Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 01 Jun 2023 11:35:33 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/aplicativo-sao-sepe Thu, 01 Jun 2023 11:35:31 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9699

“Antes de sermos do mundo, temos que ser regionais”, já dizia o poeta gaúcho Anomar Danúbio Vieira. A frase representa os objetivos que Felipe Rios Pereira buscou no seu projeto de doutorado. Historiador há sete anos, Felipe ingressou no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) motivado a trazer novos meios de difundir informações históricas para a comunidade, especialmente as de sua terra natal: São Sepé.

A ideia era clara: transformar uma pesquisa sobre a história de um município do interior do Rio Grande do Sul em um aplicativo. São Sepé tem cerca de 23 mil habitantes, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e foi fundada em 1876. O município está a 266 quilômetros de distância da capital do Estado, Porto Alegre. Segundo Felipe, são raros os arquivos ou livros que falam da história sepeense. Ele conta que, em 2016, quando lecionou pela primeira vez em uma escola municipal, notou a dificuldade de encontrar materiais para ensinar os alunos. Os poucos que encontrava haviam sido feitos por memorialistas, advogados ou antigos médicos da cidade que relatavam fragmentos da história ou eventos importantes. 

Foi com a aprovação em um edital da Faculdade Antonio Meneghetti, que liberou recursos para pesquisas, que Felipe decidiu pôr em prática seu projeto. A primeira ideia foi escrever um livro e narrar a história da construção de São Sepé. As pesquisas começaram, no início de 2021, com base nos arquivos da Fundação Cultural de São Sepé. Como o material era escasso, foi preciso que o autor buscasse o Arquivo Público do Estado e o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. O segundo passo da pesquisa incluiu entrevistas orais com pessoas da comunidade local, especialmente as mais idosas. “Foi muito bacana esse contato, geralmente eles me mostravam fotos, objetos, e tudo ajudava a construir uma linha narrativa”, diz Felipe. Em oito meses, o livro “Histórias de São Sepé” foi lançado na Feira do Livro do município, que contou com a presença de autoridades locais.

Lançamento na Feira do Livro de São Sepé

Em 2022, veio a aprovação para o doutorado na UFSM e a esperança de expandir o projeto. Felipe decidiu levar para o ambiente acadêmico a ideia de pesquisar novos meios que pudessem divulgar a história local. O objetivo era que o conteúdo chegasse até a comunidade leiga e, especialmente, às crianças e aos jovens das escolas. “Foi pensando no principal meio de comunicação usado atualmente, o celular, que surgiu a ideia de desenvolver um aplicativo com a pesquisa que já estava no livro”, conta o doutorando.

Felipe levou os rascunhos do projeto para um antigo amigo, que havia conhecido na Casa do Estudante da UFSM, o desenvolvedor de software Maicon Luiz Anschau. Após algumas reuniões, estava pronto o primeiro esboço de um aplicativo que viria a se concretizar em dezembro de 2022.

Maicon conta que foram necessários sete meses para a construção do produto. O aplicativo foi lançado oficialmente em uma cerimônia no dia 22 de dezembro, no Museu Municipal de São Sepé.

Perspectivas

Felipe acredita que o estudo histórico desempenha um papel importante, na medida em que contempla pesquisa e reflexão da relação construída socialmente e da relação estabelecida entre indivíduo, grupo e o mundo social. Por isso, para 2023, os planos continuam. Felipe idealiza a implantação de QR Codes em espaços públicos e históricos de São Sepé. A proposta é que o aplicativo possa ter acesso à câmera do usuário e capturar o código. O link vai direcionar a uma página com informações sobre a história do local ou objeto. O historiador menciona que a realidade virtual pode ser uma grande aliada da História, pois consegue unir o passado e o presente.

Expediente:

Reportagem: Tayline Alvez Manganeli, acadêmica de Jornalismo;
Design gráfico: Lucas Zanella, estagiário de Desenho Industrial
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/documentario-comunidades-kaingang Thu, 23 Feb 2023 13:34:49 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9664

DNA afetivo: processos de arte colaborativa em comunidades Kaingáng é o nome de um documentário que estreou em setembro de 2022 no Youtube. A iniciativa, desenvolvida no Laboratório Interdisciplinar Interativo (LabInter) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), objetiva exibir as atividades realizadas em comunidades indígenas, pelo projeto DNA Afetivo Kamê e Kanhru (DNA A.K.K).

O projeto envolve práticas artísticas colaborativas a partir da organização social da cultura indígena kaingáng, por meio de uma rede de trocas, conectividade e afetos. Entre as ações desenvolvidas, está a produção do documentário que objetiva registrar as atividades realizadas. Sua narrativa é contada através da comunidade kaingáng Terra do Indígena do Guarita km10, localizada no noroeste do estado do Rio Grande do Sul e a comunidade kaingáng de Santa Maria. A produção também traz o relato de Kalinka Mallmann e Joceli Salles, idealizadores do projeto.

Joceli Salles, figura central da narrativa, é historiador pela UFSM, educador na escola Indígena Augusto Ope da Silva e também em aldeias kaingáng. Em relato ao documentário, Joceli destaca que não é possível falar ou construir algo sobre os Kaingáng sem conhecer a cosmologia e as identidades de cada família, seja ela Kamê ou Kanhru. “É importante saber como cada indivíduo pensa, como cada indivíduo é e como se vê no mundo”, diz. Isso será possível através da circulação do filme e do debate, um dos objetivos da produção audiovisual.

Kalinka, doutoranda em Artes Visuais pela UFSM, evidencia a importância do documentário a partir da urgência de se compartilhar histórias, culturas, conhecimento artístico e tecnológico. “Há muitos saberes e conhecimentos oriundos das comunidades e culturas indígenas brasileiras. Esse conhecimento necessita ser compreendido e absorvido, para que modifiquemos, pouco a pouco, a hegemonia da ciência advinda de culturas dominantes”, salienta a pesquisadora.

O documentário foi contemplado com a Lei Aldir Blanc, que dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural. O diretor da obra, Eliseu Balduino, conhecido pelo nome artístico Vicent Solar, é mestrando em Artes Visuais na linha de Arte e Tecnologia com ênfase em fotografia urbana pela UFSM, e conta que a lei auxiliou não só financeiramente, mas também no reconhecimento do produto final. “Pôde-se providenciar as oficinas que foram feitas e também investir em equipamentos para produzir o documentário”, explica.

Espaço de pesquisa de criação

As atividades propostas no LabInter objetivam o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e artísticas, cursos e oficinas, intercâmbio de conhecimentos e propagação de metodologias nas áreas de Arte, Ciência e Tecnologia. Conforme apresentado no site do laboratório, o LabInter é um espaço de pesquisa e criação em projetos artísticos interativos e imersivos. As atividades são realizadas de modo interdisciplinar e colaborativo, voltados para a inovação e desenvolvimento tecnológico.

Andréia Machado Oliveira, professora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais e coordenadora do LabInter, pontua que o documentário é mais um dos resultados do trabalho feito no laboratório. “O objetivo não é fazer uma ação específica, mas desenvolver o projeto de forma colaborativa e interdisciplinar”, ressalta.

A partir dessas metodologias é que projetos como ‘DNA Afetivo Kamê e Kanhru’, o jogo colaborativo sobre os mitos de criação da cultura Kaingáng e o próprio documentário puderam ser concluídos.

Projetos desenvolvidos

Projetos artísticos interativos e imersivos, realizados de modo interdisciplinar e colaborativo, voltados para a inovação e desenvolvimento tecnológico são realizados no LabInter. Algumas dessas iniciativas são exibidas no documentário:

  • DNA afetivo Kamê e Kanhru

O projeto DNA A.K.K surge com a dissertação de Kalinka Lorenci Mallmann. Além de servir como base para sua dissertação, o projeto é usado em seu doutorado, e diz respeito a uma pesquisa em poéticas visuais, envolvendo práticas artísticas colaborativas em comunidade a partir da ativação dos modos específicos de organização social da cultura indígena kaingáng.

É por meio de ações em arte que o uso de tecnologias emergentes possibilita a prática de atividades do projeto DNA A.K.K. Essas práticas visam ativar as marcas exogâmicas, ou seja, identificar e apresentar as principais características kamê e kanhru que dividem a sociedade kaingáng. Em conteúdo apresentado pelo LabInter em seu site oficial, entende-se que as ações do projeto partem da concepção de laboratórios experimentais de criação audiovisual no território da aldeia, que ativem as questões locais e permitam uma colaboração efetiva da comunidade no projeto em geral.

Atividades realizadas na região Terra do Guarita
  • Mapeamento afetivo

Outra prática proposta pelo LabInter foi a ação colaborativa na comunidade Terra do Guarita, localizada no noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Desde 2017, as atividades têm participação de Joceli Salles.

Kalinka, em sua dissertação, apresenta que a ação partiu da concepção de um laboratório experimental de criação audiovisual que estivesse unido às questões locais e que permitisse uma colaboração efetiva da comunidade. A busca é pela ativação das marcas da cultura kaingáng em meio à arte e à tecnologia. Joceli foi o ponto central para que isso fosse possível, pois fez o diálogo entre a escola local, as autoridades da aldeia e a UFSM.

Aos poucos, o projeto teve desdobramentos: o mapeamento colaborativo – feito por meio de narrativas digitais -, que localiza e identifica famílias como Kamê ou como Kanhru, serviu como base para o jogo RPG direcionado principalmente às crianças kaingáng.

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  • Jogo digital Kamê e Kanhru

O jogo colaborativo para Android foi desenvolvido a partir dos mitos de criação da cultura kaingáng e possibilita o trabalho colaborativo entre a arte e a tecnologia. O projeto está em funcionamento desde 2016, quando crianças das escolas indígenas colaboraram desenhando personagens, conversando sobre sua rotina e hábitos, como a coleta de frutas e a pesca. Como apresentado no site do LabInter, toda significação cultural kaingáng vem a direcionar o desenvolvimento do jogo: através da ambientação do cenário, do modelo dos personagens e das interfaces visuais. O objetivo principal é dialogar com as crianças por meio da sua própria cultura.

O jogo foi concretizado a partir do mapeamento afetivo apresentado anteriormente. Joceli, ao falar para o documentário, destaca que a iniciativa busca instigar as crianças a ir na casa de parentes, vizinhos e colegas de aula para conhecer mais sobre a cultura kaingáng.

55BET Pros iniciais do jogo

Expediente:
Texto: Gustavo Salin Nuh, estudante de Jornalismo;
Imagens: Reprodução / DNA afetivo: processos de arte colaborativa em comunidades Kaingáng
Arte de capa: Daniel Michelon De Carli
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo;
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/cultura-indigena-viva-na-universidade Tue, 24 Jan 2023 21:07:51 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9620

“Aprender uma língua indígena com os detentores dessa língua é uma oportunidade ímpar”. É dessa forma que Juan Rafael de Abreu da Silva, egresso do Curso de Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), descreve sua experiência em conhecer mais sobre um dos idiomas que deram origem e inspiraram muitos termos do português falado no Brasil. 

 

Assim como ele, em 2022, cerca de 114 alunos participaram dos cursos promovidos pela Subdivisão de Ações Afirmativas Sociais, Étnico-Raciais e Indígenas da Coordenadoria de Ações Educacionais da UFSM (CAEd) – PROGRAD. Os cursos foram criados com o propósito de cultivar a identidade dos povos originários no espaço acadêmico. As atividades foram realizadas semanalmente de forma online.

 

O curso básico de Língua Guarani foi aberto à comunidade interna e externa da UFSM e reuniu 84 participantes. Já o curso básico de Língua Kaingang foi aberto apenas a integrantes da etnia, sejam eles da Universidade ou não, e teve 30 alunos inscritos. De acordo com a CAEd, atualmente estão regularmente matriculados na UFSM 74 estudantes indígenas da etnia Kaingang; três estudantes indígenas Guarani Mbyá e um aluno Guarani Kaiowá. No total, são 106 estudantes indígenas na Instituição. Outras etnias presentes são: Xacriabá, Terena, Tupiniquim, Xipaya, Tukano, Tikuna, Parecis, Baniwa, Pitaguary, Coroaia e Wanano.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida de uma tela de Google Meet com nove participantes. Na parte superior esquerda, em tamanho grande, tela de um homem indígena, com pele escura, olhos grandes e na cor marrom, sobrancelhas pretas, cabelo liso e preto, grafismos de linhas nas bochechas. Ele veste camiseta verde claro e usa um cocar com suporte vermelho e penas nas cores branca, amarela e verde. As mãos estão levantadas e há dois balões de fala, um de cada lado, com as palavras 'Kaingang' e 'Guarani'. Os demais participantes estão com o microfone desligado. Tem uma mulher indígena, dois homens indígenas, duas mulheres brancas, um homem branco, uma mulher negra e um homem negro. O fundo da tela é cinza.

Emily Massariol, acadêmica de Terapia Ocupacional na UFSM, participou das aulas de língua Guarani. Para ela, o conhecimento adquirido no curso qualifica ainda mais sua formação e pode refletir em atendimentos mais humanizados às pessoas indígenas no futuro: “É necessário que nós, profissionais da saúde, tenhamos conhecimento sobre como é o cotidiano e a cultura dessa comunidade”, afirma Emily.

Para além da língua

Os cursos são divididos em módulos e, mais do que ensinar um idioma, buscam estimular o resgate cultural das etnias. Inicialmente, os encontros abordam características básicas da cultura, como palavras e expressões cotidianas. Depois, parte-se para aspectos como audição e pronúncia, criação de frases e conversação. Temas como o meio ambiente, crenças e tradições também fazem parte das discussões em aula.

 

Joceli Sales, indígena formado em História pela UFSM, é o professor responsável pelas aulas do curso de etnia Kaingang. Ele, que também leciona para crianças e adolescentes na Escola Estadual de Ensino Fundamental Indígena Augusto Ópẽ da Silva, explica que no curso o maior desafio é ensinar para pessoas que têm o primeiro contato com a língua. “É diferente, pois estou acostumado com crianças que já vêm falando de casa, então cuidamos mais da escrita da língua”, comenta. 

 

A antropóloga e docente do Departamento de Ciências Sociais da UFSM, Maria Catarina Chitolina, ressalta que oportunidades como essa são enriquecedoras para quem aprende. “Cada língua, como elemento dinâmico, traz consigo séculos de história, aprendizados e trajetórias que se intercruzam”, afirma. Ela lembra que, normalmente, as línguas indígenas são repassadas entre os povos pela oralidade. Por isso, proporcionar o aprendizado por meio de outros métodos didáticos é também uma forma de fortalecer as práticas linguísticas das comunidades ao longo do tempo. 

 

Kesia Valderes Jacinto é Kaingang e encontrou nas aulas uma oportunidade de aprofundar seus conhecimentos na língua de origem. “Decidi fazer o curso porque nunca tive um professor da língua Kaingang no decorrer da minha trajetória escolar. Aprendi a ler e a escrever em casa, com o apoio da minha avó”, conta. Kesia faz parte da comunidade externa à UFSM e atualmente reside na Terra Indígena Nonoai, em Planalto, no norte do Rio Grande do Sul.

Preservação de saberes

Adilson Policena, indígena da etnia Kaingang e ex-professor do curso, defende que a Universidade deve ser um ambiente plural, mas que, por vezes, apenas valores de determinados grupos prevalecem. Segundo ele, iniciativas voltadas ao reconhecimento de saberes nativos ajudam a transformar essa realidade: “Junto com a sociedade de hoje, a gente tem capacidade para fazer essa mudança. E a Universidade é um espaço onde a gente pode fazer a diferença”, pontua.

 

Para Jonata Benites, professor indígena que ministra as aulas de Guarani, o curso possibilita refletir sobre as particularidades de cada etnia, comumente tratadas como iguais pelo senso comum. “Cada um tem sua cultura, sabedoria, forma de vivência e isso é importante”.

 

As línguas indígenas desempenham papel fundamental não apenas como forma de comunicação, mas também como ferramenta de transmissão de conhecimentos nas mais diversas áreas. Apesar de todo esse valor, as línguas indígenas estão em constante ameaça de extinção. Segundo o Atlas das Línguas em Perigo da Unesco, são 190 idiomas em risco no Brasil. O mapa reúne línguas em perigo no mundo e o Brasil é o segundo país com mais idiomas que podem desaparecer, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. O levantamento motivou a Organização das Nações Unidas (ONU) a declarar a década de 2022-2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas

 

Os educadores reconhecem que dificilmente os estudantes indígenas têm a oportunidade de usar o idioma nativo em sala de aula nos seus cursos formais. Por isso, atividades extracurriculares voltadas ao ensino e à manutenção das línguas incentivam a busca pelo conhecimento acadêmico, sem que se perca o contato com as culturas de origem. 

 

A CAEd informa que há previsão de oferta de novas turmas para os cursos de línguas indígenas em 2023. A divulgação de inscrições deve ser publicada no site.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Evandro Bertol, designer;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/bustos-da-ufsm-7-personalidades-homenageadas-pela-instituicao Mon, 09 Jan 2023 13:58:42 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9585

O campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) é repleto de espaços verdes, prédios, esculturas e monumentos. Entre eles, há alguns bustos de personalidades históricas que, em algum momento, fizeram-se essenciais para o desenvolvimento da instituição.

Descrição da imagem: colagem horizontal e em preto e tons de cinza de sete bustos, de homens brancos, dispostos em formato de círculo. Todos tem expressões sérias, e cor verde acinzentada. O fundo é preto.

De acordo com o Dicionário Michaelis, os bustos são representações artísticas, desenhos, esculturas ou pinturas que apresentam a parte do corpo humano da cintura para cima. Essas obras de arte têm a finalidade de eternizar a lembrança de um rosto e exaltar a vida e as ações históricas de pessoas importantes para o local onde foram instaladas. No campus sede da UFSM, é possível encontrar três bustos de personalidades que contribuíram para a ciência e para a estruturação da Universidade. São eles:

Alberto Santos Dumont

Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida do busto de Alberto Santos Dumont, que tem a cor de chumbo e está instalado em um bloco de concreto. No fundo, detalhe do Planetário da UFSM, prédios do CCSH, árvores e o céu azul.
Busto de Santos Dumont. Fotografia: Luciane Treulieb.

De acordo com o professor e ex-diretor do Planetário da UFSM, Francisco José Mariano da Rocha, o busto de Alberto Santos Dumont foi doado pela Base Aérea de Santa Maria (BASM) para a Universidade. Ele foi inaugurado no dia 16 de outubro de 1972 e sua autoria é indefinida, apesar de ter,  na parte posterior da cabeça, uma assinatura na qual se lê “AZANI”.

Descrição da imagem: Fotografia quadrada e em preto e branco de 12 homens e duas mulheres, em pé, em formato de meia lua, estão em torno de um bloco pequeno de concreto, que está sobre o gramado. No fundo, detalhe da cúpula do Planetário da UFSM.
Inauguração do Busto de Dumont. Arquivo: DAG/UFSM

Conforme informações da Força Aérea Brasileira (FAB), Alberto Santos Dumont foi o primeiro homem a voar em um aparelho mais pesado que o ar. A partir de 1897, o brasileiro deu início aos testes no âmbito da aeronáutica. De sua autoria, os  aviões 14-Bis e Demoiselle serviram de base para a construção de outros aviões. Dumont é conhecido como o “pai da aviação” e é homenageado em diversas exposições e museus. Na UFSM, seu busto fica em frente ao Planetário da Universidade.

Marechal Rondon

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida do busto de Marechal Rondon, na cor chumbo e instalado sobre bloco de concreto. A fotografia está em contra-ploungée. No fundo, copa de árvore em verde escuro e céu iluminado.
Busto de Marechal Rondon. Fotografia: Gabriel Escobar.

Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon foi engenheiro militar e sertanista (explorador do interior brasileiro). Segundo o Arquivo Público mato-grossense, Rondon foi responsável por construir uma linha telegráfica que liga Mato Grosso a Goiás, o que permitiu o contato da capital, Cuiabá, com um dos estados mais isolados do país na época. 

 

Em 1910, ele passou a dirigir o Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Em suas expedições, Rondon ficou conhecido por defender os direitos dos indígenas e batalhar para que a demarcação de zonas de proteção fosse assegurada. Ele atuou na integração do oeste e norte do Brasil, por isso hoje é homenageado com o nome de um estado: Rondônia. Além disso, o Projeto Rondon, uma parceria entre o Governo Federal e as universidades brasileiras, e que inclui a UFSM, também leva sua memória no nome.

 

Conforme a mestre em Patrimônio Cultural pela UFSM, Daiane Tonato Spiazzi, por meio da UFSM, o Rio Grande do Sul se fez presente na primeira Operação oficial do Projeto Rondon em 1968. Na época, foi criado um campus avançado da UFSM na cidade de Boa Vista, em Roraima, que hoje é a Universidade Federal de Roraima (UFRR). 

 

De acordo com Eugenia Barichello, a instalação do busto de Marechal Rondon no campus é uma forma de a Universidade homenagear a figura importante que ele foi para a valorização do interior do país e em reverência ao Projeto Rondon, que possibilitou a integração da UFSM com a Amazônia. O busto, inaugurado no dia 13 de setembro de 1973, está localizado em frente ao Centro de Tecnologia (CT) e em sua placa está escrito “Homenagem da UFSM ao patrono das comunicações”.

Professor Francisco da Rocha

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida do busto de Francisco da Rocha, que tem cor chumbo sobre bloco de mármore cinza. O fundoé um ambiente de hall, com paredes e pilares brancos, cadeiras pretas e detalhe de planta folhagem em vaso de barro.
Busto de Francisco da Rocha. Fotografia: Isadora Pellegrini

Eugenia conta que Francisco Mariano da Rocha, que é tio de José Mariano da Rocha Filho (fundador e primeiro reitor da UFSM), foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina de Santa Maria, em 1930. Posteriormente, com a oficialização da profissão  de farmacêutico, em 1931, foi registrado o documento que criava a Faculdade de Farmácia e Odontologia, que deu origem ao primeiro curso da UFSM, fundado por Francisco e seus irmãos.

 

Em 1945, Rocha assumiu a direção do curso de Farmácia, que contava com apenas cinco alunos. “Até então, os professores viviam em uma sede emprestada e trabalhavam de graça para fomentar o núcleo de ensino superior em Santa Maria”, conta Eugênia sobre  os primeiros anos do curso pioneiro da UFSM. O busto de Francisco, inaugurado em março de 1963, está no Hall do Centro de Ciências da Saúde e tem a intenção de homenagear o primeiro diretor da faculdade. Não se tem informações de quem foi o autor da escultura. Em sua placa constam apenas os dizeres: “Homenagem das faculdades federais, dos seus professores e da Reitoria da UFSM por iniciativa da Faculdade de Farmácia.”

Descrição da imagem: Fotografia quadrada e em preto e branco de um grupo de cerca de 50 pessoas, formada em sua maioria por homens, em um círculo amplo. Também há presença de mulheres, entre elas, duas freiras, e também uma criança. Todas as pessoas estão voltadas para o fundo central da imagem, onde está um busto sobre uma base retangular. O fundo da imagem é composto pelo teto e pelas paredes, ambos claros.
Inauguração do busto Francisco da Rocha. Arquivo: DAG

Bustos do Museu Gama D’Eça

O Museu Educativo Gama D’Eça, vinculado à UFSM, foi criado em 23 de julho de 1968, na gestão do reitor José Mariano da Rocha Filho. Nele estão localizados os bustos de Gaspar Silveira Martins, Assis Brasil e de José Maria. Os três bustos foram doados pelo Museu Victor Bersani, da Sociedade União dos Caixeiros Viajantes (SUCV). Confira:

Gaspar Silveira Martins

Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida do busto de Gaspar Silveira Martins, em tom de chumbo, sobre base branca. O fundo é uma parede de tijolos a vista.
Busto Gaspar Silveira Martins. Fotografia: Gabriel Escobar

Gaspar Silveira Martins foi advogado e atuou como político no Rio Grande do Sul. Era liberal e monarquista e foi um dos criadores do Partido Liberal Histórico (PLH). Segundo o Arquivo Nacional do Governo, ele foi fundador do jornal “A Reforma” (1892), veículo que divulgava os ideais federalistas gaúchos. Martins também teve importante papel na liderança da Revolução Federalista (1893-1895), que defendia o sistema de governo parlamentarista e opunha-se ao presidente do estado do Rio Grande do Sul, Júlio Prates de Castilhos.

Assis Brasil

Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida do busto de Assis Brasil, que tem cor marrom sobre uma base branca. No fundo, parede de tijolos a vista.
Busto Gaspar Silveira Martins. Fotografia: Gabriel Escobar

De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), Assis Brasil foi o advogado responsável por fundar o partido Libertador, além de ter sido deputado e  Ministro Plenipotenciário – chefe de missão diplomática e relações exteriores – do Brasil em Buenos Aires. Era um grande defensor da Revolução Farroupilha e foi responsável por lançar e dirigir a Revista Federal. Além disso, ficou conhecido como Patrono da agricultura gaúcha, por ter trazido ao Brasil as primeiras raças de gado matrizes para o estado: Devon e Jersey. Ainda, a Granja de Pedras Altas foi o grande projeto pessoal de Assis Brasil. Em 1999, ela foi tombada, por razões históricas, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae). 

José Maria

Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida do busto de José Maria, na cor marrom escuro, sobre base turquesa. O fundo é uma parede de tijolos a vista.
Busto de José Maria. Fotografia: Gabriel Escobar.

José Maria da Silva Paranhos Junior foi advogado, político, jornalista e diplomata. Foi responsável pela consolidação das atuais fronteiras do Brasil por meio da diplomacia. De acordo com a Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), ele escreveu na imprensa em seu nome e sob vários pseudônimos, dos quais são conhecidos: Nemo, Kent, Ferdinand Hex/(F.H.), Bernardo de Faria, J. Penn, Brasilicus, J. Reporter.

José Mariano da Rocha Filho

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida do busto de José Mariano da Rocha Filho, na cor prata, sobre base de mármore em marrom escuro. Atrás, tronco de árvore grossa, que se divide em uma forquilha e tem várias raízes.
Busto de José Mariano da Rocha Filho. Fotografia: Gabriel Escobar

O médico e professor José Mariano da Rocha Filho foi o fundador da UFSM. Mariano da Rocha, que sempre esteve presente na luta pelos estudantes e pela educação superior, enfrentou diversas barreiras para que pudesse ser criada a primeira Universidade Federal no interior do país. Ele  também foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina de Santa Maria. 

 

Para a filha dele, Eugenia Barichello, o pai foi o responsável por criar as condições para emancipar a Universidade, que teve sua oficialização em 1960.  Previamente, alguns cursos, como o de Medicina e de Farmácia, eram anexados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), antiga Universidade de Porto Alegre, e outros eram financiados pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Imaculada Conceição (FIC), hoje conhecida como Universidade Franciscana (UFN).

 

Eugenia relatou que a família de Mariano da Rocha realizou um grande projeto para o Memorial do fundador, que fica hoje ao lado da Reitoria da UFSM. Apesar de sua estrutura ter sido implementada de acordo com o planejamento, o interior do memorial segue vazio. Segundo a filha do professor, a ideia era que o busto de José Mariano ficasse dentro do espaço. Ela contou ainda que houve um projeto, realizado pelo professor já aposentado do Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM, Juan Amoretti, de elaborar um monumento de corpo inteiro do primeiro reitor. Eugênia lamenta que muitos planos de homenagear José Mariano não tenham sido executados com sucesso. O busto do reitor fundador encontra-se na praça Saldanha Marinho, no centro de Santa Maria, e não há informações sobre a autoria e quando a escultura foi feita. Para suas filhas, Eugênia e Maria Izabel, o busto deveria estar no campus da Universidade.

A importância do patrimônio histórico do campus

Na correria do dia a dia, os bustos existentes no campus podem passar despercebidos. 

 

Eugenia acredita que a valorização de personalidades, em especial o fundador, é essencial. “Numa instituição, a questão do fundador é muito importante, o pessoal da administração diz que é o DNA, ele deixa marcas, tanto no setor público quanto no privado”, pontua a docente. Para ela, iniciativas de arquivistas da Universidade, como o projeto “Retalhos de Memória de Santa Maria”, do Departamento de Arquivo Geral (DAG), devem ser enaltecidas. A atividade busca difundir imagens do acervo da cidade e atua com acadêmicos dos Cursos de Arquivologia, Jornalismo, História e Desenho Industrial. “Resgatar a memória é reconhecer pessoas que trabalharam muito, para que elas sejam um exemplo e um estímulo para a juventude. A narrativa proporcionada pelos monumentos reforça a identidade, ela também traz um legado, uma história, dá exemplos e forma todo um laço para a aceitação e união da comunidade com a Universidade. Essas pessoas nos ligam a outras comunidades como seres humanos”, acrescenta Eugenia, sobre a relevância da comunicação institucional pelo patrimônio histórico em forma de bustos na UFSM, que tem a grande capacidade de legitimar as instituições.

 

Para a pesquisadora, o envolvimento dos estudantes para manter a imagem e a trajetória dessas pessoas é fundamental, afinal a Universidade é para eles. “Sem a memória, a gente não só perde a história, a gente perde a raíz, reconhecimento e identidade”, comenta a filha do primeiro reitor.

Raízes de uma sociedade colonial

Existe uma problemática que se faz presente não só nas representações em forma de monumentos na UFSM, mas de forma geral no Brasil: a maioria das pessoas homenageadas por bustos são homens brancos de classe média alta. Isso ocorre pois o ensino universitário teve seu início em um meio elitizado, branco e composto majoritariamente por homens. 

 

A historiadora gaúcha Giovanna Jung Luvizetto realizou uma pesquisa em relação à monumentalização da branquitude em formato de estátuas na cidade de Porto Alegre. “Torna-se inegável que os monumentos foram instrumentos ideológicos preciosos e largamente utilizados por essas elites no intuito de perenizar seus valores, bem como silenciar os que com eles não condizem”, pontua a autora sobre a hegemonia de homens brancos ricos no patrimônio histórico porto-alegrense, o que pode ser aplicado concomitantemente para os bustos de Santa Maria.

 

Sobre os monumentos na UFSM, a professora Eugênia Barichello expressa a expectativa de que a memória da Universidade possa ser representada de forma mais plural: “Espero ver, no futuro, bustos que homenageiam seus alunos e os esforços que eles fizeram para entrar e permanecer na Universidade”.

 

Expediente:

Reportagem: Isadora Pellegrini e Gabriel Escobar, acadêmicos de Jornalismo e bolsistas;

Fotografias: Isadora Pellegrini, Gabriel Escobar, Luciane Treulieb e Departamento de Arquivo Geral (DAG/UFSM);

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes e Gabriel Escobar, acadêmicos de Jornalismo e bolsistas; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/universo-lorquiano-em-texto-e-contexto Thu, 01 Dec 2022 12:56:38 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9569

Boas histórias não envelhecem com o passar do tempo. No entanto, o mesmo não pode ser dito sobre a linguagem nas quais elas são contadas. Até mesmo os clássicos mais famosos precisam se atualizar para continuar a encantar as novas gerações. Esse é objetivo do livro Trilogia da Terra Espanhola, que traz as peças Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1935), de Federico García Lorca, em nova tradução, feita pela professora Luciana Montemezzo, do Departamento de Letras Estrangeiras e Modernas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


Lançado de forma online no início deste ano pela editora Bestiário, o livro é o primeiro no Brasil a reunir as três peças de teatro em uma única edição. Além disso, ele contém  um estudo crítico literário feito pela professora para situar os leitores sobre a vida e a obra de um dos artistas espanhóis mais influentes do século 20 e sobre os critérios de tradução utilizados por ela. Segundo Luciana, o estudo é destinado tanto para os leitores entenderem o universo lorquiano quanto para companhias teatrais que desejem encenar as obras.

A tradução das peças de Lorca foi o tema da tese de doutorado defendida por Luciana na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2008. “Costumo dizer que esse livro é meu terceiro filho, porque desde o doutorado até a publicação passaram 18 anos, então Lorca já é da família”, brinca a professora. A tese se transformou em livro entre 2019 e 2020, quando Luciana fez estágio de pós-doutorado na Facultad de Traducción e Interpretación da Universidad de Granada, região onde Lorca cresceu e foi assassinado. 

Neste período, além da pesquisa bibliográfica para o estudo apresentado no livro, a pesquisadora foi às ruas conversar com as pessoas e se adaptar ao espanhol da região de Huelva, que Luciana salienta ser diferente do falado na capital Madri. O objetivo desse trabalho de campo foi tentar trazer, para a língua portuguesa, essas características únicas da forma mais fiel possível. A transposição das falas líricas (cantadas pelos personagens) do espanhol para o português e a atualização de alguns termos utilizados na tradução são algumas das diferenças entre o livro e a tese de doutorado da pesquisadora.

Qual é a cor do vestido da noiva? É galinha ou piranha?

Assim  como o idioma, práticas culturais se transformam com o tempo e podem alterar o sentido original da obra, por isso requerem atenção dos tradutores. Um exemplo é a noiva, personagem do livro Bodas de Sangue, que entra na igreja com um vestido preto. De início, Luciana acreditou que a cor da roupa era uma metáfora do autor para o luto. Mas as aparências (e as vestimentas) também enganam. Depois de pesquisar, a professora descobriu que o uso do vestido preto era comum em cerimônias sociais na época.  “Mantive a cor original no texto porque, como tradutora, não posso interferir na obra”, conta a pesquisadora.  

 

Para elucidar esse detalhe, ela inseriu uma nota em que explica o contexto da cor do vestido e sugere que a noiva entre com vestido branco em uma eventual montagem teatral. Ao levar a peça para o cinema em filme homônimo, o cineasta Carlos Saura fez essa adaptação.

 

No texto de A Casa de Bernarda Alba, Luciana encontrou uma dúvida que durou desde a entrega da tese de doutorado em 2008 até 2016, ano em que foi a Granada pela primeira vez. Em uma das cenas, uma criada disse que pisaria na protagonista Bernarda e a deixaria amassada no chão como se fosse um lagarto. Logo depois, uma vizinha chama a personagem que dá nome à peça de “vieja lagarta recocida” . A diferença entre o gênero masculino e o feminino chamou a atenção da pesquisadora.

 

Ela consultou outras traduções, e todas mantiveram essa diferenciação. Como a dúvida persistiu, Luciana recorreu ao dicionário. Foi então que percebeu que a palavra no feminino é usada em tom depreciativo, como p***, mas também para designar uma pessoa astuta ou traiçoeira. Luciana escolheu a primeira opção. 

 

Como Lorca usou um animal como metáfora no original espanhol, ela achou que teria que fazer o mesmo em português. Luciana ficou em dúvida entre galinha e piranha. Para decidir qual termo iria empregar, ela utilizou um método aprendido nas técnicas de tradução: perguntar a pessoas sem nenhuma ligação com o trabalho. Assim, ela começou a perguntar para amigos próximos sobre qual era a diferença entre um animal e outro. “Escolhi os homens porque havia considerado a hipótese de o adjetivo estar referido à moral feminina e achei que os homens poderiam me dar respostas mais espontâneas”, explica Luciana.

 

Mas a protagonista é tão traiçoeira que enganou até mesmo a professora. Ela só foi perceber que Lorca usou “lagarta” com o sentido de víbora quando chegou na Espanha. Com a descoberta, a dúvida sobre qual animal utilizar na tradução  retornou e, por isso, consultou José Antonio Pinilla, professor da Universidad de Granada e tradutor de português. “Estávamos no gabinete de português da universidade, ele estava lendo, levantou a cabeça e disse: ‘víbora”’, lembra.  Luciana quase não acreditou na facilidade com a qual ele solucionou seu dilema de anos.

Outras traduções

Antes da Trilogia da Terra Espanhola, Bodas de Sangue (1933) havia sido traduzida três vezes, a primeira pela poeta Cecília Meirelles (1944), seguida por Antonio Mercado (1977) e Rubia Goldonni (2004). 

 

Yerma (1934) tem duas traduções, uma de 1944 também feita por Cecília Meirelles, e outra em 2000, por Marcus Motta. 

 

A Casa de Bernarda Alba (1936) tem três traduções, uma de 1975, feita por Alphonsus de Guimaraens Filho, e a outra realizada em 2000 também por Marcus Motta. Clarice Lispector e Tati de Moraes traduziram a obra em 1968. Essa versão, no entanto, nunca foi publicada e permanece arquivada na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

 

Nem mesmo o trabalho de poetas e escritores conceituados foram capazes de resistir ao tempo. “Acho o texto da Cecília Meireles belíssimo, superior a qualquer outro, inclusive o meu, porque é um poeta traduzindo outro. Mas existem palavras que estão fora de uso e isso precisava ser atualizado, porque as traduções envelhecem”, analisa Luciana. 

 

Se a versão antiga de um livro já atrapalha a imersão do leitor na obra, é preciso ter ainda mais atenção quando se trata de teatro, já que os espectadores não têm a opção de voltar às partes que não entenderam, a não ser que assistam toda a peça novamente. “Na linguagem atual, tragédia e comédia ficam muito próximos e isso me preocupava muito, porque as peças são sobre tragédia, mas basta um deslize para uma fala trágica virar risível”, enfatiza a pesquisadora.

Rua Federico García Lorca: esquina entre arte e política

A trilogia foi escrita em um período de forte polarização política, que culminou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), travada entre republicanos e nacionalistas. A vitória dos nacionalistas deu início à Ditadura Franquista, que durou 37 anos. Por conta de suas obras, Lorca se tornou inimigo dos conservadores espanhóis e uma das primeiras vítimas da guerra.  “A situação política se reflete nas peças de forma gradual. Em Bodas de Sangue há uma crítica política muito velada, em Yerma já aparece um pouco mais”, detalha Luciana. 

 

A última cena de Yerma se passa em uma procissão realizada por mulheres que desejam engravidar, uma menção à Romaria Cristo Del Paño, que ocorre desde o século 17 até hoje, na província de Granada. Durante a liturgia,  uma anciã diz a Yerma que quem realiza o milagre da concepção não é Cristo, mas sim os homens que vinham de fora. 

 

Após a estreia da peça, a reação do público se dividiu entre ovação pelos jornais de esquerda e acusações de blasfêmia pelos jornais conservadores. “Meu coorientador de tese costumava dizer que Yerma foi a primeira bala que matou Lorca. A partir dali, ele virou inimigo de toda a ala conservadora do país”, comenta.

 

Em A Casa de Bernarda Alba, a crítica política se acentua mais uma vez, mas Lorca nunca soube qual foi a recepção da crítica: 30 dias depois de finalizar a obra, o escritor foi assassinado pelo governo espanhol e até hoje seus restos mortais não foram encontrados. Por conta da guerra e da ditadura, a peça estreou nove anos depois, em Buenos Aires, e só foi apresentada na Espanha em 1964, com o país ainda sob ditadura.

 

Outro aspecto que fez de Lorca um inimigo público foi o fato de nunca ter escondido que era homossexual. “Ele vivia em uma condição cômoda, pois sua família tinha recursos financeiros e aceitava sua sexualidade. Mesmo assim, ele foi morto também por ser homossexual”, analisa a pesquisadora.

 

Mesmo após sua morte, Lorca não deixou de receber ataques. Luciana conta que monumentos em sua homenagem frequentemente são alvos de hostilidade. Em Granada, onde Lorca foi assassinado, monumentos às vítimas de perseguição política já foram pichados com a palavra “mentira”. Uma rua que leva seu nome na cidade de Huelva, província de Granada, teve a placa pichada com palavra “maricón”, equivalente ao termo “viado” em português. “Eu ouvi coisas muito parecidas com as que a gente ouve aqui sobre ditadura: pessoas questionando o porquê procurar os corpos das vítimas desaparecidas, dizendo que quem gosta de osso é cachorro”, relata a pesquisadora.

 

Segundo Luciana, outro diferencial do livro Trilogia da Terra Espanhola é mostrar que não apenas a obra, mas também a vida e os desafios que Lorca enfrentou em sua época continuam atuais e sem tanta necessidade de tradução. “Ele é um autor que não só marcou sua época, como ele ainda reverbera no nosso futuro”, finaliza.

 Sobre aTrilogia da Terra Espanhola

Desde o início, a ideia de Lorca era escrever uma trilogia sobre o universo da Andaluzia, região ao sul da Espanha. No entanto, ele nunca escreveu a peça final, pois foi morto pela ditadura espanhola. Com o tempo, a crítica especializada em sua obra colocou ‘A Casa de Bernarda Alba’ como parte final da trilogia por ter temática e aspectos comuns às duas obras anteriores.

 

Bodas de Sangue (1933) : Narra a história de um casamento entre camponeses. A Noiva, um dos personagens principais está prestes a se casar, ela segue apaixonada por Leonardo, seu ex-noivo. No dia do casamento da Noiva, Leonardo surge para seduzi-la. O que era para ser uma simples cerimônia se torna em uma série de perseguições pelo deserto espanhol.

 

Yerma (1934): Yerma é uma mulher que vive o drama de não poder engravidar, mas mantém a esperança de ter um filho. Para isso, ela busca ajuda de todas as formas possíveis, enquanto enfrenta a indiferença do marido, Juan, que não demonstra nenhum interesse em compartilhar sua angústia. Esse conflito de interesses não só desgasta a relação, como a torna cada vez mais preocupante.


A Casa de Bernarda Alba (1936): Começa com o velório do segundo marido de Bernarda Alba, protagonista da peça. Após o cortejo, a matriarca impõe às suas cinco filhas um luto de oito anos. Dominadora, ela mantém as filhas Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela sob vigilância implacável, transformando a casa em um caldeirão de tensões. Junto à agonia do cativeiro, duas das filhas lutam pelo amor do mesmo homem.

Expediente:

Reportagem: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/produtos-inspirados-na-diversidade-de-geoparques-da-regiao-impulsionam-desenvolvimento-local Mon, 28 Nov 2022 14:26:33 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9550

As principais características de um Geoparque são preservar a memória da terra e utilizá-la de forma sustentável para o desenvolvimento de uma comunidade local. A conservação e valorização de patrimônios geológicos-morfológicos como rochas, minerais, água, solos, relevos, paisagens e fósseis são características dessas áreas. 

 

No centro do Rio Grande do Sul, há dois territórios que apresentam essas marcas singulares: a região da Quarta Colônia e a cidade de Caçapava do Sul. Com apoio da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio da Pró-Reitoria de Extensão (PRE), ambos estão em processo de certificação pela Unesco para se tornarem Geoparques mundiais.

Descrição da imagem: colagem horizontal e colorida de vários elementos sobre um fundo verde musgo com textura de grama sintética. Na parte esquerda superior, há três facas com formatos de dinossauro. Ao lado, dois amigurumis de dinossauro, nas cores creme e azul claro. Ao lado, um kit escavação composto por uma ecobag com desenho de dino e um martelinho e espátula. Abaixo, da esquerda para a direita: quatro frascos de mel, um biscoito redondo com decoração de bicho-preguiça, quatro artesanatos com crochê em formato de cactus, dois frascos de azeite de oliva e três queijos amarelos.

Nesses locais, a comunidade encontra na riqueza natural oportunidades de geração de renda, que contribuem para o avanço econômico e social da região de forma sustentável. Ganham força a produção e a comercialização de geoprodutos que carregam a identidade dos lugares.

Geoprodutos: são materiais desenvolvidos, fabricados ou manufaturados na região de geoparques. Os produtos são inspirados na geodiversidade local ao utilizarem matéria-prima do lugar, modos de produção tradicionais, ou ainda em suas formas, rótulos ou embalagens.

A estratégia de criação de produtos para difusão e valorização da cultura é uma tendência dos geoparques pelo mundo todo. Em Caçapava do Sul e na Quarta Colônia, as iniciativas passam por uma certificação e, a partir disso, cria-se uma rede de parceiros que podem trocar informações e experiências sobre a produção. 

 

A chefe da subdivisão de Geoparques da PRE, Patrícia de Freitas Ferreira, explica que os geoparques buscam fornecer capacitações para garantir a qualidade e a originalidade dos geoprodutos certificados. “Acreditamos que a criação e fortalecimento da rede de parceiros, o incentivo à criação de geoprodutos e a certificação deles são ações que corroboram para melhorias dos níveis de trabalho e renda da população local”, ressalta.

 

A Revista Arco listou quatro categorias de geoprodutos que podem ser encontrados na região. Conheça a seguir alguns dos itens (a lista completa pode ser conferida nos sites do Geoparque Quarta Colônia e Geoparque Caçapava).

Artesanato

Na arte, o que se destaca é a criatividade:

  1. Boneco confeccionado com técnica de amigurumi que representa a preguiça gigante, inspirada em fósseis encontrados no município de Caçapava do Sul;

  2. Kit escavação com ferramentas que remetem ao encontro de fósseis de dinossauros encontrados na Quarta Colônia;

  3. Jogo da memória com a temática de dinossauros;

  4. Boneco confeccionado com técnica de amigurumi que representa dinossauros, inspirada em fósseis encontrados na Quarta Colônia;

  5. Pequenos enfeites com formato de cactos nativos da região, planta típica de Caçapava do Sul.

 

Alimentos

Na gastronomia, as opções são variadas: 

  1. Bolacha com desenho da preguiça gigante, inspirada em fósseis encontrados no município de Caçapava do Sul;

  2. Docinho de pinhão, semente da araucária – árvore típica do Sul e da região da Quarta Colônia;

  3. Mel cultivado na região da Quarta Colônia;

  4. Queijo colonial com leite produzido em pequena propriedade rural e técnicas tradicionais;

  5. Azeite de oliva produzido em Caçapava do Sul, cidade conhecida como berço da olivicultura brasileira por ter clima e solo propício para a produção;

  6. Bolo com desenho de cactos nativos da região, planta típica de Caçapava do Sul.

Bebidas

  1. Vinho colonial, produzido de forma artesanal com uvas típicas da região de colonização italiana;

  2. Cachaça produzida com receita que resgata tradição familiar e a partir de canaviais cultivados em terras dos descendentes italianos na Quarta Colônia.

Cutelaria

Facas inspiradas em fósseis de dinossauros encontrados na região da Quarta Colônia.

 

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/biblioteca-central-da-ufsm-conde-de-porto-alegre Thu, 01 Sep 2022 16:59:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9480

Há 50 anos, em 3 de setembro de 1972, foi inaugurada a Biblioteca Central no campus sede da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na época, o fundador da instituição, José Mariano da Rocha Filho, a nomeou como “Biblioteca Central Manoel Marques de Sousa – Conde de Porto Alegre”. Mas quem foi essa figura e por que o reitor fundador escolheu homenageá-lo?

 

Manoel Marques de Sousa III, o Conde de Porto Alegre, tinha o apelido de “O Centauro de Luvas” por ser um soldado de cavalaria muito educado e bem fardado. Foi militar, político, abolicionista e monarquista brasileiro. Nascido na cidade de Rio Grande, em 1804, sua atuação marca a história de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e do Brasil. Seu título de Conde de Porto Alegre foi em razão de ter liderado a reconquista definitiva da capital gaúcha pelo governo federal na Guerra dos Farrapos. Além do combate regional, também participou da consolidação das fronteiras do Império brasileiro, por meio de sua atuação nos conflitos do espaço fronteiriço platino, e na Guerra do Paraguai.

Eugenia Barichello, docente do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM e filha de José Mariano da Rocha Filho, explica que as atividades de Manoel Marques de Sousa vão além da participação em batalhas no início da formação territorial e política do Estado do Rio Grande do Sul, uma vez que o Conde foi defensor da abolição da escravatura e patrono da literatura e ciência.  O Conde de Porto Alegre era bisavô de José Mariano da Rocha Filho pelo lado materno. “A história de vida do Conde sempre foi um exemplo para o reitor fundador pela sua coragem e humanidade”, destaca Eugênia. 

 

O Conde e a cultura

Um de seus feitos na área cultural foi a criação da Sociedade Parthenon Litterario, em 1868, na cidade de Porto Alegre, considerada a primeira entidade cultural do Rio Grande do Sul. O espaço estimulou a prática da leitura e da criação literária. Em 1869, Conde foi um dos fundadores da Sociedade Libertadora de Porto Alegre e eleito o primeiro presidente. A organização tinha como finalidade dar suporte à libertação de escravos, especialmente por meio da educação das crianças libertas. 

Outra curiosidade é que, atualmente, o Museu Gama D’Eça, pertencente à UFSM e localizado no Centro da cidade, abriga a carruagem do Conde de Porto Alegre, adquirida em Paris por volta de 1836. 

Além disso, há uma praça, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre, que leva seu nome. Mesmo local em que se encontra um monumento em homenagem ao Conde que o retrata com a farda militar e uma espada em punho. A escultura foi inaugurada em 1885 com a presença da Princesa Isabel.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição geral: Luciane Treulieb, Mariana Henriques e Maurício Dias, jornalistas

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/sotaques-do-campus Thu, 11 Aug 2022 17:32:10 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9447
Ilustração colorida horizontal em azul claro e laranja de pessoas em frente ao arco de acesso à Universidade

Se você circula pelos espaços da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) já deve ter ouvido esses diferentes modos de falar que se diferenciam no ritmo, entonação, ênfase e até no uso das palavras. São os sotaques presentes na Universidade, fenômeno fonético em que determinados indivíduos pronunciam palavras de forma particular

A UFSM é um espaço diverso. A professora do  Departamento de Letras Clássicas e Linguística, Célia Della Méa, destaca que uma das formas de perceber essa multiplicidade geográfica existente nela é por meio dos sotaques dos acadêmicos. “Eu penso que a sala de aula é um laboratório de fonética, porque nunca temos uma turma que seja só daqui [de Santa Maria]”, afirma a docente.

A variação linguística, área de estudo da sociolinguística, explica como diferentes culturas dão origem a diferentes formas de expressão da língua. A alteração pode ser: 

  • Diatópica: quando está associada aos aspectos geográficos;
  • Diastrática: ligada ao grupo social do indivíduo falante;
  • Diacrônica: relacionada aos fatores históricos; 
  • Diafásica: associada ao contexto comunicativo, como situações formais e informais. 

Assim, o sotaque é uma das formas de perceber a variação linguística por meio do som, mas ela também pode ser identificada na construção de frases e no significado de palavras e expressões utilizadas na comunicação. 

A UFSM é uma universidade, que, só na graduação, tem cerca de 20.900 estudantes. Destes, 16.870 são de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. São, portanto, mais de 4 mil alunos que saem de suas regiões e estados de origem para estudar em Santa Maria. De acordo com o portal ‘UFSM em Números’, depois do Rio Grande do Sul, São Paulo é o estado que mais tem representação (944 estudantes). Depois, vêm os estados de Santa Catarina (399), Paraná (290), Rio de Janeiro (264), Minas Gerais (217) e Bahia (101). Todos os estados brasileiros estão representados no espaço da UFSM.  Além disso, a nacionalidade dos estudantes estrangeiros da graduação contempla 20 países.

Perceber o sotaque

Para quem chega a Santa Maria para estudar, o sotaque dos outros é um dos primeiros choques culturais. João Pedro Sousa percebeu essa diferença ao chegar na rodoviária de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Calouro de Jornalismo na UFSM, João Pedro é natural de Marabá, cidade que fica no interior do Pará. Ele estranhou a pronúncia do ‘r’ quando uma vendedora perguntou sobre o troco. “Chegando em Santa Maria, eu não percebi o meu sotaque. Eu percebi o sotaque de vocês, a forma que vocês falam e que é bem diferente da que eu conhecia”, relembra João Pedro. 

Essa percepção foi parecida para Anna Claudya da Silva, estudante de Produção Editorial e natural de Barueri, em São Paulo. “Quando eu vim para cá, percebi a diferença de sotaques, mas não do meu sotaque”, comenta Anna Claudya. A estudante conta que colegas e amigos que atentaram que o sotaque e as expressões linguísticas dela são diferentes. “Só fui perceber essa diferença quando cheguei aqui”.

A professora Célia aponta que a diversidade de sotaques existente em nosso país também é resultado do contato entre línguas locais e estrangeiras que aconteceram ao longo da história e que impactaram de formas distintas nas cinco regiões do Brasil. “A língua também é um componente de identidade das pessoas. O sotaque é uma forma de identidade e todo esse conjunto de variedades que nós temos se marca na língua. As pessoas manifestam a diversidade através da língua”, ressalta. 

Emily Aguiar, que está no quinto semestre de Engenharia Florestal, veio para Santa Maria em 2020. Mas, por conta da pandemia, voltou para sua cidade natal, em São Luís, no Maranhão. Foi neste ano que, ao retornar à UFSM, percebeu as diferenças na fala. “Falaram que meu sotaque é gostoso de ouvir, e eu acho divertido, porque gosto de conhecer pessoas novas e lugares novos”, afirma Emily. 

João Pedro lembra que percebeu o próprio sotaque só após a entrada na universidade: “As pessoas comentam que eu tenho um sotaque muito forte, muito presente, mas antes eu não percebia isso, acho que pelo fato de estar com as pessoas que eu convivi e que falam da mesma forma. Isso não era uma pauta”, explica.

Estranhamentos da linguagem

Expressões linguísticas também são diferenças encontradas nas regiões do país. Lagartear, bergamota, rótula, sinaleira e pão cacetinho são termos característicos usados no Rio Grande do Sul. Emily relata que o conceito de ‘lagartear’ é algo que ela começa a entender agora, e que ainda estranha outras expressões. “Não tem quem faça eu falar cacetinho. Eu vou na padaria e falo ‘quero quatro pães desse aqui’, e aponto para o que eu quero, que no caso é o pão francês”, conta. Outro episódio que marcou a estudante foi a primeira vez que o cardápio do Restaurante Universitário teve ‘tatu ao molho’ como opção proteica. “Eu fiquei: ‘como assim estão servindo tatu?’, porque na minha cabeça era tatu de verdade e não o corte que chamam de tatu”, recorda. 

Para Felipe Borges, estudante de Engenharia Aeroespacial e natural de Caldas Novas, em Goiás, apesar de encontrar expressões diferentes, elas não se tornaram barreiras de comunicação, já que muitas vezes o contexto permitia o entendimento. Uma palavra, em específico, foi mais difícil de compreender: “As pessoas falaram bastante de rótula, e eu pensei que era a papelaria, mas na verdade as pessoas chamam a rotatória de rótula, e eu levei um tempo para descobrir isso”, conta. A referência é a um local que fica no Bairro Camobi, em que fica localizada a UFSM, e que leva a expressão no nome por ficar próxima a uma rótula.

Mudanças e adaptações


Pierre Jácome Nascimento (23) encontrou dificuldades para entender o sotaque e o modo de falar do estado gaúcho. O estudante de Artes Visuais veio de Araçatuba, no interior de São Paulo, em 2019. “Mas depois de um tempo [o sotaque] começou a ficar do meu cotidiano e acabei me acostumando, tive até dificuldades em falar algumas coisas quando voltei para lá [Araçatuba] por causa da pandemia”, comenta.

A professora Célia explica que é comum haver a adaptação ao modo de falar a partir da convivência com sotaques diferentes. “Como nós nascemos e estamos em um determinado meio, a gente acaba adotando aquele meio. Não por imitação e sim por questões culturais, e os sotaques estão ali, essas variações linguísticas estão ali”, destaca. De acordo com ela, a adaptação também pode ocorrer de forma planejada com o treinamento do aparelho fonador por meio de trabalhos com fonoaudiólogo, algo muito utilizado em novelas em que atores precisam representar formas de falar particulares de determinado personagem.

Para quem já está há um tempo em Santa Maria, percebe diferenças no modo de falar, seja na incorporação das expressões comuns do local, seja na incorporação de elementos do sotaque. Régis Diniz é estudante de Direito na UFSM e está em Santa Maria desde 2016, quando decidiu se mudar de São Paulo. Apesar de entender que seu modo de falar ainda carrega características da capital paulista, percebe que seu sotaque já mudou. “Acontece, realmente, essa incorporação da forma de falar, do jeito de se expressar, e também a utilização de algumas frases e termos que são pertencentes a um lugar”, reflete.

Outra pessoa que acredita que perdeu um pouco de seu sotaque e incorporou o da cidade gaúcha é o estudante de Farmácia André Lucas Pacheco, natural de Barra do Corda, no interior do Maranhão, e que já está em Santa Maria há cinco anos. “Eu acho que a experiência de estar em um lugar em que tem pessoas de vários lugares é uma coisa que te enriquece muito, porque tu conhece diversas realidades”, ilustra. Um elemento que percebe em sua fala é que o som do ‘s’, que ele pronunciava com chiado, não é mais tão presente. No entanto, quando fala com a família no telefone, o sotaque maranhense volta.

Preconceito linguístico 

Lívia Maria Fernandes Crescêncio, 18 anos,  cursa Gestão Ambiental e também é de Marabá. Ela está em Santa Maria há cinco meses, mas há seis anos mora no sul do país. Na cidade anterior, Palmeira das Missões, percebeu muita diferença no sotaque e, inclusive, conta que já sofreu preconceito por conta disso. “Eu falava muito rápido e as pessoas não entendiam. Confesso que perdi bastante meu sotaque, tem várias palavras que eu falava e não falo mais”, relata.

 

A docente do curso de Letras explica que existe a ideia de valor social em relação às variações linguísticas, o que gera preconceitos a determinados modos de falar. Normalmente, as pessoas não querem se adaptar ao “R” marcado, porque é considerado “caipira”, enquanto outros sons são aceitos com mais facilidade e até admirados. “Depende muito do valor linguístico que aquela variedade tem para aquela comunidade”, esclarece Célia.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária, e Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design Gráfico: Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista, e Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia Social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/por-que-agosto-e-reconhecido-como-o-mes-dos-povos-indigenas Mon, 08 Aug 2022 18:38:49 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9436

O Dia Internacional dos Povos Indígenas foi criado em 1995 pela Organização das Nações Unidas (ONU). A data de 9 de agosto se refere ao início das reuniões em Genebra, na Suíça, que mais tarde deram origem à Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Aprovada em 2007, a declaração é um documento histórico que reconhece direitos universais às comunidades originárias. Com 46 artigos, aborda tanto direitos individuais como coletivos, dentre eles a preservação da cultura e da língua, o acesso à terra, à educação e à saúde.

 

Mais do que uma celebração ao reconhecimento dos direitos e uma homenagem às contribuições culturais que os povos originários exerceram na construção sociocultural e na história do Brasil, a oportunidade também é de visibilidade às suas lutas. Artemisa Xakriabá é estudante de Psicologia na UFSM, integrante do Programa de Educação Tutorial Indígena e da Liga Acadêmica Yandê de Assuntos Indígenas. “A data busca alertar sobre nossos direitos como cidadãos e garantir a preservação da cultura tradicional de cada uma das etnias originárias”, explica.

No Brasil, 19 de abril é celebrado como o Dia de Luta e Resistência dos Povos Indígenas. Antes comemorado como “Dia do Índio”, em 2022 a data passou por uma renomeação por meio da Lei 14402/22. A mudança foi resultado de reivindicações de organizações indígenas de todo o país e tem o objetivo de evidenciar a diversidade das culturas dos povos originários. 

 

O termo ‘indígena’, que significa ‘originário’, aquele que estava em determinado local antes de todos os que vieram em seguida, é a forma adequada para se referir aos povos que, desde antes da colonização, vivem nas terras que hoje formam o Brasil. “‘Índio’ é uma palavra pejorativa e que traz uma carga de preconceitos e estereótipos marcada pela colonização, assim dada pelo branco para nos referir, e que não abarca a diversidade que existe nos mais de 305 povos originários aqui do Brasil”, afirma Artemisa.

 

Ela também destaca que a data marca a resistência dos povos indígenas e a denúncia a uma série de violações de direitos praticadas no período atual, como a estagnação dos processo de demarcações de terras, invasões territoriais e falta de acesso a serviços básicos, incluindo saúde e educação.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Cultura – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/11-esculturas-centro-educacao-ufsm Mon, 21 Mar 2022 11:00:57 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9119

Quem visita o campus da  UFSM em Santa Maria encontra obras de arte, como esculturas e murais, espalhadas por toda a Universidade. As obras existentes na UFSM são muito diversas, como a escultura da bússola na Avenida Roraima, o próprio Arco e os murais espalhados pelos prédios.

 

Em dezembro de 2021, por meio da Pró-Reitoria de Extensão, foram lançados os catálogos de murais e esculturas da UFSM. O Catálogo de Murais é fruto da Exposição de Murais que aconteceu em 2018, sob curadoria da arquivista do Departamento de Arquivo Geral Cristina Strohschoen dos Santos, na qual foram exibidos 21 murais do campus.

 

Já o Catálogo de Esculturas foi organizado pela arquivista Flávia Jappe e pelo professor José Francisco Goulart, e registra informações sobre cada obra, seus autores, características técnicas e localização. As obras catalogadas estão expostas ao ar livre, no campus sede em Santa Maria. A versão digital dos dois catálogos foi disponibilizada em fevereiro deste ano.

 

Flávia Jappe é formada em Artes Visuais e Arquivologia pela UFSM e servidora da instituição desde 2014 como técnica em microfilmagem e desde 2019 como arquivista no Departamento de Arquivo Geral (DAG). Ela destaca a importância de realizar a catalogação: “A ideia propulsora foi a preservação das informações pertinentes às obras de esculturas da UFSM, ou seja, o viés documental. Após o trabalho desenvolvido no projeto de pesquisa, foi possível disponibilizar as informações ao público.” Segundo Flávia, as esculturas encontradas no campus de Santa Maria são um convite à comunidade geral para apreciar a arte de maneira gratuita.

 

O catálogo das esculturas conta com informações sobre as 38 obras que estão espalhadas pelo campus. A Revista Arco separou uma lista de 11 delas que podem ser encontradas no Centro de Educação da UFSM. Confira:

1. Figura

É a obra mais antiga desta lista. Produzida no ano de 2001 e com autoria de Téoura Benetti, essa escultura foi modelada em argila com posterior utilização da técnica de fôrma perdida e finalizada com fibra de vidro, resina e massa plástica.

 

2. Escultura sem título

Criada por Juliano Siqueira em 2003, essa escultura foi modelada em argila com posterior utilização da técnica de fôrma perdida. Finalizada com fibra de vidro e resina com corante.

3. Escultura sem título

Escultura de Jair Fávero, construída em 2005 e feita em concreto, pedra arenito, pedra talco, madeira e aço.

4. Escultura sem título

De autoria de Catiuscia Bordin Dotto, essa escultura  feita em 2006  foi modelada em argila com posterior queima (terracota).

 

5. Escultura sem título

Escultura modelada em argila com posterior queima (terracota). Produzida por Camila Mesquita Santos em 2009.

6. Observador do Céu

Feita no ano de 2010 por Anderson Mota, essa escultura foi modelada em argila com posterior queima (terracota) em forno cerâmico.

 

7. Escultura sem título

Escultura de Jorge Gularte, criada em 2010 e modelada em argila com posterior em queima (terracota).

8. Triangulações N1

De autoria de Douglas Medeiros, essa escultura foi construída no ano de 2015 em cimento, chapas e barra de ferro soldadas.

9. Psicobélico

Escultura confeccionada com chapas de metal soldadas. Feita por Mateus Bolson em 2015.

10. Cabeça de Cavalo

Construída por Augusto Sachs em chapas de ferro soldado, alojadas sobre pedra de mármore gaúcho. (sem data)

 

11. Escultura-Banco-Escultura I

Escultura estruturada a partir de sucatas. Modelada, revestida e finalizada diretamente com massa de cimento. De autoria de Carina Plein. (sem data)

Glossário:

Fôrma perdida: É uma técnica de modelagem de escultura. A escultura em argila é revestida em materiais como cera, gesso, cimento ou materiais plásticos. Depois de aquecido, o molde é quebrado e a forma final da obra é revelada.

Queima: Técnica de finalização de uma escultura. Depois de moldada em argila, a escultura é submetida a altas temperaturas, obtendo assim a cerâmica ou a terracota.

Expediente: 

Reportagem: Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Fotografia: Rafael Happke;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário; e Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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