Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 27 May 2021 14:10:53 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post425 Wed, 15 Feb 2017 19:08:04 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2017/02/15/post425/

No Brasil, a visibilidade bissexual é muito reduzida. Existem poucas pesquisas científicas sobre suas especificidades e há pouca organização coletiva em torno do debate. Marina Martinuzzi é mulher e bissexual. Essa condição permite que ela perceba os pontos em que esses aspectos se cruzam, e é isso que dá forma à sua fala.

Ela compreende como um problema a dificuldade que a educação tem de abrir espaço para a discussão da sexualidade, de maneira geral, e, especialmente, das expressões de sexualidade desviantes do padrão heteronormativo. Seu discurso tem como questão central o reconhecimento – ou a falta dele: quem não identifica no outro uma semelhança, não consegue se organizar enquanto grupo e, consequentemente, tem pouco poder político. Com a Arco ela falou sobre a descoberta da sua bissexualidade, a dificuldade de se encontrar nas personagens da mídia e os problemas que os bissexuais enfrentam enquanto grupo. Confere:

Como foi o contato com a sua sexualidade ao longo da infância e início da adolescência?

Acho que a primeira vez que tive contato com alguma coisa fora das expressões heteronormativas foi quando vim morar em Santa Maria, entre 2010 e 2011. Por mais que eu já tivesse “ficado” com uma mulher, foi só nesse momento que comecei a sentir alguma coisa diferente de só um beijo em uma festa. Nunca tinha parado pra refletir que não sou hétero. Eu lembro que falava: “Ah, não quero rotular! Fico com pessoas, independente do sexo. Eu gosto de pessoas”.

Existe uma coisa sensível em você se identificar enquanto sujeito sexualmente ativo na sociedade e assumir essa característica: “sou bissexual” ou “sou lésbica” ou “sou gay”. Querendo ou não, é um fato político, porque a população LGBT é marginalizada, sofre preconceito. Eu só me assumi bissexual depois de um tempo, acho que quase um ano depois consegui pensar sobre tudo isso. As primeiras conversas que tive com a minha família recaíam em estereótipos: de uma pessoa promíscua, de alguém que não decidiu o que quer fazer da vida. “Isso acontece em uma festa? Tu vai ficar com homem e com mulher indiscriminadamente?”. A sexualidade ainda é tabu, não tem visibilidade. O movimento LGBT, como um todo, tem problemas neste sentido, de visibilizar só a luta dos homens gays – muito mais representada e pautada. Isso é problemático, porque invisibiliza e deixa de tratar a bissexualidade em outras esferas, como a das políticas públicas, da saúde, da saúde das mulheres.

A proximidade com o termo [bissexualidade] só chegou quando pesquisei sobre isso, procurei textos e relatos. Estar no movimento estudantil, feminista e LGBT facilitou bastante o contato. Para pessoas que não têm nenhum envolvimento com isso se torna muito mais difícil entender.

Qual foi o papel da sua família nesse processo? Vocês falam sobre o assunto?

A gente fala às vezes. Há um tempo, minha mãe falou “bissexual”, eu achei genial porque ela nunca tinha falado de mim enquanto bissexual, foi massa (risos). Depois que contei, namorei uma menina e isso parece que ficou estabilizado: “a Marina está com uma mulher, então ela já se decidiu”. Acontecem muitas interações preconceituosas no dia a dia. Às vezes, quando saio, minha mãe fala coisas como “vê se pega um cara bem bonitão, vê se troca um pouco, acho que vai te fazer bem”. Eu me considero muito privilegiada por também ter tido essa compreensão em casa. Por mais que aconteçam esses comentários, nada me afetou tão bruscamente a ponto de eu repensar ou de me castigarem por assumir essa condição.

Como foi quando você contou para os seus amigos?

Foi mais tranquilo entre os amigos, porque acabávamos compartilhando festas, envolvimento com pessoas. Eu tenho várias amigas lésbicas e amigos gays. Apesar de me identificar bem mais com mulheres, não excluo a possibilidade de me interessar por homens, e acho que neste sentido existe um pouco de resistência. Então, já ouvi alguns comentários, como “só falta pegar homem agora”.

Claro que esses comentários vêm de um ambiente completamente saudável e íntimo, então encarei como uma brincadeira e respeitei a opinião dessa amiga lésbica. Acho que existe muito respeito e que essa compreensão está sendo construída no dia a dia. Nós reafirmamos essa orientação por entender a sua importância política, a importância do ativismo LGBT como um todo para a conquista da igualdade de direitos. Com os círculos de amizade, em que nós prezamos pelas pessoas, as admiramos por elas serem quem são de fato, penso que, quanto menos julgamento acontecer, mais fácil o relacionamento sincero e essas trocas de vivências que englobam tanta subjetividade.

Você acha que a ausência de pessoas públicas assumidamente bissexuais reflete na compreensão da sociedade sobre esse tema?

Essa representação midiática é fundamental porque, se ela existir, o indivíduo vê que é possível não ser hétero. Mas não tem como condenar as pessoas que não se assumem, porque ainda existe muita discriminação.

Se a pessoa sai do armário e fala “eu sou bissexual”, ela dá margem para outra pessoa ao lado falar “eu também sou bissexual, vamos falar sobre isso, como foi com a tua família? Como foi com os teus amigos?”. A representação de figuras públicas é importantíssima nesse sentido também, de ter com quem se reconhecer. Lembro de uma matéria com a [cantora] Ana Carolina, que foi capa da Veja, quando se identificou como bi. Foi um dos momentos em que existiu essa discussão, porque todo mundo chamava ela de “machorra” e “sapatão”.

Na sua opinião, existe alguma cobrança sobre se “provar” como bissexual?

Uma amiga lésbica estava comentando, em conversa com outra amiga bissexual, os últimos relacionamentos dela, que foram só com homens. Então essa minha amiga lésbica falou: “ah, mas então cadê tu beijando menina?”, e ela se posicionou: “eu não preciso ficar beijando menina na sua frente pra comprovar que eu sou bi”. Então, muitas vezes, existe essa necessidade de comprovação, mesmo por parte de pessoas LGBTs. Se você não pode nem contar com o reconhecimento de pessoas que minimamente conhecem o que você está sentindo, como é que você espera que seja recebido por quem está fora dessa comunidade? Não preciso ficar anotando as mulheres e os homens com quem fiquei pra provar que sou bissexual.

Há uma certa contradição no que se refere à “promiscuidade”, não? Isso porque, ao mesmo tempo em que se pede para que bissexuais provem a sua sexualidade ficando com homens e mulheres, isso é visto como negativo.

É bem uma contradição mesmo, e ela existe hoje ainda muito latente, muito visível. As pessoas cobram que nós beijemos homens e mulheres e, se chegamos a expressar isso na frente de alguém, recai num outro estereótipo de “ah, tá pegando todo mundo”.

Isso só existe por não haver uma articulação maior. Vemos opiniões, textos que denunciam esse discurso pronto da promiscuidade, só que isso acontece de uma forma bem esparsa: sai um texto aqui, tem outro blog ali, mas você vê que não existe uma unidade que possibilite dizer “eu não preciso dar explicação”. Isso incide muito mais sobre as mulheres, porque é a mulher que é a “puta”, a que está “ficando com todo mundo, que está enlouquecida, bêbada”. Ao contrário dos homens, porque “se ele deu um beijo triplo, ele só estava curtindo”.

Em relação às mulheres, existe também o problema da fetichização.

Sim, se tem duas mulheres se beijando, sempre vai ter um cara que vai querer se meter. Isso se vê em festa, em grupo no Whatsapp, em conversa. A bissexualidade também recai nessa desculpa de “ah, mas tu não é bissexual?”, sendo que isso desrespeita a subjetividade, o que a pessoa está afim de fazer no momento.

As mulheres bissexuais são fetichizadas porque [se pensa]: “se elas podem satisfazer os homens, porque elas vão querer satisfazer as mulheres?”. Dentro desse sistema machista que a gente está inserido, um homem pensa que “se ela pode satisfazer os dois, por que eu não posso estar aí também?”. E isso acontece por não haver um grupo fortificado que consiga se identificar, se expressar e que consiga afirmar: “sou bissexual e a minha sexualidade não está para satisfazer o que tu pensa e deseja pra ela”.

Parece um ciclo vicioso. Falta essa identificação dos indivíduos enquanto bissexuais, o que faz com que eles não se articulem entre si, o que faz com que o tema não tenha visibilidade… E começa de novo. Como resolver isso?

Primeiro, a importância de não ter medo de assumir isso enquanto posicionamento político. Acho que isso, além de fortalecer o diálogo e a organização, consegue mudar a sua própria experiência individual. Porque você não vai ter mais medo quando vierem jogar uma piadinha. Você, enquanto indivíduo, sabendo dessa importância de se colocar e falar: “não fala desse jeito” ou “respeita porque existe um grupo aqui, existem essas pessoas, existe minha forma de expressar a minha sexualidade”. A visibilidade só é construída quando, de fato, as pessoas conseguem enxergar outras que passam por situações semelhantes, e a partir disso construir essa rede de sentimento e discursos.

Repórteres: Kauane Muller e Paola Dias
Fotos: Rafael Happke

]]>
Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post357 Fri, 21 Oct 2016 18:05:03 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2016/10/21/post357/ “Por mais conservador, machista e repressivo que possa ser o tradicionalismo, continuam os gays fazendo parte do Movimento”. A frase é de Édipo Göergen, mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele se interessou pela temática LGBT ainda no final da graduação em História e decidiu continuar a pesquisa na sua pós-graduação.

 

Diversas motivações guiaram o pesquisador durante o estudo sobre identidades homossexuais no movimento tradicionalista. A vontade de se inteirar sobre o papel dos homossexuais dentro dos Centros de Tradições Gaúchas (CTG), de acordo com Édipo, era uma delas.

 

Primeiro, o mestrando pretendia escrever sobre espaços gays da cidade onde residia, Santo Ângelo, mas o evento do casamento homossexual coletivo – que iria acontecer em um CTG de Santana do Livramento e foi muito abordado pela mídia – fez com que Göergen mudasse o foco do trabalho. Além disso, por ser homossexual e por ter feito parte do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Édipo sentiu o dever de mudar o cenário de preconceito que existe nesse meio.

 

“Me senti responsável em ajudar a dar visibilidade à essa realidade, já que muitas pessoas, principalmente as que se mantinham contrárias ao referido casamento, acreditavam não existir gays nos CTGs, ou até mesmo, que o MTG não seria lugar para os gays”, relatou o pesquisador.

 

 

As questões de gênero e sexualidade são assuntos complicados para a ciência e, segundo Édipo, mais ainda, para o campo da Geografia. A relação da pesquisa com o campo tem a ver com o conceito de territorialidade, uma das cinco categorias de análise do globo terrestre. “Compreendo o Movimento Tradicionalista Gaúcho, ou então o tradicionalismo, como uma territorialidade, ou seja, para alguns autores da Geografia, a parte simbólica de um território. Da mesma forma, os núcleos de encontro dos tradicionalistas, como os Centros de Tradições Gaúchas e os eventos promovidos pelo MTG, como territórios”, disse Édipo.

 

O pesquisador baseia-se no território aliado à ideia de identidade. Os dois conceitos conversam, porque a identidade significa a união de um grupo de pessoas que representam os mesmos ideais e, consequentemente, o mesmo território. Assim, o MTG se caracteriza como um espaço onde os indivíduos expressam uma identidade e um território. “A questão é: como um mesmo indivíduo lida com identidades tão paradoxais, a tradicionalista e a homossexual? Já que, levando em conta os últimos estudos, cada indivíduo pode portar inúmeras identidades, dependendo da circunstância em que se encontra”, comenta o pesquisador.

 

A dissertação terá outras fases para atingir os objetivos do autor. Uma delas, vai ser a realização de entrevistas com membros homossexuais do MTG, para que ele entenda como ocorre a relação entre identidade e territorialidade. O pesquisador apresenta a dissertação do mestrado no final desse ano.

Reportagem: Laura Lis Boessio e Marina Fortes

Fotografia de capa: Facebook do Édipo
Fotografia: Camila Mildner

]]>
Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post404 Fri, 21 Oct 2016 17:55:04 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2016/10/21/post404/ Se meus alunos reparam no relógio do meu pulso e perguntam onde eu comprei, tenho o direito de dizer que foi presente do meu namorado. Assumir-se em sala de aula, me parece, é o mais prosaico e banal, mas também complexo e revolucionário, ato de ser quem você é”.

 

A fala é do professor Ricardo, que ensina literatura e língua espanhola em um curso pré-vestibular de Santa Maria. Ela reflete um dilema presente no cotidiano de parcela significativa de profissionais da educação, que enfrentam o preconceito no ambiente escolar.

 

O debate sobre gênero e sexualidade em ambientes educacionais ainda é questionado por pais e professores, porque implica não apenas a relação da escola com a educação das crianças, mas também com sua formação em um sentido mais amplo, além de crenças familiares e religiosas, por exemplo. Até mesmo os professores têm dificuldade de lidar com a discussão nas escolas – em parte pela complexidade do tema, e das implicações que pode gerar para as crianças e as famílias, em parte porque existe uma grande deficiência na formação dos profissionais de educação, que, em geral, não recebem instrução adequada para abordar esses debates em sala de aula.

 

 

 

Quando a sexualidade bate à porta da sala de aula

O educador e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Filipe Gabriel Ribeiro França, se interessou por essas questões durante o seu período de formação no Mestrado em Educação da UFJF. A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas narrativas com sete professores que se autoidentificam como homossexuais. “Assumir-se enquanto professor/a homossexual organiza a forma com que o sujeito se comporta dentro da escola, vivenciamento um contínuo processo de negociação com o outro e consigo mesmo. Ao mesmo tempo tal atitude é um ato político que expõe as múltiplas maneiras possíveis de vivências da sexualidade”, explica França.

 

Uma das histórias contadas pelo pesquisador é a de Hermógenes, professor homossexual de anos iniciais do ensino fundamental da rede pública na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. França mostra como o professor constrói a sua identidade enquanto docente homossexual e as relações que se formam no âmbito escolar. Hermógenes se tornou referência para seus colegas de trabalho na questão da homossexualidade, o que, segundo a pesquisa, acaba por cooperar para uma desconstrução do estereótipo do homem homossexual.

 

França acredita que a presença de pessoas como Hermógenes nas escolas é capaz de provocar mudanças de visão nas comunidades escolares, colocando todos para pensar na diversidade. “@s professor@s homossexuais instigam e provocam os outros e a si mesm@s a repensarem as práticas sociais que dão sentido e regem a sociedade contemporânea”, explica.

 

Mas não só as relações sociais e as perspectivas culturais são impactadas com essa presença nas escolas. Outras questões emergem quando se aprofunda a discussão sobre esse tema, tais como a sexualidade das crianças, a educação sexual na escola e o estudo de gênero. Segundo França, a sexualidade das crianças é constantemente reprimida no ambiente escolar, pois as escolas tendem a ignorar o fato de que os debates sobre gênero e sexualidade fazem parte da experiência de vida e da formação dos alunos. “A pessoa não chega na escola e deixa a sua sexualidade pendurada num cabide do lado de fora do portão, pelo contrário, ela entra no espaço escolar carregando-a consigo, pois é impossível separar-se dela, ela nos constitui”, explica. A sexualidade, assim como a cor da pele, a etnia, o gênero, entre outras características, não são escolhas.

 

A discussão de temas como gênero e sexualidade nas escolas não podem ser reduzidos à ideia de que a educação sexual é o “ensino de sexo” para os alunos. Muito além disso, é uma forma de abordar assuntos que mais cedo ou mais tarde aparecem e devem ser tratados com cuidado, porque é um aspecto importante na formação da identidade das crianças e adolescentes. Laura, que é professora de fotografia no ensino superior, defende que as escolas e universidades devem oferecer esses debates, e acrescenta que cada ambiente exige didáticas e metodologias diferentes adaptadas a sua realidade.

 

É o que também defende Ricardo, o professor do começo da reportagem. Para ele, “a não abordagem deste tema é prejudicial, não ao professor, mas ao aluno, que pode tornar-se uma pessoa defasada, sem conhecimentos básicos para se apresentar como um sujeito crítico na sociedade”.

 

Outro ponto pouco falado, mas muito importante é o da representatividade dentro da sala de aula. Para alunos que estão começando a entender a própria sexualidade, conhecer alguém homossexual em posição de destaque, nesse caso os professores, é de extrema relevância. Laura diz que assumir a sexualidade é um modo de “tratar com naturalidade questões naturais” sobre os sujeitos. É propiciar a dissipação das ideias preconceituosas em torno de pessoas que são iguais a qualquer outra.

Reportagem: Sabrina Cáceres e Mariana Flores
Infográfico: Juliana Krupahtz
Foto de capa: Júlia Goulart

]]>
Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post386 Fri, 16 Sep 2016 17:56:10 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2016/09/16/post386/ O senso comum diz que, para a religião, a sexualidade praticada entre pessoas do mesmo sexo é um pecado ou desvio daquilo que é considerado natural. Mas a religião é, ao mesmo tempo, uma das principais fontes de socialização: seus ensinamentos oferecem respostas para questionamentos profundos sobre a vida, e as regras e valores de uma igreja apontam modelos de conduta ainda hoje fundamentais para a nossa compreensão de sociedade.

 

Essa dicotomia entre Igreja e homossexualidade, aparentemente irreconciliável, pode se tornar um elemento de sofrimento para pessoas que desejam viver sua orientação sexual sem abandonar uma relação pessoal com a fé e com o sagrado. E foi essa a preocupação central da psicóloga Alexandra Ribeiro Leite no desenvolvimento de sua dissertação de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco.

 

“Percebi que a religião ocupava um lugar especial no discurso dos clientes que [eu] acompanhava, regulando suas escolhas e condutas: ora a religião e seus dogmas traziam alívio e conforto, ora propiciavam culpa e sofrimento; sendo estes últimos associados, na maioria das vezes, às vivências sexuais”, conta a pesquisadora.

 

A pesquisa acadêmica, defendida no começo deste ano, teve como objetivo compreender  de que forma homens com práticas homossexuais lidam com as “estigmatizações” religiosas, e encontram pra si mesmos um lugar de permanência no catolicismo. A Igreja Católica foi escolhida como base para a pesquisa por ser a religião com maior número de fiéis no Brasil, além de congregar uma visão particular sobre a homossexualidade. Alexandra explica que “a visão dos fiéis católicos sobre a homossexualidade está marcada pelo preconceito, resultando, muitas vezes, no afastamento dos homossexuais das igrejas e dos serviços religiosos”.

 

Link do documento Persona Humana

 

A pesquisadora utilizou a metodologia conhecida como “histórias de vida” para conversar com homens católicos que encontraram formas de se conciliar com os dogmas da Igreja, e que procuraram nela refúgio e acolhimento após enfrentarem diversas dificuldades para aceitar sua sexualidade. Os resultados da pesquisa apontaram que a adesão de um fiel a uma religião não acontece, necessariamente, a partir da obediência total de seus dogmas e doutrinas. Ao contrário, cada pessoa realiza “negociações” entre o novo e o tradicional, o que permite ajustes entre as crenças religiosas e a acomodação dos dogmas mesmo quando existem restrições explícitas.

Alexandra também explica que para os homens entrevistados a aceitação da homossexualidade frente às restrições das crenças religiosas acontece de diferentes formas, visto que “a dificuldade também pode estar relacionada à maturidade e até mesmo à forma como cada sujeito vivenciava sua homossexualidade”, explica.

 

As conversas com os homens que participaram da pesquisa apontaram, entretanto, um distanciamento das práticas cotidianas e do engajamento com a Igreja. A maioria dos entrevistados atualmente apenas frequenta as missas. “Interpretamos essa postura como um reflexo do estigma e das desregulações religiosas que eles, em suas negociações com os conflitos, foram estabelecendo para dar sentido a vivência de sua sexualidade e vivência religiosa”, conclui Alexandra.

 

O que importa para esses homens é a aceitação de Deus: “eles compreenderam que sua relação com Deus é mais importante do que ser aceito pela sociedade. Assim, os dogmas e discursos propalados pela Igreja assumiram uma menor importância na constituição da subjetividade dos sujeitos. Desta forma, eles passaram a se aceitar, uma vez que compreenderam que se Deus os amava, eles também teriam que se amar”, conclui a pesquisadora.

 

ARCO ENTREVISTA

“Quero ajudar outras pessoas que estão se descobrindo para que não abandonem a fé, pois Deus os ama acima de tudo”

A vivência da orientação sexual na Igreja, no Seminário e na comunidade

 

Jerônimo*, de 23 anos, é homossexual e foi seminarista por mais de seis anos – período de formação e amadurecimento para se tornar um padre, onde são aprimoradas as questões humanas, intelectuais, espirituais e pastorais no indivíduo através da oração, da fraternidade, de estudos e do trabalho na comunidade. O rapaz contou para a Arco sobre sua experiência e como foi conviver com sua sexualidade durante o seminário.

*nome fictício para assegurar a identidade do entrevistado

 

Quando e por que você entrou no Seminário?

A minha relação com a igreja, até os 7 anos, era de um católico relaxado, que não participava e nem praticava. Certa vez, decidi começar a ir na missa e passei a atuar desde os trabalhos mais leves aos mais pesados, como limpar a igreja, tocar sino, participar da liturgia… Passava um bom tempo da minha vida na igreja, sendo mais frequente no Ensino Médio. Com o tempo, senti uma forte vontade de pertencer ao Seminário e conhecer mais de perto. Foi uma experiência muito boa que foi acontecendo aos poucos.

 

Quais eram suas expectativas com a Seminário?

Eu desconhecia o que era ser seminarista. O ambiente era novo e tinha muita disciplina: horários definidos para estudar, descansar, orar… Uma das novidades que encontrei lá foi a terapia, em grupo e individual. Assim fui trabalhando minha sexualidade nas sessões e consegui canalizar o ato de impulsão por sexo.

 

Eu soube, desde pequeno, que sou homossexual, isso me levou a entender melhor e a seguir corretamente os passos do Seminário, onde encontrei um acolhimento por parte dos padres que não encontro em outros lugares. Em conversas particulares, confissões e aconselhamentos, encontrei um apoio grandioso – como de fato é o amor de Deus por todas as pessoas. É um convite a viver a sexualidade de uma forma diferente. Durante o tempo em que estive no Seminário contei com a ajuda da terapia em todos os momentos, e nunca me senti frustrado.

 

 “Quem não tem amor e não tem uma boa acolhida com seu próximo, não pode se dizer cristão”.

 

 

Por que você saiu do Seminário?

Fiquei 6 anos e meio, tive uma experiência muito forte e intensa e fui muito feliz. Minha saída se deu por problemas familiares: minha família pediu que eu pensasse bem sobre continuar ou não, pois me distanciei muito deles – já que tinha outros serviços a fazer. Mas a minha decisão se deu a partir do momento em que tive que olhar mais de perto para a minha mãe, que passou por uma separação e veio morar comigo. A minha missão agora é cuidar da minha mãe, pois de nada adiantaria cuidar de outras pessoas, sendo que minha família precisa de mim.

 

Para os padres, minha saída se deu de forma bem difícil, porque viam em mim sinais de uma vocação muito forte: eu abraçaria a castidade, a pobreza e a obediência. Eles acabaram ficando tristes, porque houve um tempo investido e contavam comigo.

 

Como foi, para você, contar para sua família que é gay?

Essa foi uma decisão bem forte, demorei muito tempo para falar para minha mãe que sou gay. Foi recentemente, quando achei que era o momento certo. Tudo na vida tem um momento certo, um momento para tomar decisões e fechar ciclos. Muitas pessoas próximas já sabiam, e eu vivo minha homossexualidade de forma discreta e tranquila. Mas confesso que tive muito medo de contar para minha mãe, porque certa vez, quando eu mencionei que sou homossexual, ela não aceitou. Mas agora lidou de uma maneira que me surpreendeu. Acho que toda mãe tem medo que seu filho homossexual vá se “transformar” ao se assumir, e a minha tinha medo disso, mas eu me identifico como homem e não quero mudar isso.

 

Você conhece algum católico que prefere esconder sua sexualidade por medo de ser rejeitado?

Não, na verdade aconteceu alguma situação assim com um jovem que também era homossexual e descobriu algo de mim. Nós conversamos sobre isso abertamente e ele me perguntou se eu me sentia amado por Deus, porque eu continuava na Igreja.

 

“Me sinto tão amado por Deus sendo quem eu sou! Mais do que sinto [ser amado] pela minha mãe, em relação a minha sexualidade”.

 

 

Há preconceito dentro da igreja por parte dos fiéis?

Sim, acontece. Alguns fiéis agem de forma machista, são preconceituosos, mal resolvidos, mal orientados por outras pessoas, mantém um preconceito altíssimo e desonesto, sem viver os preceitos cristãos – pois a caridade é o princípio mais forte do cristianismo.

 

Quem não tem amor e não tem uma boa acolhida com seu próximo, não pode se dizer cristão. É lógico que dentro da própria Igreja há pessoas que se escandalizam com homossexuais, mas isso acontece em todos os lugares: na escola, na faculdade, no grupo de amigos, na balada… Então, não seria diferente dentro da Igreja. Mas deve ser feito um trabalho maior de conscientização de que os homossexuais são acolhidos e amados dentro da Igreja, e também em outras partes da nossa sociedade.

 

Por que você continua sendo católico?

Eu continuo católico porque eu amo a Igreja Católica e quero continuar assim. Me sinto tão amado por Deus sendo quem eu sou! Mais do que sinto [ser amado] pela minha mãe, em relação a minha sexualidade.

 

Em relação ao pronunciamento do papa sobre os homossexuais, digo que de forma alguma ele é moderno, contemporâneo ou revolucionário. A moral sexual, documento que afirma o dever da Igreja para acolher os homossexuais, existe desde a reforma protestante e sempre orientou sobre isso. A imprensa se escandalizou porque não estuda de fato o que a Igreja pensa sobre certas questões, sobre assuntos do mundo.

 

Nem o papa, nem os bispos, nem os leigos tem o direito de julgar um homossexual quando ele procura a Deus. O único que pode nos julgar é Deus. E se um homossexual procura de coração o Senhor, de forma alguma Ele vai rejeitá-lo ou deixar de acolher esse jovem que está sendo sincero. Então, de fato quero continuar e quero ajudar outras pessoas que estão se descobrindo para que não abandonem a fé, pois Deus os ama acima de tudo.

 

Reportagem: Gabriela Pagel, Maira Trindade e Maria Júlia Corrêa
Infográficos: Juliana Kruhpatz

]]>
Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post349 Fri, 16 Sep 2016 17:56:03 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2016/09/16/post349/ Uma trajetória de pesquisa que nasce de um desajuste social. É assim que Dieison Marconi, que ganhou o prêmio de Melhor Dissertação de 2016 pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), define seu percurso acadêmico.

 

A dissertação “Documentário queer no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representações das personagens LGBT” teve orientação do professor Cássio Tomaim, no curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM. A pesquisa analisa como são representadas personagens lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais nos documentários produzidos na região sul do país durante 14 anos. Ou, pelas palavras de Dieison, o objetivo do trabalho é dar um close.

 

Dieison é jornalista, e atualmente faz doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As motivações da pesquisa, suas considerações sobre os documentários analisados e a importância do prêmio foram alguns dos temas abordados na entrevista para a revista Arco.

 

Como foi a escolha desse tema de pesquisa e por quê?

A escolha desse tema foi tanto pessoal quanto política. No primeiro ano da graduação, entrei para o Moviola, grupo de pesquisa e extensão que trabalha com cinema, documentário e memória. Nessa época eu ainda me sentia muito desajustada, me sentia monstruosa e estava em processo de sair do armário. Quando entrei para o Moviola, comecei a me perguntar: por que não estudar os modos de produção de gênero e sexualidade nos filmes documentários? Minha trajetória de pesquisa brotou de um desajuste social. A universidade me ajudou a perceber que eu não devia me sentir culpada e continuar me machucando por me sentir tão desajustada dentro dessas estruturas sexuadas e generificadas da nossa cultura. Mas para sair do armário e tirar o peso das costas, eu senti que precisava aprender como essas estruturas funcionam, eu senti que precisava de bons argumentos para combater as violências a que eu era subjugado por ser bicha. Então, percebi também que eu queria muito entender as operações que elegem algumas pessoas como humanos, outros como desumanos e outros como inumanos. Querendo ou não, o sexo/gênero é uma categoria primária de reconhecimento. E pessoas como eu, que destoam das marcas inteligíveis de sexo/gênero são sim desumanizadas ou, pior, não são consideradas humanas. Qual a humanidade que as pessoas veem em uma travesti brutalmente assassinada? Nenhuma. Quais são os códigos que nós estamos acostumados a utilizar para definir o que é e o que não é um humano? Então vem daí a escolha desse tema de pesquisa.

 

Por que você escolheu analisar especificamente documentários?

Primeiro, porque o documentário, desde as primeiras revistas especializadas em cinema no Brasil, sempre foi discriminado, como sinônimo de um país e de um cinema subdesenvolvido. Em segundo lugar, ao contrário do filme de ficção de longa-metragem, que sempre foi considerado a vitrine do nosso cinema, o filme documentário também sofreu com um apagamento na historiografia clássica do cinema brasileiro. Além disso, são poucos os estados brasileiros que produzem (de forma contínua) filmes de ficção de longa-metragem. Nesse caso, podemos citar São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Mas todos os estados do país produzem documentários ou mesmo ficção e documentários de curta e média metragem. Além disso, os (poucos) estudos em cinema queer no Brasil raramente lançam um olhar sobre o filme documentário. Então, não podemos deixar que a ideia totalizante de estudos sobre “cinema queer” omita o fato de que o documentário nem sempre é objeto de pesquisa desses estudos. Quais são e como são os documentários queer no Brasil? O que os filmes documentários dizem sobre as pessoas LGBT? O que é documentário queer? Foram essas perguntas que persegui. Além disso, vejo o filme documentário como um campo muito frutífero de explorações estéticas e narrativas. Isso é um prato cheio para ser devorado por uma estética e uma política queer.

 

“Eu queria muito entender as operações que elegem algumas pessoas como humanos, outros como desumanos e outros como inumanos. Pessoas como eu, que destoam das marcas inteligíveis de sexo/gênero são desumanizadas ou, pior, não são consideradas humanas”

 

 

 

Como foi a seleção dos 19 filmes que fizeram parte da pesquisa?

Para essa pesquisa eu me situei na região Sul do Brasil. Resolvi fazer o recorte de documentários com personagens gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). A partir daí, eu realizei o mapeamento dos documentários com personagens LGBT que a região Sul produziu entre 2000 e 2014. A partir do início dos anos 2000, cresceu bastante a produção de documentários no país e as LGBT tornaram-se mais recorrentes em produtos midiáticos. E 2014 foi o ano que entrei no mestrado.

 

Busquei mapear os filmes nos Dicionários de filmes brasileiros, na Cinemateca Brasileira, nas Cinematecas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, nos documentos da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e em muitos festivais de cinema do país, principalmente naqueles voltados para à diversidade sexual e de gênero. Também usei tags para pesquisar no Google e no Youtube. Após fechar o mapeamento, selecionei apenas os filmes feitos por produtoras de cinema, grupos/coletivos de ativismo e ONGs. Descartei filmes feitos por universitários, por exemplo. Então, fiz uma análise dos 19 filmes selecionados. Sempre faço a ressalva de que não afirmo que esses foram os únicos filmes que a região Sul produziu em quatorze anos, mas que foram aqueles que consegui encontrar durante o processo de mapeamento. Logo, a preocupação também foi mais qualitativa do que quantitativa.

 

Dieison com colegas no dia da sua banca de defesa da dissertação de mestrado

 

Como você avalia, de forma geral, a produção de documentários sobre a temática LGBT no Sul do Brasil, no período da sua análise?

Considerando que desde 1995 a região [sul do Brasil] produziu mais de 300 documentários (entre longa, curta e média metragem), e que eu encontrei apenas 19 filmes com personagens LGBT realizados por produtoras de cinema/grupos de ativismo, podemos dizer que temos uma produção muito pequena. O que noto nesses filmes, com personagens LGBT, é que as temáticas que eles mais abordam coincidem com os temas que o documentarismo aqui do Sul aborda de modo geral. Em Santa Catarina e Paraná, por exemplo, o tema memória/história está na preferência dos realizadores, representando de 20% e 25% das produções. Aqui no Rio Grande do Sul os temas comportamento (19%) e Artes em geral (18%) predominam, mas 14% dos nossos documentários tratam de assuntos relacionados à memória/história.

 

É por isso que os documentários com personagens LGBT que cartografei para a minha pesquisa tratam de personagens LGBT históricas, como a Gilda [“Gilda, o beijo na boca maldita”, dirigido por Yanko Del Pino], Caio Fernando Abreu [“Sobre Sete ondas verdes Espumantes”, de Bruno Polidoro e Cacá Nazário] e Ivo [“Ivo e suas Meninas”, de Betânia Furtado]. Há também os filmes que se dedicam a retratar momentos históricos, como a cena LGBT na Porto Alegre dos 1970, 1980 e 1990 [como “Meu tempo não parou”, de Jair Giacomini e Sílvio Barbizan, e “Flores de 70”, de Vinícius Cruxen]. Outras temáticas abordadas foram sexualidade e envelhecimento, sociabilidades LGBT e reivindicações sociais e políticas. Então, tudo faz parte de um cenário diversificado de produção de documentário dos últimos 15 ou 20 anos.

 

Na sua pesquisa, você destaca a grande concentração de produções sobre a temática LGBT em uma mesma produtora, a Avante. E situa as contribuições de um reconhecido grupo ativista de Porto Alegre, o Somos, na construção dos roteiros. Na sua opinião, essa colaboração é capaz de expandir os modos de compreensão dos personagens para além do “senso comum” midiático?

Na verdade, não é que o Somos contribui na produção dos roteiros dos filmes feitos pela Avante Filmes. A Avante e o Somos produziram, juntos, alguns curtas-metragens. Acho muito interessante que a maioria dos filmes gaúchos que tratam das questões de gênero e sexualidade das pessoas LGBT tenham sido realizados pela Avante, que é comprometida com essas questões.

 

Em 2015, o Felipe Matzembacher e o Márcio Roelon lançaram o primeiro longa-metragem de ficção da Avante Filmes, o “Beira Mar. Os guris estão tendo um reconhecimento muito bacana. E o Somos é um grupo de ativismo que já tem um capital simbólico muito forte em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, já são muitos anos de atuação. Até o momento, a atuação do grupo tem sido em áreas diversas, incluindo a comunicação e o audiovisual. Eles contribuem para uma produção de sentidos diversos a respeito dessas pessoas de sexo/gêneros dissidentes.

 

“Eu sou uma bichona que tenta fazer ciência. E durante muito tempo a ciência nos produziu como doentes e anormais. A ciência ainda faz isso. Enquanto a ciência não produzir e disseminar novos conhecimentos, vamos continuar matando travestis na rua”.

 

 

Chamou atenção o caso do filme produzido pelo Grupo RBS, que você define como “higienizado”, onde as personagens “sofrem um apagamento” em sua representação. Como você avalia que a “representação” LGBT se configura na relação com as audiências?

De acordo com o tipo de abordagem das pessoas LGBT, eu dividiria os filmes mapeados em dois grandes grupos. No primeiro estão justamente aqueles filmes que se dispõem a apresentar uma estética e resistência de combate aos estereótipos e discriminações por meio do assimilacionismo. Nisso, eles se aproximam muito das reivindicações do ativismo LGBT brasileiro: casamento homoafetivo, leis de identidade de gênero, criminalização da homofobia e da transfobia, etc. Então, esses filmes exigem reconhecimento, visibilidade e inteligibilidade dentro de uma ordem reinante: sexuada, generificada, heteronormativa e cisnormativa.

 

E há um segundo grupo que está muito mais preocupado em quebrar com essa ordem reinante, são filmes que estão dispostos mais a incomodar do que se acomodar aos níveis de inteligibilidade cultural. São esses filmes que são realmente queer, pois perturbam tanto na forma narrativa quanto no conteúdo e na estética: são poéticos, performativos, reflexivos, estranhos, questionadores, desconstruidores. É claro que, neste ponto, são tanto as personagens quanto o olhar do diretor que possibilita essa estética queer.

 

O filme “Ivo e Suas Meninas”, da RBS, é justamente um filme que tenta higienizar ou castrar a diferença e a subversão de Ivo. Ivo foi uma drag queen (ou, talvez, uma travesti) que administrou uma casa de prostitutas em Uruguaiana nos anos 1940/1950. Então, imagina só: uma bicha, cafetina, drag queen na região da Campanha nos anos 1940? Gente, isso é uma história incrível! Mas isso foi muito sutilizado durante todo o curta-metragem, pois ficou se tentando provar a “gauchidade” da personagem. Então, ficou essa tensão entre a performatividade não normativa (drag queen) e a performatividade normativa (o gaúcho). Eu acho essa tensão ótima, mas durante a análise deu para perceber que foi essa última que prevaleceu. Ivo pode ter sido muito queer, mas o filme não é. Ainda assim, é através dele que podemos entender que a RBS já tem um projeto de memória para seus filmes que está apoiada em fortalecer a identidade tradicional do gaúcho.

 

Por que você escolheu a Teoria Queer?

Os Estudos ou Teoria Queer é uma perspectiva teórica que encontrou terreno fértil nas normas sexuadas e generificadas da cultura ocidental para se dedicar de forma antiassimilacionista, grosseiramente direta e antinormativa às críticas da identidade, à política identitária, às grandes narrativas, aos discursos hegemônicos e conservadores da sexualidade. Ela é mais radical do que algumas outras vertentes da filosofia, da sociologia e da antropologia. Escolhi justamente por isso, porque vejo nela um potencial teórico, prático, epistemológico e político muito grande. Além disso, ela não é apenas um campo de estudo. É também uma vertente de ativismo e inspira (e é inspirada por) movimentos artísticos e cinematográficos, como o cinema queer.

 

Ainda existe, na comunidade científica de Humanidades, uma certa restrição a essa vertente teórica? Você poderia explicar como a Teoria Queer se forma e qual a sua importância para os estudos de gênero?

Não sei se há uma restrição à Teoria Queer nas humanidades, nos últimos tempos tenho notado uma certa popularização desses estudos aqui no Brasil. A vinda de Judith Butler para o Brasil, em 2015, é só mais uma mostra disso. Aqui no Brasil, desde os anos 2000, temos gestado com mais profusão uma vertente de estudos queer. Mas o nascimento da Teoria Queer data do início dos anos 1990, nos Estados Unidos. E ela nasce se apropriando justamente desse termo desqualificador e pejorativo, o queer, e tenta politizá-lo. Em inglês o queer é um uma ofensa, um xingamento: bicha, traveco, esquisito, nojento, estranho. Aí já se nota uma crítica radical às normas de sexo/gênero da nossa cultura que são responsáveis pelas violências e silenciamentos daqueles que não se conformam a essas regras. Ela tem influência das obras de Michel Foucault, dos estudos de Jacque Derrida, dos Estudos Culturais e do Feminismo. Mas nem tudo é feito de influências, pois a Teoria Queer perturba muitas ideias do próprio feminismo de uma sociologia/antropologia canônica.

 

Sobre o prêmio da Compós. Seu trabalho “conversa” muito com outras áreas de Humanidades, como Antropologia, por exemplo, onde os estudos de Gênero tem ganhado cada vez mais destaque nos últimos anos. O que significa essa premiação no âmbito das pesquisas em Comunicação?

O prêmio da Compós é o mais importante das pesquisas em Comunicação. Então, para mim é simbólico que a Compós tenha premiado um trabalho com esse tema, que levanta questões e reflexões tão caras para a nossa sociedade. Me orgulho de receber um prêmio falando das travecas, das sapatonas, das bichas, de homens trans, de pessoas bissexuais e de toda essa gente abjeta. Eu sou uma bichona que tenta fazer ciência. E durante muito tempo a ciência nos produziu como doentes e anormais. A ciência ainda faz isso. Nosso problema é epistemológico e, enquanto a ciência não produzir e disseminar novos conhecimentos, vamos continuar matando travestis na rua.

 

Reportagem: Gabriele Wagner de Souza

Fotografia de capa: Tainan Tomazetti

Infográficos: Nicolle Sartor
Fotografia: Neli Mombelli

]]>
Dossiê Diversidade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/post363 Thu, 11 Aug 2016 12:39:18 +0000 http://www.55bet-pro.com/comunicacao/arco/2016/08/11/post363/ Uma pesquisa realizada por estudantes da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) demonstra que a homofobia normalmente começa dentro da própria casa. Os dados apontam que 60% das pessoas entrevistadas conhecem alguém que foi expulso de casa por ser homossexual. A mesma pesquisa relata também que 55,5% das pessoas acolheriam uma pessoa homossexual em situação de abandono familiar. Os resultados da pesquisa foram o impulso que um grupo de jovens da UFPE precisava para colocar em prática uma ideia: uma plataforma para transformar essas duas realidades em ações afirmativas. O MonaMigs está disponível no Facebook e é inspirado em projeto de hospedagem solidária, o Couchsurfing, ou seja, hospedar-se gratuitamente nas casas de moradores locais, a prática de “surfar em sofás”, em tradução literal.

A Arco conversou com um dos desenvolvedores do MonaMigs, Wallace Soares. Conheça mais sobre o projeto com a gente:

Como e quando surgiu a ideia de criar o Mona Migs?

A ideia surgiu algumas semanas antes do evento “Startup Weekend” realizado na Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) há alguns meses. O evento tem como objetivo criar um MVP – Menor Produto Viável de uma Startup. O conceito [do aplicativo] surgiu quando um conhecido de um dos integrantes passou pela situação que a Mona Migs aborda: foi expulso de casa pelos pais por ser homossexual. Houve toda uma mobilização dos amigos para encontrar um lugar para ele, que felizmente conseguiu. Então na Startup Weekend nós pensamos: por que não criar um startup que conecte as pessoas que querem ajudar com as que precisam? Assim surgiu o Mona Migs, composto por quatro desenvolvedores, três designers e uma administradora, todos estudantes da UFPE.

 Como a plataforma funciona?

Neste momento, ainda em fase de testes, funciona basicamente em dois modos: “Quero ajudar” e “Preciso de ajuda”. Mas, quando entrar em funcionamento definitivo, terá algumas funcionalidades extras, que ainda não podemos revelar. Atualmente, no site, por questões de segurança e legais, estamos realizando somente pré-cadastro. Se você quer acolher alguém é só preencher nosso formulário no site no campo “Quero ajudar” com os seguintes itens: nome, e-mail, CEP e tempo disponível para receber alguém, que assim que alguém pedir nossa ajuda entraremos em contato.

Se você precisa de ajuda, é só entrar em contato conosco através do campo “Preciso de ajuda”, responder aos itens: nome e depoimento, ou nos enviar uma mensagem. Até o momento, contamos com um total de 1049 pessoas cadastradas na plataforma, entre acolhedores e acolhidos.

 Como a plataforma se mantém financeiramente?

A plataforma conta com apoio de algumas parcerias, Diretoria LGBT da UFPE e ONG Recife Livre, que busca fortalecer o combate ao preconceito na capital de Pernambuco, mas também continuamos em procura de outras novas parcerias.

 Como está sendo a fase de testes? Tem previsão para funcionamento definitivo?

Estamos primeiramente modelando nosso site, medindo algumas estatísticas importantes para o desenvolvimento. No começo queríamos lançar somente para nosso estado, mas após ver a grande demanda do país, isso não seria mais possível, então resolvemos atender ao chamado de todos. As dificuldades estão sendo principalmente jurídicas, para garantir a ambas as partes os seus direitos e deveres, e também de segurança, queremos oferecer uma plataforma que seja segura para ambos os lados, e isso demanda muitos testes e tempo. A previsão que temos agora, de funcionamento definitivo, é final de agosto e começo de setembro.

 Qual é a importância desse tipo de plataforma no Brasil contra a homofobia?

Nós achamos que na sociedade atual, não só brasileira, o grupo LGBT ainda está sofrendo muito com o preconceito, já tínhamos uma noção que acontecem casos desse tipo, como de abandono familiar. Mas após o lançamento do cadastro, os números infelizmente foram muito maiores, a repercussão foi enorme, recebemos diariamente mensagens de apoio e agradecimento pela iniciativa tomada. Está sendo incrível o feedback, no sentido do apoio, e um pouco triste no sentido da necessidade de uma plataforma como essa na sociedade.

Reportagem: Nathalie Martins
Fotografias: Facebook do Mona Migs

]]>