Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 17 Jun 2021 21:17:26 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/arco-11 Mon, 06 Jul 2020 19:14:53 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=6232

11ª edição da revista Arco chega no mês em que a publicação completa sete anos. O tema do dossiê é o uso das mídias sociais, utilizadas para interação, divertimento, informação, educação e trabalho. Nosso olhar, aqui, é sobre os problemas mais latentes das plataformas sociais: a falta de filtros na publicação e circulação de conteúdos, as notícias falsas e o discurso de ódio. Mais do que apenas refletir sobre as temáticas, buscamos soluções para essas questões, que ganharam ainda mais destaque durante a pandemia do novo coronavírus.

O volume de fake news sobre a covid-19 é considerado pela agência de checagem de notícias Aos Fatos como uma infodemia – uma pandemia de informações. Concordamos com o alerta e acreditamos que o fact checking é uma das formas de combate à disseminação das notícias falsas. Neste sentido, além da edição que você poderá ler agora em versão digital, recomendamos que acompanhe nosso trabalho com o Mitômetro.

 

A pandemia mudou nossas rotinas, inclusive na distribuição da revista impressa, momento importante de diálogo com leitores. Por enquanto, ficamos na torcida para que as condições sanitárias logo permitam a entrega dos exemplares da Arco para quem já conhece ou está interessado em conhecer. Ao longo da semana anunciaremos novidades. Acompanhe e tenha uma ótima leitura.

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/vivemos-em-pendulos Fri, 07 Dec 2018 20:12:01 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5032 A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, após o flagelo da Segunda Guerra Mundial. O documento tinha como objetivo construir novas bases ideológicas. Por causa disso, os dirigentes das potências que evoluíram no pós-guerra, caso dos Estados Unidos e da União Soviética, encabeçaram, na Conferência de Yalta, na Rússia, em 1945, os fundamentos para uma futura paz mundial. Essa reunião formou um bloco multilateral cuja intenção era mediar conflitos de nível internacional, distanciando-se de guerras, garantindo a paz e a democracia.    

Muitos casos de violação aos Direitos Humanos pairam ao nosso redor. Aqui, na UFSM, por exemplo, ocorreram casos de racismo desde o ano passado. Na opinião de dois em cada três brasileiros, o conceito de que os Direitos Humanos servem apenas para defender criminosos está cada vez mais difuso. Apesar de ainda não existirem estudos comprobatórios, o Brasil é um dos países no qual o cerceamento à liberdade da população LGBTQI+ levou à morte de pelo menos 445 pessoas, no ano passado. Conforme a Pastoral Carcerária, o Brasil possui a terceira maior população de presos no mundo, tendo, hoje, cerca 725 mil presidiários, em um cenário onde a desobediência aos Direitos Humanos por parte das autoridades ganha força.

Foram sobre esses assuntos citados, entre outros, que Erasto Fortes Mendonça, docente aposentado da Universidade de Brasília (UNB), conversou com a reportagem da Revista Arco, antes da palestra que ministrou, no dia 5 de dezembro, durante a abertura do 1º Fórum dos Direitos Humanos da UFSM. O tema da conferência foi Educação em Direitos Humanos à luz dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, abordando suas origens históricas, pela coincidência que existiu entre a data de celebração dos Direitos Humanos com os 30 anos da Constituição Federal.

Erasto foi conselheiro do Conselho Nacional de Educação e presidente da Câmara de Educação Superior, além de ter sido professor dos cursos de Pedagogia e Licenciaturas na UNB. Ele também foi convidado pelo ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi (2005-2010), durante o governo Lula, para atuar na coordenação de um programa nacional de educação e Direitos Humanos, no Ministério da mesma área.

Veja a entrevista que a reportagem da revista Arco fez com o professor Erasto Mendonça a seguir:

ARCO: Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos feita neste ano, seis em cada dez brasileiros afirmaram que os Direitos Humanos “defendem mais bandidos do que vítimas”, como, por exemplo, criminosos e terroristas. Por que o cidadão brasileiro criou tal concepção?

Erasto Mendonça: Existem algumas reflexões que nos remetem à tentativa de explicar o porquê, no Brasil, o que diz respeito aos Direitos Humanos é entendido como defesa de bandido por uma parcela expressiva  da população. É uma característica nacional que vem de uma parte muito importante da sociedade, em que a defesa dos Direitos Humanos se consolidou durante a ditadura militar. No golpe de 64, nós vivemos períodos de obscurantismo e perseguições políticas, mortes, desaparecimentos forçados e exílio. E nós temos pessoas que eram defensoras dos direitos civis e políticos daquelas pessoas perseguidas. Nessa época, essas pessoas eram consideradas bandidas. Eram as chamadas subversivas pelo estado ditatorial. Essa é uma forma muito rasa de depreciar a importância dos Direitos Humanos, já que agora essa questão se consolida, de maneira muito forte, pelo que se expressou nesta eleição presidencial, de 2018.

ARCO: Neste ano, houve o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol), que defendia a bandeira dos Direitos Humanos. Seu falecimento repercutiu, inclusive internacionalmente, e gerou muitas discussões acaloradas, com a propagação de Fake News vindas de algumas partes, sob alegação de que a política defendia bandidos. Afinal, por que existe este conceito, por parte da população, de que defender os Direitos Humanos, também é defender criminosos?

Erasto Mendonça: É uma tendência que o nosso país tem de conservadorismo. A sociedade brasileira é claramente conservadora. A eleição é a prova disso. É uma questão de projeto de país. Daí a importância da educação em Direitos Humanos. O caso Marielle reflete, de maneira exata, o que é essa distorção da prisão e do respeito aos Direitos Humanos. Marielle não foi morta por outra razão, creio eu, apesar da paralisação das investigações. Mas eu creio que ela tenha sido morta exatamente por defender Direitos Humanos para todos, indistintamente, inclusive das pessoas que estão no mundo do crime, porque nós não podemos esquecer que essas pessoas também são pessoas humanas, tendo a dignidade de qualquer outro. Eu acho que não se recupera uma pessoa que está em confronto com a lei sem respeitar a sua dignidade, numa situação de presídio.

Professor Erasto palestra durante o 1° Fórum dos Direitos Humanos da UFSM

ARCO: Em novembro deste ano, uma caravana de migrantes partiu de Honduras e chegou a Tijuana, no México, que fica na fronteira com os Estados Unidos. Sabe-se que muitas dessas pessoas chegaram a ser recebidas a pedradas. Qual o papel dos Direitos Humanos na mediação de conflitos dessa magnitude?

Erasto Mendonça: O exílio está na Declaração de Direitos Humanos. Existe o direito de você ser recebido no país, como exilado, algo que está, também, na Declaração Universal. A questão da migração é muito anacrônica e contraditória. Os países da Europa, que são os mais avançados em sua organização interna para a colaboração com os Direitos Humanos, particularmente a França, pelo que representou a revolução francesa, da declaração dos direitos do homem e do cidadão, deveriam ser os mais abertos. No entanto, infelizmente, são esses países que mais se fecham para receberem quem vem em situação que, humanitariamente, deveria ser compreendida.

ARCO: O que significa a ONU em um contexto histórico que começou após a segunda Grande Guerra, fazendo um paralelo com a nossa atualidade, em relação à consolidação dos Direitos Humanos?

Erasto Mendonça: Eu acho que ela foi um organismo importante – e continua sendo – no sentido de reunir os países para que eles façam a sua adesão àquilo que é consensual. Isso está em vários tratados e pactos. É nesse sentido que entram os temas focais: questões raciais, questões das pessoas com deficiência, idosos, crianças, etc. Nesse sentido, a ONU induz os Estados Nacionais a respeito dos Direitos Humanos.

ARCO: Pelos episódios que se passam ao nosso redor e internacionalmente, com governos cada vez mais nacionalistas e reacionários, como no caso do presidente filipino Rodrigo Duterte, que manda executar, inclusive, usuários de qualquer tipo de droga, você acha que o mundo caminha em uma direção em que não haverá mais Direitos Humanos?  

Erasto Mendonça: Não creio. Vivemos em um período de profundo retrocesso ao conservadorismo, mas, se você analisar a linha da história, vai ver que vivemos em pêndulos. Uma hora a sociedade está bastante conservadora, na outra, como reação a isso, ela fica mais progressista. Eu não creio que tenhamos um retrocesso tão absoluto ao ponto de não pensarmos mais na existência de Direitos Humanos. Tenho a firme convicção de que, após um período de retrocesso, que eu não sei quanto tempo durará, voltaremos a uma vida mais aberta, de respeito aos Direitos Humanos. Vou citar uma frase do ex-ministro Ayres Britto, que já foi presidente do Supremo Tribunal Federal, que é um poeta também, além de jurista, que ele diz assim: “os Direitos Humanos são parte de um processo civilizatório da humanidade, irreversível, não tem retorno”. E eu quero acreditar nessa crença de que é um processo sem retorno. Você pode ter momentos de fluxo que andam para trás, mas, logo a seguir, damos dois passos à frente.

ARCO: Existe uma preocupação bem expressiva, especialmente pensando em 2019, no que tange à violação dos Direitos Humanos no sistema prisional brasileiro, que hoje aloca mais de 700 mil presos. Você sente que a violência vinda do Estado policialesco possa vir a aumentar e infringir isso?

Erasto Mendonça: Ele já existe. Mas vai ser recrudescido pela forma como se está declarando. No projeto de transição, isso está ficando mais claro. Isso se espalha em setores, não é só na questão carcerária. Tentar resolver os problemas de segurança pública pela errônea ideia de distribuir armas para o cidadão chamado de “bem” é um erro crasso do ponto de vista público em Direitos Humanos, mas ele se espalha em outros setores. Só para dar um exemplo local, aqui, em Santa Maria, eu tenho conhecimento de que ontem (terça-feira, dia 4 de dezembro), na Câmara Municipal, houve o recebimento de uma manifestação intensa de estudantes e de entidades a respeito da questão do projeto de lei da “mordaça”, que eles chamam de Escola sem Partido. É uma coisa de uma violência absoluta total, que atinge a universidade, que atinge a Educação Básica e seu direito de liberdade de opinião, de manifestação de opinião, sob a alegação de uma doutrinação ideológica que os professores estariam supostamente fazendo. A ideologia que está por trás disso é o que exatamente é uma tentativa de doutrinação que a escola poderá sofrer daqui para frente, se um projeto desses for aprovado. E eu não creio que ele deixará de ser aprovado, porque existem períodos em que esses retrocessos estão acontecendo.

ARCO: Diante de tudo isso que já conversamos, você teria mais alguma preocupação a expressar?

Erasto Mendonça: Veja bem: o Brasil é o país que mais mata a população LGBT. Se você olhar os indicadores sociais, quem são os principais assassinados? Os jovens negros. Nós entramos na estatística da fome, novamente, depois de décadas de trabalho. A mortalidade infantil está aumentando progressivamente, depois de décadas de grandes avanços que o Brasil teve. Então, o que mais a gente poderia dizer para expressar concretamente que os direitos estão sendo cada vez mais violados pelo Estado, que deveria ser o garantidor dos Direitos Humanos?

Reportagem: Guilherme de Vargas, acadêmico de Jornalismo

Edição: Luciane Treulieb, jornalista

Fotografia: Rafael Happke

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/humanidade-em-foco Thu, 06 Dec 2018 19:36:27 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=5014 No 1º Fórum de Direitos Humanos da UFSM, o movimento LGBTQI+ e a pluralidade que caracteriza o Sul do país são ressaltados em duas mostras fotográficas. As imagens, que estão expostas no hall da Reitoria até esta sexta-feira (7), reforçam temas como igualdade de gênero, sexualidade, etnia e religião.

O arco-íris em evidência 

Uma das exposições no hall da Reitoria é organizada com as imagens produzidas pela publicitária Bruna Casser em 2016, durante um trabalho para a disciplina de Comunicação e Cultura do curso de Publicidade e Propaganda. As fotografias realizadas durante a 2ª Parada LGBTQI+ Alternativa têm como objetivo, segundo Bruna, “mostrar para as pessoas um pouco do que vivenciamos naquele espaço, mostrar que existem pessoas por trás de tudo aquilo.  Representar isso através da fotografia é uma maneira pura e confortável de registrar o sentimento de liberdade que exala em ambientes que nos sentimos à vontade”.

Mesmo tendo finalizado o ensaio fotográfico em 2016, ano em que a 2ª Parada Alternativa ocorreu, Bruna afirma que seu trabalho ainda se faz relevante devido “às pessoas que conhecemos, suas histórias e suas lutas”. Para ela, é necessário representar a comunidade LGBTQI+ e lutar contra o preconceito e a repreensão. “Esse trabalho se apresenta em um momento em que só unida é que uma minoria percebe sua grandeza”.

O Sul como pano de fundo 

Na segunda exposição do 1º Fórum de Direitos Humanos da UFSM, o público pode conferir imagens de pessoas que integram o universo da educação básica e universitária. O projeto fotográfico Regionalidades do Sul: Protagonismo Biográfico e Narrativas de Vida no Universo Acadêmico é coordenado pelo professor Jorge Luiz da Cunha e faz parte do Núcleo de Estudos sobre Memórias e Educação (CLIO) da UFSM, originado a partir de uma experiência realizada pela Professora Joana Elisa Röwer, da Universidade Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).

Um dos objetivos do projeto de extensão é questionar a identidade gaúcha construída a partir da década de 1950. Para Jorge Cunha, a imagem antiga que se tem não corresponde à diversidade de existências individuais, sociais, culturais e políticas pertencentes ao extremo sul do Brasil. “Cada um é cada um e é nessa consciência de diversidade que podemos construir estrategicamente alternativas de viver juntos em igualdade e reconhecimento”, afirma ele.

Impressas em tecido, as dezesseis imagens que compõem a exposição mostram os rostos dos entrevistados para contar suas experiências e trajetórias, além de citações de cada um. Para o docente, o público deve enxergar a subjetividade das respostas: “a interpretação do dito ou do escrito deve ser mais do que uma interpretação pura daquilo que originalmente o narrador quis dizer”. Entre as diversas frases apresentadas, questões de gênero, sexualidade, etnia e religião se destacam. O coordenador diz que esse “é um tipo de registro que estimula sentidos e aprofunda nossa reflexão sobre a diferença do outro e a nossa”.

Reportagem: Paulo César Ferraz, acadêmico de Jornalismo

Edição: Luciane Treulieb, jornalista

Fotografia: Rafael Happke

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/onde-se-esconde-o-assedio Wed, 05 Dec 2018 20:17:28 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4993 Nove em cada dez mulheres e quase oito em cada dez homens afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio, sexual ou moral. É o que comprova a pesquisa Hostilidade, silêncio e omissão: o retrato do assédio no mercado de comunicação de São Paulo, realizada pelo Grupo de Planejamento (GP), de São Paulo – entidade sem fins lucrativos que capacita planejadores e estrategistas – em parceria com o Instituto QualiBest.

A pesquisa, composta por questões objetivas e descritivas, foi disponibilizada na internet e contabilizou 1400 respondentes, sendo 68% mulheres e 32% homens, da faixa etária de 33 anos. Os questionários ficaram disponíveis de 10 a 30 de outubro de 2017 a profissionais da comunicação de São Paulo capital e região metropolitana.

Lara Thomazini, formada com Comunicação Social pela Universidade Federal da Bahia e voluntária do GP, participará do Fórum de Direitos Humanos da UFSM, amanhã (06). Confira a entrevista que a nossa equipe fez com a pesquisadora:

ARCO: Para ti, como foi visualizar os resultados obtidos a partir da pesquisa?

Lara: Eu sabia que os números seriam altos, não imaginava que seriam tão altos. Foi um choque, mas ao mesmo tempo percebi que nós tínhamos uma ferramenta importante em mãos para poder gerar pauta, pressão e mudanças.

Fonte: Pesquisa sobre assédio: Report, 2017

ARCO: Pelos resultados, percebe-se grande envolvimento das lideranças e chefias nos casos de assédio. Qual é a expressividade disso?

Lara: Alta. Cerca de 1/3 das pessoas que sofreram assédio moral foram assediadas por um presidente ou sócio, incluindo 22% dos assistentes/estagiários. Igualmente, 1/3 das mulheres assediadas sexualmente foram assediadas por um presidente ou sócio. É importante ressaltar que presidentes ou sócios representam uma minoria numérica, então os números são realmente significativos.

Fonte: Pesquisa sobre assédio: Report, 2017

ARCO: Diante de um caso de assédio, a denúncia aos setores e órgãos responsáveis, por parte dos profissionais de comunicação, é recorrente? E as providências cabíveis são tomadas?

Lara: Não. As pessoas têm medo de denunciar, as denúncias não são investigadas, há riscos de represália, e por isso há pouca providência sendo tomada. No último ano muitas agências se estruturaram melhor para receber denúncias de maneira mais empática e efetiva, mas não temos como saber o quanto mudou.

Fonte: Pesquisa sobre assédio: Report, 2017

ARCO: Qual a relação entre qualquer tipo de assédio e os Direitos Humanos?

Lara: Existem dois pontos importantes. O primeiro é que assédio é um obstáculo para a diversidade. Assédio se mistura com racismo, homofobia, machismo, elitismo e outros ismos perigosos, e acaba criando um ambiente de trabalho significativamente mais difícil para grupos minorizados. Isto exclui estes grupos de tomadas de decisões, decisões estas que constroem cultura e retroalimentam um ciclo. O segundo é que assédio se refere a relações de trabalho. É ganha pão, subsistência, sobrevivência. Isto deixa as pessoas fragilizadas na relação, porque as represálias podem significar desemprego.

ARCO: De que maneira a qualidade das relações humanas (ou a falta dela) no ambiente de trabalho podem interferir no desempenho e na saúde mental do profissional?    

Lara: Completamente. O assédio moral é um fator de adoecimento, e se discute a possibilidade de incluí-lo no código penal. Na nossa pesquisa há inclusive casos de tentativa de suicídio decorrentes do assédio moral.

ARCO: Em sua visão, que medidas são necessárias diante do cenário alarmante de casos de assédio nos ambientes de trabalho? A quem cabe?

Lara: Além de o poder público funcionar (ele já tem os mecanismos, só precisa efetivá-lo melhor), é responsabilidade das empresas criarem ambientes saudáveis de trabalho. Isto inclui tolerância zero [a casos de assédio], códigos de conduta bem desenhados e relevantes, espaços de denúncia que acolham e priorizem o atendimento à vítima e discussões e debates frequentes sobre o assunto.

ARCO: Qual a relevância de debater sobre os Direitos Humanos em um ambiente acadêmico?

Lara: Acho fundamental por dois motivos: de um lado, a oportunidade de falar com futuros profissionais, que vão ingressar no ambiente de trabalho e participar de sua cultura. Do outro, o espaço acadêmico é importante espaço de pesquisa e debate para a criação de novos estudos, pesquisas, abordagens e direcionamentos sobre os diferentes temas. Direitos Humanos é hoje um tema de resistência no Brasil, o que não faz o menor sentido. É fundamental que a academia seja co-responsável por enquadrar a narrativa sobre o assunto, demonstrar as aplicações práticas e fomentar uma conversa séria e não populista sobre o tema.

Pesquisa sobre assédio: Report, 2017

Reportagem: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Edição: Tainara Liesenfeld, acadêmica de Jornalismo

Ilustração: Divulgação – I Fórum de Direitos Humanos

Infografia: Pesquisa sobre assédio: Report, 2017

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/diario-de-um-cotista Tue, 27 Nov 2018 19:17:25 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4946 Na tese Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho, apresentada por Maria Rita Py Dutra no Programa de Pós-Graduação em Educação, são levantadas também as percepções sobre o mundo de trabalho, acesso e permanência na Universidade – desde o ingresso até a formatura. A narrativa é construída a partir de relatos pessoais de 11 estudantes que se graduaram na UFSM, sendo 4 homens e 7 mulheres. Na pesquisa, todos os entrevistados são identificados com nomes fictícios de origem africana ou de personagens dos livros infantis da Coleção Histórias da Vó Preta, de autoria de Maria Rita.

Primeiras percepções da Universidade

A entrada na universidade é uma experiência particular à cada pessoa. Alcançar o êxito no vestibular é motivo de felicidade para qualquer candidato, mas para os estudantes negros, geralmente, vem acompanhado de significados e de desafios ainda maiores. Maria Rita destaca em sua tese que “tais estudantes terão seus atributos categorizados”, a partir do estereótipo do grupo hegemônico. Segundo ela, “são colocadas sobre o estudante cotista uma série de expectativas”. O cotista passa a ser considerado, frente aos demais, como “menos desejável”, alguém que carrega consigo um forte estigma.

Ao iniciar a vida acadêmica – com idade mais avançada – Idia, estudante de Sociologia, se preocupava em como se apresentar frente aos colegas, como se vestir, consciente de que participava de outro campo social. O processo de desconstrução desse estereótipo foi se dando aos poucos e teve forte influência da ação dos professores em sala de aula:

“Como uma mulher muito pobre, eu sempre pensava: como eu vou chegar na Universidade? Eu não tenho roupa, eu não tenho calçado, eu não tenho dinheiro para as passagens. Eu trabalho. Eu saio do município (escola), pego faxina, saio das faxinas, vou pra Universidade. Chegando lá, eu me deparava com as minhas colegas alemãs, descendentes de alemães, descendentes de italianos, de chinelo, de crocs, mas por que eu não posso? Uma negra de chinelo é empregada doméstica, uma italiana, uma alemã, descendente de alemãs, de italiana, é uma filha de colono? É filha de empresário (…). E daí eu vi de que nós não precisamos… Não é a roupa que nos faz, não são os calçados, mas sim o nosso conhecimento e a maneira como nos tratamos.” (Idia, Sociologia)

Para se referir ao posicionamento dos professores no âmbito acadêmico, Maria Rita cria duas categorias: o “professor empático” e o “professor inconformado”. No relato mais aprofundado de Idia, a pesquisadora Maria Rita identifica a presença de ambos. Uma que tomou postura empática e estimulou a estudante a não desistir e a enfrentar as dificuldades inerentes aos estudos e, ao mesmo tempo, um “professor inconformado”, que após o fracasso da estudante na primeira prova, classificou-a como “não detentora de pensamento lógico, sem qualquer análise mais aprofundada”. Frente ao segundo caso, Maria Rita reflete: “O que leva um professor afirmar à aluna negra, de idade superior a 40 anos, que o lugar dela não é na Federal, por ela não ter raciocínio lógico? Sou forçada a afirmar que é o racismo que faz isso; é o fato de o negro ocupar espaços que até então eram interditos para ele.”

Em outra entrevista – com a estudante Jamila, que ingressou na UFSM em 2010 no curso de Serviço Social-, Maria Rita também descreve certa atitude de um professor, enquadrando-o como “professor inconformado”, umas vez que demonstra inabilidade de trabalhar com estudantes com outro nível étnico. O episódio descrito em um relato se referia ao discurso proferido contrário às cotas, logo na primeira aula por um professor que se deparava com cinco estudantes cotistas negros na turma.

Enquanto isso, Anaya, formada em Medicina Veterinária, relata não ter vivenciado situações de racismo no período da graduação, mas sim, depois, já no mestrado. Ao presenciar o posicionamento de um professor que discorria sobre procedimentos veterinários, o mesmo alertava aos estudantes para agirem corretamente: “pessoal, a gente tem que fazer a coisa certa, tem que fazer coisa de gente branca.”

“(…) não adianta ser fluente em várias línguas, ser pós-doutor e tratar as pessoas dessa forma, e ter esse tipo de pensamento que não cabe numa academia. Me passava pela cabeça que eu tenho irmãos que vão passar por isso, que os meus pais se orgulham de eu estar aqui, que minha mãe como uma mulher negra se orgulha de eu estar aqui e espera que eu seja tratada com respeito. Então isso foi o que mais me chocou.” (Anaya,  Medicina Veterinária)

Além disso, um desafio a ser adquirido por estudantes negros é o capital cultural, isto é, o acúmulo de riqueza cultural erudita de cultura escolar – que pode influenciar diretamente no desempenho acadêmico do estudante. Isso diz respeito também ao ambiente familiar ao qual o estudante está acostumado. Entre as mães dos entrevistados, por exemplo, apenas uma cursou ensino superior incompleto e duas, o ensino superior completo; enquanto que entre os pais, somente um cursou o ensino superior completo. Ao destacar as pesquisas de importantes estudiosos na área, Maria Rita aponta que existem uma relação entre o nível cultural das famílias e o sucesso dos filhos na vida escolar. No entanto, é um erro afirmar que a renda familiar e o diploma dos pais são fatores cruciais para condenar filhos de famílias pobres ao fracasso. A pesquisadora ressalta que “há como reverter essa situação, sendo a atuação do professor empático decisiva, pois o estudante necessitará de orientação.”

Estudante-trabalhador

De acordo com a pesquisadora, a condição de estudante- trabalhador desafia o estudante cotista a estabelecer novas metas, pois além de ter que dar conta dos estudos, precisará atender às exigências do trabalho. Na pesquisa, todos os entrevistados, em algum momento, trabalharam, e apenas Kadija e Mulalo não foram bolsistas durante a graduação.

“Um turno eu estava trabalhando, o outro turno eu estava com ele completo de aula. Quando ficava alguma cadeira pra trás, eu tinha que deixar a cadeira, porque eu tinha um turno inteiro pelo trabalho e um turno só pra estudar, e na Medicina Veterinária tu tens um turno de manhã, com disciplinas e outro turno de tarde. Então quando virava o semestre, que viravam os horários, eu ficava com choque de horários, e eu fui segurando algumas cadeiras, né. Então teve um semestre que eu fiz só as DCG’s, e segurei um pouco as cadeiras, por isso eu demorei um pouco mais, também pra me formar, não é, pra conseguir continuar trabalhando.”(Anaya, Medicina Veterinária)

Entre os entrevistados, apenas cinco homens e uma mulher relataram terem ingressado no mercado de trabalho somente depois do ingresso na faculdade. As demais mulheres afirmaram ter começado a trabalhar ainda no período escolar – sendo duas delas, no trabalho doméstico. Após a formatura, dois permaneceram apenas trabalhando (o enfermeiro e o comerciário do setor moveleiro), os demais investiram na formação acadêmica, continuando a cursar uma nova graduação, especialização ou pós-graduação. Três fazem doutorado: em Medicina Veterinária, Sociologia e História; Ayo (relações públicas) faz mestrado em Patrimônio Cultural; Alíca cursa Pedagogia – mantendo-se com uma bolsa e fazendo tranças – e Kadija cursa Sociologia.

As cotas e a permanência na Universidade

A política de cotas foi implementada na UFSM em 2012, com o objetivo de erradicar desigualdades sociais e étnico-raciais e democratizar o acesso ao ensino superior. Maria Rita ressalta que, apesar de ser um instrumento legítimo de validação do ingresso na Universidade, a vitimização é uma acusação frequentemente atribuída aos negros, em especial nas redes sociais. Esse discurso é evidenciado em algumas das entrevistas:

“Tinha colegas (…) que o discurso deles era: – Tu não precisou de cota para entrar aqui no Colégio Militar, tu não precisas de cotas agora. Quando eu falava que ia prestar vestibular e que eu achava importante prestar com cotas, (ouvia:) tá, mas tu não precisas, tu podes passar sem cotas (…). Foi nesse período, no final do Ensino Médio, que veio toda a discussão da inclusão das cotas na UFSM, e no Brasil.. Eu passei por situações assim, né. Dos próprios colegas falarem: – Não, a Anaya é negra, mas é como se ela fosse… (…) aquilo foi me marcando, e eu digo: nossa! eu vou prestar vestibular com cota, eu acho, sim, que a gente precisa, porque a gente passa mesmo por isso. Tá na nossa luta diária. Então esse enfrentamento diário, assim (…).  Me inscrevi então em Medicina Veterinária e consegui entrar, com o programa de cotas.” (Anaya, Mecidina Veterinária)

Da mesma forma como Anaya observa a necessidade e importância da política de cotas, segue o discurso de outra entrevistada que afirma ter orgulho de ser cotista:

“(…) eu sempre, aonde vou, levo a questão de ser cotista, porque pra mim é um orgulho, é uma bandeira, é uma luta que representa tudo isso. Cada cotista da universidade acho que tem que difundir isso, para que as pessoas introjetem isso, para que na sociedade não seja diferente ser cotista, pra legitimar! (…) Tem que ter orgulho de ser cotista e tem que ter toda uma luta, saber que isso foi uma luta, uma bandeira.” (Jamila, Serviço Social)

A tese de Maria Rita também evidencia a necessidade de melhorias da política de permanência dos alunos na Universidade. Segundo ela, não basta criar mecanismos de acesso, se não são levadas em conta as dificuldades enfrentadas pelos alunos cotistas durante a graduação, até alcançar o Benefício Socioeconômico. A entrevista com Atinuké revelou a burocracia do processo que acabou por adiar o direito ao seu benefício por um semestre.

Eu consegui naquele momento, era uma burocracia, o Benefício Socioeconômico, eu não sei como é que está agora. No ano que eu entrei, no primeiro semestre foi negado, porque eu não tinha como comprovar a escritura de onde eu morava. Eu moro numa ocupação, a gente não tem escritura. (…) Só no segundo semestre eu consegui comprovar, e eles aceitaram (…) Precisam conhecer a realidade dos alunos que estão chegando na Universidade! (…) Tem limites para todos, imagina para nós, que viemos de uma realidade difícil, todo o contexto de acessar. (…) Pra mim foi muito positivo, do ponto de vista da inclusão. Aqui na Vila agora tu vês inúmeros alunos cotistas. A minha irmã é uma aluna cotista. O meu irmão é um aluno cotista. Meu irmão está quase se formando, está no 7º semestre da Administração e a minha irmã está indo para o terceiro semestre da Enfermagem. Então uma geração de cotistas, só aqui nessa casa. Vários alunos cotistas aqui na volta. Coisa que não se tinha acesso há um tempo atrás (Atinuké, Sociologia).

Falta de referências negras nos espaços acadêmicos

Dentre os relatos de vida dos entrevistados, destacam-se outros  pontos considerados como dificuldades para os cotistas negros: o tema a ser abordado no trabalho de conclusão de curso, a falta de referências e bibliografias negras e a ausência ou invisibilidade de professores negros na Universidade.

“Eu não vou dizer que sofri um preconceito direto, por parte de professores, mas eu me senti extremamente negligenciado. Diretamente do curso, uma das minhas maiores dificuldades antes de eu encontrar meu orientador foi que eu sempre quis entender a minha religiosidade, só que de fato, ninguém trabalhava com religião de matriz africana. Eu não tinha uma fonte, eu não tinha alguém que me orientasse. (…) Durante todos os meus anos de  formação de Ensino Fundamental e Médio, eu não tive nenhum professor negro”. (Odé, História)

Maria Rita destaca que, como o acesso dos estudantes negros se deu em ampla maioria após a aprovação da política de cotas na universidade, “brevemente estaremos assistindo a defesas de teses dos nossos primeiros intelectuais negros da recente leva que, após prestarem concursos públicos, poderão ingressar em programas de Pós-Graduação.” A formação de novos pesquisadores, conhecedores da causa negra, desta forma, deve ampliar o conhecimento sobre a temática afro – questões relativas à religiosidade de matriz africana; do genocídio da juventude negra; sobre a mulher negra e sexualidade; e questões que envolvam o racismo, a justiça e a violência e criminalidade.

Formado em Enfermagem, Agotime – um dos entrevistados – falou sobre a falta de referências negras durante a graduação e sua passagem pelo Hospital Universitário de Santa Maria, nas práticas acadêmicas. Agotime revelou que que foi gratificante, por fim, encontrar no trabalho uma enfermeira negra, em Pelotas. Ele afirma que se sentiu “protegido” por ela.

“Porque tu acaba te enxergando ali. Tu acaba só te enxergando e tu sabes que quando fores trabalhar, aquela inspiração pode servir para uma outra pessoa. Eu não sei. Não tem um sentimento que explique, mas a gente acaba assim. Por exemplo, eu e essa enfermeira, nossa relação acaba assim, mesmo sem falar, ela sabe que é uma referência pra mim. Sei que ela sabe. É uma troca mútua assim, que só no conversar, a gente vai conversando, eu acabo me apegando nela e ela acaba te protegendo de certa forma.” (Agotime, Enfermagem).

O cotista no mundo do trabalho  

Findada a experiência acadêmica, a entrada no mercado é relatada de diversas maneiras pelos entrevistados. No caso de Kadja, formada em Ciências Sociais, as cotas não contribuíram para que acessasse o mundo do trabalho. A cientista social já trabalhava em um escritório de contabilidade, mas confessa que ter estudado em uma instituição pública fez um grande diferencial em seu ambiente de trabalho. Após ter ingressado no ensino superior, percebeu que alguns clientes passaram a tratá-la com mais consideração e passaram a cumprimentá-la, coisa que não acontecia antes. Por sua vez, Agotime, formado em Enfermagem, pontua que as ações afirmativas ajudaram tanto para ingresso no ensino, como no mundo do trabalho:

“Foi a porta que me abriu para o mundo. Não só ali na entrada, na Universidade, como a entrada no mercado de trabalho, agora. As cotas foram um divisor de águas na minha vida. Não tem como definir como outra coisa assim, porque realmente foi minha entrada na Universidade através das cotas e depois, a entrada no mercado de trabalho, pelas cotas.” (Agotime, Enfermagem)

Para Jamila, formada em Serviço Social, as cotas abriram novos caminhos, e acha que as pessoas precisam divulgar que foram cotistas. Jamila procura sempre declarar que foi estudante cotista da UFSM e acredita que isso é necessário para que haja uma cultura de reconhecimento e pertencimento da luta pela igualdade racial.

“Porque muitas pessoas se utilizam das cotas, até tem negros que não se afirmam, não tem uma identidade negra, mas na hora das cotas: Vou nas cotas”! Tanto é que pro meu filho, agora no ENEM, quando ele foi colocar, ele disse: – “Mãe, por onde eu me inscrevo? Eu disse: – o que é que a tua identidade, que tanto a gente fala, te diz? Ele me disse, assim: – Eu acho que sou legitimo pra cotista! Eu disse: – Então te inscreva! Ele ficou em primeiro lugar, enquanto cotista, e eu fiquei muito feliz. Eu acho que a gente está perpetuando, tá passando de geração a geração.” (Jamila, Serviço Social)

Reportagem: Tainara Liesenfeld, acadêmica de Jornalismo

Edição: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Ilustração da capa: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial – A inspiração são as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou às artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As questões raciais e a população negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produção do artista, que é negro.

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/igualdade-so-em-2089 Tue, 20 Nov 2018 21:37:47 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4888 Em 2018, são celebrados 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Apesar disso, os espaços ocupados por negros e brancos em escolas, universidades, mercado de trabalho e demais setores sociais estão longe de se tornarem iguais.

Maria Rita Py Dutra, doutora pelo Programa de Pós-Graduação do Centro de Educação da UFSM, em sua tese Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho, aponta, com base em dados levantados em 2014 pelo Instituto de Pesquisa Estatística Aplicada (Ipea), que houve redução da desigualdade racial no acesso a ocupações melhores no mercado de trabalho e na distribuição de renda. No entanto, “os efeitos do racismo e da discriminação continuam operando e impedindo avanços na ocupação e remuneração da população negra”, afirma a professora.

Na segunda matéria do Dossiê Consciência Negra, a revista Arco organizou um infográfico com base em dados apresentados por Maria Rita na tese, comparando a realidade de brancos e negros no mercado de trabalho.  Confira:

Reportagem: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Ilustração da capa e infográfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial – A inspiração são as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou às artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As questões raciais e a população negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produção do artista, que é negro.

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-universidade-se-pinta-de-povo Tue, 13 Nov 2018 19:40:36 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4854 *Esta matéria foi atualizada em 21/11/2018, às 14:37.

Dos 205,5 milhões de habitantes do Brasil, 46,7% se autodeclaram pardos e 8,2%, pretos. Apesar de, juntas, formarem a parcela majoritária da população nacional, essas pessoas raramente são vistas em comerciais de TV ou revistas, no atendimento de bancos, ocupando cargos de chefia em empresas e, até pouco tempo atrás, nas salas de aula das universidades.

A luta contra a invisibilidade e as desigualdades faz parte da trajetória de Maria Rita Py Dutra, terceira mulher negra a se tornar doutora no Programa de Pós-Graduação do Centro de Educação da UFSM. A tese Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho, defendida pela professora em agosto de 2018, discute as situações e condições que influenciam os cotistas negros desde a formação na UFSM até a inserção, ou não, no mercado de trabalho.

Para isso, Maria Rita ouviu relatos de experiências e analisou o universo que está por detrás da problemática, como a desigualdade nos âmbitos econômico e de acesso, o apanhado histórico, a construção de identidades e o conflito de interesses. Foram entrevistados formandos dos cursos de Ciências Sociais, Enfermagem, Fisioterapia, Relações Públicas, Medicina Veterinária, Serviço Social, Educação Especial e História Licenciatura.

Como resultado, Maria Rita aponta que, para os estudantes entrevistados, a  política de cotas representou um divisor de águas, mudando totalmente suas vidas. “Foram as cotas que abriram um mundo de possibilidades para esses estudantes, em que o ingresso e a superação do discurso racista foi necessária para a conclusão do curso. Na maioria dos casos, o primeiro diploma de ensino superior na família”, comenta Maria Rita, que celebra: “A universidade se pinta de povo”.

A pesquisadora entende que uma sociedade igualitária e justa é construída e orientada nos bancos escolares. “Faz parte disso possibilitar que excluídos ingressem no espaço acadêmico, mas que, para além, a estrutura acadêmica seja repensada para que ocorram mudanças radicais em busca da igualdade”, afirma Maria Rita no decorrer da pesquisa. Ela compreende, ainda, que olhar para a conclusão do curso e a entrada no mundo do trabalho “fornece informações importantes para pensarmos em resultados na educação e reavaliarmos, por exemplo, as barreiras que cotistas enfrentam”.

Na tese, Maria Rita compartilha que estudar as ações afirmativas e o racismo fez com que ela refletisse sobre questões que a marcaram de forma indelével nos quase 30 anos de carreira no magistério público estadual, sobre as quais ainda carrega marcas e dores não removidas.  

Política de cotas no Brasil e na UFSM

O debate sobre as ações afirmativas reverberou no Brasil após a participação do país, em 2001, na III Conferência contra o Racismo e a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Em 2003, foi pautado na UFSM pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), e definiu-se como Programa de Ações Afirmativas de Inclusão Racial e Social. O sistema inclui o ingresso de afro-brasileiros, pessoas com deficiências, alunos de escolas públicas e indígenas no ensino superior.

Em 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei das Cotas (nº 12.711/2012), que estabeleceu o sistema de cotas sociais e raciais para ingresso em universidades e institutos federais de todo o país. A legislação prevê a reserva de, no mínimo, 50% de vagas, por curso e turno, para estudantes oriundos de escolas públicas, além de destinar vagas para estudantes negros, pardos e indígenas, de acordo com o percentual populacional local dessas etnias.

Perante a aprovação, surgiram várias perguntas quanto à legitimidade constitucional da política de cotas, às quais o Supremo Tribunal Federal (STF) respondeu, entendendo que a política fazia parte de um processo de correção das desigualdades sociais, inclusive daquelas baseadas na cor da pele.

Atualmente, a UFSM não dispõe de uma política de acompanhamento e avaliação do processo de permanência dos cotistas negros. Segundo Maria Rita, essa questão ainda não despertou interesse nos pesquisadores por haver poucas referências de estudos sobre.

Em sua tese, a professora salienta que a presença de alunos afro-brasileiros, indígenas, portadores de deficiência e provenientes de escolas públicas é asseguradora da diversidade e da democracia nas universidades públicas brasileiras. “A política afirmativa é necessária para reparar os aspectos discriminatórios que impedem o acesso de pessoas pertencentes a diversos grupos sociais às mais diferentes oportunidades”, pontua.

Trajetória de Maria Rita

Professora desde 1967, quando concluiu o Curso Normal, passou 30 anos ensinando e se especializando em diferentes áreas, como química, pedagogia, história, ciências sociais. Desde 1988, seu trabalho envolve a temática étnico-racial e o racismo. Na intenção de romper barreiras, Maria Rita fez parte do projeto Combatendo o Racismo através da Literatura Infantil entre 2003 e 2008, criado por um grupo de estudantes do curso de Museologia da Universidade Franciscana. Ali, contava histórias de questões raciais, além de ministrar oficinas e cursos a estudantes e professores no Museu Treze de Maio.  

A experiência gerou frutos literários, como O Aniversário de Aziza e Dia dos Negros. Na UFSM, Maria Rita participa do grupo Negros e o Movimento Social Negro (MN), que trata sobre direitos e igualdades, buscando contribuir para o aperfeiçoamento das políticas de cotas na Universidade.

Pelo que ela representa, organizadores e coletivos que construíram a programação das atividades do mês da Consciência Negra em 2018 na UFSM homenageiam Maria Rita como a primeira patronesse da data. O momento marca, ainda, uma década de política de ações afirmativas na Universidade.

Reportagem: Bibiana Pinheiro, acadêmica de Jornalismo

Edição: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

Fotografia: Dartanhan Baldez Figueiredo

Ilustração da capa: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial – A inspiração são as obras de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se dedicou às artes das ruas, como grafite, piche e colagens. As questões raciais e a população negra dos Estados Unidos perpassam grande parte da produção do artista, que é negro.

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-dualidade-dos-medicamentos Tue, 04 Sep 2018 13:15:14 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4222 Esta matéria possui conteúdo que pode desencadear fortes emoções. Caso você esteja passando por um momento de maior sensibilidade tenha cautela ao prosseguir com a leitura. Se se sentir desconfortável interrompa a leitura e volte quando estiver mais forte emocionalmente.

Quantas horas por dia você dorme? Quão saudável é a sua alimentação? Você pratica exercícios físicos? As respostas para essas perguntas variam muito de um indivíduo a outro, mas é notório que a maior parte da população já não consegue dedicar tempo suficiente ao cuidado do corpo e da mente. As obrigações e prioridades, muitas vezes, são outras; e as consequências, em decorrência disso, podem ser severas.

O Brasil apresenta a maior porcentagem de população afetada por distúrbios relacionados à ansiedade no mundo e, além disso, é o quinto país com a maior taxa de pessoas depressivas, de acordo com dados divulgados em 2017 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, os psicofármacos asseguram o alívio imediato e, muitas vezes, possibilitam o restabelecimento da “normalidade” cotidiana. No entanto, levando em conta a propensão à dependência de muitos fármacos e os seus efeitos colaterais no organismo, surge o questionamento: os medicamentos, a longo prazo, são a melhor solução para tratar todos os transtornos mentais?

Entre 2010 e 2016, o Brasil aumentou em 74% o consumo de medicamentos antidepressivos, segundo pesquisa divulgada em 2017 pela seguradora SulAmérica. Ainda assim, não existe um consenso entre os pesquisadores da área de saúde mental sobre a população estar, ou não, consumindo mais remédios do que deveria. A preocupação não é somente com o aumento no consumo, já que os psicofármacos são necessários em determinados casos, mas sim com o uso indevido (sem necessidade e/ou indicação médica), visto que os medicamentos podem causar dependência e efeitos colaterais diversos.

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Paraná, coordenado pela professora de Enfermagem Mariluci Alves Maftum, entrevistou profissionais de Enfermagem em quatro Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Curitiba. A conclusão foi de que os medicamentos representam um importante recurso terapêutico, principalmente por minimizarem sintomas agudos causados pelos transtornos mentais. Na visão desses profissionais, o uso de psicofármacos é fundamental para que a pessoa com transtorno possa ter uma melhora significativa no seu estado de saúde, no autocuidado, na (re)conquista da autonomia e das condições necessárias para realizar atividades rotineiras. Entretanto, o estudo também faz ressalvas às contraindicações dos medicamentos tarjados, utilizados para tais fins. Recomenda-se, então, como resultado da pesquisa, o uso do psicofármaco associado a outros tratamentos não medicamentosos, como a participação em grupos e oficinas terapêuticas.

Os psicofármacos mais receitados são os benzodiazepínicos – calmantes e tranquilizantes como Rivotril/Clonazepam, Valium/Diazepam, Frontal/Alprazolam, Lexotan/Bromazepam. Para a professora do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFSM Marilise Burger, o uso de calmantes é banalizado e faz com que o cérebro se adapte à presença do fármaco. Se utilizado por longos períodos, pode causar a dependência e/ou tolerância (diminuição dos efeitos, o que exige doses cada vez maiores). De forma parecida, acontece a ação dos antidepressivos: o uso aumenta os níveis de serotonina – popularmente conhecida como “hormônio da felicidade” -, o que faz com que a pessoa se sinta bem emocionalmente. Ainda que apresente melhoras no quadro clínico, o paciente costuma voltar ao estado psíquico anterior quando o uso da medicação é interrompido.

Nesta perspectiva, para a mestranda em Psicologia na UFSM Maria Luiza Diello, a patologização da vida e do sofrimento se tornou um dos principais problemas na contemporaneidade. Isso significa dizer que, atualmente, qualquer estado mental e existencial pode ser delineado como doença, acarretando, com isso, a intensificação do uso exacerbado de medicamentos. Para ela, o uso de fármacos deveria ser feito exclusivamente em situações de absoluta necessidade. “É muito comum nos depararmos com situações de uso indevido, abusivo, continuado, crônico, problemático ou desnecessário de medicamentos”, pontua Maria Luiza.

Marilise considera que o elevado número de psicofármacos consumidos atualmente representa uma transferência da solução dos problemas – sejam eles corriqueiros ou de maiores complexidades – em função de rotinas agitadas. “A melhora dos problemas emocionais envolve uma mudança de hábitos; antes, algumas situações eram resolvidas no cotidiano; hoje, é mais fácil usar um medicamento do que olhar para dentro de si mesmo e mudar estes hábitos – alimentação, atividade física e a maneira de lidar com as pessoas, por exemplo”, comenta a professora.

Todos os estados afetivos são momentâneos, sejam eles de tristeza ou de felicidade, segundo o professor do Departamento de Neuropsiquiatria UFSM Mauricio Scopel Hoffmann. A distinção entre um estado afetivo e um transtorno mental se baseia em critérios de tempo e de prejuízo. “A pessoa está vivendo bem e, de repente, começa a baixar a vitalidade, a não querer sair de casa, a pensar que a vida não mais vale a pena, a achar que a morte é uma solução. Se isso perdurar por semanas e causar prejuízo porque a pessoa já não consegue mais se relacionar com os outros, ou prejudicar sua produtividade no trabalho, por exemplo, se configura como um transtorno mental”, comenta o professor. Ele explica que um acontecimento traumático pode ser fator de risco inespecífico para desencadear a depressão, que possui prevalência em cerca de 15 a 25% da população.

Há também um número expressivo de pessoas que diagnosticam a depressão de maneira apressada e passam anos repetindo o uso do mesmo remédio sem questionar. Para o professor de Psicologia do Departamento de Enfermagem da UFSM campus Palmeira das Missões Ricardo Martins o fato é que a sociedade já não privilegia os sujeitos e a vida, mas os objetos e o mercado, fazendo com que se perca o contato com o coletivo: “é como na  economia: a oferta cria a demanda, ou seja, o remédio vai buscar (criar) a doença”, conclui o professor.

No entanto, Mauricio avalia que o aumento da prescrição de psicofármacos pode ser uma falsa aparência, já que há grande porcentagem de doentes sem tratamento. “Menos de 10% dos pacientes com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) do Brasil recebem tratamento, ou seja, a prescrição precisaria aumentar muito para que todos os doentes pudessem ser ajudados. Não creio que exista esse fenômeno da medicamentalização, entendido como uma trama, consciente ou não, entre indústria e profissionais da saúde, para medicar mais as pessoas, sem necessidade; falta evidência empírica para isso”, analisa o professor.

Atenção aos “tarja preta”

Quanto maior a dose de medicamento utilizada, maiores os efeitos colaterais aos quais o corpo estará suscetível. O professor Mauricio explica que os remédios de tarja preta são os que possuem maior potencial de abuso: “Em torno de 15 a 20% das pessoas que usam essa medicação tendem a aumentar sozinhas a dose, porque a própria medicação provoca isso e a personalidade dos usuários também”. Para pacientes em situações de abuso de álcool, por exemplo, não é indicado o uso de tarja preta porque a composição química do remédio e o perfil do paciente podem gerar dependência.

A Ritalina – medicamento estimulante que controla o TDAH – é usada por muitos estudantes para fazer o chamado doping cognitivo. Por ser um medicamento controlado e exigir receita médica, a solução encontrada por muitas pessoas é conseguir o psicofármaco com terceiros. Marilise afirma que a automedicação pode ser “um tiro no pé”, porque se o estudante possui um transtorno de ansiedade, por exemplo, há chances de piorar ainda mais seu estado mental.

Qual a melhor receita médica?

Para todo transtorno mental, o tratamento é sempre indicado. Ele pode ser tanto psicoterápico quanto farmacológico, que são as duas grandes abordagens em saúde mental, e o uso ou não de remédios depende de particularidades. Ricardo aponta que, para casos como os de luto pela perda, há mudança na química cerebral e, para resolver isso, o tratamento psicológico contribui para deslocar o foco do cérebro sobre a perda. O remédio, neste contexto, faz parte de uma fantasia dos pacientes, que o veem como um “fortificante”.

Já para a depressão e a ansiedade, o professor Maurício assegura que há evidências científicas sobre a eficácia da psicoterapia. Em contrapartida, há casos em que a resposta aos tratamentos psicoterápicos é baixíssima e, por isso, há necessidade de medicação, como é o caso da esquizofrenia. O que acontece é que nem sempre o tratamento indicado condiz com as condições financeiras do paciente. Dessa forma, o tratamento medicamentoso pode ser mais barato que o psicoterápico e, portanto, mais acessível no sistema de saúde. Em alguns transtornos, como os de ansiedade, o tratamento psicoterápico somado ao tratamento com fármacos pode ser preferível, já que os efeitos da terapia dupla são potencializados.

Em vista disso, alguns profissionais da área apostam na chamada “terapia social”, que oferece atendimentos a um preço mais acessível. Além disso, também é possível que o paciente busque um atendimento viável ou gratuito em centros acadêmicos de Psicologia e também nos serviços ofertados pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que compõem a rede pública de saúde.

O que a indústria farmacêutica tem a ver com tudo isso?

A indústria farmacêutica constitui-se como uma das engrenagens principais no campo das pesquisas científicas e no desenvolvimento de tratamentos, como também na área da produção e comercialização de medicamentos. Por ser um dos maiores meios provedores de investimentos na ciência, esta indústria, estabelecida no início do século 20, é hoje uma das maiores responsáveis pela evolução e modernização de tratamentos médicos. De acordo com um estudo coordenado pelo médico Paulo Aligieri e publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, “o resultado do trabalho das indústrias tem contribuído significativamente, ao longo dos anos, para o aumento da expectativa de vida e redução dos índices de mortalidade de diversas doenças”. Entretanto, mesmo indispensável na área da saúde mental atualmente, a indústria farmacêutica é criticada por muitos estudiosos da área.

De acordo com a farmacologista Marilise Burger, “a indústria tem um perfil competitivo, que visa o lucro, e investe em propagandas fortes que induzem os médicos. Há um histórico de medicamentos lançados sem as pesquisas necessárias e até mesmo de pesquisas burladas”. A médica clínica geral Valéria da Silva Zorzi confirma esta realidade: “Recebemos constantemente boletins informativos das sociedades médicas incitando a usar medicamentos”; e complementa que “esta indústria opera financiando pesquisas tendenciosas, com conflitos de interesse; utiliza o marketing em congressos; investe nos médicos e profissionais ligados à saúde para impôr tendências e modismos”.

Os médicos, neste cenário, podem aparecer como articuladores ou também como vítimas, já que as propagandas das indústrias induzem não apenas os pacientes, mas também a classe médica. “Um médico dificilmente vai te dizer que se deixa levar [pela indústria farmacêutica], mas ele, mesmo sem perceber, pode estar sendo submetido a este assédio”, opina a professora Marilise.

Apesar disso, entre os profissionais da área da saúde, é unânime o reconhecimento de que os psicofármacos são essenciais em diversos tratamentos. As ressalvas são de que os medicamentos não podem ser vistos como uma solução mágica para tratar os transtornos mentais. As sensações de angústia, insegurança, isolamento, desespero,  podem ser resolvidas sem a necessidade de substâncias químicas, em grande parte dos casos. Da ordem do necessário está a procura pelo tratamento adequado, aliado a um estilo de vida saudável, e, acima de tudo, tempo disponível para os olhares íntimos sobre si mesmo.

Reportagem: Claudine Friedrich

Diagramação e Lettering: Juliana Krupahtz

Ilustração: Pollyana Santoro e Deirdre Holanda

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-sobrecarga-invisivel-na-universidade Thu, 23 Aug 2018 23:03:05 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4212 Esta matéria possui conteúdo que pode desencadear fortes emoções. Caso você esteja passando por um momento de maior sensibilidade tenha cautela ao prosseguir com a leitura. Se se sentir desconfortável interrompa a leitura e volte quando estiver mais forte emocionalmente.

“No dia em que entreguei a versão final da minha dissertação, voltei sozinha da Universidade pro centro. Quando cheguei perto do Theatro Treze de Maio, eu parei. Não sabia aonde estava indo. Entrei em pânico porque sabia que era uma crise e eu estava sozinha. Era pra ser um dia feliz, um dia de me sentir competente, mas eu fui engolida por essa coisa horrível”.

Esse relato é de Luísa Greff, que cursa o doutorado em Letras na UFSM, mas também pode ser tomado como realidade próxima de outros tantos estudantes. Comumente, histórias parecidas expõem a pressão acadêmica e os altos níveis de estresse como parte da experiência universitária.

Para algumas pessoas, entrar na universidade é um dos primeiros passos rumo à independência da família. Desde cedo, o jovem se depara com uma série de desafios, a começar pela preparação e ingresso em vestibulares e processos seletivos. Depois, sua capacidade de adaptação é posta à prova: grande parte das vezes envolve sair de casa, ambientar-se em uma cidade distinta, conhecer pessoas novas, inserir-se e ampliar o círculo de amigos. Junto a isso, há um processo maior, que compreende adaptar-se à vida acadêmica e conciliar os estudos com a vida pessoal. O conjunto de ações que antecedem e acompanham a nova rotina pode acarretar problemas físicos e/ou psicológicos até então inexistentes ou, ainda, piorar a situação daquelas pessoas que já possuem algum transtorno.

O problema é visível, mas de onde ele vem? Por que os alunos estão adoecendo no ensino superior? O que faz com que a universidade seja, por vezes, apontada como culpada? Seriam os professores os “vilões” da história?

O debate nas redes

Nos últimos anos, o compartilhamento de relatos e experiências pessoais nas redes sociais foi um importante mecanismo para o assunto ganhar mais visibilidade. Frente a isso, estudantes de diversas universidades no país protagonizaram movimentos com o intuito de debater temas pertinentes à saúde mental do estudante e questionar as lógicas produtivistas do universo acadêmico.

Em 2017, uma série de tentativas de suicídio entre alunos do quarto ano de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) chamou a atenção da mídia, e a expressão #EstamosJuntos mobilizou estudantes e professores de uma das melhores faculdades do país. Ainda, na mesma instituição, outro exemplo foi a campanha #NãoÉNormal, criada por alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e que possui mais de 30 mil curtidas na página do Facebook. A hashtag é seguida de frases como: “esperar entrar de férias para poder cuidar da saúde” e “ficar fazendo trabalho durante os feriados sem poder voltar para casa e rever a família”.

Paralelo a isso, o texto Eu não sou um mau aluno, de autoria desconhecida, viralizou nas redes sociais. A escrita faz menção a episódios da vida acadêmica: noites mal dormidas, notas baixas, afastamento dos amigos e da família. Muitos estudantes se identificaram com a narrativa e, apesar de questionarem a rotina exaustante, culpabilizavam-se: teriam se tornado maus alunos diante de uma série de fatores estruturais.

A cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, atualmente professora titular visitante da UFSM no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais, tem pesquisas relacionadas ao tema. No texto Depressão e sofrimento na pós-graduação: frescura catártica ou saúde pública?, publicado em abril de 2018, ela defende que “ainda há uma carência do tema no debate público”, pois é custoso para as pessoas admitirem falhas individuais. Apesar de a vida acadêmica ser permeada por momentos de escrita e produção – ações que, naturalmente, podem gerar ansiedade e agitação mental –, o fenômeno hoje atinge proporções inéditas. Portanto, deve ser encarado por uma rede ampla de profissionais que atuam no ensino superior.

O entusiasmo desgastado

Para além dos muros e das salas de aula das universidades, a rotina acadêmica é, muitas vezes, romantizada e idealizada. O estudante de Medicina da UFSM Geferson Pelegrini conta que, no período que antecede a faculdade, já é “natural” que aconteça a privação de elementos importantes da vida social para alcançar o objetivo tão sonhado. “Acredito que idealizamos os cursos que almejamos – foi assim comigo a respeito da Medicina – e quando estamos na universidade nos deparamos com um ambiente, na maioria do tempo, hostil, que nos padroniza e nos cobra sem pensar em nossa individualidade e em nossas necessidades”, relata o estudante. Na graduação, Geferson cursou a disciplina de Saúde do Estudante de Medicina e do Médico, que, contraditoriamente, fora ofertada ao meio-dia, no horário que tecnicamente deveria ser destinado ao almoço.

Nesse sentido, o artigo Precisamos falar de vaidade na vida acadêmica, também escrito pela professora Rosana Pinheiro-Machado e publicado em 2016 pela revista CartaCapital, virou uma espécie de manifesto. A escrita problematiza o adoecimento das pessoas que passam pelo sistema acadêmico, devido às lógicas de produtividade e competitividade. “A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio”, descreve a pesquisadora.

“O que você faz da meia-noite às seis?”

A maior parte das reclamações vem do tempo, ou da falta dele. A acadêmica de Arquitetura da UFSM Isabela Moreira Braga relata que, já no primeiro semestre do curso, chegou a passar mais de cinquenta horas acordada para dar conta de um trabalho da faculdade. Isabela também teve a autoestima fortemente agredida, pois diante de todas as demandas tinha impressão de que nunca poderia ser uma boa aluna e futura profissional do ramo. Os agravamentos também tiveram impactos físicos: como evitava “gastar” o tempo com outras coisas que não fossem trabalhos da faculdade, acabou emagrecendo, e as longas horas que dedicava sobre as maquetes resultaram em problemas na coluna e nos músculos. “Houve dias, não muito raros, em que a dor se agravava e dificultava o desenvolvimento de um projeto e até mesmo o meu descanso”, conta a estudante, que teve de se submeter a tratamento psicológico e sessões de fisioterapia.

Os prazos são curtos e quando não consegue finalizar uma tarefa, é provável que o aluno seja questionado pelo professor em tom de brincadeira: “O que você faz da meia-noite às seis?”. O acadêmico do curso de Arquitetura Jeison de Paula afirma já ter ouvido a frase diversas vezes, e a sua resposta é sempre a mesma: “Trabalho”. Para se manter na universidade, desde os primeiros semestres, buscou aliar o estudo ao trabalho e, por conta das demandas, acabou reprovando em uma disciplina.

Na UFSM, essa discussão foi pauta de uma palestra em 2017. A iniciativa foi idealizada por estudantes de diferentes áreas que compunham a Liga Comum Unidade, que tem por objetivo abrir espaços de estudo e reflexão da atuação dos sistemas de saúde. No evento em questão, a psiquiatra e coordenadora do Espaço Nise da Silveira & AFAB Martha Noal avaliou o problema como consequência do modo como o ser humano opera em sociedade: “Nós é que normalizamos as coisas que não deveriam ser normais. Não é normal as pessoas não dormirem à noite para conseguirem dar conta das suas demandas do dia”.

A ordem vem de cima

Ao passo que os alunos encontram dificuldades para gerenciar o tempo para a resolução das tarefas, os professores têm a responsabilidade de fazer as ofertas. Para a professora do Departamento de Saúde Coletiva da UFSM Liane Righi, o problema reside no fato de as ofertas não estarem articuladas: “Não é ilegítimo que o professor exija da turma conteúdos que acrescentem para a qualidade da universidade. No entanto, se a pessoa faz 12 disciplinas, ela terá 12 fardos. São 12 professores achando que o conteúdo é exclusivo, tentando se legitimar”.

Na visão de Liane, a estrutura departamental da universidade contribui para isolar as pessoas nas suas especialidades, fragmenta o trabalho docente, o aprendizado e as ofertas. Com isso, os acadêmicos também não aproveitam as demais oportunidades que a universidade oferece: oficinas, espaços de lazer, biblioteca e acesso à cultura.

Segundo Martha Noal, um dos fatores causais é também a falta de preparação dos profissionais na área educativa. “No Centro de Educação, os profissionais das licenciaturas têm formações pedagógicas. Nas outras áreas isso é mais complicado: os professores aprendem a ser jornalistas e médicos, mas não aprendem, de fato, a serem professores”, problematiza a pesquisadora.

Outros agravantes

No entanto, as situações que podem gerar problemas psicológicos nem sempre surgem da relações entre alunos e professores. É comum encontrar casos em que estudantes são afastados de determinados grupos ou se sentem acuados por não se enquadrarem em certos “padrões” da turma. Além disso, a busca incessante por ter as melhores notas pode dificultar o relacionamento e acirrar a competitividade entre os colegas. Martha Noal afirma que é preciso acabar com a ideia de seleção natural. “Acreditamos que o bom aluno será um bom profissional, e não necessariamente vai ser assim”, reforça a psiquiatra.

Ademais, as tensões no ambiente acadêmico podem ser motivadas por algum tipo de discriminação ou preconceito. A cientista social Rosana Pinheiro-Machado traz um dado interessante: enquanto a segmentação por gênero atinge homens cis em 31% e mulheres cis em 41%, na população transgênero o percentual sobe para 57% na academia. A pesquisadora salienta que, além do gênero, as vítimas da opressão têm sotaque e classe social. Neste universo, entram também questões raciais.

Em 2017, Elisandro Ferreira, acadêmico do Direito da UFSM, passou por uma situação que nunca havia imaginado que passaria no universo acadêmico: foi julgado pela cor da sua pele. Ao chegar na sala do Diretório Acadêmico do Direito, viu o seu nome e o de uma colega escritos na parede, ao lado de manifestações de cunho racista. Naquele momento, sentiu-se extremamente impotente e, nos dias que seguiram, passou a desconfiar de todos aqueles que o cercavam. A saúde mental de Elisandro foi fortemente abalada e ele chegou a pensar em desistir do curso. Com o apoio emocional de amigos e familiares, permaneceu, e hoje milita ativamente pelo movimento Racismo, Basta!

Para lidar de maneira mais saudável com as tensões do ambiente universitário, a professora Liane Righi orienta que os alunos passem a destacar prioridades, dentro de suas próprias limitações: “Destacar também é dizer: nesta disciplina, nesta área, eu não serei o melhor, isso me interessa menos”. Mas a deterioração da qualidade de vida pode se manifestar de maneiras distintas em cada indivíduo. No senso comum, existe também a ideia de colocar o suicídio como o único “extremo”. No entanto, casos graves de surtos etambém podem ser considerados como “extremos”. Um aumento significativo no sentimento de tristeza, apatia e reflexos em sintomas físicos – falta de vontade de se alimentar ou vontade de comer demais; dormir demais ou ter insônia – podem indicar problemas. Mesmo que não saiba explicar bem o motivo, basta que o estudante não se sinta bem para que busque ajuda.

Esse é também o conselho de Luísa Greff, a doutoranda que abre esta reportagem. Ela, que ao longo de boa parte do tempo acadêmico, teve acompanhamento psicológico, alerta: “A gente quer fugir de dentro da nossa cabeça. E não dá. Não adianta viajar, o problema vai na bagagem. Não adianta beber o fim de semana inteiro, pois na segunda-feira o problema está lá. Como na música de Chico Buarque, ‘inútil dormir que a dor não passa’”.

Reportagem: Tainara Liesenfeld 

Diagramação e Lettering: Juliana Krupahtz

Ilustração: Deirdre Holanda

]]>
Dossiê – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/energia-nuclear-tambem-e-assunto-de-mulher Fri, 17 Aug 2018 21:06:07 +0000 http://coral.55bet-pro.com/arco/sitenovo/?p=4395 Provavelmente você já tenha ouvido falar sobre a história de Marie Curie. Conhecida como “mãe da Física Moderna”, foi a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o prêmio Nobel. Curie é famosa por sua pesquisa pioneira sobre radioatividade, ao descobrir os elementos polônio e rádio, e isolar os seus isótopos. Ao lado dela, entre os séculos 19 e 20, outra mulher se destacou nas pesquisas no campo nuclear: Lise Meitner. A cientista desempenhou papel importante na descoberta da fissão nuclear.

 

As biografias de ambas revelam os desafios enfrentados pelas cientistas – desde o ingresso à universidade até o exercício da carreira. No tangente ao ramo nuclear, mesmo que sejam raros, há ainda registros do trabalho de mulheres nas fábricas e pesquisas sobre a criação de ogivas e armas nucleares, durante períodos de conflitos mundiais. Para além do ramo bélico, encontramos hoje múltiplas aplicações da energia nuclear e da radioatividade no cotidiano e o aumento da participação das mulheres nestas áreas.

 

Com o intuito de incentivar o trabalho de mulheres no ramo nuclear, surge a organização mundial Woman in Nuclear”.  A revista Arco entrevistou a  doutora Juana Gervasoni, presidenta da WiN-Argentina que comparecerá ao Seminário Internacional – América do Sul na era nuclear: riscos, desafios e perspectivas. Confira como foi a conversa:

 

ARCO: O que é a “Woman in Nuclear”, como surgiu e por quê?

Juana: A Woman in Nuclear (WiN) é uma organização mundial, certificada pela Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), que apoia e encoraja as mulheres que trabalham nas indústrias nucleares em todo o mundo, em especial nas aplicações da energia e radiação. Fundada em 1992, tem como objetivo promover a compreensão e a consciência pública dos benefícios das aplicações nucleares e da radiação através de redes nacionais e internacionais. Trata-se de uma organização sem fins lucrativos que atualmente conta com cerca de 4600 membros em 102 países, e segue crescendo.

 

A WiN Global realiza uma reunião anual, além de publicar um boletim informativo mensal. Na Argentina, a organização iniciou suas atividades em 1992 sob direção da Doutora Maela Virso, da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) – instituição que concentra a maior atividade nuclear do país.

 

ARCO: Quem participa da organização?

Juana: Mulheres que trabalham profissionalmente em diferentes áreas do trabalho nuclear, como ciência e tecnologia, medicina e saúde, indústria e pesquisadoras das várias instituições da Argentina. Isto é, para todos os candidatos que desejam participar da promoção de atividades nucleares.

 

ARCO: Quais são os principais objetivos e ações da organização?

Juana: Na WiN, consideramos fundamental nivelar o caminho para as jovens que estão apenas começando na carreira científica, ajudando a aumentar a conscientização sobre as dificuldades e preconceitos de gênero que ainda existem e que devem ser superados, a fim de alcançar uma autêntica igualdade entre homens e mulheres no campo científico-tecnológico. O objetivo da organização é desenvolver um espaço propício para trocar ideias e estimular iniciativas conjuntas a partir da visão das mulheres que pertencem à atividade nuclear, em distintos setores da sociedade: científico-tecnológico, de saúde, cultural, educacional e social. Tudo isso, sem deixar de desenvolver um diálogo fluido com a sociedade para promover a conscientização, contribuição e educação das pessoas e da sociedade de tecnologias nucleares.

 

ARCO: Quando as mulheres começaram a trabalhar nas indústrias nucleares e o que representam atualmente? Desde a fundação da WiN, quais foram os avanços percebidos no ramo?

Juana: No primeiro Intercâmbio de Materiais de Informação Pública (Pime) em 1988, iniciado pelo comitê de informação da ENS, os programas de informação para mulheres foram discutidos como políticas públicas em ciência e tecnologia. Mas apenas três “mulheres nucleares” compareceram. No segundo Pime, em 1989, uma mesa redonda com seis mulheres e um homem discutiu a questão das mulheres e da energia nuclear. Este foi o ponto de partida. Um ano depois, em janeiro de 1990, o comitê de informação da ENS organizou uma reunião especial de mulheres – “Mulheres e energia nuclear” – presidida por Agneta Rising (Suécia) em Ascona, Suíça. A partir daquele momento, em cada reunião do Pime, o comitê de informações deixou espaço para uma reunião das mulheres participantes.


Somente na primeira reunião especial realizada em Helsinque, em maio de 1992, organizada pelo grupo finlandês “Energy Channel”, a WiN se estabeleceu como um grupo líder. Adotou a Carta WiN e estabeleceu o programa de trabalho de informação para 1993, que inclui a reunião constitucional da Organização WiN no dia da inauguração do PIME ’93 em Karlovy Vary, na República Tcheca.

 

ARCO: Como vê a participação e a valorização das mulheres na área de pesquisa e produção da ciência e tecnologia?

Juana: Geralmente, em Ciência e Tecnologia a participação da mulher é altamente importante e de excelência, mas a valorização do seu trabalho ainda não bem é reconhecido, persistindo a invisibilidade.

 

ARCO: Quais são as perspectivas futuras da organização para a utilização da energia nuclear e para o trabalho das mulheres na área?

Juana: Nossa perspectiva é divulgar ao público em geral, especialmente mulheres, informações sobre a tecnologia nuclear e sua contribuição para a sociedade, promovendo um ambiente colaborativo com outras organizações que contribuem para esse fim. Promover também a transferência de conhecimento e experiência, por meio de reuniões regulares entre seus membros e entre os demais grupos WiN. Além disso, promover o interesse pela formação técnico-científica, especialmente entre as mulheres, em um campo direta ou indiretamente relacionado ao setor nuclear ou à radiação ionizante.

 

Reportagem: Tainara Liesenfeld

Ilustração: Pollyana Santoro

Edição: Andressa Motter, acadêmica de Jornalismo

]]>