Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Mon, 25 Sep 2023 11:07:09 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/resquicios-dos-manicomios-nas-maos-do-estado Wed, 13 Sep 2023 14:44:33 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9803

Nos manicômios judiciários os dias parecem se repetir. Carlos (*nome fictício*) geralmente acorda cedo. Ele sabe que entre 8h e 8h30min, precisa estar na fila para pegar seus remédios. Próximo ao meio dia, o almoço é servido. Depois desses compromissos, ele pode tomar banho, descansar, passear no pátio ou fazer outras atividades na hora que deseja. À noite, geralmente se reúne com os colegas para jogar cartas. Essa é a rotina de Carlos e de algumas das outras 193 pessoas que vivem no Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), em Porto Alegre.

Mas nem todo dia é de paz. Alguns destes pacientes, com doenças ou transtornos mentais, ainda têm surtos, dificuldades e precisam de atenção psiquiátrica profissional. Amparo que, nem sempre, os três médicos que atuam no local conseguem dar conta pela sobrecarga de atividades. Agora, imagine estes mesmos indivíduos, com as mesmas necessidades, sem os cuidados de ninguém. 

A situação pode se tornar real até maio de 2024. Este é o prazo que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou para a interdição total e o fechamento dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico em todo o país. A determinação põe fim ao sistema de internação manicomial. A problemática é: não há um planejamento efetivo de para onde vão as pessoas que ainda precisam de tratamento e estão no IPF, único manicômio ainda ativo no Rio Grande do Sul.

Dados nacionais e estaduais

Desde de setembro de 2023, médicos realizam a perícia de cessação de periculosidade dos pacientes que atualmente estão no IPF, ou seja, uma avaliação da evolução do tratamento de saúde mental, para que possam ser desinternados. Nessa decisão, a maioria dos pacientes encontram uma oportunidade de recomeçar a vida fora dos campos do estado. Mas, um desafio também é imposto ao poder público: entender para onde vão os pacientes que ainda precisam de tratamento ou que não têm subsídio familiar fora dos muros do IPF. O judiciário ainda não tem essa resposta.

“Um dos pacientes está com a desinternação desde 2013. A medida de segurança já foi extinta. Só que ele não tem para onde ir. Ele requer cuidados, tem que fazer um tratamento. O IPF é a única alternativa que tenho para ele. Já houve ação judicial contra o Estado, município, para que comprassem vaga em residencial terapêutico. Até hoje a ação não foi cumprida”, exemplifica Alexandre Pacheco, juiz da Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas da Comarca de Porto Alegre (VEPMA), que toda sexta-feira vai até o local e conversa com os pacientes sobre suas situações.

O juiz explica que o Instituto segue ativo no estado, mas com menos investimento público do que precisaria. Com isso, estruturas antigas e falta de profissionais dificultam a residência dos pacientes antes mesmo do prazo determinado pelo CNJ. “São três médicos (clínico e peritos) que trabalham apenas no turno da manhã. Se o paciente tem um surto agora de tarde, só vai ser atendido amanhã de manhã”, revela.

Além da defasagem de médicos, não há uma equipe multidisciplinar, como neurologistas, educadores físicos e terapeutas educacionais. Atualmente, três psicólogos e assistentes sociais trabalham no local. Para os cuidados de higiene, cinco enfermeiros e técnicos assistem aos pacientes.

“Haverá momentos em que não vai haver ninguém. Essa defasagem faz com que muitos pacientes que não têm autonomia, não consigam tomar banho sozinhos. Ficam sem banhos, higiene pessoal e outras questões. Então vai se tendo um ambiente, que eu diria, violador de preceitos e direitos fundamentais”.
Alexandre Pacheco
juiz da VEPMA

Por conta da falta de estrutura adequada, antes da resolução do CNJ, o Poder Judiciário do Rio Grande do Sul já havia determinado uma ampliação da interdição do IPF. Desde junho de 2023, não entram novos pacientes no local.

Rotina no IPF

Lei da Reforma Psiquiátrica 

A resolução do CNJ cria novos amparos para o cumprimento do que foi ordenado na Lei 10.216, de 2001. Conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, ela transformou a discussão sobre o funcionamento dos manicômios no campo jurídico e determinou o fechamento gradual dos institutos manicomiais no Brasil.

“Significou retirar as pessoas de estabelecimentos de privação de liberdade e encaminhá-las para a rede de saúde pública. Trata-se de uma mudança de compreensão com as pessoas em medida de segurança. Elas são sujeitos que exigem assistência social e de saúde, e não de privação de liberdade, afastamento de pessoas e subtração de direito”, comenta a professora da Universidade Federal de Santa Maria, Fernanda Martins, doutora em Ciências Criminais.

Além disso, a lei reconhece a ineficácia de uma internação vitalícia. Desde 2001, o prazo máximo para cumprimento da medida de segurança é equivalente ao descrito na lei para o crime. Por exemplo, se o delito cometido foi um furto qualificado (pena máxima de oito anos), o paciente permanece na instituição da medida em até oito anos. Depois, não precisa mais da intervenção estatal. A liberação não significa uma cura da condição, mas que o sujeito não precisa mais do Estado acompanhando seu tratamento.

Cadeado em grade

A reforma foi proposta em 1989. Mas o movimento que lutava pelos direitos das pessoas em manicômios, chamado de Luta Antimanicomial, teve início décadas antes. 

Sandra Maria Sales Fagundes, psicanalista e mentaleira do Fórum Gaúcho de Saúde Mental explica que o movimento ganhou força na década de 1970, durante um encontro de trabalhadores de saúde mental realizado em Bauru (SP) que discutiu mudanças para o sistema psiquiátrico brasileiro. A inclusão de uma equipe multiprofissional foi uma das pautas importantes nesse progresso. “É preciso pensar que existe uma experiência sobre a doença e não somente um diagnóstico – precisa de muita escuta e respeito à construção do sujeito”, conta a profissional. 

Mesmo após a Reforma Psiquiátrica, a luta antimanicomial segue ativa e protagonizada por profissionais de saúde e usuários do sistema psiquiátrico brasileiro. Sandra Fagundes argumenta que a divulgação do movimento não deve parar, mesmo com a ordenação formal de fechamento dos manicômios: “A lei não é o objetivo último. E todos nós sabemos que a lei pode ser morta, um papel morto. Porque ela precisa propor vida e ser aplicada. A luta pela destitucionalização do sofrimento e pelo cuidado e amparo na cidade é viva.”

O dia 18 de maio foi definido como Dia Nacional da Luta Antimanicomial e oportuniza que as entidades sociais reforcem o movimento. As atividades, como as promovidas pelo Fórum Gaúcho de Saúde Mental, são uma forma de manter na memória da população as violações vividas pelos pacientes e para garantir que não se repitam. 

É importante reforçar que a luta não é contra os profissionais que ocupam posições dentro dos manicômios restantes. É imprescindível que médicos e enfermeiros éticos estejam nestes locais e inviabilizem, cada vez mais, o antigo método de desrespeito que se desenvolveu dentro das instituições ao longo da história.

Manicômios no passado: uma marca da falha humana

Geralmente marcados por isolamento do paciente do meio familiar e social, aprisionamento sem prazo e baixa preocupação com a individualização dos tratamentos, os manicômios violavam os direitos humanos e não eram eficazes no exercício da sua função. O método manicomial não estava atrelado necessariamente a um tipo de instituição. Também estava presente em hospitais psiquiátricos que não tinham entrada judicial.

Os pacientes possuem enfermeiros e medicamentos caso sintam desconfortos

População pobre, ex-escravizados, migrantes e mulheres costumavam ser o perfil desses locais, conforme explica Sandra Fagundes. “Eram recolhidas pessoas que não tinham onde morar e por isso entravam em crise psíquica. Por exemplo, escravos que migravam para as cidades, estrangeiros que não conseguiam se comunicar e mulheres que saiam dos padrões definidos pela sociedade.” 

Em meados dos anos 1980 e 1990, “ser louco” serviu como justificativa para anular esses indivíduos da sociedade e não oferecer espaço para tratamento. A psicanalista afirma que, nessa época, a maioria dos diagnósticos ainda não existia e diferentes doenças e transtornos mentais eram tratados da mesma forma. 

“Medicamentos eram um método para conter as pessoas e não para entendê-las. O louco funcionou como um sugador e exterminador da subjetividade”. Sandra Fagundes conclui que vê esses procedimentos como uma forma de pôr a doença entre parênteses e impedir que os pacientes se reintegrarem na sociedade.

O termo “descaso” resume a experiência de Solange Gonçalves Luciano no Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP), em Porto Alegre. A mulher de 54 anos foi internada três vezes. Após passagens por instituições psiquiátricas e hospitalares, ela não recorda o ano e nem quanto tempo ficou no local em cada internação. Na primeira vez, com 20 e poucos anos, acordou no local sem saber como havia chegado.

Embora a missão da instituição seja divulgada como a de “cuidar do doente mental e a de formar recursos humanos para esta finalidade”, Solange guarda traumas do período em que viveu lá “Eu tenho uma arte que acho muito significativa, onde eu estou no São Pedro de pernas pra cima numa maca contida e sendo medicada. Escrevi a frase ‘Nos ajude a tratar todo e qualquer lugar no qual nos tratamos’”.

Em 2010, uma amiga da área da saúde que atuava no Fórum Gaúcho de Saúde Mental conseguiu tirá-la de lá. Hoje, com memórias de aflição, é militante da luta antimanicomial e se denomina uma ‘sobrevivente dos escombros manicomiais’. Solange encontrou na arte uma forma de compartilhar sua história e seguir na conscientização do tema para novas gerações.

A Oficina de Criatividade, um espaço de reabilitação psicossocial do SUS, que acontece na antiga estrutura do HPSP (hoje com área de internação desativada), proporciona o desenvolvimento de habilidades artísticas, como música, desenho e fotografia de Solange, que até pouco tempo atrás não a permitiam descobrir.

Durante a conversa, a sobrevivente contou a paixão pelo desenho que descobriu em 2014 e compartilhou uma música autoral com a reportagem da Agência de Notícias. Na letra, ela conta das suas vivências enquanto paciente da instituição. Escute abaixo um trecho:

Solange também destacou que mesmo nas dificuldades vividas, encontrou muitos profissionais no caminho que a ajudaram a não perder a esperança. “Tem muitos bons… 90% maltratam, mas também aqueles 10% que se tu consegue chegar perto, te acolhem e te ouvem… faz a diferença. Eu costumo dizer que são as ‘mãos azuis’ que quebram as regras da instituição manicomial e conseguem nos alcançar.”

Texto: Paula Appolinario e Thais Immig, estudantes de jornalismo
Edição: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas
Fotos: Guilherme Machado, estudante de Relações Públicas
lustrações: Lucas Zanella, estudante de desenho industrial e Daniel Michelon De Carli, designer 

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/volta-de-doencas-controladas Thu, 27 Jul 2023 11:46:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9735

Desde 2016, o Brasil sofre uma queda nos índices de vacinação e, desde 2020, a cobertura vacinal total da população não chega a 70%, de acordo com o DataSUS. Estes dados são alarmantes, visto que o objetivo do Ministério da Saúde é manter as taxas em 95%. Dentre os índices afetados, estão os das vacinas que evitam doenças infantis como a poliomielite e o sarampo, ambas abaixo da meta. Essas doenças já foram eliminadas ou controladas no país, no entanto, o constante declínio da cobertura vacinal aumenta o risco de retorno dessas enfermidades.

A poliomielite, por exemplo, foi erradicada do território nacional em 1994, então são quase 30 anos sem casos detectados. Porém, o país tem alto risco de reintrodução da doença. Em apenas 10 anos a cobertura vacinal da poliomielite foi de 96,5% em 2012 para 77% em 2022, uma queda de aproximadamente 20%.

O sarampo também é uma doença que ameaça voltar. As campanhas de vacinação levaram o Brasil a conquistar o certificado de eliminação da doença em 2016, mas três anos depois, em 2019, o país perdeu o reconhecimento. Naquele ano, o país registrou 81,5% de cobertura vacinal, mas desde então os índices caíram e em 2022 a cobertura foi de apenas 53% conforme dados do DataSUS.

Para a infectologista pediátrica do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), Maria Clara Valadão, o cenário é preocupante. A médica relata que nos últimos anos se tornou comum atender pacientes com o calendário vacinal incompleto. “Às vezes não é a total falta da vacinação, mas a falta dos reforços, a falta de completar o calendário, muitas vezes a criança não tomou todas as doses necessárias. Estamos sempre atentos para essas velhas patologias que a gente não vê mais e estamos temendo a volta, pois com os índices baixos é só uma questão de tempo” afirma.

De acordo com o relatório “Situação Mundial da Infância 2023: Para cada criança, vacinação” lançado pelo UNICEF em abril deste ano, 1,6 milhão de crianças brasileiras não receberam nem a primeira das três doses da vacina contra a pólio entre 2019 e 2021.

Por que as doenças voltam?

O médico epidemiologista e professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Marcos Lobato, explica que a eliminação é diferente da erradicação. Para uma doença ser considerada erradicada é preciso que ela desapareça no mundo todo, já a eliminação diz respeito a um local específico onde não têm mais relatos de casos. Quando a gente tem a eliminação de uma doença num território, num país, ele recebe um certificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa certificação significa que aquele local não tem mais casos de uma doença específica, mas isso não quer dizer que ela não pode voltar, pois ela não foi erradicada” explica o professor.

Por isso, as baixas taxas de imunização acendem um alerta para o risco de novos surtos e reinserção de doenças que já haviam sido eliminadas no Brasil. Além disso, Lobato destaca que a poliomielite e o sarampo são as mais preocupantes, mas outras doenças também podem voltar.

A gente pode ter um aumento de outras doenças exantemáticas, que são doenças infecciosas comuns de aparecerem na infância e causam irritação na pele como a rubéola, por exemplo. Também podemos ter um aumento de difteria, coqueluche e das meningites. Todas essas doenças, que têm vacinas, tiveram uma queda da cobertura vacinal”, comenta o médico.

A pediatra Maria Clara destaca que a volta de doenças eliminadas vai impactar muito o Sistema Único de Saúde (SUS) e os hospitais públicos. “Praticamente todos os hospitais públicos do nosso país sofrem com a deficiência de leitos de UTI e de UTI pediátrica. A nossa UTI está sempre superlotada e isso gera muitos problemas também de infecção hospitalar. No momento já estamos com dificuldades, então se várias doenças que não eram mais nossas preocupações voltarem, a situação vai ficar ainda pior” ressalta.

Poliomielite

Conforme o Ministério da Saúde a poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, é uma doença contagiosa causada pelo vírus poliovírus que, apesar de infectar crianças com maior frequência, também pode atingir adultos. A maior parte das infecções apresenta nenhum ou poucos sintomas que podem ser febre, dor de garganta, náusea, vômito e dor abdominal. De acordo com a Fiocruz, cerca de 1% dos infectados pelo vírus podem desenvolver a forma paralítica da doença, que pode causar sequelas permanentes, insuficiência respiratória e, em alguns casos, levar à morte.

Poliomielite é uma doença bastante grave, pode causar graves sequelas motoras, pode levar os pacientes a ficarem paraplégicos ou até mesmo levar à morte quando o quadro é muito intenso. Então é muito importante vacinar as crianças contra a pólio”, confirma a pediatra Maria Clara.

A pólio ainda não foi erradicada e permanece em dois países, no Afeganistão e Paquistão, com registro de 05 casos em 2021. Por isso, existe a preocupação com o seu retorno, pois mesmo que a distância geográfica seja grande os vírus se propagam com facilidade.

Atualmente, não existe tratamento específico para a doença e a vacinação é sua única forma de prevenção. Todas as crianças menores de cinco anos devem ser vacinadas conforme o calendário vacinal.

Ainda segundo a Fiocruz, a imunização contra a poliomielite deve ser iniciada a partir dos 2 meses de vida, com mais duas doses aos 4 e 6 meses, além dos reforços entre 15 e 18 meses e aos 5 anos de idade. A imunização é feita de duas formas: a aplicação VIP (vacina inativada injetável) com seringa e a VOP (vacina atenuada oral) que são as gotinhas.

VIP – É aplicada na rotina de vacinação infantil, aos 2, 4 e 6 meses, com reforços entre 15 e 18 meses e entre 4 e 5 anos de idade.

VOP – Na rede pública as doses, a partir de um ano de idade, são feitas com VOP. Na rotina de vacinação infantil contra pólio nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), é aplicada nas doses de reforço dos 15 meses e dos 4 anos de idade e em campanhas de vacinação para crianças de 1 a 4 anos.

Em junho deste ano o Ministério da Saúde anunciou que a vacinação em gotas será gradualmente substituída pela injetável a partir de 2024. De acordo com o órgão, “as estratégias de vacinação adotadas no Brasil, assim como os imunizantes indicados para cada público, levam em conta o avanço tecnológico do setor e novas evidências científicas”.

Sarampo

De acordo com a Fiocruz, o sarampo é uma doença infecciosa viral, extremamente contagiosa e muito comum na infância. Os sintomas iniciais são febre acompanhada de tosse persistente, irritação ocular e corrimento do nariz. Após estes sintomas, geralmente há o aparecimento de manchas avermelhadas no rosto, que progridem em direção aos pés.

Além disso, pode causar infecção nos ouvidos, pneumonia, ataques (convulsões e olhar fixo), lesão cerebral e morte. Posteriormente, o vírus pode atingir as vias respiratórias, causar diarréias e até infecções no encéfalo, centro do sistema nervoso humano. Sua transmissão ocorre quando o doente tosse, fala, espirra ou respira próximo de outras pessoas.

A maneira mais efetiva de evitar o sarampo também é pela vacinação. As crianças devem tomar duas doses da vacina combinada contra rubéola, sarampo e caxumba, chamada de tríplice viral. A primeira dose, com um ano de idade e a segunda, entre quatro e seis anos. Confira abaixo o calendário vacinal completo para crianças:

Por que os índices caíram e como aumentá-los?

Para a pediatra Maria Clara um dos fatores da queda dos índices de imunização é a própria eficácia das vacinas, pois como os casos diminuem as pessoas tendem a esquecer da existência de algumas doenças e de como elas podem ser graves. Além disso, para a médica, o movimento antivacina e a desinformação também contribuíram para esse cenário.

“O negacionismo contribuiu para que as pessoas começassem a desconfiar do processo vacinal que é extremamente seguro. Ele influenciou na decisão de várias famílias de não vacinar ou adiar as imunizações. Outro fator é a desinformação, eu tenho atendido muitas famílias que não levaram a criança para vacinar porque ela estava resfriada e isso não é uma contra indicação para a imunização”, relata a infectologista.

O professor Lobato destaca que problemas na gestão da saúde pública também contribuíram para a queda dos índices. Entre eles a aprovação do teto de gastos em 2016 e o congelamento nos investimentos e gastos com saúde pelo governo federal.

O especialista acredita que agora é preciso retomar as campanhas de educação para a saúde e conscientizar as crianças sobre a importância da vacina. Por exemplo, o médico relembra o sucesso de personagens como o “Zé Gotinha” para aumentar os índices vacinais.

“As pessoas devem cuidar do calendário vacinal. As vacinas são a tecnologia mais avançada que a humanidade já desenvolveu para prevenir doenças. Precisamos voltar a fazer propaganda de vacinação nas mídias e dizer que a vacina é muito boa e que ela protege a população inteira. A vacina é muito segura e é milhares de vezes mais segura para o usuário do que ele ter uma doença” afirma o médico.

Reportagem: Rebeca Villaça Kroll acadêmica de Jornalismo da UFSM
Edição: Laura Strelow Storch, docente do curso de Jornalismo da UFSM
Edição Geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas
Artes: 
Vinicius Gumisson Motta, estagiário de Desenho Industrial da Unicom, com informações do DataSUS

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/10-curiosidades-sobre-o-cancer-de-boca Thu, 25 May 2023 15:13:30 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9730

Em referência a 31 de maio, instituído pela Lei Estadual 12 535/06 como Dia de Luta Contra o Câncer Bucal, este mês é marcado por campanhas que visam aumentar a discussão acerca desta doença, que afeta mais de 15 mil brasileiros e resulta em mais de 6 mil óbitos por ano, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA)

Para colaborar com a disseminação de conhecimento sobre o assunto, a Liga Acadêmica de Patologia Oral e Maxilofacial, do curso de Odontologia, da Universidade Federal de Santa Maria listou algumas dúvidas sobre o câncer de boca. 

1. O que é câncer de boca?

O câncer de boca está entre os mais prevalentes no Brasil e no mundo. Pode ser definido como um conjunto de tumores malignos que afetam diversas áreas bucais, como lábio, língua, gengiva, bochecha, assoalho da boca, palato duro, dentre outras. A língua e o lábio inferior são as regiões mais acometidas, e o carcinoma de células escamosas (CCE) é o tipo de tumor mais frequente, correspondendo a cerca de 95% dos casos. 

É uma doença agressiva com uma taxa de sobrevivência de apenas 50% ao longo de 5 anos. As pessoas que sobrevivem apresentam sequelas severas do tratamento, que limitam ou comprometem as atividades profissionais, sociais e também familiares.

2. Quais são os principais fatores que podem levar a pessoa a ter câncer de boca?

O câncer bucal é uma doença potencialmente fatal que pode afetar pessoas de todas as idades, inclusive jovens, ainda que seja mais comum em homens tabagistas acima de 40 anos. Além do fumo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode aumentar as chances de desenvolver o câncer. Por outro lado, as lesões pré-câncer (lesões com potencial de malignidade), são mais comuns em mulheres que não fumam e não bebem.

Somado a isso, outros fatores podem levar ao desdobramento da doença, como a exposição solar sem proteção, que é o principal fator de risco para o desenvolvimento de câncer de lábio, assim como a alimentação pobre em frutas, legumes e verduras. A infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV) pode também estar relacionada à ocorrência desse câncer.

3. Quais os principais sinais de alerta para o câncer de boca?

  • Feridas nos lábios e na boca que não cicatrizam por mais de 15 dias; 
  • Manchas ou placas vermelhas ou esbranquiçadas na boca; 
  • Sangramentos sem causa conhecida em qualquer região da boca; 
  • Nódulos (caroços) no pescoço;
  • Rouquidão persistente;
  • Em fases mais avançadas da doença, a pessoa pode apresentar dificuldade para falar, mastigar ou engolir.

No entanto, apenas esses sinais podem não se confirmar como câncer de boca e precisam ser investigados por um profissional de saúde.

4. Trauma causa câncer de boca?

As evidências científicas disponíveis não comprovam o trauma crônico como uma possível causa de câncer, como o potencial trauma que é gerado pelo chimarrão, por exemplo. No entanto, alguns estudos indicam que traumas crônicos causados por prótese dentária mal adaptada e a má higiene da cavidade bucal ou da prótese podem ser fatores de lesões de câncer na boca pela recorrência.

5. Como descobrir o câncer de boca?

Por meio do exame clínico da boca, realizado por dentista ou médico, em qualquer unidade de saúde. O exame bucal é um procedimento simples de observação que não requer instrumentos especiais, podendo ser feito nas consultas odontológicas ou médicas. Com esse exame é possível visualizar lesões suspeitas e diagnosticar o câncer de boca ainda no início.

6. O que fazer para diminuir o risco do câncer de boca?

  • Não fumar; 
  • Evitar o consumo de bebidas alcoólicas; 
  • Ter uma alimentação rica em frutas, verduras e legumes; 
  • Usar preservativo (camisinha), inclusive durante a prática do sexo oral;
  • Cuidar da higiene oral.

Lembre-se, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para quem deseja parar de fumar.

7. Como é feito o tratamento?

Na grande maioria das vezes é cirúrgico, tanto para lesões menores, com cirurgias mais simples, como para tumores maiores. O cirurgião de Cabeça e Pescoço é o profissional que vai avaliar o estágio da doença. Essa avaliação, associada a exames complementares, determinará o tratamento mais indicado. 

A cirurgia normalmente consiste na retirada da área afetada pelo tumor associada à remoção dos linfonodos do pescoço e algum tipo de reconstrução quando necessário. Nas lesões mais simples, muitas vezes é necessário apenas a retirada da lesão.

Nos casos mais complexos, além do tratamento cirúrgico, é necessária a realização de radioterapia para complementar o tratamento e obter melhor resultado curativo. A radioterapia e a quimioterapia são indicadas, também, quando a cirurgia não é possível ou quando o tratamento cirúrgico pode trazer sequelas funcionais importantes e complicadas para a reabilitação funcional e a qualidade de vida do paciente. 

Em todas as etapas do tratamento é importante o aspecto interdisciplinar (com a participação de vários profissionais de saúde) visando prevenir complicações e sequelas.

8. Tem cura e risco de morrer?

O câncer de boca tem cura, principalmente se diagnosticado e tratado nas fases iniciais. No entanto, se o diagnóstico e o tratamento são feitos quando a situação está avançada, aumenta a chance de se disseminar para outras regiões e, consequentemente, cresce o risco de morte e a qualidade de vida pode ser comprometida.

O problema é que, em estágio inicial, a lesão pode passar despercebida, uma vez que costuma ser assintomática. Os sintomas só são experimentados quando os pacientes estão em estágios avançados, quando já há comprometimento de outras estruturas. 

A falta de conhecimento acerca da existência da doença e a dificuldade dos profissionais em identificar lesões resulta em atraso para referenciar os pacientes a realizarem diagnósticos e tratamentos, consequentemente, isso faz com que as taxas de mortalidade sejam altas no Brasil. Conforme o INCA, o país apresenta a maior taxa de incidência da América do Sul, de 3,6 casos por 100 mil habitantes, e a segunda maior taxa de mortalidade, de 1,5 morte por 100 mil habitantes.

9. O que objetiva o Projeto Maio Vermelho?

A ideia de ampliar as ações de prevenção ao câncer bucal resultou na criação do Maio Vermelho, que surgiu nas reuniões do Comitê das Entidades de Classe do RS (CECO/RS), em 2011. Na ocasião, representantes da odontologia gaúcha trabalharam em conjunto para dar forma ao projeto e, anualmente, seguem atuando para alcançar os objetivos traçados, que incluem:

  • Complementar e ampliar a formação de profissionais de saúde acerca de doenças que se manifestam na boca, com foco principal nas lesões malignas ou com potencial de malignização, assim como seus fatores de risco;
  • Unir os profissionais da saúde na campanha de prevenção ao câncer bucal para que seja contínua e reconhecida por informar e orientar a população através de diferentes meios de comunicação;
  • Oferecer oportunidade de exame clínico profissional para a população, tanto em campanhas específicas quanto nas unidades de saúde da rede pública e outros locais de assistência, para que os pacientes com necessidades sejam identificados e encaminhados aos serviços especializados para diagnóstico definitivo e tratamento;
  • Promover a saúde bucal da população, alcançando os 497 municípios do Rio Grande do Sul, com extensão para outros estados.

10. O que significa a logo do projeto?

A flor da boca, símbolo da luta contra o câncer bucal, foi inspirada na peça “O homem com a flor na boca!” do dramaturgo italiano Luigi Pirandello. Nesta obra, um homem recebe a flor da morte sobre os lábios como símbolo do câncer, propondo uma reflexão sobre o sentido da vida. A flor, usada sobre o peito, busca sensibilizar a todos para a importância dessa luta. A gérbera, flor escolhida pelo Projeto, representa a positividade e a beleza da vida.

Expediente:
Texto: Gabriela da Luz Machado e Gabriela Bernardon Peixoto Silva
Edição de Produção: Laurent Keller
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/comunicacao-do-diagnostico-e-estrategia-para-a-adesao-ao-tratamento-de-hiv Mon, 16 Jan 2023 18:06:19 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9612

Discriminação, preconceitos e desigualdades sociais permeiam a realidade daqueles que vivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV). Embora a medicina e a ciência tenham evoluído desde a década de 1980 – que marca o início da epidemia -, pessoas soropositivas ainda são afetadas pelos estigmas relacionados ao HIV. “O medo do estigma desencoraja o indivíduo a revelar sua sorologia, o que fragiliza sua rede de apoio e prejudica sua capacidade e vontade de aderir ao tratamento”, relata a professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEnf) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cristiane Cardoso de Paula.

 

O HIV é um vírus sem cura, que ataca o sistema imunológico e deixa o organismo sem células de defesa (CD4) no combate a doenças. Entretanto, com o tratamento, é possível controlar a taxa de replicação viral, diminuir os sintomas e complicações da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) causada pela infecção e, assim, melhorar a qualidade de vida. Conforme o Ministério da Saúde, 95% do total de pacientes em tratamento antirretroviral no país já não transmitem o HIV por via sexual, por terem atingido a carga viral suprimida. Em outras palavras, os medicamentos impedem a multiplicação do vírus, e a quantidade deste no sangue torna-se tão baixa que não é detectável/transmissível.

Apesar da comprovação da eficácia do tratamento, a não adesão ainda é um dos maiores desafios da rede de atenção à saúde. Dados da Política Municipal de HIV/AIDS, Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) e Hepatites Virais revelaram que somente em Santa Maria, das 2,5 mil pessoas que vivem com o vírus, cerca de 800 abandonaram o tratamento.

 

A não adesão à terapia antirretroviral está atrelada a diversos fatores, como o uso prolongado da medicação, os efeitos colaterais e os estigmas sociais que ela acompanha. Cristiane explica que a adesão pode ser influenciada negativamente por situações cotidianas que geram o medo da revelação do diagnóstico e da exposição à discriminação da comunidade, por exemplo, ao acessar o serviço de saúde mais próximo de seu domicílio. “Tudo isso mostra a complexidade da adesão, ou seja, o desafio que precisa ser compartilhado entre a pessoa que vive com HIV, a equipe de saúde e a rede de apoio para que o tratamento possa ser mantido a longo prazo”, afirma a docente.

Comunicar em tempo oportuno

Ao mesmo tempo em que é desafiadora, a comunicação adequada do diagnóstico do HIV pode favorecer a aceitação do tratamento e servir como uma ferramenta para o fortalecimento do vínculo com a equipe de saúde. A maior incidência dos casos de infecção encontra-se na faixa etária de 25 a 29 anos. Conforme o estudo publicado por pesquisadoras do PPGEnf e do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), em 2021, a prevalência da infecção em adultos jovens aponta a juvenização da epidemia e se soma ao quantitativo de crianças e adolescentes na categoria de transmissão vertical (que ocorre quando a criança é infectada por alguma IST durante a gestação, o trabalho de parto ou a amamentação). 

 

Em algum momento da vida, esses indivíduos experienciam a comunicação de seu diagnóstico e, independente da categoria de exposição e da idade, isso repercute no seu cotidiano. A não-comunicação ou comunicação inadequada, no caso de jovens, afeta o início da vida sexual, a adesão ao tratamento, a motivação para o autocuidado e a contenção da doença. Já para as crianças, não revelar o diagnóstico com a intenção de protegê-la também desencadeia resultados negativos a longo prazo. 

 

A pesquisa, de caráter qualitativo, foi conduzida com dez participantes da região Sul do Brasil, com idade entre 15 e 24 anos, e procurou identificar os elementos do processo comunicativo do diagnóstico de infecção pelo HIV na vivência de cada um dos jovens. Os participantes relataram que a descoberta do diagnóstico aconteceu por meio de conversa entre médicos e familiares, de forma processual, em um momento específico na gestação ou parto ou aconteceu de forma indireta (por meio de documentos, exames, internações hospitalares, morte dos pais biológicos por AIDS, entre outros). 

 

Um/a dos participantes identificado/a como (J3) relata que descobriu a soropositividade aos 10 anos de idade, com o falecimento da mãe por AIDS e, consequentemente, a descoberta do falecimento do pai pelo mesmo motivo. “Diziam que eu tinha que tomar (os medicamentos), que eu tinha que tomar, só. Eu perguntava por que e me diziam ‘um dia tu vai saber’”, relata.

 

Na perspectiva da pesquisadora, comunicar em tempo oportuno, ou seja, ainda na infância, visa garantir o direito da criança de conhecer seu diagnóstico, mas também evita que ela descubra sozinha ou por terceiros e tenha reações negativas: “Descobrir sozinha [que tem o vírus] pode gerar dúvidas do motivo de não lhe contar por falta de confiança e, muitas vezes, a criança reproduz o silêncio da família. Assim, mesmo sabendo seu diagnóstico, não tem com quem esclarecer suas dúvidas e medos”, afirma Cristiane.

 

Desse modo, os profissionais de saúde, em conjunto com a família, se deparam com a tarefa de comunicar a notícia adequadamente, de maneira humanizada, com respeito e clareza. Os resultados da pesquisa “Comunicação do diagnóstico de infecção pelo HIV” concluem que a comunicação deve ser individualizada, ou seja, desenvolvida em um processo adaptado para a capacidade de entendimento de cada pessoa, o que inclui o nível de compreensão, estágio de desenvolvimento e contexto social e familiar. Além disso, é preciso levar em conta que a comunicação não é um evento isolado, mas um processo em constante desenvolvimento, que pode ocorrer com pessoas e profissionais diferentes, ao longo de várias conversas, ambientes e situações. 

 

A mesma pessoa (J3) citada anteriormente, relatou que a descoberta tardia gerou sentimentos negativos: “Quando eu descobri, eu me isolei. Com o tempo, eu fui me abrindo, tinha dias (em) que eu me abalava e ficava meio depressivo, daí eu pensava em parar de tomar os remédios.” De forma diferente, o/a participante (J6) teve uma experiência de revelação mais gradual e processual: “Eu fiquei triste, sabe, quando contaram o diagnóstico do HIV. Para mim, era uma novidade. Eu não acreditei, não gostei. Eu continuei tomando meus remédios normal. Eu entendi que pra ser saudável e viver bem, eu precisava tomar esses remédios”. 

 

Para passar orientações confiáveis e facilitar a compreensão da infecção, os familiares e profissionais podem utilizar vídeos, brinquedos, desenhos, livros, folhetos, analogias e até mesmo ferramentas de informática, como redes sociais e sites. Durante o processo, devem-se abordar assuntos referentes à transmissão do HIV, ao uso de medicamentos, ao acompanhamento no serviço e à rotina de exames laboratoriais. Nessa etapa, é necessário enfatizar que a terapia está em constante avanço e já progrediu quanto à quantidade (menos comprimidos) e à qualidade (gosto e tamanho dos comprimidos), e que os efeitos colaterais costumam passar com o tempo. 

 

Outra estratégia a ser utilizada é colocar o indivíduo em contato com demais pessoas soropositivas, com o objetivo de encorajar, gerar acolhimento, apoio e orientação por meio da representação social. Assim, transforma-se a visão que se tem da condição, ao eliminar os estigmas que levam a crenças como a da “morte precoce”, da impossibilidade de se relacionar, de ter filhos e de ter uma vida longa e saudável. 

 

Em síntese, a última etapa do processo de comunicação do diagnóstico é permanente e consiste na constante avaliação da compreensão das informações pelo indivíduo. É recomendado que a rede de apoio acompanhe a repercussão e os efeitos decorrentes da transmissão de informações.

Linhas de cuidado

A complexidade da atenção às pessoas com HIV exige ação multidisciplinar da equipe de saúde de forma articulada e integrada, demonstra outro estudo conduzido por integrantes do PPGEnf. É necessária a descentralização das ações e a integração entre o Serviço Especializado (SE) e os serviços de Atenção Primária à Saúde (APS). O objetivo, além de que os APS sejam reconhecidos como fonte de primeiro contato, é que pessoas que vivem com o vírus sejam transferidas aos especialistas sem que deixem de comparecer aos serviços de atenção primária para acompanhamento de sua condição crônica e para a promoção da sua saúde.

 

De acordo com a investigação, a comunicação entre os serviços ainda precisa melhorar para que a linha de cuidado se efetive. Este é um desafio no Sistema Único de Saúde (SUS), em especial no atendimento às pessoas vivendo com HIV – que historicamente foram atendidas nos SE -, para os profissionais que precisam estar capacitados para este atendimento compartilhado e para as pessoas que precisam compreender a importância desse acesso aos serviços de APS. Para que isso seja possível, a integração entre os serviços precisa ser estabelecida por meio de um fluxo de usuários no sistema, o que permite que os cuidados às pessoas com HIV sejam partilhados em um sistema de redes de atenção à saúde. 

 

O SUS oferece acesso a diversas estratégias gratuitas de combate ao HIV, como a educação sexual, as campanhas de prevenção e conscientização, a testagem, a profilaxia pós-exposição, a profilaxia pré-exposição e os tratamentos e cuidados contínuos.

“Revelar” e “Via Láctea”: tecnologias educativas

Desde 1998, o Grupo de Pesquisa Cuidado à Saúde das Pessoas, Famílias e Sociedade (GP-PEFAS) tem desenvolvido projetos para responder às demandas da sociedade e estuda o HIV por meio de três linhas de pesquisa: cuidado às pessoas vivendo com HIV e suas famílias; adesão ao tratamento antirretroviral do HIV e sífilis; e comunicação do diagnóstico de HIV para as crianças. Nessas linhas, um dos projetos sob coordenação da professora Cristiane é intitulado “Tradução de conhecimentos na produção de tecnologias educativas promotoras de cuidado de crianças em risco de exposição ao HIV”. Uma dessas tecnologias é o website informativo “Revelar”, que tem como público-alvo os profissionais de saúde e o objetivo é ajudá-los no acompanhamento do processo comunicativo do diagnóstico de HIV. “Para apoiar os familiares na revelação do diagnóstico, os profissionais necessitam de ferramentas de acompanhamento desse processo comunicativo”, esclarece Cristiane.


Além disso, há também a tese da doutoranda Marília Alessandra Bick, que visa produzir a tecnologia educativa no formato de website informativo, o “Via Láctea: o caminho para segurança alimentar e nutricional de crianças menores de 6 meses não amamentadas”.

 

Capa do website

Conforme a autora, o website consiste numa tecnologia cuidativo-educacional com conteúdo escrito e imagético baseado em evidências científicas, traduzido para o público-alvo que são familiares de crianças vivendo com HIV. “O objetivo desse produto é contribuir com o fornecimento de orientações adequadas para famílias de crianças menores de seis meses que não são amamentadas”, explica Marília.

Print do questionário do website

A justificativa para o desenvolvimento do site é decorrente de que as crianças nascidas de mulheres que vivem com HIV não devem ser amamentadas, pois este é um dos cuidados para prevenir a transmissão do vírus para o bebê. Receber alimentação láctea (fórmula láctea ou leite de vaca líquido ou em pó) pode gerar insegurança alimentar, logo, é fundamental garantir que a criança receba os nutrientes que precisa e que o preparo e a oferta do leite ou da fórmula sejam realizados com os cuidados de higiene necessários, para evitar riscos de adoecimento na infância. 

 

O site é hospedado em página institucional da UFSM e já está disponível para acesso. A tese será defendida no dia 24 de janeiro.

Expediente:

Reportagem: Jéssica Medeiros, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/vai-acontecer-uma-nova-onda-de-covid-19 Thu, 05 Jan 2023 19:50:21 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9582 Desde abril de 2022, a flexibilização das medidas adotadas contra a propagação da  Covid-19, como o uso de máscaras ter deixado de ser obrigatório, começou a valer em todos os estados brasileiros. No entanto, em dezembro, os casos voltaram a aumentar e a subvariante da Ômicron gera preocupação sobre uma nova onda da pandemia. 

Dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa até o dia 4 de janeiro de 2023 mostram que o país mantém uma média móvel de registros de 21 mil casos diários de Covid-19 e 120 mortes por dia.

 

Em novembro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia classificado a cepa Ômicron do coronavírus como uma “variante de preocupação”, por ter muitas mutações que podem conferir vantagens ao vírus. 

 

Ela deu origem a diversas subvariantes. As mais recentes são a BE.9 e a BQ.1, e esta última apresentou uma rápida disseminação pelo país. 

 

Subvariante BQ.1 

 

A BQ.1 apresenta mutações na proteína spike. Ela fica localizada na superfície do vírus da Covid-19 e permite que ele se ligue à célula e a infecte. Por isso, a subvariante pode contribuir para o aumento da transmissibilidade e na capacidade de infecção pelo coronavírus.

Conforme o professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e médico epidemiologista da Vigilância em Saúde do município de Santa Maria, Marcos Antônio de Oliveira Lobato, essas mutações escapam à nossa imunidade natural e vacinal. “O surgimento de novas variantes e subvariantes era esperado e, no futuro, vão aparecer outras com uma capacidade ainda maior de escapar das vacinas, a gente só não sabe quando isso vai acontecer”, destaca o professor. 

 

De acordo com a OMS, até o momento a BQ.1 já foi identificada em mais de 60 países, incluindo o Brasil, e pode se tornar prevalente. Em Santa Maria, foram registrados três casos até dezembro de 2022. 

Porém, Lobato afirma que certamente existem mais casos da variante no município. No entanto, para detectá-la, é necessário realizar o sequenciamento completo do genoma do vírus, o que exige um exame caro e demorado. Além disso, a flexibilização de medidas de prevenção pode potencializar o surgimento de uma nova onda da doença no país. 

“É muito provável que chegue uma nova onda por causa dessa nova subvariante. Os dados não são suficientes para entendermos como ela vai ser, mas provavelmente será um pouco menos intensa do que a do final de 2021 e início de 2022, quando tivemos muitos casos notificados e poucos óbitos e internações”, explica o epidemiologista. 

 

As restrições podem voltar? 

Segundo o professor, algumas restrições podem voltar a ser adotadas, como o uso de máscaras em ambientes fechados e no transporte público, além de que a população deveria evitar aglomerações. No entanto, medidas seguidas em 2020, como o isolamento social e a redução da circulação de pessoas dificilmente vão voltar a acontecer. Isso só ocorreria caso surjam novas variantes que as vacinas não consigam cobrir. 

“Crescendo o número de casos, temos que contê-los, porque o prejuízo social é muito grande. Existe sim a possibilidade de voltarmos à calamidade pública e à superlotação do sistema de saúde. Já passamos por isso, então vamos evitar que aconteça novamente”, pontua Lobato. 

 

Cuidados e prevenção

As subvariantes da ômicron “escapam” com mais facilidade dos anticorpos gerados tanto pelas vacinas quanto por infecções anteriores. No entanto, as vacinas atuais ajudam a reduzir o risco de infecção grave.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial de duas vacinas bivalentes da Pfizer desenvolvidas especificamente para proteger contra a variante. Essas vacinas são capazes de imunizar contra mais de uma versão de um vírus de uma só vez.

O objetivo do reforço é expandir a resposta imune específica à ômicron e melhorar a proteção da população. Esses imunizantes devem chegar em breve ao país, mas a data ainda não foi divulgada. 

Conforme Lobato, a melhor forma de evitar complicações da doenças e novas ondas é a vacinação. O professor destaca que é preciso ter uma parte expressiva da população com o esquema vacinal completo (duas doses e uma de reforço). “A curto prazo não temos perspectiva do fim da pandemia, pois se o que estamos fazendo não muda, como podemos esperar resultados diferentes? Se as pessoas deixarem de se vacinar vai voltar o caos dos outros anos”, afirma. 

 

Veredito final: É possivel!

Sim, é possível ter uma nova onda da pandemia do coronavírus.

 

Expediente:

Reportagem: Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/4-estudos-de-vacinas-que-sao-testadas-na-ufsm Mon, 17 Oct 2022 13:53:54 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9513

Em 2020, quando o mundo esperava uma vacina contra o novo coronavírus, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) teve papel importante para encurtar a distância entre os estudos e a aplicação: foi um dos seis centros de pesquisa escolhidos para os testes do imunizante fabricado pelo laboratório AstraZeneca, do Reino Unido. Essa atuação só foi possível graças a uma  estrutura criada em 2010: a Unidade de Pesquisa Clínica (UPC), ligada ao Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM).

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida em tons de roxo, com quatro frascos de vacina no centro inferior. Eles estão em destaque em contra-ploungée, enfileirados. O frasco é rosa claro, o rótulo é roxo em tom orquídea e a tampa é roxa. Nos rótulos, da esquerda para a direita, as palavras "covid", "VSR", "covid" e "dengue". Atrás dos frascos, em azul marinho e verde marinho, círculo de destaque com detalhes em zigue-zague. O fundo é uma estampa de ilustrações do vírus da covid, vsr e dengue em tom lilás sobre fundo roxo escuro.

No início, o desafio da  UPC era estruturar equipe e trabalho para a pesquisa clínica, explica Alexandre Schwarzbold, coordenador do centro. “São pesquisas em que se testam medicamentos, métodos, diagnósticos, vacinas e insumos em pessoas. E tem todo um regramento nacional e internacional para fazer isso, o que demanda uma estrutura física, de pessoas e de materiais para poder executar”. 

 

As primeiras pesquisas investigaram medicamentos antifúngicos, testados em pacientes voluntários que, internados no HUSM, sofriam com doenças fúngicas graves. Quando começou o trabalho de testagem da vacina contra a Covid-19, a UPC teve mais destaque e reconhecimento. Nesta reportagem, a Arco lista quatro vacinas que atualmente são testadas por pesquisadores da UFSM. Confira:

1 - Vacina contra Covid-19: Oxford/Astrazeneca

No outono de 2020, Alexandre contatou pesquisadores brasileiros e do exterior na tentativa de trazer vacinas para testes no Brasil. Alguns desses cientistas eram da Universidade de Oxford, instituição britânica que já tinha um imunizante em fases mais avançadas de desenvolvimento e que utilizavam tecnologias estudadas há mais de uma década. Em setembro de 2020, o docente recebeu a confirmação de que a UFSM sediaria os testes dessa vacina, ao lado do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e de três centros privados localizados em Natal (RN), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA).

 

“Formamos uma equipe de seis pesquisadores clínicos ligados a instituições públicas e privadas, e nos comprometemos com a meta de vacinar mais de 10 mil pessoas em um mês. Isso é inédito na história da pesquisa clínica mundial”, afirma Alexandre. O docente expõe que o grande número de voluntários em um período de tempo curto foi facilitado pela emergência sanitária e possibilitou uma análise rápida dos resultados. A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica Astrazeneca foi a primeira a publicar resultados de eficácia da fase 3 em revistas científicas.

 

Na UFSM, 1,1 mil voluntários participaram da vacinação. O estudo ainda está em desenvolvimento, com voluntários que receberam a quarta dose para avaliação da imunogenicidade — a capacidade de uma vacina ou medicamento provocar uma resposta imune por meio da indução de anticorpos. O objetivo é avaliar o efeito da segunda dose de reforço em populações mais jovens. 

 

Três mulheres participantes do estudo engravidaram durante o período. Isso permitiu que a equipe acompanhasse os efeitos da vacina em gestantes, tanto a segurança do imunizante quanto a produção de anticorpos nos bebês por meio da gestação. De acordo com Alexandre, a pesquisa está em fase final e tem previsão de duração de mais seis meses, com término em 2023.

2 - Vacina contra Covid-19: Clover

Um ano depois do início dos estudos da vacina de Oxford, outro imunizante começou a ser testado na Unidade de Pesquisa Clínica da UFSM: a vacina desenvolvida pela farmacêutica Clover Biopharmaceuticals, de origem sino-australiana. O estudo, que aplicou vacinas em 800 voluntários, ainda está em andamento, na fase de visitas de acompanhamentos. “Já foi analisada a segurança, a eficácia, a publicação e a recomendação de uso delas para as pessoas e para o mundo”, diz Alexandre. O pesquisador aponta que, apesar de os resultados da eficácia serem bons – no Brasil foi de 90% – a vacina ainda não está disponível para a população, devido aos prazos regulatórios de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os estudos da vacina da Clover devem encerrar em 2023.

 

“Foi a que teve menos sintoma de reação, ela é muito pouco reatogênica e, por isso, é uma boa alternativa para crianças”, destaca Alexandre.

3 - Vacina contra Vírus Sincicial Respiratório (VSR)

Antes de a pandemia eclodir, no final de 2019, a UPC havia iniciado uma parceria com a farmacêutica britânica GlaxoSmithKline (GSK) para testar uma vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (RSV, na sigla em inglês). Esse vírus é o principal causador de bronquiolites e pneumonias em bebês e crianças de até dois anos. Alexandre destaca que a condição causa muito desconforto e pode evoluir para asma ou complicações de infecções respiratórias. Interrompidos durante o auge da pandemia, os testes foram retomados em 2022. “É um estudo específico de uma vacina para gestantes, em que a gente vacinava as mães com o intuito de proteger os bebês”, explica Alexandre.  


Ainda não há uma vacina contra o RSV no mundo, mas, de acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o medicamento palivizumabe para casos mais graves. Ao lado da UFSM, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o campus Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) também participam da pesquisa no Brasil. Em Santa Maria, foram 40 voluntárias vacinadas, que incluíram tanto casos de gravidez de risco quanto de gravidez sem complicações. O estudo está em fase de análise, a ser submetido a publicação internacional no próximo mês.

4 - Vacina contra a Dengue

Prevalente no território brasileiro, a dengue é, uma doença infecciosa febril aguda contra a qual ainda não existem vacinas. Somente em 2022, 831 pessoas morreram de dengue no Brasil, o terceiro pior ano da série histórica do Ministério da Saúde. 

 

Alexandre informa que oito centros gaúchos vão receber os estudos de uma vacina contra a dengue desenvolvida em uma parceria do Instituto Butantan com a farmacêutica alemã Merck KGaA. “Tem uma dimensão regional: o Rio Grande do Sul era um dos poucos estados em que a soropositividade de dengue, ou seja, pessoas que já tiveram contato, ainda é muito baixa. E a soronegatividade é alta, portanto é o melhor lugar para vacinar para a prevenção”, ilustra. Dessa forma, por meio dos testes em pessoas que nunca tiveram dengue, é possível avaliar a eficácia da vacina em prevenir o desenvolvimento e a aquisição da doença.

 

A previsão é de que os testes da vacina comecem em janeiro de 2023, com estimativa de 80 a 100 pessoas voluntárias em Santa Maria, com foco principalmente em pessoas jovens e militares. 

Para saber mais sobre o processo de pesquisas para a criação de vacinas, leia esta reportagem.

Expediente:

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Julia Coutinho, acadêmica de Desenho Industrial e voluntária;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista;

Editor convidado: Luis Felipe Santos, jornalista.

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/consumo-de-bebida-alcoolica-aumentou-durante-a-pandemia Thu, 29 Sep 2022 14:44:28 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9500

O período de isolamento social, que ocorreu principalmente em 2020 e 2021, levou as pessoas a aumentarem o consumo de álcool. Essa é a conclusão de um estudo realizado pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) na América Latina e Caribe, no qual cerca de 30% das pessoas entrevistadas são brasileiras. Vitor Calegaro é docente no Departamento de Neuropsiquiatria e médico psiquiatra da Coordenadoria de Ações Educacionais (CAED) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e afirma, em análise de estudos sobre a temática que, no caso brasileiro, houve aumento do consumo de álcool, principalmente em homens e, em seguida, um discreto aumento entre o público feminino. 

Fatores importantes para o maior consumo, de acordo com o docente, são o isolamento e a tentativa de fuga do sentimento de solidão e transtornos como depressão e ansiedade. “Houve aumento do consumo de álcool segundo a localidade estudada, além de variar conforme a faixa etária. Mas há poucas evidências para comprovar transtornos relacionados, como o alcoolismo, ao seu consumo ou seu uso de maneira abusiva”, descreve Vitor.

Descrição da imagem: Fotografia horizontal e em tons de sombras, com a silhueta, de perfil e em primeiro plano, de um homem que segura um copo inclinado em direção à boca. O perfil do homem tem cabelos ralos, nariz e boca pequenos e usa óculos. O copo é pequeno e com boca larga, e o líquido no seu interior é amarelado. O fundo é acinzentado.

Desenvolvido desde o ano de 2020, o estudo Covid-Psiq foi coordenado por Vitor Calegaro e tem como objetivo acompanhar sintomas como estresse, depressão, estresse pós-traumático e práticas como o consumo de álcool em brasileiros durante a pandemia de Covid-19. Em estágio de análises e publicações, o estudo terá mais uma fase neste ano, a fim de ampliar a pesquisa e entender como esses sintomas se manifestaram nos participantes a partir de 2021, ano em que se deu o pior momento da pandemia. A nova etapa já foi aprovada pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Os dados e resultados que serão destacados nesta reportagem são referentes ao recorte do ano de 2020 e de janeiro e fevereiro de 2021. Vitor alerta que esses dados não podem ser considerados como representantes do período total da pandemia, mas que dão indícios importantes sobre os efeitos dela na saúde mental das pessoas.

Consumo recreativo, abuso e vício

“O uso recreativo é esporádico e mais social”, destaca Vitor. Nesse tipo, o indivíduo não sente necessidade de beber no dia seguinte e não tem sintomas de abstinência. “O uso recreativo, naturalmente, é a porta de entrada para o abuso, mas a maior parte das pessoas que fazem uso não chegam ao ponto de abuso ou de entrar em grau de abstinência”, salienta o docente. De acordo com o Panorama Álcool e Saúde dos Brasileiros de 2022, desenvolvido pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), a socialização é o motivador mais comum para o consumo de bebidas alcoólicas. O consumo de álcool é estimulado pela publicidade, mesmo que hoje ela seja regulamentada, com a necessidade de inserção de avisos como os do tipo ‘Se beber, não dirija’.

“O alcoolismo é um termo genérico que engloba os comportamentos desadaptativos relacionados ao consumo do álcool, mas, se formos mais específicos, há o uso nocivo e/ou abusivo, e há a dependência”, explica Vitor. O primeiro diz respeito às pessoas que, quando bebem, não conseguem controlar a quantidade e têm comportamentos impulsivos e ausência de autocontrole. Já a dependência tem critérios mais definidos, como a síndrome da abstinência e o desenvolvimento de tolerância. “Normalmente, a dependência vai se estabelecer quando a frequência se torna muito intensa: bebe todos os dias, ou então fuma, tanto cigarro quanto outras substâncias, como cocaína”, esclarece. A abstinência é quando a pessoa não consegue viver ‘normalmente’ sem a substância. Sintomas de abstinência do álcool contemplam a sudorese, insônia, tremedeira, ansiedade, alterações de humor, irritabilidade e depressão. E a tolerância é definida pela quantidade do consumo, que precisa ser cada vez maior para ter o mesmo efeito. “O organismo vai se adaptando e vai metabolizando mais rápido às custas de comprometer o fígado, de ter uma lesão hepática”, alerta Vitor. Cada substância terá sintomas de abstinência e graus de dependência diferentes.

Resultados

Em entrevista à Arco, o psiquiatra Vitor Calegaro e o estudante de Medicina da UFSM Caio Domingues apresentaram resultados preliminares da pesquisa Covid-Psiq e destacaram dados sobre a relação entre a pandemia e o consumo de álcool. Confira a seguir:

Linha de frente

O grupo de profissionais da saúde que trabalhou na linha de frente da Covid-19 teve um consumo de álcool maior do que os profissionais que  não atuaram. “Um dado interessante que representa o estresse desses profissionais é o álcool como uma tentativa de automedicação. Isso é muito comum”, destaca Vitor.

Desemprego

O consumo de bebidas alcoólicas também aumentou no público de pessoas que, no início da pandemia, não estavam desempregadas, mas perderam o emprego durante o período de isolamento.

Saúde mental

Na primeira etapa da pesquisa, feita em abril de 2020, pessoas com depressão extremamente grave foram o grupo que mais consumiu álcool. Na quarta etapa, que aconteceu em fevereiro de 2021, esse aumento também se deu em pessoas com depressão grave ou extremamente grave. Porém, em quem tinha depressão leve, houve diminuição de uso. Indivíduos com ansiedade extremamente grave e pessoas que sofreram estresses extremamente graves também tiveram aumento significativo. 

“Evidenciamos que há uma relação com os sintomas de saúde mental e o consumo de álcool, particularmente falando da gravidade e da quantidade desse consumo”, aponta Vitor. O psiquiatra indica que o consumo de substâncias pode desencadear depressão e outros transtornos mentais, mas que o contrário também acontece. Muitas vezes, o consumo de substâncias é usado na tentativa de automedicação e alívio dos sintomas da doença. “Vale lembrar que a depressão é a principal causa do suicídio, e a segunda é o consumo de substâncias – principalmente o álcool. Muitas vezes, os dois acontecem juntos e essa é uma combinação de risco para a tentativa de suicídio”, alerta.

Outros dados

Além dos dados destacados acima, pessoas do sexo masculino tiveram maior aumento do consumo de álcool. Pessoas do sexo feminino também tiveram aumento, mas menor do que em relação ao masculino.

Como saber se você precisa de ajuda

Vitor e Caio destacam que uma forma de saber se há comportamentos que indicam dependência no consumo de álcool ou outros tipos de substâncias é o questionário CAGE (sigla referente às expressões cut down, annoyed, guilty e eye opened, em inglês):

Questionário C.A.G.E:

C – (cut down)– Alguma vez sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida ou parar de beber?

0 – ( ) não 1 – ( ) sim


A – (annoyed) – As pessoas o(a) aborrecem porque criticam o seu modo de beber?

0 – ( ) não 1 – ( ) sim


G – (guilty) – Se sente culpado(a) pela maneira com que costuma beber?

0 – ( ) não 1 – ( ) sim


E – (eye opened) – Costuma beber pela manhã (ao acordar), para diminuir o nervosismo ou a ressaca?

0 – ( ) não 1 – ( ) sim


Resultado: Se duas ou mais questões foram respondidas afirmativamente, procure um profissional de saúde para conversar sobre seu modo de consumo.

Como procurar ajuda

O ideal é procurar profissionais especialistas em saúde mental, como psicólogos e psiquiatras, que podem indicar tratamentos adequados para a dependência. É possível buscar ajuda nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), instituições de apoio à saúde mental que surgiram em substituição aos hospitais psiquiátricos, antes chamados de hospícios ou manicômios. De acordo com o site do governo federal, são de caráter aberto e comunitário, e atendem pessoas em sofrimento psíquico ou com transtorno mental, o que inclui o abuso de álcool, crack e outros tipos de substâncias. Há CAPS específicos para o tratamento desses tipos de dependências, denominados CAPS-AD (Álcool e Drogas). Em Santa Maria, podem ser encontrados em dois endereços:

CAPS Ad II Caminhos do Sol

Rua Euclides da Cunha, 1695

Fone: (55) 3921-7144 e (55) 3921-7281

CAPS Ad II Cia do Recomeço

Rua General Neto, 579

Fone: (55) 3921-1099 e (55) 9.9129-8326

Expediente:
Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Fotografia: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;
Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Camilly Barros, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Nathália Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;
Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;
Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.
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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/negativa-familiar-e-a-principal-razao-pela-baixa-no-numero-da-doacao-de-orgaos-no-brasil Mon, 26 Sep 2022 14:12:15 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9496

51.674 é o número de pacientes ativos na lista de espera por um órgão no Brasil. Os dados são do Registro Brasileiro de Transplantes, veículo oficial da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e representam aumento de 3.001 pessoas na lista de espera em comparação ao ano passado. Entre janeiro e junho de 2022, registraram-se 1.638 doadores efetivos no Brasil, o que possibilitou 3.677 transplantes de órgãos sólidos, como rim, pulmão e coração. Esse número poderia ser maior, uma vez que a quantidade de potenciais doadores, a nível nacional, chegou a 6.335. Fatores como a contraindicação médica, a parada cardíaca, a morte encefálica não confirmada de pacientes e a recusa familiar são as principais causas para que a doação não ocorra.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida em tons de verde. No centro, há a silhueta de um corpo humano em cor branca, com desenho, em destaque, dos pulmões, coração, fígado e rins. Dos lados do corpo, desenho da cabeça de oito pessoas, sendo quatro de cada lado. De cada um dos órgãos no corpo, sai uma flecha vermelha em direção a uma das pessoas. No lado esquerdo, de cima para baixo: menino de pele parda, olhos pretos, sobrancelhas e cabelos castanhos escuros e ondulados, está ligado ao pulmão esquerdo. Abaixo, homem negro e careca, usa óculos redondo, tem olhos pretos e usa bigode preto, está ligado ao fígado. Abaixo, menina de pele amarela e traços asiáticos, tem cabelos pretos e lisos, sorri e está com os olhos fechados; está ligada ao rim esquerdo. Abaixo, homem de pele branca, cabelos lisos e castanho escuros, barba e sobrancelha arrepiadas, está ligada ao rim esquerdo. Do lado direito, de cima para baixo: menino de pele branca e sobrancelhas e cabelos loiros, tem olhos escuros e está ligado ao pulmão direito. Abaixo, menina negra de olhos escuros e cabelos ondulados e volumosos presos em um coque, está ligada ao coração. Abaixo, mulher de pele parda, olhos escuros e cabelos pretos, ondulados e compridos, está ligada ao rim direito. Abaixo, pessoa de pele branca, careca, com olhos fechados e batom vermelho, está ligado ao fígado. O fundo é um degradê de verde com textura de respingos de tinta.

Janice Cristina Soares, chefe da Unidade de Cuidados Intensivos e Semi-Intensivos Adulto do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) e membro da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) no Husm, explica que, ao se tratar de doação de órgãos no Brasil, não há o que ser feito em casos de negativa familiar. Nem avisos na carteira de identidade, nem registros em cartório validam a doação de órgãos. Cabe aos familiares de primeiro grau ou aos cônjuges decidir. Janice também destaca uma das exigências para a doação de  algum órgão: “A morte clínica do paciente deve ser cerebral, não pode ser de qualquer tipo, pois apenas a cerebral permite um tempo de preservação dos órgãos até serem transplantados”.

Tipos de doadores

No Brasil, além do doador cadáver, há o doador vivo. O último refere-se a qualquer pessoa que concorde com a doação, desde que a sua saúde não seja prejudicada com o ato. Neste caso, é possível doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão. Janice destaca que o CIHDOTT do Husm não foca nesse tipo de doação. Mas, quando há, é comum ocorrer entre familiares, como entre mãe e filho ou entre casais (desde que registrado legalmente).  

 

Além disso, a chefe da Unidade Intensiva do Husm enfatiza que deve existir uma comprovação de vínculo afetivo-familiar e da não existência de vínculo financeiro. Em casos de não parentesco, só é possível com autorização judicial. 

O segundo tipo é o doador cadáver. Esses são pacientes com morte encefálica registrada, geralmente vítimas de traumatismo craniano ou acidente vascular cerebral (AVC).

Quem não pode doar

Em certos casos, a doação não pode ser realizada. Janice destaca que há muitas patologias que impedem a doação: “Quando é identificado um potencial doador e a família aceita a doação, é feita a sorologia da imunodeficiência humana (HIV),  hepatite, toxoplasmose, do vírus HTLV (da mesma família do vírus da imunodeficiência humana que age de forma similar, infectando células T do corpo humano) e outras doenças infectocontagiosas”, destaca. 

 

 

Conforme o Registro Brasileiro de Transplantes (RTB), até junho de 2022, a negativa familiar do paciente equivalia a 44% das não doações de órgãos no Brasil. A contraindicação médica é a segunda razão, com um total de 18%. Caso o paciente morra em decorrência de um ataque cardíaco ou a morte encefálica não possa ser confirmada, a doação também não pode ser realizada. Cada uma das causas anteriores está relacionada a 7% das doações de órgãos não realizadas no país.

1 salva 8

Janice também destaca a campanha ‘1 salva 8’. A proposta da campanha é conscientizar a população sobre a doação de órgãos e informar que um único doador pode salvar até oito vidas.  Para ela, tratando-se de Santa Maria, há, na prática, doação de até três órgãos por paciente, e que esses geralmente são os rins, fígado, coração ou pulmão.  Como apresentado no último Registro Brasileiro de Transplantes, de 2012 até junho de 2022, foram totalizadas 84.190 transplantes de órgãos no Brasil. Destes, 57.838 foram de rim, o que equivale a 68,70%.  O número de transplantes de fígado chegou a 20.476, cerca de 25%, e os de coração atingiram a marca de 3.452, ou seja, 4% dos transplantes realizados.

Doação de órgãos na pandemia

Foi apresentado no Registro Brasileiro de Transplantes de 2021, versão anual, que a taxa de notificação de potenciais doadores por milhão populacional (pmp) chegou a 57,7, e foi a maior já obtida, sendo 5,5% superior ao resultado de 2019 e 14% maior que a de 2020. O contrário ocorreu com a taxa de doadores efetivos que caiu 17% se comparado a de 2019, totalizando 15,1 pmp e 4,5% menor que a de 2020, 15,8 pmp. Ainda de acordo com o Relatório anual de 2021, a responsável pela queda de doações está associada à diminuição de 21% em relação a 2019 e 16% comparado com 2020, da taxa de efetivação da doação (26%). 

 

A queda na taxa de efetivação da doação está associada ao aumento de 60% de contraindicação médica ao ato de doar. “Esse aumento foi devido às medidas tomadas no início da pandemia para evitar a transmissão da Covid-19 pelo transplante, pois o risco de transmissão era desconhecido e poderia ser alto”, conforme o relatório anual de 2021. 

 

Janice relata que, durante a pandemia, o número de transplantes caiu vertiginosamente no Husm. Não havia mais leitos. Além disso,  diminuiu o número de pacientes com as principais doenças e situações que levam as pessoas a ter morte cerebral. “Na época, eu acompanhava as filas, que são os reguladores do Estado e basicamente era só atendimento por consequência da Covid. Não tinha mais trauma de crânio, não tinha mais acidente vascular cerebral, nem outro tipo de emergência com um potencial doador”, destaca a especialista.

Expediente:

Reportagem: Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Camilly Barros, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Nathalia Brum, acadêmica de Jornalismo e estagiária; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb, jornalista.

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/colaboracao-internacional-entre-ufsm-e-espanha-busca-desenvolvimento-em-telessaude%ef%bf%bc Thu, 04 Aug 2022 16:50:32 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9426

Telessaúde é um sistema de prestação de serviços de saúde a distância, realizados com a ajuda das tecnologias da informação e de comunicação (TICs), como ferramentas online e aplicativos móveis. Para Manuel Grandal Martín, especialista na área, a telessaúde faz parte de um processo global de digitalização da vida humana: “Eu tenho aqui no celular meu banco, meus sistemas de informação e atendimentos em saúde. Tudo”. O médico espanhol é professor na Universidade Alfonso X el Sabio, diretor geral dos Hospitais e Infraestruturas do serviço de saúde de Madrid e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ele esteve na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para compartilhar experiências na área e consolidar uma parceria com a Universidade para o desenvolvimento da telessaúde.

Descrição da imagem: fotografia horizontal e colorida de um homem de meia idade em primeiro plano. Ele tem pele branca e enrugada, olhos pequenos e esverdeados, boca pequena, cabelos curtos, ralos e brancos. Ele veste jaqueta verde marinho sobre camisa branca com listras azuis e gravata azul. O fundo é uma parede branca.
Manuel Grandal. Fotografia: Luis Gustavo Santos.

Ivana Beatrice Mânica da Cruz, professora no Centro de Ciências da Saúde e gerente de Ensino e Pesquisa no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), explica que a Universidade está em processo de implementação do Programa Interinstitucional de Ensino, Pesquisa e Assistência em Saúde Digital. A iniciativa prevê a realização de dois projetos integrados: um deles voltado a ações de educação em saúde digital, com a oferta de disciplinas na graduação e na pós-graduação, além de cursos e oficinas para profissionais da área da saúde e gestores. O segundo projeto buscará desenvolvimentos na pesquisa e inovação para a criação de estratégias de telessaúde que podem auxiliar no diagnóstico e no atendimento aos pacientes.

 

A professora destaca que pesquisadores da Universidade e profissionais de saúde do HUSM trabalham juntos na organização do programa. “A UFSM tem um papel relevante na construção de ações que possibilitem a implantação de modelos de telessaúde. Isso porque é um centro de referência regional para a saúde, principalmente devido à formação de profissionais em nível de graduação e pós-graduação”, afirma. Além disso, eles contam com a colaboração de instituições de países que já têm serviços de saúde digital estruturados, como é o caso da Espanha.

Descrição da imagem: Ilustração horizontal e colorida de duas pessoas sentadas em frente a um notebook. A imagem está dividida no meio. Na esquerda, homem de pele parda e cabelo escuro, veste jaleco azul claro e calça azul escuro. Está em frente a um notebook preto. Na parede atrás dele, quadro com diploma e ilustração de um coração humano. Na parte direita da imagem, homem de pele clara e cabelos escuros, está curvado e enrolado em uma coberta azul marinho, veste calça branca com círculos vermelhos. Está em frente a uma xícara e um notebook brancos. Na parede atrás dele, quadro branco com o Batman em preto e estante suspensa com cinco livros em tons de azul, branco, rosa queimado e preto.

A telessaúde se caracteriza como um grande campo que engloba a tecnologia e a saúde a serviço da sociedade. Atividades de assistência, educação, pesquisa, prevenção de doenças, gestão e promoção de saúde estão entre as aplicações. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamenta a telemedicina no país por meio da Resolução nº 2.314/2022. Para o CFM, ao ser exercida com a utilização dos meios tecnológicos e digitais, a medicina deve priorizar o benefício e os melhores resultados ao paciente. Cabe ao médico avaliar se a telemedicina é o método mais adequado de acordo com a situação. A resolução define algumas modalidades em que o atendimento a distância pode ser realizado:

Teleconsulta: Consulta médica não presencial com médico e paciente localizados em diferentes espaços.

Teleconsultoria: Consultoria mediada entre médicos, gestores e outros profissionais, com a finalidade de prestar esclarecimentos sobre procedimentos administrativos e ações de saúde.

Teleinterconsulta: Troca de informações e opiniões entre médicos, com ou sem a presença do paciente, para discussão diagnóstico ou terapêutico, clínico ou cirúrgico. Pode ocorrer, por exemplo, entre um médico de Família e Comunidade e outro especialista sobre determinado problema do paciente.

Telediagnóstico: Emissão de laudo ou parecer de exames, por meio de gráficos, imagens e dados enviados pela internet.

Telecirurgia: Quando o procedimento é feito por um robô, manipulado por um médico que está em outro local. 

Televigilância: Também conhecido como telemonitoramento, é o acompanhamento a distância dos sintomas do paciente. Pode ser por meio de imagens, dados de equipamentos e dispositivos próximos ou implantáveis nos pacientes.

Teletriagem: Realizada por um médico para avaliação dos sintomas do paciente, a distância, para regulação ambulatorial ou hospitalar, com definição e direcionamento do mesmo ao tipo adequado de assistência que necessita ou a um especialista.

Legado da pandemia

Antes da pandemia, as práticas de telemedicina não eram regulamentadas no país. Mas com a necessidade de distanciamento social, o uso de tecnologias interativas se impôs como um recurso alternativo e seguro para proteger pacientes e profissionais. A estratégia também contribuiu para reduzir a sobrecarga de unidades de saúde. Com a implementação desses recursos em caráter emergencial durante o período pandêmico, abriram-se caminhos para a consolidação das tecnologias como aliadas no atendimento em saúde no Brasil.

Benefícios e desafios

A ampliação do acesso a serviços de saúde para a população está entre os principais benefícios observados na área.Grandal destaca o potencial da telessaúde para alcançar lugares de difícil acesso, como áreas rurais que não estão cobertas por redes assistenciais. Além disso, a implementação de serviços assim tende a contribuir para a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Para o médico espanhol, as técnicas de saúde digital ainda estão em processo de desenvolvimento: “Temos que construir, tijolo por tijolo, com cada uma das especialidades. Com cada paciente.  Ainda temos resistências para mudar”, ressalta. Ele também destaca que a prioridade é que os serviços sejam da mesma qualidade que as consultas presenciais.

 

A professora Ivana lembra que a falta de capacitação de estudantes e profissionais sobre o tema, e a popularização de ações de saúde digital junto à população, ainda são desafios para o avanço na área. “É difícil que um programa de telessaúde uniforme e sincronizado seja implementado em todo o Brasil, o que abriria a possibilidade de construções de estratégias mais localizadas e adaptadas a realidades específicas”, comenta.

Expediente:

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista; e Vinícius Bandeira, acadêmico de Desenho Industrial e volun´tário;

Fotografia: Luis Gustavo Santos, acadêmico de Jornalismo;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Saúde – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/quais-os-proximos-passos-da-vacinacao-contra-o-coronavirus Wed, 06 Jul 2022 12:17:55 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9375

Das quatro ondas de infecções às quatro doses de vacina, foram muitos os acontecimentos ocorridos em mais de dois anos de pandemia do coronavírus. Segundo o consórcio de imprensa que reúne dados das secretarias estaduais de saúde, mais de 179 milhões de brasileiros já receberam a primeira dose da vacina; mais de 167 milhões fizeram a segunda ou vacinas de dose única e mais de 100 milhões realizaram a terceira dose – o que, segundo o Plano Nacional de Imunização (PNI), corresponde atualmente ao ciclo básico de imunização contra o coronavírus.

 

As últimas mudanças do Ministério da Saúde em relação ao PNI incluíram a ampliação da terceira dose para adolescentes e da quarta dose para pessoas com idade a partir de 50 anos e uma dose adicional (quinta) para imunodeprimidos. A queda natural da imunidade seis meses após a vacina traz o questionamento sobre qual será o futuro da campanha de imunização.

Descrição da imagem: ilustração horizontal e colorida, em tons de azul e verde, de uma pessoa em uma estrada de terra no meio de uma paisagem. A estrada corta um gramado verde e desemboca no meio de duas montanhas. No meio das montanhas, ilustração de um frasco de vacina e uma seringa sobre uma estrela de doze pontas amarelo pastel. Na frente das montanhas, fileira de árvores do tipo pinheiros em tons de azul marinho e azul acinzentado. Sobre o gramado e ao lado da estrada, há uma placa de madeira em formato de flecha. O fundo é cinza.

Professor do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e um dos cientistas brasileiros que participaram no desenvolvimento da vacina de Oxford, Alexandre Schwarzbold apresenta duas hipóteses: a primeira seria realizar uma campanha de vacinação sazonal antes da chegada do inverno – período com maior incidência de vírus respiratórios, como a gripe (influenza A, B e C). A segunda é que, com a diminuição da circulação do vírus, a vacinação seja direcionada para perfis de risco como pessoas idosas e imunodeprimidas.

 

Ana Paula Seerig, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFSM e Secretária Adjunta de Saúde de Santa Maria, acredita que a campanha de vacinação contra o coronavírus passe a ser realizada no mesmo formato da vacina para gripe. 

 

Apesar de ainda não haver um posicionamento do Ministério da Saúde para a criação de uma campanha anual, mudanças futuras são uma certeza para a secretária. Ela relata que, com tantas alterações no decorrer da campanha, até mesmo os profissionais da saúde ficaram perdidos. “A gente brinca que hoje [a campanha] está assim, mas até de noite ou amanhã pode mudar. Com tantas mudanças, nós que somos profissionais da saúde, que lemos todas as notas e informações, às vezes temos que parar e pensar no que está acontecendo”, destaca.

Pandemia e Endemia

A diminuição do número de óbitos e de novos infectados por meio da vacinação fez com que o termo pós-pandemia se tornasse corriqueiro. Essa nomenclatura gera um debate sobre se o momento vivido atualmente seria uma epidemia, endemia e até se a pandemia realmente ficou no passado.

 

Como Schwarzbold explica, pandemia é uma epidemia – quando uma doença atinge diferentes localidades em nível municipal, estadual e nacional – em escala global. Já a endemia é quando a doença está dentro do seu nível histórico, controlada e sem risco de sobrecarregar o sistema de saúde.

 

O que torna difícil “bater o martelo” sobre a atual situação da Covid-19 é o fato de que o estágio de combate ao vírus muda de forma significativa ao redor do globo. O professor contextualiza que, ao mesmo tempo em que a China apresenta baixos índices epidêmicos por manter sua política de “covid zero”, alguns países africanos seguem com baixa cobertura vacinal e um número elevado de novos casos.

 

O pesquisador analisa que o Brasil, assim como Portugal, Espanha, Itália e outros países europeus, vive uma fase de transição entre pandemia e endemia por conta da sua ampla cobertura vacinal. Schwarzbold explica que, apesar da taxa de transmissão ser baixa em comparação com os momentos mais severos da pandemia, ela continua alta em comparação com outras doenças. “Antes da epidemia, não havia um vírus que se transmitisse tanto entre as pessoas. É preciso um organismo internacional, como a OMS, para dizer que o mundo inteiro está em nível endêmico. Existem alguns indicadores que apontam para uma endemia, mas eles precisam se manter estáveis por muito tempo”, ressalta. 

 

Um exemplo de local com nível endêmico, segundo o pesquisador, seria o município de Santa Maria, onde a Covid-19 não gera sobrecarga no sistema de saúde e também não apresenta taxa de transmissão muito maior do que outros vírus causadores de doenças respiratórias. No entanto, o professor ressalta que a grande circulação viral que se mantém em determinados locais do mundo pode gerar novas variantes capazes de trazer de volta o cenário epidêmico à cidade.

Desigualdade e impactos na saúde pública

Independentemente da nomenclatura – pandemia, epidemia, endemia – o caminho para que o coronavírus fique definitivamente para trás é mais distante do que deveria para algumas pessoas por conta da desigualdade. Segundo dados do site Our World In Data, ligado à Universidade de Oxford, aproximadamente 80% da população de países considerados de alta renda receberam pelo menos uma dose da vacina. Em países classificados como baixa renda, menos de 18% da população já recebeu a primeira dose do esquema vacinal.

 

No entanto, não é preciso cruzar fronteiras internacionais para perceber essa desigualdade. De acordo com o Mapa da Vacinação, no estado de São Paulo, quase 90% da população acima de 18 anos já fez a dose de reforço, enquanto em Roraima essa taxa é inferior a 22%.

 

Em sua atuação na linha de frente contra o coronavírus, Ana Paula Seerig relata contrastes dentro do município de Santa Maria. “Quando a gente vai nas comunidades mais distantes ou que tem um acesso reduzido ao serviço de saúde, ainda vê pessoas que não fizeram nenhuma dose de vacina”, conta a secretária adjunta de saúde. 

 

Segundo ela, a falta de infraestrutura como transporte urbano e a vulnerabilidade socioeconômica são os principais fatores que dificultam o acesso à vacinação por pessoas de regiões periféricas do município, que possui baixa cobertura de atenção primária (ações do sistema de saúde que visam prevenir doenças).

 

Além da dificuldade de acesso, a população mais pobre sofre os efeitos da doença de forma mais severa. “Quanto maior a desigualdade social, maior o risco à saúde. Uma pessoa com covid em um ambiente familiar que permita o isolamento, acesso a uma máscara de qualidade, à alimentação e à hidratação adequada é diferente de um paciente com covid em uma casa de dois cômodos, em que não é possível fazer o isolamento”, destaca Ana Paula.

 

A secretária adjunta de saúde ressalta o maior custo gerado no tratamento de casos graves da doença e até mesmo casos de covid longa, cujas consequências ainda não são totalmente conhecidas. Como gestora da equipe de saúde de Santa Maria, ela cita atendimentos a pessoas que contraíram a doença no ano passado e ainda apresentam dificuldades respiratórias, perda de memória e de olfato e que ainda precisam ser atendidas pelo sistema de saúde.

Atualizações e novas ferramentas para enfrentar o vírus

Outra novidade a caminho é o processo de atualizações nas vacinas para abranger variantes que não existiam no início do seu desenvolvimento. O professor destaca que, com uma cobertura mais ampla das variantes e menor circulação viral, a imunidade coletiva se torna possível por meio da vacinação.

 

A ômicron é a variante para qual os pesquisadores têm focado seus esforços, pelo fato de atualmente ser a que mais escapa do controle vacinal – apesar de a vacinação prevenir casos graves, ela não possui a mesma eficiência para diminuir a transmissibilidade. Além disso, a variante tem pelo menos quatro subvariantes. Segundo Schwarzbold, todas apresentam nível de gravidade semelhante à ômicron. “A atualização da plataforma serve para a vacina chegar na frente do vírus, para que ele não tenha tempo para mutar e que não se replique em quantidade suficiente para criar variantes de risco”, afirma o docente.

 

Alguns imunizantes ainda aguardam a aprovação da Anvisa para ingressarem no Plano Nacional de Imunização, como a vacina da Clover Biopharmaceuticals, que contou com a participação da UFSM em seus testes. O professor aponta que há possibilidade de o plano de vacinação contar com oito a dez fornecedores de imunizantes distintos, o que amplia as ferramentas de combate ao vírus. A parceria da UFSM com a Clover será retomada para os testes de uma vacina destinada para crianças com menos de cinco anos – que não são contempladas atualmente pelo PNI.


Além das vacinas, a UFSM irá realizar teste de medicamentos para o tratamento do coronavírus ainda neste ano. Segundo o professor, os medicamentos em si ainda são segredos industriais de três empresas distintas. Um dos remédios será aplicado em pacientes com comorbidades logo no início da doença, com o objetivo de evitar que ela evolua para casos graves. Os outros dois serão utilizados para combater a doença em estágio grave.

Inovações criadas durante a pandemia

Se, por um lado, a pandemia foi um período de muitas adaptações, por outro, também trouxe muitos avanços no campo científico, que serão úteis para combater outras doenças. O primeiro a ser destacado por Schwarzbold são as vacinas genéticas, lançadas pela primeira vez no mercado após 20 anos de desenvolvimento em laboratórios.

 

De acordo com o pesquisador, a tecnologia inédita no desenvolvimento de vacinas apresentou grande eficácia e segurança e tende a se tornar cada vez mais comum. “A utilização dessas vacinas irá avançar muito. A Modena já está estudando aplicar a vacina genética para vários vírus. Nós vamos ver um avanço muito grande no controle das doenças virais nas próximas décadas”, destaca. A vacina contra a chikungunya é outra desenvolvida em plataforma genética e que já está disponível.

 

Uma das vacinas em desenvolvimento é para o vírus sincicial respiratório, que causa pneumonia em idosos e em bebês, além de ser um dos responsáveis pelo desenvolvimento de bronquiolite em recém-nascidos. Há também a vacina para a dengue, que a UFSM irá desenvolver juntamente com o Butantan. Outra imunizante que está em fase de desenvolvimento é para a prevenção de uma forma grave de herpes que pode causar meningite.

 

Outra mudança foi a consolidação da aplicação heteróloga (com diferentes imunizantes), como por exemplo, receber a vacina da Coronavac na primeira e segunda dose e a da Pfizer na terceira. Apesar de conhecido, o conceito ainda não havia sido posto em prática de forma sistemática. Schwarzbold conta que, antes das pesquisas, a própria comunidade científica tinha dúvida sobre as consequências dessa aplicação, como queda na eficácia ou até mesmo efeitos colaterais graves. No entanto, os resultados dos estudos descartaram essas hipóteses. “As aplicações heterólogas – imunização com diferentes imunizantes – são as mais eficientes. Para o coronavírus, essa aplicação já é recomendada por muitos programas de imunização, inclusive do Brasil”, destaca.

Expediente:

Reportagem: Bernardo Salcedo, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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