera o som do ronrom, é impulsionada pelo sistema nervoso.

A primeira explicação para o som é a sensação de aconchego, calor ou felicidade. Os gatos também ronronam em situações de muito estresse ou dor, como uma visita ao veterinário ou ao dar à luz. Por outro lado, as vibrações podem auxiliar na recuperação, como analgésicos, ou no fortalecimento dos músculos. O ronronar também serve para ajudar o felino a conseguir o que ele quer. Os gatos adquirem a capacidade de produzir esse som aos dois dias de vida, para chamar a atenção da mãe e pedir comida.

Você sabe como se dá a numeração de fósseis?

Após coletados, os fósseis são estudados, avaliados, adicionados ao livro tombo e, então, começam a fazer parte da coleção científica da instituição responsável pela descoberta. Cada fóssil recebe um código, que costuma usar a sigla da instituição, seguida de uma numeração específica. No caso da Universidade Federal de Santa Maria, usa-se a sigla ‘UFSM’: isso significa que o material pertence à coleção do Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia (LEP) da Universidade. Junto a essa sigla está o número 11, que trata da seção da coleção que lida com animais fósseis. Já o restante da numeração é em relação à ordem em que o material foi numerado. Por exemplo, o primeiro fóssil coletado pelo LEP foi tombado como ‘UFSM 11001’. Já os que vão para a coleção do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia recebem o código ‘CAPPA/UFSM’, seguido da ordem numérica. Em julho de 2023, 383 fósseis estavam registrados no livro tombo do CAPPA.

Você sabia que o curso de Educação Especial a distância da UFSM foi pioneiro no Brasil?

Em julho de 2005, a UFSM divulgou seu primeiro curso de graduação a distância. A instituição foi pioneira no país na modalidade com um curso em Educação Especial. No vestibular, foram oferecidas 120 vagas, divididas nos polos de Bagé, Santana do Livramento e Uruguaiana.

As aulas eram no ambiente de aprendizagem a distância e-ProInfo. O currículo e a duração das modalidades presencial e a distância eram quase os mesmos. Em ambas, a graduação formava o educador para atuar com pessoas com déficit cognitivo, surdez e problemas de aprendizagem. 

De acordo com o professor José Luiz Padilha Damilano, coordenador do curso até hoje, depois de 2005, outras turmas foram criadas nos anos de 2010, 2012, 2014 e 2017, em cidades como Foz do Iguaçu (PR), Três Passos, Livramento, Sobradinho, Novo Hamburgo, Balneário Pinhal, Santa Vitória do Palmar, Agudo, Porto Alegre, Vila Flores e Santo Antônio da Patrulha. Atualmente, o curso é ofertado em cinco regiões: Cachoeira do Sul, Cerro Largo, Cruz Alta, Gramado e Tapejara.

Reportagem: Eloize Moraes; Gustavo Salin Nuh; Tayline Alves Manganeli 

Ilustração e diagramação (impressa): Luiz Figueiró

Diagramação site: Daniel Michelon De Carli

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/palhacas-na-universidade Fri, 22 Dec 2023 10:47:04 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9851

“Os textos destas pesquisadoras trançam com delicadeza e precisão os tempos do passado, do presente e do futuro, para retratar o universo em expansão das mulheres palhaças”. Essas palavras são de Maria Brígida de Miranda, professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), e fazem parte do prefácio da obra Palhaças na Universidade – Pesquisas sobre palhaçaria feita por mulheres e as práticas feministas em âmbitos acadêmicos, artísticos e sociais. A organização do livro, que tem quinze capítulos, foi proposta em 2018 na mesa de debates ‘Mulheres na academia’, no festival internacional ‘Esse monte de mulher palhaça’. Ana Wuo, professora do curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e Daiani Brum, doutora em Teatro pela Udesc, ficaram responsáveis por reunir pesquisas que abordassem a atuação de mulheres como palhaças, artistas e pesquisadoras.

Afinidade com a temática não faltou para as organizadoras. Ana Wuo começou a fazer cursos de palhaçaria durante o período de graduação na Unicamp, na década de 1990. Daiani Brum teve seu primeiro contato com a arte palhacesca durante o bacharelado
em Artes Cênicas (2012) pela UFSM. Para Ana Wuo, a palhaçaria não é só a arte do fazer rir ou do rir de si, mas também é uma profissão que possibilita trabalhar com as ingenuidades, fragilidades e inadequações do ser humano frente à vida. Além disso, Wuo destaca que esse livro “possibilita abrir um espaço para que as práticas feministas possam ser divulgadas tanto no âmbito acadêmico quanto no artístico”.

Daiani Brum identifica a palhaçaria como “um espaço em que muitas corporeidades têm a possibilidade de estabelecer suas narrativas e sua comicidade”. A ideia da obra é discutir ainda mais sobre esse tipo de riso: não somente o que se dirige a outra pessoa e se utiliza de fragilidades, mas que também enaltece a força das pessoas e traz uma melhor convivência com o ser diferente. A existência do Palhaças na Universidade está atrelada a esses fatores e almeja romper a invisibilidade e as dificuldades de exercer o protagonismo da mulher na profissão.

Mulher, negra e palhaça

O artigo “Palhaça Negra: palhaçaria como hackeamento dos racismos e ruptura de grilhões”, escrito por Adriana Patrícia dos Santos, é o texto que abre a obra Palhaças na Universidade. A pesquisa apresenta uma perspectiva fundamentada nas experiências da autora enquanto palhaça negra. Santos afirma que “falar de palhaçaria feminina e/ou da mulher palhaça se faz cada vez mais urgente nos
dias atuais, e falar de palhaça negra é uma intersecção fundamental nesse debate”. Ela também destaca que as discussões sobre as diversas expressões da mulher palhaça se intensificaram e com isso há a ressignificação dos legados da prática palhacesca, “sobretudo criando recentes abordagens cômicas a partir da demanda de seus próprios corpos e experiências”

Reportagem: Gustavo Salin Nuh
Ilustração e diagramação: Luiz Figueiró

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/representatividade-negra-na-arte-gaucha Mon, 18 Dec 2023 12:55:05 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9852

Ao imaginar uma pessoa gaúcha, é comum que se pense em um indivíduo cisgênero, heterossexual e branco. Essa representação normativa perturbou o artista Márcio Cardozo, que passou a vida tentando se encontrar em cenas do seu cotidiano, ora no Centro de Tradições Gaúchas (CTG), ora na arte e, infelizmente, nunca com sucesso.

A partir da angústia de não se sentir representado nos espaços que ocupava, Márcio propôs uma reconstrução artística para preencher lacunas existentes na imagem de peões e prendas. O pintor utilizou-se da tela de algodão e da tinta a óleo de linhaça para criar corpos negros gaúchos com expressividade e irreverência.

A intenção de Márcio com seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Artes Visuais, intitulado Representatividade Pictórica Negra: Ressignificações de Cenas Características da Cultura Gaúcha, foi a de fazer uma provocação e incitar um novo olhar sobre a cultura gaúcha. Para atingir esses objetivos, ele criou uma narrativa repleta de personagens negros intelectuais, famílias pretas bem estruturadas (rompendo com o estereótipo de família preta brasileira sem estruturas) e cenas típicas do pampa sul-riograndense.

 

Para eliminar a marginalização de pessoas negras e trazer o elemento do intelecto às suas obras, Márcio buscou retratar nas pinturas o jornal O Exemplo, um noticiário pós-abolicionista gaúcho financiado por pessoas negras e antirracistas. “A arte é uma válvula para recontar a história com uma potência transformadora que possibilita uma nova postura e reflexão”, pontua Márcio sobre os elementos que compuseram sua criação artística.

Além disso, ele foi responsável por fabricar grande parte do material de pintura durante a criação das telas. Como vegano, ele não utilizou nenhum utensílio que prejudicasse animais, fez uso de tintas naturais, madeira, algodão cru e pincéis de fibra. Confira algumas das obras resultantes do trabalho de Márcio neste Ensaio.

Reportagem: Isadora Pellegrini
Diagramação: Noam Wurzel

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/sobre-espelhos Thu, 14 Dec 2023 13:09:51 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9866

O menino entrou na sala de espelhos numa tarde branca de inverno. Perseguia uma bola multicor e os guardas o acharam tão gracioso que não puderam evitar um pouco de sorriso. A sala de espelhos é enorme. Quase um salão, mas não tão grande. Quase uma galeria, mas não tão comprida. É coberta de espelhos em três paredes. Naquela em que é possível olhar para fora, para os jardins, há um espelho entre cada vão de janela. É uma sala linda de se ver, mas poucos gostam de entrar nela, menos ainda de entrar sozinhos. Só as crianças pequenas não têm essas
inquietações. É sinal de estar crescendo recear ir à sala de espelhos e de amadurecimento esconder isso de todos os outros.

Só quando a luz começou a diminuir foi que os guardas lembraram. Ninguém vira o menino voltar pela porta em que entrou. Não, com toda a certeza, o menino não saíra da sala de espelhos. Os guardas procuraram, por lá e por toda parte. Nada, nem de menino, nem de bola colorida. A brincadeira virou susto, que virou desespero e, depois, tristeza. Nunca mais se soube do menino. Um riso seu talvez tenha ficado dentro da sala. Sei de muitas pessoas que disseram ter ouvido o menino por lá. Alguém, numa festa, jurou ver o menino refletido, olhando os homens de
peruca e as mulheres de saia quadrada com um riso nos lábios. Divertia-se o menino. O que era aquela criança no meio dos adultos, perguntou uma dama que ignorava o ocorrido. Mas não havia criança. Não na sala, como ela julgara. Só nos espelhos.

Então, quando não era festa, já ninguém entrava na sala, fosse sozinho ou acompanhado. Até mesmo cortesãos, que nunca admitiram o pânico que as festas entre os espelhos começavam a causar, resolveram que os jardins seriam melhores no verão e as salas com altos lambris de madeira muito mais quentes nas noites de inverno.

A sala de espelhos foi ficando sozinha. Há quem diga que foi o abandono que transformou o menino em peixe. Porque peixes de cauda longa podem nadar sob a superfície dos espelhos d’água e o menino já não se satisfazia apenas com a sala de espelhos. Nem mesmo a revolução conseguiu voltar a encher a sala. Porém, foi nesse dia que o peixe-menino fugiu.

Ele se grudou no espelho de uma espada e saiu para o mundo. Foi navegando de reflexo em reflexo, indo a todo lugar, ficando mais nuns que em outros. O melhor de tudo é que os peixes são muito mais difíceis de ver do que os meninos. O ruim é que alma de menino não pode virar peixe e disso se pode saber com certeza.

Há quem diga que quando os espelhos bruxuleiam como a superfície dos lagos, fingindo que é a luz que falha sobre eles, é o peixe-menino vindo à tona em busca de um amigo. Sob a superfície, dizem, é possível ver o olhar do menino-peixe convidando para brincar.

*Nikelen Witter é escritora e professora do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria

Ilustração e diagramação: Noam Wurzel

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/foi-um-rio-que-passou-em-minha-vida Thu, 30 Nov 2023 17:03:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9868

Reportagem: Caroline de Souza Silva
Ilustração e diagramação: Luiz Figueiró

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/inovacao-no-cultivo-demorangos-morangos Fri, 24 Nov 2023 10:05:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9779

Em 2006, o grupo de pesquisa liderado pelo professor Dilson Bisognin, do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), fez uma constatação: a cadeia produtiva de morangos no Brasil dependia  e mudas importadas, principalmente de países como Argentina e Chile. Tais mudas, segundo o docente,  presentam uma série de problemas: são de raiz nua (sem terra), pois são manipuladas, lavadas e congeladas e precisam viajar vários dias até chegar ao destino. Além disso, nem sempre estão disponíveis na época mais adequada de plantio.

Dilson é especializado em genética e melhoramento de plantas e viu a oportunidade de desenvolver formas inovadoras para qualificar a produção de morango no Brasil. Surgiu, então, a tecnologia de produção de mudas de morango com torrão: “É uma tecnologia totalmente diferenciada. Se você importar uma muda, não sabe como foi a produção dela. Nós oferecemos uma rastreabilidade muito confiável do processo. Você tem a origem garantida”, ressalta o docente. O agrônomo Marino Lovato explica que as mudas chegam ao produtor com o torrão (terra) e a raiz e, por isso, sofrem menos impacto e estresse do que as mudas importadas, pois a terra aumenta a uniformidade do cultivo e facilita a aplicação das práticas de manejo. Além disso, a muda com torrão não demanda processo intermediário aos agricultores: pode ser plantada assim que é adquirida.

 

Como as mudas são produzidas?

  1. Definição das cultivares: Albion e PRA Estiva
  2. Produção da planta matriz em laboratório e aclimatização em casa de vegetação
  3. Estabelecimento dos jardins clonais em casa de vegetação Coleta precoce da ponta de estolão (propágulo) e enraizamento em ambiente controlado*
  4. Aclimatização e rustificação das mudas em ambientes apropriados Mudas com torrão e prontas para o plantio são distribuídas para os produtores/clientes

*A tecnologia da patente está nesse ponto do processo. Vantagens: possibilita maior taxa de multiplicação, elimina os riscos de contaminação das raízes das plantas por patógenos de solo e facilita o manejo, dispensando o uso de produtos químicos.

Inovação ➔ Patente ➔ Empresa

A tecnologia, que começou a ser delineada em 2006, foi depositada em 2011 e teve sua patente concedida em 2019: “Usando a linguagem de industrial, essa é uma patente disruptiva, ou seja, nós demos um enorme salto tecnológico em relação ao que existia na época em termos de propagação de morango”, afirma Dilson. Em abril de 2020, foi criada a empresa QP Mudas, com o objetivo de colocar no mercado a tecnologia da produção de mudas com torrão. A QP Mudas foi a primeira empresa incubada na UFSM a explorar tecnologia patenteada desenvolvida na própria Universidade.

QP vem de Qualidade e Produtividade, pois, como explica o professor, a produtividade depende da qualidade da muda: “O sistema desenvolvido para a utilização da patente licenciada pela Universidade vai proporcionar uma muda de altíssima qualidade. Isso vai dar uma possibilidade maior de produtividade de frutos de excelente qualidade”. Márcia Dumke, que trabalha na área há 18 anos, é um exemplo de produtora de morangos que passou a adquirir as mudas da QP devido à qualidade

e procedência: “Comprei as mudas da empresa por terem à pronta-entrega, poder plantar na época certa e também por serem produtivas. Como elas vêm enraizadas, posso começar a adubar a
planta mais cedo, o que dá uma melhor produção“, relata a cliente.

Marino Lovato é o responsável técnico pela produção das mudas da QP e conta que, do primeiro para o segundo ano da empresa, a produção e a comercialização aumentaram quatro vezes. Ele ambiciona, nos próximos dois anos, chegar a quinhentas mil mudas comercializadas. O alcance proporcionado pelo comércio online surpreendeu: “Os principais clientes da empresa são produtores de outros estados, como Paraná, São Paulo e Santa Catarina”, comemora o agrônomo.

Reportagem: Karoline Silveira Rosa
Ilustração e diagramação: Cristielle Luise
Diagramação matéria no site: Daniel Michelon De Carli

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13ª Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/estrangeiro-na-ufsm Wed, 27 Sep 2023 12:52:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9864

Meu nome é Nicásio Gouveia, tenho 33 anos, e sou natural de Bolama, Guiné-Bissau, África. Desde a infância, meu maior sonho era ser jogador de futebol, porém, por falta de um empresário para fazer a apresentação em um clube de Portugal, o projeto da minha vida tomou outros caminhos. Em 2009, surgiu a possibilidade de fazer o processo de admissão do Programa de Estudantes – Convênio de Graduação (PEC-G) na Embaixada do Brasil em Guiné-Bissau. Após prestar o processo, fui aprovado para uma vaga no curso de Bacharelado em Estatística na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul.

Nicásio Gouveia é bacharel (2016) e especialista (2018) em Estatística pela UFSM. Atualmente, é doutorando em Estatística e Experimentação Agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq- USP).

Cheguei ao Brasil em março de 2010, aos 22 anos, com o sonho de cursar Estatística na UFSM. No primeiro dia em Santa Maria, era necessário fazer os documentos na Polícia Federal para legalizar a minha estadia no Brasil. Além disso, me deparei com a dificuldade de encontrar uma casa para morar. Consegui um quarto na Pensão do Alemão, que fica na Avenida Roraima, em Camobi, próximo à UFSM. No dia seguinte, o Paulo (que era responsável do Departamento de Registo e Controle Acadêmico da Universidade) me indicou a pensão da Dona Sônia Behr. Quando cheguei na casa da Sônia, encontrei ela e o marido, Severo, que me receberam. Disse que estava à procura de uma casa para ficar durante o tempo de estudos na Universidade. Entretanto, não havia vaga naquela casa. Diante disso, ela me orientou a continuar pela procura de um outro local e, caso não encontrasse até o final do dia, poderia voltar a procurá-la.

Depois de caminhar por quase todo Camobi, voltei a falar com ela. Ela me acolheu por uma semana, sem cobrar um centavo. Depois disso, consegui outro local, mas a Sonia me disse que, quando liberasse uma vaga, seria avisado para retornar. Depois de três meses, um quarto finalmente foi liberado. Imediatamente fiz a mudança e foi onde fiquei por oito anos. Não tenho palavras para descrever o que Sônia e Severo fizeram por mim. Desde o primeiro dia que a encontrei, me tratou como um filho, até os dias de hoje. Ela, sem dúvida, é minha mãe adotiva no Brasil, e agradeço muito por tudo.

Na época, tudo era novo para minha adaptação. A cultura da cidade, os hábitos, o clima, a gíria gaúcha, entre outras coisas. Quando comecei o curso de Bacharelado em Estatística, tive muitas dificuldades, que não cabem mencionar aqui. Pensei em desistir e trocar pelo curso de Administração, mas a professora Luciane Jacobi, na época a coordenadora do curso, me incentivou a não desistir e me deu todo o suporte para seguir. Ela foi fundamental para a minha formação, tanto em relação aos estudos, quanto financeiramente para minha estadia nos primeiros seis meses. Devo muito a ela, e também à secretária do Departamento, Rosa, e demais professores do Departamento de Estatística. Vale ressaltar também um agradecimento ao professor Marcio Miotto, do Departamento de Matemática, que sempre me incentivou nesta jornada.

Tentei resumir aqui a minha história ao longo dos oito anos em Santa Maria, mas o que vivi na cidade, especialmente na Universidade, poderia render um livro! A UFSM foi muito importante na minha formação acadêmica, pessoal e profissional: abriu-me portas e proporcionou-me novos horizontes e conhecimentos. Atualmente, sou doutorando no Programa de Pós-Graduação em Estatística e Experimentação Agronômica na Universidade de São Paulo, no 55BET Pro Luiz de Queiroz.

Ilustração e diagramação: Cristielle Luise

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