CAPPA – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 23 Jun 2022 19:04:58 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico CAPPA – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 CAPPA – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/mulheres-na-paleontologia Fri, 11 Mar 2022 13:29:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9078
Gif horizonte e em tons de azul. São duas telas: na primeira, um grupo de seis homens está ao redor de uma pedra com duas marcas de fósseis de pé de dinossauros. Dois dos homens tem pele negra, e quatro tem pele branca. Eles vestem jaleco branco sobre camiseta verde claro. Dois deles seguram ferramentas como martelo, espátula e pincel de limpeza. Outro segura uma lupa. Outro uma câmera fotográfica. Ao fundo , quadro de esqueleto de dinossauro. A parede é azul marinha. A segunda tela desliza para a direita. Nela, há uma mulher negra de cabelos loiros em frente a uma rocha com fósseis de três conchas. Ela veste jaleco branco sobre camiseta verde claro. Segura uma lupa na mão. Na mesa em frente, há um livro aberto, um pincel de limpeza e uma faca pequena. O fundo é uma parede azul marinho.

A Paleontologia é um campo tradicionalmente reconhecido como masculino em todo o mundo. Uma forma de demonstrar isso é bem simples: quando pesquiso o termo no Google Imagens, o algoritmo mostra principalmente homens em campo – mulheres demoram a aparecer nos resultados da busca. Ou seja, influenciados pela representação midiática, associamos a profissão a homens brancos (independentemente de sermos leigos ou escolarizados). Mas será que esse cenário condiz com a realidade da pesquisa paleontológica no Brasil?

Captura de tela de resultado de busca no Google, na aba imagens. A aba de busca tem o texto "Paleontologia". Abaixo, oito imagens em duas linhas. São quatro imagens de fósseis de dinossauros, um carta, de curso sobre Paleontologia básica, duas imagens de homens mexendo com fósseis e uma ilustração de um fóssil de lagarto com o título "Paleontologia: o que é?"

Em um resumo publicado em 2017 pelas pesquisadoras  Mell Siciliano e Jacqueline Leta, foi observado que, em trabalhos de autoria compartilhada na Revista Brasileira de Paleontologia, “praticamente para cada autor há metade de uma autora”. Essas informações reforçam a predominância de autores masculinos na área da Paleontologia no Brasil.

 

Outro exemplo é a história dos estudos de roedores no Brasil (área de Paleomastozoologia, na qual eu atuo), que iniciou no século 19, com os trabalhos de Peter W. Lund (1801-1880) e posteriormente com Herluf Winge (1857-1923), ambos naturalistas dinamarqueses. Na década de 1940, após um hiato nos estudos de roedores do Brasil, Bryan Paterson realizou algumas descobertas sobre o grupo de animais. Somente a partir da década de 1960, esses estudos se intensificaram, começando pelos trabalhos de George Gaylord Simpson (1902-1984), paleontólogo e evolucionista estadunidense. Na década de 1980, destacaram-se os trabalhos de Kenneth E. Campbell Jr. e David Frailey, do Museu de História Natural da cidade de Los Angeles. 

 

Atualmente, têm se dedicado ao estudo de roedores caviomorfos (roedores sul-americanos, como chinchilas e capivaras) os professores Ricardo Francisco Negri e Leonardo Kerber. Ou seja, até aqui, todos homens. Após quase dois séculos, eu sou primeira mulher brasileira a também me dedicar a esta área de estudos (em outros países, como na Argentina, existem mulheres paleontólogas que estudam roedores extintos, como  María Guiomar Vucetich, Michelle Arnal, María Encarnación Pérez, Myriam Boivin – francesa, mas atualmente trabalhando na Argentina, entre outras).

Fotografia horizontal e colorida de três mulheres agachadas sobre solo de terra vermelha. Elas vestem camiseta branca e calça preta, e chapéu de tecido bege ou boné branco. Mexem no solo com ferramentas como martelo, espátula e pincel de limpeza. Ao lado, uma bacia de plástico transparente. Ao fundo, é possível ver água.
Da esquerda para direita: Paula Dentzien Dias, Débora Diniz e Emmanuelle Fontoura. Arquivo pessoal.

O coletivo Mulheres na Paleontologia,  é composto por docentes, pesquisadoras e estudantes que atuam na Paleontologia brasileira. Foi criado em 2017, sob a coordenação da pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Annie Schmaltz Hsiou, a partir de denúncias de discriminação, violência e assédio relatadas por mulheres da graduação e pós-graduação. Em 2020, essas cientistas criaram o projeto de pesquisa ‘Perfil de Gênero da Paleontologia’, que tem o  objetivo de “realizar o levantamento do perfil de gênero na Paleontologia brasileira, compreendendo qual a sua diversidade atual e como esse perfil se alterou ao longo da história da Sociedade Brasileira de Paleontologia”. O projeto busca gerar “argumentos baseados em evidências para debates sobre a estrutura opressora do machismo na academia e no universo científico”, segundo consta nas redes sociais da iniciativa. Alguns dos resultados mostram que há uma diversidade muito grande na área paleontológica (49,4% homens, 47,8% mulheres, 1,9% não-binários, 0,5% homens trans, 0,2% mulheres trans e 0,2% agêneros). Entretanto, ainda há  predominância de homens quando comparamos gênero em cada área dentro da Paleontologia (Paleoinvertebrados: 57.1% homens, 42.9% mulheres; Paleovertebrados: 60.1% homens, 39.9% mulheres; Paleoicnologia: 60.5% homens, 39.5% mulheres; Paleopalinologia: 32.3% homens, 67.7% mulheres; Paleobotânica: 40% homens, 60% mulheres; Micropaleontologia: 42% homens, 58% mulheres; Tafonomia: 56.9% homens, 43.1% mulheres).

 

Recentemente, o coletivo publicou uma Carta Aberta da Rede Mulheres na Paleontologia – PaleoMulheres, em razão de um paleontólogo, servidor público e docente ter sido denunciado por assédio moral e sexual – fato que foi reportado no programa televisivo Fantástico. Nesta carta, as mulheres manifestaram seu repúdio e fizeram solicitações à Sociedade Brasileira de Paleontologia, além de se dispor para auxiliar as vítimas.

Fotografia horizontal e colorida de duas mulheres e um homem trabalhando sobre uma mesa branca. Na mesa, há pedaços de pedra, pedras dentro de plásticos, caixa de papelão, ferramentas como pincéis e pinças. As pedras com as quais mexem estão sobre almofadas. Os três tem pele branca, cabelos castanho escuros e lisos, presos em um coque. Vestem jaleco branco. As duas mulheres usam óculos. Ao fundo, prateleiras de alvenaria com cerâmica, em que estão depositadas caixas e variados ossos.
Da esquerda para direita: Débora Moro, Emmanuelle Fontoura e Yan Silva.

Maternidade e Paleontologia

A desconsideração da licença maternidade na aferição de produção acadêmica e científica era um fator importante na produção científica feminina. Apenas no ano de 2021, a plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou inserir os registros de períodos de licença maternidade no currículo. Até então, a qualidade e capacidade profissional do cientista, que é medido através da quantidade de publicações e atividades inseridas no Lattes, era mensurado de forma semelhante para homens e mulheres, desconsiderando que as mulheres teriam 120 dias ausentes das atividades acadêmicas por motivos intransferíveis, além de que elas têm que ultrapassar mais barreiras para estruturar suas carreiras do que homens, como dupla jornada, preconceito, competição e segregação. Uma pauta feminista e materna, que finalmente foi conquistada. 

 

Além de tudo que foi citado, a paleontologia possui a necessidade de saídas de campo para coleta de material (outras áreas científicas também têm essa necessidade, porém vou comentar sobre a área na qual eu atuo). Para além do deslocamento até o sítio paleontológico – que exige aptidão física para caminhar longas distâncias, desbravar mata fechada, escalar morros escorregadios ou lamosos -, a coleta de material fóssil necessita de força física para remover um bloco rochoso do chão e transportá-lo até o laboratório. Nesse cenário, o machismo é presente de diversas formas, seja no pensamento das pessoas de que esse é um “trabalho para homens” e que mulheres não são capazes de realizá-lo – portanto, preferem contratar homens para esse emprego; seja quando presenciamos homens constantemente interrompendo nossa atuação para “fazer um trabalho melhor”; ou até no conhecido “mansplaining”, em que homens tentam explicar algo que sabemos – e muitas vezes somos especialistas no assunto. 

Fotografia horizontal e colorida de seis pessoas. No centro, duas pessoas estão agachadas ao redor de um círculo na terra, em meio a uma estrada de chão. No círculo, há um fóssil. São dois homens, um de pele branca e outro de pele negra, que seguram marretas na mão. Outro homem, em pé ao lado, também segura uma marretinha. Na esquerda, mulher de pele branca em pé; ela está de costas, tem cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo; veste camiseta branca, calça preta e usa Chapéu de tecido bege. Está grávida e aponta o dedo para o círculo. Ao fundo, outra mulher, de pele parda, em pé, sorri. Estão em uma estrada de chão. O fundo é uma paisagem de campo, com gramíneas baixas e árvores ao fundo.
À esquerda, professora Paula Dentzien-Dias, grávida de sete meses, coordenando a coleta de pegada de dinossauro na Formação Guará. Imagem cedida pela Paula.

A maternidade ou a própria manutenção da família e da casa podem afetar a produtividade acadêmica das paleontólogas mulheres, uma vez que  algumas saídas de campos podem durar horas, dias ou semanas, o que pode ser um tempo longo para uma mulher que é mãe se ausentar de casa. Essa preocupação ainda não é tão comum para homens, pois eles costumavam ser moldados para se dedicar ao seu trabalho – e apenas isso. 

 

Para as paleontólogas realizarem as saídas de campo, é necessário encontrar um espaço seguro, um familiar ou uma amiga para deixar os filhos.  Os campos costumam ser  ambientes perigosos para uma criança. Ou seja, a situação exige uma rede de apoio, muitas vezes negligenciada. Tenho certeza que muitas mães já ouviram frases como: “por que resolveu ser mãe agora?”, “deveria ter se planejado melhor”, ou então “uma mãe ausente não é uma boa mãe”. São inúmeras críticas às mulheres cientistasque querem conciliar o trabalho e a família. 

“Uma vez feita a opção pela carreira científica, a mulher se depara com o conflito da maternidade, da atenção e obrigação com a família vis-a-vis as exigências da vida acadêmica. Algumas sucumbem e optam pela família, outras, pela academia, e um número decide combinar as duas. Sobre essas últimas, não é necessário dizer quanto têm que se desdobrar para dar conta não apenas das tarefas múltiplas, mas também para conviver com a consciência duplamente culposa: por não se dedicar mais aos filhos e por não ser tão produtiva quanto se esperaria (ou gostaria). (VELHO, 2006, p. xv, retirado de Silva e Ribeiro, 2014)

 

Para exemplificar, pedi à minha orientadora da graduação, a professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Paula Dentzien-Dias, que me enviasse uma foto de alguma situação relativa à maternidade, visto que ela recentemente tornou-se mãe do Vicente. Ela me enviou esta imagem, um frame de um vídeo para aula prática de uma disciplina de Icnologia atual e fóssil da Pós-Graduação em Oceanologia que ela ministra. Ela se deslocou até o local onde seria realizada a aula prática de campo com os alunos, se não estivessemos em pandemia, para fazer a gravação e levou o Vicente junto – e ele acabou aparecendo sem querer no vídeo. 

Fotografia vertical e colorida de um pedaço do chão. Há areia ao redor de um pedaço de fóssil branco. No canto superior esquerdo, sobre o fóssil, pedaço de pé de bebê.
Imagem cedida pela professora Paula Dentzien-Dias

O “Teto de Vidro”

A autora Londa Schiebinger utiliza a expressão “teto de vidro” para se referir, como metáfora, à “barreira supostamente invisível que impede as mulheres de atingirem o topo”, pois não existem barreiras físicas que explicam o porquê de as mulheres não conseguirem avançar  profissionalmente na mesma proporção que os homens.

 

Além disso, é válido destacar que a ciência ainda permanece com uma estrutura patriarcal, baseada em um “modelo masculino” de carreira, com valores e padrões também tidos como masculinos. Isso seria aquele modelo em que a ciência deve ocupar o tempo integral das nossas vidas, já que homens estruturalmente ainda não possuem a responsabilidade da casa e da família. Esse modelo dificulta e limita a participação feminina na ciência. As pesquisadoras Silva e Ribeiro escreveram um artigo intitulado “Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher” no qual trazem a ideia de Fanny Tabak sobre a dificuldade de ser uma mulher cientista, ainda no século 21: “é muito mais difícil para a mulher seguir uma carreira científica numa sociedade ainda de caráter patriarcal e em que as instituições sociais capazes de facilitar o trabalho da mulher ainda são uma aspiração a conquistar’.” 

 

E talvez estejamos pensando: “como fazer para quebrar o ‘teto de vidro’”? Essa é uma pergunta que não tem uma resposta precisa, mas muitas atitudes que tomamos no nosso dia a dia podem influenciar na fragilidade que este vidro possui – e facilitar a sua quebra total no futuro. Por exemplo, podemos buscar exemplos de mulheres cientistas para mostrar o que é ciência; buscar parcerias femininas para trabalhos; incluir mulheres nas suas pesquisas; divulgar a ciência feita por mulheres e as próprias cientistas; dar oportunidades para mulheres na iniciação científica; respeitar o tempo e ter empatia por mães cientistas; mostrar para colegas quando eles têm uma atitude machista; introduzir na ciência uma perspectiva de gênero;  reforma curricular na ciência, abordando temáticas de gênero; entre muitas outras atitudes. A ciência não é neutra.

 

Dentro da paleontologia, é importante destacar algumas ações fundamentais: contratar paleontólogas e geólogas para trabalhos pesados e de campo; repreender quando ouvir alguma frase machista, como “preparar um fóssil exige delicadeza e, por isso, é um trabalho feminino”; não excluir mulheres das saídas de campos; não fazer comparações sobre capacidade e esforço físico entre homens e mulheres; ao presenciarem comentários ou piadas sobre uma mulher no campo, repreender imediatamente; não se oferecer para carregar alguma ferramenta, mochila e equipamento só porque é uma mulher; na dúvida, se ainda houver, trate sua colega da mesma forma que você trataria seus colegas homens. Nós não precisamos de ajuda, conseguimos fazer tudo sozinhas, sim! O que precisamos é de respeito.

Fotografia horizontal e colorida de uma mulher em frente a uma patrola. A mulher está de costas, tem pele branca, cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo. Usa Chapéu de tecido bege. Veste camiseta branca, calça preta e calçado marrom. A patrola é cinza, velha e com aspecto enferrujado, passa po uma estrada de chão. Ao lado esquerdo, três pessoas paradas olham para a patrola. Duas são mulheres e um é homem. O homem tem pele negra e as mulheres tem pele branca. Estão no acostamento, sobre gramínea baixa e acinzentada. O fundo é o céu azul.
Paula Dentzien-Dias (de branco), grávida de 7 meses, protegendo a pegada de dinossauro da patrola que estava passando. Imagem cedida pela pesquisadora.

“O preconceito de gênero, como produto social, cultural e histórico, que institui e determina constantemente uma imagem negativa e inferiorizada das mulheres, nem sempre se dá de forma explícita; muitas vezes, ele se dá de forma velada, sutil, e aí residem, justamente, sua força e eficácia.” (Silva e Ribeiro, 2014)

 

A seguir divulgarei o trabalho de algumas cientistas, paleontólogas e estudantes. Que seja uma fonte de inspiração às nossas meninas e mulheres para que consigam quebrar o “teto de vidro” e ocupar espaços que, por muito tempo,  foram ocupados por homens devido à disparidade de gênero. De antemão, peço desculpas às cientistas que não citei por mero esquecimento ou porque nossos caminhos ainda não se cruzaram. Todas vocês são importantes! Alguns textos foram retirados e adaptados dos currículos Lattes das pesquisadoras, outros do site do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM e outros, ainda, foram enviados pelas próprias paleontólogas. 

Paula Dentzien Dias: Professora associada da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com atuação no Programa de Pós-Graduação em Oceanologia e líder do Grupo de Pesquisa em Icnologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Icnologia (estudo de vestígios), Permiano, Jurássico, Quaternário, Bacias de Pelotas, Paraná e Parnaíba. Tem atuado na área de extensão e pesquisa, trabalha com icnofósseis, principalmente coprólitos (fezes fossilizadas), e já encontrou espécies novas de actinomicetos (bactérias)actinomisseti e os parasitas de tênia mais antigos de tênia, ambos em coprólitos! 

 

Aline Ghilardi: Paleontóloga com foco em Paleobiologia, Paleoicnologia e Osteohistologia de Vertebrados e atua na área de Divulgação Científica. Ela é criadora da rede “Colecionadores de Ossos”, vinculada às iniciativas Science Blogs e Science Vlogs Brasil, e também realiza divulgação de forma independente em suas redes sociais. Atualmente, Aline é professora adjunta de Paleontologia no Departamento de Geologia e do Programa de Pós-Graduação em Geodinâmica e Geofísica (PPGG) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Annie Hsiou: Professora associada e livre docente junto ao Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), ligado à Universidade de São Paulo (USP). É membra efetiva da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) e foi diretora da SBP, ocupando o cargo de vice-presidente (gestão 2017/2019), além de ter sido 1ª tesoureira (gestões 2013/2015 e 2015/2017). Atualmente é a 1ª vice-presidente da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). Estuda morfologia comparada de lepidossauros fósseis (esfenodontes, lagartos e serpentes) através do Mesozóico e Cenozóico sul-americano. Também atua na compreensão e evolução da biota do Neógeno da Amazônia Brasileira da Bacia do Acre, com ênfase nas faunas de répteis, idade e resolução temporal do Mioceno do norte da América do Sul. É mãe de dois filhos e esteve de licença maternidade entre maio a outubro de 2014 e entre junho e dezembro de 2018.

 

Ana Maria Ribeiro: Bióloga/pesquisadora da Seção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul  (SEMA/RS), coordenadora do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/CNPq  e curadora da coleção científica

de Paleontologia no Museu de Ciências Naturais (MCN), editora da Revista Brasileira

de Paleontologia, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em

Geociências na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Programa

de Pós-Graduação em Sistemática e Conservação da Diversidade Biológica (SEMA – UERGS). Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas: sistemática de mamíferos e cinodontes, Triássico e Cenozóico. 

Elizete Holanda: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2011. Atualmente é professora associada do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua/UFRR) e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais. Atua principalmente nos temas da Paleontologia da Amazônia e Ensino em Geociências.

 

Marina Bento Soares: Professora associada Nível 3 do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e orientadora permanente do PPGeo – Patrimônio Geopaleontológico do Museu Nacional

e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional. Também atua como docente colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Geociências -PPGGeo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem experiência na área de Paleontologia (Paleozoologia e Paleontologia Estratigráfica), com ênfase em

Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas:

Morfo-anatomia, Filogenia, Histologia, Tafonomia e Bioestratigrafia de tetrápodes

fósseis do Permo-Triássico do Rio Grande do Sul. Sua pesquisa tem como foco principal

o estudo dos cinodontes não-mamaliaformes (Therapsida, Cynodontia), como

Exaeretodon, e paleohistologia de tetrápodes fósseis. 

 

Taissa Rodrigues (Mulheres na Paleontologia (@paleomulheres)): Professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2011, onde realiza atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. Orienta discentes de mestrado e doutorado em Biologia Animal no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGBAN) da mesma instituição. Possui graduação em Ciências Biológicas (bacharelado em Zoologia dos Vertebrados) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/2004) e mestrado (2007) e doutorado (2011) em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa tem como foco  a anatomia e sistemática de pterossauros e a evolução da biota do Cretáceo. Atua também nos temas da diversidade de gênero na paleontologia e tráfico de fósseis, além de realizar divulgação científica. Atualmente, é podcaster no “Cinema com Ciência”, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC)  e membra dos comitês de Assuntos Governamentais e do Prêmio Alfred Sherwood Romer da Society of Vertebrate Paleontology (EUA).

 

Ana Emilia Quezado de Figueiredo: Bióloga  pela Universidade Estadual do 

Ceará (UECE/2005), este em Geociências e paleontologia na Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/2009).  É doutoranda em Geociências e Paleontologia na UFRGS. Tem experiência em paleontologia, atuando  principalmente nos seguintes temas: Curadoria, Ensino de Paleontologia,

Icnologia de Vertebrados, Tafonomia de Vertebrados e Taxonomia de Peixes.

Carolina Saldanha Scherer: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente trabalha como professora adjunta na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na área de Paleontologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Mamíferos Fósseis, atuando principalmente nos seguintes temas: camelídeos fósseis, ungulados pleistocênicos e mamíferos fósseis.

Dimila Mothé: Doutora em Zoologia pelo Museu Nacional/Universidade Federal do

Rio de Janeiro (UFRJ),  e  Pós-Doutora em Paleoecologia na Universidade

Federal de Pernambuco (UFPE) e na Universidade Federal do Estado do Rio de

Janeiro (Unirio). Atualmente faz Pós-doutorado na Unirio com o estudo da

evolução e sistemática de Tethytheria. Tem experiência na área de Zoologia, com

ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas:

Proboscidea, Paleoecologia, Morfologia, Taxonomia, Evolução, Sistemática e

Biogeografia.

Estudantes do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia - CAPPA

Micheli Stefanello: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2015), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM e estudante de doutorado na mesma instituição. Desenvolve estudo sobre sistemática e anatomia de cinodontes Probainognathia. 

 

Tiane Macedo Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do

Pampa (Unipampa/2016), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade

Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e estudante de doutorado na

mesma instituição. Atualmente desenvolve estudo sobre sistemática e

anatomia de Archosauromorpha do Triássico Inferior. 

 

Emmanuelle Fontoura: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG/2019). Mestra (2021) e estudante de Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de cetartiodáctilos terrestres do Pleistoceno e paleoneurologia de cervídeos. Atualmente desenvolve estudos sobre roedores caviomorfos do Mioceno da Amazônia.

Gabriela Menezes Cerqueira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa/2017), mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas pela mesma instituição (2019) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Atualmente desenvolve pesquisa com o uso de proporções corporais como critério taxonômico para Pterosauria.

Débora Moro: Licenciada em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal Farroupilha – 55BET Pro São Vicente do Sul (IFFar-SVS/2019), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021), e estudante de doutorado na mesma instituição.  Atualmente desenvolve estudos  anatômicos e filogenéticos de novos espécimes de dinossauros sauropodomorfos do Rio Grande do Sul, dedicando-se também a estudos paleoautoecológicos dos primeiros dinossauros.

Tabata Freitas Klimeck: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2017). Estudante de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de Cingulata do Paleogeno da Bacia de Curitiba e da Fauna da Formação Guabirotuba.

Letícia Rezende de Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2019) e estudante de mestrado pelo Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Animal na mesma instituição. Desenvolve estudos na área de sistemática de Archosauria. 

 

Lívia Roese Miron: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de

Santa Maria (UFSM/2019). Estudante de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Comparada da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente

estuda a neuroanatomia de répteis rincocefálios fósseis do Triássico do Rio Grande do

Sul e viventes da Nova Zelândia. Recentemente foi aprovada no Doutorado em Biodiversidade Animal (UFSM). 

 

Estudantes do laboratório de Estratigrafia e Paleontologia - LEP

Lísie Damke: Bacharela e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021). Ao longo da graduação dedicou-se ao estudo morfológico de Loricata basais do Triássico e às atividades de extensão. Recentemente foi aprovada no mestrado pelo PPG Biodiversidade Animal (UFSM) e estudará dinossauros basais do Triássico. 

 

Franciele Fischer Ortiz: Técnica em Controle Ambiental pelo Instituto Federal

Farroupilha – 55BET Pro Panambi (IFFar/2019), licenciada em Ciências Biológicas pelo

mesmo 55BET Pro (2021). Pós-Graduanda em Docência no Ensino Superior pelo

Centro Universitário Leonardo Da Vinci – UNIASSELVI e mestranda pelo PPG em

Biodiversidade Animal da UFSM. Atualmente desenvolve estudos sobre registros de

Cingulata no Rio Grande do Sul.

 

Referências:

Casagrande, S. L; Schwartz, J; Carvalho, M. G. de; Leszczynski, S. A. 2005. Mulher e ciência: uma relação possível? Cadernos De Gênero E Tecnologia. ISSN: 2674-5704, v. 1, n. 4 

Mary Anning: como uma mulher pobre se tornou uma das maiores paleontólogas do mundo (socientifica.com.br)

Silva, F. F. da, & Ribeiro, P. R. C. (2014). Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher.” Ciência & Educação (Bauru), 20(2), 449–466. doi:10.1590/1516-73132014000200012

SCHIEBINGER, L. O feminismo mudou a ciência? São Paulo: EDUSC, 2001

VELHO, L. Prefácio. In: SANTOS, L. W.; ICHIKAWA, E. Y.; CARGANO, D. F. (Org.). Ciência,

tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: IAPAR, 2006. p. xiii-xviii.

 

Expediente:
Texto: Emmanuelle Fontoura Machado, bacharela em Ciências Biológicas pela FURG, mestra e doutoranda em Biodiversidade Animal pelo PPGBA-UFSM;
Ilustração de capa: Joana Ancinello, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;
Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;  Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.
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CAPPA – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/cervo-gigante-habitou-america-do-sul-10-mil-anos Fri, 25 Feb 2022 18:42:48 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9022
Reconstrução fotográfica e vertical de um cervo gigante. No centro da imagem, o cervo, com pelos em tons de marrom, porte grande, tem cabeça pequena em relação ao resto do corpo; está parado de perfil, com a cabeça pra frente. Ao redor dos olhos e na mandíbula a pelagem é branca. Os olhos e focinho são pretos. A galhada é grande e alta. Ao lado esquerdo, no alto, três recortes da fotografia, da parte da cabeça. De cima para baixo, a primeira mostra a cebeça, a segunda mostra os ossos da cabeça, e a terceira mostra o cérebro. O fundo é desfocado e em tons de verde.
Arte de Márcio L. Castro.

Que linda esta imagem, não? Ela é a reconstrução artística do Antifer ensenadensis, um cervídeo extinto que é considerado o maior cervo que já habitou a América do Sul. Também estão representados, nos quadrinhos menores, o crânio e o encéfalo dele, que foram objetos de estudo do mestrado que realizei na UFSM, em 2021, sob orientação do paleontólogo Dr. Leonardo Kerber. Na pesquisa, analisamos o molde da cavidade do crânio onde fica o encéfalo do cervo extinto no Pleistoceno final e, para fazer tal análise, utilizamos técnicas de tomografia computadorizada.  Entre os resultados da investigação, descobrimos que o peso do Antifer ensenadensis pode ter atingido até 206 quilos, maior que o Cervo-do-pantanal, muito além do que já haviam estimado. Até então, estudos mostravam que seu peso poderia ter alcançado 120 quilos e não havia nenhum estudo sobre a cavidade endocraniana desses animais.

Reconstrução fotográfica horizontal e colorida de um cervo gigante. Na ireita da imagem, o cervo, de perfil, em frente a um bosque iluminado. O cervo tem pelos em tons de marrom, cabeça pequena em relação ao resto do corpo, e galhada grande. Na cabeça, ao redor dos olhos e na mandíbula, a pelagem é branca. Os olhos são redondos e pretos, o focinho também é preto. Ao fundo, em desfoque, troncos de árvores altas e finas, formam um bosque. Há luz entrando por detrás das árvores, o que ilumina o cervo.
Reconstrução artística do crânio do cervo gigante e da galhada. O crânio é de um tom de branco acinzentado, alongado, com buracos redondos no lugar dos olhos e nariz. Na parte inferior, a arcada dentária superior. Os galhos são ligados às extremidades dos crânios e lembram galhos de árvores. O fundo é branco.
Reconstrução do crânio de Antifer ensenadensis, de Márcio L. Castro.

Os cervídeos que conhecemos hoje começaram a habitar a América do Sul durante o Pleistoceno, há aproximadamente 2,5 milhões de anos. Eles chegaram aqui com a formação do Istmo do Panamá no final do Plioceno, há mais ou menos 2,4 milhões de anos. O Istmo era uma ponte localizada na América Central, que interligou a América do Norte com a América do Sul. Esse fenômeno é conhecido como “Grande Intercâmbio Biótico Americano”. Naquele período, existiam cervos de grande porte, como o Antifer, que tinha galhadas muito robustas, chegando a um metro de comprimento (para comparação, as galhadas dos cervos atuais não passam de 45 centímetros).

Representação de mapa da América do Norte, América Central e América do Sul, em tons pastel. Na parte da América do Norte, há alguns ícones de cervos e outros animais. Na América do Sul, cervos, tatus, preguiças, entre outros animais. Ao lado de um cervo da América do Norte, uma flecha que aponta para a América do Sul. O fundo é branco.
Representação do Grande Intercâmbio Biótico Americano. Acima, estão os cervídeos que ingressaram na América do Sul e, abaixo, os mamíferos que habitavam o continente, como marsupiais, preguiças, tatus, liptoternos, notoungulados, entre outras linhagens.

O estudo da Paleoneurologia

Paleoneurologia é um ramo da paleontologia que estuda a evolução neurológica. Após a morte dos animais, os tecidos do sistema nervoso não são preservados, pois se decompõem rapidamente. Este ramo da paleontologia, portanto, não trabalha diretamente com os tecidos, mas com impressões/contornos internos que foram deixados nos ossos. Atualmente, as tecnologias para visualizar e analisar fósseis vêm avançando e é possível estudar as cavidades internas de crânios por meio de tomografias computadorizadas, sem precisar quebrar ou danificar os fósseis. Antes do surgimento dessas tecnologias, era necessário fazer moldes de látex ou outro material, e o risco de danificar e/ou fraturar o fóssil era grande. Alguns pesquisadores serravam o material para ver como seria a morfologia interna, o que acarretava em perda de informação externa, além de danificar o fóssil.

 

Em nossa pesquisa, estudamos a cavidade endocraniana de Antifer ensenadensis (um fóssil de 42 – 10 mil anos atrás), provenientes da Formação Touro Passo (Pleistoceno Superior) e outros cervos atuais da América do Sul, América do Norte e Eurásia. O objetivo era compreender a morfologia, tamanho e forma dos endocrânios. As técnicas que usamos como metodologia foram:

Boz horizontal e colorido. Sobre o box, três blocos de texto. Os textos estão em caixa alta e na cor branca, e os títulos tem fundo preto. O primeiro bloco tem o título "Morfometria geométrica" e o texto: "Analisa e compara a variável de formato, excluindo a variável de tamanho". O segundo bloco tem o título "Coeficiente de Encefalização", e o texto: "Razão entre o tamanho cerebral real e o tamanho esperado em relação à massa corpórea de um animal"; e o terceiro bloco tem o título "Morfologia comparada", e o texto: "Compara os fósseis com relação aos espécimes atuais". O fundo é desfocado, iluminado e em tons de marrom.
Fotografia horizontal e colorida de fósseis em esteira ao lado de máquina de tomografia computadorizada. São cinco fósseis de diferentes partes do cervo. A máquina é branca com detralhes em azul e cinza. A esteira é ligada a uma estrutura circular com um círculo vazado no centro. Ao lado, painel de controle preso à estrutura da máquina por um braço de metal. No fundo, paredes brancas.
Tomografia computadorizada dos crânios de cervídeos. Arquivo pessoal.

Concluímos que A. ensenadensis possuía um cérebro girencefálico (com sulcos e circunvoluções), assim como os cervos atuais, e o coeficiente de encefalização está dentro da variação dos cervídeos. 

 

Alguns fatores ecológicos influenciam no grau de encefalização ao longo do tempo em diversos grupos de mamíferos, como pressão seletiva de predadores, competição, seleção neutra ou negativa, domesticação, hábitos fossoriais (adaptado para cavar, vive sob o solo), procura de alimento, entre outros.

Reconstrução tridimensional do molde encefálico do cervo gigante. Ele está dividivo m quatro partes, A, B, C e D. Estão na cor roxa. Há flechas que apontam partes da estrutura. Na descrição, conforme as partes. Na parte "A": olfactory bulb,cruciate sulcus, lateral sulcus e vermis. Na parte "B": olfactory tract, optic nerve, nerves III, IV and V (variable V1 and V2), nerve v3, paraflocculus, medulla oblongata, pituitary gland, nerves IX, X and XI, e nerve XII. Na parte "C": olfactory bulb, optic nerve, nerves III, IV and V (variable V1 e V2), nerve XII, medulla oblongata e vermis. E na parte "D": rhinal fissure, suprasylvian sulcus, nerve V3 e paraflocculus. O fundo é branco.
Reconstrução tridimensional dos moldes encefálicos de Antifer ensenadensis. À esquerda, o espécime da Unisinos e, à direita, o espécime do Museu de Ciências Naturais de Porto Alegre.
Reconstrução tridimensional do molde encefálico do cervo gigante. A reconstrução está em quatro partes: A, B, C e D. As partes A e B são de frente e trás. E as partes C e D são do molde partido, direita e esquerda. A coloração é vermelho vivo. Na descrição, elementos apontados em cada parte. Na parte "A": coronal sulcus, ansete sulcus, olfactory bulbs,cruciate sulcus, lateral sulcus, superior sagittal sinus, cerebellar hemispheres e vermis. Na parte "B": rhinal fissure,olfactory tract e optic chiasma. Na parte "C": coronal sulcus, diagonal sulcus, rhinal fissure, transversal fissure. E na parte "D": olfactory bulbs, optic chiasma, suprasylvian sulcus, ectosylvian sulcus e vermis. O fundo é branco.

Observamos também que, quanto menor é o tamanho corporal dos cervos, maior é o tamanho do cérebro – e vice versa – valendo para os cervos extintos e viventes. Esse fato não reflete necessariamente em uma maior inteligência para os cervos pequenos. Uma hipótese para explicar essa variação em tamanho relativo do cérebro é que animais que sofrem maior predação e competição (o que chamamos ‘pressão seletiva’) tendem a possuir um encéfalo maior (maiores coeficientes de encefalização), enquanto em animais com menor pressão seletiva na sua vida tende a ocorrer o oposto.  Os cervídeos de menor porte provavelmente sofriam mais predação e competição do que os cervos maiores, pois animais pequenos tendem a ter uma alimentação mais especializada – e consequentemente maior competição intraespecífica (entre indivíduos da mesma espécie) e interespecífica (entre indivíduos de espécies diferentes).

Gráfico quadrado e em preto e branco. Na linha 'x', a variável "log (Size). Na linha 'y', a variável "Shape (Regression score)". A linha 'x' vai de 4,6 a 5,2, com variável de 0,1. A linha 'y' vai de -0.05 a 0.05, com a variável 0.00 no meio. Na parte inferior esquerda do gráfico, há um cervo normal. Na parte superior direita do gráfico, um cervo gigante. Há duas representações encefálicas acima do gráfico. O fundo é branco.
Gráfico que demonstra que forma e tamanho dos cervídeos estão relacionados. Quanto maior o tamanho corpóreo do cervo, mais similares são os seus encéfalos. O mesmo vale para os menores tamanhos.

Por fim, gostaria de ressaltar, a partir da minha experiência nesta pesquisa, o quanto as novas tecnologias têm auxiliado na compreensão da biologia de espécies extintas – como o caso do cervídeo gigante sul-americano Antifer ensenadensis. Projetos assim são de extrema importância para o conhecimento e desenvolvimento de hipóteses evolutivas e de extinção das espécies.

Reconstrução artística do cervo gigante. Ele está de pé, em perfil direito, com a cabeça erguida. Tem pelagem curta em tons de marrom. Os olhos e o focinho são pretos. Ao redor dos olhos e na mandíbula, a pelagem é branca. Tem galhada grande. O fundo é branco.
Reconstrução do Antifer ensenadensis, por Márcio L. Castro.
Expediente:
Texto: Emmanuelle Fontoura Machado, bacharela em Ciências Biológicas pela FURG, mestra e doutoranda em Biodiversidade Animal pelo PPGBA – UFSM;
Ilustrações: Marcio L. Castro;
Design gráfico: Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;
Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e bolsista;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb e Maurídio Dias, jornalistas.
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CAPPA – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/nem-todo-fossil-e-de-dinossauro Mon, 07 Feb 2022 16:53:43 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8969

Quais imagens vêm à sua cabeça quando falamos sobre paleontologia, paleontólogos ou fósseis? Provavelmente uma imagem de um dinossauro gigante e homens escavando um local arenoso com um pincel? Talvez você se lembre de cenas dos filmes Jurassic Park ou Jurassic World da Universal Studios? Essas são as imagens que passam na mente da maioria das pessoas. Se pesquisarmos no Google Imagens a palavra “paleontologia”, imediatamente surgem esqueletos de dinossauros em museus ou em um solo arenoso, reconstruções de dinossauros, alguns homens trabalhando com pincel, martelos geológicos… Entretanto, essa é apenas uma fração do que é feito na paleontologia. Este campo de estudo vai muito além disso, e claro, não é feito somente por homens!

Quando pesquisamos na internet o que é fóssil, a Wikipédia nos traz o conceito, a partir de Tomassi e Almeida, autores da área, de que são “restos de seres vivos ou de evidências de suas atividades biológicas preservados em diversos materiais”. Isso significa que os dinossauros, por serem animais extintos naturalmente, são encontrados apenas e exclusivamente como fósseis. Mas nem todo fóssil é de dinossauro! Também são descobertos fósseis de outros vertebrados (como mamíferos, aves, peixes e répteis), de invertebrados (como os insetos) e de plantas. Além disso, são achados vestígios fósseis, como pegadas, mordidas, fezes e tocas, os quais recebem um nome específico: icnofósseis. 

A paleontologia tem diversos ramos de estudos, cada qual com um nome específico. Explicarei alguns deles a seguir, de forma sucinta, para que alguns dos estudos dessa ciência sejam conhecidos.

Paleomastozoologia

É o ramo da paleontologia que estuda mamíferos fósseis. Dentre eles, estão os animais da megafauna – amplamente conhecidos nos filmes da Era do Gelo. Tatus gigantes, mastodontes, preguiças gigantes, tigres-dente-de sabre: uma fauna que atingiu proporções gigantescas e que foi extinta por fatores climáticos e ambientais.

Paleoneurologia

Trata-se do ramo da paleontologia que estuda a evolução neurológica ao longo do tempo. Os tecidos do sistema nervoso não são preservados, pois rapidamente se decompõem após a morte do animal, assim como outras partes moles, como sistema digestório e epitelial. Portanto, a paleoneurologia não trabalha diretamente com esses tecidos, mas por meio de impressões e/ou contornos internos que foram deixadas nos ossos. Trata-se de uma simulação muito próxima de como esses elementos do sistema nervoso seriam morfologicamente.

Imagem horizontal e colorida de ossos. Há seis ossos, de baixo para cima em ordem de tamanho. O primeiro é grande e o último, pequeno. No lado direito, roedor com pelagem marrom.
Roedor gigante que habitou o Brasil durante o Mioceno superior: Neoepiblema acreensis. Reconstrução feita por Márcio L. Castro

Paleobotânica

É o ramo da paleontologia que estuda vegetais, desde grãos de pólen, esporos e microestruturas até folhas, sementes, flores e troncos. Esses estudos são muito importantes para sabermos sobre mudanças climáticas globais e também sobre ecologia e interação com outros organismos. 

Montagem de fotografias em preto e branco, de impressões digitais de folhas em pedras. Há seis fotografias, as quatro primeiras, retangulares verticais, na parte superior. Abaixo, duas Fotografias retangulares horizontais e, ao lado, mais uma vertical.
Elementos florais encontrados na Bacia do Paraná (Permiano), no Rio Grande do Sul, Brasil.

Paleopatologia

Ramo da paleontologia que estuda a evolução das doenças ósseas, como tumores, fraturas e infecções. Dependendo do tipo de patologia, é possível identificar se esta foi a causa de morte do animal, ou investigar os seus hábitos de vida.

Imagem quadrada e em tons de cinza. Reconstrução virtual de ossos de alossauro, espécie de dinossauro. A imagem é dividida em a, b, c, d. A parte 'a', no lado esquerdo, mostra a reconstrução da escápula. É um osso cinza e curvo. As partes 'b' e 'c' estão no lado direito superior, são ossos cinzas iguais, com uma articulação no meio. A parte 'd', logo abaixo, é um raio x de um osso cinza sobre fundo preto. Há uma fissura no osso.
Escápula de Alossauro (dinossauro) com patologia. A linha pontilhada mostra a fratura.

Icnologia

Estuda vestígios deixados por animais, a exemplo de pegadas, traços de predação (mordidas), coprólitos (fezes), rastros de urina, tocas, entre outros. Esse estudo é muito importante para conhecermos a vida destes organismos, seus comportamentos, suas interações ecológicas e até mesmo sobre suas migrações.

Imagem quadrada e em tons terrosos. Ela é dividida em sete quadros. Todos eles tem fotos de pegadas de dinossauros. Há diferentes pegadas, com diferentes tamanhos e formatos. Há uma fita quadriculada em preto e branco ao lado das pegadas. Nas pegadas 'a', 'b' e 'e', a fita é pequena em comparação às pegadas. Nas pegadas 'd' e 'f', as pegadas são um pouco menores que a fita. E nas pegadas 'c' e 'g', as pegadas são bem menores que a fita. As pegadas estão em um piso quadriculado de pedra.
Pegadas de dinossauros encontrados em Araraquara (São Paulo).

Tafonomia

Ramo da paleontologia que estuda os processos que ocorreram desde a morte do indivíduo, o seu soterramento, até o seu encontro pelos pesquisadores. Existem muitas variáveis que ocorrem nesse processo, como predação do organismo ou rápido soterramento; transporte da carcaça ou não; possibilidade de pisoteio; transporte após fossilizar; quebra, polimento ou destruição do mesmo; entre outros. Essas variáveis podem se sobrepor de diversas formas. 

Durante a minha graduação, estudei fósseis de cervos e camelídeos (camelos e lhamas) provenientes da costa marinha do Rio Grande do Sul. Esses afloramentos fossilíferos estão localizados no solo oceânico (ou seja, embaixo d’água) e são desenterrados pela ação de ondas e correntes marítimas e depositados na faixa de praia. O processo de transporte faz com que os restos fósseis ocorram de forma isolada, desarticulada (os ossos não estão mais conectados), fragmentada e desgastada. 

No meu Trabalho de Conclusão de Curso, foi possível identificar uma predominância de alguns tipos de ossos em relação aos outros. Por exemplo, foram achados muitos astrágalos (osso localizado entre o pé e o tornozelo) e galhadas (chifres de cervos) em comparação com outros tipos de ossos, provavelmente porque galhadas e astrágalos são ossos muito resistentes e porque têm uma morfologia (estrutura) diferenciada. Outros ossos, como as costelas, são mais frágeis e mais suscetíveis à quebra.

Também descobrimos o primeiro registro de bioerosão (uma deformação causada por algum organismo vivo) em uma galhada de cervo, que foram traços de alimentação feitos por um inseto. Esse achado é raro nesse tipo de ambiente, pois os fósseis acabam perdendo muita informação morfológica devido aos processos tafonômicos, como transporte, fragmentação, erosão e bioerosão. 

Expediente:
Texto: Emmanuelle Fontoura Machado, bacharela em Ciências Biológicas pela FURG, mestra e doutoranda em Biodiversidade Animal pelo PPGBA – UFSM;
Ilustrações: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista, e Cristielle Rodrigues, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;
Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

Créditos das imagens:

Imagem 01: Ferreira, J. D., Negri, F. R., Sánchez-Villagra, M. R., & Kerber, L. (2020). Small within the largest: brain size and anatomy of the extinctc Neoepiblema acreensis, a giant rodent from the Neotropics. Biology Letters, 16(2), 20190914. doi:10.1098/rsbl.2019.0914;

Imagem 02: Adami-Rodrigues, K., Iannuzzi, R. & Pinto, I. D. (2004). Permian plant–insect interactions from a Gondwana flora of southern Brazil. Fossils and Strata, 51: 106–125. ISSN 0300-9491;

Imagem 03: Christian Foth, Serjoscha W. Evers, Ben Pabst, Octávio Mateus, Alexander Flisch, Mike Patthey & Oliver W. M. Rauhut. 2015.  New insights into the lifestyle of Allosaurus (Dinosauria: Theropoda) based on another specimen with multiple pathologies. PeerJ 3: e940.;

Imagem 04: Francischini, H., Dentzien-Dias, P., de Gobbi, V., & Adorna, M. (2018). As lendas e a ciência por trás dos répteis gigantes de Araraquara. Revista da Biologia, 18(1), 31-36.

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