6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Mon, 17 Mar 2025 12:47:54 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico 6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/pioneirismo-na-medicina Mon, 18 Jan 2021 13:45:48 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1814

Janeiro de 1954. No exame vestibular para a admissão à Faculdade de Medicina de Porto Alegre acontece algo inusitado: apesar do edital de convocação explicitar claramente que os primeiros 100 classificados seriam os alunos do curso médico daquele ano, são relacionados 150 aprovados. Inequivocamente, os 100 primeiros matricularam-se naquela instituição e os demais, os excedentes (assim chamados desde logo), tornaram-se os alunos que constituiriam o que viria ser a primeira turma médica da recém-fundada Faculdade de Medicina de Santa Maria, por muitos, com propriedade, chamada “a Faculdade de Medicina do Dr. Mariano”.

O curso transcorria lisamente, apesar dos pessimistas. Mariano, arguto e atilado, fez bom uso de sua inquestionável influência e brindou a seus alunos o melhor ensino nas chamadas disciplinas básicas enquanto preparava alguns médicos da cidade para o ensino prático, enviando um bom contingente destes para fora do estado e trazendo “a nata” da capital e do centro do país assim como do estrangeiro, para ensinar à “sua” primeira turma. Necessário tornou-se, então, dispor de um bom teatro de operações: um hospital de ensino.

O “Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo”, já tradicional e fundado pelo próprio Astrogildo em 1903, servia à cidade há cerca de meio século mas apresentava nítidas limitações. Pois Mariano não hesitou em aprimorá-lo e atualizá-lo, conferindo-lhe a feição de um eficiente hospital de ensino.

Para tal, mais do que equipá-lo, arregimentou seu Corpo Clínico e, mais ainda, motivou os responsáveis pelas distintas enfermarias e ambulatórios da entidade a participar ativamente do processo de ensino, fazendo-o pessoalmente ou oferecendo seu espaço para que em seus leitos os alunos pudessem praticar.

Foram inúmeras as enfermarias do Hospital de Caridade que colaboraram para o funcionamento da novel Faculdade. Deveriam ser citadas as de cirurgia de mulheres (como a do Dr. Amaury Lenz e a do Dr. Cecil Agne), as de clínica médica de mulheres (como a da Dra. Diná Schmidt e a do Dr. Canabarro), a Maternidade (sob a guarda zelosa do Dr. Celso Teixeira) e tantas outras enfermarias, todas sob a direção de diligentes médicos como o Dr. Miguel Meireles (na pediatria), para exemplificar com alguém tão especial como o Mestre Meireles.Nossa faculdade foi a primeira escola de medicina brasileira concebida e estruturada no estilo americano: o sistema departamental. Vale dizer, constituída por unidades docentes que grupavam várias disciplinas afins, os departamentos, assim potencializando os ensinamentos e aproveitando docentes cujo conhecimento técnico poderia enriquecer um maior número de alunos e, assim, beneficiar os pacientes enfocando seu estado de saúde de forma mais eficiente e realista.

O pioneirismo não se restringia ao exposto; a Faculdade de Medicina de Santa Maria foi, também, o primeiro curso médico a dedicar os dois últimos semestres ao estágio obrigatório nas quatro áreas do conhecimento médico como um todo: clínica médica, clínica cirúrgica, tocoginecologia e pediatria. E isto tudo (no que tangia ao ensino prático) inteiramente sediado no valoroso Hospital de Caridade. O “Caridade” (como carinhosamente muitos de nós nos referimos ao “nosso” hospital), agora já centenário, segue seu caminho rumo ao futuro. E verdade seja dita, sua estrutura atual é bem diferente da existente nos tempos da nossa “primeira turma”…!

*Ronald Bossemeyer fez parte da 1ª turma de Medicina da UFSM e atualmente é Diretor-Técnico do Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo

**Texto publicado originalmente na sexta edição da Revista Arco e republicado em razão dos 60 anos da UFSM

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/montevideu Wed, 08 Jun 2016 20:06:37 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1817 Ao ultrapassar demarcações, até ti cheguei: hei de compreender que os limites de meu pago existem para serem transcendidos. Percorri terras orientais a um rio que muitas histórias testemunhou, terras que sentiram os passos e escutaram os relinchos de cavalos alados montados por guerreiros que pelejaram pela tua soberania.
Assim te enxergo, assim te vejo. O monte que vi de leste a oeste em uma terra oriental sinalizou a tua chegada. Não a minha, como se pode supor, mas a tua: em mim adentraste e em mim permaneceste.

E eu a montevidear.

Indaguei-me: quem tu és, Montevidéu? O que tu és? Não houve um anfitrião que a mim te apresentou, assim como ninguém a ti me introduziu: como estrangeiros desconhecidos nos entreolhamos e os olhares permaneceram fixos, mudos e contemplativos. Na verdade não fixos, mas em constante movimento ao nos observarmos diariamente e noturnamente.

E quanto em ti pude enxergar! Vi muito de e em ti: conheci tuas lindas praças cujos sons dos mais belos tangos pareciam fazer parte de ti, como se a melodia fosse a transpiração dos teus monumentos que glorificam teu passado.
Em um edifício moderno vejo refletida a imagem de outro que nos remete a tempos passados. Mas o teu passado não está no passado, Montevidéu, está no momento presente, não o passado sobrepondo o presente, mas aquele fazendo parte deste.

E eu a montevidear.

Eu quis conhecer-te de perto, perceber tua essência que emanava de cada parte que te constitui: teus bairros são braços que abraçam e abarcam tudo aquilo que em ti está contido. Não te conheci por “Montevidéu”, mas sim por “Montevideo”, sem “u”, sem acento e sem nada sobre ti saber. Hei um dia de re-ver e re-conhecer teus caminhos. Caminhos que levam a palácios, a construções antigas, a portos, a praias, a pessoas…

Seres nos quais tu deixas marcas indeléveis, seres que formam teu povo, tua gente, teus gauchos. És tu um senhor ou uma senhora, Montevidéu?

Assim tu me pareces ser: tu és um senhor ou uma senhora de meia-idade, tens um sorriso simpático e acolhedor, mãos fortes que carregam consigo um mate curto e amargo por ruas sombreadas por árvores que parecem proteger a quem passa.

Teus cabelos grisalhos são o testemunho de tua trajetória de vida, existência contada e cantada por cada uruguayo que a ti pertence, por cada oriental que é filho não de tuas entranhas, mas de tua terra. E de tuas águas. Que te circundam e te saciam de muitas sedes. Se o rio que te banha é de prata, tua terra, em contrapartida, é dourada.

E eu a montevidear.

De que sabor serão tuas águas hoje? Estarão doces ou salgadas neste exato ponto a que minha inexata memória se remete? É o rio que está a subjugar o mar ou seria este àquele? Teu céu testemunha o embate entre os dois para saber quem hoje irá te tocar. Que sabor têm tuas praias hoje? Que música soará em teus colectivos? Pergunto-te: há limite para o teu céu, Montevidéu?

E teu mate? Este tem o sabor da saudade.

Deixei-te e agora novamente de ti me despeço. Cumprimento-te não com um “adiós”, mas com um “hasta luego”.

*Mestre em Educação pela UFSM, Lucas Visentini é contista, cronista e escritor de livros infantis. É o autor do livro Neto e a Boca do Monte, vencedor do Concurso de Literatura Infantil de 2013, promovido pela Academia Santa-Mariense de Letras.

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/retratos-poeticos Wed, 08 Jun 2016 20:00:39 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1810

Retratar é a ação que visa representar a imagem de uma pessoa real, seja através de desenho, pintura, gravura ou fotografia. Intitulada Dispositivo e Contradispositivo na Construção Poética do Retrato, a dissertação de mestrado em Artes Visuais do fotógrafo Rafael Happke – defendida em junho de 2015 no Programa de Pós-Graduação em Artes da UFSM – teve como elemento central da pesquisa o retrato fotográfico.

Happke busca investigar o retrato fotográfico, no âmbito de sua poética, através do uso do dispositivo e do contradispositivo. A poética, no trabalho, tem ligação direta com o termo grego poiesis, que significa criação, produção. “É o processo de construção e reflexão da fotografia. Às vezes as pessoas confundem, não é a questão de ser uma foto artística, mas sim o processo de construção desse retrato”, afirma Happke.

Sob a orientação da professora Darci Raquel Fonseca, técnicas foram criadas pelo fotógrafo para produzir efeitos em suas fotografias. O equipamento padrão usado para capturar os retratos foi uma câmera digital profissional, mas os efeitos produzidos nas fotos se devem aos contradispositivos pensados para a produção dos retratos. “Eles transformam aquilo que o dispositivo – a câmera fotográfica digital – tem a capacidade de capturar”, explica o pesquisador. Uma espécie de câmera escura com pedaços de vidro pontilhado dentro foi um dos contradispositivos usados por Happke. Ele trabalhou, ainda, com jogo de espelhos e reflexos para a produção dos efeitos nos retratos.

Repórter: Guilherme Denardin Gabbi

Fotografias: Rafael Happke

*Confira o ensaio completo na versão flip.

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/para-entender-a-economia Wed, 08 Jun 2016 19:58:00 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1808

Boa parte das pessoas, mesmo aquelas com escolaridade de nível superior, não entendem o suficiente de economia para terem opiniões fundamentadas sobre o que de fato acontece no Brasil. Jargões e linguagem difícil costumam ser utilizados pelos ‘entendidos’ da área para explicar os fatos e acabam confundindo ainda mais os brasileiros. Pensando nisso, o professor José Maria Alves da Silva, da Universidade Federal de Viçosa, escreveu o livro Análise Macroeconômica e Avaliação Governamental, lançado pela Editora da UFSM em dezembro de 2014. O objetivo do autor é que tanto estudantes da área de economia quanto de outros campos possam ampliar sua visão sobre o assunto e ter argumentos fundamentados para analisar os governos.

A apresentação do livro traz uma epígrafe do economista britânico Joan Robinson que sintetiza a proposta do autor: “É importante estudar economia para não se deixar enganar pelos economistas.” O professor Alves da Silva diz que “para avaliar um governo é preciso olhar para diversas variáveis macroeconômicas e verificar se o que se está fazendo para melhorar o comportamento de uma não está prejudicando outra, e assim por diante”.

Por exemplo, será que a luta contra a inflação não está deixando o governo cego para o crescimento do desemprego? Será que a tentativa de aumentar o PIB não está ignorando a qualidade de vida das pessoas?

O livro traz conceitos e variáveis como taxa nominal de câmbio e Índice de Desenvolvimento Humano, cujo entendimento é importante para poder compreender e analisar a situação atual do país, no que diz respeito ao âmbito econômico (veja quadro na página seguinte). O conteúdo difere das formações ortodoxas de economia em sua abordagem, tratamento conceitual e analítico e busca fugir do que é normalmente ensinado nos bancos acadêmicos. Análise Macroeconômica e Avaliação Governamental também tem como objetivo fornecer educação política e contribuir para a construção de cidadãos, e não apenas de profissionais para o mundo dos negócios. Um dos pareceristas* que aprovou a publicação do livro confirma que o professor Alves da Silva cumpriu o seu propósito: “A obra reúne um conjunto de aspectos que fornece visão detalhada do funcionamento das relações econômicas a partir de uma perspectiva conceitual e aplicada, fornecendo, assim, compreensão prática dos fenômenos econômicos mesmo àqueles que não dominam as complexas teorias.”
* Por uma política da Editora UFSM, o nome dos pareceristas que analisam as obras não deve ser divulgado.

OS DESAFIOS DO LIVRO

Segundo o professor Alves da Silva, o desafio de escrever o livro foi o mesmo de quando se entra em sala de aula para iniciar os alunos nos meandros da ciência: tornar fácil o que é difícil e, no caso dos seus alunos, sempre buscando que eles adquiram conhecimento o suficiente para serem aptos a embarcarem na área da pesquisa científica.
Essa obra, porém, busca ser acessível não só para estudantes de economia e áreas afins, mas também para profissionais de outros campos que almejam ampliar seu conhecimento. O autor assegura que “o leitor que se dedicar a compreender e dominar os conceitos apresentados pelo livro certamente sairá mais exigente, avaliativo e vai poder criticar a postura econômica dos governos baseado em fundamentos teóricos”.

A REFORMA CURRICULAR DOS CURSOS DE ECONOMIA

Nos anos 80, acontecia no Brasil um movimento pela reforma curricular dos cursos de economia do país, e o professor José Maria Alves da Silva foi um participante ativo dessa movimentação. Contudo, ele explica que, na sua visão, a partir disso, houve um retrocesso muito grande, pois “a reforma acabou por retirar as poucas coisas boas que havia no currículo da época da ditadura, que era mais crítico e mais focado nas realidades brasileiras e latino-americanas”. O professor critica o ensino atual de economia, chamando-o de “pasteurizado”, pois é baseado somente em manuais norte-americanos que estão na moda no momento. No entanto, o cenário parece estar lentamente mudando.
O professor José Maria também acredita que a teoria desses autores norte-americanos não representa mais a economia do mundo real, nem suas crises e as origens delas. Segundo ele, novos autores estão surgindo com novas ideias e abordagens que trabalham a “economia real” contemporânea, que sinalizam para um futuro promissor da ciência econômica. “Se essa profecia se cumprir, meu livro estará na direção correta”, finaliza o professor.

Reportagem: Gustavo Martinez

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-impacto-das-aguas Wed, 08 Jun 2016 19:53:49 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1805
Você já deve ter ouvido falar que setenta e cinco por cento da superfície da Terra é coberta por água. Mas você sabia que muitas propriedades das águas dos oceanos estão fortemente associadas às mudanças que ocorrem na atmosfera, como a ocorrência do El Niño? Esse fenômeno, que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais no oceano Pacífico Tropical, pode comprometer o clima regional e global (e também as suas férias).São vários os fatores que afetam a variação climática global, entre eles o processo de troca de calor entre a superfície do mar e a atmosfera e a influência do dióxido de carbono nesse processo. Com uma costa de mais de 8.000 km² banhada pelas águas do Oceano Atlântico Sul, o Brasil, até pouco tempo, dispunha de poucos recursos para estudar o impacto que essas águas dos oceanos têm sobre o clima do país e do continente sul-americano. A partir de 2004, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) desenvolveu um projeto voltado para o estudo direto dos processos de interação oceano-atmosfera.
 

O Projeto Interação Oceano-Atmosfera na região da Confluência Brasil-Malvinas (Interconf) é coordenado pelo pesquisador Ronald Buss de Souza, do INPE, e atualmente é o único grupo da América Latina que realiza pesquisas na área. Responsável por inúmeros trabalhos de pesquisa, o projeto conta com alunos de graduação, mestrado e doutorado de diversas instituições, como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal do Rio Grande (FURG).O Projeto Interconf atua em parceria com o Programa Antártico Brasileiro (Proantar), um projeto do governo brasileiro que, desde 1982, através da Marinha do Brasil, oferece o suporte para levar pesquisadores até o continente antártico, com todo o equipamento necessário para coleta de dados para pesquisas.Três navios são disponibilizados pela Marinha: Navio Hidro-oceanográfico Cruzeiro do Sul (H38), Navio Polar Almirante Maximiano (H41) e Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rangel (H44).As embarcações transportam uma tripulação de mais ou menos 80 pessoas, entre pesquisadores e integrantes da Marinha.Os dados são coletados em parceria com o Centro de Hidrografia Marinha (CHM) e possuem grande relevância para os trabalhos realizados pelo INPE, sendo aplicados nas mais diversas áreas da Oceanografia e Meteorologia. Estes dados auxiliam na compreensão de processos físicos e biológicos do ciclo do dióxido de carbono (CO2) e seu papel nas mudanças climáticas globais. “Essas medidas são consideradas importantes para os estados da região Sul do Brasil, pois a passagem de frentes frias sobre o estado do Rio Grande do Sul é afetada diretamente pelas variações de temperatura na superfície do mar’’, explica Ronald.

 

A BORDO

O Projeto Interconf utiliza os navios – quando eles passam pela região oceânica da Confluência Brasil-Malvinas – para realizar medidas que ainda não haviam sido feitas, nem mesmo pelos navios do Proantar. A equipe do professor Ronald vai ao mar com instrumentos específicos para medir variáveis oceânicas e atmosféricas, como: temperatura da água do mar, temperatura do ar, umidade relativa do ar, intensidade de direção dos ventos e intensidade de direção das correntes marinhas. Esses parâmetros físicos servem de apoio para calcular a troca de calor entre o oceano e a atmosfera.

Em outubro de 2014, Ronald Buss e sua equipe participaram da Operação Antártica de número 33, que partiu do porto do Rio de Janeiro, com escala nos portos de Rio Grande (RS) e Ushuaia (Argentina), a bordo do Navio Polar Almirante Maximiano (H41).Segundo Ronald, a operação começa muito antes do embarque, com a preparação dos instrumentos utilizados na coleta de dados, que devem ser montados e passam por um período de testes. Depois de preparados, os equipamentos são embarcados no navio e devidamente instalados. São utilizados, ao longo do percurso entre o Brasil e a Antártica, radiossondas atmosféricas, equipamentos oceanográficos e uma torre micro-meteorológica de fluxos, que tem a capacidade de medir as transferências de calor e de dióxido de carbono (CO2), entre outras variáveis.

A radiossonda é lançada do navio por meio de um balão atmosférico, chegando a altitudes acima de 25.000 metros. Dentro do navio existe um receptor que capta, via rádio, as informações do aparelho. A torre micro-meteorológica é instalada na proa do navio para coletar dados atmosféricos próximo à superfície do mar.

 

PARA ENTENDER MELHOR

As variáveis físicas na interface oceano-atmosfera são estudadas a partir da variação de temperatura entre a corrente marítima do Brasil, que vem do Norte, caracterizada por águas quentes e salinas, e a corrente das Malvinas, que vem do Sul, caracterizada por águas frias e menos salinas. O encontro dessas duas massas d’água representa uma diferença de temperatura que, em poucos quilômetros, pode variar em mais de 10ºC.

 

Repórter: Diossana da Costa
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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-espaco-tambem-e-deles Wed, 08 Jun 2016 19:51:10 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1802

Confira esta matéria completa na versão digital da 6ª edição da revista Arco, disponível neste link.

Espaços públicos são territórios de encontros e manifestações, coletivas e individuais. Mas alguém pode decidir quem ocupa cada espaço?

Durante anos, boa parte da comunidade LGBT, formada por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, manteve-se “dentro do armário”, ou seja, evitou se expor publicamente, já que sua orientação sexual costumava ser motivo de rejeição. Aos poucos, eles passaram a ocupar pequenos territórios públicos, como praças e parques, onde podiam se encontrar e expressar sua sexualidade. No entanto, esses espaços não eram ocupados durante muito tempo, seja por repressões preconceituosas ou desinteresse da própria comunidade em permanecer frequentando esses locais. Além desses espaços, começaram a ser construídos locais de comércio e prestação de serviços, como boates, casas noturnas e saunas. Neles existe a possibilidade das trocas afetivas serem realizadas, como beijos e abraços, além de gerar lucros aos comerciantes. As táticas de ocupação e trocas homoafetivas, em espaços públicos e privados, são estudadas desde o início dos anos 2000 pelo professor Benhur Pinós da Costa, do Departamento de Geociências da UFSM.

O primeiro passo dos seus estudos foi dado na dissertação de mestrado, que se seguiu na tese de doutorado quando Benhur investigou sobre os espaços ocupados pela comunidade LGBT em Porto Alegre, sua cidade natal. O foco da pesquisa é dado para as relações entre as pessoas e os espaços públicos da sociedade, buscando identificar e divulgar as diversidades culturais e sexuais invisibilizadas.

Segundo Benhur, os estudos sobre diversidade sexual costumam estar centrados nas grandes cidades e na vida metropolitana. Em Porto Alegre, além dos locais privados de encontro e consumo, lugares públicos, como a Praça da Alfândega e o Parque da Redenção, são frequentados pela comunidade LGBT e ocupados através de táticas próprias, muitas vezes não perceptíveis aos demais. “Embora seja na perspectiva da grande cidade, naquela época foi um trabalho muito inovador no âmbito da Geografia, visto que as pesquisas sobre o tema ainda eram poucas no Brasil” – diz Benhur.

CIDADES DO INTERIOR

Surgiu, então, a curiosidade de estudar os espaços de convivência homoafetivas em cidades brasileiras de médio porte. O professor desenvolve, atualmente, pesquisa sobre o cotidiano de homossexuais em cidades do interior do Brasil. O pesquisador selecionou cinco cidades, representantes de cada região do país: Santa Maria (RS), Presidente Prudente (SP), Vitória da Conquista (BA), Santarém (AM) e Dourados (MS).

As cidades escolhidas seguiram padrão de tamanho – médio e pequeno porte – e deveriam ser distantes da metrópole. Devido ao difícil acesso a sujeitos que colaborassem com a pesquisa, a seleção das cidades pesquisadas sofreu diversas mudanças. Os grupos entrevistados não seguiram padrões, já que gays, lésbicas, travestis, jovens e adultos, dividiram o mesmo espaço de convivência. Para Benhur, qualquer delimitação seria um impeditivo na formação dos grupos de conversa.

Quando se mudou para Santa Maria, em 2010, Benhur iniciou o projeto “Cidades, espaço público e diversidades culturais no interior do estado do Rio Grande do Sul”. A diferença para a pesquisa ocorrida em Porto Alegre foi a proposta de olhar a cidade pequena como local possível para a convivência LGBT, diferentemente da maioria dos estudos atuais da geografia, que focam apenas na metrópole.

“A cidade grande é um espaço de libertação, mas os grupos estão separados. A travesti está no seu lugar, o homem gay está no seu e a lésbica no seu. A cidade grande fixa o lugar da comunidade LGBT. Na cidade pequena, o gay está no mesmo lugar que a travesti, que a prostituta e, possivelmente, que um heterossexual.”

Benhur também trabalhou com os espaços que sujeitos orientados para o mesmo sexo ocupam em sete cidades do interior do Rio Grande do Sul: Santa Maria, Alegrete, Itaqui, Santo Ângelo, Cruz Alta, Uruguaiana e Bagé. Através do contato com lideranças locais do movimento LGBT, foi possível chegar a cada uma dessas cidades e realizar grupos de entrevista e espaço para trocas de experiências entre as entrevistadas e os entrevistados.

Os locais para convivência LGBT ainda são poucos. Os pontos de encontro, como bares e boates, são frequentados pela comunidade LGBT e por heterossexuais de todas as classes sociais. Apesar disso, o mercado também reproduz segmentações e preconceitos. Para o pesquisador, as barreiras criadas quanto à classe social e à raça dos frequentadores foram visíveis no decorrer da pesquisa e criam discriminações dentro do mundo LGBT.

O estudante da UFSM Jean Moralles é natural de Itaqui e veio para Santa Maria estudar Artes Cênicas em 2012. Para ele, a nova cidade proporcionou um processo de descobrimento e libertação, já que em Santa Maria passou a expressar sua homossexualidade, através da roupa e do teatro. Ele comenta que em Itaqui existe uma homossexualidade velada, onde o gay ainda deve se comportar e se vestir como hétero. “O que mais me assusta no interior é a consciência do homossexual sobre si, pois eles acham que eles estão errados em certas situações de preconceito, e que não devem usar algumas roupas ou se manifestar publicamente.”

Entretanto, para Jean, já há um processo de maior aceitação em sua cidade, quando comparado com gerações de homossexuais mais velhos. Os pequenos debates sobre o ensino de gênero na escola e a ocupação de espaços públicos por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais iniciam um movimento para que a comunidade LGBT não precise restringir os encontros apenas aos grupos de teatro, na casa de amigos ou na rua à noite.

Segundo Benhur, as cidades de grande porte tendem a ser mais abordadas em pesquisas, devido ao frequente trânsito de pessoas e à criação de possibilidades de espaços de convivência. Porém, as cidades de médio e pequeno porte ainda são vistas como locais regrados, que seguem padrões de como agir e vestir, e merecem mais atenção de pesquisas de todas áreas do conhecimento.

Reportagem: Andressa Foggiato

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/eu-me-chamo-joe Wed, 08 Jun 2016 19:48:39 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1800

Confira esta matéria completa na versão digital da 6ª edição da revista Arco, disponível neste link.

Nome social é o nome pelo qual a pessoa travesti ou transgênera se identifica e pelo qual é e quer ser socialmente conhecida. A adoção acontece quando a pessoa não se sente reconhecida por seu nome civil, que não reflete sua identidade de gênero. Joe, por exemplo, escolheu ser chamado assim, e não mais Andressa, como foi registrado quando nasceu. A resolução de número 10 de 2015 da UFSM assegurou, entre outras providências, a adoção do nome social no âmbito da instituição.

NOME CIVIL: condiz com o sexo biológico da pessoa
NOME SOCIAL: condiz com a identidade de gênero da pessoa

De acordo com o diretor do Departamento de Registro e Controle Acadêmico (Derca), Paulo de Andrade, a regulamentação do uso do nome social abrange toda a comunidade universitária, como professores, técnico-administrativos, estudantes e empregados terceirizados, além de outras pessoas que se inserem no contexto da UFSM, como pacientes do Hospital Universitário e doadores de sangue, por exemplo. A medida garante, na UFSM, ao estudante o direito de sempre ser chamado oralmente pelo nome social, sem menção ao nome civil, inclusive na frequência de classe e em solenidades como colação de grau, defesa de monografia, dissertação ou tese.

O DCE (Diretório Central dos Estudantes), em parceria com o coletivo VOE de diversidade sexual e a APG (Associação de Pós-Graduação) protocolou junto à reitoria um pedido de adesão da UFSM ao reconhecimento do nome social na instituição. A partir disso, o coordenador de planejamento acadêmico, professor Jerônimo Tybusch, escreveu o texto da resolução. Segundo ele, foram tomadas como base as experiências de outras universidades que já haviam adotado a prática, como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal de Rio Grande.

“A nossa tentativa foi fazer uma resolução integrada, que atingisse todas as categorias que tenham interação com a universidade, sendo bastante flexível nesse sentido, além de acompanhar as tendências mais avançadas em termos de integração, reconhecimento e respeito social de todos os indivíduos que formam a comunidade acadêmica”, frisa o professor Jerônimo Tybusch.

A adesão ao nome social, até dezembro de 2015, ainda não tinha sido expressiva, segundo o diretor do Derca, Paulo de Andrade: “As quatro pessoas que solicitaram até agora vieram assim que foi aprovada a resolução [em março de 2015], depois o fluxo baixou, até porque, além de ser uma pauta delicada, o sistema de dados ainda não estava pronto”.

Devido à falta de respaldo de uma lei federal, a adoção do nome social ainda apresenta algumas limitações. O fato de que o nome presente no certificado de conclusão de curso seja o civil, para que tenha validade legal, é um exemplo. Isso, no entanto, não desvaloriza a medida da instituição: “O impacto está na discussão da temática, em trazer para o seio social esse tema”, analisa o professor de Direito da UFSM Alberto Goerch.

APROVAÇÃO FORTALECE DIREITOS DE ESTUDANTES TRANSGÊNEROS

A estudante do curso de Filosofia Élle de Bernardini cursa sua segunda graduação na UFSM e revela que o nome social já existia informalmente, mesmo antes de a adoção ser normatizada pela Universidade: “Ingressei em 2011, cursava Artes Cênicas, e os documentos, provas, assinaturas, todas realizei com meu nome social”. A estudante também destaca que na sua atual graduação poderá adotá-lo formalmente: “Desta vez, meu ingresso coincidiu com a adesão, e fui logo orientada pelo secretário do curso a como proceder para requerer a adesão de meu nome social nos documentos”.

Para Joe, estudante de enfermagem da UFSM no campus de Palmeira das Missões, o nome Andressa Suptitz Carneiro não correspondia a sua identidade.

“Quando me chamam por Joe sei que é comigo, porque é assim que me identifico. Quando me chamam pelo nome civil, é como que estivessem chamando por outra pessoa”, revela o futuro enfermeiro.

A adesão ao nome social atinge problemas práticos vivenciados no dia a dia acadêmico, como o caso das listas de chamada: “Ter que falar com cada professor, a cada semestre para explicar a situação e, mesmo assim, em alguns casos eles continuarem chamando pelo nome civil é desgastante”, lamenta Joe.

Pelas salas de aula da professora Nara Cristina Santos, do Departamento de Artes Visuais, já passaram alguns estudantes transexuais, e a questão sobre qual nome utilizar aconteceu algumas vezes. A docente destaca que a adoção do nome social não vai apenas evitar que os estudantes transexuais passem por constrangimentos desnecessários, mas, sobretudo, vai assegurar que sejam reconhecidos e respeitados pela sua identidade de gênero. “Certa vez fiz a chamada, no início do semestre letivo, e falei ‘Daniel’, mas ninguém se manifestou na turma. Então, no final dessa aula, uma estudante me procurou e disse: ‘Professora, o Daniel que a senhora chamou sou eu, mas eu gostaria de ser chamada de Daniela’. E assim ela foi chamada, durante toda a disciplina e nos demais semestres, por mim e pelos colegas”, relata a professora.

Para Joe, “A adoção do nome social da UFSM não é uma vitória, mas sim um direito dos transgêneros e travestis”. Ele relata que costuma escutar piadinhas constrangedoras pela Universidade, mas não fica calado: “Todos que estão estudando em uma universidade estão se preparando para atenderem à sociedade, e para isso precisamos aprender a tratar com dignidade e adequadamente todas as pessoas, independentemente de quem seja”.

Segundo ele, o espaço da universidade é um pouco mais aberto para dialogar sobre o assunto do que nas escolas, porém “ainda há muitas barreiras para serem derrubadas, pois alguns cursos ainda são conservadores sobre a questão da diversidade sexual”.

O nome social é um mecanismo legal que permite reconhecer os estudantes transexuais e travestis, evitando situações vexatórias e aplicando na prática ações que venham a contribuir com a visibilidade e permanência desses indivíduos no ambiente educacional.
“Precisamos ocupar nossos espaços que temos por direito, ocupar as escolas (que muitas abandonam, por conta do preconceito), universidades, empresas e onde mais tiver espaço para ocuparmos”, conclui Joe.

HISTÓRICO

O assunto começou a ser debatido na UFSM em novembro de 2014, quando o reitor, Paulo Burmann, recebeu em seu gabinete a coordenadora de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual, Marina Reidel, que representava a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. O encontro teve também a participação de representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e do Coletivo Voe, que congrega representantes do movimento LGBT de Santa Maria.

No dia 27 de março de 2015, o Conselho Universitário aprovou, unanimemente, a adoção do nome social na UFSM, decisão que só foi protocolada em definitivo na resolução publicada no dia 3 de junho do ano passado.

A questão do nome social mexeu com boa parte da estrutura técnica em termos de gerenciamento de dados da Universidade. O Centro de Processamento de Dados (CPD) dedicou a maior parte do trabalho no segundo semestre de 2015 a duas recentes e importantes adoções da UFSM: ao Sisu como forma de ingresso e ao nome social. No dia 1º de dezembro de 2015, foram apresentadas as mudanças no sistema de informações educacionais. Com isso, todos os sistemas institucionais que realizam o cadastro de pessoas passam a ter uma informação a mais, referindo-se ao nome social.

Como proceder: Os estudantes que desejam alterar o nome devem protocolar, no Departamento de Arquivo Geral da UFSM, requerimento que será encaminhado à Pró-Reitoria de Graduação para, após análise, ser destinado ao Derca para fins de execução. No caso de funcionários e colaboradores, a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas é o órgão capacitado para gerir a alteração.

Repórter: Bernardo Zamperetti
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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/alem-do-armario-a-sexualidade-vivida-sem-reservas Wed, 08 Jun 2016 19:44:34 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1798

Confira esta matéria completa na versão digital da 6ª edição da revista Arco, disponível neste link.

A pesquisa científica requer tempo e cautela para reunir os dados e informações necessárias sobre o objeto que está sendo pesquisado. Além desse cuidado, quando o foco do estudo são pessoas, mais do que tato é preciso sensibilidade e respeito, pois não se tratam apenas de números e informações quantitativas, mas de seres humanos. Ainda mais quando a pesquisa irá tratar das relações e do preconceito vividos por um grupo.

Em seu livro Na Batida da Concha – Sociabilidades juvenis e homossexualidades reservadas no interior do Rio Grande do Sul, o sociólogo e historiador Guilherme Passamani relata sua experiência antropológica com um grupo de jovens homossexuais em Santa Maria. O livro, publicado pela Editora UFSM, é uma versão ampliada do Trabalho de Conclusão de Curso em Ciências Sociais, cujo trabalho de campo foi feito entre os anos de 2002 e 2005.

O primeiro contato que o pesquisador teve com esse grupo de jovens gays deu-se através de chats virtuais. No início dos anos dois mil, havia ainda um certo constrangimento em relação à visibilidade homossexual, e, sem redes sociais ou aplicativos que possibilitassem a interação, uma das saídas encontradas para conhecer outras pessoas de forma discreta foram as salas de bate-papo online. Foi em uma dessas salas que Passamani conheceu Rogério*, que, após certa relutância, concordou em colaborar para a pesquisa, cujo objetivo era compreender o lado privado das práticas homossexuais masculinas. Rogério foi a ponte para que o pesquisador pudesse entrar em contato com um grupo de jovens gays com quem tinha o hábito de se reunir em um apartamento no centro de Santa Maria.

Como Rogério descreve no livro, “A Sociedade do Apertamento” era o lugar onde se poderia ser gay sem os ranços de uma sociedade marcada pela homofobia. Fora do apartamento, todos eram vistos como heterossexuais. Aquele era o local, portanto, onde eles poderiam conversar, fazer amigos e namorar sem o medo de serem julgados pela sua homossexualidade. O nome é uma referência ao tamanho pequeno do apartamento onde os mais de dez integrantes se reuniam. Como uma espécie de “sociedade secreta” informal e descontraída, os jovens tinham o local como um ambiente de segurança e liberdade, e a entrada de outros “membros” era feita de maneira cautelosa.

*Rogério é o apelido usado pelo pesquisador para identificar este entrevistado.

Identidade de gênero: corresponde ao processo e condição de identificação de gênero, ou seja, com qual gênero as pessoas se identificam: gênero masculino ou feminino. Com base em nossa anatomia corporal e já em nosso nascimento, a sociedade nos designa como homem ou como mulher – gênero masculino ou feminino. No entanto, nem todos se identificam com essa imposição, como os homens transexuais, que não se identificam com o gênero feminino que lhes foi imposto.

 

Homofobia: é o termo geral que define a aversão e discriminação contra homossexuais. Há especificações como a lesbofobia (preconceito contra lésbicas), bifobia (contra bissexuais) e transfobia (contra pessoas transexuais e transgêneros).

 

Expressão de gênero: refere-se a como cada pessoa manifesta sua identidade de gênero, sendo que isso inclui roupas, acessórios, expressão corporal, aparência e estilizações. Isso não impede, por exemplo, uma pessoa de identificar-se com o gênero masculino e naturalmente possuir uma expressão de gênero feminina e vice-versa. Muitos sujeitos também ficam na fronteira não-definida da expressão de gênero, como, por exemplo, as pessoas andróginas.

 

A FACHADA HETEROSSEXUAL

Além da orientação sexual, havia outros traços em comum entre eles: jovens entre 19 e 25 anos, vindos de cidades do interior do Rio Grande do Sul, pertencentes à classe média, universitários e com práticas homossexuais reservadas, ou seja, não eram vistos publicamente como gays.

A necessidade de manter uma fachada heterossexual era algo constante na vida deles e moldava a forma de ser e de se mostrar para o mundo. O corte de cabelo, o vestuário sóbrio, a busca por um corpo socialmente visto como másculo, a maneira de falar e o tipo de rapaz com quem eles buscavam se relacionar estavam ligados à necessidade de serem discretos, de passarem despercebidos pela sociedade.

A saída das suas cidades de origem, o ingresso na universidade e o encontro com outros que também compartilhavam desse segredo foram fatores positivos para a vivência homossexual desses jovens. Porém, as relações familiares turbulentas, o medo de que suas experiências sexuais fossem descobertas e atingissem suas famílias e a própria pressão cultural sempre foram elementos que exerciam forte influência na vida deles, mesmo longe de casa, dentro do apartamento.

“Lá em casa a gente é bem na nossa, meu pai é um cara da fazenda, sabe? Todo na dele, um gauchão […] com bigode grande, e a minha mãe é a mulher do gaúcho, meus dois irmãos trabalham na fazenda também, eles são agrônomos, eu que saí meio diferente de todo mundo […] mas sempre fui calado, a palavra do pai é que vale lá, e o olhar dele nos diz como a gente tem que ser […] daí eu sempre fui meio na minha” (Leonardo, 21 anos. Trecho do livro Na batida da concha).

Essa imagem culturalmente construída da figura do gaúcho como um homem do campo, másculo, viril, valente e chefe do lar torna-se uma das referências de masculinidade e um dos modelos a ser seguido pelos meninos no interior do Rio Grande do Sul. A fuga desse padrão é vista como um desvio e a necessidade de se encaixar nesse exemplo de “homem de verdade” acaba alimentando outros preconceitos.

Segundo Passamani, a busca por uma fachada heterossexual e o alto grau de preconceito com outras formas de expressão de gênero e sexualidade são reflexos do machismo, em que a figura da mulher é desprestigiada, e o feminino é tratado como frágil, menor e menos importante. Esses comportamentos eram comuns no grupo de jovens pesquisado por ele.

“Não era uma questão tão séria ser visto como gay, mas era uma questão muito séria ser visto como determinado tipo de gay. Eu me lembro de algumas falas deles dizendo o que era ser bicha, e ser bicha era ser afeminado, era ser pobre, era ser escandaloso, era se vestir de forma chamativa. Então, nesse sentido, o que eles eram não era ‘bicha’, porque ser bicha era esse modelo; eles eram outra coisa, o que não implicava uma negação dos desejos por outros homens”, revela Passamani.

Esse desejo de se encaixar nos padrões heterossexuais e de não aparentar a sua homossexualidade também está associado ao desejo de não fazer parte de um grupo que é historicamente marginalizado pela sociedade.

 

A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO PRECONCEITO

A sexualidade humana faz parte de uma construção histórico-social. Sabe-se que práticas homossexuais sempre existiram – da Grécia Clássica até comunidades tribais. O que não se sabe ao certo é quando e por que essas práticas deixaram de ser vistas como algo comum e normal e passaram a ser repelidas pela sociedade.

A influência dos dogmas religiosos é fator que influenciou (e ainda influencia) na discriminação aos homossexuais. No entanto, a ciência também teve um papel importante nesse processo discriminatório. Foi a partir do século XIX, com as mudanças nas práticas da medicina, que os sujeitos que mantinham práticas homoeróticas passaram a ter uma “identidade”, ou seja, atribui-se a eles uma série de características e comportamentos que definem o que é um homossexual.

Nesse processo, os psiquiatras da época passaram a explicar a homossexualidade como uma falha biológica, o que tiraria a responsabilidade do sujeito homossexual, que deixaria de ser visto como um transgressor e passaria a ser visto como um doente, sendo, assim, passível de cura.

É somente no século XX que, lentamente, é feita essa desconstrução. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a palavra “homossexual” da lista de transtornos mentais ou emocionais e, apenas em 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a orientação sexual da sua lista de doenças.

No entanto, a retirada da homossexualidade da lista de doenças não assegurou a sua aceitação social, e uma das formas encontradas para se preservar de ataques e repressões foi manter a orientação sexual escondida.

No Brasil, a Constituição Federal prevê como objetivo fundamental promover o bem-estar de todos, sem preconceitos de origem, de raça, sexo, cor, idade ou quaisquer discriminações. Para assegurar esse preceito, a Lei 7.716/89 criminaliza o preconceito racial. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso atentam contra o preconceito de idade. Porém, a discriminação em razão de sexo (orientação sexual e identidade sexual) segue sem uma legislação que criminalize a homofobia.

No mundo, mais de 70 países, como Irã, Arábia Saudita, Sudão e Rússia, criminalizam as relações homossexuais. Segundo estudo divulgado em 2014 pela Associação Internacional de Gays e Lésbicas, 2,7 bilhões de pessoas vivem em países onde ser gay gera punições e até mesmo condenação à morte.

No atual contexto social, muitas vezes assumir a sua sexualidade torna-se um ato político, na medida em que esses grupos marginalizados não se vêem contemplados legalmente.

 

A EXPRESSÃO LIVRE DA SEXUALIDADE

A discriminação com outras formas de expressão da homossexualidade, principalmente as que conferem expressão de gênero feminina, não é um fato isolado dos jovens citados no livro. Segundo o mestre em Comunicação Social Dieison Marconi, “em várias esferas sociais torna-se comum o discurso de que é aceitável ser gay, desde que seja discreto, não se demonstre isso na rua, ou que não se assuma uma expressão feminina. Tudo bem ser gay, desde que não seja ‘pintosa’”.

A pressão em manter escondida a orientação sexual e expressão de gênero, por medo da não aceitação da família, amigos e o medo das agressões às quais estão suscetíveis ao tornar público a homossexualidade, ajudam a criar os ‘armários’, que servem como proteção, mas também limitam as vivências pessoais.

Espaços mais libertários, como a universidade, os coletivos, os grupos de discussão virtuais e presenciais, tornam-se um marco para os jovens gays vindos do interior, por serem muitas vezes um primeiro espaço onde eles podem viver e expressar seu gênero e orientação sexual sem restrições. “É muito importante porque é um dos primeiros momentos onde você se reconhece tendo uma sexualidade normal, uma sexualidade humana normal, que tudo aquilo que te disseram durante a infância e adolescência não era verdade, que faltava mesmo tu ter uma referência de que essas pessoas estavam sendo felizes sendo gays e que não tinha nada de errado em ser gay” conta Dieison.

“Ah, você tá rindo de mim? Desculpa queridinho, mas eu não vou tirar o meu batom vermelho, eu não vou parar de dar pinta na rua, não vou entrar pro armário de novo, o choro vai ser livre”, diz Dieison Marconi.

Nos últimos dez anos, desde a realização do trabalho de Passamani, foram notáveis as mudanças no cenário LGBT em Santa Maria. A criação de coletivos que pautam questões de gênero e outros movimentos sociais ajudou na ampliação desse debate e tornou mais visíveis questões que antes circulavam apenas em pequenos grupos. A internet, além de uma ferramenta de socialização, tornou-se também uma forma de divulgação e ativismo.

No entanto, apesar de não ser mais considerada uma doença, a homossexualidade é um tema controverso, que ainda desperta preconceitos e fomenta debates, o que torna o movimento LGBT um movimento de luta por muitas bandeiras, como a criminalização da homofobia e direitos civis igualitários.

Reportagem: Maria Helena da Silva

 

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/protagonismo-na-pesquisa-com-fungos Wed, 08 Jun 2016 19:35:24 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1792

Desenvolver pesquisas visando ao controle de doenças causadas por fungos em animais e humanos é o objetivo do Laboratório de Pesquisas Micológicas (Lapemi), que une professores, alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de Medicina, Farmácia, Veterinária e Biologia da UFSM. O Lapemi é coordenado pelos professores Sydney Hartz Alves e Jânio Morais Santurio.

Segundo Sydney, o laboratório se destaca internacionalmente pelo considerável número de publicações científicas sobre o tratamento de doenças fúngicas em ­animais Em média, são de 15 a 20 artigos por ano desde a criação do laboratório em 2001. As produções são distribuídas em publicações de grande renome na área, como o Journal of Antimicrobial Chemotherapy e o Antimicrobial Agents and Chemotherapy.

Um dos focos das pesquisas do professor Sydney Alves é detectar combinações de substâncias químicas com propriedades farmacológicas, por exemplo, de antifúngicos com antibacterianos. O resultado dessas combinações é a maior eficácia do efeito em relação ao uso isolado das substâncias, processo conhecido como efeito sinérgico. “Quando ocorre um efeito sinérgico, você pode diminuir a dose do medicamento, o que reduz a toxicidade e poupa o fígado ou o rim do paciente”, explica o professor Alves.

“Quando ocorre um efeito sinérgico, você pode diminuir a dose do medicamento, o que reduz a toxicidade e poupa o fígado ou o rim do paciente”

A partir dos estudos realizados no Lapemi, é possível concluir quais tipos de combinação podem gerar efeitos mais benéficos e rápidos na cura de uma doença e quais combinações devem ser evitadas. “A gente trabalha com fungos de importância médica, de difícil tratamento e que apresentam resistência aos antifúngicos convencionais. Se detectamos sinergia nos testes in vitro, a segunda etapa é fazer os testes in vivo, em animais, como camundongos e coelhos”, explica a aluna de doutorado em Micologia, Laura Denardi.

 *Efeito sinérgico: o efeito da combinação de dois medicamentos é maior que a soma do efeito de cada medicamento administrado isoladamente.

Visão microscópica de lesão na pele de um equino com pitiose. As setas laranjas destacam Pythium insidiosum, agente causador da infecção
 

 

Pitium-Vac

Outro destaque do Lapemi é a invenção da Pitium-Vac, vacina desenvolvida pelo professor Jânio Morais Santurio. A vacina é utilizada para o controle da pitiose em equinos, doença causada pelo fungo Pythium insidiosum e que se desenvolve em regiões pantanosas. “Como essa doença não tem tratamento com drogas, como antifúngicos, nós acabamos desenvolvendo essa vacina, uma imunoterapia, com o caráter curativo, ou seja, ela é aplicada quando o animal já está doente”, explica Santurio.

Desde 1998, os estudos para a criação da vacina são realizados. Em 2003, a eficiência da Pitium-Vac foi comprovada e um artigo sobre o tema foi publicado na revista inglesa Vaccine. Em 2012, a Pitium-Vac foi licenciada pelo Ministério da Agricultura, permitindo sua produção e comercialização. “Nós fizemos um pedido de patente desse produto e, com os recursos arrecadados, o Lapemi paga bolsas de alunos e despesas correntes do laboratório, como compra de materiais, e também conserto e compra de equipamentos”, conta Santurio.

Atualmente, são vendidas cerca de mil    doses da vacina por mês para todas as regiões do Brasil. E as pesquisas com a Pitium-Vac não param; o objetivo do laboratório é ampliar o efeito benéfico da vacina, tornando-a preventiva e não apenas curativa, como é sua fórmula atual.

 

Laboratório sofreu alterações estruturais para atender às especificações do Ministério da Agricultura

A vacina Pitium-Vac pode ser adquirida  pelo telefone (55) 3220 8906 ou pela loja virtual do site www.pitiose.com.br

 
 

Repórteres: Cibele Zardo e Joelison Freitas

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6° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/ilhados-em-prol-da-ciencia Wed, 08 Jun 2016 19:31:14 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1790

Em dezembro de 2014, cinco pesquisadores canadenses, um austríaco, uma belga e 16 brasileiros participaram de uma expedição a Anavilhanas, arquipélago localizado no rio Negro, no estado do Amazonas.

Organizada pelo professor Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a expedição teve o objetivo de estudar a fisiologia de peixes amazônicos. O professor do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFSM Bernardo Baldisserotto e sua orientanda de doutorado Ana Paula Almeida estavam entre os pesquisadores que passaram 14 dias alojados em um barco, envolvidos com experimentos realizados com peixes da região.

O professor Bernardo lidera na UFSM o Laboratório de Fisiologia de Peixes, que estuda extrativos vegetais como anestésicos, antiparasitários e antibacterianos em animais aquáticos. Ana Paula pesquisa o efeito de dois óleos essenciais na anestesia de peixes e foi até a Amazônia para verificar se esses óleos, que tiveram bom efeito no jundiá (peixe utilizado nas pesquisas realizadas em Santa Maria), podem ser utilizados também em peixes daquela região.

Sol escaldante, vento forte, pesquisadoras mordidas por peixes, inexistência de acesso a internet e telefone: a rotina do grupo de pesquisadores, as dificuldades e as curiosidades foram relatadas pelo professor Bernardo, dia a dia, a pedido da Arco.

DIA 1 (1/12)
Após a chegada em Manaus no dia anterior, vamos ao laboratório do Dr. Val, no Inpa, em Manaus, para conferir se todos os materiais necessários para nossos experimentos e análises estão prontos. Nos reunimos com os demais participantes para acertar os últimos detalhes da expedição. Toda a discussão é feita em inglês para que os pesquisadores estrangeiros possam entender. Funcionários do Inpa iniciam o carregamento dos materiais e equipamentos a serem transportados para o barco que nos levará até o arquipélago.

DIA 2 (2/12)
Dois caminhões contendo os equipamentos, material para a excursão e alguns peixes para os experimentos seguem até o local onde o barco está ancorado. A pesquisadora belga vê uma traíra saltar da caixa de onde está sendo transportada e corre para pegá-la e colocá-la de volta. Leva uma mordida no dedo, que sangra e tem de ser tratado.

Ao final do dia, saímos em direção à estação Lago do Prato, do Ibama, no arquipélago de Anavilhanas. Nosso barco leva cerca de 8 horas para ir de Manaus até a estação, subindo o rio Negro. Faço a última ligação telefônica para a família, pois fomos informados de que no local onde atracaremos não há sinal de telefone nem de internet. A cidade mais próxima é Novo Airão, que está de 1 a 3 horas de viagem, dependendo da velocidade do barco. O nosso barco contém cabinas com ar-condicionado e banheiro, nas quais os pesquisadores e alunos são instalados dois a dois.

DIA 3 (3/12)
O barco chega de madrugada junto à casa flutuante da estação Lago do Prato, onde alguns pesquisadores (inclusive nós) colocarão seus equipamentos para fazer os experimentos. Não temos problemas para dormir, pois o barco não balança nada nas águas calmas do rio Negro. Ao nosso redor há apenas o rio e as margens cobertas pelas florestas. Além do guarda e do fiscal da estação, não há mais ninguém nos arredores. Após o café da manhã, os pescadores do Inpa saem para pescar – atividade que repetirão três vezes por dia enquanto estivermos aqui.

No momento da instalação de um fotômetro de chama para análise da concentração de íons na água, não consigo fazê-lo funcionar. Após conversar com outros colegas, recebo ajuda do Dr. Chris Wood, meu orientador de pós-doutorado no Canadá, e ele coloca o equipamento em funcionamento. Em torno das 11 horas, todo nosso material está pronto e aguardamos a chegada dos peixes, que são trazidos ao final da manhã.

Em função da grande quantidade disponível em Anavilhanas, escolhemos trabalhar com piranha branca e piranha preta. São peixes muito agressivos, com dentes afiados, e é preciso ter cuidado no seu manuseio. Trabalhamos com piranhas de 10 a 20 centímetros, mas algumas piranhas pretas capturadas pelos pescadores tinham até 45 centímetros.

Uma pesquisadora de outro grupo levou uma mordida de uma piranha, mesmo tendo usado sempre uma luva de metal para manuseá-las. Nós, felizmente, não tivemos problemas.

Após o almoço, iniciamos os experimentos de anestesia, testando diferentes concentrações dos óleos essenciais que trouxemos de Santa Maria. À tarde, o sol bate no local que escolhemos para trabalhar, embora tivessem nos dito que isso não ocorreria. Um dos funcionários do Inpa instala uma lona plástica para nos proteger dos raios solares, mas o calor continua forte, em torno de 34ºC. É necessário tomar água continuamente. Seguimos trabalhando até 20h30min, quando paramos para a janta e depois dormimos. Ficamos sabendo que existiria um local específico na casa flutuante onde às vezes é possível captar sinal no celular. Não conseguimos sinal.

DIA 5 (5/12) 
Iniciamos uma nova série de experimentos com as piranhas brancas, em que os peixes são expostos por quatro horas aos anestésicos, mas numa concentração bem baixa, apenas para deixar os peixes mais calmos. Os peixes são filmados durante alguns segundos a intervalos de tempo definidos. É um experimento para ver qual concentração dos anestésicos seria mais adequada para o transporte dos peixes.

Apesar do calor e da água convidativa (30-32ºC) do rio Negro, ninguém pensa em entrar na água, porque o local está infestado de jacarés, que nadam periodicamente a poucos metros da casa flutuante.

DIA 6 (6/12)
No final da manhã, alguns turistas portugueses chegam num barco vindo de Novo Airão e vêm olhar os peixes e perguntar sobre nossos experimentos. Ao final do dia, combinamos com alunos e pesquisadores do Inpa um novo experimento a ser feito nos próximos dois dias, quando o equipamento para medir consumo de oxigênio dos peixes estará disponível. Faremos essas medidas com o objetivo de verificar se os anestésicos em baixas concentrações alteram o metabolismo dos peixes. Quanto maior o metabolismo do peixe, maior o consumo de oxigênio.

Na janta há a comemoração do aniversário de um dos pesquisadores, com direito a brinde com vinho, “Parabéns a você” em português e inglês, bem como bolo de aniversário. Esse foi um dos nossos poucos momentos de folga. Durante toda nossa estadia, apenas paramos de trabalhar durante as refeições, e após a janta conversamos por alguns minutos com os demais pesquisadores. Nesses momentos de folga é que existe alguma interação entre os brasileiros e estrangeiros, pois durante o dia cada um está envolvido com seu próprio experimento ou análises.

Não há nenhuma diversão disponível no barco, e mesmo que houvesse, não haveria tempo ou disposição. Depois de trabalhar o dia inteiro, o único desejo é dormir. Alguns alunos e pesquisadores continuam executando experimentos e análises durante a madrugada.

DIA 7 (7/12)
São quase três horas para ajustar o equipamento para medir o consumo de oxigênio dos peixes. A primeira espécie de peixe que tentamos era muito grande para o equipamento. Como precisamos em torno de 30 peixes, não temos muitas opções de espécies.

Consigo um rápido sinal de celular na minha cabine e aproveito para fazer uma ligação de dois minutos para minha esposa. No início da tarde, há um vento forte e somos obrigados a ajustar as lonas, que estavam presas apenas na parte de cima, para evitar que batam no nosso sistema de filmagem e ele seja derrubado. Pequenas ondas se formam no rio, mas o nosso barco nem chega a balançar. Logo após, uma chuva torrencial cai por cerca de uma hora, mas não há problema, porque o vento diminui. As medidas de consumo de oxigênio prosseguem durante a noite, pois uma das pesquisadoras do Inpa, Daiani Kochhann, formada em Ciências Biológicas na UFSM, deverá voltar na manhã do dia 9 de dezembro para Manaus.

DIA 8 (8/12)
Avistamos um casal de botos cor-de-rosa e seu filhote nadando perto do barco. É possível apenas avistar rapidamente os dorsos cor-de-rosa quando emergem para respirar.

As medidas de consumo de oxigênio, que seguiram durante todo o dia, terminam apenas na madrugada.

DIA 9 (9/12)
Um bote a motor leva uma pesquisadora e duas alunas de pós-graduação do Inpa para Novo Airão, onde um carro as levará de volta a Manaus. O bote retorna trazendo vegetais e frutas para nossa alimentação. Três cozinheiras preparam nossas refeições diárias: café da manhã, almoço, café da tarde e janta. No almoço e na janta, o cardápio é bastante variado. À medida que vamos terminando nossos experimentos, levo algumas piranhas para as cozinheiras aproveitarem nas refeições, pois durante a expedição comemos peixe apenas quando sobram dos experimentos.

DIA 10 (10/12)
No final da manhã, terminamos os experimentos com as piranhas brancas. Chove boa parte do dia, aliviando o calor. Nós achamos a temperatura de 26º agradável, mas algumas pessoas da expedição, que são da região Norte, colocam camisas de manga comprida ou casacos leves, pois sentem frio. Iniciamos um experimento complementar com exposição de piranhas pretas a baixas concentrações dos anestésicos testados por 15 minutos, filmando em alguns tempos para verificar possíveis mudanças de comportamento. Iniciamos as medidas de algumas amostras de água que havíamos coletado nos nossos experimentos com as piranhas brancas. Ao final do dia, terminamos todos os experimentos com as piranhas pretas, pois os pescadores conseguem neste dia pescar todas as que necessitávamos.

DIA 13 (13/12) 
De manhã, empacotamos os equipamentos que estavam na casa flutuante e, à tarde, eles são carregados para o barco. Ainda de manhã, continuamos a análise dos dados obtidos. À tarde, o Dr. Val sai com um bote a motor para registrar as coordenadas geográficas dos locais onde os peixes foram coletados e vamos junto. Descemos um pouco e entramos em terra firme para visualizar a floresta, cujo chão estava cheio de folhas e troncos em decomposição. Quando a água subir e cobrir essa parte, toda a matéria em decomposição será arrastada para dentro do rio, contribuindo para dar a sua cor negra.

DIA 14 (14/12)
Com o fim da expedição e dos experimentos, o barco retorna a Manaus.

Repórter: Luciane Treulieb

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