Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Fri, 27 Jan 2023 13:40:02 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/fotografia-com-tecnica-de-colodio-umido-e-usada-em-projeto-que-visa-construir-memoria-sobre-a-tragedia-da-boate-kiss Thu, 26 Jan 2023 12:01:28 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9622

A busca pela memória da tragédia da Boate Kiss é uma das mais fortes bandeiras de luta de sobreviventes, pais, amigos e familiares de vítimas. A pergunta “Onde você estava no dia 27 de janeiro de 2013?”, cuja campanha marca os dez anos do incêndio, busca acionar as memórias coletivas da tragédia. E esse também é o objetivo do projeto “Fotografar para lembrar”, coordenado por Ricardo Ravanello, professor de fotografia do curso de Desenho Industrial da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Descrição da imagem: Mosaico de fotografias antigas, feitas com a técnica de colódio úmido. São seis retratos divididos em duas linhas. Na parte superior esquerda, retrato de uma mulher de meia idade de pele branca, olhos escuros, cabelos loiros, lisos e curtos, tem a expressão facial séria. Ao lado, mulher de pele escura, rosto sério. Tem olhos pequenos e escuros, sobrancelhas demarcadas. Os cabelos são ondulados, escuros e na altura do ombro. Veste camisa social clara, e tem as mãos apoiadas no queixo. Ao lado, mulher jovem de pele clara, tem olhos grandes e claros, nariz e boca em tamanho médio. Tem cabelos escuros, lisos e compridos. Está com a expressão facial séria e veste a camiseta branca da AVTSM. Na segunda linha, da esquerda para a direita: homem jovem de pele escura, tem expressão facial séria e está levemente de lado. Tem olhos pequenos e escuros, sobrancelhas finas, nariz e boca grandes. Os cabelos são cacheados, escuros e na altura do ombro e estão presos para trás. Veste camisa social escura. Ao lado, mulher de meia idade de pele clara, rosto sério. Tem olhos escuros, sobrancelhas arqueadas e escuras. Tem os cabelos curtos, lisos e escuros. Veste regata branca, usa colar de contas e argola prata. Está com os braços cruzados. Por fim, fotografia de um homem de meia idade, de pele clara, com a expressão facial séria. Tem olhos pequenos e claros, cabelos curtos, lisos e escuros, nariz e boca pequenos. Veste camisa social escura. Na frente dele, há um microfone grande em formato de bala. O fundo das fotografias é escuro.
Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Aurea Viegas Flores (mãe de vítima), Mirian Schalemberg (sobrevivente), Luiza Bissacott Mathias (sobrevivente), Maike Adriel dos Santos (sobrevivente), Carina Correa (mãe de vítima) e Marcelo Canellas (jornalista). Fotografias e montagem: Ricardo Ravanello.

O projeto fotográfico surgiu, no final de 2019, com o objetivo de contribuir para a criação de memórias. “Eu sempre digo que é uma espécie de obrigação, dentro do ofício dos fotógrafos, se interessar e documentar esses fatos que são muito importantes para a humanidade”, destaca Ricardo. O docente explica que queria fazer algo para contribuir com o registro da tragédia que marcou Santa Maria, que também é sua cidade. Mas ele não queria um modo comum de fotografar, como é o processo digital.

O processo da fotografia

 

  1. É feito um contato prévio com as pessoas que serão fotografadas e a sessão é agendada;

  2. O vidro em que a fotografia será feita é preparado e limpo;

  3. Aplica-se um produto chamado colódio salgado, e então a placa é mergulhada em uma solução de prata, que torna o material fotossensível;

  4. No laboratório escuro e fechado, a placa de vidro é retirada da solução de prata e inserida em um chassi, espécie de moldura fechada;

  5. O foco da câmera e as luzes são ajustados;

  6. O processo é explicado para a pessoa que será fotografada, e a pose da foto é treinada;

  7. O chassi é inserido na câmera;

  8. A câmera é aberta e está exposta à luz. É neste momento que a fotografia é feita;

  9. No laboratório, o revelador é jogado no vidro: a imagem leva de dez segundo a um minuto para aparecer;

  10. Com a imagem revelada, o processo é interrompido com água;

  11. O fixador é aplicado e os resíduos são lavados;

  12. A imagem passa pelo processo de secagem;

  13. Por fim, o verniz é aplicado e a imagem é finalizada.

Descrição da imagem: Placa de madeira em tom de marrom caramelo. A placa está fechada e tem detalhes em prata nas extremidades.
Chassi da câmera fechado. Esta placa é encaixada na câmera para a captura da imagem. Fotografia: Ricardo Ravanello.
Descrição da imagem: Placa de madeira pequena e retangular aberta. As bordas são de madeira em tom de marrom caramelo, e a parte interna é preta. O fundo é branco.
Chassi da câmera aberto. Sobre a parte preta, é acomodada a placa de vidro. Fotografia: Ricardo Ravanello.
Descrição da imagem: Placa de madeira retangular aberta. As bordas são em tom caramelo e a parte interna em preto. No lado direito, a parte interna é removível, e pode ser puxada por um puxador para o lado direito, o que abre a placa. O fundo é branco.
Chassi da câmera aberto. Engrenagem que abre a placa permite a entrada de luz, quando o chassi já está instalado na câmera. Fotografia: Ricardo Ravanello.

Para compreender mais sobre o processo, assista esse vídeo:

No vídeo acima, o fotógrafo usa placas de metal, elemento que se diferencia das placas de vidro usadas por Ricardo.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de um estúdio fotográfico. Em primeiro plano, parte externa de um refletor de led. No lado direito, em segundo plano, câmera antiga com estrutura de madeira. Em terceiro plano, cadeira de madeira com estaca de madeira que sustenta um encosto para pescoço. Atrás, tecido laranja suspenso. Ao fundo, parede branca.
Estúdio fotográfico. Na cadeira, em segundo plano, haste de madeira com encosto para a cabeça ajuda a manter a imobilidade da pose na hora da fotografia Fotografia: Samara Wobeto.

As experiências

Gabriel Rovadoschi Barros foi uma das pessoas fotografadas. Ele é sobrevivente da Kiss e o atual presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). “Ver o resultado da fotografia foi muito impactante e foi muito interessante o misto de sentimentos. Dava para ver a fotografia sendo revelada na hora, a imagem vai aparecendo naquela placa de vidro, aos poucos se revelando, e com uma nitidez que eu não esperava”, descreve Gabriel.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e em tons escuros de um retrato feito com a técnica de colódio úmido. O retrato é vertical, feito em uma placa de vidro, e é segurado por duas mãos contra fundo preto, que dá o contraste. No retrato, homem jovem de pele clara, tem os olhos grandes e escuros, bigode escuro, cabelos escuros e cortados rente ao couro cabeludo. Está sério e apoia as mãos no queixo. Veste suéter escuro.
Retrato de Gabriel Rovadoschi Barros com a técnica de colódio úmido. Fotografia: Samara Wobeto.

Maike Adriel dos Santos é sobrevivente da Kiss e formado em Desenho Industrial pela UFSM. Em 2019, participou do início do projeto e fazia os contatos com as pessoas. Também auxiliava Ricardo com a montagem das luzes e calibragem dos equipamentos. Além disso, foi um dos fotografados, e conta sobre a emoção em ver a sua imagem revelada: “Ver a tradução de uma coisa que eu sinto dentro de mim, no mental, no psicológico, foi emocionante. Essa transposição no vidro eu achei muito legal, essa visão que a fotografia, que a técnica passam, de contar, de maneira mais artística, a minha história e de outras pessoas”, reflete.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida de um suporte de madeira clara no qual estão encaixadas dezenas de placas de vidro. O suporte está sobre uma mesa clara. O fundo é uma parede branca.
Fotografias em placas de vidro prontas. Fotografia: Samara Wobeto

A técnica do colódio

A técnica escolhida para o projeto foi a do colódio úmido. De acordo com Ricardo, seu surgimento remonta aos anos de 1850, uma década após a invenção da fotografia. A lente da câmera com que a fotografia é feita também é dessa época, o que, para o fotógrafo, acrescenta ao projeto uma camada de informação e de profundidade que a fotografia digital não possibilita. A câmera usada tem cerca de 100 anos e foi adquirida em um leilão em São Paulo.

Descrição da imagem: Fotografia vertical e colorida de uma câmera antiga. Ela tem bastante altura, e tem um suporte de madeira escura. A parte principal do suporte é uma caixa de madeira, na qual está instalada uma lente com grande abertura. Ao redor da caixa, espécie de moldura em forma de arco. Na parte inferior, pés com rodinhas para locomoção. Ao lado direito da câmera, dois refletores de luz em formato redondo. O fundo é uma parede branca.
Câmera fotográfica usada no projeto. Fotografia: Samara Wobeto.
Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida do visor da câmera. Nele, a imagem de um homem aparece de ponta cabeça. O visor tem moldura de madeira escura. No fundo, tecido laranja.
Visor da câmera. Nas técnicas antigas de fotografia, as imagens aparecem invertidas. Nas câmeras digitais, por conta de uma estrutura de espelhos, a visualização se assemelha à visão humana. Fotografia: Samara Wobeto.

A escolha pela técnica teve algumas motivações que, segundo Ricardo, foram descobertas na medida em que ele pesquisava e estudava sobre processos antigos de fotografia. A primeira característica é que a técnica de fotografar com colódio úmido é um processo lento de execução. Ricardo relata que, enquanto prepara o equipamento e explica como a fotografia será feita, é comum que sobreviventes, pais, familiares e amigos de vítimas e profissionais que trabalharam envolvidos com o incêndio ou com suas consequências contem suas histórias. “Essa lentidão da foto cria uma espécie de espaço para ter esses encontros, para ter essas conversas. É oportunizar para as pessoas uma experiência com a fotografia para construir algum tipo de memória positiva ”, reflete Ricardo.

Como o processo de fotografia é artesanal, feito sobre um vidro, não há possibilidade de fazer dois retratos iguais. “Cada fotografia é absolutamente única, como era a vida das pessoas que se foram. Tem o espelhamento dessa característica”, explica Ricardo. 

Outro ponto que ele destaca é que, por conta de a fotografia levar mais tempo para ser feita – pode variar de 2 a 10 segundos – e da necessidade de muita luz, a pessoa fotografada precisa encarar a câmera e não se mexer. Para Ricardo, essas características trazem uma responsabilidade para quem é fotografado. “Eu acho que cria uma relação bacana, me parece que as pessoas se revelam mais, se colocam mais na foto”, descreve. Para Gabriel, a experiência de ser fotografado foi marcante. “Eu pude levar minha família para acompanhar e envolvê-los nesse processo de aceitar essa parte da minha história, aceitar que eu sou sobrevivente”, relata Gabriel. 

A quarta característica é composta pelos elementos de textura que podem aparecer no resultado final: como o processo compreende o uso e a manipulação de líquidos sobre o vidro para a revelação e fixação, há possibilidade de as bordas ficarem irregulares. “Conforme o corte da câmera, às vezes pega aqui no braço, por exemplo, e aí tu não sabe se ali tem uma queimadura da pessoa ou é uma borda do processo, elas se fundem, elas se misturam”, descreve Ricardo. Além disso, por usar prata como material para a preparação do vidro, é uma imagem formada por um metal nobre, o que a torna especial.

Para Ricardo, contudo, foi um elemento histórico que deu a certeza de que esse era o processo adequado para registrar a história da Kiss. A nitrocelulose, base da criação do colódio, foi inventada em 1848 como uma tecnologia militar, usada como explosivo. Em 1849, um médico descobriu que, ao diluir a substância com álcool e éter, criava-se uma emulsão – o colódio – que pode ser usada para curar ferimentos de guerra. Em 1851, o colódio foi misturado com sais, o que permitiu a invenção do processo fotográfico. “Tem isso no processo: uma tecnologia militar que vira uma tecnologia de cura e que vira uma tecnologia artística. Nenhum outro processo tem isso”, descreve o docente.  

Além disso, quando as fotografias são digitalizadas e ampliadas, outro elemento significativo se torna visível: “Quando tu olha para ela ampliada, em que perde a noção das feições do rosto, de claro e escuro, parece uma fuligem, parece aquela fuligem quase do resto do incêndio”, conta Ricardo. Para ele, as imagens também são resultados da tragédia: “A expressão das pessoas e todas as histórias que têm atrás delas, são todas frutos desse incêndio”.

Construção da memória

Marcelo Canellas, jornalista santa-mariense que cobriu a tragédia e suas repercussões a nível nacional, conta que o convite para ser fotografado foi feito durante uma entrevista. Diretor da série documental ‘Boate Kiss – a tragédia de Santa Maria’, da Globo Play, o jornalista voltou à cidade após a anulação do julgamento para ouvir os protagonistas do documentário. Entre eles, estava Gabriel, e a entrevista aconteceu no estúdio de Ricardo. Lá, Canellas conheceu o projeto e foi fotografado. “É inegável que, de certa forma, eu faço parte dessa história construída coletivamente. Me sinto como um tijolinho na construção do imaginário iconográfico da trajetória da Kiss”, pondera.

 

Para o jornalista, as palavras-chave da história da Kiss são memória e justiça. “A construção da memória se contrapõe àquilo que é quase uma doença brasileira, que é a ideia de que esquecer faz superar”, destaca. Ele recorda exemplos como a ditadura militar no Brasil, em que a elite política e econômica apostou no esquecimento como forma de superação. “A memória é importante porque combate o esquecimento, e o esquecimento é primo e irmão da injustiça. Quando você insiste na preservação da memória, está apontando para a  possibilidade de justiça, que também é não repetir os erros. E você não repete os erros quando lembra deles e por que aconteceram”, reflete Canellas.

 

Segundo Gabriel, este tipo de projeto tem papel importante no registro da história e na consolidação da memória. “A fotografia é uma forma de narrar e pode contribuir muito para revelar essa importância. O esquecimento é perigoso”, pontua. Para Maike, a fotografia em forma de lembrança também é uma forma de prevenção. Ele destaca que este é um ponto-chave, repetido pelas pessoas envolvidas na tragédia. “Projetos como esse são importantes para que a tragédia não se repita”, enfatiza.

Produção de conhecimento na UFSM

Além do “Fotografar para lembrar”, na UFSM já foram desenvolvidos outros projetos e pesquisas que buscam construir saberes acerca da tragédia. Confira alguns deles: 

Próximos passos

Até o momento, já foram feitas cerca de 47 fotografias. A meta inicial, segundo Ricardo, é chegar a 50. O acervo será doado à AVTSM e será destinado à composição de um mural no futuro memorial. Para quem quiser saber mais sobre o projeto, pode acessar o site.

10 anos

Na data que marca o aniversário de 10 anos do incêndio da Boate Kiss, a AVTSM preparou uma programação que conta com rodas de conversa, palestras, caminhada, soltura de balões e outras atividades, que podem ser acompanhadas pelo instagram.

Expediente:

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Capa: Ricardo Ravanello;

Fotografias: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Ricardo Ravanello;

Tratamento de imagem: Júlia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-despertar-da-ancestralidade-negra-da-memoria-narrada-ao-familysearch Thu, 17 Nov 2022 13:54:44 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9542

Quem foram os seus antepassados? Qual a trajetória da sua família? Qual a origem do seu sobrenome? Perguntas como essas causam inquietações em grande parte da população negro-brasileira que teve, historicamente, sua ancestralidade negada. O apagamento de registros históricos oficiais e o silenciamento do povo negro oculta intensas trajetórias de sobrevivência, resistência e legados. Hoje, o movimento de resgate das raízes ancestrais demonstra que é possível reconstruir a história que não teve espaço nos livros. 

 

“Quando procuramos essas histórias, um mundo negro se abre. Um mundo muito possível de ser narrado e que, por outro lado, é assustadoramente calado”, conta a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Franciele Rocha de Oliveira, que faz parte do Grupo de Estudos sobre o pós-Abolição (GEPA) e estuda a história negra e trajetórias familiares há mais de 10 anos. Recentemente, a pesquisadora ministrou um curso sobre como utilizar o FamilySearch para encontrar fontes para o estudo de trajetórias individuais, coletivas e familiares. A ferramenta é a maior base de dados de genealogia do mundo e disponibiliza milhões de documentos históricos.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida de um adolescente negro que está de perfil, sentado em frente a um computador. O computador é do tipo desktop, na cor cinza, e está envolto por raízes de uma árvore de tronco marrom e retorcido, que está acima do computador, na parte esquerda da imagem. Em três das raízes da árvore, estão pendurados cartões de identificação presos por uma fita vermelha. Um desses cartões está na frente do jovem, que está com uma das mãos por baixo do cartão. Ele tem pele negra escura, cabelos pretos, crespos e volumosos, do tipo Black Power. Tem olhos castanhos, sobrancelhas arqueadas, lábios e nariz grossos, e orelhas grandes. Sorri levemente. Veste moletom na cor malva. Ao lado da cabeça dele, estão desenhados dois pontos de exclamação na cor azul. Os braços estão apoiados em uma mesa grande de madeira na cor caramelo. Em cima da mesa, além do computador desktop, há um porta retrato com moldura berinjela com foto de quatro pessoas e detalhe de um documento na cor creme. Ao fundo do jovem, janela quadrada pela qual entra claridade. O fundo é uma parede amarelo pastel.

Com foco nos estudos de famílias negras sub-representadas nos estudos genealógicos, o curso teve 45 vagas, das quais 15 foram disponibilizadas gratuitamente para pessoas autodeclaradas pretas ou pardas. Foram três dias de encontros síncronos que abordaram o uso da plataforma e, no último dia, foi proposto um exercício prático no qual as pessoas poderiam tentar construir/representar as genealogias de suas famílias, com base nos métodos aprendidos no minicurso. Mas, antes disso, Franciele deixou um aviso na tela para os participantes:

“Nem todas as famílias possuem trajetórias fáceis de serem narradas e pesquisadas. Lembre-se que é possível reconstruir famílias, ainda que seus registros possuam lacunas, ainda que suas trajetórias tenham desafiado convenções e padrões familiares e afetivos. Memória narrada em porta, os silêncios e as ocultações também têm significados” – Franciele Oliveira

Para utilizar o FamilySearch, primeiro é necessário fazer o registro, que solicita o nome do usuário, dos pais e a data de nascimento.  Quem cadastra seus dados na plataforma vira uma espécie de fonte de informações dentro da rede para pessoas que venham a pesquisar no futuro. Isso faz com que seja possível encontrar registros da família, compartilhar arquivos e fazer com que outras pessoas também possam se conectar com a sua genealogia.

 

A historiadora explica que as pessoas fazem genealogias ou procuram saber sobre a história da família tendo como base o ideal de que conhecer o passado ajuda a compreender o futuro e a transformar o presente. O fato de as gerações de agora poderem olhar para suas famílias de maneira crítica, entender o que os antepassados viveram e quem eram, é uma questão de busca identitária. Para além de ter a genealogia montada, ela reconhece a potência que a reflexão sobre a história da família permite.

 

Leticia Prates, estudante de Pedagogia na UFSM, participou do curso para se conectar com as suas raízes ancestrais. Ela relata que, a partir da experiência, durante três dias teve a oportunidade de procurar informações com familiares, revisitar documentos da família e fazer caminhos possíveis no FamilySearch que a levaram a encontrar registros que poderiam ajudar na construção da árvore genealógica. O exercício era de Letícia, mas toda a família foi envolvida no processo de descobertas que a levaram até os registros da tataravó — que sua avó de 89 anos não conhecia. 

Para Letícia, a importância do resgate da ancestralidade está na reafirmação e no rompimento de ciclos: “Eu já estava na quarta geração de empregadas domésticas da família, então me dar conta desse contexto psicológico, econômico, territorial, de classe, de cor e de gênero também foi muito importante, para saber de onde eu vim e para onde eu vou”, afirma a estudante.

A maior árvore familiar compartilhada do mundo

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, religião popularmente conhecida como “Igreja Mórmon”, é fundamentada na crença de famílias eternas e ordenanças póstumas (batismo e confirmação e dom do Espírito Santo). Para eles, as ordenanças realizadas nos templos possibilitam que as famílias se unam para a eternidade e retornem a Deus no plano celestial, ou seja, que, ao batizarem os seus ancestrais, será possível encontrá-los após a morte. Nesse sentido, com o objetivo de coletar registros genealógicos e preservar a história da família, em 1894, a Igreja fundou a 1ª Sociedade Genealógica de Utah – SGU, que continha em sua biblioteca uma coleção de 300 livros. 

 

Ao longo do tempo, a Sociedade construiu fichas, microfilmes e catálogos de registros civis e paroquiais de toda a sociedade civil, em busca de expandir o projeto a nível global. Em 1998, a SGU passou a gerar imagens digitais para construir o site FamilySearch e, hoje, tem aproximadamente dois bilhões de registros e cinco bilhões de imagens indexadas, que consistem em registros de nascimento, de casamento e de morte, censos, inventários e testamentos, cartas de alforrias e registros de terras. Todos os microfilmes que estão na sede de Salt Lake City, no estado de Utah, oeste dos Estados Unidos, também estão nessa plataforma e podem ser acessados de qualquer lugar. 

 

Franciele Oliveira afirma que sempre utilizou a plataforma e que, para os historiadores, esse recurso é fundamental: “O tempo que eu demoraria indo a Porto Alegre, para olhar os casamentos, agora eu consigo fazer da minha casa. É possível abrir muitos dos registros e olhar um por um.” Dessa forma, a plataforma se tornou essencial para as pesquisas dela. Apesar disso, ela comenta que não estava entre os princípios do FamilySearch a preocupação com as famílias negras. “Estamos falando de um contexto do pós-Abolição norte americano. De uma organização que também vai passar pelo racismo estrutural, e que vai ser recortada por essas questões raciais”, explica a pesquisadora.

A preocupação do resgate às raízes ancestrais negras não têm origem na fundação da SGU, mas, com o tempo, e com a presença de 4,6 mil centros de história da família em 126 países, isso muda. O FamilySearch Brasil, por exemplo, tem como um de seus projetos mais recentes digitalizar os registros relativos à diáspora africana no país. A base mobiliza as pessoas a irem em busca de suas histórias familiares. Para Franciele, o principal aspecto do FamilySearch é que, atrelado aos estudos das famílias negras, permite pensar as relações de gênero e de diversidade, as práticas nominativas, as políticas públicas, as migrações e imigrações, a demografia social, a história da saúde, as relações afetivas e de parentesco, a história econômica, a mobilidade social, o compadrio, a maternidade e a paternidade, a genealogia forense, a hereditariedade, entre inúmeras outras questões.

A escuta como estratégia de resistência

Foi numa roda de memória no Museu Treze de Maio, em meados de 2010, que Franciele teve o primeiro contato com as histórias da população negra santa-mariense. Inicialmente não imaginava a dimensão dessa história e nem que circulava por um território historicamente negro. Mas os encontros no Museu, localizado no centro de Santa Maria, abriram seus olhos. Lá aconteciam as rodas de lembranças, que recordavam a época em que o museu era um Clube Social Negro: a Sociedade Cultural Ferroviária Treze de Maio. Por meio dos relatos de antigos associados, a então estudante do curso de História passou a conhecer a trajetória e as reivindicações da comunidade negra de Santa Maria e região e, em contato com as pessoas desse meio, encontrou a sua linha de pesquisa, que seguiria até o doutorado. 

 

Para o trabalho de conclusão de curso, estudou as memórias do clube social negro União Familiar, fundado em Santa Maria no pós-Abolição. Na dissertação, pesquisou as trajetórias de uma família negra entre a escravidão e a liberdade no Rio Grande do Sul. Atualmente, na tese, acompanha as histórias das famílias nascidas de Ventre Livre no pós-Abolição. Somando estes e outros projetos, já entrevistou, ao todo, 47 pessoas.

“Os estudos das famílias negras têm demonstrado como a família por si só é uma forma de resistência, porque é possível construir apoio, afeto, solidariedade, casa e relações que são fundamentais para o grupo sobreviver e passar esse legado adiante” – Franciele Oliveira.

As famílias entrevistadas guardam acervos particulares, fotografias, documentos e memórias impactantes, que demonstram que é possível reconstruir as trajetórias, apesar de este ser um trabalho árduo. Franciele conta que, por uma série de razões, é diferente pesquisar  famílias negras do que trabalhar com famílias brancas: “A principal das razões é que envolve a escravidão, a violência, a separação, a venda dessas pessoas, o tráfico, a mudança de nome, e envolve uma memória traumática também que é difícil de ser narrada”, reflete. No entanto, ela salienta que esse trabalho não é impossível. 

 

Uma das histórias que a pesquisadora acompanha em Santa Maria é da família que foi escravizada pelos Niederauer — o grupo familiar de imigrantes alemães muito conhecido e tradicionalmente homenageado na cidade. Matilde era uma mulher escravizada; mãe de Nemésio e Honorina Niederauer, ambos batizados com o nome do pai da família senhorial. Matilde era, portanto, bisavó de Vilceu Niederauer, que hoje relata o seu conhecimento dos fatos, conforme as memórias distantes da infância vêm à tona: “O meu avô, o Nemésio, tinha um comportamento meio arredio. Quando crianças, nós visitávamos a chácara onde ele morava, nós não participávamos das conversas dos adultos, mas a gente captava [as conversas]”, recorda. Vilceu destaca que esse resgate é importante porque grande parte da população santa-mariense desconhece a história negra não só da família Niederauer, mas também de outras da região que têm origem africana. 

 

Mesmo com os avanços nos estudos, na perspectiva de Franciele as histórias negras ainda são ignoradas pelos genealogistas tradicionais. No Rio Grande do Sul, há uma grande procura pelo estudo de famílias ítalo-germânicas, nos quais não cabe uma linha sequer sobre a história escravista destes grupos: “Existe uma romantização com relação a essas trajetórias que são tratadas de forma desigual, as pessoas querem ter uma conexão com um passado europeu, a um “sangue azul”… As pessoas vão dizer que não são racistas; [vão dizer] que o racismo existe, mas que ninguém é racista. Mas é evidente que as sociedades genealógicas ainda são extremamente restritas às famílias brancas”, argumenta a historiadora. 

A cada descoberta proporcionada pelas pesquisas, o objetivo de Franciele como historiadora só fica mais claro: ouvir as histórias negras e contribuir para manter suas memórias vivas. “Os estudos das famílias negras têm demonstrado como a família por si só é uma forma de resistência, porque é possível construir apoio, afeto, solidariedade, casa e relações que são fundamentais para o grupo sobreviver e passar esse legado adiante”.

Expediente:

Reportagem: Jéssica Medeiros, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Rafael Freitas, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e voluntário; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição Geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/intolerancia-religiosa-em-ambiente-escolar-provoca-silenciamento-exclusao-e-evasao-de-estudantes Tue, 15 Nov 2022 16:10:51 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9537

A intolerância religiosa dentro do ambiente escolar começa quando, em salas de aula de escolas públicas, há um crucifixo instalado acima do quadro. “Pela Constituição Federal, o Estado tem que ser laico, a laicidade tem que estar em todos os ambientes públicos. Se colocarmos os crucifixos, deveríamos colocar todos os outros símbolos [de religiões]”, afirma Lorena Marquezan, professora do curso de Ciências da Religião da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Além disso, práticas intolerantes também acontecem de maneiras explícitas, quando a fé alheia é questionada e criticada – tanto por parte de colegas quanto de professores -, e de maneiras implícitas, por meio da exclusão dos alunos em grupos, de risos e deboches e do silenciamento. Para Marcelo Pires, professor de história que fez sua dissertação sobre a temática, muitas vezes os estudantes que têm religiões diferentes da cristã se silenciam com medo de represálias, de deboches e de reprovações por parte de professores e colegas.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida de uma sala de aula vista dos fundos. No centro ao fundo da imagem, quadro verde escuro com símbolos de várias religiões desenhados com giz branco. Ao lado, um homem alto de pele branca aponta para o quadro. Ele tem cabelos escuros e veste camiseta de manga comprida na cor verde pastel. Acima do quadro, um crucifixo amarelo. A parede é verde marinho. À frente do quadro, quatro alunos sentados junto a mesas brancas. Eles estão de costas e olham para a frente. São dois meninos e duas meninas. A parede do lado esquerdo é amarela mostarda e tem cartazes com a tabela periódica e uma lista. No lado direito, há janelas grandes e verticais. O chão da sala é laranja.

Victor O’xalá é batuqueiro, quimbandeiro e umbandista, criador e coordenador da Marcha contra a Intolerância Religiosa de Santa Maria. Ele também é diretor do Batuque do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Municipal dos Povos de Terreiro. Essa atuação vai ao encontro da luta contra a intolerância religiosa, pois Victor já sofreu várias microagressões por praticar sua fé. Quando vai a escolas para dar palestras sobre religiões de matriz africana e está vestido de branco – cor que marca as vestes típicas da religião umbanda em períodos de resguardo -, Victor já percebeu risos, deboches e olhares desconfiados. Ações como esta em escolas estão previstas na lei 10.639, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira. “A gente vê que fica desconfortável, fica mais seco o tratamento com o aluno, né? Começa aí a intolerância religiosa dentro do ambiente escolar”, afirma. No culto aos orixás, que faz parte dos cultos de nações africanas, há rituais que tem como uma das obrigações ficar em recesso por um período de 32 dias, o que envolve usar roupas brancas e usar turbantes. Quando estava na escola, Victor passou por esse processo: “Eu sofri preconceito dos meus colegas. Ficavam zoando e começaram a debochar, não encostaram em mim porque poderiam pegar algo negativo, [diziam] que era pra ter cuidado comigo porque eu poderia rogar uma praga, fazer alguma maldade. Em nenhum momento foi transmitido que a minha religião é algo positivo”, conta Victor. O episódio não teve reconhecimento da diretoria e dos professores. “Em nenhum momento eu tive alguém me acolhendo, e isso é muito sério. É algo que vou lembrar pra sempre, essas ações ficam marcadas na nossa mente”, desabafa.

 

Tanto as microagressões quanto as violências mais explícitas afetam, principalmente, o psicológico dos estudantes. Jonson Borges Porto é evangélico e cursou Ciências da Religião na UFSM. Para ele, o processo da exclusão e do silenciamento que ocorrem na intolerância religiosa é o mesmo do racismo, agressão que ele sofreu também no ambiente escolar. Em atividades em grupo, Jonson era deixado de lado. “Aquela pequena exclusão dos meus colegas me levou a um sentimento ruim. Eu não sabia como falar, não sabia como procurar ajuda”, relembra. Essas microagressões fizeram com que ele não tivesse mais vontade de estudar. “Eu abandonei a escola. Mas essa influência e esse sentimento de desistência com certeza começou quando comecei a ser excluído”, explica Jonson. Para o cientista religioso, esse processo também acontece com a intolerância religiosa. 

 

Durante o estágio final da graduação, Jonson ensinou uma turma de cerca de quinze alunos em que diversidade religiosa se manifestava por meio de cinco religiões. Para o professor, foi desafiador: “Eu tive que deixar a minha formação como pessoa cristã de lado e entrar ali como professor. O Estado é laico e é vetada toda a possibilidade de proselitismo. Na condição de professor, eu tinha que fazer uma mediação entre as religiões e trabalhar a ética, a moral e o respeito entre as religiões”, ilustra Jonson. Além disso, ele ainda pontua que o ensino sobre a tolerância deve ir além da sala de aula e incluir a família do estudante.

O Estado é laico (ou ao menos deveria ser)

O Ensino Religioso é inserido na escola como disciplina por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A oferta é obrigatória nas escolas públicas de Ensino Fundamental, mas a matrícula é optativa, ou seja, os estudantes podem decidir se vão cursar a disciplina. De acordo com documento da BNCC sobre o Ensino Religioso, a intenção deste componente curricular é a promoção do respeito para a diversidade de crenças, a inclusão e a cidadania. O documento afirma que nenhuma crença deve ser privilegiada e, nos conteúdos propostos, estão o ensino sobre diferentes religiões, símbolos, tradições, espaços e territórios, indumentárias, alimentos sagrados, práticas celebrativas e ritos.

 

No entanto, de acordo com o professor Marcelo Pires, a BNCC não estabelece, de maneira explícita, os conteúdos propostos para o ensino de diferentes religiões. Ele destaca que, na maioria das escolas, não há professores com formação superior em Ciências da Religião para lecionar esta matéria, o que faz com que professores de outras disciplinas assumam a função. Além de estes não terem preparo para o ensino das ciências da religião, não há oferta de capacitação para formar esses professores. “O professor fica numa situação muito difícil, porque ele não tem conteúdo, tem que buscar e construir ou então se utilizar de materiais de igreja. E eu não digo que sejam ruins, mas professam uma fé, uma visão de mundo e isso é complicado no espaço plural como deve ser o da escola”, reflete Marcelo. Essa lacuna tem como principal consequência a prática do proselitismo religioso por parte dos docentes, o que lembra as práticas de catequização presentes na história de formação do Brasil. “[Acontece] da mesma forma que os jesuítas faziam essa catequização com os indígenas, faziam eles negarem sua cultura e sua fé. É interessante nós pensarmos como, mesmo tantos séculos depois, ainda estamos voltados para uma padronização, em seguir um caminho considerado ideal”, fundamenta Marcelo.


Em sua dissertação, Marcelo propõe planos de ensino e temáticas para serem abordados a partir da história das religiões e que contemple o combate à intolerância religiosa. “Eu acredito que a história tem uma potencialidade muito grande de mostrar como as diferentes sociedades se organizaram. E nisso a religião também tem a sua importância social. É para mostrar que existem diferentes religiões, com opiniões, doutrinas e explicações diferentes sobre questões fundamentais”, destaca Marcelo. O docente acredita que a escola deve ser, sobretudo, um espaço democrático, de pluralidade e de convívio, em que as pessoas podem expor opiniões e fés sem sofrer nenhum tipo de preconceito. A proposta de Marcelo é que a educação, no ensino religioso, seja para a tolerância. “A escola deveria ser um grande laboratório de democracia”, afirma o pesquisador.

A intolerância religiosa

Um dia, durante o mês de novembro, em que acontecia a Semana da Umbanda, Victor estava no centro de Santa Maria, de branco, com outros integrantes do terreiro, quando foram confrontados por um senhor que cantava e pregava seu louvor junto a um violão. “Fomos pegar algo para comer e ele foi até nós e disse que éramos ‘do demônio’, que iríamos nos arrepender”, conta Victor. Explicar que a religião da umbanda não é o que as pessoas falam não foi suficiente: ele não queria ouvir. Ao contrário da estigmatização social que diz que a religião da umbanda, assim como outras de matriz africana, são demoníacas, perversas e ‘do mal’, Victor salienta que não há tentativa de compreensão de quais são as crenças presentes nas mesmas. Nos rituais sagrados, em que animais são sacrificados, o alimento que é preparado durante as festividades é doado para pessoas e famílias carentes. Além disso, o terreiro em que Victor atua ajuda com doações de roupas e de alimentos de maneira periódica. “Doamos com bom coração pedindo que a espiritualidade encaminhe essa pessoa, que em uma próxima oportunidade [ela] possa se encontrar melhor e ajudar quem precisa. Exu não é o demônio. Exu não vem pra embebedar pessoas. Exu não vem pra fazer as pessoas se prostituírem. Exu vem para abrir caminho, para nos ensinar como lidar com o ser humano”, desabafa Victor.

 

De acordo com dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), o primeiro semestre de 2022 registrou 454 denúncias de intolerância religiosa (que também inclui o desrespeito àqueles que não tem uma crença). Os números de 2021 somam 679 denúncias. No entanto, os números são subnotificados, já que, em muitos casos, as microagressões não são levadas a sério e passam despercebidas dos dados. As religiões mais afetadas pela intolerância religiosa são as de matriz africana. “As pessoas julgam sem saber o que é praticado dentro de um terreiro”, afirma Victor. Casos de intolerância religiosa que tiveram repercussão nacional foram o da menina de 11 anos que foi apedrejada na saída de um culto de candomblé, em 2015, e, recentemente, o de um paciente que morreu após não poder receber visita de mãe de santo no hospital. Para Victor, casos como esses e os que ele próprio vivenciou têm origem no racismo: “A minha religião é julgada porque é uma religião de negros. Não existe orixá branco. Esse preconceito já vem lá de trás, em que os meus antepassados tinham que maquiar o culto deles”, destaca. 

 

Foi com base no combate à intolerância e no entendimento de que as pessoas não entendiam sua religião que Victor criou a Caminhada Contra a Intolerância Religiosa de Santa Maria, cuja segunda edição foi em 2019.  O umbandista foi inspirado por seu padrinho religioso, Nei D’Ogum, santa-mariense que foi um importante ativista da causa racial, LGBTQIA+ e da comunidade de favela, e que faleceu em agosto de 2017. Outra das inspirações foi seu babalorixá, Sidney de Xangô, que é seu pilar de trabalho, educação religiosa e movimentos. “Eu resolvi criar a marcha quando criei o Batuque, porque queria trazer uma movimentação que nunca existiu para dentro de Santa Maria”, relembra Victor. A caminhada complementou ações que já estavam em andamento, como palestras que abordaram a intolerância religiosa. “Fui de casa em casa. Em várias casas religiosas. Fui na igreja, na catedral, em templos budistas, de reiki, largar o convite. Quem queria falar, poderia explicar sua fé”, relata.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e colorida em tons frios. No centro esquerdo da imagem, de perfil e em primeiro plano, homem negro com vestes brancas. A parte superior tem detalhes em renda e em pintura e, na cabeça, usa um turbante branco. Ele olha para cima, com o rosto concentrado, e segura um microfone preto próximo à boca. No fundo, no lado direito da imagem, pessoas estão de pé, sendo que três estão em destaque na primeira fileira. São fois homens e uma mulher. Um dos homens e a mulher também usam vestes brancas. No fundo do lado esquerdo, prédio de um andar branco e alongado. Ao fundo da imagem, o céu em azul pastel com a lua no centro.
Victor O’xalá durante a 2ª Caminhada contra a Intolerância Religiosa de Santa Maria, em 2019.

Fé na política

A fé, que é do ambiente privado, entrou na política, que é do espaço público. No contexto brasileiro atual, a religião é, muitas vezes, utilizada em propagandas políticas e como ferramenta política de convencimento, a exemplo de campanhas eleitorais que exaltam Deus acima de todos. “Eu penso a religião como algo do âmbito privado. Quando falamos em política, em eleições, em escolhas de governantes, vai pro âmbito público. Um governante pode até ter a sua religiosidade, mas ele não vai governar só para o seu grupo”, afirma Marcelo. O pesquisador afirma que a religião no ambiente público desencadeia nas formas como o Estado é gerido, quais pautas e preocupações serão priorizadas. “Na história, todas as vezes que nós misturamos religião e política, fomos para um caminho péssimo, que fortaleceu regimes autoritários, regimes de diferentes formas de opressão. E no Brasil, isso [a mistura de fé e política] está cada vez mais forte”, destaca Marcelo.

Segundo Marcelo, o Brasil é um país formado a partir da intolerância religiosa. “Ela sempre existiu, mas agora está mais explícita, inclusive tomando conta dos debates eleitorais, usada na busca por votos”, fundamenta Marcelo. Conforme o professor, o uso eleitoreiro da fé aumenta a intolerância religiosa, já que fortalece a padronização de discursos, de corpos, de crenças. “Aqueles que não estão inseridos nesse padrão têm problemas, são perseguidos, gera uma situação em que as pessoas sofrem formas de opressão ou se silenciam”, reflete Marcelo.

Educação para a tolerância

Na tentativa de combater a intolerância religiosa, Victor oferece palestras para escolas. Nas falas, ele conta sobre a história das religiões de matriz africana, conteúdo que está previsto na lei nº 10.639. De várias escolas de Santa Maria, ele nem recebeu resposta do convite de oferta da palestra. Mas quando o diálogo é possível na sala de aula, os alunos ficam atentos: “Procuram entender, porque a nossa conversa é séria, mas ao mesmo tempo se torna um bate-papo. Eles fazem perguntas de todo tipo, desde as mais supérfluas até as mais sérias”, relata Victor. Nas ocasiões em que fala sobre sua religião em escolas, o umbandista conta nunca ter sido maltratado. “Eu só peço que as pessoas procurem entender mais sobre a minha fé. Não precisa entrar, só precisa respeitar. A minha tradição alimenta, não violenta”, solicita Victor.

Expediente:

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/luto-parental-um-sofrimento-que-nao-tem-nome Tue, 01 Nov 2022 17:08:08 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9524

Viúvo é quem perde o cônjuge, órfão é quem perde os pais, mas como se chama quem perde o filho? Sem uma nomeação, o luto parental pode ser visto como um “sofrimento não reconhecido”. Para impulsionar e humanizar as discussões sobre o tema, o dia 15 de outubro passou a ser considerado o Dia Internacional da Conscientização da Perda Gestacional e Infantil.

 

Diante da falta de diálogo sobre o luto, a egressa do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cristine Gabrielle da Costa dos Reis, pesquisou o tema na sua dissertação. Com o título “O luto dos pais cujos filhos morreram crianças”, o trabalho buscou compreender como os pais  vivenciam essa perda e discutir aspectos característicos desses casos. 

 

A pesquisadora fez uma análise de 11 entrevistas com pais que perderam os filhos em decorrência do adoecimento das crianças. Entre os principais elementos observados nos relatos, destacam-se: a dor incomparável, a culpa, as experiências diferentes entre pais e mães e o sentimento de perda de uma parte de si. “Na conclusão, percebi que é uma dor sem tradução. Na ciência, a gente tenta explicar tudo, mas, quando escutamos essas pessoas, percebemos que certas coisas não vamos conseguir entender”, conta Cristine.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e em tons escuros de uma mulher de expressão triste sentada em frente a uma caixa de brinquedos. Ela tem pele clara, cabelos escuros e lisos. Veste camiseta e saia pretas. Está com uma mão no peito e a outra segura um papel com desenho de duas pessoas e a frase "Te amo". Na sua frente, uma caixa de papelão com brinquedos: ursinho de pelúcia, uma bola, uma pilha de livros, um porta retrato e uma camiseta dobrada. Na parte externa da caixa, em uma fita, a palavra "Lembranças". O fundo é preto.

Um luto singular

Em termos técnicos, o luto é um processo natural que o indivíduo desenvolve frente a uma perda significativa ou ao rompimento de um vínculo. Cristine explica que existem vários tipos de luto, mas o parental tem um contorno específico, porque a morte de uma criança representa uma inversão da ordem cronológica esperada.

 

“São muitos elementos que influenciam esse processo, então não podemos afirmar que esse luto vai ser mais difícil. Mas entendemos que ele pode ter um dificultador a mais, pois a morte de um filho contraria tudo que se espera socialmente. É uma perda avassaladora para esses pais”, comenta a pesquisadora. 

 

Durante o desenvolvimento da dissertação, a psicóloga percebeu que o luto parental também está relacionado ao conceito, elaborado pelo psiquiatra austríaco Sigmund Freud, de narcisismo. Este é o processo de constituição do ego, e o filho se encaixa nesse processo por ocupar uma posição central na relação familiar. Portanto, para a pesquisadora, o falecimento da criança gera uma quebra de perspectiva para os pais.

 

 

“No relato dos pais, eles transmitem que, quando se perde um filho, é como se se perdesse algo ou uma parte de si. Quando pensamos isso psiquicamente, faz muito sentido, porque esses filhos são a extensão desses pais, por meio dos investimentos e das expectativas. Então, quando se perde um filho, se perde, de fato, algo que era seu”, diz Cristine. Segundo a profissional, a partir disso, as famílias podem passar por períodos de grandes questionamentos e até mesmo de crises de identidade, uma vez que no luto há sofrimento pela perda de alguém, mas também pela relação que se tinha com a pessoa.

 

Como ajudar um enlutado

Após a perda de uma criança, é natural que os familiares e amigos busquem consolar os pais. No entanto, muitas vezes isso não é feito de maneira adequada e pode piorar a situação na medida em que o enlutado não se sente mais confortável para se expressar. “Alguns pais relataram ter escutado coisas como ‘você é nova, pode ter outro filho’, ‘ainda bem que foi no início, porque depois ia ser pior’ ou ‘não chore ou ele não vai descansar’. Essas tentativas de consolo acabam minimizando a dor da perda. São frases de boas intenções, mas que são um pouco impensadas e que não facilitam o processo do luto“, expõe Cristine. 

 

De acordo com a psicóloga, nessas situações, deve-se priorizar a escuta. Para ela, é essencial que o enlutado tenha uma rede de apoio disposta a ouvi-lo quantas vezes for necessário e que não faça julgamentos. A melhor forma de auxiliar é respeitar, validar e reconhecer a dor do outro.

Quando procurar um profissional

Cristine explica que, por ser um processo natural, em geral o luto não precisa ser medicado. Um profissional deve ser procurado em casos específicos e se o enlutado tiver vontade de se consultar. Alguns indicadores podem apontar que o processo está sendo complicado, como o direcionamento de energia e das atividades dessa pessoa: “É recomendado ajuda profissional quando todas as energias do enlutado são direcionadas para uma coisa só. Quando ele está só focado na dor da perda ou quando ele não consegue voltar a reinvestir na sua vida”, destaca a psicóloga. 

 

Conforme a pesquisadora, a sociedade evita falar sobre o luto e sobre a morte, no entanto, esses são temas muito importantes. Para ela, se o assunto circular no cotidiano, é mais fácil criar recursos psíquicos para ajudar os outros e a si mesmo.

Expediente:

Reportagem: Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/desertos-de-noticias-brasileiros-diminuiram-no-ultimo-ano Fri, 03 Jun 2022 16:46:34 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9289

Cidades que estão localizadas longe de centros urbanos são afetadas de forma negativa pela falta de informações locais, já que, em sua maioria, não têm sediado nenhum veículo jornalístico. Levando isso em conta, em 2017, o Atlas da Notícia começou a mapear esses locais no Brasil, os chamados desertos de notícias. 

O Atlas baseou-se em uma pesquisa já existente nos Estados Unidos – “American’s Growing News Deserts” (“Desertos de Notícias Crescentes da América”, em português) – para mapear quais municípios têm e quais não têm meios de comunicação jornalísticos. Com a verificação dos desertos, é possível analisar quais regiões do Brasil necessitam de um maior incentivo para democratizar informações jornalísticas locais com qualidade.

Descrição da imagem: ilustração de uma mulher jovem em um deserto. Ela está no lado direito da imagem, de pé, em primeiro plano; tem pele branca, olhos escuros, rosto redondo e está com a boca aberta. Tem cabelos lisos, escuros e em corte Channel. Segura um microfone marrom nas mãos, com o desenho de um arco vazado abaixo. Veste blusa branca de manga comprida e usa um boné amarelo queimado. Ao lado esquerdo da imagem, placa marrom e retangular com o texto "Desertos de Notícias e uma flecha", em branco. Ao fundo, montanha de areia laranja com sombras. No lado superior direito, o sol. Na imagem, em moldura, "Rec" e um círculo vermelho.

A quinta edição do mapeamento realizado pelo Atlas da Notícia teve a participação de estudantes do ensino superior, entre eles acadêmicos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A professora do Departamento de Ciências da Comunicação, Laura Storch, comenta que uma das principais contribuições da Instituição ao projeto está relacionada ao fato de vários alunos serem de regiões consideradas desertos de notícias, o que auxiliou a qualificar as informações obtidas sobre cada localidade.

Os desertos e os quase desertos de notícias  

De acordo com os critérios utilizados pelo Atlas, os municípios considerados desertos de notícias são aqueles que:

  • não têm nenhum veículo jornalístico; 

  • têm meios de comunicação que só republicam conteúdos de outros; 

  • somente têm canais de comunicação vinculados a instituições, como sindicatos, igrejas e prefeituras, que não são considerados  jornalísticos.

Já os quase desertos são cidades que têm um ou dois veículos de comunicação. “Essa classificação intermediária é para apresentar o ecossistema frágil do município. Porque, se um veículo fechar, aquela cidade já vira um deserto”, relata Marcelo Fontoura, coordenador de pesquisa da região sul do Atlas da Notícia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

 

Meios de comunicação ligados a instituições, como prefeituras, muitas vezes são a única fonte de informação em cidades interioranas. A professora Laura explica que, nesses canais de comunicação, existem interesses políticos ou econômicos que podem ser mais “fortes” que o interesse público. Assim, a produção e a circulação de informação fica restrita a favor de um determinado grupo, o que prejudica a opinião coletiva do local.

Resultados da pesquisa

A graduanda em jornalismo na UFSM, Letícia Klüsener, participou do mapeamento de cidades do Rio Grande do Sul. Ela destaca que o processo de apuração para verificar os veículos nos municípios é complexo, pois é difícil classificar um meio de comunicação como jornalístico se o mesmo não apresenta a ética e os critérios de valores-notícia do jornalismo – importância da pauta, de interesse público e ineditismo. “Algumas cidades do interior têm veículos sediados, mas, muitas vezes, eles são semelhantes a blogs, publicam fotos de pessoas em acidentes, por exemplo”, descreve. Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, o profissional precisa respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão, por isso imagens explícitas de vítimas ou de indivíduos envolvidos em acidentes vai contra a ética do jornalismo.   

Diante disso, Letícia conta que teve dúvidas sobre cadastrar ou não esses veículos, já que entravam nos critérios estabelecidos: produzem conteúdos jornalísticos originais, não apenas republicam de outros meios; tem certa frequência de publicações e não são relacionados a nenhuma instituição. 

 

Outro fator importante para considerar o meio como jornalístico é se ele não dissemina desinformação. Marcelo destaca que o tamanho do veículo não é relevante: “se existe apenas uma página de Facebook, não tem problema. Adequamos os nossos critérios ao jornalismo do interior, em especial àqueles lugares mais descentralizados”.

De acordo com o último mapeamento, de 2021, a região Sul permanece a segunda região brasileira com mais veículos de comunicação – 3478, ou 25% do total do país. O Rio Grande do Sul foi o que mais perdeu desertos: 58, frente a 31 no Paraná e 12 em Santa Catarina. Além disso, o estado tem o segundo maior número de veículos impressos do país, atrás apenas de São Paulo, e o terceiro maior de emissoras de rádio. Já o Paraná tem o maior número de iniciativas digitais, 457, frente a 348 do Rio Grande do Sul e a 218 de Santa Catarina.

Descrição da imagem: infográfico horizontal e colorido em forma de mapa do Brasil. O mapa está em cores pastéis em tons de laranja. Há uma escala de intensidade de cores, com o título em branco: "Número de veículos". Abaixo, uma escala de cores, que vai de 500 a 2500+. A cor nude tem como elemento associado um triângulo e está ao lado do "500". A cor areia tem como símbolo um losango e está ao lado do "1000". A cor laranja pastel tem como símbolo um quadrado e está ao lado do "1500". A cor laranja tem como símbolo um círculo e está ao lado do "2000". E a cor laranja forte tem como símbolo um espiral e está ao lado do "2500+". No centro esquerdo do infográfico, o mapa do Brasil. Os estados do Acre, Roraima, Amapá, Tocantins, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe está na cor nude com o símbolo do triângulo. Os estados do Amazonas, Rondônia, Pará, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo estão na cor areia e com o símbolo do losango. Os estados do Mato Grosso, Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina estão na cor laranja pastel e com o símbolo quadrado. Os estados de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul estão na cor laranja e com o símbolo do círculo. E o estado de São Paulo está na cor laranja forte com o símbolo da espiral. No mapa, estão em destaque escrito, na cor cinza sobre fundo branco, os nomes: São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No canto superior direito, sobre fundo branco, texto em laranja dividido em 16 linhas: "De acordo com o último mapeamento, de 2021, a região Sul permanece a segunda região brasileira com mais veículos de comunicação - 3478, ou 25% do total do país. O Rio Grande do Sul foi o que mais perdeu desertos: 58, frente a 31 no Paraná e 12 em Santa Catarina. O Estado líder no número de veículos jornalísticos no país continua a ser São Paulo, com 2471 veículos, ou 18% do total. O fundo é cinza escuro.

O Atlas da Notícia identificou uma redução de 9,5% no número de municípios considerados desertos de notícias no Brasil: no cenário atual, são 5 em cada 10 municípios brasileiros. Na quarta edição da pesquisa, o levantamento mostrou que cerca de 34 milhões de brasileiros não têm acesso a qualquer informação jornalística sobre o lugar onde vivem. No Rio Grande do Sul, os municípios de Arroio do Tigre, Bozano e Pinheiro Machado são exemplos de desertos de notícias. 

 

A região Norte do Brasil continua com o maior número de desertos, com 63,1% do seu território sem cobertura jornalística. Do total de 450 cidades nortistas, 284 não têm nenhum veículo local. A região é a maior em extensão territorial do país e segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade de Altamira, no Pará, é a maior no ranking em unidade territorial também. Por isso, alguns municípios apresentam problemas de locomoção, como locais que só são acessíveis por barcos e cidades pequenas muito descentralizadas. Todos os fatores dificultam a produção e a circulação do jornalismo local na região. 

Descrição da imagem: infográfico horizontal e colorido de um mapa do Brasil. O mapa é dividido em regiões. Na parte inferior direito da imagem, tem uma escala de cores em tons de laranja. Em branco, acima, o título "Número de Veículos". Abaixo, uma escala de cores, que vai de 1500 a 4500. A cor nude tem como elemento associado um triângulo e está ao lado do "1500". A cor areia tem como símbolo um losango e está ao lado do "2000". A cor laranja pastel tem como símbolo um quadrado e está ao lado do "3500". A cor laranja tem como símbolo um círculo e está ao lado do "4000". E a cor laranja forte tem como símbolo um espiral e está ao lado do "4500". O mapa do Brasil está nas cores da escala: a região norte está na cor nude com o símbolo do triângulo. A região nordeste está com a cor laranja pastel com o símbolo do quadrado. A região centro-oeste está na cor areia e com o símbolo do losango. A região sudeste está com a cor laranja escuro e com o símbolo da espiral. E a região Sul está na cor laranja e com o símbolo do círculo. Na parte superior direita, sobre fundo branco, o texto laranja em 14 linhas: "A região Norte do Brasil continua com o maior número de desertos, com 63,1% do seu território sem cobertura jornalística. Do total de 450 cidades nortistas, 284 não têm nenhum veículo local. O número de veículos ativos na região Sudeste chegou a 4628, ou 33,7% dos 13.734 identificados em todo o Brasil em 2021". O fundo é cinza escuro.

A importância do jornalismo local

O mapeamento realizado pelo Atlas permite analisar quais locais precisam de maior atenção. Diversos projetos de jornalismo independente* que vêm surgindo ao longo dos anos contribuem para que comunidades interioranas tenham acesso a informações. A Amazônia Real, fundada pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Freitas, foi criada a partir da observação das duas profissionais que trabalharam vários anos na grande imprensa brasileira, e perceberam a falta de interesse por temas relacionados aos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes e defensores ambientais. 

O projeto é financiado por doações de leitores e parcerias com instituições filantrópicas. Em 2014, criou uma rede de jornalistas, com profissionais remunerados por meio de bolsas de reportagens e fotografia nos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Pará e Tocantins, além de colaboradores no Mato Grosso do Sul, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, um exemplo é o Grupo Matinal Jornalismo. Com sede na cidade de Porto Alegre, é um jornal digital com foco no local que funciona com planos de assinatura para os conteúdos produzidos.

Iniciativas independentes como a da Amazônia Real e do Matinal Jornalismo são novas formas de produzir jornalismo local de qualidade. Marcelo comenta que é preciso diversificar as fontes de renda dos veículos, pois muitos dependem de publicidade ou de instituições, como câmaras de vereadores e prefeituras. O financiamento coletivo, por exemplo, é uma nova maneira de sair da “bolha” do jornalismo tradicional e construir uma independência pautada pelo interesse público. Ademais, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) promove cursos para jornalistas e estudantes a fim de aperfeiçoar, de ensinar técnicas e de desenvolver conteúdos com foco no local. 

 

*conceito que está sendo debatido na área da comunicação.

Expediente:

Reportagem: Eduarda Paz, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/resistencia-agricultores-familiares-relacao-consumo-midia Mon, 18 Apr 2022 17:26:54 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9194

As famílias que moram no meio rural cada vez mais congregam diferentes formas de se comunicar, seja através do rádio – companheiro em um canto do galpão -, da televisão que reúne a família na hora do almoço, ou então do celular, usado como instrumento de comercialização de verduras e legumes e também como ferramenta de pesquisa para as decisões da propriedade, 

 

Essa comunicação se mostrou em transformação durante os dois anos de pandemia. A incorporação das tecnologias digitais no cotidiano dos agricultores familiares foi acelerada. O celular e os aplicativos de mensagens passaram a fazer ainda mais parte das atividades diárias. As rotinas mudaram, e alguns agricultores passaram a fazer reuniões com colegas feirantes diretamente da propriedade através de uma vídeo-chamada. Os jovens não tinham mais aulas na escola, mas dentro do quarto ou na cozinha de casa, dividindo os sons do meio rural com as lições passadas pelos professores através de plataformas online.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida de um agricultor ao lado de uma plantação. Ele está na direita da imagem, sentado de costas em uma cadeira de madeira, e segura um celular preto touchscreen nas mãos. Na tela, um feed de notícias. Do celular, três balões de representação de fala com símbolos dentro: um "i", uma moeda e três pessoas interligadas por uma linha triangular. Ele tem pele branca, olhos escuros, cabelos castanhos, veste camisa xadrez verde e branca, calça azul marinho, botas pretas e usa um chapéu de palha na cor dourada. Ao lado direito, sobre um banco de madeira redondo, um rádio vermelho. Ao lado esquerdo da imagem, plantação em seis carreiras de terra, com plantas recém nascidas na cor verde. Ao fundo, em um morro, uma casa vermelha com duas janelas. Aos lados da casa, árvores e arbustos em verde escuro. O gramado é na cor verde claro. Em frente a porta da casa, um caminho de terra. Ao fundo, o céu azul e, no canto superior direito, o sol amarelo.

Da mesma forma, vimos os meios de comunicação se tornarem ainda mais importantes no compartilhamento de informação, principalmente sobre as formas de prevenção ao coronavírus. Por outro lado, os mesmos meios se tornaram alvos de críticas por parte dos pesquisados, na medida em que os informantes diziam “ora, só falam disso”, ao se referirem à cobertura da pandemia, que ocupava parte da programação diária dos veículos de comunicação. 

Se, por um lado, as relações dos agricultores familiares com os meios de comunicação ganharam novos contornos, alterando em certo ponto o consumo de mídia, por outro, as leituras feitas por eles da forma como a mídia representa o rural pouco ou nada mudaram em relação às pesquisas anteriores que investigam o tema. A mídia é apontada como o principal caminho para alcançar visibilidade à agricultura familiar perante os governos e, ainda, como uma esperança para que a sociedade reconheça o trabalho feito no meio rural. Mas também é vista como algo que acentua as dificuldades do setor, ao evidenciar aspectos negativos, como pautas vinculadas a desastres ambientais, períodos de seca e quebra na produção, o que, segundo eles, reforça uma imagem negativa do trabalho no meio rural.

Além de compreender o consumo de mídia por famílias do campo, nos desafiamos a investigar como o meio em que essas famílias estão inseridas pode determinar as formas como a informação, a propaganda e os mais diversos tipos de conteúdos são consumidos. O trabalho resultou na dissertação “O consumo de mídia por agricultores familiares e as mediações de classe social e Economia Solidária”, apresentada por mim em abril de 2021 ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria, com orientação da professora Veneza Mayora Ronsini.

 

Utilizamos a teoria das mediações, proposta pelo colombiano Jesús Martín-Barbero, que nos ajudou a perceber como cada mediação atua no cotidiano, na construção da identidade de classe dos agricultores familiares e também como ocorre o consumo de mídia. Nossos informantes foram participantes do Projeto Esperança Cooesperança de Santa Maria, um movimento social em que centenas de agricultores familiares, artesãos, quilombolas, indígenas e tantos outros estão há mais de 30 anos. A iniciativa, baseada no modelo de Economia Solidária, nos chamou atenção pelo modo de organização e foi ali, em um movimento organizado, que procuramos os nossos informantes. Queríamos compreender qual é o papel do consumo de mídia mediado pela Economia solidária e pela classe social na formação da identidade de classe desses agricultores familiares.

O que são mediações? 
Podem ser entendidas como os lugares que estão entre a produção do conteúdo midiático e a recepção por quem consome qualquer meio de mídia. O autor colombiano sugere que são três lugares de mediação que interferem e alteram a maneira como os receptores recebem os conteúdos midiáticos: a cotidianidade familiar, a temporalidade social e a competência cultural. As mediações são os lugares em que a cultura se concretiza, mudando o modo como os receptores absorvem a mensagem dos meios.

Resultados

Como toda pesquisa, seguimos um rigor metodológico que, em função da pandemia do coronavírus, precisou ser adaptado para conseguirmos alcançar nossos objetivos. Em cada família pesquisada, encontramos a essência da agricultura familiar, pois é essa formação estrutural que garante sua manutenção e o trabalho na propriedade, já que os princípios da agricultura familiar estão na utilização da força de trabalho da família. Também é a partir da família que podemos interpretar a relação dos informantes com a mídia, já que os diferentes meios estão presentes em praticamente todos os momentos do dia, seja como organização da ritualidade familiar ou nas leituras do modo de vida, de valores e de tradições que eles contrapõem ou reproduzem. A seguir, destacamos mais alguns resultados oriundos da dissertação:

Estereótipos e permanência no campo

Identificamos também que o meio rural ainda é cercado por estereótipos, colocando, muitas vezes, os agricultores familiares em uma situação de desconforto, como vemos na fala de um deles:

 

“Eles brincam bastante sim, me chamam de colono, essas coisas e tal, é o que eles falam, acham que a pessoa que mora no campo, ela não é muito inteligente.”

 

O caso que destacamos foi relatado por um adolescente de apenas 15 anos, mas que presenciamos em todas as famílias em função da origem no meio rural. Se os pais enfrentaram essas situações ao longo da vida, os filhos desses agricultores ainda passam pelos mesmos episódios. Essa situação faz com que os agricultores familiares procurem permanecer e conviver com pessoas em posição social semelhante, na busca de evitar constrangimentos pelo fato de serem agricultores. Presenciamos aí um tipo de violência para se encaixar no modelo de uma sociedade que valoriza aspectos da vida capitalista. 

 

Encontramos uma preocupação entre as famílias que vivem no meio rural: a permanência (ou não) dos filhos no campo, que é legitimada pelos dados estatísticos. Porém, entre os jovens participantes do Projeto, existe um grande interesse em dar continuidade às atividades da família. Podemos dizer que o pertencimento ao movimento social de Economia Solidária pode ser um fator que cria maior fixação do jovem no meio rural, contrariando os dados estatísticos. 

 

A falta de incentivo por parte dos governantes e de políticas públicas concretas para o agricultor familiar e, ainda, a extinção, nos últimos anos, de secretarias e ministérios voltados para a Economia Solidária apareceram nos relatos dos agricultores, que se sentem esquecidos por parte dos governos. É a partir da mediação do trabalho e das insatisfações com as mais variadas instituições que os agricultores familiares procuram o movimento de Economia Solidária. Bourdieu (2013) destaca que são essas lutas que mobilizam o indivíduo a buscar melhorias de sua condição, porém, entendemos que a valorização econômica não se dá na mesma medida que a valorização perante os iguais e uma parte dos clientes.

Mídia e rotina

Em relação ao consumo de mídia entre os agricultores familiares, fica evidente que a mídia exerce grande influência no cotidiano dos informantes. Como organizadora das rotinas, dos espaços de entretenimento, como ferramenta de estudo e de pesquisas, e, aos poucos, na organização do trabalho e na incorporação das redes sociais e aplicativos para a comercialização de produtos. O rádio, a televisão e o celular são os mais utilizados no cotidiano. O rádio é ouvido no galpão, no deslocamento entre a propriedade e outros lugares, ou então dentro de casa, principalmente na cozinha, pelas mulheres, durante os afazeres domésticos. A televisão é utilizada por todas as gerações, seja para informação através da TV aberta ou então para entretenimento em plataformas como YouTube e Netflix. 

 

O celular também é usado em todas as gerações, mas com funcionalidades e aplicações diferentes, que variam conforme a idade. Os jovens sabem utilizar todas as funções: ligações, redes sociais, aplicativos, músicas e jogos, mas nem sempre o fazem, principalmente pela dedicação às rotinas de trabalho da família. Entre as mulheres, o consumo se mostrou  mais voltado para a atualização de redes sociais e busca por informação. A internet está cada vez mais presente no meio rural, bem como os equipamentos que permitem seu acesso. Porém, o uso desses meios ainda fica condicionado às rotinas de trabalho e aos valores familiares. É uma incorporação que se dá de forma mais lenta que nos contextos urbanos, mas que mostra que esses meios, principalmente pela aceleração causada pela pandemia, fazem parte do cotidiano dos agricultores familiares e seu uso se dá de diferentes formas, variando conforme o capital cultural e econômico.

Busca por reconhecimento e nova forma de vida

A questão central nas reivindicações dos agricultores familiares se dá por reconhecimento. A valorização da agricultura familiar através de  políticas públicas aparece de forma simbólica e cultural e que não se reverte em valorização econômica. Desse modo, ao longo dos anos, os agricultores familiares têm adotado estratégias de sobrevivência. O movimento de Economia Solidária se mostra como uma alternativa de resistência, uma esperança para que juntos consigam melhorar as perspectivas de vida. De fato, entre os informantes é possível observar que houve uma melhora nas condições de vida a partir da organização nesse modelo, mas não uma melhora economicamente efetiva, que lhes deixe em uma situação confortável. Essa mudança garante o que o próprio projeto propõe: apresentar uma nova forma de vida. Por exemplo, muitos agricultores buscavam maneiras de parar com o plantio de fumo e arroz, comuns na região central do Rio Grande do Sul.

Divisão nas decisões familiares

Percebemos que, no modelo de Economia Solidária, o protagonismo das decisões familiares, normalmente atribuído ao homem, tende a ser dividido entre o casal e os jovens, pois todos têm papel importante nas discussões. Porém, mesmo entre os adeptos desse modelo, a igualdade nas decisões vai variar conforme os capitais cultural e econômico, bem como com o nível de engajamento e conhecimento do modelo de Economia Solidária. Aliás, são diversos os pontos em que o engajamento e o nível de participação podem ajudar a definir o comportamento das famílias. Observamos que estes interferem no consumo de mídia e nas leituras da representação midiática do rural e na incorporação de novas práticas agrícolas na propriedade, como no caso da legalização e na diversificação de produtos, o que, consequentemente, resulta em mais renda.

Economia Solidária: incentivo e valorização à agricultura familiar

Ainda nesta pesquisa, ficou evidente que a construção da identidade de classe está vinculada às relações que os agricultores familiares estabelecem com a mídia. Toda a construção identitária é comunicada ao mundo e aos outros sob a forma de representação, pela forma como algo é “mostrado e visto”. Assim, a noção da situação de classe se estabelece através das leituras feitas da representação midiática. A forma como o rural é mostrado, através de reportagens e programas que falem do campo, deixa claro a posição de inferioridade dos agricultores familiares em relação aos grupos rurais com maior poder aquisitivo. A Economia Solidária se mostra como uma forma de valorização e até de incentivo ao trabalho dos agricultores familiares. A ação coletiva em torno de um movimento social propicia maior representatividade e organização aos agricultores, mas , mesmo que tente se opor ao capitalismo, esbarra no próprio sistema.

Expediente:

Texto: Maurício Rebellato, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (POSCOM/UFSM);

Ilustração: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário; e Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/historia-afro-brasileira-em-maquetes Wed, 17 Nov 2021 14:47:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8751

Novembro é conhecido como o Mês da Consciência Negra. A data mais importante deste período é o dia 20, que marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos principais ícones nacionais de resistência ao racismo. No entanto, uma luta que já perdura por cinco séculos não pode ser resumida a um mês, tampouco a um mero dia. O principal espaço para discutir este tema com o intuito de formar cidadãos conscientes do passado e, principalmente, dispostos a mudar o futuro, é a sala de aula.

O Laboratório de Arqueologia, Sociedades e Culturas das Américas (LASCA), ligado ao Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria, produz maquetes com intuito pedagógico desde 2006. Após a atualização nas diretrizes e bases da educação nacional, que determinou a obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos da rede básica, o LASCA começou a criar maquetes para ensino da história afro-brasileira em 2010.

André Luis Ramos Soares é o coordenador do laboratório e também do projeto “Construindo Maquetes: Um suporte lúdico para o ensino de história”. Seis de suas maquetes, que retratam a história africana e afro-brasileira, foram tema de artigo em uma revista de história da Universidade Federal de Pelotas. “Minha proposta é trabalhar a pedagogia de forma lúdica. Quero não apenas que as pessoas vejam o conteúdo, mas que se envolvam com ele”, comenta.

O principal objetivo das maquetes é incentivar os futuros professores de história a investirem em abordagens lúdicas de ensino. O projeto deixa de lado o giz e o quadro verde para “dar vida” aos temas abordados nos livros teóricos. Cada maquete proporciona a visualização concreta das representações dos acontecimentos históricos, tipologias arquitetônicas, acidentes geográficos, fenômenos climáticos e ambientais, entre outros.

História de longa duração

Fernand Braudel, historiador francês e um dos principais representantes da “Escola dos Annales”, movimento historiográfico do século 20 que incorporava métodos das Ciências Sociais à História, desenvolveu uma série de noções temporais que se tornaram basilares nos estudos do campo. O francês dividiu os eventos históricos em acontecimentos de tempo curto, tempo cíclico e longa duração. É neste último aspecto que as maquetes se encaixam. 

Cada miniatura apresenta eventos que duraram mais de um século e que repercutem na formação social do país até os dias atuais. “A casa grande e a senzala remetem a uma estrutura de poder que durou mais de 300 anos e deixou marcas até hoje. O quarto de empregada e o elevador de serviço, por exemplo, é a metamorfose da senzala nos dias atuais”, compara o professor André Soares. 

Os períodos retratados em cada maquete são os seguintes:

Grande Zimbábue: O Reino de Zimbábwe (c.1220-1450) estava localizado no atual Zimbábue, sua formação antecede o século 11 e teve seu apogeu entre os séculos 13 e 15. A maquete apresenta um reino com características similares a outros reinos contemporâneos.

Navio Negreiro: A base para a criação da maquete vem do poema homônimo de Castro Alves. Além da obra literária, foi utilizada pesquisa arqueológica e documental sobre o período de tráfico humano pelo Atlântico que ocorreu do século 16 até meados do século 19.

Casa Grande e Senzala: O livro de Gilberto Freyre publicado em 1933 mostra como a arquitetura do espaço colonial expressa organização social e política vigente no Brasil antes do processo de urbanização e industrialização. A arquitetura da época era pensada para reforçar a segregação e a opressão.

Quilombo dos Palmares: Se não o maior, o quilombo mais famoso da História Afro-Brasileira.  Era espaço de resistência à escravidão que, além da população negra, abrigava todo o tipo de excluídos – como índios, e brancos à margem do regime escravista.

Charqueada de São João: A indústria do charque foi o grande motor da economia agropecuária no Rio Grande do Sul. No entanto, esses espaços também ficaram conhecidos como “purgatório dos negros”, por conta das condições degradantes de trabalho, mesmo para o contexto de escravidão. A maquete retrata a Charqueada de São João, em Pelotas, onde Soares fez escavações no sítio arqueológico.

O Cortiço: Baseado no livro de Aluísio de Azevedo, retrata a marginalização da população negra no pós-abolição, a qual continuou a sofrer com a invisibilidade e exclusão social decorrentes do racismo estrutural e que se estendem até os dias atuais.

Processo de criação

Cada maquete leva de seis meses até um ano para ficar pronta. A maior parte desse tempo é investido em pesquisas bibliográficas, que servem como a planta de cada maquete. Cada detalhe presente nas representações possui a sua própria história. Algumas maquetes, como a do navio negreiro e casa grande e senzala, foram construídas com o suporte de alunos do curso de Arquitetura, a fim de conferir a máxima precisão teórica e técnica aos projetos. 

 “A maquete do navio negreiro, por exemplo, contém uma série de informações históricas. É uma nau típica portuguesa. A vela traseira em formato de triângulo é chamada de vela redonda porque ela gira em torno do eixo. A vela quadrada já é diferenciada. A pesquisa serve para colocar detalhes nas maquetes que sejam fidedignas ao que deveria ser uma embarcação desse tipo.  Cada uma dessas maquetes é muito detalhada, porque estamos usando elas em uma proposta de ensino de história”, detalha o professor André Luis Ramos Soares.

As maquetes mais baratas custam cerca de R$ 100, enquanto as mais caras podem custar de R$ 200 até R$ 400. O nível de detalhes e elementos utilizados torna o valor final considerável. “Por conta da ausência de recursos públicos, eu mesmo compro os materiais. Não sei o quanto já gastei”, relata Soares.

O outro lado da história

O professor destaca que o principal papel da escola é proporcionar conhecimento de caráter técnico e científico, pois os alunos já trazem sua bagagem de valores humanos por meio do convívio da sua família. O que os professores podem fazer para promover uma educação que não combata apenas o racismo, mas também misoginia, homofobia e demais formas de opressão é apresentar o outro lado. “O papel da escola é levantar as questões para serem discutidas. A gente não pode convencer as pessoas, mas a gente pode tentar mostrar pra elas que existem outras abordagens,  Outros pontos de vista, outros vieses. Meu papel é colocar o dedo na ferida, tirar as pessoas da sua zona de conforto”, considera o professor.

Soares relata que o ensino decolonial – que busca contar a história por perspectivas diferentes da eurocêntrica, branca e católica – tem ganhado cada vez mais adeptos entre as novas gerações de professores. “Professores da minha faixa etária e mais velhos não conseguiram fugir do modelo tradicional. Atualmente, cada vez mais professores têm procurado fazer especialização e mestrado na área de estudos decoloniais, tentando contar uma versão diferente da história”.

No artigo já citado, é contada a experiência da apresentação das maquetes no Colégio Estadual Elpídio Ferreira Paes, em Porto Alegre. O colégio tem em torno de 850 alunos e  atende aos bairros periféricos da zona sul da capital, que sofrem com altos índices de criminalidade. Desde 2005, as áreas de História, Sociologia e Filosofia passaram a ter uma condução afrocentrada. Por causa desse trabalho, a escola foi escolhida para receber as maquetes. 

O professor detalha a experiência de apresentar o seu trabalho em um colégio com boa parte do seu corpo discente composta por estudantes negros. “A questão do protagonismo negro, do se ver, é essencial. Por isso que muitos professores levaram seus alunos para assistir ao filme do Pantera Negra, por trazer esse protagonismo. Meu trabalho é proporcionar essa visibilidade por meio das maquetes”.

O professor já tem planos de criar uma nova maquete. Esta irá retratar impérios africanos que construíam pirâmides antes mesmo do império egipcio, 5 mil anos antes de Cristo.

O professor deixa o convite para que as escolas  de Santa Maria o chamem a levar esta e outras maquetes para os alunos. Sua condição, no entanto, é que esse pedido não seja feito apenas no mês de novembro: “ É um absurdo abordar a história afro-brasileira apenas no dia 20 de novembro, esse é um processo que deve ser trabalhado todos os dias pelos professores”.

Expediente

Reportagem: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e bolsista

Ilustração:  Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/guia-daltonismo-acessibilidade-cromatica Mon, 18 Oct 2021 13:49:58 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8707

“Assim que você passar pela casa verde, dobre na próxima esquina, seu destino fica no prédio rosa”. “Quando for ao mercado, quero que traga um tomate bem vermelho”. “Para efetuar o pagamento, basta pressionar o botão verde”. “Pegue a caneta azul naquele estojo amarelo”. São grandes as chances de você já ter ouvido frases como essas em algum momento da sua vida ao realizar tarefas cotidianas. 

Utilizar a cor para informar detalhes e especificações costuma ser uma alternativa de  simplificar o que se deseja comunicar. Entretanto, para indivíduos que não percebem as cores do mesmo modo que a maioria das pessoas, essas situações podem provocar muita insegurança e ansiedade – especialmente quando não há acessibilidade em relação às cores na maneira como produtos, serviços e metodologias são construídos. Entender as informações das placas de trânsito, observar o semáforo ao atravessar a rua, escolher tintas para a decoração da casa, interpretar alguma questão de prova que apresenta legendas em cores, selecionar frutas no supermercado, e observar a palidez da pele de um paciente em um atendimento médico são alguns dos exemplos. 

O daltonismo, também chamado de discromatopsia ou até mesmo de deficiência visual das cores, refere-se à dificuldade de identificar e diferenciar certos intervalos de cores. De acordo com o Conselho Federal de Medicina, cerca de 5% da população mundial possui algum tipo de daltonismo. Você achou pouco? Isso representa aproximadamente 390 milhões de pessoas no planeta. Há quem tenha daltonismo em decorrência de fatores genéticos – mais comum -, e ainda quem adquira ao longo da vida, principalmente em razão de doenças e lesões, entre outros motivos. No que se refere à classificação, existem oito tipos de daltonismo, além da presença de certos graus, como leve, moderado e severo. 

No olho humano de quem não possui daltonismo, há o funcionamento de três tipos de células capazes de “perceber” a cor. Esses tipos de células são conhecidos como “cones” e são denominados de acordo com o tipo de luz que são capazes de captar – como vermelha, verde e azul. Quem tem algum tipo de deficiência parcial em alguma dessas células pode possuir três tipos de daltonismo: protanomalia (em relação ao cone vermelho), deuteranomalia (em relação ao cone verde) e tritanomalia (em relação ao cone azul). Esses são os tipos de daltonismo com o grau mais leve, já que, embora haja alguma deficiência em um dos cones, a pessoa possui os três tipos de célula. A seguir, repare, respectivamente, a simulação de algumas frutas e legumes para pessoas sem daltonismo e pessoas com protanomalia, deuteranomalia e tritanomalia:

Visão tricromática | Fonte: Freepik e Pilestone

Já para aquelas pessoas com deficiência total ou até mesmo a ausência de algum dos cones, há outros três tipos de daltonismo: protanopia (em relação ao vermelho), deuteranopia (em relação ao verde) e tritanopia (em relação ao azul). Nesses casos, pela ausência do funcionamento dos cones, os graus são considerados mais elevados e certas cores podem ser percebidas como outras bem diferentes ou serem vistas como tons de cinza, dependendo de cada tipo. Sendo assim, note agora a comparação de algumas frutas e legumes para pessoas sem daltonismo e pessoas com protanopia, deuteranopia e tritanopia:

Visão dicromática | Fonte: Freepik e Pilestone

Por fim, há ainda os tipos de daltonismo chamados de monocromáticos/acromáticos, quando há apenas um cone sem deficiência ou todas as células fotossensíveis com algum tipo de deficiência ou ausência. São divididos em dois tipos: monocromacia atípica/monocromacia do cone azul, quando há apenas o funcionamento do cone sensível à luz azul, e monocromacia típica/acromatopsia, tipo de daltonismo que vê somente em escala de cinza. A seguir, observe, respectivamente, também a simulação de algumas frutas e legumes para pessoas sem daltonismo e pessoas com monocromacia do cone azul e acromatopsia:

Visão monocromática | Fonte: Freepik e Pilestone

Embora haja uma complexidade muito grande em relação à visão humana, especialmente à visão colorida, ainda há uma extrema desinformação sobre o daltonismo. Entre os mitos mais difundidos, estão os de que pessoas com daltonismo veem somente em preto e branco e de que apenas homens podem  ter tal limitação visual. Além disso, há uma enorme carência de pesquisas acadêmicas sobre o assunto nas mais diversas áreas do conhecimento, como na medicina, na pedagogia e, sobretudo, na comunicação e no design – o que contribui para a falta de informação sobre como criar com acessibilidade.

Justamente em vista disso, durante a minha graduação em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda na UFSM, me debrucei a pesquisar sobre perspectivas de inclusão e acessibilidade em projetos e produtos comunicacionais para pessoas com daltonismo, já que também sou uma pessoa daltônica que tem sua vida pessoal, acadêmica e profissional impactada por barreiras geradas pela falta de acessibilidade. Como minha pesquisa consiste na entrega de um produto, tomei a iniciativa de desenvolver um guia de boas práticas, intitulado “Guia de Acessibilidade Cromática para Daltonismo”, voltado a profissionais da indústria criativa que, de alguma maneira, trabalham com a utilização das cores no dia a dia – como designers, publicitários, desenvolvedores, produtores editoriais e arquitetos. O material propõe auxiliar e facilitar o ensino e o exercício prático no que diz respeito ao desenvolvimento de projetos plenamente acessíveis em relação às cores.

Capa do “Guia de Acessibilidade Cromática para Daltonismo” | Fonte: Thiovane Pereira

Além de 20 soluções de acessibilidade mapeadas, um dos principais resultados do estudo, de fato, foi a criação de um modelo de princípios de acessibilidade, nomeados de ‘princípios de acessibilidade cromática’, que, quando interseccionados adequadamente a uma dada circunstância, asseguram que todo e qualquer projeto ou produto comunicacional seja acessível em relação às cores. Para validar as recomendações presentes no material, foram realizados grupos de avaliação com a presença de pessoas com diferentes tipos de daltonismo, profissões e faixa etárias de cidades do Brasil e da Espanha. 

A fim de tornar o guia de boas práticas o mais acessível possível e garantir autonomia e segurança a profissionais que, porventura, possam ter algum tipo de deficiência, o projeto conta com o apoio do ColorADD, um sistema de identificação de cores único, inclusivo, universal e transversal, criado pelo designer português Miguel Neiva, que associa um determinado símbolo gráfico a uma cor. Dessa maneira, torna-se possível que a cor de cada página do material possa ser identificada facilmente por pessoas com daltonismo.

ColorADD | Fonte: ColorADD

Caso você tenha interesse em conhecer um pouco mais sobre estudo e entender como a acessibilidade em relação às cores pode ser aplicada no dia a dia e em projetos e produtos comunicacionais, o “Guia de Acessibilidade Cromática para Daltonismo” foi lançado de maneira digital, pública e gratuita no dia 17 de outubro. O guia pretende contribuir para que projetos tornem-se, de fato, mais acessíveis para pessoas que possuem algum tipo de daltonismo.

*Texto por Thiovane Pereira. Thiovane possui daltonismo, é publicitário pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisa sobre acessibilidade em relação às cores. Além de trabalhar como diretor de arte, presta serviços de consultoria sobre como tornar seus projetos mais acessíveis para pessoas com daltonismo. É idealizador do projeto “Guia de Acessibilidade Cromática para Daltonismo”. 

Expediente

Ilustração: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, estagiária de Jornalismo e bolsista; e Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/narciso Wed, 18 Aug 2021 11:53:29 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8628

“Redes” são interligações. Quando falamos em redes sociais, estamos considerando um espaço de “entrelaçamento” de uma sociedade. Em um período marcado pelo aumento do uso dessas ferramentas, entender essa sociedade e a si enquanto pertencente a ela é essencial. Afinal, hoje, devido à proeminência desses meios, pensar sobre a vida real também implica pensar sobre a vida virtual – e vice-versa.

No total, existem mais de 4,3 bilhões de usuários de mídias sociais em todo o mundo. Esse dado é disponibilizado pelo Relatório Digital 2021, publicado em parceria entre a We Are Social e a Hootsuite, agências globais de marketing digital especializadas nessas plataformas. O material também revela que, do ano de 2020 para 2021, durante a pandemia de Covid-19, as redes ganharam cerca de 490 milhões de novos usuários.

Além da quantidade de pessoas que as utilizam, também cresce o tempo de uso desses meios. O relatório calcula que o usuário típico passa cerca de 2 horas e 25 minutos nas redes sociais todos os dias, o que corresponde a aproximadamente 17 horas de sua vida por semana. Somados, os usuários de mídia social do mundo inteiro passarão um total de 3,7 trilhões de horas nessas plataformas em 2021, o que equivale a mais de 420 milhões de anos de existência humana combinada, estima a pesquisa. Ao que tudo indica, vivencia-se o ápice das redes sociais, que recebem cada vez mais usuários, tempo e atenção.

Não é difícil visualizar esse contexto, afinal, para muitos, as mídias sociais se tornaram preferência na hora de se informar, se comunicar e se entreter. Além da explosão do Tik Tok, redes sociais que já estavam em expansão há mais tempo receberam maior atenção. Segundo dados divulgados pela Kantar, empresa especializada em pesquisa de mercado, o uso do Instagram, Facebook e WhatsApp cresceu mais de 40% durante a pandemia.

O significado do aumento desses números varia, tendo potencial positivo ou negativo. As redes sociais podem representar uma forma de encontrar abertura em meio a um mundo temporariamente fechado, possibilitando manter algumas relações e rotinas apesar do distanciamento social ocasionado por este período. Contudo, essas ferramentas também podem representar o oposto: uma maneira de provocar ainda mais fechamento – em si e em seus próprios ideais.

Na perspectiva da virtualidade, poderíamos pensar tal processo pela existência dos algoritmos. Esses mecanismos automáticos buscam, por meio de critérios e cálculos, serem assertivos quanto ao nosso consumo. Há uma interpretação de nossos comportamentos nos meios virtuais e, a partir disso, a sugestão de publicações alinhadas a eles. Complexo, o processo envolve informações de inúmeras redes, que acabam por se interligar entre si. Desse modo, tentam nos aproximar de conteúdos que se relacionem conosco e com nossa realidade e, consequentemente, nos afasta do que é diferente disso. Porém, na perspectiva da “realidade”, podemos encontrar formas mais profundas de pensarmos o social das redes.

É isso que propõe André Oliveira Costa, ao compreender a importância de debater o que este momento ápice das mídias sociais representa para o “Eu” e para a sociedade. Professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM, ele sugere o seguinte ponto de vista: pensar a sociedade contemporânea e virtual, através da relação existente com a sociedade antiga e “real”.

A história se repete

No artigo “A construção do Eu nas narrativas de vida”, com participação de Karen Worcman, André faz referência à obra do sociólogo Norbert Elias intitulada “A Sociedade de Corte”. O livro, em síntese, defende que a formação do Eu acontece em conjunto com a formação da sociedade. Para explicar isso, o autor descreve a construção da sociedade de corte, do Absolutismo Monárquico de cerca de cinco séculos atrás. A organização social desse grupo pode ser caracterizada por um aspecto que não parece ser tão obsoleto: na época, as pessoas estavam o tempo todo observando e controlando a si mesmas e às outras.

Essa organização não foge muito da realidade contemporânea. Com a expansão das redes sociais, lidamos com um espaço de entrelaçamento de uma sociedade que se “segue”, como registra a própria nomenclatura comum dos aplicativos. Em contato diário com a maioria dos usuários que optamos por acompanhar, observamos constantemente o nosso próprio perfil e os dos demais. Por vezes, isso se estende ao controle: além de haver regras de uso elencadas pelos serviços, se buscarmos entre os usuários, encontramos regras de “etiqueta” e de visibilidade.

Sobre o Eu nas redes sociais, André afirma: “É como fazer parte da sociedade de corte”. Segundo ele, no antigo grupo, os olhares representavam uma forma de as pessoas se reconhecerem como idênticas e pertencentes a uma certa camada social – de modo que uma funcionava como reguladora da outra, possibilitando, como um espelho, identificação. Isso se relaciona com as redes, na medida em que a vida virtual também traz a necessidade de buscar o olhar do outro para garantir certo reconhecimento. “É vida de corte, em que as pessoas se confirmam e se reconhecem. Se uma delas não gosta de algo, por exemplo, tem toda uma classe que vai fazer com que a pessoa seja excluída, afastada, pois há uma regulação”, descreve André.

Esse tipo de identificação é percebido por André como uma forma de gerar um fechamento em um certo grupo social. Há uma diferenciação entre os que fazem parte e os que não fazem. “Quem consegue construir para si certos comportamentos que fazem parte de um grupo, acaba se diferenciando daqueles que não conseguiram se submeter a essas regras do olhar, essas exigências sociais. Tudo isso é para poder encontrar um certo lugar de diferença, de destaque, de privilégio”, explica. Nas redes sociais, aqueles que reconhecem e acompanham as regras de “etiqueta” e visibilidade, conseguem construir comportamentos que agradam as exigências sociais e, assim, encontram um lugar de diferença – recebendo um retorno que não é toda a sociedade que recebe, simbolizado por um maior número de seguidores, comentários e curtidas.

Para compreender melhor a relação entre a sociedade das redes e a sociedade de corte, podemos relacioná-las a uma expressão contemporânea: bolha social. O termo sugere divisões, que ocorrem através da formação de grupos que se distanciam uns dos outros por enrijecerem determinados posicionamentos. Segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo, um estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostra que as redes sociais reforçam a propensão humana a buscar informações que se alinhem a ideias preconcebidas. Isso significa, portanto, o distanciamento de ideias diferentes.

Assim, as bolhas representam segregações de pessoas e de ideais. A fim de aprofundar a questão, André explica: “As pessoas se unem em um traço único e comum e, assim, se forma uma massa. Ou, na etimologia atual, uma bolha. A ideia é que todos são uniformes, indiferenciados, constituídos pelo mesmo traço e se identificam com o mesmo ideal. A massa representa quase que como um único indivíduo, porque essas pessoas acabam reproduzindo certos comportamentos. E qualquer diferença que tente se introduzir é eliminada”. Um exemplo do caso nas redes é que, muitas vezes, para não lidar com opiniões divergentes, a alternativa frequente é a opção de bloquear os usuários que as trazem para o espaço virtual.

Contudo, a ‘diferença’ que André menciona é eliminada não só no sentido de, muitas vezes, não haver aceitação de perspectivas diferentes, mas também ao tentarmos suprimir aspectos que fogem do tal “padrão” em nós mesmos. Isso porque estar preso em uma bolha significa internalizar e reproduzir que se deve ser igual às pessoas que fazem parte dela. Nas palavras de André, “o indivíduo se fecha em uma bolha e a reproduz mesmo sem saber. Isso ocorre muito facilmente, e vemos, inclusive, em discursos hegemônicos, que dizem de algo ‘estrutural’, em que as pessoas não se dão conta de que estão participando. Está na estrutura da formação da sociedade e do sujeito, que é constituído por isso, mesmo sem saber. ‘Você tem que gostar disso’, ‘Você tem que ser assim’.  Os grupos se constroem nessa lógica de identificações e diferenciações”. 

Logo, para o pesquisador, é como se as redes sociais explicitassem uma repetição dessa vida longínqua, de cerca de 500 anos atrás, em que carregamos secularmente a necessidade do olhar do outro para poder nos reconhecermos como alguém, para poder dizer “eu sou” ou “eu faço parte”. O que nos atrai, é a sensação de pertencimento, que faz com que, por vezes, nos adaptemos às exigências sociais desses meios. André acrescenta: “Esse sentimento nos satisfaz narcisicamente, em que se pode pensar ‘como eu pertenço a essa classe, eu sou privilegiado de estar ali, eu tenho capacidade, qualidade e virtude para fazer parte de um determinado grupo’. É como pertencer à sociedade de corte”.

Para além do espelho

O psicanalista e doutor em Filosofia pela PUCRS, Luciano Mattuella, traz uma perspectiva semelhante. Segundo ele, a supervalorização do Eu faz parte da cultura contemporânea. Mas, embora isso seja explicitado através das redes sociais, é algo que sempre existiu. “Sempre precisamos, em toda a história da humanidade, do olhar de um outro que nos constituísse e dissesse de alguma forma quem nós somos. Os outros são os nossos espelhos, nos quais a gente vê a nossa imagem refletida”, explica. 

Luciano aponta que, devido a essa supervalorização agora conectada às redes sociais, por vezes cremos que, através dessas ferramentas, somos protagonistas o tempo todo, como se estivéssemos em uma condição de privilégio. “Mas, na verdade, somos todos figurantes. E essa promessa de protagonismo que a rede social produz pode gerar sofrimento, pois faz com que muitas pessoas se sintam como se não estivessem sendo reconhecidas como deveriam ser”, observa. Nesse sentido, ele relata que uma das sensações que surgem para o sujeito é a de estar sempre endividado – não com a própria história ou com a ética, mas com o outro, como se devesse a ele algo que possa ver e reconhecer. 

O psicanalista descreve que, apesar da perspectiva de fechamento em si, o fundo histórico e constitutivo da necessidade do olhar do outro prova que, sem ele, não vivemos. Fundamental, ele faz parte do Eu. O almejado é conseguir atravessar essa ideia para se colocar disponível a algumas aberturas: “Com o tempo, o que se espera é que a gente possa lançar esse narcisismo investido na gente para o mundo. Se interessar pelo mundo, mesmo que do nosso ponto de vista, mas pelas outras coisas do mundo”.

Reconhecer a diferença é uma maneira de se distanciar da ideia de que somente o que é igual ao Eu – apenas o que é espelho – é digno de escuta. Isso não implica necessariamente concordar com perspectivas diferentes, mas estar disponível para ouvi-las e conhecê-las. Além desse movimento de escuta do novo e do diverso expandir as percepções para ajudar a “sair da bolha”, também pode trazer menos sofrimento.

Fabio Silva, professor de Jornalismo da UFSM, expressa que o sujeito que se dispõe à interlocução é um sujeito talvez mais preparado e menos sofredor do que o que se indispõe: “Aquele que se dispõe a falar e a ouvir de uma maneira realmente disponível, potencialmente sofre menos do que o sujeito que não se dispõe. Porque o sujeito que não se dispõe não consegue evitar totalmente esbarrar em uma opinião divergente. E se isso traz sofrimento, ele será vítima desse sofrimento”.

Quando a interlocução se dá por meio das redes sociais, é importante estar ainda mais atento. Afinal, segundo Fabio, as interações sociais que se estabelecem por meio da linguagem praticada nessas mídias tendem a ser mais fluidas, menos comprometidas e menos interessadas na existência e até no bem-estar do outro. Como cientista da linguagem e analista do discurso, ele acrescenta: “é uma forma de linguagem mais fragmentada – uma vez que, na maioria das vezes, costuma desprezar o contexto e, consequentemente, perde uma parte significativa e importante da possibilidade de compreensão do que o outro está dizendo”.

Refletir, questionar e dialogar aparecem como importantes caminhos para desviar o possível “fechamento” propiciado pelo maior contato com as redes sociais em um período em que tais meios tanto se expandem. Assim, fica mais fácil encontrar a abertura desejada e desejável através de um bom uso. Afinal, essas três ações permitem a entrada de novas perspectivas e da aceitação da diversidade, de modo que contribuem para que consigamos olhar para o que é diferente do Eu, ao invés de buscarmos apenas o que é igual. Considerar a diferença consiste, inclusive, em reconhecer épocas distintas, movimento importante que fica claro através das contribuições do professor André. Como exprime a significativa frase de Heródoto, historiador grego da Antiguidade, “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. 

As mídias sociais possuem um número de usuários que equivale a mais do que a metade da população total do mundo. Daí a importância de ter novas compreensões sobre elas e sobre o que, consequentemente, elas podem representar para os indivíduos e a coletividade a curto e longo prazo. Ao fim e ao cabo, é consenso entre os entrevistados: diante de um período tão produtor de sofrimento como o de isolamento social, as redes sociais são importantes ferramentas para a manutenção de rotinas de estudo, trabalho e entretenimento, e para a construção e o fortalecimento de laços sociais. Isto é, em seus fins de abertura. Por meio deles, fica mais fácil reconhecer como se caracteriza o bom uso das redes para cada sujeito e compreendê-las em seu verdadeiro significado: de interligar.

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*Narciso acha feio o que não é espelho” é um verso da música “Sampa”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Expediente

Repórter: Anna Júlia da Silva, acadêmica de Jornalismo (UFSM campus Frederico Westphalen) e estagiária

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto e Eloíze Moraes, acadêmicas de Jornalismo e bolsistas

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Humanidades – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/distanciamento-social-e-autoconhecimento Mon, 16 Aug 2021 13:40:33 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8626

“Dispersar” pode ser o verbo das ruas. Isso porque ele possui dois principais sentidos: o de “distrair” e o de “espalhar”. Se, antes, o primeiro era o mais evidente, hoje o segundo se destaca. Em um contexto de distanciamento social, a rua já não é mais vista como espaço para se distrair, mas sim para espalhar (o vírus da Covid-19). A redução dessa possibilidade de distração revelou que, se por um lado, as ruas viabilizam a livre circulação de pessoas, por outro, interferem na livre circulação de pensamentos. Afinal, para muitos dos que puderam cumprir o isolamento social, estar em casa significou refletir mais sobre a própria vida. Segundo o psicanalista Paulo Gleich, o maior convívio das pessoas consigo mesmas colocou uma lente de aumento sobre questões que antes eram minimizadas pelo maior número de distrações disponíveis. Dar atenção ao que se evitava pensar significou, para muitos, sofrimento.

Em pesquisa, o Ministério da Saúde divulgou dados sobre a saúde mental da população brasileira durante a pandemia. Como resultado, no rastreio de transtornos, foi observado 74% de ansiedade na sua forma estado, 26,8% de depressão na sua forma moderada e 12,3% na sua forma grave, bem como 34,8% de transtorno de estresse pós-traumático. Além disso, outras informações do estudo revelam que 29,3% da população procurou ajuda profissional por questões relacionadas à saúde mental, enquanto 34,2% informou que, apesar de não ter buscado suporte, gostaria de ter apoio psicológico, principalmente para lidar com a ansiedade (78%) e o estresse (51,9%). 

Recomendações psicossociais e de saúde mental na pandemia têm sido frequentes em sites de órgãos de saúde oficiais. Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reconhecendo os impactos da pandemia na saúde mental, elencam em cartilha algumas indicações. Eles destacam que, para melhor se adequar à realidade do distanciamento social, um modo de produzir estabilização emocional de forma autônoma é adotar algumas estratégias. Dentre elas, salientam a atenção aos próprios sentimentos e necessidades, que pode favorecer a adaptação aos desafios impostos por este momento. Isso se justifica pela ideia de que observar limites e angústias é um movimento necessário para traçar estratégias de aliviamento. A mesma indicação é feita em um documento publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

Perspectivas como essa, que defendem a observação sobre si mesmo, permitem ressignificar a recorrente queixa de estar “pensando demais”, principalmente neste período que amplia determinadas reflexões. Isso porque abrir espaço para o autoconhecimento é também um convite para pensar mais, afinal, é através do ímpeto de refletir, questionar e dialogar que descobrimos mais sobre nós mesmos. Gleich ressalta: “Em meio a um mal-estar como o que a pandemia provoca, é interessante se propor ao exercício de pensar”. Para auxiliar nisso, campos que estimulam a reflexão, como o da própria Psicanálise e também o da Filosofia, podem ser grandes aliados, ajudando a produzir interpretações sobre o “Eu”.

Vida de interrogação

“O que é o homem?”. O professor de Filosofia da UFSM, Marcelo Fabri, descreve que tudo o que se desenvolveu no percurso filosófico ocidental, mesmo que de modo implícito, foi justamente com o intuito de responder a essa pergunta. A respeito disso, acrescenta: “Sócrates é o exemplo mais notável. Ele não oferece uma definição explícita do homem, mas insiste que a vida filosófica é vida de interrogação”. Portanto, o interesse da área é instigar o pensamento, dispondo de perguntas como principal ferramenta para buscar entender o Eu.

Essa perspectiva, além de apaziguar o “pensar demais”, também ajuda a pacificar a angústia da incerteza, tão presente neste período de pandemia. Isso porque propõe enxergar a dúvida não mais como algo que para, mas que movimenta. Afinal, questionar e refletir permite facilitar o reconhecimento de posicionamentos, desejos e caminhos pessoais. Desse modo, é possível visualizar a si com mais clareza e agir a partir disso.

Em um período propício ao “recolhimento”, a busca pelo Eu se torna ainda mais disponível e vantajosa. Fabri expressa que “só há um caminho que nos leva à pergunta por nós mesmos: valorizar o que nos pertence absolutamente, isto é, nossa consciência, a vida psíquica que nos permite o recolhimento em nós mesmos para descobrir o que efetivamente nos pertence e quais as nossas potencialidades”. Logo, podemos entender que, além de pressupor questionamentos e reflexões, o autoconhecimento também requer a valorização da consciência. 

A consciência da não-consciência

O consciente e o inconsciente, termos fundamentais para a Psicanálise, são determinantes para a construção do Eu. Considerando isso, Paulo Gleich distingue duas formas de pensar o encontro consigo: através do “autoconhecimento” e do “autodesconhecimento”. Enquanto a primeira perspectiva é limitada e contempla somente o consciente, a segunda é ilimitada e contempla o inconsciente. “Autoconhecimento todo mundo tem, em alguma medida. Quando perguntam ‘quem é você?’, há algumas coisas para responder sobre isso. Mas o autoconhecimento que interessa à Psicanálise é o ‘autodesconhecimento’. O quanto, na verdade, sem saber, conhecemos muito pouco acerca de nós mesmos”, explica.

O que o psicanalista faz é um convite à saída do senso comum. Fora dele, descobrimos que o autoconhecimento tem limites e que, por isso, há muito sobre nós que não conhecemos e que, inclusive, nunca sequer entenderemos. “Autodesconhecimento é reconhecer a dimensão do inconsciente. A gente não consegue tornar o inconsciente consciente, mas é possível saber que ele existe, prestar atenção a ele e dar espaço a ele. E isso paradoxalmente é um certo tipo de consciência e autoconhecimento”, aponta Gleich.

Compreender essa barreira nos permite refletir e questionar muito mais, explorando o Eu com maior profundidade. Ao assumir que o desconhecimento é infinito, há uma abertura verdadeira para as perguntas sobre nós mesmos, que são capazes de expandir nossos pensamentos e a nossa experiência de vida – sobretudo neste período conflituoso. Cercados por tantas incertezas, admiti-las é o primeiro passo para, então, acolhê-las. Pois falta de certeza é dúvida. E é a partir de perguntas que encontramos respostas.

Saída do senso comum

Gleich expressa que a ideia que existe no senso comum quando se fala em autoconhecimento é de um conhecimento do Ego. Essa palavra, recorrente tanto no campo da Psicanálise quanto da Filosofia, vem do latim e se traduz como “Eu”. Na teoria psicanalítica, o Ego faz parte do nosso aparelho psíquico e tem a função essencial de lidar com a realidade externa.

Nas palavras do psicanalista, o Ego é um conjunto de verdades no qual nos apoiamos para nos apresentarmos ao mundo: “o problema da ideia do autoconhecimento voltada somente para o Ego [do senso comum] é que ela deixa de fora tudo aquilo que o Ego desconhece ao criar todas essas verdades para si próprio”.

Mais frequente, essa perspectiva é a que costumamos tomar para nos descrever de um modo mais vago. “O Ego é como a roupa que a gente veste para sair na rua. É ‘eu sou assim’, ‘eu tenho tais características’. O problema do Ego é que a gente tende a confundir essa roupa que a gente precisa vestir, como se ela fosse a nossa própria pele”, explica. 

Para ele, como uma roupa, o Ego nos apresenta, nos expõe e nos protege. Ele é tão fundamental quanto superficial. Afinal, através da apresentação e exposição, o sujeito diz quem é, mas diante da proteção excessiva se vê incapaz de entender o porquê de ser: “O Ego é uma falsa ideia de autoconhecimento. Ao se questionar, esse primeiro autoconhecimento se desmancha e a pessoa percebe que não sabe de muita coisa”.

Para sair do senso comum, é preciso estar disposto a “pensar demais”, ou, pelo menos, “pensar mais”, para ir além do que é habitual. Avançar nesse sentido requer reflexão e questionamento acerca do que é desconhecido. “Esse tipo de autoconhecimento, que parte do autodesconhecimento, permite pensar, enxergar e sentir coisas que o autoconhecimento do Ego, que é muito cheio de certezas, não permite. Então ele amplia a experiência de vida de uma pessoa”, sustenta Gleich.

Logo, para o psicanalista, se desfizermos alguns “nós” da “roupa do Ego”, tornamos as perspectivas sobre o Eu mais ricas: “Poder implodir esse autoconhecimento que restringe e limita é uma forma de autoconhecimento que vai em direção ao autodesconhecimento. E essa é uma grande vantagem, eu penso, em relação a uma vida empobrecida pela estreiteza de algumas certezas, ideias e sensações”.

Refletir, questionar e dialogar

A palavra “demais” pode representar excesso – exagero – ou demasia – intensidade. Quando o sentido que damos à expressão “pensar demais” parte do excesso, ele pode receber e revelar um tom negativo de algo que requer atenção. Mas quando significamos a partir da demasia, entendemos a importância de “pensar demais”. Afinal, pensar em autoconhecimento sob a perspectiva da Filosofia e da Psicanálise é “pensar demais”, visto que sugere pensar intensamente e sobre um raciocínio que, em sua totalidade, não tem fim. 

Segundo André Oliveira Costa, “‘o pulso ainda pulsa’. Estamos o tempo todo em movimento, sem cessar. O autoconhecimento nunca vai se fechar”. O professor convidado do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSM é autor do artigo “A construção do Eu nas narrativas de vida”, com participação de Karen Worcman. Na pesquisa, o foco é a constituição do Eu e o modo como a produção de uma narrativa de vida pode significar, para quem narra, o exercício de construção.

Ao analisarem relatos, os autores não colocam o “fato” por trás da história narrada como ponto principal. O foco é o próprio indivíduo e a forma como lida com sua memória e produz o seu relato individual a partir dela. O que importa é a organização e tradução que se faz, para o outro, daquilo que se viveu e conheceu. Além da pesquisa minuciar ainda mais a construção do Eu, ela também conversa, de certo modo, com as perspectivas de Marcelo Fabri e Paulo Gleich, ao passo que destaca a importância do diálogo.

Para Marcelo Fabri, a vida implica o contato entre os sujeitos, que gera o diálogo e o confronto necessários para tentar responder à questão “quem é o homem?”. O contato que Paulo Gleich considera importante nesta busca é, em especial, o da análise, através da fala e da escuta que, com tempo, atenção e dedicação, trazem efeitos à descoberta pessoal. Refletir, questionar e dialogar. Essas são as principais palavras para ressignificar o “pensar demais” e, também, para considerar o autoconhecimento – ou autodesconhecimento. 

A lente de aumento colocada sobre o Eu, durante a pandemia, permitiu que muitos saíssem da distração para a atenção e, assim, dessem o primeiro passo em direção a uma busca por um entendimento de si. Sem fim, o autoconhecimento também não se limita a esse período, mesmo que represente uma maneira de atravessá-lo. 

Contemplar perspectivas que sugerem reflexão, como as que André Costa, Marcelo Fabri e Paulo Gleich expressam – do contato com a Filosofia e a Psicanálise – pode originar uma série de descobertas. Essas, por sua vez, não dizem só sobre o presente, mas sobre o passado e, de certo modo, influenciam o futuro. Segundo Paulo Gleich: “Sei, pelos testemunhos de muitos colegas e pela minha própria prática clínica, que muitas pessoas procuraram ajuda nesse momento. Embora algumas delas tenham alegado as questões da pandemia, com um tempo de trabalho [de análise] elas vão poder se ocupar das questões que, na verdade, já estavam lá muito antes, mas que a situação de isolamento empurrou para um aumento de sintomas”.

O recolhimento e o conhecimento interno não prometem estancar sofrimentos, mas possibilitam encontrar interpretações mais preparadas para lidar com os antigos, presentes e futuros sentimentos e necessidades. Aqui, considerando em especial aqueles que foram, estão sendo ou serão despertados durante a pandemia. Logo, esses movimentos podem ser alternativas para responder, inclusive, a uma das estratégias de enfrentamento dos impactos negativos do distanciamento social elencadas pela Fiocruz, que consiste em dar atenção a si e observar limites e angústias com o fim de aliviamento. Outras recomendações da instituição envolvem realizar exercícios cognitivos, cursos online e leitura, buscar conteúdos e práticas que reestabeleçam a confiança em si mesmo, realizar exercícios físicos e de relaxamento, participar de grupos de apoio online ou buscar apoio especializado. 

Enquanto a pandemia de Covid-19 ainda é uma realidade, as ruas não perdem por completo o verbo “dispersar” – afinal, o sentido de “espalhar” (o vírus) permanece presente. Porém, reconhecer a importância de se manter atento já é uma forma de contrariar o sentido de “distrair” – e, com isso, permitir a entrada de uma série de importantes percepções e interpretações sobre o Eu e sobre o mundo.

Expediente

Repórter: Anna Júlia da Silva, acadêmica de Jornalismo (UFSM campus Frederico Westphalen) e estagiária

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

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