Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Mon, 18 Dec 2023 12:47:14 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/filhote-de-passaro-fora-do-ninho Wed, 06 Dec 2023 17:59:35 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9901 Com a primavera e o aumento da reprodução de aves, é comum encontrar um número considerável de filhotes de pássaros que caem do ninho e ficam indefesos. Ao deparar-se com essa situação, muito frequente no próprio campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é natural que as pessoas tentem ajudar e, geralmente, acabam resgatando o filhote para cuidá-lo em casa. Mas será que essa atitude é recomendada por profissionais da área?

De acordo com o professor do departamento de Zootecnia da UFSM e criador do Projeto Olha o Passarinho, Everton Rodolfo Behr, a mortalidade de filhotes de aves é muito alta e pode ultrapassar 50% em relação ao percentual de nascimentos em algumas espécies. “Os óbitos podem acontecer mesmo no ninho, por predação de cobras, aves maiores e mamíferos, com variações conforme a espécie, ano, local e demais condições”, relata Behr. Ele aponta ainda que a alta criação de gatos domésticos, por serem animais caçadores, pode influenciar muito na mortalidade dos filhotes.

Apesar do alto índice de mortalidade, a principal orientação do professor ao encontrar um filhote de pássaro fora do ninho, caso não haja nenhuma ameaça iminente, é não interferir no ciclo natural da espécie. Ele explica que, muitas vezes, os pais estão por perto observando o filhote: “os pais investiram uma grande quantidade de tempo e energia na vida do filhote, com o ovo, produção do ninho e obtenção de alimento, então não é nessa fase que irão abandoná-lo.”

O professor alerta que configura crime ambiental manter um animal silvestre em casa. Além da questão jurídica, o professor lembra que existem muitas especificidades em relação ao que cada espécie necessita e os cidadãos não estão capacitados para lidar com tais necessidades. “Cada espécie de pássaro se alimenta de uma forma distinta, e por isso, não é recomendado investir no cuidado em casa”, ele explica.

“Existem espécies, como a pomba-de-bando, que estão com excedente populacional, então nesse e em outros casos, a mortalidade de filhotes não é uma preocupação no ponto de vista de conservação da espécie”, analisa Everton. Ele afirma que deve-se ter um maior cuidado com espécies mais exóticas e ameaçadas de extinção, como o Macucu, a Curruíra e o Papa-moscas, mas que a baixa efetividade reprodutiva das espécies é algo relativamente comum na natureza.

Em convergência com Behr, o mestre em Medicina Veterinária pela UFSM, Helton Santos, aponta que não há problema em deixar que a natureza tome seu próprio rumo e permitir que outro animal predador se alimente do filhote, pois é assim que funciona a cadeia alimentar. Por outro lado, Everton indica que, caso haja ameaças perto do pássaro, é possível posicionar o filhote em um local onde os predadores não tenham fácil acesso, como em cima de uma árvore. Os especialistas concordam, porém, que a manipulação das aves por pessoas despreparadas não é segura e pode levar à contaminação por zoonoses, como a salmonela. Por isso, para manusear as aves, é recomendado utilizar luvas de proteção para evitar a transmissão de doenças.

De acordo com o professor, outro ponto de atenção é observar se o filhote está ferido. “Se ele não está muito debilitado e fraco é sinal de que recebeu comida há pouco tempo”, aponta Behr. Caso o animal esteja com ferimentos visíveis, é indicado acionar os órgãos ambientais locais.

Na cidade de Santa Maria, um órgão da UFSM que se responsabiliza pelo cuidado de aves em situação de risco é o Núcleo de Estudos e Pesquisas de Animais Silvestres (NEPAS), do Laboratório Central de Diagnóstico de Patologias Aviárias (LCDPA). Helton Santos é o coordenador do projeto e do Laboratório e conta que, principalmente durante o período do início da primavera, muitas pessoas recorrem ao NEPAS com filhotes de pássaros perdidos. Ele acrescenta que algumas das espécies mais recorrentes são a pomba, o João-de-barro, o bem-te-vi, a andorinha e a coruja.

De acordo com o especialista, o cuidado com os passarinhos é realizado em etapas:

1) Identificação da espécie: a identificação da espécie é extremamente importante para poder direcionar os cuidados específicos a cada animal. Isso ocorre pois há espécies que são insetívoras – que se alimentam de insetos – , como a andorinha, e outras que são granívoras – que se alimentam de grãos -, como o canário.

2) Realização dos primeiros atendimentos e exames clínicos: após a identificação, é essencial realizar um primeiro diagnóstico para entender quais são as necessidades da ave. Essa etapa consiste em aplicar exames com o intuito de verificar se o animal possui alguma enfermidade ou fraturas.

3) Reabilitação: A última etapa é focada em fornecer ao filhote o que ele necessita para que possa ser novamente encaminhado para a natureza. No Laboratório, ele recebe hidratação, nutrição e os cuidados necessários para que possa se reinserir no seu hábitat natural.

Apesar de todo o esforço, Santos relata que a mortalidade dos filhotes, mesmo com o suporte do órgão, é alta, já que é muito difícil reproduzir sua alimentação em cativeiro. O médico veterinária ainda acrescenta que outra causa de morte comum para esses animais é a hipotermia (queda da temperatura do corpo).

O NEPAS realiza os primeiros socorros e procedimentos das aves e de outros animais silvestres de forma voluntária. Helton conta que o laboratório recebe doações voluntárias em valor monetário ou medicamentos e alimentação para os pássaros, o que muitas vezes ocorre quando uma pessoa encaminha a ave para o serviço.

Além disso, o coordenador garante que os filhotes que chegam no NEPAS não são utilizados para nenhum teste laboratorial. Por outro lado, os relatórios são muito úteis para aprofundar o conhecimento em relação às espécies. “Muitas vezes os relatos de casos dos filhotes são utilizados para pesquisas, por exemplo quando uma dieta específica funciona para uma espécie”, explica Santos.

Outros órgãos oficiais que podem ser acionados na cidade de Santa Maria para o resgate de filhotes de pássaros em situação de risco são a Patrulha Ambiental e o Mantenedouro São Braz.

Texto: Isadora Pellegrini Marques, estudante de jornalismo
Arte: Lucas Zanella, estudante de desenho industrial

Edição: Luciane Treulieb, jornalista

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/uso-de-insetos-na-nutricao-animal Thu, 11 May 2023 16:13:14 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9716

Em 2019, Rodrigo Borille fez uma compra inusitada na internet: adquiriu algumas larvas de tenébrio, a fase jovem de uma espécie de besouro que possui alto valor proteico. Mal sabia ele que, a partir dali, aquelas larvinhas direcionariam suas pesquisas realizadas no Departamento de Zootecnia e Ciências Biológicas do campus de Palmeira das Missões, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Desde então, Rodrigo começou a estudar os insetos como alternativas inovadoras e sustentáveis para a nutrição animal. Anos antes, ele percebeu que a produção de diversas espécies para fins comerciais estava ganhando força na Europa. Em 2011, a Organização das Nações Unidas tinha lançado um programa para incentivar a criação de insetos: os pequenos animais poderiam ser uma resposta para a luta contra a fome no mundo, já que têm proteínas de alta qualidade na sua composição e são um ingrediente barato. Diante desse cenário, resolveu pesquisar esse ingrediente alternativo – mesmo que nunca tivesse criado um inseto antes: “a não ser aqueles que ficam embaixo dos nossos móveis, não é?”, brinca.

 “Eu decidi trazer algo novo para o Brasil. Poucas instituições pesquisam insetos no país e a minha meta é tornar Palmeira das Missões uma referência nesse quesito”, revela o pesquisador. A espécie escolhida foi o Tenebrio molitor, uma larva que se refere à fase jovem de um besouro. Com o objetivo traçado e a espécie estabelecida, Rodrigo comprou larvas do tenébrio na internet, montou um grupo de estudos sobre insetos alimentícios e deu início à pesquisa que busca gerar um produto de alta qualidade para ser introduzido na nutrição de animais. 

O tenébrio se alimenta essencialmente de trigo (e seus derivados), que é um ingrediente nobre de produção sazonal, ou seja, acontece apenas em determinadas épocas do ano. Então, no momento em que há menos oferta, o preço sobe. Por isso, a pesquisa liderada por Rodrigo procura sair da dependência exclusiva do farelo de trigo e introduzir ingredientes alternativos como resíduo de cervejaria (composto pela cevada), borra de café, sobra de frutas e bagaço de oliva – que são descartados após o uso. O objetivo é transformar esses componentes em uma proteína boa por meio da bioconversão feita pelo tenébrio – processo em que se utiliza matéria orgânica como fonte de energia. Assim, o estudo verifica o crescimento das larvas e a capacidade de incorporar essas substâncias na alimentação do tenébrio.

Larvas do tenébrio utilizadas nos testes da pesquisa

 

Rodrigo destaca que o foco da pesquisa é encontrar a alimentação ideal e mais barata possível para enriquecer o tenébrio com mais nutrientes. “O uso de ingredientes alternativos, como a borra do café, barateia o processo produtivo. E ao transformar a espécie em uma proteína de alto valor biológico, eu faço um serviço ambiental ao reciclar materiais que iriam para aterros sanitários ou virariam adubo na lavoura”, afirma. O professor explica que as larvas têm a habilidade de transformar resíduos de baixa qualidade em alimentos de alta qualidade, ricos em energia, proteína e gordura. A borra do café, por exemplo, enriquece a farinha do tenébrio com ácidos graxos poli-insaturados – ricos em ômega 3 e ômega 6, ácidos graxos importantes para a nutrição humana e animal. 

Até o momento, um dos resultados da pesquisa realizada no Laboratório de Nutrição Animal mostrou que a introdução de 10% de borra de café na alimentação do tenébrio resultou em um importante ganho nutricional à farinha feita a partir das larvas do tenébrio. “O bom de estudar o tenébrio é que ele se modela conforme a nutrição. Por isso, a gente tem um potencial muito forte de estudo. Podem-se encontrar no tenébrio os nutrientes necessários para a alimentação de várias espécies perto de nós, a partir da sua criação”, completa.

Os testes são realizados no Laboratório de Nutrição Animal, localizado no campus de Palmeira das Missões
Uma das etapas da pesquisa consiste no acasalamento dos besouros (machos e fêmeas) em que os ovos são depositados no fundo da bandeja

 

 

Produção em larga escala

Paralelamente a isso, o grupo desenvolve uma fórmula de produção de tenébrios em larga escala. Ou seja, estuda-se cada fase específica do ciclo de vida da espécie para tornar o processo mais eficiente, veloz e econômico. Para isso, foram desenvolvidos métodos de reprodução com um casal de besouros, observados o número de ovos gerados, formas de acelerar o processo de postura dos ovos e analisar qual é o melhor ambiente para que os ovos se transformem em larvas e cresçam até o momento da colheita. Esta se refere à fase da pesquisa em que as larvas são coletadas e transformadas em farinha.

Parte do tempo do grupo também é dedicado à produção de equipamentos como aquecedores, umidificadores e ventiladores, essenciais para o cultivo do tenébrio – que precisa de 65% a 70% de umidade relativa do ar, além de cerca de 27 graus de temperatura ambiente. “São nossas gambiarras produtivas”, comenta Rodrigo. O professor ainda revela que busca incentivar os alunos no desenvolvimento de startups, pois é uma área inovadora no Brasil e ainda pouco explorada no mercado. “Eu estou ensinando um método de produção que tem potencial, seja qual for o foco. Assim, os alunos podem ser beneficiados porque têm a oportunidade de montar negócios em cima disso”, completa.

Ciclo do vida do tenébrio

Testes em Ração de Peixe 

Próximo ao Laboratório de Nutrição Animal, onde atua Rodrigo, fica o Laboratório de Piscicultura – também localizado no campus de Palmeira das Missões. Nele, a pesquisa sobre o uso do tenébrio entra em nova fase: os testes em ração de peixe. O estudo é coordenado pelo docente do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios, Rafael Lazzari, e tem como objetivo usar o tenébrio como fonte alimentar para peixes a partir das rações. A iniciativa também é resultado da pesquisa da zootecnista Joziane Soares de Lima para o mestrado em Produção Animal que foi concluído em 2022.

Conforme o último levantamento divulgado pela Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR), o Brasil produziu, em 2021, aproximadamente 850 mil toneladas de peixes nativos e exóticos, o que representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Diante desse cenário, o estudo da UFSM busca oferecer alternativas para a produção de peixes com o uso do tenébrio na ração, reduzindo a utilização de ingredientes mais caros como o farelo de soja e mantendo o crescimento do peixe em condições adequadas. 

A espécie pesquisada foi o jundiá, que há anos é trabalhada na UFSM como uma espécie nativa prioritária e que apresenta grande potencial na região central do Rio Grande do Sul. “Nessas rações, costumamos usar fontes tradicionais como soja, milho e trigo. E o tenébrio é uma opção mais sustentável e que, ao mesmo tempo, apresenta uma boa composição nutricional”, destaca Rafael. 

A obtenção da farinha das larvas do tenébrio é a primeira fase realizada pela pesquisa. Nesta etapa, realiza-se a secagem das larvas e, em seguida, o processamento é realizado para obter a farinha – que ainda passa por uma técnica de desengorduramento até estar pronta para a fase de testes. Essa fase da pesquisa, com duração de 49 dias, consiste em adicionar a farinha em cinco rações diferentes. Uma é a ração controle com a fórmula tradicional feita de cereais. E o restante das rações contém a adição de 10%, 20%, 30% e 40% da farinha do tenébrio. “É como se fosse uma dieta. Na medida em que vamos aumentando a quantidade de farinha de tenébrio, o percentual dos ingredientes tradicionais da ração foi diminuindo”, explica o professor Rafael. 

Assim, foi possível comparar o crescimento dos peixes a partir de diferentes fórmulas em relação à ração controle. Com o uso de parâmetros de crescimento como peso final, comprimento total e ganho de peso, o estudo comprovou um caminho possível para inovação e sustentabilidade na nutrição animal: ao final dos testes, a farinha de tenébrio se mostrou um ingrediente de alta qualidade. A pesquisa revelou que, independentemente da porcentagem de farinha adicionada, os peixes crescem da mesma forma. “Em todas as rações que testamos, o crescimento foi exatamente igual. Na prática, significa o seguinte: o professor Rodrigo e eu provamos para a indústria que usar tenébrio em fórmulas de ração é uma boa alternativa, especialmente pela qualidade nutricional”, completa Rafael. Com o estudo aprovado, e que deu o título de mestra a Joziane, o objetivo é expandir a pesquisa, mas dessa vez trabalhando com a espécie de peixe tilápia. 

Ingrediente do futuro

Para os professores Rodrigo e Rafael, o ingrediente do futuro tem nome: Tenebrio molitor. Essa perspectiva se dá a partir de características como baixo custo de produção e  sustentabilidade. Isso porque os insetos apresentam vantagens nutricionais associadas a um menor impacto ambiental, o que introduz sustentabilidade à cadeia produtiva. Além disso, a produção do tenébrio faz pouco uso de água em seu processo e há menor emissão de gases de efeito estufa. “É como se fosse uma reciclagem daquilo que a gente não usa, de produtos que a gente não dá valor, que o tenébrio converte em alimentos de alta qualidade”, observa Rodrigo.

Segundo projeções elaboradas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), agência que trabalha no combate à fome, o mundo terá cerca de 9 bilhões de pessoas em 2050 e, para alimentá-las, a produção de alimentos precisará dobrar. Em consequência disso, o mesmo relatório aponta que alimentar as populações futuras vai exigir o desenvolvimento de fontes alternativas de proteína como algas, feijões, fungos e insetos.

Cuidados em relação à temperatura e ao controle da umidade também estão presentes na rotina dos pesquisadores

Na Europa, o uso de insetos já tem sido usado na alimentação humana. Em 2021, a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) aprovou a larva do besouro Tenebrio molitor como o primeiro inseto seguro para o consumo humano no continente. No Brasil, ainda não há legislação para o uso, mas, para o professor Rodrigo Borille, há chances de ser autorizado no futuro. “E, quando for possível o uso do tenébrio na alimentação humana, já vamos ter estudos como esse desenvolvido na UFSM, com produtos ricos em nutrientes para a saúde”, completa. 

Para que o uso do tenébrio e outros insetos possa ser visto como o ingrediente do futuro também no Brasil, Rodrigo afirma que o primeiro passo é a quebra de preconceitos. “Precisamos desconstruir a imagem que os inseticidas criaram de temos que “ser totalmente contra os insetos”. Todos eles têm um papel no planeta e alguns podem servir como alimentos”, afirma. 

Expediente:

Reportagem: Thais Immig, acadêmica de Jornalismo;

Design gráfico: Lucas Zanella, estagiário de Desenho Industrial

Fotografias: Isabel Malheiros/Assessoria de Comunicação UFSM-PM

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/agroflorestas Thu, 20 Apr 2023 14:17:44 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9697

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são modelos de produção de alimentos que têm origem na tradição dos povos originários. Segundo o instituto de pesquisa World Resources Institute (WRI Brasil), as agroflorestas visam à plantação e ao cultivo de árvores e de produtos agrícolas na mesma área. De acordo com o WRI, a implantação deste tipo de sistema tem ganhado força em alguns estados do país, como São Paulo e Paraná, por trazer benefícios tanto para a economia quanto para o meio ambiente.

Os modelos de agroflorestas permitem a plantação e o cultivo de árvores, como as seringueiras, em conjunto com produtos agrícolas como o café. Essa união dá a possibilidade do que foi plantado trabalhar em conjunto com o que já existia no local, sem a necessidade de retirar árvores. Por isso, o modelo traz benefícios ambientais, pois evita o desmatamento e a retirada de plantas dos espaços.

Agrofloresta no Jardim Botânico

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o professor de Ciências Biológicas e ex-diretor do Jardim Botânico Renato Záchia, juntamente com um grupo de alunos, realizou a inserção da agrofloresta no Jardim. O primeiro contato do professor com os sistemas agroflorestais ocorreu quando ele estudava as culturas dos povos indígenas: “Eu nem sabia que existia a palavra ‘agrofloresta’ na época. Minha relação com a temática começa a partir do contato com a cosmologia indígena, dos povos originários, de perceber a maneira como eles se vinculam com a natureza”, relata Záchia.

A ideia de uma agrofloresta na Universidade surgiu a partir de uma proposta dos estudantes, que queriam começar o cultivo de árvores na instituição. Záchia, então, propôs um novo modelo: “A agrofloresta surge da ideia de plantar árvores, mas trabalha dentro de uma compreensão didático-pedagógica. Ela não trata uma árvore separada. Se plantar uma árvore, eu tenho que trazer a família dela, que é o sistema em que ela vive”. 

A agrofloresta do Jardim Botânico valoriza, principalmente, a colaboração entre as pessoas e depende delas para que continue em funcionamento. É cuidada por alunos e, segundo Záchia,  é por causa deles que a área pode ser mantida. Alimentos como alface, mostarda e couve podem ser encontrados na agrofloresta e estão disponíveis para consumo tanto para quem cuida do espaço quanto para quem é visitante. 

Os SAFs não são apenas um modelo de agricultura, portanto, visar apenas o lucro não faz parte de quem estabelece e segue esse tipo de sistema. A ideia da construção de uma agrofloresta é reunir agricultura,  natureza,  questões sociais e entender que tudo isso faz parte de um único espaço. A Agrofloresta do Jardim Botânico funciona quando tem a colaboração das pessoas. Záchia comenta que ali também são trabalhadas questões sociais, já que depende das pessoas para existir, e, por isso, esse modelo é o conceito inverso de competição. 

Atualmente, poucas pessoas trabalham na Agrofloresta do Jardim Botânico. Como o sistema só funciona com a ajuda da comunidade municipal e acadêmica, as plantas correm o risco de ficar sem os cuidados adequados, caso os responsáveis não possam se dedicar às tarefas. A mandioca é um exemplo disso: como não havia ninguém que pudesse fazer a plantação na época correta ela acabou sendo deixada de lado. Apesar disso, esse sistema tem grande importância para a Universidade. “Ter uma agrofloresta dá a possibilidade de as pessoas enxergarem que, em um mesmo espaço, podem coexistir plantas não convencionais e a fauna, sem precisar matar nenhuma planta”, destaca Záchia. 

Agrofloresta no Residencial Dom Ivo Lorscheiter

Santa Maria também tem uma Agrofloresta no Residencial Dom Ivo Lorscheiter, localizado no bairro Diácono João Luiz Pozzobon. O presidente do Residencial, Luiz Antônio, também conhecido como Mestre Militar Capoeira, conta que a agrofloresta daquele local surgiu com o intuito de recuperar uma área que era usada como lixão pelos moradores. As pessoas deixavam garrafas, móveis, alimentos e até pneus. “O que antes era um lixão, hoje é um local em que são produzidos alimentos para as famílias da comunidade”, relata Luiz. 

Apesar de ter sido um processo lento, a comunidade do Residencial Dom Ivo Lorscheiter tem se envolvido para manter a agrofloresta em boas condições. Mesmo que algumas pessoas não tenham apoiado a criação de um SAF naquela área, hoje os moradores plantam, cuidam e desfrutam dos benefícios do sistema.

Luiz é mestre da associação da capoeira e aproveita sua liderança na comunidade para envolver os moradores e passar o modelo de agrofloresta adiante. Ele relata sua preocupação com o futuro, por isso aproveita de sua presidência na capoeira para influenciar os jovens e seus familiares, deixando novas lideranças para o futuro. “Eu envolvo as crianças, os adolescentes e os pais. Isso vai fazendo com que eles aceitem a ideia, assim, futuramente, novas lideranças vão manter a agrofloresta. Digamos que eu vá embora: quem vai cuidar da agrofloresta? A gente forma novas lideranças para seguir esse mesmo trabalho”, conta Luiz.

Meio Ambiente 

O professor Renato Záchia comenta que, além de proporcionar alimentos para as pessoas, a agrofloresta tem a possibilidade de cultivar a terra sem causar três grandes prejuízos: “a perda de água potável no planeta, a perda da biodiversidade e a perda do solo. Eles acontecem devido à maneira como as pessoas estão se relacionando com o meio ambiente”. 

O efeito do sistema agroflorestal não só auxilia o meio ambiente em grande escala como também nas mudanças dentro de casa. Luiz conta que, desde a implantação do sistema no Residencial Dom Ivo Lorscheiter, os moradores já mudaram alguns hábitos, como a separação do lixo: os resíduos orgânicos são separados e levados para a agrofloresta. 

Expediente:

Reportagem: Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo;
Design gráfico: Lucas Zanella, estagiário de Desenho Industrial
Edição de Produção: Samara Wobeto;
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

 

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/egressa-ufsm-vencedora-de-premio-internacional-de-quimica Thu, 06 Apr 2023 11:06:19 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9693

Entre as 12 mulheres premiadas por sua atuação na Química pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), a única representante da América Latina é brasileira e ex-aluna da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestre e doutora em Química analítica pela Instituição, Márcia Mesko recebeu o IUPAC 2023 distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering, uma premiação criada em 2011 com o objetivo dar visibilidade e reconhecimento ao trabalho de mulheres no meio científico. A solenidade de entrega da honraria será realizada em agosto, na Holanda. 

Márcia conta que foi durante a sua pós-graduação na UFSM que definiu linha de pesquisa que a levou a ser reconhecida internacionalmente

Na tabela periódica, Marcia representa o elemento Bromo

Criada há 104 anos, a IUPAC regula os padrões para a denominação dos compostos e elementos químicos. Um exemplo que todos têm contato nas aulas de Química é a tabela periódica, que foi padronizada pelo órgão. Para comemorar o centenário da entidade, em 2019, a IUPAC criou uma tabela periódica especial com o rosto de 108 jovens cientistas. Márcia também teve destaque nessa ação, e foi escolhida para representar o elemento Bromo, 35º elemento da tabela.

Antes disso, a docente já figurava como referência em sua área. Em 2012, a pesquisadora venceu o prêmio L’Oréal-Unesco- Academia Brasileira de Ciência para Mulheres na Ciência, além de outras distinções. Ela também foi a primeira latino-americana a receber o prêmio de Pesquisador Emergente concedido pela Real Sociedade de Química Britânica e pelo Jornal de Espectrometria Atômica Analítica, em 2018. Em 2019, ela apareceu na lista Celebrating Excellence in Research: 100 Women of Chemistry, também realizada pela Real Sociedade de Química. No âmbito acadêmico, ela já publicou mais de 120 artigos em revistas de renome nacional e internacional.

A docente também integra associações como a Sociedade Brasileira de Química, a Academia Brasileira de Ciências e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), da qual é coordenadora do Comitê Interdisciplinar. Sua trajetória na Química teve início aos treze anos em sua cidade natal, Pelotas, quando iniciou o curso técnico em Química. Mais tarde, se graduou em Química pela Universidade Federal de Pelotas (UFPeL), onde, agora, atua profissionalmente como docente.

Em entrevista à Revista Arco, Márcia conta sobre a sua carreira dedicada à pesquisa e o ensino da Química e a importância da UFSM em sua trajetória. Ela também fala a respeito das dificuldades que as mulheres enfrentam no meio acadêmico e os desafios de fazer ciência fora dos grandes centros.

Arco: Poderia explicar para os leitores o que é a IUPAC e a importância desse prêmio? 

Márcia Mesko: A IUPAC é uma organização não governamental internacional que, desde 1919, reúne pesquisadores em prol do desenvolvimento da Química mundial. Ela é bastante conhecida por ter padronizado a tabela periódica e normatizações de nomenclaturas das fórmulas Químicas. Então, todos que já passaram pelo ensino médio tiveram contato com o trabalho da IUPAC. 

Sobre a premiação, toda vez que a gente tem um trabalho reconhecido por uma instituição com a relevância da IUPAC, nos lembramos de toda a nossa história, de tudo que fizemos e o que ainda podemos fazer, além de mostrar que é possível produzir ciência de qualidade fora dos grandes centros, basta incentivar os pesquisadores, principalmente os que estão em início de carreira.

Quando eu vejo alguém da minha cidade, do meu estado, da minha universidade conquistando alguma coisa, parece que a gente conquista junto, então espero que a premiação possa motivar os futuros pesquisadores a não desistirem da ciência. Sabemos que já passamos por momentos muito difíceis, mas também sabemos da importância da ciência, por isso não podemos desanimar. Mas precisamos que os nossos governantes entendam o quão importante é a formação de profissionais qualificados em todas as áreas. Esse é o caminho  que leva ao desenvolvimento do país.

Arco: Qual é a importância dessa premiação para o reconhecimento do trabalho das mulheres na ciência e o incentivo para que essa participação feminina aumente? Como é a presença feminina na Química, chega perto da equidade?

Márcia Mesko: Segundo estudos de revistas internacionais, as mulheres correspondem a 33% dos cientistas em cargos de liderança. Mas, quando olhamos para a sala de aula, por vezes, as mulheres são maioria. O meu grupo de pesquisa é composto quase que totalmente por mulheres e não há vagas reservadas especialmente para elas. Mas quando vamos para congressos, percebemos que os espaços de discussão e de fala ainda são muito restritos para as mulheres. Através da luta pela equidade de gênero, as coisas têm melhorado, já é possível ver maior presença das mulheres em posições de destaque nesses eventos, mas não é o mais comum. 

As premiações internacionais ajudam a mostrar que no mundo todo há muitas pesquisadoras realizando ações relevantes. Além disso, elas trazem credibilidade, pois parece que as pessoas não acreditam na capacidade das mulheres em liderar projetos, eu mesma enfrentei resistência para seguir com a minha linha de pesquisa. Então às vezes tu não és reconhecida na tua própria instituição, mas um comitê internacional reconhece a tua competência, e são pessoas que a gente não conhece, então elas enxergam apenas o nosso trabalho.

Arco: Conte um pouco sobre a sua área de atuação e linha de pesquisa?

A minha área é a Química analítica e ela está muito presente no nosso dia a dia. Todos os produtos que nós utilizamos passam por um processo de análise Química antes de serem comercializados. O que eu faço é desenvolver métodos de análise para medicamentos, cosméticos e alimentos que sejam mais rápidos, precisos e amigáveis, tanto para o meio ambiente quanto para os pesquisadores, ao gerar menos resíduos químicos. Nós também desenvolvemos métodos para transformar as amostras em soluções a serem analisadas. Para determinar a presença de elementos tóxicos no batom, por exemplo, é preciso transformá-lo em uma solução líquida. 

Com o uso de equipamentos de microondas e ultrassom, que são novas tecnologias, a precisão e velocidade de análise aumentaram muito. Enquanto métodos antigos levam horas de preparo para determinar um elemento por vez, o equipamento de microondas faz a mesma análise em 30 minutos e consegue determinar 10, 15 elementos. Hoje nós recebemos solicitações de grupos de pesquisa da Europa para realizar análises em parceria porque eles não conseguem realizar o trabalho que nós fazemos aqui. 

Arco: Quando começou o seu interesse nesta temática?

Márcia Mesko: Foi durante a minha pós-graduação na UFSM que os meus horizontes começaram a se ampliar. Eu sabia que queria seguir na área de Química analítica, mas foi quando eu conheci o grupo do professor Érico Flores, que já era referência na área, e começamos a fazer análises de medicamentos e outros elementos que eu fui gostando cada vez mais e defini minha linha de pesquisa. Durante o doutorado, eu migrei da determinação de metais para determinação de halogênios [grupo de elementos que formam sais – flúor, cloro, bromo, iodo, astato e tenesso]. A minha tese de doutorado foi a primeira do grupo a trabalhar com halogênios e foi publicada em uma revista muito conceituada de Química Analítica e premiada na Áustria. Então eu passei a me especializar cada vez mais nesse grupo da tabela periódica.

A pós-graduação tem esse papel de ampliar os nossos horizontes, então me envolvi em todas as oportunidades que tive. Trabalhei com alimentos, medicamentos, petróleo, liga metálica para o setor industrial e, assim, entendia, cada vez mais, a importância da determinação de elementos, porque a presença de 0,001 % de contaminante pode impactar muito a qualidade dos produtos.

Arco: Como a UFSM contribuiu com a trajetória que te levou até essa premiação?

Márcia Mesko: É uma contribuição difícil de dimensionar porque a minha formação profissional foi totalmente lapidada pela UFSM. Foi ela que me proporcionou a oportunidade de participar de projetos junto à Petrobras e à Anvisa e isso me trouxe muitos aprendizados. A UFSM não só foi, como é importante até hoje para mim, já que tenho muitos projetos em conjunto com o grupo de pesquisa no qual eu atuava. Vários dos trabalhos que desenvolvo com meus alunos aqui, têm as análises realizadas na UFSM, porque o LAQIA e Cepetro são  um dos laboratórios mais bem equipados da América Latina na área, então temos uma troca muito grande.

Além disso, a UFSM é uma universidade muito acolhedora. Quando eu vim morar aqui, a única pessoa que eu conhecia em Santa Maria era a minha tia, que foi quem me motivou a fazer a seleção para o mestrado. Ela fazia propaganda da Universidade, mas também não conhecia ninguém (risos). Cheguei totalmente perdida e o grupo me acolheu muito bem, me entrosei em pouco tempo. Então ela teve esse papel de me receber muito bem e proporcionar as oportunidades que eu sonhava, não só no meu curso, mas também no aspecto cultural. Vivi a UFSM intensamente nos anos que estive aí e acho que ela sempre vai fazer parte de mim, assim como a UFPeL.

Arco: Atualmente, percebemos que as mulheres têm grande presença nos cursos de Química da UFSM. Gostaria de saber se era assim na tua época de estudante e se essa presença (ou ausência) feminina teve alguma influência durante a sua formação?

Márcia Mesko: Na minha época não era assim, havia muito mais homens do que mulheres, principalmente no doutorado. Nunca tivemos atritos por isso e mantenho convívio com os meus colegas até hoje, mas acho que a representatividade é muito importante porque ajuda a quebrar certos paradigmas, pois, quando há mais mulheres, nós nos sentimos mais confortáveis, apoiamos umas às outras, identificamos potenciais e saímos daquele lugar de fragilidade, sentimento de incapacidade, em que fomos criadas para estar e que nos faz naturalizar muitas dificuldades que enfrentamos para nos impor.

Esse panorama já mudou um pouco e tenho certeza que isso vai fazer diferença na carreira das novas cientistas, porque elas já naturalizam a presença de mulheres nesse espaço. Mas é preciso mudar ainda mais. Por mais que eu me sinta confortável na sala de aula, no laboratório, quando eu olho para quem ocupa as posições de prestígio no meio científico, me sinto minoria novamente.

Arco: Você foi a única pesquisadora latino-americana a ser premiada este ano e a terceira brasileira na história. Qual é a sensação de representar não só um país, mas uma região de tamanho continental que recebe pouca visibilidade?

Márcia Mesko: O primeiro sentimento é de distinção. As outras brasileiras que receberam o prêmio, as professoras Vanderlan Bolzani e Ivone Mascarenhas, são referências para mim, para as mulheres e também para os homens, por conta dos seus trabalhos. Fico feliz por ajudar a mostrar que a América Latina tem potencial, produz ciência de qualidade e mulheres que se destacam na carreira científica. O outro sentimento é o desejo de que mais pesquisadoras latinas sejam reconhecidas. Entre as doze nomeadas, há mais de uma europeia, mais de uma norte-americana, então vemos que ainda temos que conquistar espaço.

Eu venho de uma instituição [UFPel] que não fica dentro dos grandes centros de pesquisa do país, não fica em uma capital e onde a Química não é uma área tradicional. Isso mostra que não se trata de uma questão de capacidade ou disposição, mas sim de investimento na ciência, porque muitas outras pesquisadoras poderiam estar comigo ou no meu lugar. Imagino que elas, ao me verem nesse local, fiquem felizes porque se sentem representadas e capazes de estar lá também.

Arco: E você tem a UFSM como inspiração para tornar a Química cada vez mais reconhecida na sua universidade?

Márcia Mesko: Com certeza. Tenho a Química da UFSM como exemplo de excelência, competência e dedicação profissional. Uma das coisas que aprendi em Santa Maria foi que ninguém cresce por sorte, é preciso muita dedicação. Quando os alunos iam trabalhar nos finais de semana, os professores também estavam lá. Acompanhar hoje os grupos de pesquisa da UFSM alcançarem prestígio nacional e internacional reforça essa referência. Na UFPeL, nós temos muitos professores formados na UFSM e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e percebemos que a região necessita se desenvolver na área da Química. Meu sonho é que, com o tempo, a Química daqui atinja os mesmos patamares da UFSM.

 

Expediente
Entrevista: Bernardo Silva, acadêmico de jornalismo
Fotos: Arquivo Pessoal de Márcia Mesko
Arte: Daniel Michelon de Carli, design 
Edição: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/observacao-de-aves Wed, 15 Feb 2023 11:22:48 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9657

Qual é a primeira coisa que vem à cabeça quando você pensa no canto das aves? Talvez você tenha pensado em algo relacionado a relaxamento e bem-estar, como uma playlist com esses sons para dormir. E você não está errado! Um estudo recente liderado pelo King’s College London relacionou encontros diários com as aves com a melhora do humor de pessoas com depressão, bem como da população em geral. Os pesquisadores ainda sugerem que visitas a locais com abundância de aves poderiam ser prescritas por médicos com o objetivo de auxiliar no tratamento de problemas de saúde mental. 

E se fosse possível incluir as aves em sua rotina, você acha que ela seria menos corrida e estressante? Se você respondeu sim com a cabeça, eu te convido a conhecer um mundo fascinante que fica além da janela.

Sou Thuani Wagener, bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus de Palmeira das Missões, mestra em Ciências Ambientais pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e atualmente doutoranda do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade Animal da UFSM. Sou observadora de aves desde 2013 e já registrei mais de 360 espécies. Durante a graduação, outros colegas e eu fizemos o levantamento das aves do campus UFSM/PM, no qual registramos 109 espécies em um ano. Mais tarde, também atuei também como bolsista do projeto “Olha o passarinho!”, iniciativa que percorre escolas da região central do estado levando conhecimento sobre a biodiversidade de aves e como observá-las.

Mas afinal, o que significa ser uma observadora de pássaros?  

A observação de aves – do inglês birdwatching -, como o nome já diz, é a ação de percorrer um trajeto e registrar, por meio de fotografias e/ou listas, as espécies de pássaros vistas e/ou ouvidas. Essa prática está se tornando comum entre os brasileiros e surge como uma fuga da rotina urbana e como um contato mais estreito com a natureza. Embora você possa pensar em grandes câmeras e equipamentos pesados, eles não são necessários para que você seja um observador. Além disso, não é preciso ter conhecimento prévio nem sair dos grandes centros urbanos para registrar aves. O caminho de casa até a UFSM já pode ser muito promissor.

Plataformas e aplicativos

Professor Everton Behr mostrando no guia de aves do Rio Grande do Sul a espécie pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus)

A plataforma brasileira Wikiaves recebe diariamente fotos e sons que são depositados online por usuários de todo território nacional. Atualmente, o site tem 43.690 observadores cadastrados e 1.957 espécies registradas. Outros sites também funcionam como um grande álbum, em que são depositados fotos, sons e listas. Exemplos são o eBird, o iNaturalist e o também brasileiro BioFaces

A cidade de Santa Maria, por exemplo, até o momento tem mais de 330 espécies de aves registradas no Wikiaves. Isso significa que é muito provável que você aviste em torno de 20 espécies em seu trajeto rotineiro. Além disso, com o crescente uso de smartphones, tornou-se muito comum o registro ou a busca por informações sobre as espécies em tempo real, afinal esses dispositivos nos permitem boas fotos e até mesmo a gravação do som emitido pela ave. Mas ainda há quem prefira carregar o bom e velho livro como guia para identificação das espécies. 

No aplicativo Merlin, é possível obter sugestões de identificação dos pássaros observados a partir da inserção de detalhes sobre a localização, o tamanho e as cores da ave. Eu arrisco dizer que enquanto você lê esta matéria, alguma ave está muito próxima daí ou até mesmo vocalizando, talvez um sanhaço-cinzento (Thraupis sayaca), um cardeal (Paroaria coronata) ou até mesmo um pica-pau-do-campo (Colaptes campestris). Que tal ir até a janela e começar este exercício de olhar?

Um passeio para conhecer aves

Grupo observando a espécie bico-chato-de-orelha-preta (Tolmomyias sulphurescens) em Silveira Martins

Com o intuito de apresentar a avifauna local, promover diálogos sobre a conservação de espécies e divulgar os registros relevantes realizados na região, no dia 14 de janeiro deste ano aconteceu o 5º Aves de Santa Maria, promovido pelo projeto “Olha o passarinho!”. Como atividade complementar, foi feita uma saída de campo aberta ao público no dia 21 deste mesmo mês.

O trajeto saiu da UFSM em direção às cidades de Silveira Martins e Vale Vêneto. Eu participei do passeio como monitora, e foram observadas mais de 80 espécies de aves. Ao final da atividade, alguns participantes compartilharam relatos sobre a experiência, que você vai ler a seguir:

“Adorei a experiência, é incrível. Me surpreendi com tudo o que vi e aprendi. Foi minha primeira observação, nem sabia usar o binóculo. Não imaginava que tínhamos tantas espécies quanto as que vimos. Umas, vistas com bastante frequência e outras, mais raras e coloridas, que passam despercebidas a olho nu. Meu olhar sobre os pássaros nunca mais será o mesmo” – Adriane Filipetto, Técnica administrativa em educação na UFSM.

“A experiência foi incrível e foi além das minhas expectativas. Voltei rico de conhecimento que os orientadores e professores me deram. Tive o privilégio de ver as aves com outros olhos, me encontrei envolvido por ciência, amor e genialidade por parte dos professores. É difícil dizer qual foi o ponto mais alto do dia, já que todo percurso foi único e com suas particularidades e peculiaridades. Mas o que mais me chamou atenção foi o companheirismo e o compartilhamento de conhecimento de forma humilde” – Luis Gustavo dos Santos, estudante de  Medicina Veterinária.

“Foi mais do que esperava. Aprendi muito. Conheci  muitos bichos e a troca entre os que são ornitólogos e os iniciantes foi o ponto alto. Todos dispostos a te ajudar a localizar o bicho, te explicar brevemente como são. ” – Marta Pires da Rocha, Servidora Pública aposentada. 

“Comecei a conhecer e a admirar o universo das aves a partir de um curso de observação de aves que participei no último ano da faculdade de Ciências Biológicas. A partir desse momento, me tornei ornitóloga e as aves foram meu tema de estudo no mestrado e no doutorado. Considero a prática de observar aves uma experiência transformadora. Digo transformadora porque ela abre caminhos para você se encantar e perceber toda a grandeza dessa natureza da qual somos uma pequena parte” – Marilise Krügel, professora do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSM.

Participantes da saída de campo em momento de observação de aves aquáticas

Além de passeios como esse, o projeto “Olha o passarinho!” atua em escolas públicas e privadas da região, abrangendo principalmente alunos do ensino fundamental. Nos colégios, a visita é dividida em dois momentos. Primeiramente, ocorre uma breve apresentação, explicando a importância das aves para o meio ambiente, seu papel na dispersão de sementes, polinização e controle biológico e como isso contribui para o ensino de ciências. Também são abordadas as ameaças para as aves, como o desmatamento, a caça e a poluição. Após isso, é feita a preparação para a prática, na qual os alunos são orientados a utilizar os binóculos: o manuseio correto, a utilização do foco e cuidados necessários.  Por fim, é chegado o grande momento, a observação das aves. Depois, ao retornar para a sala de aula, os alunos recebem um conjunto de cartinhas com as aves mais comuns da região contendo informações biológicas. Segundo a bolsista do projeto, Estefânia Gorski, as crianças gostam muito da iniciativa, e se empolgam com o contato próximo com a natureza.

Para Maria Eduarda Cesar Salvador, estudante de Zootecnia, a observação de aves proporciona ver os caminhos percorridos no cotidiano de outra forma. Afinal, observar a natureza ao nosso redor é o primeiro passo para conhecê-la, entendê-la e decifrá-la. Tenho certeza que, após finalizar essa leitura, você irá perceber no seu cotidiano alguma espécie de ave que nunca havia reparado. 

Se você ficou interessado e gostaria de participar de uma saída de observação de aves, deixamos aqui algumas dicas de perfis para acompanhar e se inspirar.

1- Projeto “Olha o passarinho!” – @projetoolhaopassarinho
2- Aves do Sul – @avesdosul
3- Projeto bicharada gaúcha – @bicharadagaucha
4- Projeto sentinela do brejo – @sentineladobrejo
5- The Birders – @thebirders

Expediente:
Texto e fotos: Thuani Wagener, doutoranda em Biodiversidade Animal da UFSM;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/estiagem Mon, 06 Feb 2023 17:08:56 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9638

A falta de chuva e as altas temperaturas registradas nos últimos meses já levaram 235 municípios do Rio Grande do Sul a decretarem situação de emergência junto à Defesa Civil Estadual. A estiagem tem causado prejuízos para a agricultura, pecuária e deixado famílias rurais sem acesso a água. Segundo dados da Emater, a região de Santa Maria é a que enfrenta as maiores dificuldades nas lavouras, seguida pelas áreas de Ijuí, Santa Rosa e Frederico Westphalen.

Conforme Murilo Machado Lopes, meteorologista na UFSM e integrante do Grupo de Meteorologia, o principal fator responsável por esse problema são os índices de chuva que se mantiveram abaixo do esperado durante todo o último trimestre. “Quando a chuva ocorre é de forma muito irregular, apenas alguns locais tiveram alguma precipitação e outros não tiveram nada. Isso leva à condição de déficit hídrico”, afirma.

Murilo também explica que a estiagem vivenciada nos últimos três anos foi intensificada pelo La Niña. O fenômeno natural provoca um resfriamento das águas do Oceano Pacífico causando mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperaturas. O evento está diretamente relacionado com uma mudança nas condições dos ventos que sopram com mais intensidade e movimentam a superfície da água. Em períodos de La Niña, costuma ser mais chuvoso na região Nordeste e mais seco no Sul do Brasil.

Contribuição da Universidade

Na UFSM, o Grupo de Meteorologia vinculado ao Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE) tem divulgado um boletim climático mensal com informações detalhadas mês a mês sobre precipitação, temperatura e ocorrência de fenômenos climáticos no estado. O trabalho é resultado de um esforço conjunto do Laboratório de Hidrometeorologia (LHMET), do Grupo de Modelagem Atmosférica (GruMA) e do Grupo de Pesquisas em Clima (GPC). O professor e coordenador do curso de Meteorologia, Jônatan Dupont Tatsch, explica que o grupo surgiu em setembro de 2022 com dois objetivos: aproximar estudantes, pós-graduandos e Técnicos Administrativos em Educação e gerar informações para a sociedade a partir de conhecimentos na área. A previsão climática é realizada  em uma reunião mensal e sempre traz informações sobre o trimestre seguinte. A previsão se dá por consenso, isto é, o resultado surge de uma análise compartilhada por vários profissionais especializados na área. 

O primeiro passo é reunir dados de previsões climáticas confiáveis disponíveis para o sul do Brasil, tanto de centros mundiais como regionais – cerca de 15 centros diferentes. A partir disso, cria-se um panorama geral sobre o cenário climático futuro. Os integrantes também analisam a situação atual e o que ocorreu nos últimos meses. “Como estão as condições atuais do solo, da atmosfera, umidade, temperatura e precipitação. Então, juntando todas essas informações, a gente coloca para discussão e gera uma previsão por consenso do grupo”, explica Jônatan.

De acordo com o docente, essa é uma técnica utilizada por grande parte dos centros de meteorologia. Assim, o diferencial do trabalho na UFSM está no olhar local que os profissionais agregam à previsão. O objetivo é fornecer informações mais precisas sobre o contexto regional e, para isso, é preciso adaptar os modelos meteorológicos que servem de referência para os profissionais.

Modelos meteorológicos

Para prever o tempo, são utilizados modelos meteorológicos que são conjuntos de equações que descrevem o comportamento da atmosfera no passado, presente e futuro. Eles são criados e lidos a partir de algoritmos matemáticos. Atualmente, existem diversos modelos desenvolvidos por agências e organizações que se dedicam ao estudo da meteorologia e que se tornam referências globais para os meteorologistas gerarem suas previsões. Entre eles está o Sistema de previsão global da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) e o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF).

Adaptação

Os modelos globais são simplificados, porque buscam simular o clima de forma ampla para todo o mundo. Por isso, para se ter um modelo que represente melhor as condições locais, é preciso modificar as equações, ou seja, aperfeiçoá-lo. Com esse objetivo, novas informações são inseridas dentro dos modelos por meio de códigos computacionais. 

Alguns dados que podem ser inseridos para melhorar a capacidade de previsão local são utilizar um mapa que caracteriza o solo do Rio Grande do Sul, em vez de um mapa de solo global, ou então inserir a vegetação do Bioma Pampa, por exemplo. O professor ressalta que informações como essas são produzidas na própria UFSM, por meio de pesquisas científicas de campo.

Resultados

Para fevereiro, o boletim climático indica tempo similar ao de janeiro, com chuvas abaixo da média e de fraca intensidade. Conforme o meteorologista Murilo, o estado também continuará enfrentando bastante calor com temperaturas acima dos 30°C. No que diz respeito ao La Niña, há um enfraquecimento do fenômeno, porém a chuva ainda deve seguir irregular, fazendo com que as consequências da estiagem ainda sejam sentidas por um longo período.

Informações sobre o tempo e o clima são importantes em diversos setores da sociedade, como a agricultura e o meio ambiente. Diante da problemática da estiagem vivenciada no Rio Grande do Sul, as previsões do Grupo de Meteorologia da UFSM contribuem para a tomada de decisões públicas especialmente na região central. O professor Jônatan explica que, ao ter acesso a dados que mostrem a quantidade de chuva para os próximos meses, as autoridades passam a criar ações como forma de mitigar os efeitos da seca. “As informações são usadas para toda a logística da distribuição de água, construção de reservatórios e cisternas para hidratação animal e até dos próprios agricultores que estão passando por essa situação crítica”, afirma. 

O grupo também participa de espaços como o Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado do Rio Grande do Sul (Copaaergs), que reúne entidades públicas estaduais e federais ligadas à agricultura ou ao clima para disponibilizar previsões oficiais a cada estação.

Expediente:
Reportagem: Caroline Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;
Foto: Elizabeth Lie, disponível em Unsplash
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/empoderamento-feminino-no-campo Fri, 11 Nov 2022 14:28:27 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9535

No campo, na lida com o gado, na gestão técnica ou na supervisão de lavouras, as mulheres quebraram o tabu no universo agrícola. Esse ambiente, que antes era dominado por homens, agora também tem mulheres no comando. 

Os resultados gerados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no final de 2017, das 18 milhões de pessoas ligadas ao agronegócio no Brasil, havia cerca de 11,9 milhões (65,8%) de homens e apenas 6,2 milhões (34,2%) de mulheres. Um número pequeno, mas que representa um avanço de 13% em comparação ao levantamento anterior, feito no início do século 21. 

Apesar dos desafios que persistem, as estatísticas mostram que a presença feminina cresce na agricultura brasileira e mundial. Ao analisar a participação feminina, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) constatou que, atualmente, cerca de 60 milhões de mulheres da América Latina trabalham no campo e cumprem papel central no abastecimento de insumos. A FAO considera que pelo menos 60% a 80% dos alimentos são produzidos pelas mãos de mulheres.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida em tons de rosa e roxo com duas mulheres no centro e em primeiro plano. A da esquerda da imagem tem cabelos cacheados e escuros, pele escura, olhos pretos; veste camiseta de manga comprida em tom de salmão e segura, nas mãos, um controle remoto preto com uma luz azul acesa na extremidade. A mulher do lado direito da imagem tem cabelos ondulados, compridos e escuros, pele clara, olhos escuros; veste camiseta listrada em tons de roxo e segura, nas mãos, um tablet que emite uma luz azulada. Ela está com a cabeça abaixada. Ao fundo, plantação em duas montanhas que se encontram no centro da imagem. No céu, um drone roxo que emite uma luz azulada. O céu é rosa bebê.

(R)evolução

O trabalho no campo é, normalmente, influenciado por questões familiares. Pais agricultores tendem a incentivar os filhos a prosseguir com o trabalho. É o caso de Daiane Ross, que cresceu no meio rural e cursou a faculdade de Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com o objetivo de se qualificar para  seguir vivendo da agricultura. Daiane comenta que, mesmo com receio, adaptou-se ao meio e buscou espaço na agricultura digital. Hoje ela presta suporte a produtores rurais que estão implementando tecnologias no campo. É pelo trabalho dela que muitos homens e mulheres aprendem a fazer a gestão da propriedade rural, aumentar a produtividade das culturas e otimizar o tempo. 

 

Daiane vê o futuro no agro como promissor. Apesar dos preconceitos ainda enfrentados, ela acredita que é possível conquistar um espaço igualitário no agronegócio. O crescente número de estudantes mulheres em cursos de ciências rurais representa, para ela, um avanço. 

Jéssica Boelter é outro exemplo de quem buscou espaço no agro. Também formada em Agronomia pela UFSM, ela decidiu seguir as novas tendências do mundo agro através do geoprocessamento – uma análise de dados e informações geográficas, por meio de cálculos e softwares específicos. Hoje, ela é analista digital. Responsável pelas ferramentas digitais da empresa que trabalha, Jéssica oferece suporte técnico no campo para milhares de outras mulheres que, assim como ela, sonham com o reconhecimento.

Ellas no Comando

Para incentivar a valorização do trabalho da mulher no ambiente agrícola, a UFSM realizou, em agosto de 2022, o evento Ellas no Comando. A atividade  reuniu acadêmicas dos cursos das Ciências Rurais e também outras mulheres para discutir a participação feminina na agricultura de precisão. O evento teve duração de dois finais de semana e contou com palestras e oficinas que mostraram exemplos de mulheres que hoje são protagonistas na área. Juntas, elas conversaram sobre drones na agricultura, maquinários, automação agrícola e plataformas digitais. 

 

Segundo a comissão da Crop Júnior – empresa vinculada ao curso de Agronomia da UFSM e organizadora do evento, o Ellas no Comando surgiu com a ideia de incentivar mulheres a serem protagonistas das soluções sustentáveis do agronegócio. Para a empresa, há um aumento significativo no número de graduandas interessadas em pautas que envolvem tecnologias. A ação foi pensada como forma de incentivo ao mercado, que tende a exigir o conhecimento sobre as principais tendências.


Jéssica e Daiane participaram do Ellas no Comando como palestrantes. Para elas, as atividades foram importantes para promover trocas de experiências. “Discussões como essa realmente trazem um sentido diferente para a agricultura. Trazer essa visão para as alunas foi bom para acalmar as dúvidas e a preocupação de como se inserir no mercado”, afirma Jéssica.

Representatividade e inspiração

Um passo importante para entender o papel da mulher na transformação da agropecuária no Brasil é perceber que, ao incluir a força feminina nos trabalhos do campo, abrem-se espaços para novas formas de pensar e agir. “A nossa participação no campo estimula mais meninas a seguirem o mesmo caminho, a repensarem e verem esperanças no agro.”, afirma Daiane.

 

A mulher sofreu e ainda sofre discriminação nas várias áreas em que se insere na sociedade. Relatos de abuso psicológico, moral e sexual ainda são comuns nos ambientes de trabalho. Para Jéssica e Daiane, novas políticas públicas podem ser importantes para o fomento ao empreendedorismo feminino e para facilitar o acesso à tecnologia no campo.

Donas do Agro

Outra iniciativa realizada por e para elas é o evento Donas do Agro. Em sua 5ª edição, realizada em 19 de outubro, o evento reuniu cerca de 70 pessoas. Sete mulheres fizeram parte da banca de palestrantes. O Donas do Agro é realizado anualmente e promovido pelo grupo Encorte UFSM. Durante a programação, foram discutidas práticas de sucesso no agronegócio e a importância da participação feminina no universo agro.

Expediente:
Reportagem: Tayline Alves Manganelli, acadêmica de Jornalismo e voluntária;
Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;
Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.
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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/girine-se-site-divulga-conhecimento-cientifico-sobre-os-girinos-do-pampa Thu, 03 Nov 2022 14:49:18 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9526

Esta história começou na infância de Tiago Gomes dos Santos, que hoje é professor na Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e, na época, brincava de ser cientista ao examinar lesmas, minhocas e baratas. Não demorou muito para que o assunto ficasse sério. Ingressou no curso de Ciências Biológicas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e começou a trabalhar com anfíbios anuros, que têm como característica a ausência de caudas, assim como sapos, rãs e pererecas. No mestrado, optou por estudar os girinos, que continuaram na história acadêmica de Tiago: “De forma muito natural, foram inseridos em projetos de meus alunos de graduação e pós-graduação nos mais variados contextos, como descrição da morfologia, ecologia térmica, toxicologia e ecologia de comunidades”, destaca.

 

A partir desse histórico, surge o site Girinos do Pampa. Um projeto pessoal criado para diminuir a escassez de informações sobre as diferentes espécies de girinos, além de resumir e organizar o trabalho de inúmeros pesquisadores. Como o nome sugere, o site reúne conhecimento científico sobre dois elementos: os girinos e o pampa. Os primeiros são a fase larval dos anfíbios anuros, organismos presentes em inúmeras investigações científicas, como as taxonômicas, evolutivas, ecológicas, ou toxicológicas. Segundo Tiago, a escolha por destacá-los se dá pela falta de informações que ajudem na correta separação das espécies de uma determinada região. “O Pampa é o espaço geográfico em que vivo e tenho concentrado grande parte da minha pesquisa científica nos últimos anos e que, infelizmente, tem sido negligenciado de diversas maneiras, tanto pela falta de estudos quanto pelo baixo número de Unidades de Conservação ou pela falta de valorização pela população”, completa.

 

Descrição da imagem: Colagem horizontal e colorida de nove fotos de girinos em diferentes fases. Elas formam um xadrez com o fundo de cada imagem, que se intercala entre preto e branco.

Lançado durante a V Semana Salvem os Sapos, o site Girinos do Pampa tem como objetivo diminuir tal escassez, e traz não apenas informações sobre a identificação e classificação dos girinos, mas também dados sobre o bioma, no que diz respeito à origem, ao clima, à vegetação e às ameaças vigentes, como a agricultura extensiva e espécies exóticas invasoras.

Espaço em que arte e ciência se encontram

A iniciativa reúne a história de vida das espécies, notícias de divulgação científica e arte. A atividade artística acompanha Tiago desde a infância; assim, o site é usado também para compartilhar seus desenhos e pinturas. Na graduação, ele percebeu a conexão entre ilustrações e ciência. Para o professor, caracterizar os girinos por meio do desenho pode mostrar um detalhe que não ganha o destaque adequado em uma fotografia, ou trazer uma informação pouco disponível na literatura, sobre padrões de cores ou manchas observados em girinos vivos. “Fico fascinado com esse mundinho que nos passa despercebido, e encontrei assim uma forma de compartilhar com as pessoas o que vejo na lupa”, revela.

 

Além disso, o referencial teórico disponível no site é composto por artigos científicos, livros e plataformas digitais, com base em trabalhos anteriores produzidos por diversos pesquisadores. A iniciativa, além de contribuir com a divulgação científica e com o andamento de estudos na graduação e pós-graduação, busca atrair diferentes públicos que tenham curiosidade pela temática. “Entendo que esse é um canal promissor que pode facilitar a compreensão do assunto. Tenho recebido muitos retornos positivos e isso é bastante gratificante”, conta Tiago.

 

A plataforma está em constante construção e o foco, no momento, é a organização e a inserção de outras famílias de anfíbios, como Bufonidae e Leptodactylidae, ainda não disponíveis no site. A partir da adição de outras espécies, o objetivo é elaborar uma “chave de identificação de espécies”, ferramenta de comparação para auxiliar na correta identificação delas. O site tem apoio da ilustradora digital Bruna Borges, da Arila Studio, e do desenvolvedor web João Victor, da Urso Tech. O resultado dessa parceria e da iniciativa do menino que brincava de ser cientista é a difusão e a organização do conhecimento de forma acessível para diferentes públicos.

Fases de Desenvolvimento dos Anfíbios Anuros

  1. Embrião

Fase inicial, que inicia com a fertilização, inclui o desenvolvimento dos primeiros tecidos e órgãos, e finda com o aparecimento do que serão os órgãos respiratórios (brânquias).

  1. Filhote

Fase curta em que ocorre o aumento da cauda e o desenvolvimento de estruturas para a respiração.

  1. Girino

Fase em que os animais apresentam grande movimentação e alimentação. Nesse período, surgem as pernas (já externas ao corpo) e braços (visíveis apenas por transparência do corpo).

  1. Metamorfo

Fase final do desenvolvimento larval. Nesse período os braços rompem a pele do corpo, a boca se desenvolve e a cauda degenera (é absorvida). 

 

Representação das fases comuns do desenvolvimento larval em anuros no Pampa: A) embrião (Elachistocleis bicolor), B) filhote (Limnomedusa macroglossa), C) girino (Dendropsophus minutus), e D) imago ou metamorfo (Boana pulchella).

Expediente

 

Reportagem: Thais Immig, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

 

Design gráfico: Cristielle Luise e Luiz Figueiró, acadêmicos de Desenho Industrial e bolsistas;

 

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária; e Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista;

 

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;


Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/11-projetos-de-cooperacao-do-programa-institucional-de-internacionalizacao-da-ufsm Thu, 27 Oct 2022 12:21:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9522

Em 2018, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresentou seu Plano Institucional de Internacionalização à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e foi uma das 36 instituições de pesquisa aprovadas do país no Edital Nº 41/2017 referente ao Capes-PrInt. Para atender aos pré-requisitos do edital, a Universidade precisou definir temas estratégicos a serem apoiados e mostrar, por meio de políticas e ações inovadoras, como iria ganhar maior protagonismo internacional nos próximos anos. 

 

De acordo com o Coordenador de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPGP), Luiz Felipe Valandro, o projeto institucional da UFSM foi estruturado ao redor de linhas temáticas, que eram os focos potenciais para uma proposta sólida e competitiva. “Esse processo decorreu de discussões amplas da comunidade de pós-graduação da UFSM, a fim de tornar o processo mais inclusivo e com maior capilaridade possível”, afirma o docente.

Descrição da imagem: colagem horizontal e colorida com quatro círculos. No círculo superior esquerdo, na cor azul, desenho do planeta Terra e colagem da palavra 'sustentabilidade'. Ao lado, o círculo superior direito, na cor rosa, tem o desenho de uma galinha, uma planta e uma cabeça de pessoa, e a palavra 'saúde'. O círculo inferior esquerdo é laranja, tem desenho de quatro turbinas de energia eólica e as palavras "Tecnologias limpas". Ao lado, o círculo inferior direito é amarelo mostarda, tem a colagem de uma rua com casas e construções antigas com filtro preto e branco, e a palavra 'Memória'. O fundo é amarelo em textura quadriculada.

Diante disso, o comitê gestor do PrInt/UFSM definiu quatro temas estratégicos, nos quais 26 programas de pós-graduação foram agrupados em atividades multidisciplinares. As linhas temáticas (humanidades, tecnologia, inovação, agricultura e sustentabilidade) são organizadas em 11 subprojetos de cooperação internacional. Confira a seguir:

Tema Estratégico |  Materiais do Amanhã e Tecnologias Limpas — busca a resolução de problemáticas baseadas nos objetivos de desenvolvimento do milênio (ODM).

  1. Materiais Inteligentes

São aqueles manipulados para responder a estímulos externos e modificar suas propriedades, e apresentam diferentes comportamentos em cada cenário que são utilizados. Por terem ampla aplicação em diferentes áreas e segmentos da sociedade, os novos materiais são essenciais para o desenvolvimento da humanidade e das tecnologias do futuro. O subprojeto Materiais Inteligentes tem como enfoque a consolidação do Núcleo de Desenvolvimento de Materiais Avançados (NUDEMA) na UFSM e busca desenvolver materiais magnéticos, nanoestruturas ferromagnéticas, novas cerâmicas com aplicação em odontologia, nanopartículas poliméricas com aplicações em nanomedicina, entre outros insumos com potencial na geração de produtos. 

 

  1. Nanomateriais

Aplicados em áreas como medicina, eletrônica, ciências e engenharia, os Nanomateriais são diferentes materiais que contém partículas com comprimento entre 1 a 100 nanômetros (escala microscópica que equivale a um bilionésimo de metro). O projeto procura responder questões da área da Química de Sistemas Supramoleculares, que estuda conjuntos e agregados de moléculas para além da molécula individual, tais como: Quais são as etapas e processos que levam da molécula individual ao material? Como e porque a matéria se torna complexa? Ou, qual o caminho percorrido pela molécula até chegar a entidades da mais alta complexidade? Com foco nestas questões, o projeto realiza estudos que visam a compreensão de dados geométricos, topológicos e energéticos das interações que mantém as moléculas agregadas. 

 

  1. Tecnologias Limpas

O projeto Tecnologias Limpas (também conhecidas como tecnologias “verdes” ou “sustentáveis”) tem como enfoque o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para o aprimoramento de processos, produtos, serviços e procedimentos organizacionais com o objetivo de redução ou eliminação do impacto ambiental. Nesse sentido, busca-se soluções técnicas e programas que promovam a melhoria do desempenho ambiental das instituições com a adoção de tecnologias limpas. O projeto visa atuar em linhas com enfoque na redução de operações unitárias, consumo de água, energia e geração de efluentes; emprego de tecnologias alternativas como ultrassom, micro-ondas e ultravioleta; e garantia da confiabilidade dos métodos de análise para o controle de qualidade de produtos e processos.

Tema Estratégico | Saúde Única — visa a união entre a saúde animal e a saúde humana na busca por novas soluções.

4. Estratégias Farmacológicas e Nutricionais para a Promoção da Saúde

Este projeto tem enfoque em duas linhas temáticas, uma relacionada à promoção da saúde, que aborda as doenças crônicas de elevada prevalência na população, e outra relacionada à segurança toxicológica. A partir de uma abordagem transdisciplinar, o projeto busca compreender os mecanismos envolvidos nas patologias, bem como a descoberta de novos fármacos e formulações farmacêuticas. Além disso, inclui também pesquisas de aspectos relacionados à alimentação, bem estar e qualidade de vida, que são apontados como fatores determinantes na redução do risco de doenças e no sucesso de tratamentos. Os pesquisadores envolvidos atuam na área de compostos bioativos aplicados como estratégia nutricional na redução do risco de doenças crônicas que afetam a população. 

5. Sanidade e Bem-estar Animal

Esse projeto reflete o conceito de saúde única, que caracteriza a relação indissociável existente entre a saúde animal, humana e ambiental. Por meio de duas linhas de pesquisa principais (sanidade e biotecnologia aplicada à reprodução e ao bem estar animal), o projeto foca na construção e teste de vetores vacinais, uma vez que vacinas eficazes e seguras para doenças de interesse sanitário têm impacto na sanidade animal e também na saúde humana. Além disso, realiza estudos reprodutivos em animais, como a edição genômica, em que se altera o DNA de organismos que incluem atributos produtivos, sanitários, ambientais e de bem-estar animal. 

Tema Estratégico | Sociedade Informacional: Memória e Tecnologias: estudar a sociedade contemporânea, com foco na dimensão dinâmica da identidade das sociedades informacionais.

6. Informação e Tecnologias

O projeto Informação e Tecnologias parte do pressuposto de que a sociedade informacional precisa pensar os seus meios de produção, circulação e consumo de informação, com o objetivo de ter uma sociedade mais justa. Para melhorar as relações entre o campo e a cidade, uma das preocupações do projeto consiste em examinar criticamente os meios de informação de sistemas agroalimentares (soma de operações de disponibilização de insumos, de produção nas unidades agrícolas, de armazenamento e distribuição de alimentos). Ainda busca refletir sobre as tecnologias de reprodução da imagem e codependência entre arte e tecnologias de informação. 

 

7. Memória e Tecnologias

A memória (pessoal, cultural, social, laboral e ecológica) é um conceito que se manifesta sob diferentes formas: sob o aspecto visível das paisagens urbanas e rurais; na memória de agricultores; e sob a forma de Centro de Documentação e Memória e do tratamento de arquivos físicos e digitais que os compõem. O projeto pesquisa questões relativas à memória no âmbito da Sociedade Informacional e das diferentes tecnologias empregadas para sua coleta, armazenamento, recuperação e difusão. Uma preocupação central é o exame de tecnologias que promovam o desenvolvimento sustentável, além de visar questões como a natureza e o papel da memória na aquisição e na transmissão do conhecimento.

Tema Estratégico | Sustentabilidade e Atitudes Inteligentes: desenvolver estratégias e tecnologias de conservação do meio ambiente e dos ecossistemas.

8. Agricultura – Inovadora, intensiva e sustentável

Com o objetivo principal de intensificar e qualificar a produção de alimentos mais saudáveis, com redução do impacto ambiental, este projeto pesquisa o desenvolvimento de soluções inovadoras a partir da biodiversidade, biologia molecular, genômica, bioinformática, modelagem e microbiologia. Para isso, busca a substituição de tecnologias caras e poluidoras por biotecnologias baseadas na expressão diferencial de genes, na proteção de plantas por bioprodutos e microrganismos, no uso da modelagem do crescimento vegetal, na conservação pós-colheita, na redução de perdas de alimentos e na previsão de cenários climáticos e seu impacto na biologia de microrganismos, plantas e animais. 

 

9. Ecossistemas Sustentáveis

Ecossistemas são conjuntos formados pelas interações entre componentes bióticos, como organismos vivos, e componentes abióticos, como o ar, a água, o solo e minerais. Eles são ciclos de vida naturalmente sustentáveis, uma vez que reciclam todos os seus elementos, e o que poderia ser descartado volta ao meio ambiente como parte do ciclo vital. A proposta do projeto “Ecossistemas Sustentáveis” está organizada em três linhas de pesquisa: a primeira visa o uso racional de ecossistemas e sua inserção no processo produtivo e de proteção ambiental; a segunda pesquisa processos biológicos, funções e valores dos ecossistemas pastoris; e a última se concentra na ecologia evolutiva e conservação da biota brasileira. 

 

10. Recursos Energéticos

Este projeto visa a implantação de um laboratório multiusuário de referência internacional em recursos energéticos, a formação de recursos humanos qualificados e a disseminação do conhecimento sobre recursos energéticos na sociedade. E ainda, promove estudos que envolvem os aspectos de tempo e clima relacionados a recursos energéticos e ambientais, principalmente quanto à geração de energia elétrica por fontes renováveis.

 

11. Solos – Produção e Preservação do Ambiente

O solo é fundamental para o planeta, pois participa de muitos processos de importância global, como o ciclo hidrológico, a emissão ou captura dos gases de efeito estufa, a manutenção da maior fração da biodiversidade do planeta, dentre outros. Além disso, é no solo que ocorre a produção da maioria dos alimentos de origem vegetal e animal, dos biocombustíveis e das fibras usadas no vestuário, por exemplo. O projeto “Solos” busca o desenvolvimento de novas tecnologias e recursos para sustentar a produção desses consumíveis e conservação de recursos naturais (solo, água e biodiversidade).

Expediente

Reportagem: Jéssica Medeiros, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista; e Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária; e Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Ciência – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/pesquisas-de-memoria-e-tecnologias-capes-print Thu, 13 Oct 2022 12:17:43 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9511

Ao longo do tempo, a sociedade e os seus modos de organização social sofreram inúmeras transformações provocadas, entre outros fatores, pela revolução tecnológica. A memória, seja ela cultural, social, laboral ou ecológica, é responsável pela construção histórica da sociedade, ou seja, por testemunhar e levar adiante o conhecimento dessas transformações. Como exemplo, há a paisagem, entendida como uma síntese do espaço e do tempo, na qual são registradas as mutações do mundo contemporâneo. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pesquisadores estudam questões relativas à memória no âmbito da Sociedade Informacional e das diferentes tecnologias da informação e comunicação empregadas em sua coleta, armazenamento, recuperação e difusão. 


Sociedade Informacional: Memória e Tecnologias foi definido como um dos quatro temas estratégicos do Programa Institucional de Internacionalização da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES-PrInt). O programa, que teve início em novembro de 2018 e foi renovado para o biênio 2022/2023, visa fomentar a internacionalização na pós-graduação das instituições de ensino contempladas, por meio da liberação de recursos para Missões de Trabalho no Exterior, Manutenção de Projetos, Bolsas no Exterior, Doutorado Sanduíche, Professor Visitante Junior, Professor Visitante Sênior, Capacitação em cursos de curta duração e Jovem Talento.

Descrição da imagem: colagem horizontal e colorida. Na parte direita da imagem, desenho de perfil de uma cabeça, na cor salmão. Sobre a cabeça, colagem em formato de cérebro com fotografia antiga, em preto e branco, de um prédio. Ao lado, na parte esquerda da imagem, colagem de letras com fundo colorido que formam a frase "Memória e Tecnologia". O fundo é amarelo esverdeado com textura quadriculada.

O tema estratégico Sociedade Informacional abrange dois projetos de cooperação internacional. Um deles é o ‘Memória e Tecnologias’, coordenado por Cesar de David, que reúne ações e estratégias de investigação da temática envolvendo quatro programas de pós-graduação (PPGs): Filosofia, Geografia, Agronomia e Letras. A Revista Arco entrevistou o coordenador do projeto, que é docente do Departamento de Geografia da UFSM. Confira:

Revista Arco: Quais são as atividades executadas pelo projeto? 

Cesar de David: Esse é um projeto guarda-chuva, em que as quatro áreas de pesquisa e de pós-graduação (Geografia, Letras, Agronomia e Filosofia) dialogam com as questões relacionadas à Memória e Tecnologias, cada uma a seu modo, seguindo sua própria perspectiva, mas interconectadas. Essas quatro áreas se articulam em torno desse tema transdisciplinar. A memória, no caso da filosofia, investiga e reflete sobre as questões da filosofia da mente e de como ela processa e retém a memória. A geografia, no campo do estudo da paisagem, vê a paisagem como uma representação da memória do tempo e do espaço. Cada área vai dialogar a seu modo e se articula a partir da própria perspectiva em torno do tema que é bastante abrangente, mas que está em profunda relação com a sociedade contemporânea. O nosso tema estratégico é a sociedade informacional. 

 

Revista Arco:  Como surgiu o tema estratégico Sociedade Informacional? 

Cesar: Ele surge a partir de conexões possibilitadas pela UFSM Silveira Martins. Todos os envolvidos são pessoas e grupos que trabalham no Espaço Multidisciplinar de Pesquisa e Extensão, que envolve diferentes projetos. Em geral, são da área das humanidades (filosofia, letras, geografia, entre outras). Quando a UFSM chamou pesquisadores que tinham alguma atuação internacional para fazer parte de um projeto institucional de internacionalização, nós sistematizamos o que já fazíamos em Silveira Martins e discutimos o que nos aproximava enquanto projetos relativamente autônomos. Chegamos à conclusão, depois de algumas reflexões, de que era a Sociedade Informacional. Nós vivemos numa sociedade em que a informação e as suas tecnologias perpassam não só a vida cotidiana, mas também a elaboração de construções que nós fazemos enquanto cientistas, pesquisadores e estudiosos da sociedade contemporânea. A partir disso é que nós construímos um projeto integrado para fazer parte do institucional. 

 

Revista Arco:  Qual o papel da memória na aquisição e compartilhamento do conhecimento humano? 

Cesar: O conhecimento humano é acumulado historicamente pela sociedade. O conhecimento é um produto social construído ao longo do tempo, e essa construção se faz porque, em certa medida, ela é retida pela sociedade, que seleciona o conhecimento que julga pertinente e necessário de ser transmitido para gerações futuras. Todo o nosso conhecimento, a tecnologia e a ciência, só são produzidos, hoje, nos centros de pesquisa e nas universidades, porque nós, de certa forma, o conservamos. Essa conservação nos oferece uma memória do tempo em que produzimos o conhecimento, seja nas artes, seja nas ciências ou nas tecnologias. A partir do nosso estudo, de reflexão e de investigação, construímos e produzimos esse conhecimento que vai ser guardado, retido e transmitido às gerações futuras. Esse é o papel da universidade, sobretudo, da universidade pública.

“O espaço da universidade é um espaço de memória, porque é um espaço de produção de conhecimento, mas também da sua conservação e da sua socialização para as gerações atuais e para o futuro.”

Revista Arco:  Qual a importância das colaborações internacionais para o avanço da pesquisa e o fortalecimento dos programas de pós-graduação da UFSM?

Cesar: Na minha avaliação, o programa Capes-PrInt é um dos mais importantes, não só ao pensar a internacionalização das universidades, mas o próprio avanço científico das relações entre pesquisadores e grupos de pesquisa. Ele oportuniza diferentes vivências, tanto de professores que vêm para o Brasil e trazem suas experiências e compartilham seu trabalho com os colegas brasileiros quanto de oportunidades que nós, pesquisadores, temos. Acredito que, nessa relação e nessas oportunidades de intercâmbio que o Capes-PrInt proporciona, todos conseguem crescer juntos. E isso, para os programas de pós-graduação, é fundamental, em termos de produção científica, de estímulo à ciência, à tecnologia e à inovação, porque os projetos de internacionalização fazem parte da avaliação desses PPGs.

“O Capes-PrInt abre muitas portas para o desenvolvimento de pesquisas de grande relevância no contexto atual da produção do conhecimento, além de oportunidades de formação profissional, acadêmica e científica.”

Revista Arco:  Como os pesquisadores têm avaliado as experiências de intercâmbio em instituições estrangeiras? Qual a contribuição mais relevante?  

Cesar: A avaliação tem sido positiva, porque atualmente o programa oportuniza essas vivências dos pesquisadores brasileiros no exterior, e isso se reflete de diferentes formas na pós-graduação. Em geral, essas experiências no exterior, seja por bolsas ou por missões, frutificam em termos de produção acadêmica, produção científica e pesquisas e artigos desenvolvidos no Brasil e no exterior. A produção científica nesses programas não  aumenta só em números, mas também em qualificação, a partir de periódicos mais qualificados com produção no exterior e divulgação, lá fora, do que a universidade produz. Essa é a principal avaliação que os pesquisadores relatam: a possibilidade da qualificação da sua produção intelectual, com artigos em conjunto com pesquisadores estrangeiros, com estudantes que participam desses intercâmbios e apresentam trabalhos em eventos internacionais. Isso também qualifica muito a pós-graduação ao promover eventos internacionais na nossa instituição e articular esses pesquisadores da Universidade com pesquisadores de outros centros, o que fomenta os cursos — a pós-graduação e a graduação. 

 

Revista Arco:  Quais têm sido os principais desafios da execução do projeto?  

Cesar: Os maiores desafios são relacionados à própria pandemia, que impactou de forma muito substancial nas atividades planejadas. A dificuldade é readequar o planejamento aos novos cronogramas que a Capes coloca. Nós tivemos missões programadas que não foram executadas, e bolsas planejadas para 2020 e 2021 que terão que ser replanejadas e rearticuladas de 2022 a 2024, porque o programa Capes-PrInt era para ser concluído este ano e foi estendido. Outro desafio é enfrentar os cortes de recursos das universidades e dos centros de pesquisa no país, que se reflete na internacionalização das instituições. O corte das universidades impacta, sobremaneira, em todo o trabalho de internacionalização que vinha sendo realizado, porque nós temos um projeto de internacionalização, mas ele se articula desde a iniciação científica. No momento em que você tem cortes em bolsas e uma diminuição dos recursos destinados à iniciação científica, vai ter um impacto no futuro da pós-graduação: são menos alunos que terão acesso à pós-graduação e às possibilidades de inserção na produção da ciência e da tecnologia. 

 

Revista Arco:  Quais foram os resultados obtidos até agora? 

Cesar: As redes de pesquisadores oportunizadas pelo Capes-Print são o grande resultado, porque se traduzem em convênios com instituições internacionais, em produção científica qualificada e em várias outras oportunidades que são geradas para estudantes e pesquisadores da UFSM. Isso beneficia toda a comunidade acadêmica, que tem a oportunidade de pensar e de refletir sobre as questões trazidas pelas pessoas envolvidas no projeto.

 

Revista Arco:  Quais são as expectativas para o futuro do projeto? 

Cesar: Eu espero que tenha continuidade, que não seja apenas um projeto que tem início e fim, mas que possa render outros frutos, que essa seja efetivamente uma política pública de internacionalização dos programas das universidades brasileiras. A grande perspectiva seria a continuidade da internacionalização como uma política pública que qualifique as universidades como instituição de produção e de divulgação do conhecimento, e que essa produção seja partilhada no Brasil e no exterior. Acho que esse é o grande objetivo, fazer da UFSM uma instituição global, que responda aos desafios da sociedade contemporânea, aponte soluções, crie oportunidades a seus estudantes, professores e comunidade, e sobretudo, da sociedade brasileira, que é profundamente desigual. A função da universidade pública neste país é ser um farol, apontar caminhos e criar soluções e situações que melhorem a vida do povo brasileiro.

Expediente

Reportagem: Jéssica Medeiros, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista; e Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária; 

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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