Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Wed, 28 Jun 2023 23:58:16 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/transfobia-apos-a-morte Wed, 28 Jun 2023 18:44:01 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9733

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil é, pelo 14° ano consecutivo, o país que mais mata pessoas trans e travestis. A frase “que descanse em paz”, dita após o falecimento de alguém, parece não valer para pessoas trans e travestis brasileiras. Em vida, elas sofrem com violências físicas e emocionais causadas pelo preconceito. Mas a transfobia não acaba quando elas morrem: o desrespeito com pronomes, nomes e gênero continua mesmo depois do óbito. Muitas delas são designadas em lápides, noticiários e certidão de óbito com os nomes que tinham antes da transição e com pronomes que não condizem com o gênero com o qual elas se identificavam, elemento que constitui um dispositivo de normalização pós-morte e que atua contra o desejo final das travestis ao lhes negar uma morte digna, de acordo com o estudo “Violência pós-morte contra travestis de Santa Maria”,  publicado nos Cadernos de Saúde Pública. 

A intenção da pesquisa foi descrever e analisar essas violências que são vivenciadas pelas travestis e que, muitas vezes, culminaram em seus homicídios. A partir do método etnográfico e da coleta de relatos das próprias travestis, a pesquisa compreende o período entre o final de 2019 e o início de 2020, quando a cidade de Santa Maria viu acontecer os homicídios de cinco travestis. Por isso, também apresenta relatos das mulheres assassinadas, algumas vezes poucos dias antes dos acontecimentos.

A primeira inquietação quando ocorre a morte de uma travesti é a de que a família a reconheça como feminino, vestindo roupas e acessórios de mulheres. Na ocasião do assassinato de Nilda, Inês salientou: “Enterrar uma travesti com roupas femininas faz parte da luta. Para garantir que Nilda fosse enterrada como mulher, corremos no necrotério levando um belo vestido, ainda sem uso e um par de sapatos novos. Ao menos ela seria enterrada como gostaria de ter vivido sempre, linda e mulher”. – Trecho do artigo.

Para Martha Helena Teixeira de Souza, uma das autoras do artigo, a transfobia está presente quando uma pessoa trans que não era aceita ou não tinha contato com seus parentes é velada de acordo com as crenças e as vontades da família. É nesses casos que o gênero, a trajetória e a existência daquele indivíduo são desrespeitados e, até mesmo, negados pelos seus familiares. “[No caso de uma travesti], a família, em muitos casos, veste de homem, coloca o nome masculino e se refere à travesti com pronomes masculinos. Família essa que, por nunca ter aceitado a transição, sequer convivia com a travesti e só aparece no funeral”, relata Martha.

O nome na lápide

De acordo com a pesquisa, duas das cinco travestis assassinadas foram identificadas em suas lápides com os nomes masculinos que tinham antes da transição.

Já vimos outros casos assim. Na hora da morte aproveitam que a pessoa não pode mais reclamar e vestem como homem e chamam como homem. (…) Colocam o nome masculino na pedra. Eu já avisei para todas que não deixem fazer isso comigo”. Assim, o nome masculino que havia deixado de existir, quando gravado na lápide atua como a reiteração das normas sociais que atuam contra o desejo da pessoa morta. –  Trecho do artigo.

O desacreditar da narrativa

Martha comenta que as amigas de uma das vítimas, que estavam com ela na hora de seu assassinato, tiveram a preocupação de garantir que a violência tinha sido gravada pois sabiam que, caso não tivessem provas, poderiam acabar culpadas: “Em infinitas vezes elas sofrem violência nas ruas e sequer denunciam, porque elas sabem que ninguém acredita em travesti. Então precisamos acreditar nessas pessoas. Precisamos ouvir elas”, afirma a pesquisadora.

Quando algumas travestis chegaram ao local do assassinato, outras preocupações surgiram. Glória (26 anos, profissional do sexo, branca, com o primário concluído), explicou o motivo: “Ficamos ansiosas com a chegada da polícia, pois sabemos que é difícil acreditarem em nós. Poderiam pensar que teríamos tentado roubar o cara e tantas outras coisas. Foi um alívio quando soubemos que tinha câmera que gravava tudo na rua, pois assim ficaria provado que ela não tinha feito nada”. – Trecho do artigo.

O apagamento da transfobia

Em casos em que a morte de pessoas trans é consequência da violência motivada pelo preconceito, existe o medo de que o assassinato seja tratado por qualquer outro motivo que não a transfobia. Gabriela Quartiero, integrante do coletivo Voe – formado por estudantes, pesquisadores e ativistas reunidos em prol da defesa da diversidade sexual e de gênero -,  esteve presente nas manifestações após a morte das cinco travestis. Ela comenta que, em alguns casos, há uma lentidão para a chegada de ajuda no local da violência: “A gente sabe que demora para chegar policias, por ser um local de prostituição, isso é muito negligente”, pontua. 

Segundo dados de 2020 da Associação Nacional de Transexuais e Travestis  (Antra ), 90% da população trans feminina trabalham na prostituição, e apenas 4% está em empregos formais. Gabriela entende que a sociedade coloca essas pessoas nesse lugar por não aceitarem elas no ocupando os mesmos espaços. 

Há questões como nome civil e nome social que impactam negativamente, limitando o acesso a serviços, escolas, trabalho formal. Ser identificada como travesti propicia manifestações preconceituosas e discriminações. Para muitas, como fonte de trabalho e renda, resta a prostituição. – Trecho artigo

A culpa da sociedade

Antes de pensar na transfobia que acontece após a morte de pessoas trans e travestis, é importante relembrar que essas pessoas convivem com a transfobia desde o momento em que se reconhecem. “Desde o momento que essa travesti se reconhece lá na infância ou pré-adolescência, geralmente quando está frequentando o colégio, a professora faz de conta que não vê, ou tenta encaixar nos padrões [cis]heteronormativos. Muitas vezes por violências vivenciadas no banheiro, que elas até evitam ir para não serem abusadas, acabam saindo da escola. Fica difícil conseguir um emprego sem escolaridade”, relata Martha.

Os discursos transfóbicos estão inseridos na sociedade de uma forma que marginaliza e exclui corpos trans desde a sua infância. As mesmas falas transfóbicas que foram disseminadas nas redes sociais após as mortes das travestis na cidade são as falas que, para Gabriela, colocam e mantêm elas no lugar de vulnerabilidade em que estão, além de dificultar a inserção delas na sociedade.

“A família muitas vezes abandona e elas acabam indo morar com outras travestis. E aí que vem a rua. Elas vão se prostituir para sobrevivência. Nesse momento aumentam as violências. Então, quem joga elas nesse mundo é essa sociedade. Que é hipócrita, que faz discurso moralista, de família, de Deus, de pátria, de tudo. E depois chega na hora e joga essas pessoas lá”, comenta Martha.

Verônica: a mãe loira de Santa Maria 

Verônica é uma das cinco travestis que foram assassinadas em Santa Maria no período estudado. Ela foi morta com uma facada em dezembro de 2019. Conhecida como “mãe loira”, Verônica foi responsável por criar e manter o Verônica Alojamento, espaço que acolhia mulheres trans e LGBT+ desde 2006 e era uma das poucas casas de acolhimento para pessoas transexuais no Brasil. Ela era conhecida e servia de inspiração para muitas mulheres trans e travestis da cidade e foi coroada madrinha da 5ª Parada LGBT Alternativa, que ocorreu no início de dezembro de 2019 – onze dias antes de seu assassinato -, como forma de homenagear o que ela significava para Santa Maria. Na ocasião, o mote da homenagem foi a frase: “Que bom te ter viva”.

“A Verônica era como se fosse a indestrutível, que nada iria acontecer. Terem matado ela foi muito marcante. Não era qualquer uma, era a mulher que sustentava e amparava outras mulheres trans (…) ver ela em uma situação de vulnerabilidade, sendo esfaqueada, foi terrível”, relata Gabriela. 

Verônica é uma das mulheres trans que  teve seu nome e pronome respeitados após a morte. Para Gabriela, a alteração dos documentos, que ela já tinha feito, foi importante neste processo. Mesmo assim, pessoas próximas ficaram atentas para ter certeza que não haveria qualquer desrespeito. Martha, que esteve presente na identificação do corpo de Verônica, comenta: “Eu estava no reconhecimento do corpo e eu lembro de o rapaz do Instituto Médico Legal chamar nome masculino e eu ter que chamar atenção”, relembra. 

A transfobia pós-morte com a Mãe Loira veio em comentários pelo Facebook. Pela importância que ela tinha para a comunidade LGBT+, coletivos e ativistas lutaram para que ela fosse velada na Câmara de Vereadores santa-mariense, o que mexeu com o conservadorismo presente na cidade. “A Verônica ser velada na Câmara atingiu os limites da sociedade conservadora. Por isso que a morte dela chamou mais atenção, porque ela mexeu muito mais com as estruturas da sociedade”, conta Gabriela.

Para as entrevistadas, o velório de Verônica ser na Câmara de Vereadores escancarou a transfobia da comunidade de Santa Maria, mas também mostrou a força da comunidade LGBT+ da cidade.  “Não tem como a gente se conformar com uma morte causada pela transfobia, mas tem como a gente utilizar da nossa força reivindicar. A morte da Verônica trouxe a Casa Verônica para a UFSM, isso é uma coisa histórica. Transformar essa sensação de injustiça e dor em luta. É dessa forma que a gente vai ressignificar a morte dessas pessoas”, comenta Gabriela.

Verônica ganhou um documentário produzido pela TV Ovo, o trailer já está disponível. 

A Casa Verônica

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a partir da resolução UFSM N. 064, que instituiu a Política de Igualdade de Gênero na Instituição, foi definido que a Universidade possuiria um espaço de acolhimento às pessoas em situação de violência de gênero. Para dar conta dessa demanda, foi criada a Casa Verônica. O nome do ambiente foi escolhido a partir de uma consulta com a comunidade. De 1500 votos, 39% escolheram o nome de Verônica como forma de homenagear e manter sua memória viva. 

De acordo com a coordenadora da Casa, Bruna Loureiro Denkin, “A política de Igualdade de Gênero foi uma conquista da comunidade acadêmica da UFSM e comunidade externa, após mais de 5 anos de discussões e reivindicações. Então, o Espaço Multiprofissional Casa Verônica pretende ser um espaço de acolhimento a pessoas em situação de violência de gênero dentro da universidade, não excluindo o acolhimento em outros âmbitos”. 

As atividades propostas pelo projeto se baseiam em três eixos: Eixo 1 – Promoção da Igualdade de Gênero; Eixo 2 – Enfrentamento e Responsabilização em Casos de Violência; e Eixo 3 – Assistência. Como previsto, a assistência deve ser feita por três profissionais, uma psicóloga, um advogado e um assistente social. As ações podem ser acompanhadas na página no Instagram.

Bruna entende que pela Universidade estar inserida em uma sociedade ainda estruturada pelo racismo, machismo, lgbtfobia e outros preconceitos,  essas questões também precisam ser enfrentadas dentro da comunidade acadêmica. “Por estar em um espaço de educação de formação, nos cabe enquanto instituição e enquanto servidores, propor e executar políticas públicas de enfrentamento às múltiplas violências e desigualdades, bem como promover a mudança cultural para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária. É um caminho ainda recente que precisa ser feito, mas também acredito ser muito importante a articulação das universidades com vistas a somar esforços para o enfrentamento e combate às violências, pois é um caminho que não se percorre sozinho, se faz necessário contar com parcerias, apoio e ações estratégicas”, finaliza.

Expediente:

Reportagem: Gabriel Escobar, acadêmico de Jornalismo;
Design gráfico: Vinicius Gumisson Motta e Lucas Zanella, estagiários de Desenho Industrial
Edição de Produção: Samara Wobeto;
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/universidade-inclusiva-a-acessibilidade-da-ufsm-na-palma-da-mao Fri, 03 Mar 2023 13:37:24 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9674

Já parou para olhar ao seu redor? Quantos prédios têm rampas corretas, portas largas ou maçanetas na altura ideal? Mesmo que o caminho até a escola ou o trabalho seja rotineiro, é comum não notar se existem recursos assistivos, adequações que garantem o acesso e locomoção e que fazem a diferença na vida de muita gente.

Nesta perspectiva, um grupo de estudantes do curso de Terapia Ocupacional desenvolveu um trabalho que mapeou os principais prédios da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A ideia surgiu na disciplina de Tecnologia Assistiva, ministrada pela professora Daniela Tonus. O trabalho foi parar em um aplicativo que serve para mostrar os locais com acessibilidade arquitetônica às pessoas com deficiência.

Daniela conta que, em uma das aulas práticas, cedeu uma cadeira de rodas aos alunos para que pudessem circular no campus e, assim, compreender a importância da acessibilidade. Depois de perceber diferenças entre os prédios e as dificuldades para acessar alguns locais, os alunos decidiram mapear os ambientes onde passaram e ajudar pessoas com deficiência a circular pela Universidade.

O trabalho iniciou com a medição de rampas e portas de acesso de dez prédios, como conta Lihana Dutra Cavalheiro, uma das estudantes responsáveis. Passaram pela análise: o Restaurante Universitário (RU), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Prédio do curso de Arquitetura, o Centro de Artes e Letras (CAL), o Centro das Ciências Rurais (CCR), o Centro das Ciências Sociais e Humanas (CCSH), o Centro das Ciências Naturais e Exatas (CCNE), a Biblioteca Central e o Hospital Universitário. Depois da medição, os estudantes fizeram uma comparação com as normas estabelecidas em lei para entender se os prédios estão dentro dos padrões.

Mas afinal, o que é acessibilidade?

Rampa de acesso ao prédio 42

A acessibilidade é um termo recorrente quando o assunto é mobilidade urbana, explica Daniela. Em termos práticos, a palavra significa “ter acesso” e faz parte da política de inclusão social.

Uma das definições encontradas em lei, ordena a criação de rampas, barras de ferro e outras medidas que garantam o acesso de pessoas com deficiências físicas ou visuais aos espaços públicos. Mas para que a acessibilidade aconteça, é preciso estar de acordo com as normas. “É comum a gente encontrar barras nos banheiros, por exemplo, e pensar que é um banheiro com acessibilidade. Mas essa medida está correta? Um usuário de cadeira de rodas consegue usar?”, reflete Daniela, ao falar de situações presenciadas no dia a dia. 

Os projetos de arquitetura e urbanismo precisam cumprir as exigências estipuladas pela Lei n° 10.098, sancionada em dezembro de 2000. Ela é conhecida também como Lei de Acessibilidade. Na UFSM, prédios construídos a partir de 2004 já devem estar dentro do padrão exigido. 

Piso tátil ao longo da Avenida Roraima

Daniela explica que, em escolas e universidades, o cuidado deve ser redobrado para oferecer aos alunos com deficiências – tanto visual e auditiva quanto motora e intelectual -, as melhores condições de segurança e autonomia tanto dentro quanto fora da sala de aula. Em décadas anteriores, muitos alunos não conseguiam iniciar o processo de educação por falta de preparo das escolas e até pelo receio da família de a criança estar em um local sem estrutura adequada. Com o passar do tempo, as estatísticas mostraram que o número de alunos com mobilidade reduzida nas salas de aula comum aumentou gradativamente, passando de 89,5%, em 2016, para 93,3% em 2020. Os dados são do Censo Escolar 2020.

Quem deve ser considerado uma pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida?

Uma pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida é aquela que tem limitações nas capacidades de se relacionar e se locomover temporária ou permanentemente. A partir de uma nova atualização da norma técnica 9050 de 2015, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o conceito de mobilidade reduzida foi ampliado para contemplar pessoas idosas, gestantes e obesas. A norma, que conta com 163 páginas, explica parâmetros e medidas ideais para todos os tipos de construção e até mesmo de móveis. Segundo o próprio documento, os critérios técnicos foram escolhidos considerando as diversas condições de mobilidade e de percepção do ambiente, com ou sem a ajuda de aparelhos específicos, como próteses, aparelhos de apoio, cadeiras de rodas, entre outros.

Guia de Rodas

No aplicativo é possível localizar as edificações e avaliar critérios de acessibilidade

Pela análise feita no campus sede da UFSM, os prédios que apresentam mais problemas são os mais antigos na universidade: CAL, CCR e Inpe. Segundo os acadêmicos responsáveis pela pesquisa, a maioria das rampas não está de acordo com as medidas e os elevadores costumam apresentar defeitos, o que prejudica quem precisa se locomover a andares superiores. Para a professora Daniela, o maior problema se encontra nos banheiros, tendo em vista que grande parte deles não tem portas e pias na medida correta. 

O mapeamento foi exposto no aplicativo Guia de Rodas, um app que pode ser baixado em qualquer telefone celular e serve para mostrar os locais com acessibilidade próximos a raio do GPS do celular. No aplicativo, é possível estabelecer uma rota e consultar se as áreas são acessíveis. Os acadêmicos acreditam que isso pode ajudar quem transita diariamente pelo campus e precisa se locomover de um prédio a outro. 

Para baixar o aplicativo, é preciso entrar na loja de aplicativos do seu smartphone Android ou iPhone. Ele é gratuito e não requer grande espaço de armazenamento. Lihana lembra que o aplicativo funciona de forma colaborativa. Qualquer pessoa pode contribuir e atualizar os dados na medida em que notar diferenças entre o que é apresentado no app e a realidade. Poucos cliques podem ajudar o cotidiano de muita gente.

Expediente:
Texto: Tayline Alves Manganeli, estudante de Jornalismo;
Fotos: Estevan Garcia Poll, Unidade de Comunicação Integrada
Arte de capa: Daniel Michelon De Carli, Unidade de Comunicação Integrada
Edição de Produção: Samara Wobeto, estudante de Jornalismo;
Edição geral: Luciane Treulieb e Mariana Henriques, jornalistas.

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/circuitos-de-sentido-em-torno-da-serie-vaza-jato Mon, 02 May 2022 12:49:28 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9221

Nove de junho de 2019. O domingo com sol na maior parte do território brasileiro poderia ser preenchido com um despretensioso zapeado entre canais na televisão ou entre as diferentes plataformas de redes sociais. Com a noite se aproximando, em uma época que o horário do pôr do sol começa a ser diferente nas regiões brasileiras, devido à vastidão do país, começam a circular as postagens de divulgação do início de uma série de reportagens que se baseia no vazamento de mensagens trocadas entre servidores do poder Judiciário do Estado Brasileiro. A Vaza Jato, denominação atribuída à série, em trocadilho com o nome da operação Lava Jato, começa a fluir pelo site e redes sociais do The Intercept Brasil (TIB), agência de notícias responsável pela produção, edição e publicação das reportagens, e passa a preencher as telas no domingo de diversas pessoas. 


No site, é possível ver as três primeiras reportagens com “exclusivo” em caixa alta, deixando evidente a importância atribuída pelo TIB ao que se noticia. Ao rolar o feed do Facebook, os seguidores da agência de notícias nessa plataforma podiam se deparar com uma imagem em preto e branco do ex-presidente Lula, retratado de perfil com a sombra de uma grade de cela presidiária no rosto. Ou com o perfil do ex-juiz Sérgio Moro, que olha para frente, talvez vislumbrando um futuro, que se concretizou com sua nomeação a ministro da Justiça. Ou ainda com a imagem do procurador da república Deltan Dallagnol, que interpela as caixas de mensagem expostas ao seu lado. No canal do Youtube, aparece um então juiz Sérgio Moro, nos idos 2016, palestrando sobre suas práticas de busca por imparcialidade ao julgar os casos da Lava Jato.

Ilustração horizontal e colorida de um circuito comunicacional da Vaza Jato. Na parte superior esquerda, há um retângulo com borda verde e símbolos vazados do whatsapp e telegram sobre um medidor de pressão horizontal e preto. Do aparelho de pressão, sai um cano cinza, que faz a volta na parte superior. Abaixo do cano, na parte superior, uma prateleira branca com três frascos com líquidos coloridos. O primeiro tem líquido laranja e a frase "Parabéns The Intercept Brasil". No segundo, há um líquido azul e a frase "Libera os áudios". No terceiro, há um líquido roxo e a frase "Disputa de sentidos". No cano cinza há três rachaduras das quais pingam uma gota verde neon. O cano cinza dá duas voltas, uma na direção vertical e outra na direção horizontal, em que se liga, no lado esquerdo inferior, a um dispositivo quadrado e vermelho com um símbolo do direito em preto. Ao lado, outra prateleira branca com três frascos com líquidos coloridos. O primeiro tem líquido amarelo neon e a frase "Cara de pau". O segundo tem líquido rosa pink e a frase "Hashtags em debate". O terceiro tem líquido verde turquesa e a frase "Lula o maior bandido". Acima, o cano cinza tem três rachaduras, das quais pingam uma gota verde neon. O fundo é lilás escuro.

Desde o lançamento dessas três primeiras reportagens da série Vaza Jato, já se somam mais de 20 histórias publicadas, além de parcerias entre o TIB e outros meios de comunicação para a ampliação da investigação jornalística. A fonte principal das matérias continua sendo as mensagens trocadas no aplicativo Telegram do procurador Deltan Dallagnol, vazadas de maneira anônima para a agência de notícias. A partir de então, surgiram diversos questionamentos nos comentários feitos no site, na fanpage e no canal do Youtube do TIB, que colocam em “xeque a moralidade do uso de tais dados”, assim como de seus “usos políticos para a destruição de reputações”. 

 

Das questões emergentes sobre a série de reportagens, é possível perceber que uma tensão se estabelece entre o que é enunciado pela agência de notícias e os sentidos que os comentadores deixam marcados em suas manifestações nesses espaços. Mas o que é comum em todos os lugares que observamos? O que aproxima e o que distancia? Os leitores tendem mais a concordar com o posicionamento das reportagens ou a duvidar? Como os leitores trocam ideias entre si?

 

Tais tensionamentos deram subsídios para que pudéssemos construir, na minha dissertação, uma análise sobre os sentidos que circularam em torno dessas três primeiras reportagens publicadas no site do TIB, na fanpage, e em um vídeo que foi postado no canal do Youtube, constituindo o que consideramos um circuito comunicacional, segundo o pesquisador José Luis Braga. Para esse autor, de maneira resumida, o circuito é formado por pontos nodais, como dispositivos de interação e episódios de comunicação. 

 

O primeiro pode ser caracterizado enquanto a formação de maneiras de comunicação que se repetem, o que produz certas estabilidades no processo comunicacional. Assim, uma postagem em uma fanpage pressupõe a utilização de determinado espaço para escrever, assim como a abertura de comentários, possibilidades de curtir e compartilhar. É uma forma de comunicação que possui certa estabilidade, que foi sendo constituída e formatada. Já os episódios comunicacionais estão para a ordem do que é particular em determinada troca comunicacional, o que é materialmente articulado. É nesse aspecto que cada postagem em uma fanpage seja algo único e passível de ser analisável individualmente. Em nossa pesquisa, nos debruçamos em três dispositivos já mencionados, e observamos seis episódios, sendo três vinculados ao site, dois a fanpage e um ao canal do Youtube. 


Contudo, o desafio durante a jornada de pesquisa foi lidar com a imensa quantidade de dados textuais coletados, tendo que investir no uso do software de análise lexicométrica Iramuteq para elaborar métricas e gráficos que pudessem ajudar a esquadrinhar as informações coletadas. Nos coube dar sentido aos episódios comunicacionais a partir da observação da nuvem de palavras, de um gráfico de árvore máxima de similitude constituído a partir das palavras com maior centralidade de intermediação e de um movimento de retorno aos textos originais para compreender de maneira integrada o que os números informavam.

Nuvem de palavrasgráfico formado a partir de dados textuais levando em consideração a frequência dos vocábulos presentes nos textos analisados 

Centralidade de intermediação – métrica da análise de redes, em que considera a intensidade com que determinado ponto atua como ponte no caminho mais curto entre outros dois nós da rede. Em pesquisas que trabalham com dados textuais, é possível utilizar essa medida para destacar as palavras que possuem maior recorrência entre outras duas palavras.

Árvore máxima de similitude – gráfico construído com base em métrica escolhida previamente para evidenciar a conexidade entre os nós estabelecidos, levando com consideração a co-ocorrência dos vocábulos.

A partir desta metodologia integrada, demos nomes aos episódios e tecemos inferências sobre os sentidos circulantes de maneira individualizada para cada dispositivo, mostrando aquilo que os aproximava e o que os distanciava. Em cada episódio buscamos compreender também os fluxos comunicacionais por duas perspectivas, uma entre o que os leitores comentavam e o que era exposto pelo TIB, e outra entre os próprios leitores.

De maneira panorâmica, observamos que, no site do The Intercept, os comentários tendem a ser maiores do que nos outros dispositivos, e que do primeiro episódio até o último, houve uma mudança nos sentidos circulantes, indo das parabenizações ao trabalho dos jornalistas, passando por pedidos de liberação dos áudios vazados no segundo, até a intensa disputa por sentidos no terceiro. Na fanpage, a percepção de que o ex-presidente Lula tem culpa nas questões que envolvem a operação Lava Jato em um episódio e no outro o uso de hashtags antagônicas são predominantes. Já no vídeo do Youtube, temos muitas manifestações que dizem que o ex-juiz Sérgio Moro tem “cara de pau”, já que no vídeo em questão ele diz ser imparcial.

 

Uma das principais contribuições de pesquisas com essa abordagem integrativa, ou seja, cruzando indícios e pistas encontradas em diferentes plataformas, é a possibilidade de dimensionar os sentidos que se aproximam e distanciam em torno dos produtos midiáticos. É possível perceber ao longo da pesquisa que os leitores se dispuseram em discussões que vão desde a apresentação de argumentos jurídicos até o uso de xingamentos para expressar seus pontos de vista, o que foi possível mapear tanto do ponto de vista quantitativo, através das métricas empregadas, quanto do ponto de vista qualitativo, observando os comentários em si. Por fim, tais achados são importantes para corroborar a noção de que cada plataforma midiática constitui suas particularidades também nos sentidos que os comentadores fazem circular.

Expediente:

Texto: Luan Romero, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (POSCOM/UFSM);

Design gráfico: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e volun´tário;

Relações Públicas: Carla Isa Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/linn-da-quebrada-performance-politica-visibilidade-trans-e-bbb Fri, 15 Apr 2022 13:00:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=9190

Eliminada do reality show Big Brother Brasil no último domingo (10), a artista Linn da Quebrada se destacou nas redes sociais. De acordo com o Google Trends Brasil, após o anúncio de sua participação, o nome da cantora foi pesquisado mais de 50 mil vezes. Cerca de 84% dos brasileiros acompanham o programa e Linn alcançou o Top 10 dos finalistas. Por se identificar como travesti e frequentemente referir-se a si mesma como “bicha, trans, preta e periférica”, a sua participação impactou as redes sociais e evidenciou a necessidade de trazer visibilidade para essa comunidade.

Ilustração horizontal e colorida em tons de azul e roxo. No centro, em primeiro plano, uma mulher trans, de pele negra, cabelos curtos, ondulados e escuros na altura do ombro. Ela tem rosto angular, olhos escuros, sobrancelhas grossas, arqueadas e na cor preta, nariz e boca grandes. Na testa, tem uma tatuagem preta de arame farpado, e, acima da sobrancelha direita, uma tatuagem preta com a palavra "Ela". Sorri levemente. Veste uma blusa azul com alças. Atrás, fundo azul marinho em textura com os símbolos da comunidade trans, formado por um círculo com uma flecha e um tracinho na parte superior esquerda, uma flecha na parte superior direita e uma cruz na parte inferior.

A artista já era conhecida pelo público LGBTQIA+ e também ganhou evidência a partir de papéis em séries, novelas e por sua carreira musical. Linn da Quebrada se considera uma artista afrontosa, que toca em assuntos polêmicos e questiona as normas de gênero e sexualidade. Por isso, a cantora foi objeto de pesquisa em um artigo na Revista Estudos Feministas (REF), em que Patrick Borges Ramires de Souza, cientista social graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é um dos autores. “A Linn faz parte de um corte geracional de pessoas muito jovens que buscam enfrentar as noções de gênero, calcadas no binarismo heterossexual do masculino e feminino. Isso despertou o meu interesse de investigação, então eu comecei a pesquisar sobre ela”, diz Patrick.

A repercussão de Linn da Quebrada no BBB

A participação de Linn no reality show não foi repentina: desde a inclusão de personalidades famosas no programa, os fãs da artista faziam campanha para que ela fizesse parte do elenco. “Ela queria se inserir nesse espaço, também como um local legítimo de ser ocupado por um corpo como o dela. Um corpo transgressor, preto, periférico e de uma travesti. Ela já trazia nas redes sociais a importância de ocupar esse espaço de forma política e eu acredito que é o que ela fez no programa”, afirma Patrick. 

 

Durante os 22 anos do BBB, houve apenas uma participante trans antes da Linn. Ariadna participou da edição de 2011, foi a primeira eliminada e  se revelou transexual somente após sua saída. Na época, houve receptividade negativa por parte do público. Dez anos depois, Linn da Quebrada participou do programa com uma trajetória diferente: a cantora assumiu uma postura de protagonista e foi bem aceita pela audiência. Segundo uma pesquisa feita pela IMO Insights, Linn recebeu 68% de aprovação do público e foi vista como uma pessoa batalhadora. Ela também alcançou três milhões de seguidores no seu Instagram após sua eliminação. 

 

A presença da artista no reality gerou discussões nas redes sociais sobre gênero e sexualidade. Para Patrick, é importante que esse debate aconteça: “O BBB também é acompanhado pela família tradicional brasileira e o programa permitiu que esse diálogo entrasse na casa das pessoas. A Linn trouxe essas questões para espaços que talvez em outros momentos não teria oportunidade de estar”, reflete. 

 

Outro debate importante provocado por Linn foi o da transfobia e do uso do pronome correto ao se referir a pessoas trans. A utilização é uma forma de reconhecer a existência e respeitar as pessoas que se identificam com o gênero trans, travesti ou não binário, além de demonstrar respeito. Durante o programa, a cantora se sentiu magoada com os erros de alguns colegas de confinamento: “Ontem tive uma situação que acabou se desdobrando um pouco com outras pessoas, estamos na metade do programa e a cada dia que passa eu me pergunto: por quanto tempo mais eu vou amenizar o que eu tô sentindo para tornar mais leve pro outro?”, comentou Linn no confessionário, no dia 24 de fevereiro.

 

No entanto, apesar de evidenciar a luta da comunidade trans, Linn afirma que não quer representar ninguém e nem um movimento. Patrick complementa: “Quando eu analiso esse discurso dela, eu penso muito que há um interesse em mostrar para as pessoas que ela pode ser um exemplo, mas não um espelho a ser seguido. É bem claro no seu discurso que essa representatividade que ela traz é limitada, porque só alcança ela e não necessariamente as outras artistas que não têm o mesmo espaço de visibilidade”, explica.

Linn como foco de pesquisa acadêmica

Patrick analisou  as performances artísticas da cantora no contexto de internet e mídias digitais entre 2016 e 2020. A pesquisa concluiu que as novas configurações midiáticas deram espaço  para  novas  representações, como a Linn, de afronta às normas restritivas, hierarquizadas e moralizantes de gênero, sexualidade e raça.

 

O cientista social categoriza a cantora como uma artista dissidente de gênero. A dissidência ressalta as possibilidades de produção do gênero que escapam às normas que as querem enquadrar. “O tempo inteiro a Linn está falando um pouco sobre isso, nas letras das suas músicas, nos seus videoclipes, no cotidiano de compartilhamento da sua intimidade no Instagram, ela está falando sobre a importância da produção desses corpos que não se adequam ao modelo comportamental do próprio gênero”, expõem. 

 

Para o autor, Linn tem um engajamento performativo que dialoga com essa dissidência. Patrick observou isso no início da carreira da cantora, em que ela fez uso da sua performance artística de modo diferente a depender do contexto em que estava inserida. 

 

Um dos exemplos trazidos pelo pesquisador foi a diferença de estética e comportamento da artista em dois programas distintos. O primeiro foi a participação dela no Amor e Sexo, em 2017, que teve como proposta abordar questões LGBTQIA+,  da  cultura  à  discriminação  e  à  violência. Aquela edição teve uma temática carnavalesca, marcada pelo uso de muitas cores para enaltecer a diversidade. Linn participou como jurada, mas, apesar de estar esteticamente dentro da proposta do programa, usando roupa e peruca coloridas, o seu comportamento foi o que chamou atenção. “Ela adotou uma postura totalmente oposta à carnavalesca, ela estava séria, combativa, com uma  estética preta afrontosa e aí eu pude perceber como ela se engajou de uma forma totalmente distinta do que o programa propunha”, pondera Patrick. 

 

O autor explica que essa mudança de postura demarca um engajamento performativo. Linn também foi convidada para participar do programa “Prazer, Eu Sou”, da jornalista Regina Volpato, no Youtube, em 2016. Naquele momento, a cantora se inseriu em um espaço totalmente distinto, o público do programa eram pessoas de classe média e cisgênero (quando o indivíduo se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu) e, por isso, a cantora manteve uma postura mais séria. O  cenário  da  entrevista  trouxe uma distinção de classe percebida no piano ostentado ao fundo da gravação, e Linn aparece com roupas e maquiagem discretas. A cantora assume uma imagem feminina que, em conjunto com seu comportamento, contrasta com a estética em que ela aparece nos videoclipes. 

 

“Nesse programa, a Linn está com uma estética totalmente distinta, mais adequada ao cenário de uma classe média branca paulistana. Então é isso enquanto engajamento performativo, é o modo como ela se relaciona com esses espaços e mídias que ela frequenta”, exemplifica.

Imagem horizontal e colorida de uma mulher trans e negra com um microfone na mão em um palco. Ela tem olhos escuros, nariz e boca grande, usa uma peruca na cor rosa, com cabelos cacheados, volumosos e compridos; e veste um vestido rosa malva com decote em 'v'. Está em plano médio, com a boca aberta, segura um microfone preto e cinza próximo a boca, e, com o outro braço, aponta para a frente. No fundo, tela de led iluminada com vários pontos de luz circulares.
Linn da Quebrada no programa Amor e Sexo (2017)/ Reprodução: Rede Globo
Fotografia horizontal e colorida de duas mulheres sentadas em duas poltronas estofadas na cor verde clara. Na poltrona da esquerda, uma mulher trans e negra, tem rosto angular, olhos escuros, nariz e boca grande, sorri amplamente; ela tem cabelos castanho escuros com luzes, trançados em dreads e presos em um coque; veste um vestido nude formal e usa sapatos de salto alto na cor preta. Na poltrona da direita, mulher cis de pele branca; tem olhos escuros, cabelos cacheados, na cor loiro, na altura do ombro; veste blusa regata colorida, com prevalência da cor turquesa, saia preta e salto alto em tom de marrom. As duas mulheres estão de mãos dadas, e inclinadas em direção uma a outra. Abaixo das poltronas, um tapete branco com listras em tons terrosos. Ao fundo, uma parede rosa claro. Atrás dela, um móvel de madeira marrom escura com um jarro de flores em cima. No centro inferior da imagem, sobre fundo com textura de pinceladas de tinta nos tons amarelo, rosa, vermelho e laranja, a frase, em branco e caixa alta "Prazer, eu sou".
Linn da Quebrada no programa da jornalista Regina Volpato no Youtube

A importância de abrir espaço para outros artistas

De acordo com o cientista social, Linn  compõe  uma  nova  geração  de  produção  artística,  na  qual  performances  dão destaque  ao  corpo,  à  sensualidade,  à  sexualidade  e  à  dissidência  de  gênero. No entanto, Linn da Quebrada não está sozinha nessa produção, existem diversos artistas, como Liniker,  da  banda  “Liniker  e  os Caramelos”,  Assucena  Assucena  e  Raquel  Virgínia,  do  grupo  musical  “As Bahias  e  a  Cozinha Mineira”,  as drag  queens Pabllo  Vittar  e  Glória  Groove,  a  MC  Xuxu  e  a  MC  Trans  e  o  rapper Rico Dalasam – dentre outras artistas que tensionam as normas de  gênero  como  mote  para o  seu  fazer  artístico. 

“A gente tem todo um conjunto de outros artistas que talvez não conquistem a mesma visibilidade. A presença da Linn talvez dê um pouco mais de espaço para esses artistas em um cenário fora do ambiente LGBT, mas ainda existem algumas barreiras a serem rompidas”, constata o pesquisador. Contudo, Patrick destaca que esses artistas não precisam somente de visibilidade, pois esta, sozinha, não garante políticas públicas de melhoria para a vida de pessoas trans. Conforme o relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), que monitora dados globalmente levantados por instituições trans e LGBTQIA+, o Brasil ocupa há 13 anos o topo da lista de países que mais matam pessoas trans.

Para o pesquisador, além de ser importante reconhecer os artistas dessa comunidade, é preciso também incentivar políticas públicas educacionais, de cultura, de inserção no mercado de trabalho e estar atento às pessoas transexuais que se candidatam a cargos políticos. “Não é tão simples dizer que agora que a Linn participou do BBB, as trans vão conseguir mais visibilidade. Talvez a Linn consiga, mas e as outras? Agora é o momento de exigir mudanças”, provoca Patrick.

Expediente:

Reportagem: Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Design gráfico: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista;

Mídia social: Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Ludmilla Naiva, acadêmica de Relações Públicas e bolsista; Alice dos Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária; Gustavo Salin Nuh, acadêmico de Jornalismo e voluntário; e Ana Carolina Cipriani, acadêmica de Produção Editorial e voluntária;

Relações Públicas: Carla Costa;

Edição de Produção: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista;

Edição geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas.

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/a-kiss-antes-do-incendio Mon, 06 Dec 2021 16:56:44 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8788
Ícone triangular em amarelo e preto. O fundo é amarelo e os detalhes em preto. Há uma moldura triangular preta. No centor, um ponto de exclamação e as letras "TW". O ícone simboliza atenção.

AVISO DE GATILHO

Em percurso por um dispositivo virtual, é possível conhecer o interior da Boate Kiss antes do incêndio. Da rua, se vê a entrada – e também saída – do local que ficou marcado por ser uma das maiores tragédias no Brasil. Assistir ao vídeo* permite ampliar a compreensão da tragédia.

O percurso

Este vídeo mostra o caminho pelo interior da Kiss antes do incêndio e só foi possível por meio da reconstrução do ambiente em imagens 3D. A estrutura da boate é complexa, o que dificultou que pessoas encontrassem a saída na noite de 27 de janeiro de 2013. O local foi descrito como labirinto mais de uma vez.

O Dispositivo Interativo Digital resulta de um projeto da Universidade Federal de Santa Maria  (UFSM), em parceria com o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, a Fundação Escola Superior do Ministério Público e a Associação do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Coordenado pela antropóloga e docente da UFSM, Virgínia Vecchioli, o dispositivo foi criado com o objetivo de ser utilizado durante o júri do caso, que iniciou dia 1º de dezembro em Porto Alegre e tem previsão de durar 15 dias. A ideia é que os sobreviventes possam identificar, a partir do percurso virtual, o local em que estavam quando perceberam o incêndio.

A tragédia

O incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria – RS, aconteceu na madrugada de 27 de janeiro de 2013 e matou 242 pessoas, em sua maioria jovens. Além disso, outras 636 vítimas ficaram feridas e precisaram de atendimento e acompanhamento a longo prazo. O fogo começou durante o show da banda Gurizada Fandangueira, que usava artefatos pirotécnicos.  A casa noturna, que estava lotada e não tinha ventilação, saídas de emergência nem controle de incêndio, foi tomada pela fumaça tóxica proveniente da queima da espuma acústica. Os extintores não funcionaram, não havia chuveiros automáticos – também chamados de sprinklers – nem indicação da rota de fuga. Além disso, obstáculos como degraus, barras de ferro e muretas agravaram a dimensão da tragédia, uma vez que muitas pessoas tropeçaram, caíram ou ficaram presas ao tentar cruzar por elas.

Gabriel Rovadoschi Barros, 27 anos, é psicólogo e não foi chamado como testemunha do júri, mas com o dispositivo conseguiu mostrar para a família o local em que estava quando começou o incêndio. Ele presenciou a coletiva de imprensa sobre o julgamento, em que a ferramenta foi entregue ao Ministério Público, no dia 17 de novembro. Durante a apresentação na coletiva, o percurso virtual foi pausado para mostrar um exemplo de local em que havia sinalização, mas o extintor de incêndio estava ausente. No salão menor, ao lado de uma cabine de madeira, Gabriel estava parado quando percebeu a movimentação de pessoas correndo. De lá, ele não viu o início do incêndio.

Cabine de madeira, local onde Gabriel Rovadoschi Barros estava quando começou o incêndio.

Primeiramente, ele achou que fosse uma briga, mas, quando percebeu a fumaça, colocou a camiseta na frente do nariz e correu; não gritou para poupar energias; e tropeçou nos degraus que separavam os ambientes. Para Gabriel, elementos como barras de ferro, mesas e degraus que estavam no caminho dificultaram a saída de muitas pessoas. “Não tinha outra saída. Não tinha uma porta nos fundos. Não tinha uma janela para quebrar. Não tinha nada”, relembra.

Gabriel não conhecia muito bem a boate. Na época com 18 anos e estudante de Jornalismo na UFSM, era a segunda vez que ia até a Kiss. A primeira foi na noite anterior, em que conheceu uma menina do curso de Zootecnia que o convidou a ir à festa Agromerados. Segundo ele, a fila do dia 26 estava maior que a do dia anterior. Gabriel não teve sequelas físicas e pulmonares: apenas um hematoma roxo na perna, em formato de dedos, marcou a pele. Dos quatro amigos, dois faleceram e dois ficaram internados. A culpa por ter saído sem sequelas o acompanhou durante muito tempo. “Uma das coisas que mais me afeta até hoje é que no início do tumulto eu senti que peguei o lugar de alguém”. Entre silêncios, suspiros e voz afetada, ele afirma que hoje consegue reconhecer que essa não deve ser uma culpa dele. “Teve responsáveis por isso. Foi uma emboscada, um crime, acho que não tem outra palavra para definir”, diz.

Para Gabriel, o dispositivo é importante porque deu respostas de coisas que estavam só na lembrança. “Ao mesmo tempo que dói [rever], alivia, porque eu me dou conta de que não estava louco, que eu não aumentei a dificuldade da coisa, que ela foi mais difícil ainda do que eu imaginava”, desabafa. Ele acredita que o recurso é potente, mas não só como ferramenta para ser usada no júri: “Vai ajudar, para servir como recurso, para entender, para dar lugar, para tirar esse peso que eu tenho em ser a memória da tragédia. Acho que desloca e dá outras funções além de comprovar o absurdo que foi”.

Na busca por memória e justiça, a atuação de uma ONG quer conscientizar a população para que outras tragédias não aconteçam. A “Kiss: Que não se repita” (KQNSR) é ativa nas redes sociais e luta para que a tragédia não caia no esquecimento. Bel Bonotto, 33 anos, é do Rio de Janeiro e faz parte da equipe de comunicação da KQNSR. No incêndio, ela perdeu um amigo. A publicitária afirma que o dispositivo é uma maneira didática de evidenciar, para quem nunca esteve na boate como ela era um labirinto e tinha vários pontos cegos. “Através do dispositivo, é possível mostrar com clareza como era difícil ter noção de onde era a saída, ainda mais com a fumaça tomando conta do espaço no escuro, e também das debilidades – como a ausência do extintor de incêndio e do quanto a espuma tóxica dominava a área onde o artefato pirotécnico foi aceso”. No corredor que levava ao exterior, acima da porta deveria ter um aviso de “saída”; no entanto, a placa indicava o “caixa”.

O dispositivo

O projeto é fruto de uma pesquisa coordenada pela antropóloga argentina e professora na UFSM, Virgínia Vecchioli. A docente já esteve à frente de outros trabalhos de reconstrução virtual de ambientes destruídos, como é o caso do “El Campito”, de 2018, que retratou um campo de concentração na Argentina e também foi usado em júri. A partir de 2016, ao assumir o cargo na UFSM, Virgínia entrou em contato com os familiares das vítimas e conheceu a luta pela justiça. A partir desse encontro, surgiu a ideia da criação de um dispositivo que auxiliasse no júri do caso Kiss, que acontece em Porto Alegre. Com a mudança de cidade – inicialmente o julgamento estava previsto para ocorrer em Santa Maria -, as dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19 e as condições deterioradas da boate atualmente, que a tornam pouco segura, a visitação se tornaria inviável. A partir do uso do dispositivo como ferramenta do júri, é possível conhecer as condições e o interior da boate antes do incêndio.

Fachada da Boate Kiss: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.
Fachada da Kiss: imagem gerada no Dispositivo Interativo Digital.
Fachada da Kiss: imagem real, após o incêndio.

O projeto foi elaborado em quatro meses e a equipe era composta por sete pessoas. O trabalho técnico de desenvolvimento foi feito por Lucas Kolton, arquiteto especializado em design gráfico. Ele usou duas ferramentas: Unreal Engine – plataforma de criação de jogos usada na arquitetura para geração de imagens em realidade virtual – e o SketchUpsoftware que possibilita aplicar volumetria 3D. A construção da plataforma teve como base o escaneamento do local realizado pelo Instituto de Criminalística do Distrito Federal (DF) em fevereiro de 2013. Depois, com a planta da boate obtida a partir do escaneamento, os ambientes foram categorizados por meio de códigos. Cada uma das peças tinha uma pasta em que eram reunidas as referências, formadas por cerca de 200 fotografias coletadas dos volumes do processo. A pesquisa e a catalogação envolveram material fotográfico, audiovisual e escrito. Lucas explica que a simulação em realidade virtual foi um processo evolutivo, em que, a partir de reuniões semanais, havia discussão e acréscimo de elementos que faltavam. Virgínia conta que não foram necessárias visitas ao local, uma vez que os principais documentos utilizados já tinham detalhamento suficiente. 

Hall: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.
Hall: imagem do Dispositivo Interativo Digital.
Hall: imagem real, após o incêndio.

A equipe se atentou aos detalhes da arquitetura da boate, inclusive para representar desníveis no chão. No processo de construção do dispositivo virtual do projeto anterior, o El Campito, utilizaram-se relatos de testemunhas. Na reconstrução da Kiss, no entanto, não foi possível. Como o dispositivo é ferramenta de júri, deve apresentar isenção.

Salão menor: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.
Salão menor: imagem gerada pelo Dispositivo Interativo Digital.
Salão menor: imagem real, após o incêndio.

Marcelo Mendes Arigony, hoje delegado na 2ª Delegacia de Polícia de Santa Maria, era delegado de Polícia Regional na época da tragédia, e aponta que o dispositivo é importante para auxiliar os jurados no entendimento do caso. Arigony afirma que, por meio dele, é possível estabelecer rumos justos quanto à sentença que será proferida.  “É um instrumento disponibilizado para que aquelas pessoas possam produzir um julgamento mais justo, que é o que se espera de justiça que possa vir nesse caso”, completa. O delegado ainda salienta a validade jurídica do dispositivo virtual, uma vez que o juiz utiliza a prática de íntima convicção – em que tem o direito de apreciar o fato de maneira livre e de acordo com seu entendimento, por isso, pode usar de várias ferramentas a fim da maior compreensão possível.

Virgínia destaca a importância do dispositivo, que é pioneiro no Brasil. A distância entre o Foro Central de Porto Alegre (local da audiência) e a boate, em Santa Maria, torna mais difícil uma visita ao local do crime. “[Os jurados] não têm que se deslocar para fora da sala de audiências. A cena do crime entra na sala de audiências. E isso é uma grande inovação”, evidencia a pesquisadora. 

Flávio Silva é presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), e perdeu sua filha, Andrieli Righi da Silva, no incêndio. Para ele, o dispositivo é fundamental no júri, uma vez que mostra como era a casa noturna. “Com todos aqueles obstáculos pela frente, mostra-se claramente que eles não tiveram praticamente nenhuma chance de escapar com vida lá de dentro”, afirma.

Salão maior, com a visão do palco: imagem gerada pelo escaneamento do Instituto de Criminalística do Distrito Federal.
Salão maior, com a visão do palco: imagem gerada pelo Dispositivo Interativo Digital.
Salão maior, com visão do palco: imagem real, após o incêndio.

Depois do júri, o dispositivo será disponibilizado ao público e o intuito é que se torne um memorial virtual. O projeto também terá continuidade. Com o encerramento do processo, o objetivo é ouvir as vítimas e testemunhas para aprimorar o dispositivo. A ideia é que ele ultrapasse a plataforma virtual. O plano da AVTSM é que a boate física seja demolida após o júri, e que no local seja construído um memorial, que vai ao encontro da luta das organizações na busca por memória e justiça, para que tragédias como a da Kiss não se repitam. No projeto do dispositivo, o próximo passo idealizado pela pesquisadora e sua equipe é trabalhar com a realidade aumentada, a fim de oportunizar aos futuros visitantes conhecer a Kiss antes da tragédia e, dessa forma, permitir maior compreensão sobre sua dimensão. Lucas menciona que é possível inserir pessoas no dispositivo, de forma simulada e virtual. Dentro dessa proposta, está a ideia de usar relatos e depoimentos autorizados das vítimas e testemunhas para reconstruir o percurso de saída da Kiss após o início do incêndio.

*O vídeo mencionado foi fornecido à Revista Arco pela equipe responsável pelo trajeto e simula o percurso dentro da Boate Kiss, desde a entrada até a saída.

Expediente

Repórter: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Tayline Alves Manganeli, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Créditos das imagens e vídeos: Dispositivo Interativo Digital

Tratamento de imagem: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/pronome-neutro-inclusao Fri, 12 Nov 2021 17:55:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8748

O uso do termo “amigue” em uma postagem na página do Facebook da Universidade Federal de Santa Maria gerou uma série de comentários ofensivos à instituição. A publicação sobre o Dia do Amigo, em julho deste ano, trouxe o chamado pronome neutro como uma forma de incluir pessoas que não se identificam com gêneros binários – feminino e masculino. Apesar da falta de consenso, principalmente por parte daqueles que não respeitam a comunidade LGBTQIA+, a linguagem neutra é tema de pesquisas acadêmicas. 

Os pronomes são marcas linguísticas de indicação de gênero para outros elementos da linguagem, como substantivos ou adjetivos. Essas palavras são classificadas de acordo com o gênero que indicam, seja feminino ou masculino. “Pronomes neutros são categorias gramaticais. Quando tratamos do tema da marca de gêneros não binários na linguagem, estamos, antes de tudo, tratando de uma questão relativa à linguagem inclusiva”, explica a professora Eliana Rosa Sturza, do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFSM. 

A professora salienta que o uso dos pronomes neutros para se referir a sujeitos, lugares e objetos é uma das formas gramaticais para a aceitação do outro e de seu gênero. Os termos neutros são normalmente utilizados para se referir a seres ou coisas neutras em gênero ou que não se integram nos gêneros binários. Na prática, trata-se da adição de uma terceira letra – além do “a” e “o” – como vogal temática. 

Por exemplo, quando alguém se identifica com o gênero feminino, podemos nos referir a esta como “ela” ou “dela”. Quando é masculino temos “ele ou “dele”. E quando uma pessoa não se identifica com os padrões de gênero, ou seja, é não-binária, podemos usar os pronomes “elu” ou “delu”. 

Além dos pronomes, os substantivos e os adjetivos também podem ter a vogal temática substituída. Ao falarmos de uma pessoa trans, por exemplo, em vez de falarmos “amiga” ou “amigo”, podemos usar “amigue”. No lugar de “bonita” ou “bonito”, pode-se adotar o adjetivo neutro “bonite”.

Liberdade de escolha

A utilização de termos neutros vai além da teoria: a  polêmica se dá devido às mudanças que o seu uso causa na língua portuguesa. Porém, a linguagem inclusiva está diretamente vinculada ao respeito e à diversidade. “A importância do uso da linguagem neutra e da adequação de gênero responde a um movimento político de inclusão, que ocorre conforme a sociedade incorpora novas formas no uso da língua”, ressalta a professora Eliana. Essa inclusão também permite que pessoas não-binárias tenham a liberdade de escolher aquele pronome que as deixa confortável. 

Abel Rodrigues, acadêmico do curso de Serviço Social da UFSM, é uma pessoa não-binária, mas opta pelo uso dos pronomes masculinos. “Eu acredito que isso é muito individual, uma questão de conforto. Cada pessoa se sente melhor com determinados pronomes. Para mim, são os masculinos. O uso de pronomes neutros é muito importante para a inclusão de pessoas não-binárias na sociedade, tendo em vista que, ao contrário da ilusão das pessoas, elas existem”, comenta.

Inclusão e diversidade na academia

Debates como o da inclusão pela língua portuguesa através do uso de pronomes, substantivos e adjetivos neutros não se mantêm apenas no âmbito social e político, mas também se tornam objeto de estudo e aplicação na academia. A professora Eliana Rosa Sturza é uma das entusiastas da inclusão da linguagem neutra na UFSM. “A universidade historicamente e, por princípio, se coloca na vanguarda, está atenta ao que ocorre ao seu redor e absorve daí suas grandes questões, suas posições frente aos temas que estão no centro do debate. Não seria e não deve ser diferente em relação à linguagem inclusiva”. A professora salienta que, na UFSM, já existe uma série de políticas que acolhem as demandas necessárias para promover o respeito à diversidade, como a resolução da Política de Igualdade de Gênero, aprovada em 13 de outubro deste ano, e a resolução que assegura o uso do nome social por pessoas trans, de  junho de 2015. Para ela, a linguagem inclusiva é mais uma destas políticas .

Eliana orientou o Trabalho de Conclusão de Curso em Letras de Camilla Cruz sobre uso da linguagem inclusiva no ambiente acadêmico. A professora já questionou textos de documentos como regimentos, regulamentos e formulários da UFSM. Mais da metade do corpo docente da universidade é de mulheres, mas a instituição ainda não utiliza o gênero feminino quando se refere, por exemplo, a um cargo de gestão exercido por uma mulher. Isso ocorre porque ainda se adota uma regra gramatical de referir o cargo, e não a pessoa que o ocupa. “Como coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras me causava espanto ver que nas capas das versões de teses para entrega na biblioteca, muitas vezes, o título de uma mulher vinha destacado como doutor e não doutora”, relata Eliana. A flexibilização do uso dos pronomes – feminino, masculino ou neutro – se dá como uma forma não apenas de inclusão, mas de empoderamento e de respeito para com a identidade de cada pessoa.

Apesar das polêmicas em torno do uso da terceira vogal temática, é importante lembrar que qualquer idioma é dinâmico e sofre alterações em função do uso. A língua portuguesa falada no Brasil é diferente da de Portugal. A escrita também passou por mudanças. Basta lembrar que não escrevemos mais “farmácia” com “ph” e que “aterrizagem” com “z”, que já foi erro de grafia, é considerada tão correta quanto “aterrissagem”. O idioma também tem convenções, como o Novo Acordo Ortográfico, que unificou a escrita em oito países que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa.  

Trata-se muito mais do que o uso do pronome neutro, mas sim da adaptação de toda a língua para que inclua pessoas de gêneros binários e não-binários. Para Eliana, o uso da linguagem inclusiva é uma posição política que tem ligação com o respeito às diversidades. “A adequação de gênero responde a um movimento político de inclusão. A importância do seu uso vai ocorrer conforme  a comunidade vai incorporando as formas no uso da língua, e quem faz essa incorporação/inclusão são os falantes da língua”.

Expediente

Reportagem: Alice Santos, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Ilustração: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/midias-sociais-migrantes-senegaleses Wed, 13 Oct 2021 13:34:35 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8700

Participação social, construção de narrativas de si e manutenção de vínculos. Esses são alguns dos elementos que os usos sociais das mídias proporcionam na experiência migratória de senegaleses no Brasil. 

É o que evidenciou uma pesquisa realizada no Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM e coordenada pela professora Liliane Dutra Brignol. O estudo é fruto de um amplo projeto de pesquisa chamado “Comunicação em rede, diferença e interculturalidade em redes sociais de migrantes senegaleses no Rio Grande do Sul”, que, de 2014 a 2018, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), buscou investigar as dinâmicas de comunicação em rede e as lógicas de redes sociais articuladas pelos migrantes senegaleses no estado do Rio Grande do Sul.

Em um artigo publicado neste ano, a professora expõe os resultados desse trabalho e busca discutir qual o papel que as mídias digitais e em rede assumem na organização das redes migratórias. Isto é, como a comunicação em mídias sociais e aplicativos de mensagens, por meio do uso de aparatos tecnológicos, como computadores e celulares, afetam a experiência migrante. O intuito foi conhecer como se articulavam as relações sociais tanto entre os migrantes, quanto entre os migrantes e a população local.

A metodologia da pesquisa reuniu um conjunto de técnicas, dentre elas a observação simples e a observação participante. A observação simples consistiu no acompanhamento de redes sociais online, páginas, comunidades e perfis no Facebook. Já a observação participante, aquela que possibilita a inserção dos pesquisadores nas vivências dos grupos em estudo, os aproximou de entidades de apoio à migração, associações e até de festividades e reuniões promovidas pelos migrantes. Além das conversas informais, o estudo também contou com entrevistas estruturadas com os sujeitos pesquisados.

O encontro com esses migrantes contou com a parceria do MIGRAIDH, Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão Direitos Humanos e Mobilidade Humana Internacional da UFSM, no qual Liliane integra uma das linhas de pesquisa. Desde 2013, o grupo desenvolve ações na área de direitos humanos e de integração local da população migrante e refugiada, o que permitiu a entrada no campo dos estudos migratórios com a presença dos senegaleses. 

Todo esse percurso levou tempo, segundo a professora Liliane, mas foi essencial para a inserção na vivência dos migrantes e trouxe percepções importantes acerca dos usos sociais das mídias por eles. Conforme a pesquisadora, as tecnologias se mostraram essenciais tanto no processo de deslocamento, quanto em toda a trajetória migratória. “Percebemos o papel da mídia e da internet na mediação da construção dessas narrativas migrantes, de outras formas de visibilidade e reconhecimento da experiência migratória”, destaca.

O uso das mídias na construção de identidades migrantes

A investigação mostrou que são assumidos sentidos de participação social quando as tecnologias em rede são utilizadas, por exemplo, para o aprendizado formal e informal de português. Conteúdos em formato de vídeo são produzidos e compartilhados em redes sociais para o ensino do idioma, algo essencial tanto para integração dos sujeitos na cultura brasileira, mas também para que possam se inserir no mercado de trabalho. Esse tipo de ação é realizada por projetos como o “Senegal, ser negão, ser legal”.

Também foi observado o local central que os usos sociais da mídia ocupam na construção de narrativas migrantes – muitas vezes, como uma forma alternativa às narrativas construídas pela mídia tradicional. Na pesquisa, são apresentados projetos de produção de conteúdos para canais de TV voltados à cultura senegalesa, mas que buscam também estabelecer diálogos com outras nacionalidades. É o caso do Sene Brasil TV e o Touba Brasil TV Rio Grande do Sul. A apropriação das redes sociais online também permite que os próprios sujeitos contem suas histórias e coloquem em circulação questões referentes às suas identidades. 

A manutenção de vínculos com familiares e amigos que permanecem no Senegal também se dá, principalmente, por aplicativos de mensagens, como Whatsapp, Viber e Emo. Tendo em vista o caráter transnacional desse tipo de migração, a tecnologia é essencial para manter conexões e interações que transcendem os limites territoriais. 

A comunicação pela internet é importante para garantir o contato com conhecidos, amigos e parentes que já migraram, estabelecendo uma rede de apoio na organização e na dinâmica migratória. Há ainda uma relação presencial, mas também mediada pelas tecnologias, principalmente para troca de informações sobre o contexto local, como ofertas de emprego e moradia.

Publicação com divulgação de live que promove a integração entre membros de um dos coletivos observados pela pesquisa. Print tirado na página do Facebook "Senegal, Ser Negão, Ser Legal".

Mas, para além disso, as redes de apoio também se constituem nas associações, movimentos, clubes, vivências religiosas e outros espaços que são construídos pelos migrantes e que também funcionam a partir da mediação de contato pelas mídias sociais e em rede. 

De acordo com o estudo, o processo de migração acompanhado da apropriação das tecnologias da mídia é capaz de ressignificar a experiência diaspórica e de cidadania migrante. A docente explica que o conceito de diáspora, neste caso, é entendido como identidades em deslocamento, que passam a ser construídas em uma relação de identificação com a nova cultura, mas também de diferença pelo pertencimento à terra de origem.

Ao considerar a migração não apenas um deslocamento físico, mas cultural, Liliane destaca a importância de se estudar o tema pelo olhar da comunicação. “Um migrante não migra sozinho, ele já faz parte de uma rede. Ele traz esses laços familiares, culturais, suas vivências, bagagens, histórias e vai dinamizar também essas relações sociais e culturais nos locais para onde ele migra”, ressalta. 

Publicação com mensagem antirracista de uma das páginas que compõem a pesquisa. Print tirado na página no Facebook "Senegal, Ser Negão, Ser Legal".

Diante disso, o uso das tecnologias da mídia se tornam fundamentais, pois os indivíduos passam a se valer da conexão para ampliar interações e colocar em contato suas identidades, diversidades e diferenças de maneira mais dinâmica. As mídias também são apropriadas no sentido de tematizar os preconceitos sofridos pela população migrante, como racismo e xenofobia. As questões são abordadas tanto nos perfis pessoais, quanto nas páginas dos projetos e coletivos formados por eles. Ao perceberem essas condições passam a reivindicar e construir novas formas de representação. 

Expediente

Reportagem: Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária

Ilustração: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/agosto-dourado-aleitamento-materno Mon, 30 Aug 2021 13:46:06 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8641

“O leite materno é a base da vida”. Essa frase é da professora Beatriz da Silveira Porto, do Departamento de Pediatria e Puericultura do Centro de Ciências da Saúde da UFSM. Para ela, que também é Coordenadora do Comitê de Aleitamento Materno do HUSM/UFSM, o leite materno é o melhor alimento para o bebê – mesmo prematuro, pois tem um grande poder para o desenvolvimento e é determinante na saúde do mesmo.  “É um alimento espécie-específico, aprimorado por milhares de anos para o filhote humano. É um alimento vivo, produzido especificamente para o bebê e, por isso, o mais indicado sob qualquer ponto de vista”, complementa. O leite materno está ligado ao desenvolvimento nutricional, metabólico, imunológico, motor e cognitivo.

Entre os benefícios do aleitamento materno desde os primeiros minutos de vida está a formação da microbiota intestinal, também conhecida como flora intestinal. Ela é um conjunto de microorganismos, formado de bactérias, que vivem e se desenvolvem no intestino, mas que são benéficas para a saúde humana e a influenciam do nascer até a idade adulta. A microbiota não existe no intra-útero, ou seja, dentro do útero da mãe, e começa a ser formada a partir do nascimento do bebê. “Ela começa a se desenvolver no momento que o neném nasce. Então aquele primeiro alimento que você coloca é aquele que vai dar a base para aquela plantação, e isso vai até o resto da vida”, explica Beatriz. 

Outra vantagem do leite materno como alimento principal é na prevenção de doenças. Isso acontece pela prevenção de gatilhos que podem ser ativados nos dois primeiros anos de vida de um ser humano. Estes podem ser de herança genética, que são maleáveis nesse período. Para Beatriz Silveira Porto, quando há um desbalance importante nesse início, há possibilidade de ativação desses gatilhos e, como consequência, problemas de saúde na idade adulta. Com a amamentação, a criança está mais protegida dessa ativação. Como exemplos ela cita a proteção contra obesidade, síndromes metabólicas, doenças cardiovasculares e diabetes. 

Além disso, o leite materno também ajuda no desenvolvimento cerebral e no aumento dos índices de quociente intelectual. É possível observar os pequenos progressos que a criança tem nos primeiros meses de vida, como a descoberta dos dedos, mãos e pés, os movimentos dos braços e pernas, o olhar atento para o mundo à sua volta. Com o passar dos meses, o bebê começa a segurar objetos, fazer sons e buscar a repetição dos sons que ouve. O ganho de peso também tem a ver com isso: “Nos primeiros três meses de vida, ela [a criança] ganha tanto peso, a velocidade de crescimento dela é tão grande que é como se a gente fosse de cinquenta para noventa quilos em três meses”, explica Beatriz.

Agosto Dourado e a livre demanda

Agosto Dourado é considerado o mês do incentivo ao aleitamento materno. A cor faz referência ao leite materno, avaliado como “alimento de ouro”, uma vez que tem tudo que o bebê necessita para um crescimento saudável. Além disso, a intenção é que haja incentivo ao aleitamento por livre demanda. 

O movimento é mundial, e o lema da Semana de Aleitamento Materno deste ano, que aconteceu de 1º a 7 de agosto, foi “Proteger o Aleitamento Materno: Uma responsabilidade compartilhada”. Paola Souza Castro Weis, enfermeira assistencial no HUSM e consultora em Aleitamento Materno, explica que o tema leva em conta que amamentar é um direito de todos. “O bebê que é alimentado no peito demanda mais, com certeza. A gente defende a amamentação por livre demanda, que é quando o bebê vai mamar sempre que precisar”, reitera. Ela expõe que, nesse sistema, a metabolização do alimento é mais rápida, assim como a evacuação. Por ser um alimento ajustado ao bebê, a metabolização é feita naturalmente e o estômago esvazia mais rapidamente. Por isso que um bebê mama em intervalos curtos, geralmente de duas em duas horas.

Beatriz Silveira explica que a livre demanda é fundamental, uma vez que está relacionada aos mecanismos de autorregulação do bebê e que são importantes também para a idade adulta. “Quando a criança tem esse sistema de autorregulação protegido nos primeiros meses, ela leva isso para a idade adulta, os distúrbios alimentares são mais raros, porque ela preservou esse sistema de autorregulação que também é da espécie”. Paola diz que é por esse motivo que a chupeta não é recomendada, uma vez que o exercício de sucção que deveria ser feito na mama é feito no bico artificial. Por causa do formato, o movimento não é o mesmo e, no caso da chupeta, é incorreto, o que confunde o movimento que deveria ser feito na sucção do leite do seio da mãe.

Quem determina a produção do leite materno é o bebê

A indicação profissional é de que o aleitamento materno se inicie em até uma hora após o nascimento, de preferência nos primeiros minutos de vida. Essa prática facilita a pega correta do seio da mãe, o que propicia que o bebê tenha mais agilidade em sugar o leite. “Logo após o nascimento, o bebê está alerta e se posicionará instintivamente, abocanhando corretamente o mamilo e a aréola, sendo muito importante para o sucesso do aleitamento”, explica Beatriz. A recomendação é de que ele saia do útero direto para o peito. Se houver banho e outros procedimentos antes, a criança poderá estar sonolenta e cansada, o que dificulta a pega correta e, logo, a amamentação, desde o início do processo. 

Em casos em que não há pega correta desde o início, a produção de leite da mãe pode cair e ser prejudicada por fatores como nervosismo e estresse. Marinez Casarotto, médica pediatra neonatologista e chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do HUSM, conta que a mãe produz o leite conforme a necessidade do bebê, e que a demanda muito frequente é mais intensa nos primeiros dias de vida. Já Paola Weis explicita que essa produção de leite materno é diretamente ligada à sucção, que precisa ser frequente no início para que a produção se ajuste. É como se fosse uma fábrica comandada pelo bebê: “o peito não é estoque, ele é fábrica, ele não tem que estar cheio para amamentar. Conforme amamenta, ele vai produzindo e alimentando o bebê”. Beatriz complementa a metáfora ao dizer que a fábrica trabalha sob demanda a partir dos sinais do mamar: é a sucção que ativa a produção de leite para a próxima mamada. 

A sucção gera impulsos sensoriais no mamilo e faz com que as terminações nervosas que ficam no seio levem os estímulos – ou “avisos”, para a glândula adeno-hipófise, que fica no cérebro, e é responsável por produzir e liberar a prolactina e a ocitocina, os dois hormônios da amamentação. A prolactina atua nas células alveolares mamárias, produzindo o leite; e a ocitocina ativa o reflexo da “descida” do leite, que é liberado nos ductos e seios lactíferos até os orifícios do mamilo, pelos quais o bebê suga. “Por isso que é importante que haja sempre a sucção, porque se a sucção parar, a fábrica vai entender que não tem mais saída, que o produto não tá vendendo mais, então não precisa mais fazer, né?”, detalha a coordenadora. Esse processo se relaciona com a autorregulação que, para Beatriz, é um dos mecanismos fantásticos do aleitamento.

Há casos, no entanto, em que a produção do leite materno cai ou cessa completamente. Um dos motivos, de acordo com as três profissionais, é quando não há sucção da mama, ou então quando os ductos lactíferos estão cheios, com muita produção, e esta não é liberada pelos seios e mamilos. Segundo Beatriz Silveira, a ausência da ocitocina também pode contribuir nesta interrupção da produção, e esta inibição pode ser por fatores como preocupação, estresse, dúvidas e até mesmo a dor. Beatriz destaca que a ocitocina é o “hormônio do amor”, uma vez que é favorecida quando a mãe está confiante, quando olha, interage e ouve os sons do bebê. “Por isso, se diz que a produção do leite materno decorre de uma complexa interação neuro-psico-endócrina, necessitando um olhar atento e amplo dos profissionais e da rede de apoio”. Ela salienta que todos os mecanismos de promoção, proteção e orientação ao aleitamento materno são importantes para a manutenção do mesmo a longo prazo. É a partir desse princípio que o Comitê de Aleitamento Materno do HUSM da UFSM atua.

A promoção do aleitamento materno é um trabalho multiprofissional

O Comitê de Aleitamento Materno do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) é um grupo multiprofissional que atua a partir de ações de promoção e proteção do aleitamento materno. Eles definem diretrizes, protocolos e fluxos dentro do HUSM, além de promover capacitações sobre amamentação tanto para as mães quanto para os diversos profissionais envolvidos. A equipe é formada por professores, enfermeiras (os), médicas (os), obstetras, pediatras, fisioterapeutas, fonoaudiólogas (os), psicólogas (os), assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, e também conta com o apoio de estudantes residentes, residentes médicos e multiprofissionais. 

Beatriz Silveira destaca que o processo da amamentação é amplo e não envolve apenas aspectos técnicos, mas também emocionais e fisiológicos. “A fisiologia do aleitamento envolve muitos aspectos emocionais. A própria estimulação dos hormônios da lactação dependem de disposições emocionais, também de anatômicas e fisiológicas”, comenta. O sucesso da amamentação envolve muitas etapas e, por isso, é importante que a equipe do comitê seja multidisciplinar. “São vários contextos, precisa, justamente, esse apoio mais multidisciplinar que enxergue toda essa integralidade, todos os aspectos em um contexto mais integral da saúde”, expõe. Cada um dos profissionais tem um ponto de abordagem e ajudam, a partir de seus conhecimentos específicos, para o sucesso da amamentação.

Uma das maneiras de atuação do comitê é a partir de capacitações que ensinam, para a mãe, a pega correta e os pormenores do processo, e para os profissionais do hospital, as necessidades de acompanhamento da execução da amamentação. Paola conta que a capacitação para os funcionários surgiu do comitê: “Mas não apenas aqueles que atuam diretamente com o aleitamento materno, a capacitação vai desde o porteiro até a copa, então afeta todos os profissionais”. A ideia é que todos saibam o que é melhor para a criança.

Outra função do comitê é por meio da extração do leite materno quando os bebês estão nas unidades de internação do HUSM – que incluem a Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal, o Alojamento Conjunto, a Unidade de Tratamento Intensivo Pediátrico e a Unidade de Internação Pediátrica, seja por terem nascido prematuros, seja por terem alguma doença ou problema que necessite de mais cuidados. Nesses casos, não há possibilidade de amamentação no seio da mãe. A fim de não perder o contato com o leite materno, os profissionais do comitê auxiliam na extração do leite e administram ele ao bebê. Marinez Casarotto explica que é feita a oferta somente do leite fresco, in natura, em até 12 horas depois da extração, uma vez que ainda não há banco de leite no hospital.

Nem sempre a extração é possível, uma vez que muitas mães não são de Santa Maria e não têm condições de estar presentes no hospital cem por cento do tempo: às vezes tem outros filhos pequenos em casa ou não conseguem se deslocar até a cidade todos os dias, principalmente quando a internação é duradoura. Nesses casos, os profissionais precisam ofertar a fórmula láctea em substituição ao leite materno. Beatriz explica que há boas fórmulas lácteas disponíveis no mercado, alinhadas com o perfil de macronutrientes e micronutrientes do leite humano, mas que, ainda assim, as características nutricionais do último são superiores a qualquer fórmula. Por exemplo, as gorduras de cadeia longa presentes no leite materno são difíceis de mimetizar nas fórmulas, tanto na proporção quanto na especificidade. Com as fórmulas, nem sempre há a absorção de todos os nutrientes presentes pelos bebês, justamente por essa dificuldade de reprodução de todas as características do leite materno.

Paola revela que uma das conquistas do comitê é a necessidade de prescrição da fórmula láctea por um médico. “Antes a gente tinha a fórmula ali, disponível. Hoje ela não é mais disponibilizada, ela só é ofertada com prescrição médica”. Essa prescrição segue protocolos rígidos, que definem em quais situações há a prescrição dessa fórmula. A intenção é o incentivo ao aleitamento materno em todas as situações em que este for possível.

Além do comitê, o HUSM possui um Posto de Coleta, que permite a realização das coletas de leite das mães, do envase no lactário e da administração aos bebês internados – de cada mãe para seu bebê. O posto de coleta é vinculado ao Banco de Leite de Rio Grande. A diferença entre o primeiro e o segundo é que o banco de leite é uma unidade que faz todas as etapas do processamento, desde a promoção do aleitamento por meio das atividades de coleta, quanto do processamento e controle de qualidade do leite que é produzido nos primeiros dias após o parto. O posto de coleta não possui as fases de processamento e análise do leite; neste, o leite é coletado na mãe e administrado em seu bebê. Nos bancos de leite humano, cuja estrutura é mais completa, há a possibilidade de doação de leite de mães com excesso de produção para outros bebês que não os seus. O leite também dura mais tempo, já que é processado. 

Um dos próximos passos do Comitê de Aleitamento Materno do HUSM é a busca da instalação de um Banco de Leite Humano em Santa Maria. As profissionais entrevistadas contaram que é uma das prioridades do hospital, e que, para isso, há necessidade de investimento em equipamentos, materiais, profissionais e ampliação da área do atual Posto de Coleta. No entanto, devido à estrutura e às ações que já existem, é um objetivo palpável.

Expediente

Reportagem: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Eloíze Moraes estagiária de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/souparte-doacao-por-assinatura Fri, 27 Aug 2021 13:43:24 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8639

“Existem vários exemplos de assinaturas em nosso cotidiano, como Spotify, Netflix e Amazon Prime. Por que não assinar uma ONG também?”. Com essa fala, o professor da UFSM Luciano Mattana sintetiza a proposta da Sou Parte: ser um sistema inovador no qual o usuário pode fazer doações mensais e recorrentes para causas e ONGs sociais, sobretudo em formato de assinaturas.

A iniciativa surgiu em uma disciplina de Mattana no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade. “No trabalho final dessa disciplina, a proposta era a gente identificar alguns problemas da sociedade”, explica a relações públicas Mari Luana Pozzobon, sócia fundadora da Sou Parte. A experiência anterior de Mari, que por um ano tinha trabalhado como assessora de comunicação em uma instituição beneficente, foi o que a inspirou a iniciar o projeto: “Acabei conhecendo um pouco sobre a realidade da organização, as dificuldades – principalmente na captação de recursos – e como era difícil para a instituição se manter”. A estudante levou essa vivência para o professor e, juntos, eles idealizaram e colocaram em prática a plataforma.

“Eu vi isso ao longo da minha vida inteira. As instituições sofrem com a pontualidade dos projetos, com a rotatividade de pessoas que vão ajudar, voluntários, funcionários, ou seja, tudo tem um ciclo efêmero. Há um esforço em renovar esses ciclos a todo momento, não há continuidade”, constata Mattana. O principal objetivo da Sou Parte é, portanto, resolver tal rotatividade das ONGs:  “Conta de luz vem todo mês, salário é todo mês, conta de mercado é todo mês. Não é você ir lá e doar uma vez e pronto. Os problemas acontecem diariamente. A Sou Parte enxerga dessa forma, não como doações pontuais, mas como assinaturas”, salientam os idealizadores do projeto. 

A Sou Parte está vinculada à Incubadora Tecnológica da UFSM: “Incubou no início da pandemia. A gente iniciou o projeto em julho de 2020, quando as coisas ainda estavam meio instáveis”, conta Mari. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) mostrou que, nos primeiros meses da pandemia, cerca de R$6 bilhões foram doados para as ONGs, mas, com o passar dos meses, essas contribuições diminuíram. É aí que entra a importância das doações recorrentes: essa maneira de ajudar é o que sustenta o trabalho e gera a noção de compromissos que as instituições podem ou não assumir de acordo com a receita que dispõem. 

Instituições beneficiadas

Até o momento, a Sou Parte atende a duas instituições em Santa Maria. Uma delas é o Centro de Desenvolvimento Comunitário (CDC) Estação dos Ventos, no bairro João Goulart. O CDC busca atender às necessidades básicas da comunidade local, especialmente crianças de até seis anos, ao proporcionar melhor qualidade de vida, lazer e alimentação, em local adequado, onde possam passar o dia enquanto seus pais trabalham. A outra ONG é o Lar Vila Itagiba, instituição de longa permanência, sem fins lucrativos, na qual vivem 63 idosos. “A instituição se mantém com 70% da aposentadoria dos idosos. Esse valor não cobre nem nossa folha de pagamento de colaboradores. Além disso, nós temos a destinação do imposto de renda, que é variável, temos as doações de pessoas físicas, promovemos rifas e eventos, e participamos de editais”, explica Karoline Arend, funcionária da instituição. Ela comenta que a Sou Parte chega como um aliado e uma possibilidade de segurança financeira: “É uma forma que podemos receber doações recorrentes e, com isso, planejar de maneira mais clara onde iremos investir o recurso”. 

Na prática, como funciona?

Em fase de testes, o projeto está cadastrando organizações e causas sociais e, em breve, terá diversas ONGs para que o usuário possa apoiar o projeto com o qual mais se identifica.

Na plataforma, as doações funcionam a partir de assinaturas, o usuário tem a possibilidade de realizar uma assinatura via cartão de crédito para doar todos os meses ou fazer uma única doação (cartão de crédito, boleto ou pix). Além disso, o sistema permite o acompanhamento da aplicação dos recursos e a identificação do impacto social que as doações geram. Tal transparência visa deixar o doador seguro para assinar a Sou Parte.

E quais os benefícios?

Segundo os idealizadores, aderir a esse tipo de doação é uma boa escolha, porque o doador ganha a possibilidade de colaborar com as ONGs, de uma maneira prática e constante, em um formato que não demanda disponibilidade ou tempo do assinante. 

Entre os benefícios oriundos da receita recorrente, a ONG passa a contar com a previsibilidade de receita, a possibilidade de profissionalização dos serviços diante da entrada regular de verbas e, consequentemente, a sustentabilidade financeira. 

A partir disso, a sociedade ganha com a viabilização de empreendimentos sociais, geração de emprego e renda em entidades e redução de desigualdades socioeconômicas.

Expediente

Repórter: Ana Luiza Deicke, acadêmica de Jornalismo da Universidade Franciscana (UFN) e estagiária

Ilustrador: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; e Eloíze Moraes estagiária de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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Sociedade – Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/malawi-coracao-afetuoso-da-africa Thu, 01 Jul 2021 10:55:40 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=8514

De julho a outubro de 2018, o professor aposentado de Gastroenterologia do Departamento de Clínica Médica da UFSM Renato Fagundes trabalhou como voluntário na República do Malawi, país da África Oriental. A viagem se deu pelo consórcio AfrECC, um projeto realizado entre o National Institute of Health (NIH) e outros grupos, que identificaram crescente número nos casos de câncer esofágico entre a população malawiana. 

O Rio Grande do Sul, juntamente com o Uruguai e o norte da Argentina, constituem a área de maior risco para esse tipo de câncer na América do Sul. Ciente disso, Fagundes sempre se dedicou ao estudo de tumores no esôfago, com mestrado e doutorado nessa área. O médico relatou à Revista Arco sobre as experiências e trabalhos desenvolvidos no país africano:

Povo de Malawi, crenças e costumes

Malawi é conhecido como The warm heart of Africa, que eu traduziria livremente por “o coração afetuoso da África”. Eu brincava constantemente dizendo que estava em busca de um um malawiano desagradável e não conseguia encontrá-lo. A afetividade e a disponibilidade em ajudar demonstrada pelas pessoas são muito grandes. Em geral, são pessoas bem-humoradas, um pouco tímidas no primeiro contato e, como a maioria dos africanos, extremamente musicais, caindo na dança por qualquer motivo.

É um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do mundo. Foi colônia do Reino Unido até 1964. O idioma oficial é o inglês, porém uma significativa parte da população não se comunica nesse idioma, mas em alguns dos diferentes dialetos, dos quais o mais comum é o chechewa. A economia é baseada na agricultura, com a maior parte da população vivendo na área rural. O Malawi tem uma baixa expectativa de vida (ao redor de 50 anos), apresenta altas taxas de mortalidade infantil e uma alta prevalência de HIV/AIDS. O risco para doenças infecciosas é muito alto, incluindo hepatite A, febre tifoide, malária e esquistossomose.

Lilongwe

Lilongwe é a capital de Malawi, situa-se na região central do país. Apesar de existir como cidade de pequeno porte há mais de 60 anos, adquiriu importância quando foi elevada à condição de capital, em 1975, quando passou a apresentar um aumento da população, que atualmente ultrapassa um milhão de habitantes. Nestes 43 anos de existência, Lilongwe é uma cidade em construção, com algumas vias asfaltadas e muitas ruas sem calçamento. A existência de calçadas para pedestres é quase nula. Os pedestres dividem os acostamentos das vias asfaltadas com ciclistas e com motoristas afoitos que invadem o acostamento colocando todos em risco. 

Localização do Malawi no continente africano

É uma região árida e seca, nos meses de julho a outubro não chove e a poeira é uma constante. É uma cidade espalhada, com grandes intervalos sem construções, com iluminação e limpeza precárias, com muitas desigualdades, predominando pessoas de baixa condição social, econômica e cultural. Contrastando com a pobreza geral, existem construções públicas suntuosas como os prédios do parlamento, a residência do presidente, o banco central e as embaixadas, assim como o centro internacional de convenções e o estádio de futebol Bingu National Stadium. Apesar das desigualdades, a taxa de criminalidade é baixa e durante o dia é possível se mover em qualquer área da cidade em segurança.

Biópsias e próteses

O projeto funciona em dois contextos, um trabalho de campo, que visa a inclusão de pacientes com câncer esofágico, e outro de controles sem câncer. A abordagem inicial é feita através de questionários que visam identificar fatores de riscos, ambientais e familiares, seguidos de endoscopia digestiva alta nos pacientes com suspeita ou já diagnosticados previamente com câncer do esôfago. Nesses pacientes, são coletadas biópsias seguindo um protocolo padrão para todos os centros, e colocação de próteses metálicas expansíveis nos pacientes com obstrução esofágica, visando que eles possam deglutir. As biópsias vão ser alvo de identificação de marcadores moleculares para se formar um perfil molecular desses tumores. As próteses são uma inovação de origem chinesa, muito simples e de custo muito baixo, e estão sendo testadas nesses pacientes, aparentemente com bons resultados. Esse projeto é de longo prazo e envolve uma série de questões de pesquisa e de abordagens, com resultados previstos para os próximos cinco anos. 

Kamuzu Central Hospital (KMC)

Fiz a opção para desenvolver o projeto em Lilongwe por ser a região mais carente de pessoal para a realização de exames e procedimentos endoscópicos e, de forma contrastante com o ambiente geral de carência, possuir uma unidade da UNC com laboratórios de ponta para a realização de análises moleculares e genômicas. O Kamuzu Central Hospital é um hospital terciário de referência em Lilongwe, tem em torno de mil leitos, mas muitas vezes sua capacidade é excedida pelo número de pessoas da região (aproximadamente cinco milhões) que estão em sua área de abrangência. A maior parte dos leitos é ocupada por pacientes com HIV/AIDS. Em 2017, aproximadamente 70% dos óbitos ocorridos no hospital foram causados por HIV/AIDS. Exerci minha atividade basicamente na unidade de endoscopia digestiva. Um hospital dessa dimensão tem apenas dois médicos habilitados a realizar exames endoscópicos, e ambos são cirurgiões gerais, também responsáveis pelas cirurgias do hospital. Além disso, uma vez por semana eles devem viajar para os distritos satélites de Lilongwe para executarem pequenas cirurgias, de forma a manter os pacientes nos hospitais distritais. Devido a essa sobrecarga, a realização de endoscopia digestiva fica restrita a duas manhãs por semana, e muito frequentemente, em virtude de alguma urgência cirúrgica, os exames endoscópicos são suspensos.

Entrada do hospital. 

Desafios na rotina de trabalho

A dificuldade inicial foi que, contrariando a norma mundial de se efetuar endoscopia digestiva com sedação, no KMC, por razões econômicas, as endoscopias eram realizadas sem que o paciente estivesse sedado. Foi preciso muito argumento para conseguir sedativos, que, depois de algum tempo, faltaram e não foram repostos. A essa dificuldade, se somaram as relacionadas a equipamento deficiente e falta de pessoal treinado para auxiliar nos procedimentos. A unidade dispunha de somente uma funcionária fixa, que era aposentada e participava de um programa de aproveitamento de aposentados com salário irrisório. 

Um dos procedimentos relacionados à pesquisa incluiu o tratamento paliativo do câncer de esôfago avançado pela colocação de uma prótese metálica expansível através do tumor esofágico. É uma técnica que permite que o paciente possa deglutir e não venha a sucumbir pela fome e pela sede. Para a colocação dessa prótese, é necessário proceder a dilatação do tumor através da inserção de sondas de calibre progressivo, até se atingir um túnel adequado para se introduzir a prótese. Trata-se de um procedimento extremamente doloroso, que deve ser realizado sob sedação e analgesia. Na maior parte das vezes, os sedativos e analgésicos estavam em falta e tive de executar o procedimento sem sedação, surpreendentemente com pouca reação por parte dos pacientes. 

O equipamento de endoscopia consta fundamentalmente de duas partes: o tubo que é introduzido no tubo digestivo do paciente e uma processadora que gera a iluminação no interior do órgão e processa a imagem para um monitor. A única processadora era mantida ligada por, literalmente, um “curativo” feito com gases e esparadrapo que mantinham pressionado o botão comutador do aparelho. Quando eu cheguei estava assim, e assim permaneceu até a minha partida. Sem contar com os frequentes “apagões” de energia elétrica, que podiam durar alguns segundos ou se prolongar por tempo indefinido. Muitas vezes, com o endoscópio dentro do paciente, ficava na dúvida se deveria retirá-lo e aguardar a vinda da luz ou esperar com o instrumento inserido até a volta da energia. Esses apagões aconteciam em média cinco a seis vezes por dia.

“Curativo” que mantinha ligada a processadora do endoscópio.

Quando a vida diz para deixar a infância

Uma menina de 11 anos, vinda de um distrito distante, acompanhada da mãe, compareceu no dia aprazado para realização de endoscopia digestiva alta, indicada para esclarecimento de vômitos com sangue há dez dias. Não havia sedativos disponíveis. Explicamos a situação para a mãe e solicitamos que ela definisse um dia para o agendamento com o anestesista. A mãe, muito angustiada, disse que seria impossível voltar outro dia pois não teria dinheiro para a condução. Todo o dinheiro que dispunha tinha sido gasto nas passagens daquele dia. Expliquei, via intérprete (ela não falava inglês), os desconfortos do exame e as possíveis reações a esses desconfortos. Omiti minha angústia de realizar o exame em uma criança de 11 anos, a mesma idade de minha neta. A mãe conversou alguns minutos com a menina em dialeto chechewa. 

Depois de um diálogo permeado de temor e ansiedade, a mãe falou com a enfermeira que servia de intérprete. A tradução da enfermeira, seguida do olhar ansioso da mãe, foi que eu não só poderia, como deveria fazer o exame, garantindo que a menina suportaria os desconfortos com a menor reação possível. Considerando que a menina poderia sofrer outros episódios de hemorragia digestiva, tomei a difícil decisão de tentar o exame. Somente com um spray de xilocaína na garganta para reduzir o reflexo de vômito, iniciei o exame. A reação da menina foi mínima, fez uma arcada de vômito, na introdução do endoscópio, e permaneceu imóvel, com lágrimas escorrendo de seus olhinhos fechados durante o tempo que durou o exame. 

A suspeita diagnóstica se confirmou. Ela apresentava varizes esofágicas de grande calibre e com sinais de sofrimento, o que significa risco de novos sangramentos. Para realizar o procedimento, é necessário retirar o endoscópio, montar o kit de ligadura elástica no endoscópio e reintroduzi-lo. A resposta da menina para nossa explicação foi um cerrar de dentes seguido de um balançar afirmativo da cabeça. Reintroduzimos o endoscópio com o kit de ligadura, que torna um pouco mais desconfortável a introdução. Houve a mesma reação do início do exame, seguido de lágrimas. Consegui colocar com sucesso cinco anéis nas varizes e completei o procedimento. Ao terminar, ela se abraçou à mãe e deixou vir o choro contido, soluçando convulsivamente, sem emitir nenhum som. Foi de cortar o coração.

Jornada de uma mãe ao fundo de sua dor

Este foi um dos fatos mais tristes que presenciei em minha vida calejada de médico. Uma criança de colo morreu no hospital. Uma enfermeira enrolou cuidadosamente seu corpinho inanimado em um lençol e o entregou à mãe, que estava sozinha. A mãe, num silêncio profundo que gritava aos corações de quem estava presente, colocou o pequeno fardo em seu xale, colocou-o em suas costas e iniciou sua jornada solitária para casa, distante quatro horas de caminhada. Confesso que me foi impossível reter as lágrimas ao ver aquela mãe afastando-se lentamente em direção ao seu destino, para enterrar sua carga física juntamente com a dor de sua alma.

O que Malawi me acrescentou

Sempre considerei a resiliência, a capacidade de adaptação e a tolerância como os pontos fortes de minha personalidade. Essas características foram testadas ao máximo em minha estada no Malawi. A carência de medicamentos e materiais limitando um trabalho adequado pode ser frustrante, mas é melhor fazer improvisando do que não executar a tarefa. Trabalhar com funcionários despreparados, e muitas vezes indolentes em situações delicadas, representou um grande esforço de autocontrole. Ao me sentir violentado por fazer procedimentos sem um mínimo de alívio do paciente aos meus cuidados, tive de me consolar que todo o sofrimento infligido por meus atos iria ser compensado pelos resultados decorrentes do procedimento. Acho que contribuí de forma significativa, tanto do ponto de vista científico quanto do ponto de vista humano e social, mas deixo os testemunhos de minhas ações em Malawi para os representantes das organizações, que promovem e patrocinam estas ações, com quem convivi.

Ao lado de uma paciente.

*Texto: Renato Fagundes

Expediente:

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes e Martina Pozzebon, estagiárias de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb, jornalista

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