Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Tue, 15 Oct 2019 16:16:44 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/15-fatos-sobre-cadaveres-que-voce-nem-fazia-ideia-que-eram-reais Mon, 30 Oct 2017 20:51:10 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=2556

Você sabe o que é a dissecção de cadáveres? E que é possível doar apenas parte do corpo? E sabe que é possível fazer um funeral antes de o corpo ser destinado para a instituição de ensino?  Através de artigos científicos e de conversa com os professores do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Carlos Eduardo Seyfert e Dorival Terra Martini, obtivemos informações curiosas sobre a utilização de cadáveres em estudos acadêmicos. Confira:

 

1 – Cadáveres originados de morte violenta ou suspeita não pode ser destinados para estudo

Os corpos humanos estudados em universidades podem ser oriundos de doações voluntárias ou provirem do Instituto Geral de Perícias na condição de cadáver não reclamado (que não foram procurados/identificados por parentes ou responsáveis legais). No entanto, os cadáveres de morte provocada por mecanismos violentos ou suspeitos não deverão ser destinados a estudo, visto que há necessidade de esclarecer as circunstâncias em que se deu o fato.

 

2 – Antes da utilização para estudo, é preciso dissecar o cadáver

A técnica de dissecção de cadáveres consiste na exposição de estruturas, através de cortes na pele, nos ossos, retirada de gordura, entre outros procedimentos que possibilitem maior visibilidade interna. Então, a dissecção acontece de acordo com a estrutura alvo – a região do corpo – que necessita estar disponível com maior urgência. Para isso, são utilizadas ferramentas como pinças e bisturis. Na UFSM, a dissecção é realizada por técnicos em anatomia e necrópsia, mas também pode ser feita por professores do Departamento de Morfologia e estudantes em monitoria.

3 – Seis meses é o tempo médio para que o corpo esteja preparado para utilização

Antes da dissecção, o ideal é que o cadáver passe um período de, aproximadamente, seis meses em conservação por produtos químicos, como o formol, para melhorar o processo de fixação. Mas nada impede de dissecar o cadáver sem fixador nenhum. Nos Estados Unidos, por exemplo, há centros de estudos com cadáveres frescos, o que é muito procurado por cirurgiões, já que a textura do cadáver fresco e do formolizado é diferente uma da outra.

 

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4 – Cadáveres de qualquer idade podem ser estudados

De modo geral, os corpos estudados são de pessoas idosas, porém, há cadáveres de todas as idades e o estudo em corpos de diferentes faixas etárias é necessário. Na UFSM, existe um laboratório de fetos, que possui corpos de fetos conservados por mais de 30 anos; muitos deles são disponibilizados pelo HUSM, principalmente provindos de casos de aborto espontâneo.

5 – A doação de órgãos pode ser feita antes da doação do corpo

A doação do corpo para estudo pode acontecer mesmo após a retirada dos órgãos. As estruturas restantes sempre podem ser úteis para estudo.

 

6 – Pode haver um funeral antes de o corpo ser levado para a instituição de ensino

Em caso de um corpo doado, o funeral sempre pode ser feito antes; é uma decisão familiar e os custos também devem ser arcados pela família. Quando se trata de um cadáver não reclamado – que não é identificado ou procurado por responsáveis – o corpo fica congelado no IML durante cerca de um mês até que a documentação esteja concluída e ele possa ser destinado à instituição de ensino.

 

7 – É possível doar apenas parte do corpo

As doações voluntárias podem acontecer com corpos em parte ou no todo. Partes amputadas de corpos inteiros também podem servir para estudos em universidades.

8  – Temperatura ambiente influencia no cheiro

O produto químico mais utilizado na conservação de cadáveres é o formol. Na UFSM, quando os corpos chegam ao Departamento de Morfologia, o formol é injetado através de acesso arterial, para que penetre em todos os tecidos e garanta a fixação do corpo; o formol também é o fixador utilizado para garantir a conservação ao longo dos anos, sendo que a maior parte dos cadáveres são conservados em tanques de solução com 5% de formol. Há, no entanto, um outro método de utilização mais recente que é denominado Laskowsky, feito com outros produtos químicos e que apresenta distinto odor. Em menores quantidades, utiliza-se também a glicerina e até mesmo o cloreto de sódio (sal). Independentemente da conservação, em dias quentes o cheiro forte é mais perceptível.

 

9 – É ilusão a ideia de que os cabelos e as unhas crescem ainda após a morte

O tamanho dos pelos pode dar a ilusão de que aumentou após a morte porque o corpo, quando vai a óbito, acaba perdendo tônus musculares – o tecido começa a perder consistência – e, com isso, passa por uma retração. Então, o pelo dá a impressão de que aumenta alguns milímetros, mas nunca, depois de dez anos do falecimento, o cadáver vai acabar com um cabelo estilo Rapunzel.

10 – Na universidade, os corpos nunca são chamados pelo nome

Com exceção dos cadáveres que não possuem documentos de identificação (indigentes), as universidades têm acesso aos dados da pessoa cujo corpo está sendo estudado. No caso de um cadáver não reclamado, a cópia da certidão de óbito fica em responsabilidade das universidades e, assim, tem-se informações sobre o cadáver. Com o Programa de Doação de Corpos, tem-se os dados dos doadores. Contudo, dentro da universidade, o nome é esquecido; os cadáveres são chamados de “peças” e identificados por números, geralmente.

 

11 – Não há remuneração pelo corpo humano doado

Não é previsto nenhum tipo de remuneração para a pessoa, ou família da pessoa, que se propõe a doar o corpo.

12 – Transporte do corpo doado fica por conta da família

Pela doação voluntária, a família tem o dever de transportar o corpo até o Departamento de Morfologia da UFSM com o auxílio de uma agência funerária e, além disso, arcar com os custos desse transporte. Caso seja um corpo não reclamado, cabe à Universidade buscar o cadáver no Instituto Médico Legal (IML), com um veículo especial, e arcar com os custos.

 

13 – Existem corpos que estão na UFSM há cerca de 30 anos

Há corpos humanos que são estudados na UFSM há cerca de 30 anos. Hoje em dia é mais difícil de conseguir corpos para estudo, principalmente humanos, tanto pela legislação quanto pelo aumento no número de escolas de saúde.

14 – Corpos animais são mais fáceis de serem adquiridos

A carência de cadáveres humanos é muito maior que a de animais, porque existe maior facilidade em conseguir doação animal e também é possível realizar a compra de material. Na UFSM, animais que vão a óbito no Hospital Veterinário Universitário, algumas vezes, são doados pelos próprios donos. Os gatos e cachorros existentes no Departamento de Morfologia vieram de doações. Ainda assim, ovelhas e carneiros são os animais presentes em maior quantidade, porque são comprados pela instituição.

 

15 –  O tempo de “vida” útil de cada corpo é indeterminado

A vida útil depende das práticas de manipulação de cada cadáver e, por isso, é indeterminada. Porém, ao longo de anos de utilização, os corpos deixam de serem úteis para alguns estudos (as veias podem se deteriorar, por exemplo). Apenas quando chegam a este ponto é que passa a ser necessário o descarte. No entanto, os corpos que foram conservados durante anos não podem ser enterrados como uma pessoa normal por causa dos resíduos tóxicos; na UFSM, o Departamento encaminha para uma empresa que é responsável pelo descarte.

 

As fotografias utilizadas nesta reportagem foram autorizadas pelo Departamento de Morfologia da UFSM.

 

Reportagem: Claudine Freiberger Friedrich

Fotografia: Rafael Happke

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Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-rotina-na-segunda-trajetoria Mon, 30 Oct 2017 20:48:17 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=2520

Como é a rotina de uma vida acadêmica? É comum vermos reportagens relatando a história de professores e estudantes ao passarem pela universidade. Dentistas, zootecnistas, educadores físicos, médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros, são profissionais que, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), tiveram um ponto em comum no currículo acadêmico: a passagem pelo Departamento de Morfologia. Entretanto, aqui não pretendemos nos deter no cotidiano desses estudantes. Queremos ir por um caminho além do tradicional, o de relatar a trajetória que é percorrida pelos protagonistas principais dos estudos anatômicos – os cadáveres – no principal cenário de atuação – o Departamento de Morfologia.

“Quando o corpo chega aqui no Departamento, temos que prepará-lo. Através de acesso arterial, injetamos o formol, que irá penetrar nos tecidos para garantir a fixação do corpo. O período médio de fixação leva em torno de seis meses. Esse mesmo formol serve como conservante para o corpo ao longo dos anos.” Gian Marcon – Técnico em Anatomia e Necrópsia

“O cadáver fechado é como um livro envolto em plástico. Quando temos um cadáver inteiro sem uso, precisamos dissecá-lo para utilizar. […] No que consiste o processo de dissecar? É expor as estruturas que precisam ser estudadas. Não pegamos o cadáver formolizado e levamos para a sala de aula, porque primeiro é necessário fazer procedimentos, como incisão na pele, retirada de gordura. […] Isso acontece conforme a demanda das aulas – às vezes se precisa mais de mão, ou de abdômen – então vamos dissecando o corpo como se fossem páginas de um livro. Rebatemos o tecido adiposo, as fáscias musculares… até chegar na estrutura alvo que necessitamos estudar. Seguimos o tipo de incisão preconizada para a região corporal que estamos precisando. Existem manuais de dissecção que explicam como proceder com cada passo.” Dorival Terra Martini – Professor de Anatomia Humana

“Quando o cadáver chega, a gente faz injeção de formol através da artéria femoral. Então, deixamos a solução de formol penetrando nos tecidos através dos vasos sanguíneos por 24 horas. Apenas depois disso é que iniciamos a dissecção e, então, começam os estudos das estruturas. Inicialmente, fazemos dissecção das estruturas mais superficiais e, depois que elas já estiverem mais comprometidas devido ao desgaste natural pelo uso do material, voltamos a dissecar a fim de expormos estruturas mais profundas.” Gian Marcon – Técnico em Anatomia e Necrópsia

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“O profissional responsável pela dissecção é o técnico em anatomia e necropsia. Nós, professores, também dissecamos, mas não com a mesma frequência e intensidade que os técnicos. Alunos em monitoria ou que fazem parte de projetos podem acabar dissecando também.” Carlos Eduardo Seyfert – Professor de Anatomia Humana

“A gente trabalha tanto com animal quanto com humano e o procedimento em si é o mesmo; os materiais utilizados são os mesmos. Para dissecar, utilizamos pinça, bisturi, tesoura, luvas, máscaras, botas. Conservamos os cadáveres em tanques de solução de formol a 5%, normalmente. […] O material é recebido, processado e armazenado no subsolo do prédio 19. As aulas práticas com cadáveres humanos são no primeiro andar e as que utilizam cadáveres de animais são no subsolo do prédio. Conforme for solicitado pelos professores, a gente monta cada aula. A preparação começa um dia antes; tiramos o material do formol e deixamos escorrer o máximo de formol possível, para não ficar em muita solução e o cheiro forte em aula.” Gian Marcon – Técnico em Anatomia e Necrópsia

“Conseguimos atender até quatro cursos de graduação ao mesmo tempo, com três turmas com cerca de trinta alunos e uma com sessenta. E temos material para tudo isso. De qualquer forma, na anatomia animal é bem mais tranquilo, porque temos um hospital veterinário aqui na Universidade e alguns animais que vêm a óbito acabam sendo encaminhados para o Departamento. Nas aulas práticas, são vários corpos e cerca de quatro ou cinco alunos para cada mesa. No curso de Medicina, trabalhamos com doze mesas. Não teremos um corpo inteiro em cada mesa, ,neste curso os doze grupos fazem rodízio em todas as mesas com três professores acompanhando às aulas.” Carlos Eduardo Seyfert – Professor de Anatomia Humana

“Na disciplina de Anatomia e Escultura Dental, cada aluno deve trazer doações de dentes humanos. Para conseguir isso, levamos um termo de doação para que os dentistas nos cedam esses dentes. No laboratório dessa disciplina, existe um acervo de dentes secos – e são muitos, muitos mesmo -. A gente utiliza para estudar a anatomia, para aprender a identificar qual dente é, e também servem de amostra para pesquisas.” Bernardo Munareto  – Estudante de Odontologia

“Durante as aulas, eu peço aos alunos que prendam os cabelos, que usem sapato fechado e luvas; o uso da pinça é facultativo; e ressaltamos sempre o respeito ao cadáver. Não permitimos fotografia nem filmagem dentro da sala de aula. Eu, no início do semestre, converso com os alunos sobre a importância, a nobreza deste estudo e a dificuldade que é para conseguir o material. Os problemas são raros… mas acontece, às vezes, de um aluno desmaiar, não conseguir comer no Restaurante Universitário depois da aula, de dificuldades com perda recente de familiares… O fato de olhar o rosto, às vezes, causa um certo desconforto. Com corpos recém doados, normalmente, se tapa o rosto. Alguns alunos não querem ter aula em cadáver inteiro, preferem com as estruturas isoladas; mas vai muito de cada turma.” Dorival Terra Martini – Professor de Anatomia Humana

“Lembro que uma vez teve uma menina que, durante a aula, percebemos que estava passando mal. Olhamos pra ela e ela estava muito branca, mais branca que um papel, mas tinha saído de casa sem tomar café da manhã, eu acho. Depois tomou água, comeu alguma coisa e ficou bem, mas eram as primeiras práticas. […] Durante as aulas, sempre recebemos orientações por parte dos professores para não fazer comentário de mau gosto e cuidar das peças para não deteriorar.” Jainara Medina Teixeira – Estudante de Fonoaudiologia

“O sistema nervoso é extremamente frágil e, por isso, utilizamos peças sintéticas. Para os demais estudos, temos corpo humano. O material sintético vai ser normalmente um igual ao outro, podendo apresentar pequenas diferenças; já um estudo com cadáveres proporciona maior variedade no aprendizado, porque cada corpo possui suas particularidades, em relação à localização e trajeto de nervos, veias e músculos, por exemplo.” Jainara Medina Teixeira – Estudante de Fonoaudiologia

“Corpos inteiros estão guardados em lugar de corpos inteiros, membro inferior em outro, coração por serem menores em caixas plásticas. Mesmo que os corpos venham inteiros, ao longo do tempo, é preciso separar em partes para vermos como são por dentro.” Carlos Eduardo Seyfert – Professor de Anatomia Humana

“Aqui no Departamento, há um cavalo e uma vaca que vieram da Alemanha há cerca de quarenta anos. […] As estruturas anatômicas humanas e animais são muito parecidas; há algumas especificidades em relação ao tamanho e à posição de estruturas.” Gian Marcon – Técnico em Anatomia e Necrópsia

“Há corpos que já estão na UFSM há cerca de trinta anos. Antigamente, existia um maior número, mas hoje é mais difícil de conseguir, tanto pela legislação quanto pelo aumento no número de escolas de saúde. […] Atualmente, não há uma falta, mas é um material escasso e se não renovarmos, um dia vão acabar.” Carlos Eduardo Seyfert – Professor de Anatomia Humana

 

As fotografias utilizadas nesta reportagem foram autorizadas pelo Departamento de Morfologia da UFSM.

 

Reportagem: Claudine Freiberger Friedrich

Fotografia: Rafael Happke

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Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/doacao-pela-ciencia Mon, 30 Oct 2017 20:45:51 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=2560

O Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), desde 2016, instituiu o Programa de Doação Voluntária de Corpos, que busca garantir a continuidade dos estudos científicos com corpos humanos através da conscientização do sentido altruístico da doação. O Programa é coordenado pelo professor de anatomia humana do Departamento, Carlos Eduardo Seyfert, e disponibiliza informações aos possíveis doadores no encaminhamento da documentação necessária para a legalização do ato.

 

Laura Betina Lopes Pinheiro, 22 anos, natural de Três Passos (RS), é estudante do quinto semestre de Odontologia da UFSM e, no início deste ano, decidiu encaminhar a documentação para se cadastrar no Programa de Doação Voluntária de Corpos da Universidade. Na entrevista abaixo, Laura conta como foi o processo que despertou nela o interesse em doar o próprio corpo para a ciência:

 

ARCO: Por que você escolheu fazer faculdade de Odontologia?

Laura Betina: Na verdade, foi um pouco por teimosia. Eu fui secretária em um consultório odontológico e o dentista sempre dizia “Eu, se fosse começar de novo, não faria Odonto”. Aí, eu fiquei com isso na cabeça. A minha sobrinha também é dentista. Então, com um pouco de influência e um pouco de teimosia, eu resolvi fazer Odonto. E agora eu gosto, gosto bastante, sempre quis e estou bem realizada, bem feliz com o que encontro aqui.

A: O contato com o material humano influenciou na  decisão de doar o corpo?

L: Durante o ensino médio, a gente fez algumas visitas em universidades. Mas foi na PUC e na UFRGS; a minha região [Três Passos] ficava mais perto de Porto Alegre e, por isso, a gente não veio pra cá [UFSM]. Ali, eu já tive contato com os laboratórios de anatomia, mas eu sabia que a gente teria contato com as peças [corpos] no curso de Odonto. Então, na faculdade, eu tive dois semestres da disciplina básica de anatomia geral e depois a disciplina de anatomia aplicada à Odontologia [que utilizou material humano para estudo]. Mas foi bem tranquilo. E isso [a doação] foi mais pela deficiência que a gente tem. Porque as nossas peças, os nossos cadáveres são muito antigos e, com a manipulação que a gente tem (tira do tanque, põe na mesa, leva pro laboratório, os alunos mexem, manipulam) acaba estragando. Mesmo que seja utilizado com todo cuidado, acaba estragando com o tempo, porque é muito frágil. Apesar de a gente ter tecnologia para fazer bonecos de plástico, não é a mesma coisa que ‘de verdade’. Então, eu pensei ‘poxa, não é certo da minha parte vir aqui, usar e depois não retornar para ciência’. Foi uma escolha bem pela ciência. Até porque enterrar, hoje em dia, não dá; os cemitérios estão superlotados, não existe mais lugar; e cremação, vai fazer o que com aquelas cinzas?

A minha primeira escolha, na verdade, é a doação de órgãos. Se eu puder doar, eu quero doar os órgãos e depois o resto do meu corpo pode ficar pra universidade. O porém é que a gente só pode doar os órgãos se for com morte encefálica então, na maioria dos casos, não se pode doar os órgãos.

 

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A: E como foi a reação da tua família quando soube da decisão de doar o corpo?

L: A família… a mãe não gostou muito. A gente perdeu o pai cedo e a mãe ainda não superou.  É bem difícil. Mas depois de várias conversas, eu disse ‘mãe, você precisa assinar, está ciente de que se acontecer alguma coisa…’. E a gente foi conversando, e conversando, devagar… e aí ela aceitou. Tenho amigas também que pretendem fazer Medicina, estão no cursinho e que apoiam. Disseram: ‘Ah Laura, quando a gente entrar também vai fazer [o cadastro para doação]’.

 

A: Você pretende doar para a UFSM?

L: Sim, pra UFSM. O termo de doação já está assinado, só que está na minha cidade, eu ainda não trouxe pra Universidade. Porque são três vias, uma para mim, uma pra família e outra pra Universidade. Inclusive eu conversei com o professor que era da disciplina, o professor Dorival; a gente conversou bastante antes, teve uma conversa bem séria. Ele me agradeceu.



Entrevista: Maria Helena da Silva

Texto: Claudine Freiberger Friedrich

Fotografia: Rafael Happke 

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Dossiê Corpos – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/quando-a-historia-de-vida-segue-ainda-apos-a-morte Mon, 30 Oct 2017 20:13:13 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=2507

Atualizada em 12/11/2017 às 23:30

 

Outdoors, programas televisivos e campanhas governamentais chamam a atenção para a doação de agasalhos, doação de alimentos, doações a igrejas e instituições sociais. Põem-se em prática os ideais de fraternidade e solidariedade, ainda que, por trás disso, impregna-se o individualismo e o egocentrismo. No Brasil, é comum a doação de sangue e, em menor proporção, também a doação de órgãos. Mas então, por que, em nosso país, falar sobre a doação de corpos ainda é um tabu?

 

O filósofo francês Auguste Comte, há cerca de dois séculos, conceituou o altruísmo como uma conduta humana contrária ao egoísmo, que beneficia o próximo de maneira natural, instintiva, não interesseira. É a noção de que buscamos, involuntariamente, ser úteis ao mundo, como se esse fosse nosso propósito. Um propósito de vida que, aparentemente, termina após a morte.

 

Preparação de aula no Departamento de Morfologia na UFSM

Permeada por inúmeras polêmicas, a utilização de corpos humanos e animais para estudos anatômicos é uma prática existente na maior parte das instituições de ensino brasileiras. Não há um consenso sobre o nascimento da anatomia na história da humanidade, porém, estudos indicam que foi Herófilo da Calcedônia (335 a.C. — 280 a.C.) que entrou para a história como o primeiro homem a utilizar um cadáver humano para estudo. Hoje, tudo o que sabemos sobre o funcionamento do organismo humano deve-se aos séculos de estudos de anatomistas.

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Na Europa, os cadáveres de criminosos foram utilizados durante séculos em estudos anatômicos; posteriormente, foram substituídos por cadáveres não reclamados (que não foram procurados/identificados por parentes ou responsáveis legais) e, nos últimos 50 anos, os corpos adquiridos através de doações voluntárias são a maior fonte de cadáveres para estudo, de acordo com pesquisa de Elizabeth Neves de Melo e José Thadeu Pinheiro. No Brasil, no entanto, a prática de doação de corpos ainda é incomum, pouco falada e encarada com estranheza no âmbito social. A maior parte dos corpos que são utilizados nas escolas de anatomia do país são cadáveres não reclamados.

 

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Departamento de Morfologia é onde se realizam os estudos com corpos humanos e animais. É no subsolo e no primeiro piso do prédio 19, no campus sede da Universidade, que os corpos são conservados, preparados e dispostos nos laboratórios de ensino, inteiros ou em partes, para serem estudados por alunos de treze cursos de graduação e dois cursos técnicos. Um dos professores de Anatomia Humana, Carlos Eduardo Seyfert, afirma que o Departamento possui capacidade para ministrar quatro aulas ao mesmo tempo, com material para atender, concomitantemente, cerca de cento e cinquenta alunos.

 

Preferindo não falar em quantidade exata, Seyfert explica que o material humano existente no Departamento é mais escasso se comparado ao animal, que é extremamente mais fácil de adquirir. No entanto, o professor afirma que não há falta de material; o que há é uma preocupação futura com o desgaste devido a manipulação dos corpos atualmente estudados e com a pouca oferta ao longo dos anos. 

 

Temendo esta escassez de corpos humanos para estudos, o Departamento de Morfologia deu início, em junho de 2016, ao Programa de Doação Voluntária de Corpos. Sob coordenação de Seyfert e baseado no Artigo 14 da Lei 010.406-2002, do Código Civil Brasileiro, o Programa visa conscientizar as pessoas sobre a importância da doação de corpos e auxilia os doadores voluntários no encaminhamento da documentação necessária para a legalização do ato.

 

Pelo Programa de Doação Voluntária de Corpos, o Departamento de Morfologia, já recebeu a doação de três corpos humanos, desde julho de 2016. Na situação de cadáver não reclamado, o último corpo que o Departamento adquiriu foi recebido do Instituto Médico Legal (IML) de Porto Alegre no ano de 2010.

Legislação para utilização de corpos em estudos

 

A lei 8.501/92 regulariza a utilização de cadáveres para fins de ensino e pesquisa. Ela define que o cadáver não reclamado junto às autoridades públicas (que não tenha documentação e nenhuma informação referente a endereço de parentes ou responsáveis) pode ser liberado e encaminhado para um centro de estudos na área da saúde. Entretanto, antes disso, é necessária a publicação de nota de falecimento nos principais jornais da cidade, a título de utilidade pública, por dez vezes em um prazo de trinta dias.

 

Apenas os cadáveres de morte natural – doença contraída ou idade avançada – podem ser encaminhados para estudo e pesquisa, visto que não haverá responsabilidade alheia a apurar. Quando houver indício de que a morte tenha resultado de ação criminosa, o cadáver não poderá ser destinados a estudo, pois há necessidade de esclarecer as circunstâncias em que se deu o fato.

 

Material humano do Departamento de Morfologia da UFSM

Procedimentos para a doação voluntária de corpos

 

“A conscientização da família é crucial”. Esta é a frase dita pelo professor Seyfert quando questionado sobre o que é necessário para que a doação voluntária se concretize após o óbito do doador cadastrado. Ele explica que, mesmo se todos os documentos estiverem encaminhados legalmente, se a família da pessoa falecida não autorizar, a doação voluntária do corpo não é efetivada.

A lei 010.406-2002 permite a disposição gratuita do corpo depois da morte, no todo ou parte dele, para fins científicos.

Na doação em vida, o doador deve: emitir três vias de uma declaração assinada por ele e três testemunhas, todas com firma reconhecida em cartório, declarando que, em pleno gozo de suas faculdades mentais, deseja fazer doação espontânea do seu corpo após falecimento, para fins de estudo e pesquisa.

Para o corpo doado pela família, o familiar ou representante legal do doador deve: emitir declaração que contemple o desejo de fazer doação espontânea do corpo de seu parente, também com reconhecimento de firma, do responsável e das três testemunhas.

Tanto na doação em vida quanto na doação pela família, é preciso especificar para qual centro de estudos o cadáver deve ser encaminhado. Seyfert conta que, atualmente, o número de intenções para o Programa de Doação de Corpos da UFSM é de 18 pessoas. Ele explica que é um número pequeno se comparado a universidades com mais tempo de programa de doação: “Na Universidade de São Paulo, com 4 anos de programa, existem mais de 200 doadores cadastrados e 28 corpos doados; a Universidade Federal de Minas Gerais tem mais de 1000 cadastrados e cerca de 50 doações concretizadas, com 19 anos de programa”.

 

De acordo com Seyfert, cada programa de doação voluntária é norteado por uma lei e apresenta particularidades. Ele explica que, na UFSM, poucos sabem sobre a existência do Programa porque, além de ter sido criado recentemente, não houve uma grande divulgação: “Não foi intensificada essa divulgação porque nos preocupamos com números grandes; temos condições de receber corpos a qualquer momento aqui, mas se aparecer um número muito grande pode ser que cause desconforto”.

 

Questões culturais que permeiam a (não) doação

 

Questionado sobre o porquê de, no Brasil, não ser comum a prática de doação de corpos, o professor Dorival Terra Martini, que também ministra aulas de anatomia na UFSM, opina que o fato é baseado em questões culturais: “Não temos esta cultura de nos doar; a própria doação de órgãos para transplante enfrenta um grande problema no Brasil, pela falta de doadores, que decorre da cultura do nosso povo; com a doação de corpos não é diferente”. Além disso, Martini expõe que a cultura de enterrarmos os corpos e irmos visitá-los em datas especiais, como no dia de finados, não são práticas tão usuais em países com menor extensão territorial: “Em alguns países da Europa, por exemplo, onde é caro manter um corpo sepultado, a família acaba optando com mais frequência pela doação, pela função social de contribuir para o ensino e a formação de novos profissionais de saúde, ao invés de deixar o corpo lá se decompondo”.  

 

Uma pesquisa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) aponta que em países como Japão, Estados Unidos e Alemanha, o processo de doação é bem mais difundido que no Brasil. Mais do que isso, na Índia, o governo incentiva doações voluntárias de corpos para assegurar que não exista escassez deste material em instituições médicas. Portugal é outro país que apresenta-se normativamente mais definido que o Brasil, pois tem uma legislação que regulamenta diretamente a doação de corpos e prevê que todos os cidadãos nacionais são potenciais doadores; para caso de oposição, a pessoa que não quer doar seu corpo precisa inscrever-se no Registro Nacional de Não Doador, do Ministério da Saúde. As informações são de uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que faz um estudo comparativo luso-brasileiro sobre o tema.

 

Por que, então, não utilizar material sintético?

 

A utilização de corpos humanos e de animais para estudos anatômicos é motivo de discussões no mundo todo. As análises bioéticas questionam a racionalidade da utilização de seres vivos para estudos e a conduta social em meio aos avanços da ciência. No entanto, para muitos professores, estudantes e cientistas da área da saúde, a utilização de cadáveres é considerada de grande importância, senão essencial.

 

Material sintético do Departamento de Morfologia da UFSM

A estudante de Fonoaudiologia da UFSM, Jainara Medina Teixeira, que têm aulas no Departamento, diz que, embora as empresas se preocupem com a confecção de materiais sintéticos com características muito próximas da realidade, um estudo diretamente no corpo humano e/ou animal prepara melhor o profissional para enfrentar situações adversas. “O material sintético vai ser normalmente um igual ao outro, podendo apresentar pequenas diferenças; já um estudo com cadáveres proporciona maior variedade no aprendizado, porque cada corpo pode apresentar algumas características diferentes, em relação à localização e trajeto de nervos, veias e músculos, por exemplo”, analisa Jainara.

As fotografias utilizadas nesta reportagem foram autorizadas pelo Departamento de Morfologia da UFSM.

 

Reportagem: Claudine Freiberger Friedrich

Fotografia: Rafael Happke

Arte: Giana Bonilla



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