Gênero – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Mon, 02 Jan 2023 17:41:50 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Gênero – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Gênero – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-feminismo-nao-e-entregue-de-bandeja Mon, 02 Jan 2023 17:06:12 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9579

Em um artigo publicado em 2021, intitulado “O feminismo não é entregue de bandeja: saberes e práticas de um coletivo feminista estudantil, a mestra em Psicologia Vanessa Soares de Castro, junto às pesquisadoras Adriane Roso e Camila dos Santos Gonçalves, escreveu sobre sua experiência com o Coletivo Ovelhas Negras, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), campus Ibirubá. O artigo deriva da dissertação de mestrado de Vanessa, defendida em 2019 na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sob orientação da professora Adriane Roso e denominada “Movimentos Feministas, Minorias Ativas: percurso de um coletivo de estudantes brasileiras do Ensino Médio Integrado”.

 

O Coletivo Ovelhas Negras foi fundado, em 2016, por alunas do terceiro ano do Ensino Médio Integrado do IFRS e foi acompanhado pela pesquisadora ao longo de 2017 e 2018, quando participaram da pesquisa 17 estudantes, todas mulheres, entre 15 e 20 anos. No artigo, enfatiza-se a atuação das integrantes do movimento no Instituto, mostra-se o modo como elas se organizaram durante o período observado, as atividades que promoveram e os resultados dessas ações.

 

Descrição da imagem: colagem horizontal e colorida, em tons de roxo, rosa e azul escuro, de cartazes com teor feminista. Os cartazes estão espalhados pela imagem e tem formatos quadrados e retangulares. Eles carregam frases como: "Não somos um fetiche"; "Girl Power"; "Ovelhas Negras"; "Lute como uma garota"; "Nenhuma a menos"; "Aborto: questão de saúde pública"; "Não me elogie insultando outra mulher"; "Respeito antes do gênero!"; "Vamos juntas?"; "Viva El feminismo"; "Tire seu patriarcado do meu caminho que eu quero passar com meu amor". O fundo é rosa com textura pontilhada.

A pesquisa se desenvolveu a partir da elaboração de um diário de campo, produzido por meio do contato de Vanessa com o Coletivo, que ocorreu com a participação em reuniões, encontros e ações promovidas pelas estudantes. Vanessa, que trabalha como psicóloga na instituição de ensino em que o Coletivo atua, relembra como surgiu a vontade de pesquisar essa temática: “Na época da minha graduação – me formei em 2013 -, não tive nada sobre ‘gênero’, não era um assunto que se debatia. Então, quando esse assunto começou a surgir, fui pesquisar e daí veio a curiosidade, a vontade de entender mais sobre e o que levava aquelas meninas a se interessarem por isso”, relata.

Feminismo:

O feminismo não é um movimento homogêneo, pois é constituído por diferentes mulheres, com diferentes vivências, reivindicações e práticas. Ao ser estudado, costuma ser dividido em “ondas”, que seriam momentos sócio-históricos em que diferentes pautas ganham destaque, como foi, por exemplo, a reivindicação do direito ao voto para as mulheres. No entanto, a periodização do feminismo em ondas é bastante controversa, já que transmite a ideia de que o movimento se desenvolveu em uma única direção e modo, em todos os lugares e ao mesmo tempo – o que não é correto. Isso acontece pois, por muito tempo, a história do movimento feminista foi pautada por uma literatura europeia e norte-americana, que deixou de lado a pluralidade do movimento das mulheres ao redor do mundo.

Atualmente, busca-se trabalhar questões feministas interligadas a outros temas sociais, como raça, classe e sexualidade, uma vez que esses temas são complementares – e não excludentes. Também há busca por uma literatura nacional, que valorize movimentos regionais, constituintes da identidade brasileira. No país, temos importantes nomes, hoje reconhecidas como grandes pensadoras do movimento feminista, como a filósofa, escritora e ativista Sueli Carneiro, e a linguista e escritora Conceição Evaristo.  

Levando em conta essa multiplicidade de campos e assuntos a serem explorados, Vanessa e as demais autoras do artigo delimitaram três campos culturais importantes para análise e os contextualizaram por meio de teorias e autores da área da Psicologia Social . Os três campos são: “sororidade”, “controle dos corpos e sexulidades” e “ser mulher/ser feminista”.

 

Sororidade:

As  integrantes do Coletivo interpretaram o termo “sororidade” como algo que se opõe à “rivalidade feminina”. Elas se apropriaram do termo e o renovaram ao utilizá-lo para caracterizar solidariedade e coletividade. As estudantes do Coletivo Ovelhas Negras abordam esses temas por meio da confecção de cartazes e ações coletivas. Um exemplo de ação realizada foi a disponibilização, por parte da escola, de caixinhas para a doação de absorventes. Para manter em anonimato a identidade das alunas participantes, são utilizadas letras (A, na citação abaixo) para referir-se às falas das estudantes no diário de campo.

 

A. falou sobre a questão da sororidade, de como é um assunto que ela acha que precisa ser bastante abordado. Disse que por mais que já faça parte do Coletivo e já se diga feminista desde o ano passado, foi só neste ano que começou a ver em si mesma a questão da “rivalidade feminina”, de como reproduzia isso, e começou a tentar mudar (Diário de campo, registro do dia 01/10/2018, p. 67). 

 

Vanessa ressalta que a delimitação dos tópicos surgiu do entendimento acerca do cotidiano das estudantes. Desse modo, falar sobre sororidade é entender as relações interpessoais desenvolvidas no colégio: “Quando falam da questão da sororidade, eu vi ali uma forma de elas lidarem com as relações interpessoais, o modo como essas relações estão presentes no cotidiano delas enquanto adolescentes e dentro da escola”, explica.

Controle dos corpos e das sexualidades

Já no tópico do “controle dos corpos e das sexualidades”,  as autoras abordam o modo como o Coletivo atuou com mobilizações sobre o direito das estudantes vestirem as roupas que quiserem, sem que isso influencie no julgamento que terceiros fazem delas. Tal mobilização surgiu ainda em 2016, quando as alunas promoveram o “Ato Contra a Cultura do Estupro”, em solidariedade a um caso de estupro coletivo sofrido por uma jovem no Rio de Janeiro

 

O entendimento e o uso de diferentes termos pelas integrantes do Coletivo se modificou com o tempo. O termo “assédio” passou a ser adotado pelas jovens com maior frequência no lugar de “cultura do estupro”, por se tratar de um termo de mais fácil entendimento e também por caracterizar vivências mais próximas às estudantes. Outra questão que apareceu com a pesquisa foi o necessário cuidado com máximas como “meu corpo, minhas regras”, por se tratar de uma retórica que não leva em conta o modo como os corpos estão socialmente relacionados, ou seja, não se trata apenas de um corpo individual – de uma pessoa –  mas de todas as questões sociais e históricas relacionados à ele, devido ao gênero, sexualidade, raça, classe, dentre outros fatores. 

 

O que se percebe, de acordo com os relatos trazidos pelas pesquisadoras, é que o Coletivo está em constante processo de “desacomodação”, em que as estudantes começam a entender suas relações com o cotidiano e com teorias próprias dos estudos feministas. A partir de conversas, ações e inserção em outros contextos, novas discussões emergem.

Ser mulher e ser feminista

O terceiro tópico é o “ser mulher/ser feminista”, em que é caracterizado como as estudantes entendem a construção social das diferentes formas de agir em sociedade, que são diferentes para homens e para mulheres. Neste tópico, ganha destaque o debate das jovens em torno das diferentes exigências sociais que são postas para meninos e meninas, desde a infância, quando meninos costumam ser ensinados a seguir um determinado ideal de masculinidade e as meninas são ensinadas a seguir um ideal de feminilidade. O próprio nome do Coletivo ser “Ovelhas Negras” remonta à ideia das estudantes não serem bem vistas pelas famílias por terem um posicionamento questionador.  

 

Há uma separação do que é esperado de homens e mulheres com base no gênero, e as alunas debatem sobre isso. Um exemplo é a divisão sexual do trabalho, em que a mulher é designada para trabalhos domésticos e reprodutivos e os homens estão na esfera produtiva. Outro modo de perceber essa separação é a partir da classificação de trabalhos mais valorizados por meio do salário – com os homens recebendo valores mais altos. As jovens entendem o “ser” feminista como o momento em que se percebe tais desigualdades e se busca mudar essa realidade.

 

A. falou sobre a questão do machismo no curso técnico em Mecânica, de como não há nenhuma professora na área técnica, e de como os professores homens do curso são machistas. […] Ela também contou da dificuldade ao procurar estágio, de como uma mulher, mãe do dono da empresa, disse que só estavam contratando homens […] porque as mulheres não ficavam na área, já que Engenharia Mecânica não é curso para mulher. Além disso, segundo a estudante, quando a empresa contrata mulheres, é apenas em setor sem tantos homens, pois do contrário elas são assediadas – o que faz com que a empresa apenas resolva contratar menos mulheres (Diário de campo, registro do dia 01/10/2018, p. 68).

 

A visão do Coletivo sobre o “ser” mulher se baseava, no ínicio, em uma noção homogeneizante, o que é pontuado no artigo. A intersecção do gênero com outros marcadores como raça e classe não era considerado inicialmente, muito também por se tratar do primeiro contato das jovens com o movimento. A complexidade do debate foi alcançada com o tempo, quando foram incorporadas outras problemáticas.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de uma faixa horizontal branca pendurada em um corrimão. A fotografia está em ângulo diagonal, o que permite ver a entrada de um prédio cinza, com porta e janelas, uma rampa de acesso e a parte inferior da rampa. Na faixa, em letras vermelhas, a frase: "Respeite minha existência ou aceite minha resistência". No lado direito da faixa, em preto, o símbolo do feminismo.
Faixa confeccionada pelas estudantes.

Para além do superficial: discursos que devem incomodar

Tópicos como raça, classe social e sexualidades são pontos que perpassam o feminismo e o ato de ser feminista. No artigo, é pontuado como a questão da negritude ganhou destaque nos debates do Coletivo depois de uma estudante negra integrar o grupo e a participação de alunas em uma palestra sobre a história da filósofa e ativista Angela Davis, além da notícia do assassinato da socióloga e vereadora Marielle Franco. 

 

Ontem, nós assistimos à palestra sobre a Angela Davis, negra, feminista, mulher de luta. E naquela mesma hora Marielle Franco, mulher, vereadora do Rio de Janeiro, negra, feminista, e fiscal da intervenção militar que vinha relatando abuso de poder por parte dos policiais foi assassinada com 5 tiros na cabeça e no rosto (Diário de campo, registro do dia 19/03/2018, p. 43-44).

 

Vanessa pontua a importância de compreender o quanto os discursos produzidos pelas estudantes fugiam da superficialidade. A pesquisadora conta que muitos estudantes chegavam ao Instituto com noções acerca do que é caracterizado como assédio, o que é consentimento e outros tópicos importantes, mas a noção de uma luta coletiva ainda era algo complexo e longe da realidade desses jovens. Com o passar do tempo e a participação dos e das estudantes em ações promovidas pelo Coletivo, além do ingresso de novas integrantes no meio, os debates se aprofundavam, com a inserção de novas temáticas.

 

No período analisado, a maioria das estudantes eram meninas brancas, de classe média e da região urbana. Ampliar o debate para tópicos que envolvem e fomentam outras discussões sociais era uma preocupação presente no Coletivo. “É importante fazer essa ligação, entender que questões de gênero se relacionam com raça, com classe e debater sobre isso”, enfatiza Vanessa.

 

As jovens buscavam constantemente avaliar e refletir sobre as próprias ideias, na busca por um feminismo amplo, capaz de melhorar a vida das pessoas. A frase que dá nome ao artigo, “o feminismo não é entregue de bandeja”, deriva da fala de uma das integrantes, o que mostra o entendimento delas acerca do ser feminista, caracterizado como difícil por ir na contramão do pensamento vigente na sociedade. 

 

A. disse que o feminismo não é algo ‘entregue de bandeja’ para elas, é preciso ir atrás, buscar, pesquisar, e vai ser algo incômodo. B. complementou, afirmando que dizem que o feminismo é chato (no sentido de que causa muito incômodo, atrapalha certas coisas), e as pessoas têm razão nesse ponto, pois ele é mesmo, precisa ser (Diário de campo, registro do dia 20/03/2018, p. 49).

O uso das redes sociais

O meio digital tem se tornado um ambiente em que diversos debates surgem e temáticas diversas são colocadas em pauta diariamente, em diferentes plataformas de redes sociais digitais. Para o Coletivo Ovelhas Negras, as redes sociais se constituíram como importantes locais para entender e observar o que acontecia, quais assuntos eram abordados e como as estudantes poderiam incorporar esses debates ao cotidiano escolar. 

 

Vanessa enfatiza que, mesmo  com as redes sociais como espaços importantes de debate,  as discussões devem ultrapassar o ambiente virtual. “Era uma preocupação minha tentar trazer pra elas algumas discussões de forma simples, mas que também consiga dar a complexidade daquele assunto. Trazer de uma forma que seja acessível, mas que também consiga mostrar o quanto aquilo tem nuances”, destaca a pesquisadora.

Pandemia e o retorno à ações presenciais

Com a pandemia de Covid-19, as ações do Coletivo – que aconteciam principalmente por meio de rodas de conversa e ações práticas, como a confecção de cartazes, tiveram de ser interrompidas e os modos de atuação do grupo foram prejudicados. Vanessa conta que o processo de retomada dessas atividades ocorre, ainda que lentamente: “O que eu sinto é que eu preciso estar ali tentando ajudar, tentando criar um ambiente em que elas possam atuar e dar algumas orientações”, ressalta.

 

A pesquisadora também reitera que algumas atividades que já eram produzidas nos anos anteriores foram retomadas, além da renovação do Coletivo com o ingresso de novas participantes. “Eu sinto que é um espaço que precisa ser reconquistado, elas têm reivindicações e precisam ser ouvidas”, ressalta.

Expediente:

Reportagem: Milene Eichelberger, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Mariana Henriques e Luciane Treulieb, jornalistas.

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Gênero – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/maternidade-nas-midias-entre-a-critica-a-romantizacao-e-a-pressao-social Fri, 06 May 2022 14:15:14 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9226

Depois do nascimento da segunda filha, há cinco anos, Milena Freire se deparou com um dilema: a vontade de voltar ao trabalho e o sentimento de não se sentir preparada para o retorno. Ela é pesquisadora no campo da Comunicação, coordenadora no Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM) e docente do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no curso de Publicidade e Propaganda. Diante do impasse, ela usou suas redes sociais digitais para compartilhar o misto de sentimentos: “Eu escrevi um post em que coloquei algo do tipo: ‘não tá tudo bem, não sei se quero voltar, eu não estou pronta, mas ao mesmo tempo eu quero’”, conta.

Captura de tela de post do Facebook em formato vertical. Na parte superior, fotografia circular ao lado do nome "Milena Freire" em azul. Abaixo, texto em preto: "Eu não estou pronta. Amanhã é o meu último dia de licença maternidade (+ férias). Foram precisamente 228 dias que tive para me renovar como mãe e como mulher. Tenho consciência do meu privilégio em acompanhar integralmente os primeiros meses da Nina. Mas isso não me tira do pensamento a intranquilidade a que são submetidas as mães, sejam elas trabalhadoras do mercado ou do lar. A maternidade nos faz experimentar os sentimentos mais ambivalentes: força/cansaço; alegria/tristeza; companhia/solidão; coragem/insegurança. A licença, nesse contexto, parece o momento "legal" que lhe foi destinado a viver e ajustar todos os sentimentos, além dos cuidados objetivos que o bebê precisa. Como se todo o restante da vida ficasse parado nesse período ou como se ela voltasse ao "normal" após sua passagem. Nos primeiros meses da maternidade, cada demonstrava do desenvolvimento do bebê nos faz sentir alegria e orgulho, na mesma medida em que a soma de cada nova tarefa traz uma angústia que parece incompreensível aos olhos de quem vê de fora. Fralda, sono, peito, banho, mamadeira, roupa, remédio, médico, vacina, brinquedo, estímulo, choro, satisfação. Tudo se soma ao que já existia antes, mas não tem a mesma cara. Foi preciso administrar o que de alguma forma mudou com a chegada da Nina: a casa, a relação com o marido, com o próprio corpo, com o filho que virou "mano" (e que sentiu ciúmes). Quantas vezes achei que não conseguiria dar conta. Quantas efetivamente não dei. O que mais me inquieta, de fato, é saber que a maior parte destas preocupações e expectativas são criadas. Por mim e pelo entorno. E o que é mais intrigante: não se fala sobre isso. A maior parte das mães (para não dizer todas), vive estes sentimentos mas não se encoraja a falar do que lhes fragiliza. Somos estimuladas a sustentar a ideia de que tudo está maravilhoso e sob controle. Para mim, o momento de voltar ao trabalho, retomar a rotina sem que nada (nem eu mesma) seja como antes, faz abrir um abismo. Uma série de dúvidas, inseguranças, cobranças desorganizam (um pouco mais) a cabeça e o coração. É hora de saber dividir o tempo, a atenção, de fazer um encaixe entre as novas e as velhas tarefas e preocupações. O sentimento (e a certeza) de que será necessário estar em falta com algo/alguém por vezes me desconforta. Olho para Nina, tão doce e tranquila, e penso que ser mar de uma menina pode ser ainda mais desafiador. Talvez eu precise lhe mostrar ao longo da vida que não é possível nem necessário ser "super" ou "dar conta de tudo". Mas que podemos ser "o melhor possível", com todo o afeto e intensidade que desejarmos empenhar em cada relação, seja como mãe, como esposa, como filha, como amiga, como profissional ou como dona-de-casa. Que venha a segunda-feira. Eu não estou pronta. Mas talvez não precise mesmo estar.
Captura de tela de post de Milena Freire

Sobre a repercussão, Milena comenta que um dos pontos que chamou a atenção é que só as mulheres da sua rede comentaram a postagem. O outro ponto foi a ambivalência desses comentários: “algumas se identificaram e outras tinham o discurso de que ser mãe é padecer no paraíso”, relembra. A partir disso, a pesquisadora percebeu a necessidade de discussão da intersecção entre maternidades e mídias.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida em tons de azul e verde turquesa. No lado direito da imagem, tela vertical de seleção de foto do Instagram. No centro superior, fotografia de uma mulher com um bebê recém-nascido no colo. A mulher tem pele branca, tem cabelos escuros, ondulados e curtos; ela sorri amplamente; veste regata branca. O bebê veste roupa e touca verde turquesa, e uma chupeta da mesma cor. O fundo da imagem é verde turquesa. Na parte superior da foto, o texto "Nova publicação". Na parte inferior, sobre fundo branco, o texto "galeria", e, abaixo, oito fotografias de diferentes ângulos do bebê dispostos em duas fileiras. No centro esquerdo da ilustração, atrás da tela, a mesma mulher, de olhos arregalados, cabelos despenteados, com alguns fios para cima. O bebê está com a boca aberta. Acima e abaixo, recortes de seis comentários: "Realidade de praticamente toda a mãe :)"; "Tá cansada? Ninguém pediu pra nascer?"; "Texto maravilhoso"; "Como eu amo esses textos"; "Tá reclamando por que? Não quis ser mãe?". O fundo é cinza escuro.

No próximo domingo (08), ocorre o Dia das Mães, e, em referência à data, a Revista Arco entrevistou Milena Freire para falar sobre sua pesquisa e sua relação com a maternidade, e de que forma ela se intersecciona com as mídias. Confira:

Arco: Por que a escolha da maternidade como temática de estudo?

Milena: Essa motivação veio a partir da minha experiência pessoal. Mais do que a temática de estudo, acho que a maternidade implicou em uma posição mais afinada e em um reconhecimento da necessidade do estudo e do engajamento feminista. Foi a partir do reconhecimento das desigualdades que me eram postas – e do reconhecimento da existência dessas desigualdades na vida de outras mulheres – que, há treze anos, me coloquei de modo mais próximo e hoje me reconheço como uma mulher e uma pesquisadora feminista. Embora reconhecesse a necessidade de pensar e refletir sobre as desigualdades, foi a experiência da maternidade que me colocou nesse lugar. 

No momento em que ingressei no Programa de Pós-Graduação (Poscom) como docente, apresentei o projeto para ingressar no PPG. Eu já tinha feito, na minha pesquisa de doutorado, um trabalho que falava sobre gênero e desigualdade, mas a partir de uma perspectiva do trabalho feminino, interseccionado por questões de classe social e por questões que observam o trabalho desde o mercado até o trabalho doméstico. Conforme fui concluindo a tese, essas questões da maternidade se apresentaram entre as minhas entrevistadas que eram mulheres de classe popular. Aí eu parti para o reconhecimento da maternidade como um trabalho.

Acho que isso foi algo que conjugou meus interesses anteriores, de observar questões relacionadas ao trabalho, mas de entender que a maternidade inclui uma série de demandas que são colocadas para as mulheres de modo cultural, histórico e social e que, como são atravessadas pela intermediação de questões como afeto, não são reconhecidas como um trabalho. São colocadas como um destino, um prazer, um desígnio de Deus, mas não são vistas como trabalho.

O meu projeto trabalha as representações da maternidade nas redes sociais. Desde a última década, nos vemos performando ou construindo uma parte importante da nossa sociabilidade a partir das redes sociais digitais. A maternidade, nesse caso, também está bastante implicada no processo, na medida em que se sugere ou se exige das mães que compartilhem essa experiência majoritariamente de modo positivo. Eu me vi pessoalmente demandada e implicada a refletir sobre isso.

Descrição da imagem: ilustração quadrada e em tons de azul e verde turquesa de uma mulher em primeiro plano. Ela tem pele branca, cabelos escuros, curtos e levemente ondulados, expressão facial tranquila, faixa etária em torno de quarenta anos. Tem olhos esverdeados, sobrancelha fina e escura. Sorri levemente. Usa camiseta azul marinho. O fundo é verde turquesa.
Milena Freire.

Arco: Qual é o maior desafio de pesquisar a maternidade?

Milena: Eu acho que o primeiro desafio é sair do circuito materno, porque a maior parte das trocas que consigo estabelecer no campo de pesquisa são com outras pesquisadoras mães. A maternidade parece, mesmo dentro do campo do feminismo, um assunto menor, doméstico, relacionado ao afeto, ou seja, individual. Um dos pareceres sobre o meu projeto dizia para tomar cuidado para que o projeto não fosse uma questão pessoal, como se a pesquisa não pudesse ser política. Eu, particularmente, me vi envolvida e estimulada a pensar sobre esse tema a partir da minha experiência. Mas não quer dizer que somente pessoas que têm a experiência materna possam falar sobre. A maternidade é uma questão da sociedade.

O principal desafio de pesquisar a maternidade é o tanto que esse tema é colocado como menor, como algo que é do interesse apenas de quem está vivendo. E não pode ser. A maternidade é uma questão política.

Nós como sociedade precisamos continuar existindo. Esse é um grande mérito do neoliberalismo: entregar para a mãe ou para a  mulher a ideia de que a maternidade é uma escolha, logo, é um problema da mulher. Isso tudo é uma falácia. Nós lidamos, na nossa sociedade machista e patriarcal, com uma maternidade que é compulsória. Muitas vezes, as mulheres não escolhem ser mães, nós vivemos em uma sociedade cujos preceitos religiosos e legais não nos permitem interromper uma gravidez. Então a maternidade não é uma escolha. Vivemos em uma sociedade em que a paternidade pode ser negligenciada, basta levantarmos dados estatísticos da quantidade de filhos que não têm o registro paterno [segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 34 milhões de mulheres são chefes de família no Brasil]  e tantos outros que não têm os seus pais próximos no processo de educação. Nesse contexto, quando falamos da pesquisa da maternidade, se diz que isso é coisa de mulherzinha, de mãezinha. Do ponto de vista da pesquisa, se vê que, mesmo dentro dos estudos feministas, não existe um espaço para discutir as questões de maternidade. A minha pesquisa, do ponto de vista teórico, é filiada ao feminismo matricêntrico, de uma pesquisadora canadense chamada Andrea O’Reilly, que diz que a maternidade é um elefante na sala do feminismo. 

Arco: Quais são as principais características da intersecção entre maternidades e mídias? 

Milena: Como uma pesquisadora do campo dos estudos culturais e que tem foco voltado ao que as pessoas fazem com aquilo que elas lêem, consomem, produzem e projetam nesse grande campo comunicacional, meu foco de pesquisa é voltado para entender como as mulheres se relacionam com essas representações de maternidade que elas consomem, mas que elas também produzem. Essas representações são distintas e por vezes antagônicas, às vezes falamos da romantização da maternidade, do que se fala e do que se espera de uma mãe, de que ela também reforce a perspectiva de uma experiência transformadora, de um amor incondicional e assim por diante. Mas, por outro lado, existem outros discursos que fazem esse questionamento. Nós, como partícipes desse grande processo que são as redes sociais digitais, construímos a nossa própria subjetividade materna à medida que partilhamos dessas experiências. Existem pesquisas muito interessantes que vão falar sobre as representações da maternidade na mídia específica e dirigida para as mães, que são os blogs maternos, as revistas, programas, documentários e séries específicos: são saberes quase disciplinares, que vão reportar o saber médico, os grandes especialistas que vão dizer para mãe o que e como se deve fazer alguma coisa. Podemos ver muitas representações da maternidade na publicidade, nas artes e em várias outras intersecções sobre as quais podemos pensar o modo a partir do qual entendemos o que é ser mãe e como ser mãe, que está, muitas vezes, sustentado ou reforçado pela mídia.

 

Arco: No artigo ‘Mãe é mãe, né pai?’, usa-se a expressão ‘maternidade opressora’. É possível estabelecer, na sociedade de hoje, uma maternidade que não seja opressora?

Milena: Sim, é  para isso que a gente batalha, mas isso não quer dizer que seja fácil. A ideia da maternidade opressora é trabalhada pela Andrea O’Rilley no sentido de entendermos a maternidade como uma opressão adicional às mulheres. Por isso que ela reivindica que devemos observar, no estudo do feminismo, a maternidade no centro da discussão. Existem as opressões que são vividas pelas mulheres e existem as opressões que são vividas pelas mulheres que são mães. Quando eu falo de uma opressão adicional, trata-se de um atravessamento. Pensar nas interseccionalidades não significa pensar em quem é mais oprimido. Não é um concurso, não é um somatório que vai dizer quem é mais oprimido, mas são opressões que precisamos pensar de acordo com o contexto e a realidade. As mulheres mães de classe popular passam por opressões e dificuldades diferentes daquelas mulheres que são mães de classe média, entre outros exemplos. Eu acho que é possível a gente pensar em uma maternidade que não é opressora, mas dentro de um contexto bem específico. Em um contexto social amplo, infelizmente não.

A maternidade é opressora porque restringe uma série de cuidados e expectativas à figura da mulher mãe. Mas por que a maternidade pode não ser opressora? Porque a maternagem não é uma condição específica da mulher.

A maternagem é o conjunto de atividades culturalmente atribuídas à mulher, que são relacionados a uma criança para sua educação e para o seu desenvolvimento. Se a maternagem for compartilhada e reconhecida como uma questão social, a maternidade deixa de ser opressora.

Arco: O que definiria a maternidade patriarcal?

Milena: A Andrea O’Reilly nos faz uma contribuição a partir de dez pressupostos construídos na sociedade patriarcal:: princípio da individualização, da biologização, da essencialização, da privatização, da naturalização, da normalização, da especialização, da intensificação, da idealização e da despolitização. São pressupostos que vão dizer que é a mulher que performa a maternidade e que a mulher que é mãe sabe fazer melhor. Isso é um conceito, mas eu posso observar a maternidade a partir de várias outras lentes. A construção da maternidade patriarcal se dá dentro do que é reconhecido como pressuposto básico da maternidade na nossa cultura. É interessante e é difícil enxergarmos uma maternidade que não seja patriarcal, porque isso está dentro da cultura, mas conseguimos observar como esses preceitos aprisionam a mulher. À medida que esses problemas se tornam evidentes, conseguimos desmistificar determinadas questões e dizer ‘olha, aqui está o momento em que eu me torno oprimida por esse patriarcado’.

Arco: A maternidade é permeada de desigualdades de gênero, padrões e pressões sociais. De que forma essas questões que permeiam a maternidade reverberam nas redes sociais digitais?

Milena: A maternidade romantizada não aparece como uma opressão, muito pelo contrário. Ela aparece como uma dádiva, como a melhor experiência do mundo. Parece até um contrassenso. Cadê a opressão, se está sendo dado a ela a melhor experiência que se pode ter? Mas existe uma série de outros discursos que circulam na rede que tem demonstrado essas opressões, que é aquilo que vamos denominar de maternidade real. Existem perfis que precisam ser observados, o da Andressa Reis é muito interessante: ela é uma mulher negra de classe popular, da periferia do Rio de Janeiro. Ela faz um questionamento muito interessante sobre as posições que são colocadas para as mulheres que são mães. Ela consegue criticar e fazer comparativos a partir de cenas do cotidiano. É um conteúdo que extrapola as redes e circula entre as mulheres, que começam a se identificar. É interessante esse movimento. Quanto mais damos visibilidade, mais as mulheres se veem identificadas. Em 2020, nós fizemos um questionário com mais de 2000 respostas para a pesquisa “Maternidade e uso das redes em tempos de pandemia”, do Grupo de Pesquisa Comunicação, Gênero e Desigualdades (CNPq/UFSM): por um lado, 80% das mulheres que são mães afirmaram que leem e consomem esse material que critica e que questiona determinados aspectos da maternidade. No entanto, uma parte considerável delas afirmou que não se sente confortável para repostar ou produzir material com esse conteúdo. Isso é interessante porque demonstra a existência dessa engrenagem:

 Na mesma medida em que essas mulheres consomem, leem e se interessam por esse questionamento da maternidade, elas não se sentem à vontade para expôr a crítica nas suas páginas pessoais. Em alguma medida, elas sabem que, se colocarem essa crítica nas suas páginas, vão ter que enfrentar a opressão da maternidade patriarcal.

Mas, ainda assim, consumir esse material já é um movimento importante. A  crítica está circulando e as mulheres, em alguma medida, podem se sentir aptas a construir o discurso e a crítica nas suas rotinas. Isso tem um valor significativo e precisamos reconhecer como uma prática desse movimento.

Descrição da imagem: fotografia horizontal e colorida de uma mulher e duas crianças. No centro, mulher de pele branca, cabelos castanho claros, curtos e lisos levemente ondulados, tem olhos escuros, algumas rugas e sorri amplamente; veste casaco escuro e lenço xadrez em tons terrosos. Na esquerda, menina de cinco anos, de pele branca, cabelos loiro escuros e lisos, olhos escuros; ela veste um moletom cinza claro com uma borboleta dourada. No lado direito, menino de em torno de dez anos, tem pele branca, cabelos loiro escuros e ondulados, olhos escuros; veste moletom preto. Ao fundo, estante com livros.
Milena Freire e os filhos, Nina e Tomás.

Arco: De que forma os perfis em redes sociais digitais que contestam  os papéis de gênero e a maternidade enquanto instituição podem contribuir no debate além de fazer circular a crítica?

Milena: A pandemia elucidou e demonstrou que estamos atravessando uma crise do cuidado, e ela se intensificou a partir da pandemia. Naquele momento em que estávamos em isolamento, em que a casa se tornou o principal espaço de sociabilidade e de cuidado, foram as mulheres que mais foram sobrecarregadas, tanto no cuidado com os filhos como com o cuidado com o ambiente doméstico e com os próprios familiares. A ideia do cuidado ultrapassa o cuidado com os filhos e ela vai até o cuidado com toda a família. A crise do cuidado fez eclodir coletivos maternos, que se constituem e se fortalecem a partir das redes. Eles se consolidam e se juntam para reivindicar políticas públicas de combate a essas desigualdades. Dentro do ambiente universitário, as mães que mais sofreram com a pandemia são as estudantes que precisaram manter sua rotina de estudos e, por muitas vezes, perderam os seus benefícios socioeconômicos e não tinham onde deixar os seus filhos em creche ou em escola. Além disso,  há algo que eu acho que é interessante pensarmos no que diz respeito aos leitores da Arco: nós não temos um respaldo substancial que dê conta das demandas das mães estudantes. Para mães estudantes, não há licença maternidade – é um período de afastamento tal como uma licença de exercícios domiciliares. Mas esse filho continua adoecendo, precisa ir ao médico. Quando essa estudante mãe precisa faltar, ela precisa contar com a boa vontade dos professores. Nós precisamos de espaços em que essas mães possam deixar seus filhos quando precisam fazer um trabalho coletivo. É a partir desses coletivos maternos que as mães se juntam para falar sobre suas questões e para reivindicar a maior parte dos seus direitos. 

Arco: Como se constitui a representação da maternidade pela mídia hegemônica? 

Milena: A mídia hegemônica tende a não fazer maiores questionamentos. Não é ela que propõe desestruturar o que está posto. Só acontece quando já é questionado na sociedade. A mídia hegemônica vai dar conta de determinadas pautas, e a telenovela é uma excelente representação para isso. Não estou dizendo que não é importante que a mídia hegemônica faça esse questionamento, mas ela amplia um movimento que já está fundado na própria sociedade.  A publicidade não consegue fazer isso, nunca conseguiu e não sei se ela está interessada em fazer. O máximo que ela vai fazer é colocar a dupla maternidade, colocar mulheres negras no comercial, mas o pai continua aparecendo como um sujeito coadjuvante, como aquele que brinca ou como desastrado. Ele não aparece como alguém que exerce a maternagem. O humor é usado como um elemento sofisticado para dizer e reiterar isso, e acaba por favorecer uma lógica que é nociva. Existem representações de desconstrução dessa mídia hegemônica, mas elas são tímidas. Eu vejo como um movimento que já é pulsante na própria sociedade. A mídia especializada e o cinema conseguem questionar mais. Mas, se olhar para o jornalismo, para a publicidade e para a telenovela como discursos hegemônicos, o que mais vemos é o reforço do padrão que oprime as mulheres. 

Arco: Qual o espaço que ocupa a romantização da maternidade nessas diferentes mídias? 

Milena: É o maior espaço. Eu acho que o que a gente tem visto nos últimos anos é uma quebra. Quando entrevistamos as mulheres, elas reproduzem isso, elas dizem que o laço entre a mãe e o filho é diferente porque a mãe é que gera desde a barriga. O espaço é predominante e o questionamento é mínimo. Precisamos pensar sobre isso, inclusive como esse questionamento aparece. Na nossa configuração social e política, o jornalismo às vezes traz o discurso de protagonismo de famílias monoparentais e das mulheres chefes de família como se elas estivessem protagonizando uma revolução. Isso aparece como positivo, mas não se descortina. É um grande problema social que está posto. Ou temos um discurso absolutamente nocivo da mídia, ou um discurso que é sustentado e que circula na sociedade e que se o jornalismo não tomar conta e não cuidar com o que fala, acaba por reforçar e reproduzir como uma verdade.

Falar sobre maternidade é também falar sobre uma estrutura social mais ampla que condiciona ou que coloca a mulher em um espaço difícil. 

Expediente:

Entrevista: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Gênero – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/mulheres-na-paleontologia Fri, 11 Mar 2022 13:29:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9078
Gif horizonte e em tons de azul. São duas telas: na primeira, um grupo de seis homens está ao redor de uma pedra com duas marcas de fósseis de pé de dinossauros. Dois dos homens tem pele negra, e quatro tem pele branca. Eles vestem jaleco branco sobre camiseta verde claro. Dois deles seguram ferramentas como martelo, espátula e pincel de limpeza. Outro segura uma lupa. Outro uma câmera fotográfica. Ao fundo , quadro de esqueleto de dinossauro. A parede é azul marinha. A segunda tela desliza para a direita. Nela, há uma mulher negra de cabelos loiros em frente a uma rocha com fósseis de três conchas. Ela veste jaleco branco sobre camiseta verde claro. Segura uma lupa na mão. Na mesa em frente, há um livro aberto, um pincel de limpeza e uma faca pequena. O fundo é uma parede azul marinho.

A Paleontologia é um campo tradicionalmente reconhecido como masculino em todo o mundo. Uma forma de demonstrar isso é bem simples: quando pesquiso o termo no Google Imagens, o algoritmo mostra principalmente homens em campo – mulheres demoram a aparecer nos resultados da busca. Ou seja, influenciados pela representação midiática, associamos a profissão a homens brancos (independentemente de sermos leigos ou escolarizados). Mas será que esse cenário condiz com a realidade da pesquisa paleontológica no Brasil?

Captura de tela de resultado de busca no Google, na aba imagens. A aba de busca tem o texto "Paleontologia". Abaixo, oito imagens em duas linhas. São quatro imagens de fósseis de dinossauros, um carta, de curso sobre Paleontologia básica, duas imagens de homens mexendo com fósseis e uma ilustração de um fóssil de lagarto com o título "Paleontologia: o que é?"

Em um resumo publicado em 2017 pelas pesquisadoras  Mell Siciliano e Jacqueline Leta, foi observado que, em trabalhos de autoria compartilhada na Revista Brasileira de Paleontologia, “praticamente para cada autor há metade de uma autora”. Essas informações reforçam a predominância de autores masculinos na área da Paleontologia no Brasil.

 

Outro exemplo é a história dos estudos de roedores no Brasil (área de Paleomastozoologia, na qual eu atuo), que iniciou no século 19, com os trabalhos de Peter W. Lund (1801-1880) e posteriormente com Herluf Winge (1857-1923), ambos naturalistas dinamarqueses. Na década de 1940, após um hiato nos estudos de roedores do Brasil, Bryan Paterson realizou algumas descobertas sobre o grupo de animais. Somente a partir da década de 1960, esses estudos se intensificaram, começando pelos trabalhos de George Gaylord Simpson (1902-1984), paleontólogo e evolucionista estadunidense. Na década de 1980, destacaram-se os trabalhos de Kenneth E. Campbell Jr. e David Frailey, do Museu de História Natural da cidade de Los Angeles. 

 

Atualmente, têm se dedicado ao estudo de roedores caviomorfos (roedores sul-americanos, como chinchilas e capivaras) os professores Ricardo Francisco Negri e Leonardo Kerber. Ou seja, até aqui, todos homens. Após quase dois séculos, eu sou primeira mulher brasileira a também me dedicar a esta área de estudos (em outros países, como na Argentina, existem mulheres paleontólogas que estudam roedores extintos, como  María Guiomar Vucetich, Michelle Arnal, María Encarnación Pérez, Myriam Boivin – francesa, mas atualmente trabalhando na Argentina, entre outras).

Fotografia horizontal e colorida de três mulheres agachadas sobre solo de terra vermelha. Elas vestem camiseta branca e calça preta, e chapéu de tecido bege ou boné branco. Mexem no solo com ferramentas como martelo, espátula e pincel de limpeza. Ao lado, uma bacia de plástico transparente. Ao fundo, é possível ver água.
Da esquerda para direita: Paula Dentzien Dias, Débora Diniz e Emmanuelle Fontoura. Arquivo pessoal.

O coletivo Mulheres na Paleontologia,  é composto por docentes, pesquisadoras e estudantes que atuam na Paleontologia brasileira. Foi criado em 2017, sob a coordenação da pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) Annie Schmaltz Hsiou, a partir de denúncias de discriminação, violência e assédio relatadas por mulheres da graduação e pós-graduação. Em 2020, essas cientistas criaram o projeto de pesquisa ‘Perfil de Gênero da Paleontologia’, que tem o  objetivo de “realizar o levantamento do perfil de gênero na Paleontologia brasileira, compreendendo qual a sua diversidade atual e como esse perfil se alterou ao longo da história da Sociedade Brasileira de Paleontologia”. O projeto busca gerar “argumentos baseados em evidências para debates sobre a estrutura opressora do machismo na academia e no universo científico”, segundo consta nas redes sociais da iniciativa. Alguns dos resultados mostram que há uma diversidade muito grande na área paleontológica (49,4% homens, 47,8% mulheres, 1,9% não-binários, 0,5% homens trans, 0,2% mulheres trans e 0,2% agêneros). Entretanto, ainda há  predominância de homens quando comparamos gênero em cada área dentro da Paleontologia (Paleoinvertebrados: 57.1% homens, 42.9% mulheres; Paleovertebrados: 60.1% homens, 39.9% mulheres; Paleoicnologia: 60.5% homens, 39.5% mulheres; Paleopalinologia: 32.3% homens, 67.7% mulheres; Paleobotânica: 40% homens, 60% mulheres; Micropaleontologia: 42% homens, 58% mulheres; Tafonomia: 56.9% homens, 43.1% mulheres).

 

Recentemente, o coletivo publicou uma Carta Aberta da Rede Mulheres na Paleontologia – PaleoMulheres, em razão de um paleontólogo, servidor público e docente ter sido denunciado por assédio moral e sexual – fato que foi reportado no programa televisivo Fantástico. Nesta carta, as mulheres manifestaram seu repúdio e fizeram solicitações à Sociedade Brasileira de Paleontologia, além de se dispor para auxiliar as vítimas.

Fotografia horizontal e colorida de duas mulheres e um homem trabalhando sobre uma mesa branca. Na mesa, há pedaços de pedra, pedras dentro de plásticos, caixa de papelão, ferramentas como pincéis e pinças. As pedras com as quais mexem estão sobre almofadas. Os três tem pele branca, cabelos castanho escuros e lisos, presos em um coque. Vestem jaleco branco. As duas mulheres usam óculos. Ao fundo, prateleiras de alvenaria com cerâmica, em que estão depositadas caixas e variados ossos.
Da esquerda para direita: Débora Moro, Emmanuelle Fontoura e Yan Silva.

Maternidade e Paleontologia

A desconsideração da licença maternidade na aferição de produção acadêmica e científica era um fator importante na produção científica feminina. Apenas no ano de 2021, a plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou inserir os registros de períodos de licença maternidade no currículo. Até então, a qualidade e capacidade profissional do cientista, que é medido através da quantidade de publicações e atividades inseridas no Lattes, era mensurado de forma semelhante para homens e mulheres, desconsiderando que as mulheres teriam 120 dias ausentes das atividades acadêmicas por motivos intransferíveis, além de que elas têm que ultrapassar mais barreiras para estruturar suas carreiras do que homens, como dupla jornada, preconceito, competição e segregação. Uma pauta feminista e materna, que finalmente foi conquistada. 

 

Além de tudo que foi citado, a paleontologia possui a necessidade de saídas de campo para coleta de material (outras áreas científicas também têm essa necessidade, porém vou comentar sobre a área na qual eu atuo). Para além do deslocamento até o sítio paleontológico – que exige aptidão física para caminhar longas distâncias, desbravar mata fechada, escalar morros escorregadios ou lamosos -, a coleta de material fóssil necessita de força física para remover um bloco rochoso do chão e transportá-lo até o laboratório. Nesse cenário, o machismo é presente de diversas formas, seja no pensamento das pessoas de que esse é um “trabalho para homens” e que mulheres não são capazes de realizá-lo – portanto, preferem contratar homens para esse emprego; seja quando presenciamos homens constantemente interrompendo nossa atuação para “fazer um trabalho melhor”; ou até no conhecido “mansplaining”, em que homens tentam explicar algo que sabemos – e muitas vezes somos especialistas no assunto. 

Fotografia horizontal e colorida de seis pessoas. No centro, duas pessoas estão agachadas ao redor de um círculo na terra, em meio a uma estrada de chão. No círculo, há um fóssil. São dois homens, um de pele branca e outro de pele negra, que seguram marretas na mão. Outro homem, em pé ao lado, também segura uma marretinha. Na esquerda, mulher de pele branca em pé; ela está de costas, tem cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo; veste camiseta branca, calça preta e usa Chapéu de tecido bege. Está grávida e aponta o dedo para o círculo. Ao fundo, outra mulher, de pele parda, em pé, sorri. Estão em uma estrada de chão. O fundo é uma paisagem de campo, com gramíneas baixas e árvores ao fundo.
À esquerda, professora Paula Dentzien-Dias, grávida de sete meses, coordenando a coleta de pegada de dinossauro na Formação Guará. Imagem cedida pela Paula.

A maternidade ou a própria manutenção da família e da casa podem afetar a produtividade acadêmica das paleontólogas mulheres, uma vez que  algumas saídas de campos podem durar horas, dias ou semanas, o que pode ser um tempo longo para uma mulher que é mãe se ausentar de casa. Essa preocupação ainda não é tão comum para homens, pois eles costumavam ser moldados para se dedicar ao seu trabalho – e apenas isso. 

 

Para as paleontólogas realizarem as saídas de campo, é necessário encontrar um espaço seguro, um familiar ou uma amiga para deixar os filhos.  Os campos costumam ser  ambientes perigosos para uma criança. Ou seja, a situação exige uma rede de apoio, muitas vezes negligenciada. Tenho certeza que muitas mães já ouviram frases como: “por que resolveu ser mãe agora?”, “deveria ter se planejado melhor”, ou então “uma mãe ausente não é uma boa mãe”. São inúmeras críticas às mulheres cientistasque querem conciliar o trabalho e a família. 

“Uma vez feita a opção pela carreira científica, a mulher se depara com o conflito da maternidade, da atenção e obrigação com a família vis-a-vis as exigências da vida acadêmica. Algumas sucumbem e optam pela família, outras, pela academia, e um número decide combinar as duas. Sobre essas últimas, não é necessário dizer quanto têm que se desdobrar para dar conta não apenas das tarefas múltiplas, mas também para conviver com a consciência duplamente culposa: por não se dedicar mais aos filhos e por não ser tão produtiva quanto se esperaria (ou gostaria). (VELHO, 2006, p. xv, retirado de Silva e Ribeiro, 2014)

 

Para exemplificar, pedi à minha orientadora da graduação, a professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Paula Dentzien-Dias, que me enviasse uma foto de alguma situação relativa à maternidade, visto que ela recentemente tornou-se mãe do Vicente. Ela me enviou esta imagem, um frame de um vídeo para aula prática de uma disciplina de Icnologia atual e fóssil da Pós-Graduação em Oceanologia que ela ministra. Ela se deslocou até o local onde seria realizada a aula prática de campo com os alunos, se não estivessemos em pandemia, para fazer a gravação e levou o Vicente junto – e ele acabou aparecendo sem querer no vídeo. 

Fotografia vertical e colorida de um pedaço do chão. Há areia ao redor de um pedaço de fóssil branco. No canto superior esquerdo, sobre o fóssil, pedaço de pé de bebê.
Imagem cedida pela professora Paula Dentzien-Dias

O “Teto de Vidro”

A autora Londa Schiebinger utiliza a expressão “teto de vidro” para se referir, como metáfora, à “barreira supostamente invisível que impede as mulheres de atingirem o topo”, pois não existem barreiras físicas que explicam o porquê de as mulheres não conseguirem avançar  profissionalmente na mesma proporção que os homens.

 

Além disso, é válido destacar que a ciência ainda permanece com uma estrutura patriarcal, baseada em um “modelo masculino” de carreira, com valores e padrões também tidos como masculinos. Isso seria aquele modelo em que a ciência deve ocupar o tempo integral das nossas vidas, já que homens estruturalmente ainda não possuem a responsabilidade da casa e da família. Esse modelo dificulta e limita a participação feminina na ciência. As pesquisadoras Silva e Ribeiro escreveram um artigo intitulado “Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher” no qual trazem a ideia de Fanny Tabak sobre a dificuldade de ser uma mulher cientista, ainda no século 21: “é muito mais difícil para a mulher seguir uma carreira científica numa sociedade ainda de caráter patriarcal e em que as instituições sociais capazes de facilitar o trabalho da mulher ainda são uma aspiração a conquistar’.” 

 

E talvez estejamos pensando: “como fazer para quebrar o ‘teto de vidro’”? Essa é uma pergunta que não tem uma resposta precisa, mas muitas atitudes que tomamos no nosso dia a dia podem influenciar na fragilidade que este vidro possui – e facilitar a sua quebra total no futuro. Por exemplo, podemos buscar exemplos de mulheres cientistas para mostrar o que é ciência; buscar parcerias femininas para trabalhos; incluir mulheres nas suas pesquisas; divulgar a ciência feita por mulheres e as próprias cientistas; dar oportunidades para mulheres na iniciação científica; respeitar o tempo e ter empatia por mães cientistas; mostrar para colegas quando eles têm uma atitude machista; introduzir na ciência uma perspectiva de gênero;  reforma curricular na ciência, abordando temáticas de gênero; entre muitas outras atitudes. A ciência não é neutra.

 

Dentro da paleontologia, é importante destacar algumas ações fundamentais: contratar paleontólogas e geólogas para trabalhos pesados e de campo; repreender quando ouvir alguma frase machista, como “preparar um fóssil exige delicadeza e, por isso, é um trabalho feminino”; não excluir mulheres das saídas de campos; não fazer comparações sobre capacidade e esforço físico entre homens e mulheres; ao presenciarem comentários ou piadas sobre uma mulher no campo, repreender imediatamente; não se oferecer para carregar alguma ferramenta, mochila e equipamento só porque é uma mulher; na dúvida, se ainda houver, trate sua colega da mesma forma que você trataria seus colegas homens. Nós não precisamos de ajuda, conseguimos fazer tudo sozinhas, sim! O que precisamos é de respeito.

Fotografia horizontal e colorida de uma mulher em frente a uma patrola. A mulher está de costas, tem pele branca, cabelos escuros, ondulados e compridos presos em um rabo de cavalo baixo. Usa Chapéu de tecido bege. Veste camiseta branca, calça preta e calçado marrom. A patrola é cinza, velha e com aspecto enferrujado, passa po uma estrada de chão. Ao lado esquerdo, três pessoas paradas olham para a patrola. Duas são mulheres e um é homem. O homem tem pele negra e as mulheres tem pele branca. Estão no acostamento, sobre gramínea baixa e acinzentada. O fundo é o céu azul.
Paula Dentzien-Dias (de branco), grávida de 7 meses, protegendo a pegada de dinossauro da patrola que estava passando. Imagem cedida pela pesquisadora.

“O preconceito de gênero, como produto social, cultural e histórico, que institui e determina constantemente uma imagem negativa e inferiorizada das mulheres, nem sempre se dá de forma explícita; muitas vezes, ele se dá de forma velada, sutil, e aí residem, justamente, sua força e eficácia.” (Silva e Ribeiro, 2014)

 

A seguir divulgarei o trabalho de algumas cientistas, paleontólogas e estudantes. Que seja uma fonte de inspiração às nossas meninas e mulheres para que consigam quebrar o “teto de vidro” e ocupar espaços que, por muito tempo,  foram ocupados por homens devido à disparidade de gênero. De antemão, peço desculpas às cientistas que não citei por mero esquecimento ou porque nossos caminhos ainda não se cruzaram. Todas vocês são importantes! Alguns textos foram retirados e adaptados dos currículos Lattes das pesquisadoras, outros do site do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da UFSM e outros, ainda, foram enviados pelas próprias paleontólogas. 

Paula Dentzien Dias: Professora associada da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com atuação no Programa de Pós-Graduação em Oceanologia e líder do Grupo de Pesquisa em Icnologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Icnologia (estudo de vestígios), Permiano, Jurássico, Quaternário, Bacias de Pelotas, Paraná e Parnaíba. Tem atuado na área de extensão e pesquisa, trabalha com icnofósseis, principalmente coprólitos (fezes fossilizadas), e já encontrou espécies novas de actinomicetos (bactérias)actinomisseti e os parasitas de tênia mais antigos de tênia, ambos em coprólitos! 

 

Aline Ghilardi: Paleontóloga com foco em Paleobiologia, Paleoicnologia e Osteohistologia de Vertebrados e atua na área de Divulgação Científica. Ela é criadora da rede “Colecionadores de Ossos”, vinculada às iniciativas Science Blogs e Science Vlogs Brasil, e também realiza divulgação de forma independente em suas redes sociais. Atualmente, Aline é professora adjunta de Paleontologia no Departamento de Geologia e do Programa de Pós-Graduação em Geodinâmica e Geofísica (PPGG) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Annie Hsiou: Professora associada e livre docente junto ao Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), ligado à Universidade de São Paulo (USP). É membra efetiva da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP) e foi diretora da SBP, ocupando o cargo de vice-presidente (gestão 2017/2019), além de ter sido 1ª tesoureira (gestões 2013/2015 e 2015/2017). Atualmente é a 1ª vice-presidente da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp). Estuda morfologia comparada de lepidossauros fósseis (esfenodontes, lagartos e serpentes) através do Mesozóico e Cenozóico sul-americano. Também atua na compreensão e evolução da biota do Neógeno da Amazônia Brasileira da Bacia do Acre, com ênfase nas faunas de répteis, idade e resolução temporal do Mioceno do norte da América do Sul. É mãe de dois filhos e esteve de licença maternidade entre maio a outubro de 2014 e entre junho e dezembro de 2018.

 

Ana Maria Ribeiro: Bióloga/pesquisadora da Seção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais do Rio Grande do Sul  (SEMA/RS), coordenadora do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/CNPq  e curadora da coleção científica

de Paleontologia no Museu de Ciências Naturais (MCN), editora da Revista Brasileira

de Paleontologia, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em

Geociências na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Programa

de Pós-Graduação em Sistemática e Conservação da Diversidade Biológica (SEMA – UERGS). Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas: sistemática de mamíferos e cinodontes, Triássico e Cenozóico. 

Elizete Holanda: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2011. Atualmente é professora associada do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (ProfÁgua/UFRR) e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais. Atua principalmente nos temas da Paleontologia da Amazônia e Ensino em Geociências.

 

Marina Bento Soares: Professora associada Nível 3 do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e orientadora permanente do PPGeo – Patrimônio Geopaleontológico do Museu Nacional

e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional. Também atua como docente colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Geociências -PPGGeo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem experiência na área de Paleontologia (Paleozoologia e Paleontologia Estratigráfica), com ênfase em

Paleontologia de Vertebrados, atuando principalmente nos seguintes temas:

Morfo-anatomia, Filogenia, Histologia, Tafonomia e Bioestratigrafia de tetrápodes

fósseis do Permo-Triássico do Rio Grande do Sul. Sua pesquisa tem como foco principal

o estudo dos cinodontes não-mamaliaformes (Therapsida, Cynodontia), como

Exaeretodon, e paleohistologia de tetrápodes fósseis. 

 

Taissa Rodrigues (Mulheres na Paleontologia (@paleomulheres)): Professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) desde 2011, onde realiza atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração. Orienta discentes de mestrado e doutorado em Biologia Animal no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGBAN) da mesma instituição. Possui graduação em Ciências Biológicas (bacharelado em Zoologia dos Vertebrados) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/2004) e mestrado (2007) e doutorado (2011) em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa tem como foco  a anatomia e sistemática de pterossauros e a evolução da biota do Cretáceo. Atua também nos temas da diversidade de gênero na paleontologia e tráfico de fósseis, além de realizar divulgação científica. Atualmente, é podcaster no “Cinema com Ciência”, membra afiliada da Academia Brasileira de Ciências (ABC)  e membra dos comitês de Assuntos Governamentais e do Prêmio Alfred Sherwood Romer da Society of Vertebrate Paleontology (EUA).

 

Ana Emilia Quezado de Figueiredo: Bióloga  pela Universidade Estadual do 

Ceará (UECE/2005), este em Geociências e paleontologia na Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/2009).  É doutoranda em Geociências e Paleontologia na UFRGS. Tem experiência em paleontologia, atuando  principalmente nos seguintes temas: Curadoria, Ensino de Paleontologia,

Icnologia de Vertebrados, Tafonomia de Vertebrados e Taxonomia de Peixes.

Carolina Saldanha Scherer: Doutora em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente trabalha como professora adjunta na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na área de Paleontologia. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em Mamíferos Fósseis, atuando principalmente nos seguintes temas: camelídeos fósseis, ungulados pleistocênicos e mamíferos fósseis.

Dimila Mothé: Doutora em Zoologia pelo Museu Nacional/Universidade Federal do

Rio de Janeiro (UFRJ),  e  Pós-Doutora em Paleoecologia na Universidade

Federal de Pernambuco (UFPE) e na Universidade Federal do Estado do Rio de

Janeiro (Unirio). Atualmente faz Pós-doutorado na Unirio com o estudo da

evolução e sistemática de Tethytheria. Tem experiência na área de Zoologia, com

ênfase em Paleontologia, atuando principalmente nos seguintes temas:

Proboscidea, Paleoecologia, Morfologia, Taxonomia, Evolução, Sistemática e

Biogeografia.

Estudantes do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia - CAPPA

Micheli Stefanello: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2015), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM e estudante de doutorado na mesma instituição. Desenvolve estudo sobre sistemática e anatomia de cinodontes Probainognathia. 

 

Tiane Macedo Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do

Pampa (Unipampa/2016), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade

Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e estudante de doutorado na

mesma instituição. Atualmente desenvolve estudo sobre sistemática e

anatomia de Archosauromorpha do Triássico Inferior. 

 

Emmanuelle Fontoura: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG/2019). Mestra (2021) e estudante de Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de cetartiodáctilos terrestres do Pleistoceno e paleoneurologia de cervídeos. Atualmente desenvolve estudos sobre roedores caviomorfos do Mioceno da Amazônia.

Gabriela Menezes Cerqueira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa/2017), mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas pela mesma instituição (2019) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Atualmente desenvolve pesquisa com o uso de proporções corporais como critério taxonômico para Pterosauria.

Débora Moro: Licenciada em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal Farroupilha – 55BET Pro São Vicente do Sul (IFFar-SVS/2019), mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021), e estudante de doutorado na mesma instituição.  Atualmente desenvolve estudos  anatômicos e filogenéticos de novos espécimes de dinossauros sauropodomorfos do Rio Grande do Sul, dedicando-se também a estudos paleoautoecológicos dos primeiros dinossauros.

Tabata Freitas Klimeck: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2017). Estudante de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Tem se dedicado ao estudo morfológico de Cingulata do Paleogeno da Bacia de Curitiba e da Fauna da Formação Guabirotuba.

Letícia Rezende de Oliveira: Bacharela em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2019) e estudante de mestrado pelo Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Animal na mesma instituição. Desenvolve estudos na área de sistemática de Archosauria. 

 

Lívia Roese Miron: Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de

Santa Maria (UFSM/2019). Estudante de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Comparada da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente

estuda a neuroanatomia de répteis rincocefálios fósseis do Triássico do Rio Grande do

Sul e viventes da Nova Zelândia. Recentemente foi aprovada no Doutorado em Biodiversidade Animal (UFSM). 

 

Estudantes do laboratório de Estratigrafia e Paleontologia - LEP

Lísie Damke: Bacharela e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/2021). Ao longo da graduação dedicou-se ao estudo morfológico de Loricata basais do Triássico e às atividades de extensão. Recentemente foi aprovada no mestrado pelo PPG Biodiversidade Animal (UFSM) e estudará dinossauros basais do Triássico. 

 

Franciele Fischer Ortiz: Técnica em Controle Ambiental pelo Instituto Federal

Farroupilha – 55BET Pro Panambi (IFFar/2019), licenciada em Ciências Biológicas pelo

mesmo 55BET Pro (2021). Pós-Graduanda em Docência no Ensino Superior pelo

Centro Universitário Leonardo Da Vinci – UNIASSELVI e mestranda pelo PPG em

Biodiversidade Animal da UFSM. Atualmente desenvolve estudos sobre registros de

Cingulata no Rio Grande do Sul.

 

Referências:

Casagrande, S. L; Schwartz, J; Carvalho, M. G. de; Leszczynski, S. A. 2005. Mulher e ciência: uma relação possível? Cadernos De Gênero E Tecnologia. ISSN: 2674-5704, v. 1, n. 4 

Mary Anning: como uma mulher pobre se tornou uma das maiores paleontólogas do mundo (socientifica.com.br)

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Expediente:
Texto: Emmanuelle Fontoura Machado, bacharela em Ciências Biológicas pela FURG, mestra e doutoranda em Biodiversidade Animal pelo PPGBA-UFSM;
Ilustração de capa: Joana Ancinello, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;
Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;  Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.
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