7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 27 May 2021 14:19:58 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico 7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-anel-de-formatura Mon, 25 Jan 2021 17:05:40 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1390

Num final de tarde no ano de 1962, como de costume, após a última aula do dia, embarquei no Farquinho, ônibus antigo que, naquele dia, estava fazendo o percurso da UFSM para a cidade.

Ao entrar no ônibus, observei uma senhora, um tanto nervosa, com um gatinho no colo. Aproximando-me do seu banco, pedi licença e perguntei o que havia acontecido com o seu gatinho. Então ela respondeu:

— Ele foi castrado no Hospital Veterinário, e está muito agitado.

— Quem fez a cirurgia? Indaguei.

— Não sei quem foi, mas ao chegar, fui muito bem recebida por um veterinário alto, moreno, de olhos verdes e muito bonito.

Pelas características descritas, eu sabia que se tratava do Professor Petrucci, médico veterinário que vinha de Porto Alegre para ministrar aulas de Técnica Cirúrgica em nossa Universidade.

Enquanto o ônibus fazia o percurso pela Faixa Velha de Camobi, apresentei-me como aluno da Faculdade de Veterinária, e coloquei-me à disposição se ela precisasse de qualquer auxílio, tal como retirar pontos, aplicar medicamentos ou tratar de pequenos curativos. Ao chegarmos no ponto de desembarque, no Garajão, perguntei-lhe qual era seu nome.

— Eu me chamo Rosa Mena Barreto, sou professora aposentada, e moro na rua do Acampamento.

Então, pediu-me que ajudasse a levar o seu gatinho para examiná-lo novamente.

— A senhora pode contar com minha ajuda, no que for preciso.

Ao chegarmos a sua casa, verifiquei que não tinha somente um, mas vários gatos. Enquanto eu examinava minuciosamente aquele operado, ela me perguntou:

— O senhor não gostaria, de agora em diante, de ser o médico dos meus gatos?

Eu respondi que não havia nenhum problema e que eu faria tudo aquilo que me era permitido como estudante de veterinária. E, desde então, iniciou-se uma sólida amizade que, nesta vida, durou até a sua morte.

A Dona Rosa, como eu a chamava, lia muito, era espírita convicta, conhecia muitos detalhes da história do Rio Grande do Sul, gostava de política, do Brizola e fazia críticas severas aos nossos governantes.

Durante os dois anos que antecederam o final do curso, aprendi muito sobre doenças dos gatos e o manejo com essa espécie, a ponto de os colegas me chamarem de “doutor dos gatos”, e sempre que aparecia um caso clínico no Hospital Veterinário eu fazia questão de acompanhar até o fim.

A formatura finalmente se aproximava, e era necessário que tivéssemos o anel de formatura, para que o Diretor da Faculdade, simbolicamente, colocasse no dedo dos formandos.

Porém, eu e outros colegas não tínhamos condições de comprar o anel. Então combinamos que o formando que já tivesse recebido o seu diploma, ao retornar ao seu lugar, deveria passar o anel para o outro.

Levei, então, um convite para Dona Rosa, que agradeceu muito sensibilizada, e antes de sair de sua casa, pediu que eu esperasse um pouco.

— Doutor, tenho uma surpresa para você.

E, após alguns minutos, ela trouxe um dos seus gatos, que trazia uma pequena caixa amarrada numa das suas patinhas.

— É um presente dos gatinhos para você, disse-me ela.

E, para minha surpresa, ao abrir a caixa, havia um lindo anel de formatura e um cartão com os seguintes dizeres: “Ao nosso dedicado médico, com muito carinho, a homenagem dos pacientes Fantinho, Nenezinha, Malhada, Meu Velho, Rajado e Gencinho”.

Com o anel no dedo, na noite de 3 de dezembro de 1965, no Cine Glória, recebia, com muita emoção e orgulho, das mãos do paraninfo, Dr. Danilo Saraiva, o meu diploma de Médico Veterinário, com as presenças do reitor, Dr. Mariano da Rocha Filho, e do Diretor da Faculdade de Veterinária, Dr. Armando Vallandro.

Em memória à Dona Rosa, o anel que ganhei dos “gatinhos” ficará para um neto, bisneto ou sobrinho que venha a optar pela Medicina Veterinária.

*Ruben Boelter é médico veterinário e professor aposentado da UFSM. Em 2008, essa história foi premiada na 4ª edição do Concurso de Crônicas da UFSM, promovido pelo Programa Volver

**Ilustração: Filipe Duarte

***Texto publicado originalmente na sétima edição da Revista Arco e republicado em razão dos 60 anos da UFSM

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post463 Wed, 24 May 2017 18:46:18 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2017/05/24/post463/ Ainda que os dinossauros sejam os animais mais lembrados quando se fala em Pré-História, nosso planeta não era povoado somente por eles. A chamada “era dos Dinossauros” se localiza na Era Mesozoica (251 – 66 milhões de anos atrás, inclui os períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo). Mas ainda que eles tenham surgido e se extinguido nessa era, os dinossauros eram apenas uma variedade dentre a grande diversidade de animais. Os mamíferos e as aves que conhecemos hoje, por exemplo, são descendentes de  grupos de animais ancestrais que viveram na Era Mesozoica.

Muitos desses animais, especialmente os que viveram durante o Período Triássico, possuem parentescos ou ligações com animais que conhecemos. Por exemplo, os sinapsidas, hoje representados unicamente pelos mamíferos, no Triássico sul brasileiro eram representados por dois grandes grupos: os dicinodontes, herbívoros com tamanho e presas grandes, que foram extintos no fim da Era Mesozoica sem deixar descendentes; e os cinodontes, que tinham dentes similares aos de um cachorro e uma variação de tamanho entre dez centímetros e até dois metros, dos quais os mamíferos atuais descendem.

Outro grupo de interesse é o dos Diapsida, grupo dos répteis, que além de conter os répteis atuais também incluía o grande subgrupo dos Arcossauros. Nele, estavam os pterossauros (répteis voadores), os crocodilianos e os dinossauros – dos quais descenderam as aves. Podemos perceber que os dinossauros ocupam um pequeno espaço na grande cadeia de animais da Era Mesozoica.

A pesquisadora Ane Elise Branco Pavanatto, integrante do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM), dedicou sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal ao estudo de fósseis de cinodonte. A espécie estudada, Massetognathus ochagaviae, é comumente encontrada no Triássico do sul do Brasil.

O Massetognathus ochagaviae pertence a família Traversodontidae, a mais diversificada dentre as famílias de cinodontes. Além do sul do Brasil, os fósseis do gênero Massetognathus já foram encontrados na Argentina e remetem ao Triássico Médio – época de idade intermediária do período. Seu nome tem referência do Grego e remete ao poder de mastigação de sua mandíbula. A pesquisa de Ane Elise identifica e apresenta informações sobre novos materiais, como fragmento de crânio, alguns dentes e ossos do esqueleto pós-craniano, como vértebras, costelas, úmero e fêmur. A descrição desses fósseis contribui para o estudo sobre a espécie, já que possibilita um maior conhecimento sobre o Massetognathus ochagaviae que até então tinha poucas características identificadas, para o Triássico do Rio Grande do Sul.

 Os fósseis do Triássico no Sul do Brasil

Os fósseis de animais do período Triássico encontrados no Rio Grande do Sul são similares aos encontrados no sul da África e na Argentina. O Período Triássico do Rio Grande do Sul se destaca por conter o registro fóssil de dois grandes eventos evolutivos: a origem dos primeiros dinossauros e dos mamíferos. Segundo pesquisas, um grupo de pequenos cinodontes encontrados aqui, os Brasilodontes, possuem dentre todos os cinodontes características anatômicas que os identificam como os ancestrais mais próximos dos mamíferos. Durante a Era Mesozoica, os primeiros mamíferos tinham uma média muito pequena de tamanho, viviam em tocas e tinham hábito noturno – e provavelmente eram presas de répteis de grande porte, como os dinossauros. No fim do Período Triássico e início do Período Jurássico, o grande continente chamado Pangeia, que existia então, começou a ser dividido e no fim do Período Cretáceo houve a famosa extinção em massa que culminou com a extinção dos dinossauros. Com o fim desses  grandes répteis, os então pequenos mamíferos se desenvolveram, aumentaram de tamanho e ocuparam o planeta.

A pesquisadora Ane Elise Branco Pavanatto continuou os estudos sobre cinodontes no Doutorado em Biodiversidade Animal na UFSM. “Meu objetivo era estudar uma espécie de cinodonte do Triássico muito comum aqui na Região Central do Rio Grande do Sul, o Exaeretodon. Mas no meio de vários materiais coletados, notamos alguns materiais que apresentavam algumas características um pouco diferentes do observado em  Exaeretodon e isso nos levou a especular sobre a presença de uma nova espécie”, explica Ane. A conformação desses resultados dependem de análises detalhadas e do cruzamento de informações em relação a fósseis já identificados no Brasil e na Argentina.

Para saber mais sobre como os paleontólogos classificam o tempo geológico acesse aqui.

Repórter: Paola Dias
Colaboração de Ane Elise Pavanatto
Foto: Rafael Happke
Gráficos: Ítalo Paula

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/paleontologia-e-o-desenvolvimento-do-potencial-turistico Wed, 10 May 2017 13:59:46 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1402

O estudo dos fósseis permite compreendermos a evolução dos seres vivos com o passar dos anos. Na região central do Rio Grande do Sul, alguns municípios têm um vasto acervo fossilífero, porém ainda há pouca valorização e divulgação desse potencial paleontológico como uma forma de impulsionar o turismo nessa região.

Santa Maria, como outras cidades da região, é importante nesse processo de descobertas e pesquisas na área da paleontologia. A Rota Paleontológica ilustra a importância dessas cidades. Criada em 2003, a Rota tem extensão de 300 quilômetros e abrange as cidades situadas entre Candelária e São Vicente do Sul. Dessas cidades, as que mais se destacam são Santa Maria, São Pedro do Sul, Mata, Candelária e São João do Polêsine, que têm museus como a principal forma de resgatar esse passado da região, mas carecem de investimentos para a divulgação de sua história (veja mapa na página seguinte).

Investimentos para fomentar o turismo

Para impulsionar o turismo, atividades recreativas, culturais e gastronômicas são segmentos atrativos para chamar a atenção dos visitantes. A pesquisadora mestre em Patrimônio Cultural pela UFSM Carmen Lorenci realizou sua dissertação sobre a temática de preservação do patrimônio geopaleontológico da região, sob orientação do professor Átila Stock da Rosa, do Departamento de Geociências da UFSM. Ela ressalta a necessidade de investimentos para fomentar o turismo paleontológico em Santa Maria, como em outras regiões: “Apesar de a região ter potencial para esse desenvolvimento, os municípios ainda estão despreparados”. A pesquisadora ainda relata que é preciso promover mais eventos sobre a paleontologia, como oficinas dentro de laboratórios, palestras, etc. Mas, para isso, é importante ter uma parceria entre público e privado. “Economicamente o turismo traz mais benefícios se ele for um turismo planejado”, afirma Carmen.

No Brasil, a paleontologia ainda é uma área em desenvolvimento, pois não há um curso de graduação diretamente relacionado a esse ramo. Para Carmen, isso era um problema para o país no momento que os fósseis, quando encontrados, eram levados para outros lugares. “Até a inserção das universidades no Brasil, esse patrimônio foi levado embora. Por isso, perdemos os primeiros achados na região. Os estrangeiros vinham, escavavam e levavam embora”.

Outro ponto que a pesquisadora salienta é a importância de ter uma estrutura e profissionais adequados para trabalhar com a paleontologia. “Há muito patrimônio cultural e histórico a ser explorado; porém, muitas vezes há falta de museólogos, profissionais para cuidar e preservar os acervos”. Para Carmen, as pessoas precisam conhecer a história local e, nesse contexto, os estudos deveriam ter um papel fundamental nesse processo. “Os primeiros achados do período Triássico, esse patrimônio encontrado há 200 milhões de anos, começaram nessa região e ainda há poucos investimentos financeiros e incentivos a pesquisas relacionados a isso”.

Para Norma Martini Moesch, secretária de turismo de Santa Maria até dezembro de 2016, os custos para investir em grandes projetos voltados para essa área são altos: “Quando começamos as ações deste governo [do prefeito Cezar Schirmer, finalizado em 2016], fizemos um estudo para implantar um grande parque temático com áreas de pesquisa, estudo, lazer e entretenimento. Porém, percebemos que o recurso para implantar o projeto era multiplicado por cem, mais do que a prefeitura tinha para gastar”. A atual gestão municipal, do prefeito Jorge Pozzobom, foi consultada pela revista Arco, mas informou ainda não ter dados sobre o assunto, pois a definição orçamentária só ocorreria em abril de 2017.

Iniciativas de divulgação da paleontologia na região

Em 1997, o cartunista Byrata e o economista Abdon Barretto Filho criaram o projeto Dinotchê. No início dos anos 2000, ambos começaram a trabalhar nesse projeto temático na Vila Belga, em Santa Maria, com o intuito de resgatar o período Triássico através de leituras e apresentações em painéis ilustrativos, com a utilização de efeitos sonoros e luminosos.

Para Byrata, o trabalho realizado despertava o interesse de muitas pessoas pelos dinossauros. No entanto, pela falta de recursos financeiros, não foi possível dar continuidade ao projeto. “Tínhamos algum apoio financeiro de investidores e comerciantes, mas não foi o suficiente para custear as despesas e manter o projeto ativo”. Apesar disso, Byrata relembra: “Essas atividades culturais que realizamos foram muito prazerosas, pois tivemos resultados bastante significativos e positivos da população”.

Outra ação realizada foi a campanha “Santa Maria e Região na Copa do Mundo 2014”, na qual a prefeitura de Santa Maria, em parceria com os municípios de Mata, São João do Polêsine e São Pedro do Sul, viu a oportunidade de criar um roteiro diferenciado para divulgar a paleontologia da região. Para atrair os turistas que vinham de outros estados e até de outros países para a Copa do Mundo, uma das estratégias foi a distribuição de folders com versões em português, inglês e espanhol. A exposição “Conhecendo os fósseis do Triássico” foi das ações desenvolvidas no período para mostrar os fósseis de dinossauros encontrados por arqueólogos no município e região e, além disso, caules de árvores petrificados, da cidade de Mata. A mostra aconteceu em um shopping de Santa Maria.

Projetos do CAPPA

O Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa) é um órgão que apoia o estudo em Paleontologia na região da Quarta Colônia. Nesse Centro, que faz parte do quadro de unidades da UFSM e é coordenado pelo professor do Departamento de Ecologia e Evolução Sérgio Dias da Silva, existe toda uma estrutura para que professores, alunos, pesquisadores e profissionais desenvolvam seus estudos. Além desse público, o Cappa recebe constantemente visitas de escolas, com alunos de todas as idades, para participar de palestras, compreender a história da paleontologia na região e ainda conhecer os fósseis da Quarta Colônia.

Dentre os projetos para a ampliação do espaço no Cappa, está a construção de um auditório para receber mais de 200 pessoas, unidades museológicas para exposição do material científico, uma cafeteria para atender os visitantes, alojamentos para abrigar paleontólogos, estudantes e o público em geral em suas visitas e atividades de campo na Quarta Colônia. No entanto, para a expansão dos setores no Cappa são necessários recursos do Governo Federal, que ainda estão em negociação com o Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia (Condesus).

 

Rota Paleontológica no Rio Grande do Sul:

 

Possui grandes depósitos de árvores fossilizadas formando um importante centro da Paleobotânica.

Foram encontrados os primeiros registros paleontológicos do RS.

Foi encontrado o maior número de fósseis de dinossauros que habitaram no período Triássico.

Estão as maiores reservas de fósseis vegetais do planeta.

Localiza-se o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa), em que estão as últimas descobertas de fósseis achados na Quarta Colônia.

Repórter:  Luciane Volpatto Rodrigues e Guilherme Denardin Gabbi

Ilustração e Diagramação: Evandro Bertol

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-caminho-das-descobertas Wed, 10 May 2017 13:32:57 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1400

A região central do Rio Grande do Sul é uma área chave no cenário paleontológico nacional. Tem sido palco de grandes descobertas, como a que encontrou o Staurikosaurus pricei, o primeiro dinossauro brasileiro e um dos mais antigos dinossauros do mundo. Essas descobertas, de reconhecimento internacional, aconteceram em uma faixa de cerca de 250 quilômetros, principalmente entre Candelária e São Pedro do Sul, abarcando também todos os municípios da Quarta Colônia e Santa Maria.

A paleontologia é a ciência que se dedica ao estudo de antigas formas de vida do planeta Terra, tanto animais quanto vegetais. Através dos fósseis, busca reconhecer os organismos existentes nos diversos períodos geológicos e entender os processos responsáveis pelo surgimento de determinadas espécies, e pela extinção de outras. Atualmente, é um campo multidisciplinar com envolvimento direto em áreas como biologia, geografia, arqueologia e geologia. Dada a riqueza de informação contida nos fósseis, seus locais de ocorrência precisam ser preservados. De fato, tal patrimônio se encontra muitas vezes ameaçado por empreendimentos danosos aos sítios e exploração ilegal destes. Isso preocupa sobremaneira os paleontólogos e põe em risco o conhecimento e a compreensão sobre a rica história biológica de nosso planeta.

Hoje, quem ajuda a contar parte dessa história é o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa), localizado em São João do Polêsine e coordenado pelo professor Sérgio Dias da Silva, e o Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia, coordenado pelo professor Átila Stock da Rosa, ambos ligados à UFSM. A seguir, apresentamos uma linha do tempo das principais descobertas realizadas no Rio Grande do Sul. Esta não é, e nem pretende ser totalmente completa, mas sim uma síntese da história paleontológica local.

 

1901

O geógrafo Antero de Almeida descobre os primeiros fósseis animais nas sangas que se espalhavam pelo bairro da Alemoa. Ele foi também o responsável pela descoberta do sítio Chiniquá.

 

1902

O Dr. Jango Fischer, nascido em Santa Maria e diplomata brasileiro no Chile, em uma de suas visitas à cidade natal, foi à Sanga da Alemoa e coletou vários exemplares de fósseis, que mais tarde seriam estudados pelo Dr. Arthus S. Woodward e classificados como Scaphonyx fischeri, hoje conhecido como Hyperodapedon, um dos primeiros répteis fósseis até então descobertos no Brasil.

 

1915 –1917

O médico oftamologista Dr. Guilherme Rau auxiliou o paleontólogo alemão Dr. H. Lotz em suas escavações. Juntos, escavaram aproximadamente 200 peças nesses dois anos. Nesse período, o Dr. Lotz ensinou Atílio Munari, um jovem santa-mariense de 14 anos, a procurar, escavar e preparar com cuidado os achados fósseis. Munari auxiliou mais de 11 geólogos e paleontólogos que vieram a Santa Maria pesquisar, até seu falecimento em 1941.

 

1925

A vinda do geólogo e pesquisador alemão Bruno von Freyberg influencia o jovem Vicentino Prestes de Almeida, um agrimensor da região, a estudar a paleontologia. Vicentino encontrou uma mandíbula de um pseudosuchio no Sítio Paleontológico Chiniquá, em São Pedro do Sul, que foi enviada para a Alemanha e analisada pelo prestigiado paleontólogo Friedrich von Huene. A descoberta influenciou a vinda de Huene ao Rio Grande do Sul. Vicentino teve participação tão ativa na paleontologia da época que Friedrich von Huene nomeou o fóssil de Prestosuchus chiniquensis, descoberto em 1938, em sua homenagem.

 

1927

Guilherme Rau escava o crânio de um Gomphodontonsuchus brasiliensis, um cinodonte que foi estudado por Friedrich von Huene, em Arroio do Só.

 

1928

Friedrich von Huene e seu mais estimado aluno, Rudolf Stahlecker, vêm para Santa Maria depois de vários anos recebendo materiais fósseis da região. A expedição dos alemães durou dez meses e no total foram levados 8.600 quilos de blocos de rocha sólida que continham esqueletos e elementos ósseos isolados. Tudo foi encaixotado e enviado para análise na Alemanha. O museu de Tübingen conta hoje com esqueletos praticamente completos de mais de cinco espécies diferentes graças a essa expedição, como Stahleckeria potens e Traversodon stahleckeri, entre outros.

 

1936

O brasileiro Llewellyn Ivor Price conduz uma expedição que conta com membros da Universidade de Harvard para a região. Descobriu aqui, entre outros, Staurikossaurus pricei, que só foi finalmente analisado e batizado em 1970 pelo paleontólogo americano Edwin Colbert. Staurikossaurus é classificado como um saurísquio basal surgido antes da subdivisão das duas grandes linhagens de Saurischia (Theropoda e Sauropodomorpha), um dos tipos mais antigos de dinossauros já encontrados.

 

1956 –1976

O padre Daniel Cargnin coleta, em cidades como Candelária, General Câmara e Cachoeira do Sul, cerca de 50 crânios de cinodontes e dicinodontes, e um número talvez maior de crânios de rincossauros, dos quais 36 se encontram no museu Vicente Pallotti, em Santa Maria. Ainda na sua lista de descobertas encontra-se o cinodonte Protuberum cabralensis.

 

1999

O paleontólogo Max Cardoso Langer descobre, na Sanga da Alemoa, Saturnalia tupiniquim, um dos mais antigos dinossauros já encontrados, que, como Staurikosaurus pricei, viveu o final do período Triássico, há aproximadamente 230 milhões de anos.

 

2004

Pesquisadores da UFSM e do Museu Nacional da UFRJ anunciam a descoberta de mais um dinossauro em território nacional, Unaysaurus tolentinoi, que viveu há aproximadamente 225 milhões de anos. O fóssil foi descoberto em 1998, próximo do município de São Martinho da Serra, por um aposentado da região (senhor Tolentino, homenageado no batismo da nova espécie) que, ao encontrar o primeiro fragmento do fóssil, entrou em contato com a UFSM.

 

2006

Anunciada a descoberta do Sacisaurus agudoensis, um fóssil de aproximadamente 220 milhões de anos de idade. O primeiro fóssil da espécie foi encontrado em 2000, próximo a Agudo. A escavação acabou por revelar diversos ossos, incluindo 19 fêmures direitos, o que fez os pesquisadores batizarem a espécie como Sacissauro. Inicialmente acreditou-se ser de fato um dinossauro, porém pesquisas posteriores concluíram que era uma forma externa à Dinosauria (família dos dinossauros), mas muito próxima desse grupo.

 

2009

Um crânio bem preservado de um Cinodonte africano do gênero Luangwa é encontrado próximo à cidade de Dona Francisca. Essa espécie é geralmente encontrada apenas na África.

 

2011

Pesquisadores da Ulbra encontram fósseis do dinossauro Pampadromaeus barberenai. A ossada encontrada constituía um esqueleto parcial e desarticulado, porém bem preservado, de um só indivíduo da espécie. O “corredor dos pampas” era bípede e relativamente pequeno, com apenas 50 centímetros de altura e 120 de comprimento.

 

2012

Fósseis de três dinossauros foram encontrados no interior de Agudo por pesquisadores da Unipampa. As ossadas têm idade estimada de 225 milhões de anos e duas delas foram coletadas praticamente completas, algo raríssimo e ainda única ocorrência desse tipo em território brasileiro. Os pesquisadores acreditam que esses fósseis podem pertencer a uma nova espécie. O material hoje se encontra tombado no acervo do Cappa/UFSM.

 

2013

É inaugurado o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa/UFSM), em São João do Polêsine. O Centro faz parte do quadro de unidades da UFSM e tem como objetivo reunir e prestar apoio aos profissionais que exploram os sítios paleontológicos da região central do Rio Grande do Sul.

 

2014

Pesquisadores da UFSM, Ulbra e Unipampa coletaram um bloco contendo um dinossauro carnívoro em São João do Polêsine. Até hoje foram encontrados poucos fósseis de dinossauros carnívoros no Triássico mundial. Os pesquisadores afirmaram que essa descoberta pode trazer importantes informações sobre a origem e evolução dos dinossauros. O único dinossauro carnívoro de idade Triássica encontrado no Brasil de que se tem notícia foi justamente o Staurikossaurus na década de 30 do século XX na região central do Rio Grande do Sul.

 

Cinodonte

Grupo de animais de formas amniotas de linhagem pré-mamaliana que eventualmente evoluiriam para se tornar os primeiros mamíferos. Supõe-se que eram de sangue quente e com pelos. Receberam esse nome devido à sua dentição heterodonte (incisivos, caninos, pré-molares e molares) com aparência superficialmente similar à dos cães.

 

Pseudosuchia

Grupo de répteis pré-históricos do período Triássico. O nome significa falsos crocodilos, justamente pelo grupo ser superficialmente muito similares a crocodilos modernos.

 

Sanga Alemoa

A Sanga da Alemoa é o mais importante sítio paleontológico do estado do Rio Grande do Sul. Está localizada na área urbana de Santa Maria, no bairro Km 3, às margens da rodovia RS-509. Há mais de um século, grandes pesquisadores passam pelo local e colaboram com a formação da paleontologia brasileira. Além da Sanga da Alemoa, Santa Maria possui outros 19 sítios paleontológicos.

 

Repórter: Bernardo Zamperetti e Gustavo Martinez

Diagramação e Ilustração: Evandro Bertol

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/entre-a-preservacao-historica-e-o-desenvolvimento-urbano Wed, 10 May 2017 13:29:37 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1398

Segundo o meteorologista alemão Alfred Wegener, há cerca de 200 milhões de anos, durante a Era Paleozoica, os continentes estavam unidos em uma única massa terrestre chamada Pangeia. A fragmentação desse supercontinente deu origem aos cinco continentes do mundo atual. Todos os indícios de vida na Terra daquela época, hoje, são vestígios ou fósseis. A cidade de Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul, é reconhecida pela riqueza do patrimônio histórico – está situada sobre 32 sítios paleontológicos, que remontam à vida na Terra durante a Era Paleozoica. Sete deles, no entanto, já foram destruídos pelo avanço da ocupação urbana.

Encontrar os resquícios históricos da vida na Terra exige um processo lento e gradual de pesquisa. No entanto, o crescimento das ocupações nas cidades trouxe o desafio da preservação do patrimônio, que entra em conflito com a necessidade de novas estruturas físicas, como a construção de ruas, faixas e viadutos.

O professor do Departamento de Geociências da UFSM, Átila Stock da Rosa, aponta que obras ilegais, perfurações para colocação de fibras óticas e tubulações de água e esgoto são as principais atividades que ferem o patrimônio paleontológico. Embora necessitem de licença ambiental para iniciar, as construções públicas preocupam os pesquisadores. Para Átila, o acompanhamento de profissionais especializados junto à obra, como paleontólogos, técnicos e alunos da área, ajuda a diminuir o impacto ao patrimônio, mas não o extingue.

As duas principais obras em execução de expansão urbana de Santa Maria, a Travessia Urbana e a duplicação da RS-509, conhecida como Faixa Velha, são exemplos da dificuldade em aliar desenvolvimento e preservação. Iniciada em novembro de 2013, a duplicação de 4,3 quilômetros da Faixa Velha foi interrompida um mês depois do início das obras, por não possuir laudo técnico de um paleontólogo que evidenciasse as consequências da obra para os três sítios localizados ao longo da rodovia.

Após a interrupção da obra, em outubro de 2013, o biólogo Darival Ferreira foi o profissional contratado para o acompanhamento. O trabalho consistia em monitorar as escavações e verificar a presença de fósseis nas paredes das valas abertas. Durante o tempo que esteve presente, o biólogo encontrou um fragmento fóssil, que foi encaminhado à Fundação Zoobotânica, em Porto Alegre, devido ao acordo preestabelecido pelo Daer. O especialista conta que, no início do trabalho, havia um clima turbulento quanto à decisão da necessidade da presença dele na obra, principalmente por parte das empresas e empreiteiras. A dificuldade maior foi a falta de comunicação ao profissional quanto ao cronograma das escavações.

No caso da Travessia Urbana, que possui 14,5 quilômetros, o problema apontado por Átila Stock foi o erro no cronograma de contratação das empresas. A responsável pela fiscalização foi contratada após a empresa executora da obra, ou seja, quando os trabalhos da primeira começaram, a segunda já havia realizado escavações.

Além disso, acrescenta Átila, a dificuldade de liberação do dinheiro público para obras no país cria a sensação de que, quando liberado, tudo precisa ser feito às pressas para que não se perca o investimento. A responsabilidade de fiscalização passa dos órgãos nacionais, que não conseguem dar conta da demanda, para os estaduais e municipais, “O município, para poder ter a obra, dá a licença mesmo sem ter estudo prévio. O que ele está fazendo é um crime, mas, muitas vezes, prefere fazer isso para não perder o investimento da cidade”, aponta Átila.

Para o pesquisador, o ideal seria que as obras desviassem dos patrimônios históricos nacionais e que existissem leis específicas e fiscalização efetiva. Para isso, seria preciso trabalhar a educação patrimonial e expandir os conhecimentos produzidos na Universidade: “Não adianta ter pesquisa dentro da universidade, estudar os fósseis, se não dermos um retorno desse conhecimento à comunidade.”

Propriedade privada

Os sítios paleontológicos são ameaçados, também, pela expansão das áreas de moradia nas grandes cidades. Os espaços, que antes eram descampados, são gradativamente ocupados por obras sem acompanhamento e que colocam em risco a preservação. No entanto, segundo o coordenador do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa), Sérgio Dias da Silva, apesar de os fósseis estarem em propriedade privada, eles não pertencem ao morador. “Todo o recurso que está imediatamente abaixo, no primeiro centímetro da superfície, pertence ao governo”, explicou o pesquisador.

Ao identificar vestígios em área privada, o Centro procura fazer uma aproximação direta com o proprietário. Algumas vezes o dono da terra permite que o estudo no solo seja feito e, se necessário, sejam iniciadas as escavações. Quando o acesso é dificultado, o caminho é pela via judicial. Os procedimentos de identificação de um afloramento, escavação e retirada do material seguem os mesmos padrões de áreas públicas. Após identificados e retirados, os fósseis têm seu valor histórico reconhecido e são tombados para se tornarem patrimônio da humanidade. No caso dos fósseis encontrados pelo Cappa, a UFSM é a guardiã do material, mas não é a proprietária.

A vandalização e a venda de fósseis é proibida por lei, com pena de multa ou detenção. Segundo Sérgio, é importante fazer com que o proprietário da terra se sinta dono do patrimônio e queira preservá-lo. Além disso, é importante trabalhar a ideia de que os fósseis são atrativos culturais e turísticos, e podem ser trabalhados como uma alavanca econômica para a região onde forem encontrados.

O tombamento não é uma desapropriação, o proprietário continua sendo o dono da terra; porém, no sítio, ele não pode mais tocar.

Saiba mais:

Como acontece a descoberta e a delimitação de uma área de preservação paleontológica?

O Centro de Apoio à Preservação Paleontológica (Cappa) trabalha com três principais maneiras de mapeamento dos sítios paleontológicos (veja infográfico ao lado). Uma dessas formas de mapear, o Google Earth, possibilita identificar manchas alaranjadas na paisagem — o que pode ser indício da presença de vestígios —, marcar o ponto, colocar as coordenadas em um GPS e ir até o local. “O trabalho, muitas vezes, precisa andar junto com a sorte”, destaca o professor Sérgio Dias.

Quando encontrado, é necessário que o fóssil seja retirado do local original o mais rápido possível, pois há grande chance de que seja perdido no ambiente. Por serem objetos frágeis, o manuseio dos fósseis é reservado a profissionais como paleontólogos, técnicos e alunos da área, que são habilitados para o processo de extração. No Brasil, a coleta de material fóssil deve ser autorizada e fiscalizada pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPI). Apenas instituições de pesquisa brasileiras e de ensino superior não precisam da autorização; no entanto, é necessário submeter relatório anual de suas atividades.

Como descobrir um sítio:

Do mapeamento à preparação de um fóssil

1º passo: Mapeamento

É possível mapear sítios paleontológicos utilizando mapas geológicos, estudando a superfície através de escavações em locais — ainda que não haja afloramentos —, e através do GPS, utilizando o Google Earth.

2º passo: Escavação

Após localizar o fóssil, é preciso delimitar o tamanho do material e isolá-lo.

3º passo: Engessar

Quando a rocha circundante é isolada e retirada da terra, ela deve ser engessada e, dependendo de seu tamanho, levada de caminhão até o laboratório responsável.

4º passo: Preparação no laboratório

No laboratório, é aplicada uma resina para fortalecimento do osso. Então, há um trabalho mecânico para retirar sedimentos, com ferramentas como martelos e talhadeiras. Também há processos químicos com ácidos para manter o fóssil por décadas. Dependendo do tamanho do material, a preparação pode demorar anos.

Após a preparação, o fóssil fica sob a guarda do governo. No caso dos materiais encontrados pelo Cappa, a UFSM é a guardiã legal.

Repórter: Andressa Foggiato

Ilustração e Diagramação: Evandro Bertol

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-periferia-toca-mozart Wed, 10 May 2017 13:19:20 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1392 Ouça esta reportagem:

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O termo spalla surgiu na Itália para se referir à escada que apoia o ator principal em uma peça. Em uma orquestra, o spalla é responsável pela primeira afinação dos instrumentos no palco, e é o apoio do músico principal, o maestro. O Projeto Orchestrarium, que promove a inclusão social através da música, de forma gratuita, pode ser considerado o spalla na vida de dezenas de crianças e jovens da periferia de Santa Maria.

O projeto de extensão, vinculado ao Centro de Artes e Letras da UFSM, surgiu em abril de 2013 na região norte da cidade e foi idealizado pelo professor do curso de Música da UFSM Marco Antônio Penna. Através da arrecadação de instrumentos pelas redes sociais, as primeiras crianças e jovens, de seis a 29 anos, tiveram contato com violinos, violas e violoncelos. O projeto, que começou com 15 alunos, atendeu cerca de 150 novos músicos em 2016.

As aulas acontecem no turno inverso da escola e contemplam diversas artes, como a música, a dança e o teatro, e até mesmo a matemática e o português. Aos sábados, há aulas de reforço para quem está com alguma dificuldade na escola, já que o bom desempenho é requisito básico para tocar na orquestra principal. Além disso, as coordenadoras do projeto prezam por trabalhar junto com as famílias, devido à realidade delicada de algumas crianças, que enfrentam abandono, abuso e violência.

Para a coordenadora geral, Mirian de Agustini Machado, o Orchestrarium é um projeto de inclusão e integração social. Independentemente de classe social, a integração se faz para que as pessoas não percebam no momento de ensaio ou apresentação quem é o filho de quem tem um pouquinho mais de condição e daquela família que não tem dinheiro para a comida.

Durante o ano, diversos acadêmicos da UFSM compartilham seus aprendizados com as crianças e jovens. Segundo Mirian, alunos de bacharelado e licenciatura da Música, das Letras, e da Dança trabalham de forma voluntária e constituem a grande família que é o projeto Orchestrarium. Para a gestora, o contato com os universitários cria nos pequenos músicos a perspectiva de também entrar em uma universidade no futuro, principalmente no curso de Música.

Para o violista Luan Levi, 15 anos, a principal mudança que o projeto proporcionou está na família. “As pessoas começam a te ver diferente, porque tu começa a abranger outros conhecimentos que eles não têm”. Já Hemelayne Lima, que toca violoncelo, sonha em entrar na faculdade de Música e não quer se desvincular do projeto quando chegar nessa fase. Ela explica que quer continuar para ajudar os novos alunos que chegam, assim como a ajudaram quando iniciou.

Diante das dificuldades de arrecadar instrumentos e de levar os alunos até os locais de ensaios e apresentações, o Orchestrarium encontra apoio em editais de recursos públicos e na ajuda financeira de pais e colaboradores. O principal objetivo é permanecer interferindo na vida de crianças e jovens, para que cada vez mais eles tenham a oportunidade de pisar em um palco ou atravessar o arco da universidade pela primeira vez.

Repórter: Andressa Foggiato
Diagramação: Kennior Dias
Locução: Marcelo De Franceschi

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/para-manter-viva-a-historia-negra-local Wed, 10 May 2017 13:05:05 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1388

Quando estuda na escola, a gente acha que a escravidão é algo que só existiu no Nordeste e em São Paulo, com as lavouras do café. A gente nunca pensa que a escravidão foi tão difundida em todo o país, inclusive em Santa Maria”, constata a historiadora Franciele Rocha de Oliveira.

Em 2010, quando era acadêmica no curso de História da UFSM, Franciele começou a trabalhar no Museu Treze de Maio — antigo clube social negro que foi transformado em museu comunitário em 2001 e que busca preservar e estimular a autoestima e autoimagem positivas de homens, mulheres e crianças negras. O convívio com a rotina do “Treze” mostrou a Franciele como a história local negra é esquecida e muitas vezes não mencionada em bibliografias locais.

Nos encontros no museu, Franciele soube que existiu um outro clube negro em Santa Maria: “No museu havia rodas de lembranças, onde as pessoas iam rememorar o Treze e também falavam que ‘existia outro clube, o clube dos negros pobres, o União Familiar’, do qual não havia muitas informações em livros e registros”.

Franciele começou a se aprofundar no tema e decidiu escrever, em 2014, seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre o ‘outro clube’. Intitulada Moreno rei dos astros a brilhar, querida União Familiar, a monografia rememorou a história do União Familiar e a luta por justiça e direitos do povo negro em Santa Maria.

 

Memória impressa

Vencedora do Prêmio Lei Municipal do Livro 2015, a pesquisa de Franciele virou livro e foi lançada na Feira do Livro santa-mariense de 2016. A publicação teve distribuição gratuita e contou com tiragem de 1.500 exemplares.

A obra contém imagens de arquivos de pessoas ligadas ao clube, além de relatos e documentos que datam do século 19. Franciele realizou cinco entrevistas, com frequentadores que tinham entre 61 e 87 anos e que revelaram a história do União e sua importância para a sociedade negra local.

Dividido em três capítulos, o livro inicia contando sobre o movimento abolicionista no país, a questão dos movimentos negros em Santa Maria e a precária condição de liberdade obtida pelo povo negro após o decreto da Lei Áurea.

Já no segundo capítulo, o clube União Familiar é apresentado com detalhes. Franciele também comenta neste capítulo sobre a importância política dos clubes negros para quem os integrava: “Tem clubes que amparavam mulheres viúvas, ajudavam na aposentadoria de trabalhadores negros. Tem clubes que se organizavam para fazer o que o Estado não fazia para essas pessoas”.

O terceiro capítulo conta sobre as práticas dentro do Clube, mostrando suas festas e costumes. Nesse capítulo, Franciele apresenta a prática do carnaval organizado pelo União, por meio do bloco de rua, e também a história de um jornal negro, que contemplava assuntos que os demais jornais locais não abordavam, como denúncias de racismo.

Franciele conclui sua pesquisa ressaltando a importância de dar voz a uma comunidade negra que não possui visibilidade na História tida como oficial. Ela ressalta, no entanto, que ainda há muito a ser estudado sobre o tema: “É fundamental dizer que esse trabalho não se encerra em si mesmo. Pelo contrário, é um ponto de partida que assume a necessidade em falar do tema, olhando para os sujeitos históricos protagonistas desse processo histórico”.

 

Repórter: Guilherme Gabbi ·

Diagramação: Kennior Dias

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/inteligencia-artificial-para-exportacao Wed, 10 May 2017 13:02:23 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1386 Ouça esta reportagem:

A TauraBots, equipe de futebol de robôs humanoides da UFSM, ganhou mais um integrante: o robô Dimitri. O novo androide é o primeiro a ser financiado por meio de cooperação internacional entre a UFSM e um laboratório da Korea Advanced Institute of Science and Technology (KAIST), da Coreia do Sul. Dimitri tem auxiliado em pesquisas na área da robótica cognitiva, que utiliza uma linguagem de programação baseada no raciocínio lógico.

A parceria foi iniciada a partir de um encontro entre o professor da UFSM e orientador do projeto, Rodrigo Guerra, e o diretor do laboratório sul-coreano, Jun Tani. O robô, que foi construído no final de dezembro de 2015 e exportado para a Coreia, é composto por torso, cabeça e braços robóticos, que lhe dão sensibilidade para manipular instrumentos e entender quando está apertando um objeto, por exemplo.

Um segundo Dimitri foi construído na UFSM para que possa trocar códigos com o robô da Coreia. O androide que está em terras brasileiras tem ainda duas pernas e cerca de 1,24 metros de altura, um dos maiores robôs humanoides já projetados no Brasil.

A ideia do nome partiu da sugestão de um integrante do projeto, que, ao considerar que atores de filmes russos são robustos e que o robô também tem esse atributo, concluiu que o invento precisaria ter um nome de origem russa. De acordo com os desenvolvedores, um bloco de concreto pode ser lançado sobre o Dimitri que, ainda assim, não ocorrerão estragos.

Conexão

A expectativa é que se a equipe de Santa Maria melhorar a funcionalidade da máquina aqui, essa informação possa ser utilizada na Coreia do Sul — e vice-versa — já que os dois robôs têm como base o mesmo sistema, o que facilita a troca de códigos.

Outro diferencial dos Dimitris é que eles possuem atuadores de série elástica especial — uma espécie de mola colocada nas articulações — inseridos nos braços e pernas, mas que podem ser colocados em qualquer articulação do corpo. Os motores de robôs que não possuem esse objeto diferenciado precisam de um atuador específico para cada articulação e, ainda assim, podem quebrar ou desligar quando são submetidos a uma força específica.

Detalhe do braço do robô Dimitri, que mostra a parte da série elástica em vermelho. Na mão do robô há um objeto verde de ponta arredondada.
O atuador da série elástica precisou de quase dois anos de pesquisas para ser desenvolvido. Ele é compacto, de baixo custo e constituído de poliuretano de baixa densidade.

Com a inovação desenvolvida na UFSM, os robôs mantêm a comunicação com o ambiente, mesmo que estejam sendo forçados, o que aumenta a segurança da interação entre a máquina e o meio em que está inserida.

Investimento

Desenvolver tecnologias desse tipo exige um bom investimento financeiro: cada robô custou pelo menos R$ 65 mil, segundo o professor Guerra. Só os motores utilizados no Dimitri brasileiro — que foram aproveitados de outro projeto — custaram R$ 4 mil cada um, somando o total de R$ 52 mil.

O professor Guerra, que chegou a empregar recursos próprios no projeto, aponta que a importância do Dimitri para o futuro justifica o alto custo de desenvolvimento. “Ele é um robô que agora não tem pretensão de resolver problemas domésticos, de lavar louça ou ajudar pessoas com necessidades especiais, por exemplo, mas ele explora esse tipo de tecnologia, é um passo nessa direção”, comenta.

Repórter: Gabriele Wagner de Souza

Diagramação: Kennior Dias

Os desenvolvedores do Dimitri resolveram disponibilizar os arquivos utilizados para a construção do robô a quem desejar contribuir ou até mesmo copiar a invenção. O software e mais informações sobre o projeto podem ser obtidas por meio de contato com a equipe em facebook.com/tauraboots

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/pelo-avanco-da-ciencia Wed, 10 May 2017 12:57:12 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1382

Até chegar nas prateleiras das farmácias, um medicamento passa por, basicamente, quatro fases, desde os testes de segurança até a comercialização. As empresas que desenvolvem os remédios são, em sua maioria, internacionais e privadas, o que não impede que parte do estudo seja feito em instituições públicas brasileiras. Entre as vantagens da parceria entre empresa privada e órgão público estão a possibilidade de formação de recursos humanos e a renovação e melhora de estruturas das universidades. Um estudo de desenvolvimento de um fármaco pode custar bilhões de reais, recurso não disponível nas instituições de educação.

Alexandre Vargas Schwarzbold, coordenador da Unidade de Pesquisa Clínica da UFSM e especialista em doenças infecciosas, conduz cinco estudos de pesquisa clínica com parceria privada na Universidade. A pesquisa clínica envolve seres humanos e tem a finalidade de comprovar os efeitos de um fármaco. Em 2015, ele encerrou a pesquisa com a empresa japonesa Astellas para desenvolver o fármaco Cresemba. O remédio atua em um tipo de infecção fúngica invasiva, que mata mais de 80% dos pacientes afetados. Ela costuma atingir os pacientes imunodeprimidos, ou seja, aqueles que têm pouca resposta de defesa do corpo, como quem faz transplante de medula, quimioterapia ou está na UTI. Os fungos que nós enxergamos, nas paredes por exemplo, podem atingir os órgãos vitais deles. Além de Santa Maria, outros centros de ensino brasileiros e mundiais fizeram parte do desenvolvimento desse fármaco.

Em entrevista à revista Arco, Alexandre Schwarzbold falou da necessidade da parceria entre empresa privada e universidade para o avanço da ciência.

Qual a vantagem de se firmarem parcerias entre empresa privada e universidade pública?

Uma das vantagens é o financiamento. A indústria dos fármacos tem um custo muito elevado. Não existe universidade no Brasil, privada nem pública, que possa desenvolver um estudo desse porte sozinha, tanto pelo valor quanto pela infraestrutura. Então, ao se conseguir firmar essas parcerias no desenvolvimento de fármacos, elas te dão o financiamento e ainda apresentam a universidade para fora do país. Esse é o segundo ponto: a visibilidade da instituição passa a ser muito grande, ou seja, permite fazer outras parcerias de pesquisa, englobando também outras áreas. O terceiro elemento que eu considero importante é a capacitação de pessoas. Nós começamos a desenvolver, nos profissionais do HUSM [Hospital Universitário de Santa Maria], a noção do ‘fazer pesquisa’, seus detalhes, nuances legais, até os aspectos éticos, que não eram parte do treinamento que a Universidade oferecia.

 

Como se estabelecem as relações entre as empresas internacionais e a UFSM para firmar as parcerias?

Bom, existem fontes diferentes para o patrocinador chegar até um centro de pesquisa. Em pesquisa clínica, a fonte mais comum é o próprio pesquisador que se torna conhecido através de publicações ou estágios. A empresa não investirá em algo que eles sabem que dará muito trabalho para o funcionamento. Então facilita se tem um pesquisador de referência. A universidade também é critério para a escolha. A UFSM é uma das melhores universidades do Brasil e, graças às áreas de excelência da instituição, isso vira uma carta de apresentação.

 

O que permanece para a UFSM depois que os contratos acabam?

A Universidade fica com uma parte do dinheiro investido no estudo, cerca de 10%, para uso próprio da instituição. Quem mais ganha, no entanto, é o paciente participante da pesquisa. Depois que o estudo é publicado, se a droga é recomendada para o que estávamos estudando, o paciente com doença crônica que participou da pesquisa tem o direito de receber o remédio pelo resto da vida, por lei, no Brasil.

 

Como é feita a seleção dos participantes da pesquisa?

Tem que haver critérios, chamados de inclusão, que seguem o protocolo da pesquisa, como idade e peso. Mas é voluntariado. Depois que o médico identifica um paciente potencial, a gente conversa com ele, que se voluntaria. Quando a pessoa não sabe nem ler nem escrever, ela precisa assinar com o polegar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, além de ter outra testemunha para provar que não houve indução por parte do médico. Também tem vezes em que o paciente se inclui e o remédio pode salvar a vida dele, mas ele não quer ser “cobaia”, termo que não é correto, pois é relacionado à pesquisa com ratinhos, onde é preciso testar tudo, inclusive o que não dá certo. Quando o paciente está inconsciente, na UTI por exemplo, é preciso que um responsável legal assine. Além disso, familiares dos pesquisadores envolvidos na pesquisa não podem ser participantes.

 

No caso do Cresemba, a UFSM foi apenas um dos centros de testes, já que havia outros nacionais e internacionais. Por que é necessário realizar os testes em diferentes locais?

Os novos fármacos devem ter validação em lugares diferentes do mundo. O aspecto étnico tem que ser visto, pois é uma questão clínica, já que as pessoas respondem aos remédios de maneira diferente. Um estudo para ser bem validado tem que mostrar que foi feito com pessoas diferentes. Existem também estratégias técnicas para que não tenha erro nos estudos, como a seleção aleatória de pacientes, através de números sorteados por computadores. No fim do estudo, o remédio se mostrou eficaz principalmente numa população de pacientes de fungos raros que causam muitas micoses endêmicas e existem em muitos lugares do Brasil. Nosso país é tropical e tem muita tendência a ter micoses. E não são essas micoses superficiais, que qualquer pessoa pode ter. São doenças que invadem órgãos do corpo, pulmão, sangue, micoses invasivas.

“Nós começamos a desenvolver, nos profissionais do HUSM, a noção do ‘fazer pesquisa’, seus detalhes, nuances legais até os aspectos éticos, que não eram parte do treinamento  que a Universidade oferecia”

 

As Fases da Pesquisa Clínica

1 – Fases pré-clínicas: composta pela fase um e dois, é o estudo inicial do fármaco. Ele é testado em uma pequena população, geralmente sadia, visando avaliar a eficácia e segurança dele.

2 – Fase clínica: desenvolvida em diversos centros do mundo, como na UFSM, com diferentes populações de pacientes, para demonstrar a eficácia e segurança do fármaco.

3 – Fase pós-comercial: ocorre quando o remédio já está no mercado. Como são milhares de pessoas utilizando, muitas vezes é nessa fase que se descobrem novas reações.

Fonte: Anvisa

 

Repórter: Andressa Foggiato

Diagramação: Juliana Krupahtz

*Colaborou para a entrevista a enfermeira da Unidade de Pesquisa Clínica do HUSM Alexsandra Saul Rorato

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7° Edição – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/historia-preservada-em-negativos Wed, 10 May 2017 12:51:53 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=1380

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado diz que as fotografias são vetores entre o que acontece no mundo e as pessoas que não tiveram como presenciar. Se não fossem as fotos, o que comprovaria que os Beatles atravessaram a Abbey Road nos anos sessenta? Ou que Einstein mostrou a língua para as lentes do americano Arthur Sasse? A fotografia faz perdurarem os momentos e os transmite por gerações.

Na UFSM, pensando na manutenção da memória da instituição, foi criado o Departamento de Arquivo Geral, o DAG, em 1988. No setor de Arquivo Permanente, fotografias e documentos são fontes de pesquisa e recordações para alunos, servidores e comunidade em geral, e guardam a história das mais de cinco décadas da Universidade. Além das que já estão em formato digital, 85 mil imagens em negativos, tiradas entre os anos de 1958 a 2002, compõem o acervo, organizadas por data, evento, personagem e fotógrafo. Os negativos são, gradativamente, transferidos para plataformas digitais e já somam 2.500 imagens disponíveis online.

A preocupação de oferecer condições igualitárias de acesso a esse material para toda a comunidade universitária fez surgir o projeto Retalhos da Memória, em 2015, coordenado pela arquivista do DAG Cristina Strohschoen. Através dele, as imagens já digitalizadas são divulgadas com textos históricos e explicativos. Além disso, acompanham as postagens vídeos em Libras para surdos e audiodescrição de fotografias para cegos.

Diante de um acervo fotográfico repleto de curiosidades, o Ensaio desta edição da Arco é composto por algumas imagens memoráveis da história da UFSM.

Repórter: Andressa Foggiato

Diagramação: Kennior Dias

Fotografia: Acervo DAG/UFSM

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