Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 04 May 2023 12:53:01 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/dinossauros-em-cenarios-reais Thu, 04 May 2023 13:06:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9703

Já parou para pensar como seria nosso planeta se animais que existiram há milhões de anos ainda estivessem vivos? Quais seriam os hábitos deles? Qual a diferença de tamanho de um humano perto de um animal pré-histórico? Em março de 2022, o geógrafo Jossano de Rosso Morais, mestrando em Biodiversidade Animal pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisador no Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (Cappa), começou a escrever threads no Twitter para tentar responder algumas dessas questões e divulgar ciência de forma acessível.

O movimento de disseminar conteúdos científicos nas redes sociais inspirou o pesquisador a começar a escrever os próprios materiais. No início, os assuntos eram voltados para o período Triássico – surgimento dos primeiros dinossauros e mamíferos, por exemplo – e para as pesquisas do Cappa. “Agora estou fazendo threads de diversas notícias que leio e gosto, porque assim consigo aprender mais sobre outros temas também. Não tem um padrão de assunto, é mais aleatório agora”, comenta Jossano. 

Entre os conteúdos que o geógrafo produziu que mais repercutiram está uma curiosidade que Jossano mesmo tinha: “como seria o mundo se vários animais extintos ainda vivessem no nosso tempo?”. Ele explica que a escolha das montagens desses animais é feita com base no cenário. “Para fazer cada montagem, eu seleciono a ilustração que mais vai se encaixar no cenário escolhido. Os animais precisam ficar adequados à luz e ao tamanho do cenário”. Há uma “liberdade artística” na composição dessas imagens, pois nem sempre o animal retratado viveu na localidade da fotografia.  A partir da thread e de uma conversa com o mestrando, a Arco apresenta curiosidades de dois animais extintos: a Preguiça-Gigante e o Parasaurolophus. Confira: 

Animais extintos: onde habitavam e como viviam? 

  • Preguiça-Gigante
O local da fotografia é o município de São João do Polêsine. Preguiça-Gigante realizada por Matheus Gadelha. Montagem: Jossano de Rosso Morais

Período

  • O Megatherium – nome científico da Preguiça-Gigante – é um mamífero que viveu na Era Cenozoica, no período quartenário – após a extinção dos dinossauros
  • O Cenozoico iniciou-se há cerca de 65 milhões de anos 
  • A extinção da Preguiça Gigante ocorreu aproximadamente há 10 mil anos 
  • São originárias da América do Sul
  • Já existia seres humanos neste continente 

Características

  • São parentes das preguiças atuais
  • Podiam chegar até seis metros de comprimento e pesar quatro toneladas
  • Eram animais terrestres e herbívoros – alimentação baseada em plantas e folhagens
  • Não subiam em árvores devido ao tamanho
  • Muito provavelmente não viviam em bandos, por serem animais gigantes

Curiosidades

  • O geógrafo relata que é muito provável que a espécie tenha vivido na Região Central do Rio Grande do Sul, porque já foi encontrado fóssil em Caçapava do Sul  
  • O fóssil encontrado era da espécie Lestodon armatus. Antes já tinham sido achados das espécies Megatherium americanum e Eremotherium laurillardi 
  • No campus de Caçapava do Sul da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) foi construída uma escultura desse animal extinto 
  • Podem ter sido extintas devido às mudanças climáticas, na vegetação, no ambiente e também o fator humano pode ter sido uma das causas 
  • A Preguiça Gigante usava as paleotocas como abrigo.
O geógrafo Jossano Morais em frente a uma paleotoca na cidade de Santa Cruz do Sul. Arte da Preguiça-Gigante feita por Rob Brunette. Montagem: Jossano de Rosso Morais

Paleotocas são cavernas ou grutas cavadas na própria rocha. Em janeiro de 2023, Jossano escreveu no Twitter sobre sua visita a uma paleotoca no interior do Rio Grande do Sul e explicou sobre essas cavernas. Confira o texto escrito pelo pesquisador:

“Visitando uma Paleotoca de Preguiça-gigante

No Interior do RS, em Santa Cruz do Sul, fica essa caverna, ela é bem grande, são vários compartimentos e até hoje é conhecida na cidade como gruta dos Índios, um equívoco como vocês vão ver agora.

A caverna tem cerca de 30 metros de comprimento e 21 de largura, sua descoberta é pouco documentada, mas a região onde ela fica foi ocupada por volta de 1908, desde então o espaço é aberto para o público e muitas vezes tristemente vandalizada.

Durante os anos 1980, um estudo encontrou vestígios de povos indígenas que viveram nas redondezas, só que nada na caverna que indicasse que haviam habitado lá, no entanto o nome pegou e ficou conhecida como Gruta dos Índios, só por volta de 2008 que isso iria mudar.

O Geólogo Heinrich Frank, que estuda essas formações, esteve no local e encontraram possíveis  marcas de garras de preguiças, juntamente com outras evidências, como a localização próximo a cursos d’água e de outras formações feitas por esses animais terem feições muito parecidas.

Outro ponto é a ausência de outros fatores geológicos que poderiam ter formado essa estrutura, assim como o fato dos indígenas não terem o costume, nem ferramentas adequadas para sua construção.

A parte triste desse fato incrível ter sido construída por animais gigantes que viveram milhares de anos atrás é a falta de estrutura e investimento no local para informar os visitantes sobre a formação e a importância do local. O que espero que algum dia venha a acontecer.

Ainda não foram publicados estudos sobre o local, mas segue as entrevistas do geólogo que fez as análises: http://www.blog.gpme.org.br/?p=2558

  •  Parasaurolophus

O local da fotografia é o município de Cerro Branco, no Rio Grande do Sul. Arte do dinossauro de Jacob Baardse. Montagem: Jossano de Rosso Morais

Período

  • O dinossauro Parasaurolophus viveu na Era Mesozoica, no período Cretáceo, entre 80 e 70 milhões de anos atrás.
  • Viveu apenas na América do Norte, onde hoje estão localizados os Estados Unidos e o Canadá.
O local da foto é o município de Vila Nova do Sul, no Rio Grande do Sul. Arte do Parasaurolophus por Napon Suzuki. Montagem: Jossano de Rosso Morais

Características

  • Eram animais muito grandes, de até 10 metros de comprimento, e de quatro a cinco metros de altura.
  • Eram herbívoros.
  • Andavam tanto como bípedes – em duas patas -, como quadrúpedes – nas quatro patas.
  • Viviam em bandos.

Curiosidades

  • Até hoje analisa-se a função da famosa crista do Parasaurolophus. Jossano explica que provavelmente a estrutura ajudava a produzir um tipo de som.
  • Em uma cena do filme Jurassic Park: Mundo Perdido de 1997, o dinossauro aparece emitindo um som.

 

Expediente:

Reportagem: Eduarda Medeiros Paz, acadêmico de Jornalismo;
Edição de Produção: Samara Wobeto;
Edição geral: Luciane Treulieb

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Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/dinos-nos-livros-projeto-da-ufsm-divulga-obras-infantis-em-formato-digital Fri, 24 Jun 2022 13:30:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9351

“Uma menina esquisita chamada Dina” e “A Dinossaura Gnathovorax Azul” são os títulos das duas obras da escritora Sueli Salva, professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Os livros, em formato de ebook, foram produzidos pelo Centro de Apoio e Pesquisas Paleontológicas (CAPPA) e pelo Laboratório de Experimentação em Jornalismo (LEx), em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão (PRE). 

 

As obras foram lançadas oficialmente na 49ª Feira do Livro de Santa Maria pela “Série Extensão” projeto da PRE, que visa divulgar e popularizar o conhecimento técnico e científico produzido por extensionistas da UFSM. Além disso, tiveram suporte financeiro da direção do Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE). 

Descrição da imagem: colagem horizontal e colorida de ilustração sobre fotografia. A ilustração é de duas crianças que seguram livros nas mãos. Estão de perfil. A da esquerda é um menino de pele branca, cabelos lisos e bagunçados na cor castanho claro; tem olhos castanhos, veste camiseta azul marinho e, nas mãos, tem um livro de capa azul clara, com uma menina ilustrada ao lado de uma casa e o título "Uma menina esquisita chamada Dina". A criança da direita é uma menina de pele negra, cabelos lisos, curtos e pretos; tem olhos pretos e veste camiseta laranja; nas mãos, livro com capa bege e Ilustração de um dinossauro azul turquesa, e o título "A dinossaura Gnathovorax azul". Os dois livros são assinados por Sueli Salva. Ao fundo, em desfoque, fotografia em tom claro do Teatro Treze de Maio, prédio de dois andares com arquitetura antiga, em tom de rosa queimado.

O paleontólogo Flávio Pretto, do CAPPA, conta que a colaboração dos setores surgiu em 2019: “O LEx tem experiência com a área de comunicação. Juntos, identificamos a demanda do público por materiais de divulgação científica para todas as faixas etárias. Desde então, o grupo foi agregando talentos, crescendo e, aos poucos, estamos começando a atender essas demandas”, destaca. 


A professora do curso de Jornalismo na UFSM e coordenadora do LEX, Laura Storch, comenta que a equipe desenvolve diferentes produtos editoriais e que há previsão de publicação de outros três livros infantis, jogos didáticos e paradidáticos. “Temos interesse em produzir conhecimentos sobre paleontologia e torná-los acessíveis ao público em geral, em particular para as crianças. Temos vontade de transformar os projetos em um programa de pesquisa e extensão, e isso talvez seja possível nos próximos anos”, salienta.

Autora dos livros quis estimular o sentimento, a criatividade e o imaginário do público infantil

Sueli Salva entrou no projeto após a direção do Centro de Educação da UFSM colocá-la em contato com o LEX. “Era início da pandemia, estávamos em trabalho remoto e eu tinha desejo de pensar em coisas novas. Logo nos primeiros encontros, percebi a grandiosidade do projeto, me encantei com o grupo e a diversidade de cursos envolvidos”, conta a professora. 

 

Para Sueli, a literatura infantil é um artefato cultural fundamental para o processo de construção de si e do mundo. Além de operar com o imaginário e o lúdico, estimula a criatividade e possibilita à criança acessar sentimentos novos que ainda está tentando compreender. “Pensando em crianças, tanto a literatura infantil quanto os dinossauros são universos fascinantes. Por que não aliar esses dois campos?”, questiona. 

 

As ilustrações foram feitas de forma colaborativa por dois alunos do curso de Desenho Industrial da UFSM. “Os ilustradores precisaram compreender a proposta da autora ao mesmo tempo em que “contam” uma história própria a partir das ilustrações criadas. Penso que foi um exercício interessante de comunicação visual, visto que os livros são repletos de múltiplas informações, inclusive científicas, que vão ajudando a contar cada história”, explica a professora Laura Storch.

 

Sueli completa: “O que eu posso dizer é que tanto o Guilherme Gomes como a Bruna Dotto abraçaram o texto de tal forma que superaram as minhas expectativas. As ilustrações causam impacto. E é isso que tanto buscamos na educação das crianças”.

 

Bruna Dotto, ilustradora da obra “Uma menina esquisita chamada Dina”, é aluna do quinto semestre de Desenho Industrial na UFSM e conta que nunca havia ilustrado um livro antes. “Foi uma experiência incrível. Os debates com a Sueli eram feitos por intermédio da Laura Storch. O feedback que me era passado era sempre muito importante tanto para o projeto quanto para mim enquanto ilustradora”, comenta.


Já Guilherme Gomes, ilustrador da história da “Dinossaura Gnathovorax Azul”, é aluno do oitavo semestre do curso de Desenho Industrial da UFSM e ressalta a liberdade dada por Sueli quanto às ilustrações. Além disso, comenta que foram feitas muitas reuniões para contextualizar cientificamente o período da história do livro. “Isso incluía estudar a vegetação e a fauna, a fim de adaptar ao estilo de desenho”, lembra.

Histórias dos livros são ambientadas na região da Quarta Colônia

“A Dinossaura Gnathovorax Azul” e “Uma menina esquisita chamada Dina têm suas histórias ambientadas na região da Quarta Colônia, no Rio Grande do Sul – Dina em São João do Polêsine e a Dinossaura Gnathovorax em Vale Vêneto (distrito de Polêsine). Sueli Salva conta que a ideia surgiu a partir da curiosidade que as histórias de dinossauros despertam nas crianças, e também porque na região da Quarta Colônia existem lugares em que foram encontrados fósseis de dinossauros.

“Abordar essa temática é um modo de inserir as crianças nesse universo científico, mas também despertar o imaginário infantil, fazendo com que se sintam parte da história. As histórias se relacionam pela temática, pois surgiram a partir de conhecimentos sobre a paleontologia'', argumenta.

A autora explica que a escolha das personagens principais como meninas foi justamente para dar protagonismo ao gênero. “As personagens são detentoras de conhecimento, imaginação e coragem; são capazes de enfrentar dificuldades, se posicionam em relação à preservação da natureza e têm protagonismo. É um outro modo de pensar o mundo, direcionado para o cuidado do outro, que valoriza a coletividade e valoriza a autonomia”, complementa.


De acordo com Laura Storch, o projeto estuda a possibilidade de disponibilizar a versão física dos livros e isso depende da capacidade de financiamento das impressões. Além disso, não existe, ainda, expectativa de venda. “Os livros na versão digital estão disponíveis na página da PRE e, em breve, estarão também no Museu Virtual do CAPPA – um projeto que também está em fase de execução por nosso grupo de trabalho”, destaca.

Descrição da imagem: capa quadrado e colorida de um livro de título "A dinossaura Gnathovorax azul", em preto. No centro da imagem, ilustração de uma dinossaura azul turquesa, com olho verde, dentes brancos, boca grande: está de perfil escorada sobre as patas; tem expressão sorridente. No focinho, uma libélula marrom. Ao lado, selo azul circular com o texto "Série Extensão". Abaixo, em preto, os textos: "Sueli Salva" e "Ilustrações por Guilherme Gomes". O fundo é bege e, na parte inferior, várias gotas de chuva em traços de lápis bege.
Capas dos livros lançados na Feira do Livro de Santa Maria.
Descrição da imagem: capa de livro quadrada e colorida, de título "Uma menina esquisita chamada Dina", em preto. Na parte esquerda da capa, ilustração de menina de pele branca, está com os braços abertos, olhos fechados e cabelos ao vento. Sorri. Os cabelos são loiro escuros, lisos e compridos. Veste jardineira azul marinho com bolso e detalhe de flor sobre camiseta vermelho vinho; usa botas amarelas. No lado direito, no fundo, casa verde claro. A menina e a casa estão sobre gramado verde. Acima da casa, selo azul circular com o texto "Série Extensão". Ao lado esquerdo da casa, em preto, os textos "Sueli Salva" e "Ilustrações por Bruna Dotto". O fundo é azul claro com textura.
"A dinossaura Gnathovoraz azul" (à esquerda) e "Uma menina esquisita chamada Dina" (acima) são de autoria de Sueli Salva.

Expediente:

Reportagem: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-maior-esqueleto-de-dinossauros-do-rio-grande-do-sul Fri, 17 Jun 2022 13:30:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9333

 

Há cerca de 20 anos, a equipe do Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia (LEP) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) realizava uma escavação de rotina em um sítio paleontológico na área urbana de Santa Maria quando descobriu um fóssil peculiar. 

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida de um paleontólogo ajoelhado em um terreno arenoso. Ele tem pele parda, cabelos escuros, barba rala e escura; usa chapéu cinza e luvas brancas; veste camisa branco gelo por cima de camiseta cinza escuro, calça azul marinho e botas pretas; ele está ajoelhado e segura uma picareta cinza com cabo amarelo. O chão é arenoso em tom de laranja pastel, tem algumas pedras em marrom alaranjado. Abaixo do solo, ossos espalhados na terra marrom. Acima do terreno arenoso, vegetação baixa em verde musgo. Acima, o céu azul com nuvens.

Dentes serrilhados e em formato de faca, juntamente com pernas musculosas e tamanho avantajado, faziam desse dinossauro, o “Saturnalião”, um animal temível. Do focinho até a ponta da cauda, ele devia medir cerca de quatro metros e meio de comprimento, fazendo dele o maior esqueleto de dinossauro já encontrado no Rio Grande do Sul. Apesar de não estar completo, comparações com animais de parentesco próximo nos permitem visualizar como seria o restante do esqueleto.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e em preto de uma simulação de dinossauro do lado de um homem. A simulação está em ícones pretos. No centro do dinossauro, em branco, o nome "UFSM 11330"; imagens de ossos estão distribuídos no focinho, na mandíbula, no pescoço, nas pernas e no calcanhar. Ao lado, na direita da imagem, homem em pé, com altura maior que o dinossauro. Abaixo, linha com flechas dos dois lados, que vai da extremidade da boca até o fim da cauda do dinossauro, e o número "4,5m". O fundo é claro com textura de papel amassado.
Espécime UFSM 11330, o "Saturnalião", e seu tamanho comparado com um humano de cerca de 1,8 m de altura. Os fósseis conhecidos podem ser visualizados na silhueta.
Descrição da imagem: simulação colorida de um dinossauro marrom com pele escamosa. Ele está de perfil, tem a cabeça baixa na altura das costas, curvado, anda sobre duas patas e tem duas patas menores na parte da frente do corpo. Tem cauda longa, que começa grossa e termina fina. O olho é laranja, tem dentes pontiagudos e língua vermelha. Abaixo da cauda, há uma linha preta e o número "1m". O fundo é branco.
Reconstrução do dinossauro em vida. A cauda tem um metro de comprimento.

Porém, antes de conhecer melhor a história desse achado incrível, vamos entender por que os fósseis encontrados no Rio Grande do Sul são alguns dos mais importantes do mundo. Os dinossauros (grupo que inclui as formas não-avianas – extintas há 66 milhões de anos) e as aves constituem os fósseis mais amplamente reconhecidos pelo público geral Eles dominaram as paisagens da maior parte da Era Mesozoica, uma faixa do tempo geológico que se estende mais ou menos de 250 milhões de anos até 66 milhões de anos, e que é dividida em três períodos: Triássico, Jurássico e Cretáceo. Enquanto os dinossauros do Jurássico e Cretáceo, tais como Tyrannosaurus, Diplodocus ou Stegosaurus, já constam no imaginário popular, aqueles do Triássico ainda são pouco conhecidos, apesar de sua importância.

Descrição da imagem: linha dos tempos geológicos horizontal e colorida. Da esquerda para a direita: retângulo cinza com o texto "Pré-Cambriano", entre os números "4,5 vi" e "540 ma"; retângulo verde escuro com o texto "Era Paleozoica", entre os números "540 ma" e "252 ma"; retângulo maior em azul claro com o texto "Era Mesozoica", entre os números "252 ma" e "66 ma". Acima do retângulo da Era Mesozoica, três retângulos menores: o primeiro, roxo, tem o texto "Triássico", e está entre os números "252 ma" e "200 ma"; o segundo, em azul, tem o texto "Jurássico", e está entre os números "200 ma" e "145 ma". O terceiro, em verde vivo, tem o texto "cretáceo" e está entre os números "145 ma" e "66 ma". O último retângulo, em amarelo, tem o texto "Era Cenozoica" e está entre o número "66 ma" e a palavra "Presente". No retângulo do Triássico, há uma flecha vermelha e um ícone de dinossauro, em vermelho, e o número "233 ma". O fundo é branco.
Tabela do tempo geológico indicando a idade (em milhões de anos) aproximada do material estudado.

O Período Triássico se estende de 250 milhões de anos até 200 milhões de anos e começou com a maior extinção em massa já registrada. Essa extinção eliminou a maior parte da fauna do então supercontinente Pangeia, uma massa de terra única que abarcava todos os continentes que nós conhecemos nos dias de hoje. Tal extinção aconteceu ao longo de vários milhões de anos e reduziu muito a diversidade dos animais dominantes da época, como os sinápsidos (grupo que inclui os mamíferos, seus ancestrais e parentes próximos), o que permitiu que os arcossauros (grupo formado por aves, crocodilos, seus ancestrais e parentes próximos) os substituíssem nos ecossistemas continentais. Porém, foi somente em meados do Triássico que os primeiros dinossauros começaram a aparecer.

Descrição da imagem: mapa em imagem horizontal e em tons de vermelho vinho e verde escuro pastel. O mapa é da Pangéia. Lugares como Eurásia, América do Norte, América do Sul, África, Índia, Antártica e Austrália estão em um aglomerado só. Na localização da América do Sul, duas linhas pontilhadas estão ligadas a dois blocos de texto com listagem de tipos de dinossauros: Gnathovorax cabreirai; Staurikosaurus pricei; Saturnalia tupiniquim; Buriolestes schultzi; Bagualosaurus agudoensis; Nhandumirim waldsangae; Herrerasaurus ischigualastensis; Sanjuansaurus gordilloi; Chromogisaurus novasi; Eoraptor lunensis; e Panphagia protos. O fundo é na cor verde escuro em tom pastel.
Ilustração do supercontinente Pangeia, indicando a posição aproximada dos continentes atuais. Círculos vermelhos indicam as posições aproximadas das localidades na Argentina (à esquerda) e no Brasil (à direita) com os mais antigos dinossauros conhecidos, com a lista de espécies para cada um dos países.

Quando consideramos os registros inequívocos, ou seja, aqueles que temos “certeza” a partir da identificação dos esqueletos fósseis ou da datação das rochas, os mais antigos dinossauros são aqueles encontrados em rochas de cerca de 230 milhões de anos no Sul do Brasil e na Argentina. Existem registros de possíveis dinossauros que potencialmente seriam até mais antigos que esses, porém nem todos os autores concordam com a classificação desses materiais ou faltam estudos de datação dos sedimentos dos quais eles procedem para se ter certeza se seriam realmente mais antigos. No Brasil, tais fósseis são encontrados na Formação Santa Maria, que se estende de Leste a Oeste ao longo da depressão central do Rio Grande do Sul. Nem todos os fósseis achados nessas rochas são de dinossauros, mas, mesmo assim, eles são relativamente raros e considerados de extrema importância para a paleontologia mundial no que diz respeito à origem dos dinossauros.

É neste contexto que a equipe do LEP UFSM trabalhava no dia que encontraram um esqueleto incompleto em uma das ravinas avermelhadas do sítio “Cerro da Alemoa”, em Santa Maria. Os fósseis foram exumados em três datas diferentes, por conta do tamanho e da fragilidades dos elementos, e receberam o código UFSM 11330. Logo que foram escavados, os paleontólogos e estudantes sabiam que estavam diante de um animal relativamente grande e que se tratava de um dinossauro. Na época, apenas duas espécies brasileiras de dinossauros encontradas em rochas daquela idade (mais ou menos 230 milhões de anos) eram conhecidas: o Staurikosaurus pricei e o Saturnalia tupiniquim. Com as informações limitadas que tinham em mãos, a equipe considerou preliminarmente que o exemplar UFSM 11330 compartilhava mais semelhanças com Saturnalia; porém, o novo espécime apresentava o dobro do tamanho ou até mais, o que lhe conferiu o apelido de “Saturnalião”.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de uma elevação de terra do tipo arenosa, na cor marrom alaranjado. Há grama e vegetações rasteiras no solo e, ao fundo, árvores altas em verde escuro. No fundo, o céu azul.
Fotografia do sítio Cerro da Alemoa, em que foi realizada a coleta do material estudado.

Ao longo dos anos, outros pesquisadores e alunos iniciaram seus trabalhos de descrição do esqueleto fóssil do “Saturnalião”, mas nenhum trabalho seguiu adiante para publicação final em periódico científico. Foi somente em anos recentes que o “Saturnalião” viria a ser analisado novamente. Em 2017, eu já fazia parte do LEP e, durante uma visita à coleção de paleovertebrados no prédio da Antiga Reitoria, o curador e chefe do laboratório, professor Átila Da Rosa, me mostrou os elementos preservados daquele dinossauro e me ofereceu a oportunidade de trabalhar com o material. Essa pesquisa teve como resultado um artigo científico publicado no início de 2021, que viria a compor um dos quatro capítulos do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que defendi no fim de 2019.

Descrição da imagem: fotografia horizontal e colorida de um homem de pele branca acrocado sobre solo arenoso de cor marrom alaranjado. Ele tem cabelos escuros; usa máscara preta e chapéu cinza; veste camiseta cinza escura e colete bege, calça preta e botas brancas. Olha para um objeto que está nas mãos. Ao fundo, arbustos e árvores em verde escuro, e o céu ao fundo, claro.
Maurício Garcia em trabalho de campo em um sítio do Período Triássico no município de Agudo (RS). Fotografia por Janaína Dillmann.

Nesse artigo, em co-autoria com os pesquisadores Rodrigo Müller, Flávio Pretto, Átila Da Rosa e Sérgio Dias da Silva, nós reavaliamos o material disponível que constitui o “Saturnalião” e discutimos suas implicações. Após preparação e triagem dos fósseis encontrados, constatamos que, além dos restos pertencentes a um dinossauro, elementos de um rincossauro, tipo de réptil abundante que conviveu com os primeiros dinossauros nas paisagens do Triássico, estavam ali misturados. O esqueleto do “Saturnalião” é composto por ossos da cabeça, coluna vertebral e pernas do animal, vários dos quais são muito importantes para identificar a qual grupo de dinossauros pertenceu aquele indivíduo. 

Para nossa surpresa, o “Saturnalião” estaria mais próximo do grupo Herrerasauridae, que contempla animais carnívoros de médio a grande porte, como o Staurikosaurus, do que aos Sauropodomorpha, como Saturnalia, grupo que inclui os grandes dinossauros saurópodes, que milhões de anos à frente viriam a se tornar os maiores vertebrados terrestres que já existiram.

Descrição da imagem: simulação artística, horizontal e colorida, de um dinossauro alongado, de perfil, com pele verde escuro e acinzentada em alguns pontos. Ele está em uma floresta em tons de verde.
Representação paleoartística do espécime UFSM 11330, o "Saturnalião". Escultura e fotografia por Caetano Soares.
Ilustração horizontal e em tons de cinza de dois dinossauros em movimento. Eles estão sobre água. O primeiro, na esquerda, é do tipo Gnathovorax, está em pé sobre duas patas, tem corpo alongado, cauda grossa e cabeça pequena, e tem penugem na parte do pescoço. O outro, na direita da imagem, é do tipo Saturnalião, é um dinossauro alongado, comprido e robusto, está em pé sobre duas patas e tem outras duas pendentes; tem cauda alongada e grossa e cabeça grande.
Representação paleoartística de dois dos dinossauros encontrados no Triássico da região central do RS. À esquerda Saturnalia tupiniquim e à direita Gnathovorax cabreirai. Ilustração por Matheus Fernandes.

Apesar dos novos dados obtidos, a falta de alguns elementos diagnósticos, como o osso da coxa (fêmur), impediu a atribuição do espécime UFSM 11330, o “Saturnalião”, a uma espécie nova ou a alguma já conhecida. No entanto, o “Saturnalião” é, até então, o maior registro de um esqueleto de dinossauro no Rio Grande do Sul e adiciona à diversidade de herrerassaurídeos, que antes contava apenas com o já citado Staurikosaurus (encontrado em Santa Maria) e Gnathovorax cabreirai (encontrado em São João do Polêsine). Além disso, o grande tamanho do “Saturnalião” nos permite reforçar a ideia de que dinossauros predadores de grande porte estavam presentes há 230 milhões de anos  no Triássico do Sul do Brasil, e nos fornece uma visão mais completa da teia alimentar desta época.

Expediente:

Texto: Maurício Garcia, bacharel em Ciências Biológicas pela UFSM e estudante de Mestrado em Biodiversidade Animal pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal – PPGBA/UFSM;

Design gráfico: Cristielle Luise, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/e-possivel-produzir-gasolina-com-fosseis-dinossauros Fri, 10 Jun 2022 16:54:37 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9319

 

Você já deve ter visto tiras de humor como esta:

Descrição da imagem: tirinha em tom de laranja e amarelo com três quadros. O primeiro é vertical em amarelo, com o texto "Todas as criaturas de Deus possuem um propósito na terra". No segundo quadrinho, ilustração de um dinossauro vermelho em frente a um homem de barba branca. Ao fundo, montanhas verdes. Ao lado do dinossauro, balão de fala branco com o texto "Senhor, qual o meu propósito?". Abaixo do homem, balão de fala branco com o texto "Virar petróleo!". No terceiro quadrinho, o dinossauro vermelho está cabisbaixo, na mesma paisagem de montanhas, e, ao lado, balão de fala com o texto "Ok".
Ilustração: Carlos Ruas

Ou postagens nas redes sociais como esta:

Descrição da imagem: captura de tela do twitter da conta "Faria Lima Elevator". O texto: "Como fazer gasolina caseira: primeiro enterre um dinossauro". O fundo é branco.

A crença de que é possível criar gasolina a partir de fósseis de dinossauros circula entre as pessoas há bastante tempo. Isso porque a palavra “combustível fóssil” remete aos fósseis e também porque, segundo algumas teorias, o petróleo é um derivado de restos de animais que viveram há milhões de anos na terra. 

 

Mas será que isso é verdade? A Arco preparou um mitômetro para descomplicar o assunto, verificar se é realmente possível criar gasolina caseira com fósseis e se a origem do combustível está ligada aos animais.

Para isso, consultamos o professor Edson Müller, do Departamento de Química da UFSM, e o pesquisador Átila da Rosa, do Departamento de Geociências da UFSM.

Qual a origem do petróleo?

Descrição da imagem: card quadrado e colorido com cinco dinossauros de brinquedo ao centro. Acima, em preto, o texto "Se petróleo é feito de dinossauros e plástico é feito de petróleo...". Abaixo da imagem, em preto, o texto "... dinossauros de plástico são feitos de dinossauro?". O fundo é branco.
Créditos: Alexandre Berbe/Pinterest

De acordo com Edson Müller, docente do Departamento de Química da UFSM, a teoria de que o petróleo é originário dos fósseis de dinossauros é equivocada. “O petróleo é um combustível fóssil e a origem da etimologia está relacionada com resquícios de animais e plantas. Ele acaba sendo produzido a partir da degradação desses animais e plantas quando são submetidos à alta temperatura e à alta pressão. Então obviamente pode estar relacionado com a questão de restos de dinossauros, mas não só restos de dinossauros”, explica. 

 

O pesquisador Átila da Rosa, do Departamento de Geociências da UFSM, completa explicando que o petróleo é formado pela maturação da matéria orgânica existente no plâncton marinho – organismos microscópicos, de origem animal (zooplâncton) e vegetal (fitoplâncton), que flutuam na superfície do mar.


“Quando morrem (os organismos microscópicos) seus corpos são depositados no fundo lamoso (do mar). Depois de soterrados, ocorre o processo de maturação da matéria orgânica e transformação em querogênio (parte insolúvel da matéria orgânica modificada por ações geológicas), que, por sua vez, se transforma em petróleo. Os dinossauros, ou quaisquer vertebrados marinhos, ocorrem em menor número, e embora sua matéria orgânica também se degrade, são insuficientes para formar tanto petróleo”, afirma o especialista.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida de uma cabeça de fóssil de dinossauro e uma bomba de combustível ao lado de um carro. No lado esquerdo da imagem, cabeça de fóssil grande atrás de três vasos com terra e ossos, ao lado, uma pá amarela. No lado direito, bomba de combustível vermelha e um carro amarelo. Um dos vasos está ligado à bomba de combustível por um cano verde marinho abaixo da terra, que é da cor laranja. Ao fundo, torre verde e esboço de uma indústria e uma torre petrolífera. O fundo é laranja com nuvens brancas.

Ok, a origem do petróleo está, em parte, ligada aos dinos, mas eu posso produzir gasolina caseira com os fósseis desses animais?

Não. O pesquisador Átila da Rosa ressalta que a finalidade dos fósseis, atualmente, está no aprendizado sobre os ambientes e climas do passado. “Servem para auxiliar a entender como e porque aconteceram transformações climáticas e ambientais em tempos remotos, e quais suas repercussões para a extinção de algumas espécies e surgimento de outras”, defende.

 

Ainda, segundo o especialista em química Edson Muller, o combustível é feito a partir da prospecção do petróleo (etapa de localização dos depósitos em bacias sedimentares a partir de análises e observações do subsolo na região), que é submetido a um processo de refino (feito por meio de processos químicos com a finalidade de melhorar o produto). 

 

Geralmente, utiliza-se uma torre de destilação e é possível produzir os diferentes derivados de petróleo: nafta (fração líquida do petróleo), gasolina e óleo diesel. Ou seja, é um processo complexo, não envolve fósseis de dinossauros e só um especialista pode realizá-lo.


“A gasolina é uma mistura bastante complexa. São adicionados antidetonantes para não comprometer o funcionamento do motor do automóvel e ela tem todo um controle de qualidade. Tem que tomar bastante cuidado com os vídeos da internet. Nós dependemos da produção da gasolina a partir do petróleo, o resto é um risco muito grande”, ressalta Muller.

Veredito final: Mito!

 

Não podemos fazer gasolina caseira com fósseis de dinossauros. A origem está ligada a animais e plantas, mas não significa que podemos produzir o combustível em casa. O processo de produção de gasolina é delicado e complexo e só pode ser realizado por especialistas!

Expediente:

Reportagem: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/dinossauro-gigantesco Fri, 05 Nov 2021 13:50:23 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8733

Leonardo Kerber*

Em abril de 2021, meu colega, o paleontólogo Elver Mayer, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), entrou em contato comigo para mostrar algumas fotos de fósseis em um barranco lamacento localizado no município de Davinópolis, interior do Maranhão, a quase 650 quilômetros da capital São Luís. O barranco estava próximo a uma obra de construção de uma ferrovia. 

Os fósseis se tratavam de algumas vértebras e alguns fragmentos isolados – e, somente pelas imagens, não poderíamos ter ideia do que realmente se tratava. As fotos foram tiradas pelo arqueólogo Daniel Silva, e enviadas ao seu colega, o arqueólogo Jardel Stenio, ambos da empresa ArqueoLogística, que acompanhava a obra. Eles ficaram curiosos e as imagens foram enviadas para o paleontólogo Juan Cisneros, da Universidade Federal do Piauí, seu antigo professor do curso de graduação em Arqueologia, que, por sua vez, encaminhou as fotos para Elver, já que ele atuava em uma universidade não tão distante do município de Davinópolis. Inicialmente, cogitou-se que se tratavam de fósseis de uma preguiça-gigante, que são relativamente comuns no nordeste brasileiro. E, por isso, Elver, especialista em fósseis do Quaternário*, foi chamado para o desafio. Quando Elver compartilhou as fotos comigo, nós dois ficamos muito curiosos com o fato de estarem aparecendo ossos tão grandes naquela região.

Nesse primeiro momento, Elver organizou os trâmites para o trabalho de campo junto à Agência Nacional de Mineração. Além disso, comunicou-se com o paleontólogo Manuel Medeiros, da Universidade Federal do Maranhão, que prontamente lhe passou uma série de informações sobre a área de estudo. Entretanto, como estávamos em um momento de aumento do número de casos de Covid-19, e a variante Delta acabava de chegar ao país, a logística para reunir mais paleontólogos para verificar a ocorrência de fósseis ficou comprometida. 

Mesmo assim, com a documentação em mãos e contando com o suporte logístico da empresa que construiu a ferrovia e da equipe de arqueólogos que trabalhavam no local, Elver dirigiu de sua cidade até Davinópolis. Em campo, eles encontraram uma série de ossos de um grande animal – tratava-se de um dinossauro que provavelmente viveu entre 145 e 100 milhões de anos atrás – e não de um mamífero pleistocênico* como o cogitado preliminarmente pela foto de ossos aparecendo em meio ao sedimento lamacento. Durante uma semana, em meio a muita chuva e lama, foram recuperados dezenas de ossos do gigante. Entretanto, muito material ainda ficou para ser resgatado. 

Foi na segunda etapa do trabalho de campo que eu entrei em ação. No início de junho, dirigi meu carro por pouco mais de 600 quilômetros, de Belém do Pará – onde atualmente desenvolvo projetos no Museu Paraense Emílio Goeldi –  até Davinópolis. No local, encontrei Elver e a equipe de trabalho e escavamos mais ossos do grande animal, vértebras, ossos longos, costelas, diversos pequenos fragmentos e, entre eles, um osso longo e grande, que fomos deixando para coletar por último. 

Após embalarmos todos os demais fósseis, começamos a escavar esse osso longo e grande e, para nossa surpresa, era bem maior do que imaginávamos. No total, ele tem mais de um metro e meio, e não está completo – o que indica que era ainda maior. Provavelmente, trata-se de um fêmur desse animal gigantesco, mas ainda faltam muitos estudos para detalhar a identificação dos ossos. Ao todo, foram recuperados aproximadamente 35 elementos desse animal, além de uma série de outros fósseis menos completos, que irão fornecer dados sobre como era esse gigante.

Como a equipe estava acostumada a fazer escavações minuciosas, todas as etapas de coleta foram extremamente detalhadas, com desenhos, fotos e vídeos mostrando a disposição dos fósseis no afloramento antes da coleta. Tudo foi devidamente registrado para auxiliar os paleontólogos a compreenderem como se formou aquela concentração de fósseis. Além disso, a equipe aproveitou para gravar um minidocumentário de divulgação científica sobre o achado, mostrando todas as etapas da coleta e entrevistas com funcionários da obra, arqueólogos e paleontólogos. Após a coleta e embalagem adequada dos espécimes, eles foram levados para um laboratório da Unifesspa, 55BET Pro São Felix do Xingú, onde serão agora preparados e estudados pela equipe do Grupo de Estudos em Paleontologia, coordenado por Elver.

Existem muitas questões a serem respondidas sobre esse animal gigantesco. Começamos pela pergunta mais simples: quem foi esse animal? Será uma espécie já conhecida pela ciência, ou se trata de uma espécie ainda desconhecida? Depois que descobrirmos a identidade do gigante, teremos que descobrir qual era o seu tamanho e massa corpórea, como andava, como morreu, quem eram os outros animais que coabitavam nesse mesmo ambiente. Enfim, uma série de perguntas que a ciência brasileira irá responder nos próximos anos. Fiquem atentos para novidades!

Notas

*A escala de tempo geológico se divide em grupos e subgrupos identificados como éons, eras, períodos, épocas e idades. 

*Cretáceo: terceiro período da Era Mesozoica, correspondente ao intervalo de tempo entre 145 e 66 milhões de anos atrás. 

*Quaternário: último período da Era Cenozoica correspondente ao intervalo de tempo entre 2.58 milhões de anos atrás. Inclui as Épocas Pleistoceno e Holoceno (últimos 11,6 mil anos).

Expediente

Texto: Leonardo Kerber é doutor em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS) e paleontólogo do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia da Universidade Federal de Santa Maria (CAPPA/UFSM). Atualmente, atua como orientador do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da universidade e é colaborador  técnico entre o Museu Paranaense Emilio Goeldi e a UFSM

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Dinos na Arco – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/parque-dos-dinossauros Mon, 04 Oct 2021 16:14:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8691

Se recriar dinossauros parece coisa simples no cinema, paleontólogos, na vida real, são desafiados diariamente a extraírem de fósseis, muitas vezes frágeis, raros e pouco acessíveis, informações sobre animais há milhões de anos extintos da face da Terra. Modernas tecnologias têm sido aliadas desses cientistas em sua jornada para desvendar o passado. Ferramentas de digitalização e computação gráfica têm revolucionado a análise de fósseis, revelando hábitos, comportamentos e outras características, como peso e tamanho, de seres que vagavam por nosso planeta num passado remoto. 

A paleontologia é, por natureza, uma ciência de interface, um híbrido de geociências e biociências que tenta compreender a vida do passado. Há um quê de detetive no trabalho de quem segue essa carreira. Por meio de fósseis, que são vestígios raros e incompletos, cientistas se esforçam em reconstruir peça a peça aspectos da (paleo)biologia de organismos que desapareceram da Terra há milhões de anos, muitas vezes sem deixar descendentes. E ainda que os filmes de Hollywood explorem com maestria a temática dos dinossauros – fazendo parecer corriqueiro ver esses animais ganhando vida – um dos grandes dramas da vida de quase todos os paleontólogos reside no fato de que jamais teremos a satisfação de ver nossos objetos de estudo ao vivo e a cores. Enquanto biólogos empreendem expedições para observar seres vivos em seu hábitat natural, ao paleontólogo resta (com sorte) um punhado de fósseis para estudar. 

Não que fósseis não sejam importantes. São verdadeiros tesouros. Mas essas relíquias costumam resistir em ceder a informação que carregam consigo. Fósseis tendem a se preservar sepultados em espessas camadas de rocha, e removê-los dessa matriz é um trabalho delicado. Assim como a rocha é um envoltório duro, fósseis são inerentemente frágeis, e sua limpeza é quase um cabo-de-guerra: de um lado, pesa a ânsia por expor informações inéditas; do outro, a cautela necessária para preservar algo único. Geralmente, para evitar danos irreparáveis ao material, temos que optar por expor apenas uma porção do espécime. A própria raridade dos fósseis traz particularidades: o privilégio de visitar coleções paleontológicas ao redor do globo é para poucos, pois demanda recursos financeiros e contatos profissionais nem sempre ao alcance dos cientistas no Brasil.

Muitos desses obstáculos, no entanto, podem ser superados mais facilmente com a contribuição de um ramo fascinante que floresceu nas últimas décadas: a paleontologia virtual. Os avanços tecnológicos e o aumento da disponibilidade de ferramentas de digitalização e computação gráfica têm impulsionado métodos digitais de análise de fósseis. 

A transposição da morfologia de um fóssil para o meio digital oferece uma série de benefícios. Hoje é possível manipular virtualmente fósseis difíceis de se trabalhar (ossos frágeis, grandes, ou elementos pequenos, quase microscópicos). A digitalização de espécimes permite também construir bancos virtuais de dados morfológicos, facilitando o acesso remoto a coleções. Por fim, a criação de modelos digitais permite analisar os fósseis sob óticas antes impossíveis. É crescente o número de trabalhos envolvendo análises de estruturas internas a partir de tomografias computadorizadas de imagens de raios X, simulações biomecânicas de organismos extintos, além de diversas técnicas de reconstrução e preparação virtual de fósseis. Tudo isso permite recuperar, ou ao menos estimar, muito da informação perdida durante os processos de fossilização. Grosso modo, essas técnicas têm permitido a cientistas “ressuscitar” e “observar” os organismos que estudam, ainda que em ambientes simulados virtualmente.

De volta à “vida”: paleontologia virtual e simulações biomecânicas com modelos do rincossauro Teyumbaita sulcognathus (Triássico do RS, 233 Ma). Da esquerda para a direita: fóssil original, modelo gerado por tomografia computadorizada, malha de elementos finitos, modelo de estresse mecânico (em laranja) e reconstrução artística do animal. Modelagem e Simulação: Flávio A. Pretto. Reconstrução Artística: Márcio L. Castro.

Como se digitaliza um fóssil?

As metodologias de digitalização se dividem em dois grupos: as que modelam um fóssil por completo, incluindo sua estrutura interna; e as que capturam somente a superfície externa do material. No Brasil, o primeiro tipo de imagem explora, sobretudo, as tomografias computadorizadas. Já o segundo grupo é contemplado pelo escaneamento a laser e a fotogrametria, também já adotados no país. 

1- Tomografia computadorizada

Raios X e tomógrafos costumam estar mais vinculados à medicina do que à paleontologia. E de fato, quando Wilhelm Roentgen (1845-1923), professor de física em Wurzburg, Baviera, descobriu os raios X em 1895, provavelmente não tinha ideia de que, no futuro, revolucionaria um campo tão distante de sua área de pesquisa. A possibilidade de observar estruturas internas do corpo humano (ou de qualquer material, na verdade), revolucionou não só a medicina, mas as engenharias e as ciências naturais. A partir de 1970, com os tomógrafos de raios X, tal campo se aprimorou. Um tomógrafo de raios X realiza milhares de imagens, que virtualmente fatiam o corpo a ser analisado. O resultado é uma série de secções (slices tomográficos) que, combinados, podem ser usados para obter um modelo tridimensional das estruturas internas e externas de um objeto de estudo.

No Brasil, os pesquisadores têm tomografado fósseis principalmente fazendo uso de tomógrafos clínicos, disponíveis em boa parte das clínicas de imagem; e microtomógrafos, mais raros, normalmente vinculados a universidades ou institutos de pesquisa. Tomógrafos clínicos permitem escanear fósseis grandes; no entanto, há um limite de resolução de imagem desses aparelhos que dificulta o estudo de estruturas anatômicas muito pequenas. Essa limitação é suprida pelos microtomógrafos, que apresentam resolução bem maior do que a de tomógrafos médicos, mas aceitam apenas amostras pequenas, geralmente de até 10 centímetros, em seu espaço de análise. 

Quanto maior a resolução da imagem, mais detalhes os pesquisadores conseguem ver. Enquanto tomógrafos clínicos muitas vezes trabalham em uma escala de milímetros, microtomógrafos revelam imagens na escala de micrômetros (1 micrômetro [µm] = 0,001 milímetro [mm]). Existem outras tecnologias de escaneamento de fósseis por tomografia, como microtomografia industrial, tomografia de nêutrons e tomografia com luz síncrotron, com resoluções ainda maiores, mas esses equipamentos ainda são raros na América do Sul.

2- Escaneamento a laser e fotogrametria

O escaneamento de superfície, ou escaneamento a laser, só pode ser feito com um scanner de superfície, que, em essência, emite feixes de laser que refletem na superfície de um objeto, sendo captados por um sensor no próprio aparelho. Assim, o scanner calcula a posição de diversos pontos, montando um mapa tridimensional. Combinando essa nuvem de pontos num computador, é possível produzir um modelo tridimensional de considerável fidelidade. Scanners de última geração são inclusive capazes de captar as informações de cor dos fósseis, criando modelos 3D coloridos. Esses equipamentos, porém, ainda são caríssimos.

Por sua vez, a fotogrametria é uma técnica mais barata. Usa uma câmera fotográfica digital e softwares de processamento de imagens. O trabalho envolve a tomada de fotografias do espécime e de marcadores de posição, em diferentes ângulos. Ao importar as imagens para um computador, o software calcula o posicionamento das fotografias usando os marcadores. E, a partir das silhuetas do objeto que está sendo digitalizado, o programa combina as imagens em um sólido tridimensional. Por fim, esse modelo é “embrulhado” digitalmente nas diferentes fotografias, conferindo-lhe a cor do objeto. A fotogrametria tende a gerar modelos menos detalhados que em escaneamento a laser ou tomografias. No entanto, o rápido avanço dos softwares tem melhorado a qualidade dos modelos. A existência de aplicativos gratuitos de fotogrametria torna a opção atraente para pesquisadores.

São diversos os campos em que a modelagem e a digitalização têm se inserido na paleontologia para “trazer os fósseis de volta à vida”. De forma resumida, os estudos de paleontologia virtual se agrupam entre os que observam os fósseis por dentro, explorando sua anatomia interna; aqueles que tentam reconstruir informações perdidas no processo de fossilização; e por fim, os que criam ambientes virtuais de simulação.

No cérebro dos fósseis

Cada uma das regiões do cérebro é responsável por controlar funções específicas. Por exemplo, o olfato é majoritariamente processado nos bulbos olfativos, que costumam ser mais desenvolvidos nos animais que dependem desse sentido. Num caminho inverso, podemos inferir muito dos comportamentos e do hábito de vida de um animal observando o formato e a configuração de seu processador central (o cérebro) e dos órgãos sensoriais anexos. Isso abre uma janela de oportunidade para inferir comportamentos de animais extintos. O estudo da evolução morfológica das estruturas endocranianas é realizado majoritariamente através de moldes endocranianos (endocasts), que são representações tridimensionais de qualquer cavidade interna do crânio (como a cavidade nasal, ouvido, canais neurovasculares e, especialmente, a cavidade encefálica). 

Desde a primeira metade do século 19, pesquisas reconhecem a importância do estudo da anatomia interna do crânio para compreender a evolução do cérebro. Antes do advento da tomografia, essa informação só era disponível em espécimes com cavidades internas expostas em fósseis quebrados (natural ou propositalmente) ou fatiados manualmente. Era comum também o estudo de moldes naturais ou de látex, processos que comumente geravam danos ao fóssil. 

Atualmente, imagens de tomografia permitem preencher as cavidades internas virtualmente e gerar modelos tridimensionais das estruturas de interesse, numa dissecção virtual. Visto que estruturas como o cérebro deixam impressões de seu relevo nas cavidades ósseas que o alojam, um molde endocraniano virtual é uma representação fiel do órgão, produzida de maneira mais segura e rápida. Têm se criado verdadeiros bancos de dados de moldes endocranianos de animais extintos e viventes, permitindo avaliar o quanto essas estruturas variaram ao longo das linhagens. De acordo com conceitos estabelecidos pelo cientista estadunidense Harry J. Jerison, da Universidade da Califórnia, em 1973, a massa de tecido neural de uma determinada região do encéfalo se correlaciona com sua capacidade de processamento. Assim, comparando-se dimensões relativas de áreas cerebrais em diferentes espécies, pode-se indiretamente traçar hipóteses sobre a evolução das capacidades sensoriais e cognitivas de animais extintos. 

Dinossauros na balança

Descobrir o peso de um animal extinto é um desafio e tanto. De um dinossauro ou de um mamute, restam, em geral, ossos fossilizados, e mesmo esses têm sua massa alterada pela incorporação de minerais. Portanto, pesar um esqueleto fóssil não diz nada a respeito do animal original. Para conseguir essa informação é necessário realizar uma estimativa de massa. Historicamente foram desenvolvidos diversos métodos com esse propósito, normalmente comparando animais extintos com viventes de tamanhos similares. 

Para animais de tamanho muito grande (como dinossauros) ou de morfologias corporais muito diferentes de animais atuais, a margem de erro dessas estimativas tende a ser grande. Mas a paleontologia virtual tem trazido avanços na área. Por exemplo: ao se montar virtualmente um esqueleto digitalizado, é possível, a partir de algoritmos de embrulho, “envelopar” virtualmente o objeto de estudo em uma espécie de “casca” geométrica, que representa o volume mínimo que aquele animal teria hipoteticamente. Aplicando a esse volume uma densidade corporal (na maioria dos animais viventes em torno de 1000 kg/m³), pode-se estimar um valor mínimo de massa para o organismo modelado. 

Em muitos casos também, estudos anatômicos reconstroem os volumes musculares de animais extintos. Valendo-se desses dados, pode-se guiar reconstruções paleoartísticas digitais, literalmente esculpindo-se o animal sobre os ossos. Essas reconstruções podem ter seu volume facilmente calculado por softwares de manipulação de modelos tridimensionais. Novamente, aplicando-se um valor de densidade corporal, pode-se “pesar” virtualmente um animal do qual só restam os ossos.

Da engenharia à paleontologia

Uma das áreas da paleontologia virtual que mais tem crescido é a das simulações biomecânicas através de modelos digitais. Combinando dados de massa e de morfologia corporal, por exemplo, é possível calcular o centro de gravidade de um animal, o que é vital para se inferir se o seu equilíbrio em duas pernas era possível. E a relação entre a massa corporal e a resistência mecânica dos ossos dos membros que sustentam um animal nos permite estimar o quanto ele poderia forçar sua estrutura óssea. Animais corredores e saltadores, por exemplo, tendem a ter ossos muito robustos, apesar de apresentarem massa corporal comparativamente baixa, justamente para compensar o impacto excessivo gerado por essas atividades físicas extremas.

De fato, as análises de resistência mecânica do esqueleto, aliadas a técnicas digitais, têm trazido alguns dos avanços mais empolgantes referentes à paleobiologia de animais extintos. Um conceito que vem sendo empregado amplamente é a Análise de Elementos Finitos ou FEA (do inglês Finite Element Analysis). Esta metodologia é explorada há décadas por engenheiros e designers de estruturas para testar virtualmente um objeto antes de construí-lo, de modo a identificar falhas mecânicas que possam levar a rachaduras ou fraturas. Paleontólogos vêm desde o final dos anos 1990 replicando os mesmos exercícios com esqueletos virtuais de animais extintos. Em um crânio digitalizado, por exemplo, é possível modelar as propriedades físicas e mecânicas (como elasticidade e resistência) de ossos. Em seguida, aplicam-se sobre esse modelo diversas forças que simulem distintos cenários de mordidas, impactos ou outros estresses mecânicos de interesse, de modo a identificar, na estrutura óssea, quão resistente (e quão verossímil) é o comportamento inferido a um determinado animal. Desse modo, paleontólogos podem testar como o crânio de um tiranossauro resistia ao impacto de uma mordida de quase cinco toneladas sem se despedaçar, ou mesmo comparar a performance mecânica de diferentes morfologias, e como elas se comportavam hipoteticamente em diferentes situações de vida.

A inclusão de metodologias de análise digital, portanto, tem lançado um novo olhar sobre os fósseis e as próprias hipóteses levantadas para organismos extintos. Ao mesmo tempo em que as técnicas de digitalização nos proporcionam acessar coleções via internet e depositar bancos de dados tridimensionais em discos rígidos, elas nos permitem interagir com os fósseis de maneiras novas, virtualmente livres de risco para o patrimônio. E, embora cientistas ainda estejam longe de verem espinossauros e mamutes correndo livres pela natureza, de certo modo, comportamentos e hábitos desses animais vêm sendo “ressuscitados” dia a dia nas telas de computadores e nos dados de pesquisas científicas.

* Texto produzido por Flávio A. Pretto e Leonardo Kerber, do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM. Originalmente publicado na Revista Ciência Hoje

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