Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco Jornalismo Científico e Cultural Thu, 05 Jun 2025 16:06:20 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco 32 32 Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/algumas-vacinas-podem-causar-autismo Thu, 05 Jun 2025 16:06:18 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10040 As vacinas são um dos principais avanços da ciência no combate a infecções preveníveis e no controle de epidemias. No entanto, nos últimos anos, tem sido um desafio manter os índices de imunização da população brasileira dentro dos níveis ideais, em parte devido à disseminação de desinformação sobre seus possíveis efeitos. Mesmo sem evidências científicas que sustentem essa crença, a ideia de que “algumas vacinas podem causar autismo” ainda divide opiniões. Segundo a pesquisa “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil” de 2023, quase 35% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, com essa afirmação.

O movimento antivacina, que voltou a ganhar força especialmente após a pandemia de Covid-19, tem contribuído para esse cenário. Entre os argumentos frequentemente resgatados pelos opositores da vacinação está a polêmica em torno de um artigo publicado, em 1998, pelo médico inglês Andrew Wakefield.

No estudo, ele sugere uma ligação entre a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) em 12 crianças. O artigo foi desmentido em 2004, e Wakefield perdeu sua licença médica, porém essa associação levou a uma queda nas taxas de vacinação e ao fortalecimento de grupos contrários à imunização.

O que é autismo?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dois grupos principais de sintomas: déficits na comunicação e interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento e/ou interesses. 

A psicóloga Franciele Farias explica que algo que auxilia no entendimento das causas do autismo é saber diferenciar Doença e Transtorno: “Quando falamos em doença, falamos de uma causa específica e definida que a gente consegue muitas vezes detectar por meio de exames, como por exemplo uma gripe que é causada por um vírus. Agora, quando falamos de transtorno, trata-se de algo multifatorial e que não possui uma causa tão bem definida”.

Ela especifica que o TEA é considerado um espectro devido à grande variabilidade de apresentações do transtorno: “atualmente classificamos em Nível 1, 2 e 3 de suporte, sendo  que, quanto maior o nível, maior o suporte necessário”. A psicóloga explica que cada indivíduo terá um conjunto único e uma apresentação única do transtorno. Ou seja, algumas pessoas podem ter mais dificuldade na leitura social, outros podem apresentar grandes alterações sensoriais, alguns podem apresentar comprometimento intelectual e/ou de linguagem, entre outras características. 

Segundo ela, existem muitas pesquisas que investigam as possíveis causas do autismo e, hoje, constatou-se que o autismo tem uma base genética importante. Isso explica porque não é incomum que, em uma família, mais de uma pessoa seja diagnosticada com o transtorno, aponta a psicóloga. Além de causas genéticas, pesquisas indicam problemas na gestação ou no parto como fator de risco. 

Sobre tratamentos e intervenções, Franciele explica que, muitas vezes, os familiares ao identificarem que algo não vai bem no desenvolvimento das crianças optam por “esperar mais um pouco para ‘ver se melhora’ por medo de um possível diagnóstico. Ou, até mesmo, recebem essa orientação de pediatras desatualizados: ‘cada criança tem seu tempo, vamos esperar, não é nada demais’”. Ela reforça que, embora seja um medo compreensível, na realidade, o diagnóstico precoce é um dos melhores preditores de um prognóstico positivo no transtorno do espectro autista: “quanto antes iniciarmos a intervenção, melhor para o desenvolvimento da criança. Isso acontece por causa de algo que chamamos de neuroplasticidade: a neuroplasticidade é a capacidade do nosso cérebro de se moldar e aprender a partir das experiências. Temos capacidade de aprendizagem durante toda nossa vida, mas essa capacidade é muito aumentada nos primeiros anos de vida”. 

A psicóloga esclarece que, atualmente, existem muitas pesquisas que mostram as potencialidades da intervenção, “especialmente quando realizada de forma precoce, intensiva, com uma equipe multiprofissional e com o envolvimento da família para dar continuidade às estimulações em casa”. Ela reforça que, apesar de o diagnóstico muitas vezes ser um momento de angústia para os responsáveis, trata-se de um “ponto de partida para o desenvolvimento de novas habilidades e possibilidades de formação de novos aprendizados, de trabalhar a funcionalidade e melhorar a qualidade de vida da criança e sua família com as intervenções adequadas”.

Alexandre Schwarzbold, médico infectologista e professor do Departamento de Clínica Médica da UFSM, conta que, depois do estudo de Wakefield, inúmeros outros trabalhos científicos foram realizados para investigar a suposta relação entre vacinas e autismo. A conclusão foi sempre a mesma: vacinas não causam autismo. Muitos desses estudos utilizaram a meta-análise, metodologia que reúne e analisa dados de diversas pesquisas sobre um mesmo tema, priorizando aquelas com maior rigor científico. Um exemplo dado pelo docente é um estudo publicado na revista científica Vaccines, em 2014, conduzido por pesquisadores australianos. Eles analisaram dados de mais de 1 milhão de crianças e confirmaram que não existe associação entre vacinas e o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Mesmo sem evidências científicas que sustentem essa crença, a ideia de que algumas vacinas poderiam causar autismo ainda divide opiniões. Segundo a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2023, quase 35% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, com essa afirmação.

Rigor na aprovação das vacinas

Antes de uma vacina ser liberada para a população, ela passa por diversas etapas para ser aprovada por uma agência reguladora. No Brasil, essa função cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O professor Alexandre Schwarzbold explica que as vacinas precisam ser embasadas em estudos e documentos submetidos, pelas instituições responsáveis, à agência que então avalia sua eficácia e segurança.

As etapas de segurança monitoram a frequência e a incidência de eventos adversos e sua gravidade – ou seja, se são leves, moderados, severos, se apresentam risco de vida ou se houve, por exemplo, morte nos estudos clínicos de teste de vacinas. Assim, pode-se avaliar estatisticamente se um evento adverso ocorre ao acaso ou se pode ser atribuído exclusivamente à vacina.

“Todas as vacinas passam por testes rigorosos de segurança”, reforça Alexandre. “Os estudos clínicos, que em geral demoram de meses a anos, envolvem vários voluntários em etapas diferentes antes da aprovação para a população em geral. Então, todo país que registra e distribui vacinas, como o Brasil, tem que atender a rigorosos padrões tanto de qualidade quanto de segurança”, defende o especialista.

Esse controle rígido em relação aos processos de segurança garante que a maioria dos efeitos colaterais sejam leves e temporários, como dor no local da aplicação e febre, que costumam durar de um a três dias. Por outro lado, as doenças que as vacinas previnem, como poliomielite, sarampo, caxumba, pneumonia e meningite, podem ter consequências muito mais graves do que qualquer efeito colateral decorrente da imunização.

Estratégias para combater a hesitação vacinal

Para Alexandre, a disseminação de informação correta e a educação em saúde são fundamentais para reduzir a hesitação vacinal. Ele destaca que a uniformização do discurso com base científica entre sociedades médicas é essencial, ressaltando a importância das estratégias adequadas de comunicação: “É importante que a linguagem seja uniformizada, especialmente entre os profissionais de saúde que indicam vacinas, como pediatras, infectologistas e pneumologistas”, reforça o médico.

Hoje, a circulação de fake news se tornou mais fácil, pois qualquer pessoa pode publicar conteúdos na internet sem passar por filtros ou avaliação de especialistas quanto à qualidade e veracidade. “A pessoa pode ter uma boa comunicação e não ter consistência científica. Por isso, é importante o julgamento de pares. Não se pode acreditar que um único médico seja detentor da razão”, enfatiza Alexandre Schwarzbold. O infectologista defende que não se pode tomar casos isolados de efeitos colaterais graves como regra ao abordar a vacinação com a população. Segundo ele, é fundamental que os profissionais de saúde enfatizem o impacto positivo das vacinas, destacando que a imensa maioria das pessoas se protege com segurança por meio da imunização.

Queda na adesão às vacinas no Brasil

Apesar de o Brasil já ter sido referência mundial, a adesão às campanhas de vacinação tem caído significativamente no país. Como consequência, doenças erradicadas, como sarampo e poliomielite, voltaram a circular. Desde 2016, o Brasil não atinge as metas de cobertura vacinal para grande parte das vacinas da rede pública, expondo novamente a população a problemas que já estavam controlados e aumentando o risco de surtos.

Para reverter esse cenário, é essencial que pais e responsáveis recebam informações claras e baseadas em evidências científicas. O professor Alexandre Schwarzbold destaca que os riscos da vacinação são mínimos diante dos benefícios: “o número de crianças que têm complicações com vacinas é ínfimo e nem se compara com o de crianças afetadas por doenças imunopreveníveis quando não vacinadas.” 

Como exemplo, ele menciona o sarampo, uma doença com alto índice de mortalidade: “O impacto positivo da vacinação supera infinitamente qualquer risco de efeitos colaterais. Vacinas funcionam, protegem e salvam vidas”, afirma o infectologista. Ele destaca que, no caso do sarampo, a imunização evitou mais de 23 milhões de mortes em duas décadas no mundo todo. “A vacinação é essencial para proteger crianças e adolescentes, pois eles ainda não têm um sistema imunológico totalmente desenvolvido. Sem essa proteção, estão vulneráveis a doenças que podem ter consequências graves, incluindo a morte”, reforça o infectologista.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI)

Criado em 1973, o PNI tem levado mais de 20 tipos de imunizantes aos brasileiros e acumulado conquistas notáveis, como a erradicação da varíola e da poliomielite. O Brasil consolidou-se mundialmente como um dos países com a política de vacinação mais abrangente e bem-sucedida.

Antes da criação do PNI, as ações de imunização no país eram episódicas, sem continuidade planejada e com cobertura limitada. A partir do programa, passou-se a adotar um plano nacional unificado e equitativo, garantindo o acesso às vacinas em todas as regiões do país, independentemente da distância ou do tamanho da população.

Em 1980, uma grande mobilização contra a poliomielite fez com que a incidência da doença caísse de 1,2 mil para pouco mais de 100 casos em um ano. Outro exemplo bem-sucedido foi a Campanha Nacional de Vacinação contra o Sarampo, que, em 1992, imunizou quase 50 milhões de crianças em apenas quatro semanas – um êxito sem precedentes em um país de dimensões continentais.

O Brasil recebeu o certificado de eliminação da poliomielite em 1994 e implementou estratégias para controlar doenças como sarampo, tétano neonatal, tuberculose, difteria, tétano acidental e coqueluche. Atualmente, o PNI oferta gratuitamente 17 vacinas para crianças, sete para adolescentes, quatro para adultos e idosos e três para gestantes, além das vacinas contra a Covid-19 e a gripe. Mais de 300 milhões de doses são distribuídas anualmente em cerca de 40 mil salas de vacinação espalhadas por todo o país.

VEREDITO: MITO! Vacinas não causam autismo. As causas do Transtorno do Espectro Autista têm origem genética e não estão associadas às tecnologias de imunização.

Texto: Júlia Zucchetto
Ilustração: Evandro Bertol
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

 

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/nosso-planeta-a-terra-e-redondo Thu, 05 Jun 2025 16:01:16 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10038 Embora a ciência tenha comprovado há séculos que a Terra é um geoide, ou seja, quase uma esfera, com os polos um pouco achatados e a região do meio (o Equador) um pouco mais larga, a teoria da Terra plana ainda encontra adeptos pelo mundo. De acordo com a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia, realizada em 2023, quase 20% dos entrevistados dizem “concordar em partes”, “discordar” (em partes ou totalmente) ou não saber/não responder à afirmação de que a Terra é redonda. Isso significa que uma em cada cinco pessoas duvida do formato do planeta.

Cássio Wollmann, professor do departamento de Geociências da UFSM, revela que conspiracionistas se apoiam em interpretações equivocadas sobre a curvatura da Terra para embasar seus argumentos, alegando que a linha do horizonte deveria desaparecer completamente se a Terra fosse curva. “Eles ignoram que a Terra não é uma esfera perfeita, mas sim um geoide, o que faz as distâncias da linha do horizonte variarem de acordo com a latitude de onde a pessoa observa”, destaca Wollmann. O pesquisador explica que, se a Terra fosse plana, a vida no planeta seria impossível, pois a gravidade faria com que ela se desintegrasse: “A gravidade aglutina a matéria, então uma Terra plana se fragmentaria em vários pedaços menores.”

As redes sociais e o fortalecimento do terraplanismo

A teoria da Terra plana ganhou força nos últimos anos, principalmente com o advento das redes sociais, que facilitam a disseminação de informações falsas. A doutoranda em Filosofia da UFSM, Elizabete Echer, ressalta que, embora a internet ofereça um acesso sem precedentes à informação, nem sempre o conteúdo encontrado é confiável. “Há uma escolha deliberada de ignorar evidências contrárias às crenças pessoais”, afirma. 

Nesse sentido, outro fator que contribui para a persistência dessa teoria é o que Elizabete chama de “Indústria Conspiratória”. Segundo as pesquisas que ela vem desenvolvendo, as teorias da conspiração geram visualizações e agora há um mercado para isso, evidenciado pelo aumento de canais do YouTube sobre o tema. Assim, “uma única postagem conspiratória pode alcançar milhares de pessoas em horas, alimentando um ciclo de desinformação e reforçando a polarização da opinião pública”, revela a filósofa.

Box – Teorias da conspiração x verdade “oficial ou fática”

Teorias da conspiração estão associadas à criação de uma explicação alternativa, que normalmente contraria a versão oficial de um determinado fato ou acontecimento, através de uma distorção fantasiosa. Tratam-se de crenças explicativas para eventos de grande impacto social baseadas na crença de que a verdade “oficial” é uma mentira.

Cássio Wollmann observa que o terraplanismo tem perdido força entre gerações mais jovens, mas ainda é um fenômeno relevante. Para ele, a divulgação científica desempenha um papel essencial nesse cenário. “A ciência não pode ser polêmica; ela deve ser uma tranquilizadora da humanidade”, afirma.

Veredito: COMPROVADO! A Terra é redonda.

Texto: Júlia Zucchetto
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-signo-do-horoscopo-influencia-a-personalidade-das-pessoas Thu, 05 Jun 2025 15:57:16 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10036 “Qual é o seu signo?” Você provavelmente sabe a resposta para essa pergunta. E vai além: se você é de Áries, já deve ter ouvido que é determinado e que não leva desaforo para casa; se é de Touro, é provável que já tenha sido chamado de comilão; e, se for de Leão, talvez tenha ouvido que é vaidoso. Mas será que a astrologia realmente influencia nossa personalidade? A resposta é não. Não há evidências científicas que sustentem essa relação, embora a crença seja comum entre uma parcela da população. De acordo com a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2023, aproximadamente 1 em cada 4 brasileiros acredita que o horóscopo influencia a personalidade das pessoas, com 24,9% concordando totalmente com essa afirmação.

Para entender por que a astrologia pode ser um bom assunto para puxar papo na mesa de bar, mas não tem comprovação científica e não deve ser usada como explicação para comportamentos e características individuais, é preciso diferenciar crenças de fatos científicos. Enquanto a astrologia se baseia em interpretações simbólicas e tradições culturais, a ciência exige evidências, testes e reprodutibilidade para validar uma afirmação.  

Astrologia x astronomia

Astrologia é a prática que sugere que a posição dos corpos celestes no momento do nascimento influencia a personalidade e o destino das pessoas. Mas é importante não confundir astrologia com astronomia, que é a área que estuda os astros — como planetas, estrelas e cometas — com base em evidências e experimentação. A física Alessandra Buffon pontua que a astronomia tem embasamento científico, enquanto a astrologia é historicamente entendida como uma pseudociência: “Não há nada científico que prove que determinado planeta, em uma determinada constelação, modifique o comportamento de alguém”, destaca.

Entender o céu

Práticas de observação do céu são realizadas desde a Antiguidade. O movimento da Lua, por exemplo, era acompanhado na agricultura para determinar os melhores momentos de plantio e colheita. Com o tempo, os métodos de observação dos astros foram aperfeiçoados com o uso de novos instrumentos, como a luneta utilizada por Galileu, no século 15, e os desenhos que ele fez a partir de suas observações.

Além de estudar o céu para fins científicos e práticos, civilizações antigas também relacionaram os astros a crenças e interpretações sobre a vida na Terra — e é nesse contexto que surgem os signos do zodíaco. Alessandra explica que cada signo corresponde a uma constelação que aparecia atrás do Sol em determinado período do ano. “Por isso falamos que o sol estava na constelação de gêmeos quando nasci, seria essa a ideia”, exemplifica. No entanto, ela alerta que a astrologia ainda segue modelos da Antiguidade, sem levar em conta mudanças ocorridas ao longo dos séculos: “Por conta do movimento de rotação e translação da Terra, além da inclinação do eixo terrestre, a configuração do céu hoje não é a mesma de quatro mil anos atrás, mas isso não foi atualizado pelos astrólogos”, esclarece.

Alessandra também questiona a astrologia ao destacar um ponto frequentemente ignorado: já na Antiguidade, havia 13 constelações no céu, e não apenas 12, como considera a astrologia. A explicação remonta à Grécia Antiga, onde políticas de organização da sociedade se baseavam no número 12 — como no calendário gregoriano, que seguimos até hoje. “O calendário tem 12 meses, então o que foi feito foi colocar cada constelação em ‘uma casinha’, em cada mês”, detalha a professora. No entanto, ela ressalta que essa divisão não corresponde à realidade astronômica. “As constelações têm tamanhos diferentes. A de Escorpião, por exemplo, é muito grande, e demora mais dias para que o sol passe por ela, enquanto a de Libra é bem menor”, diz a Alessandra. Segundo ela, a astrologia desconsidera essas variações e impõe um tempo fixo de 30 dias para cada signo, algo que não condiz com a observação científica: “Esse é outro erro dos astrólogos. É mais fácil provarmos os erros deles do que eles provarem o que estão falando”, afirma.

“Eu até brinco em sala de aula com os meus alunos: se você nasceu quando essa 13ª constelação estava no céu, então você não tem personalidade”, comenta a física. Enquanto professora de Ensino Médio, Alessandra aborda o tema em sala de aula, com os alunos, além de já ter estudado como a astrologia era percebida por outros educadores. Em um artigo de 2022, ela e outros dois autores investigaram como a astrologia era compreendida por alunos do curso de Pedagogia em uma universidade privada no Paraná. O estudo mostrou que “a maioria dos indivíduos era suscetível à manipulação da descrição de sua personalidade, confiando nos resultados, apesar de serem vagos e generalistas”.

O efeito Forer e a ilusão das descrições genéricas

Se não há comprovação científica, por que tantas pessoas acreditam nas previsões astrológicas? Um dos motivos é o chamado Efeito Forer, nomeado em referência ao psicólogo norte-americano Bertram Forer. Ele realizou um experimento com voluntários do exército, submetendo-os a uma suposta avaliação de personalidade. O texto usado no teste era, na verdade, uma compilação de trechos retirados de descrições de diferentes signos astrológicos e continha afirmações ambíguas logo na primeira linha: ‘Você tem necessidade de ser amado e admirado pelos outros, mas também tende a ser crítico consigo mesmo’. Forer percebeu que descrições genéricas, especialmente quando carregadas de elogios sutis, costumam ser aceitas como verdadeiras. Nosso cérebro tende a selecionar memórias que confirmam essas afirmações vagas, ao mesmo tempo em que ignora informações que poderiam contrariá-las.

Alessandra também aplica um teste em sala de aula. Ela entrega a cada aluno um papel com uma descrição vaga de personalidade, sem revelar que todos receberam exatamente o mesmo texto. “Todos ficam surpresos quando percebem que é o mesmo texto do colega. O que acontece é que cada um se identifica com um trecho específico”, relata.

O que realmente define nossa personalidade?

A psicóloga Clarissa Tochetto, docente do curso de Psicologia da UFSM, explica que a personalidade é moldada por um conjunto de fatores, combinando aspectos genéticos (aquilo que carregamos desde nascer) e a interação com o mundo e com as pessoas ao longo da vida. “A personalidade é um conjunto de traços. Cada pessoa tem os seus, eles são relativamente estáveis e refletem formas individuais de se colocar no mundo, o que se traduz em comportamentos”, afirma a docente. 

Clarissa também destaca por que tantas pessoas se identificam com descrições genéricas, como as da astrologia ou de testes de personalidade na internet. “Não têm embasamento científico algum, mas as pessoas gostam de ouvir coisas sobre si, serem avaliadas. E se a descrição for positiva, elas vão querer se encaixar”, aponta. A pesquisadora ressalta que essas descrições não se comparam às análises feitas por profissionais, como psicólogos e psiquiatras, que seguem métodos e técnicas científicas e podem trazer resultados sobre a personalidade que não são necessariamente positivos ou agradáveis.

A teoria mais aceita na Psicologia sobre personalidade é a Big Five, ou teoria dos cinco grandes fatores, cujos estudos começaram na década de 1930. Ao longo do tempo, essa abordagem foi validada por diferentes pesquisadores e em diversas culturas, sempre chegando a cinco fatores que, combinados entre si, explicam a personalidade humana: neuroticismo, extroversão, socialização, conscienciosidade e abertura à experiência. Para evitar pseudociências que empregam termos psicológicos sem embasamento científico, Clarissa recomenda optar por testes baseados nessa teoria.

Na conversa com amigos, ok! Mas, cuidado!

Segundo as especialistas, a astrologia pode ser usada como forma de descontração, seja para iniciar uma conversa na mesa de bar, brincar com amigos ou até mesmo puxar assunto em aplicativos de relacionamento. No entanto, é preciso atenção quando essa prática passa a determinar decisões: “A priori, não faz mal, mas você não pode usar a astrologia para justificar as suas ações, principalmente se elas prejudicarem outras pessoas”, destaca Clarissa. A psicóloga alerta que isso vale também para ações positivas: “Usar a astrologia para justificar coisas boas que acontecem na vida também é problemático, porque, se algo só aconteceu porque o universo quis, o mérito da conquista fica em segundo plano”, pontua.

Alessandra também aponta riscos quando a prática deixa de ser apenas uma diversão e passa a envolver perdas financeiras. Ela ressalta a necessidade de cautela com especialistas em astrologia: “Acho preocupante quando algumas pessoas usam esse conhecimento astrológico para enganar outras e lucrar com isso”, afirma.

Esse alerta se torna ainda mais relevante diante do crescente interesse pela astrologia. O número de aplicativos para gerenciamento de mapas astrais não para de crescer, a astrologia é levada em conta em decisões importantes por muitos profissionais, e alguns astrólogos chegam a ter longas filas de espera para os atendimentos. 

A busca por previsões, no entanto, não é um fenômeno recente — trata-se de uma prática enraizada na cultura e que pode trazer conforto em momentos de incerteza. Ainda assim, o alerta permanece: “Astrologia é pseudociência. Não gaste seu dinheiro com isso”, adverte Alessandra.

 

Veredito: MITO! Não há evidências científicas de que o signo do horóscopo influencie a personalidade das pessoas. A crença na astrologia se baseia em descrições vagas e generalistas, que dão a ilusão de precisão, mas não resistem à análise científica. A personalidade humana é complexa e moldada por fatores genéticos e ambientais, conforme demonstram estudos psicológicos rigorosos.

 

 

Repórter: Milene Eichelberger
Ilustração: Evandro Bertol
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/celulas-de-plantas-nao-tem-dna Thu, 05 Jun 2025 15:44:03 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10032 O DNA, ou ácido desoxirribonucleico, é uma das moléculas responsáveis por carregar a informação genética necessária para o desenvolvimento, funcionamento e reprodução de um organismo. Ele está presente nas células vivas, desempenhando um papel essencial na transmissão de características de geração para geração. 

Contudo, ainda há dúvidas entre a população brasileira sobre sua presença em diferentes tipos de células, como as das plantas. De acordo com a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil mais recente, a afirmação “As células das plantas não têm DNA; só as células animais possuem DNA.” confundiu parte dos entrevistados: quase 30% deles concordou totalmente com o enunciado, 11,4% concordou em partes e 17,5% não soube responder.

DNA: de bactérias a alfaces e seres humanos

A sequência de nucleotídeos, moléculas que formam o DNA e o RNA, é responsável pelo armazenamento e pela transmissão da informação entre as gerações de indivíduos de uma espécie. Como explica a professora Lenira Sepel, “em qualquer célula, seja de uma bactéria, de uma alface ou de um humano, sempre haverá DNA”. Ela destaca ainda que o DNA é a única forma pela qual as células conseguem armazenar informações de maneira estável e transmiti-las de uma linhagem para outra.

Embora o DNA esteja presente em todos os seres vivos, a forma como ele é armazenado varia entre diferentes tipos de células. A principal diferença entre bactérias, plantas, fungos e animais está no local onde o DNA é mantido. As bactérias, por exemplo, são células simples, conhecidas como procariontes, e não possuem compartimentos celulares internos; por isso, o DNA fica disperso no citoplasma. Já as células de plantas, fungos e animais são mais complexas, classificadas como eucariontes, e contam com um sistema de membranas internas que organiza diferentes ambientes, incluindo o núcleo, onde o DNA é protegido.

Já as partículas virais não são formadas por células, mas todas possuem ácidos nucleicos que armazenam sua informação genética. Com base na molécula utilizada para esse armazenamento, os vírus podem ser divididos em dois grandes grupos: os vírus de DNA e os vírus de RNA, também conhecidos como retrovírus. Estes últimos são os únicos que utilizam moléculas de RNA como material genético.

DNA das plantas

O DNA das plantas contém as “instruções” necessárias para produzir proteínas, que fazem as células operarem corretamente e garantem o funcionamento do organismo como um todo. Essas proteínas ajudam as plantas a realizar todas as suas funções, como crescer, se reproduzir e se adaptar às mudanças do ambiente. É por meio dessas proteínas que as células conseguem reagir ao que acontece ao seu redor e às diferentes fases do ciclo de vida da planta.

Por exemplo, quando começa o período de produção das flores, vários genes que estavam inativos começam a ser ativados. De forma simplificada, podemos dizer que a transcrição desses genes gera RNAs que serão transformados em proteínas responsáveis pela produção das flores. Esses genes carregam as informações para determinar a cor e o formato das pétalas. Se uma planta terá flores com pétalas de borda lisa ou recortada, depende dos genes que ela herdou. O mesmo acontece com todas as outras características hereditárias que a planta manifesta.

Uma das explicações para a associação do DNA apenas às células animais é o fato de que as plantas são menos “percebidas” no ambiente. A professora Lenira Sepel explica o conceito de “cegueira botânica”, que se refere à dificuldade de reconhecer as plantas como seres vivos, o que leva a não atribuir a elas as características essenciais de qualquer organismo. Ela sugere que mudanças no ensino escolar, como “observar, nomear e registrar as plantas presentes nos ambientes”, têm um impacto importante na ampliação da percepção da diversidade vegetal que nos acompanha no cotidiano.

Biotecnologia e alimentos transgênicos

O uso do DNA de plantas tem impulsionado avanços significativos na ciência, especialmente no melhoramento agrícola. Com o desenvolvimento da genética molecular, o processo de aprimorar plantas tornou-se mais rápido e eficiente, permitindo, por exemplo, a criação de plantas transgênicas, que podem incorporar características inéditas às espécies. A professora Lenira Sepel explica: “A possibilidade de transferir DNA de uma bactéria para uma planta foi uma inovação da biotecnologia do século 20, que estimulou pesquisas para produzir vegetais mais adaptados às necessidades humanas, como melhorias nutricionais e no cultivo.”

No Brasil, alimentos transgênicos são vistos como uma solução potencial para combater a fome e garantir a segurança alimentar. Segundo a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a biotecnologia pode melhorar a produção de alimentos e permitir o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas. No entanto, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor aponta riscos associados aos transgênicos, como o aumento de alergias e a resistência a antibióticos, devido a compostos introduzidos no processo de engenharia genética.

Além disso, a resistência de algumas plantas transgênicas a agrotóxicos pode favorecer o surgimento de superpragas, levando a um aumento no uso de pesticidas e impactos ambientais negativos. A professora Lenira alerta para esses riscos e questiona: “Como uma sociedade que não reconhece as plantas como seres vivos, com células contendo DNA, pode discutir com sabedoria a aplicação dessas biotecnologias?”

 

Veredito: MITO! As células das plantas também contêm DNA, que é essencial para toda a operação celular e o funcionamento do organismo. Assim como nas células animais, o DNA nas células vegetais armazena as informações genéticas necessárias para o desenvolvimento e funcionamento da planta.

 

Texto: Júlia Zucchetto
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/os-seres-humanos-evoluiram-e-descendem-de-outros-animais Thu, 05 Jun 2025 15:43:07 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10034 A evolução é um dos conceitos centrais da Biologia e explica como as espécies se transformam ao longo do tempo. Ela também mostra como os seres humanos compartilham uma longa história de adaptações que nos conectam a outros animais. Apesar de amplamente aceita na comunidade científica, a ideia de que “Os seres humanos evoluíram e descendem de outros animais” ainda enfrenta resistência em parte da população brasileira. De acordo com a Pesquisa de Percepção Pública da Ciência mais recente, 35,5% dos entrevistados discordam totalmente da ideia da evolução humana e outros 9,1% discordam em parte. 

O que é evolução?

Evolução é o termo utilizado para se referir ao processo de mudança pelo qual as populações passam ao longo do tempo, acumulando alterações que permitem sua adaptação aos ambientes. “Trata-se de um processo contínuo, inacabado e não linear”, afirma Camilo Silva Costa, biólogo e doutorando em Educação em Ciências na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ele explica que esse processo é guiado por mecanismos da evolução, como a Seleção Natural. Esse conceito, introduzido por Charles Darwin, em 1859, no livro “A Origem das Espécies”, diz que as espécies evoluem ao longo do tempo por meio de um processo em que indivíduos com características vantajosas em determinado ambiente têm maior chance de sobreviver e deixar descendentes. “Por exemplo, há seres humanos adaptados a viverem em altas altitudes, como o povo tibetano na Ásia Central. Essas adaptações mostram como a seleção natural age no contexto do ambiente”, completa o especialista.

Ancestralidade comum

As evidências para a evolução humana vêm de diversas áreas, incluindo arqueologia, paleontologia, genética e anatomia comparada. “Os fósseis mostram nosso parentesco a partir da ancestralidade comum, quer dizer, que todos nos originamos de uma mesma espécie”, explica Camilo. Para exemplificar, ele propõe comparar a anatomia das patas dianteiras de vertebrados: as nadadeiras das baleias, as asas dos morcegos e as mãos humanas: “É o que chamamos de órgãos homólogos, ou seja, são estruturas que reforçam a origem de um ascendente comum”. 

No caso dos humanos, a evolução é traçada a partir de um grupo de primatas que viveu na África há milhões de anos, incluindo espécies do gênero Australopithecus, precursoras do gênero Homo. Camilo conta que esse grupo se dividiu em duas linhagens que começaram a evoluir independentemente. Uma delas permaneceu na floresta tropical africana, no noroeste da África, dando origem aos chimpanzés que conhecemos hoje; e a outra migrou para os campos abertos, nas savanas do leste africano, dando origem ao gênero Homo.

Fósseis encontrados ao longo do tempo mostram uma transição gradual entre características basais, presentes em Australopithecus afarensis, e outras presentes em espécies mais recentes, como Homo erectus e Homo sapiens. Além disso, estudos genéticos confirmam que os seres humanos compartilham uma alta porcentagem de seu DNA com outros primatas, como chimpanzés e bonobos, nossos parentes vivos mais próximos. Esses dados reforçam a ideia de uma ancestralidade comum. Embora muitas pessoas associem erroneamente a evolução à ideia de que “descendemos dos macacos”, o que a ciência afirma é que humanos e outros primatas compartilham um ancestral comum. Esse ancestral não era igual aos macacos atuais, mas sim uma espécie basal, que deu origem a diferentes linhagens, incluindo a humana. Portanto, não somos descendentes diretos de macacos como os que conhecemos hoje, mas sim primos evolutivos.

Rejeição à ideia

Apesar das evidências científicas, muitas pessoas ainda rejeitam a ideia de que os seres humanos evoluíram ao longo do tempo. Para o biólogo Camilo Silva Costa, a complexidade e a longa duração do processo evolutivo podem tornar sua compreensão mais desafiadora: “é muito mais fácil crer que o ser humano foi criado [criacionismo] do que acreditar que esse foi um processo longo de milhões de anos, muitas ramificações, adaptações, perdas e ganhos”.

O criacionismo é uma visão que interpreta de forma literal textos religiosos, como a Bíblia, para explicar a origem da vida. Contudo, é fato que o criacionismo carece de fundamentação científica e não oferece (nem busca oferecer) explicações testáveis para os fenômenos biológicos. Por outro lado, a evolução é respaldada por linhas robustas de evidências, incluindo fósseis que documentam a transição gradual entre espécies, semelhanças genéticas que indicam ancestralidade comum e registros geológicos que corroboram as sucessivas mudanças na biodiversidade ao longo de bilhões de anos.

Entender a evolução humana é fundamental não apenas para a ciência, mas também para a sociedade. Segundo o especialista, o estudo da evolução ajuda a interpretar processos adaptativos, genéticos e ambientais: “Não é apenas uma exploração do nosso passado, mas uma ferramenta essencial para enfrentar os desafios do presente e do futuro. A partir da evolução, conseguimos interpretar e olhar para a ciência que nos rodeia de forma mais crítica”, conclui.

 

Veredito: COMPROVADO! Os seres humanos evoluíram ao longo do tempo e compartilham uma conexão ancestral com outros animais.

 

Texto: Luciane Treulieb
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/existem-curas-para-o-cancer-que-foram-escondidas-do-publico-por-causa-de-interesses-comerciais Thu, 05 Jun 2025 15:29:58 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10030 O câncer é uma condição complexa que resulta do crescimento desordenado de células malignas. Apesar de existirem tumores benignos que não causam danos ao organismo, os tumores malignos se caracterizam pela capacidade de invadir outros órgãos e estruturas do corpo, tornando-se, assim, o câncer.

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), o câncer ocorre devido a mutações genéticas nas células, que passam a ter as ‘instruções’ para seu crescimento e divisão alteradas. Em outras palavras, segundo o órgão federal, “na presença de qualquer erro nestas instruções (mutação), pode surgir uma célula doente que, ao se proliferar, causará um câncer”. Trata-se de uma doença multifacetada, com mais de cem tipos distintos, cada um com sintomas e tratamentos específicos. Os mais comuns no Brasil são os cânceres de pele, próstata, mama, cólon e reto, pulmão e estômago. 

A Pesquisa de Percepção Pública da Ciência, realizada em 2023, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), revelou que 52% dos brasileiros acreditam totalmente que “existem curas para o câncer que foram escondidas do público por causa de interesses comerciais”. Esse dado reflete um cenário de desinformação que preocupa especialistas, especialmente diante do impacto que o câncer tem na saúde pública global.

Para cada caso, um tratamento personalizado

Segundo Vanessa Rigo, docente do Departamento de Clínica Médica da UFSM, com enfoque em Cancerologia, não é possível estabelecer somente um tipo de cura para o câncer, pois a doença resulta de danos celulares causados por diversos fatores, como estilo de vida e genética. Além disso, o que chamamos de câncer, como se fosse uma doença única, pode afetar diferentes regiões do corpo, o que exige tratamentos personalizados, considerando as características genéticas do tumor e do paciente.

Para a médica, o principal motivo para as pessoas acreditarem que ‘existe uma cura para o câncer que está sendo escondida da sociedade’ está relacionado à desinformação e à falta de noções científicas sobre o que é o câncer: “A falta de conhecimento leva as pessoas a enxergarem o câncer como uma infecção, tratável com um remédio, e não lhes permite compreender que se trata de uma doença particular em cada indivíduo, ligada à sua genética”. Segundo ela, se houvesse uma maior educação sobre os diferentes tipos de câncer, a porcentagem de pessoas que acreditam em soluções milagrosas seria reduzida. 

Nesse sentido, o acesso limitado a informações científicas de qualidade contribui para a propagação de ideias equivocadas. Embora os avanços científicos sobre o câncer sejam amplamente documentados, muitos avanços médicos são divulgados em jargões técnicos, o que torna o entendimento do público leigo mais desafiador, permitindo que mitos se espalhem. A falta de entendimento da população sobre como funcionam ensaios clínicos, processos regulatórios e desenvolvimento de medicamentos reforça a crença de que a cura pode estar sendo ocultada.

Teoria da conspiração

A ideia de que a cura do câncer está sendo escondida por interesses comerciais é uma teoria da conspiração bastante difundida na internet há anos. O argumento central é que a indústria farmacêutica teria incentivos financeiros para esconder uma possível cura, pois garantiria a continuidade da venda de tratamentos caros aos pacientes. No entanto, especialistas e instituições científicas apontam que essa teoria não se sustenta diante das evidências.

Em um artigo publicado no site da organização Worldwide Cancer Research, pesquisadores explicam que não seria lucrativo para as big pharmas esconder a cura: “levaria décadas para testá-la em cada tipo e estágio do câncer. Esse tipo de teste requer grandes quantias de dinheiro. Qual seria o benefício de esconder uma cura? Grandes empresas farmacêuticas investem bilhões no desenvolvimento de novos medicamentos. Se uma delas tivesse encontrado a cura, eles gostariam de reivindicar essas despesas de volta”.

Além disso, milhares de pesquisadores em todo o mundo trabalham na busca por tratamentos mais eficazes contra o câncer em diversas universidades, hospitais e centros independentes. “Esse número de pessoas poderia realmente manter tal segredo?”, questiona o texto da Worldwide Cancer Research. 

O pesquisador inglês Robert Grimes estudou a probabilidade matemática de teorias da conspiração. Para um artigo publicado em 2016, ele criou um modelo usando conspirações médicas reais para estimar quanto tempo levaria para algo assim ser descoberto, dependendo da quantidade de pessoas envolvidas. Ele estimou que, se apenas as maiores empresas farmacêuticas estivessem envolvidas em esconder a cura do câncer, ainda haveria cerca de 714 mil pessoas que saberiam de algo. E, com tantas pessoas envolvidas, seus cálculos mostram que levaria cerca de 3 anos anos para alguém contar o segredo.

Como prevenir o câncer?

Vanessa Rigo explica que, embora uma cura universal para o câncer não seja possível, algumas medidas preventivas são eficazes, como no caso do câncer de colo de útero. A vacinação contra o HPV em meninos e meninas em idade escolar pode prevenir quase cem por cento dos casos da doença. 

‘’Existem estratégias que nos permitem prevenir tipos específicos de câncer, mas uma medida única, uma medicação para evitar o desenvolvimento geral, de todos tipos de câncer, nunca será possível”, esclarece a especialista. 

Cerca de dois terços dos casos de câncer decorrem de maus hábitos de vida, enquanto o restante se relaciona à genética, segundo Vanessa Rigo. Portanto, manter uma vida saudável é o ponto central para evitar um possível desenvolvimento da doença. E, nesse sentido, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) apresenta recomendações para evitar os principais tipos de câncer: 

  • Não fumar.
  • Evitar o consumo de bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados.
  • Praticar atividades físicas regularmente.
  • Utilizar protetor solar e evitar exposição ao sol entre 10h e 16h.
  • Fazer vacinas contra HPV e hepatite B.
  • Realizar exames preventivos regularmente.

Embora as recomendações gerais para prevenção do câncer sejam amplamente aplicáveis, cada tipo de câncer apresenta características próprias, o que demanda abordagens específicas para a prevenção e tratamento. O diagnóstico precoce, por sua vez, desempenha um papel fundamental, aumentando significativamente as chances de cura. 

Mais informações detalhadas sobre prevenção e tratamento podem ser encontradas no site do INCA.

Veredito: MITO! Não existem curas para o câncer que foram escondidas do público por causa de interesses comerciais.

 

Texto: Laurent Keller e Luciane Treulieb
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/o-gas-carbonico-co%e2%82%82-e-um-gas-que-contribui-para-produzir-o-efeito-estufa Tue, 03 Jun 2025 18:00:42 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10027 O efeito estufa é um fenômeno da natureza essencial para a vida na Terra. Ele mantém o planeta aquecido, com temperaturas adequadas para a sobrevivência de seres vivos. Metano (CH₄), óxido nitroso (N₂O), gases fluorados e dióxido de carbono – também chamado gás carbônico (CO₂) – são exemplos de gases presentes na atmosfera terrestre que contribuem para produzir o efeito estufa. Esses gases absorvem a radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre e reemitem essa energia de volta para a atmosfera, impedindo que o calor escape para o espaço. 

Apesar da relevância do efeito estufa para o equilíbrio climático, o entendimento da população sobre o fenômeno ainda apresenta lacunas significativas. Embora 54% dos entrevistados concordem totalmente com a afirmação de que “o gás carbônico (CO₂) é um gás que contribui para produzir o efeito estufa”, a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2023 revela que 17% dos participantes não souberam responder à questão, e 5% discordaram totalmente da informação. Esses dados evidenciam a necessidade de esclarecer o papel do gás carbônico nesse processo e melhorar a compreensão pública sobre o efeito estufa.

Gás carbônico

O gás carbônico é uma molécula composta por um átomo de carbono (C) e dois átomos de oxigênio (O). A maior parte dos gases da atmosfera é composta por nitrogênio (78%) e oxigênio (21%). Apesar de sua concentração ser baixa na atmosfera (cerca de 0,04%, ou seja, 400 ppm ou partes por milhão), o CO₂ tem um grande impacto no efeito estufa.

Da revolução industrial aos dias de hoje

Se, de um lado, sem o efeito estufa o planeta Terra seria frio e inabitável; de outro, desde a Revolução Industrial, as emissões de gás carbônico têm aumentado muito, de forma exponencial, intensificando o fenômeno e causando desequilíbrios climáticos.

A industrialização trouxe avanços para as cidades e estimulou a urbanização. Com isso, as pessoas passaram a consumir mais alimentos e produtos processados, elevando a produção nas fábricas e, consequentemente, as emissões de gás carbônico. Além disso, o crescimento da população global e o aumento da expectativa de vida têm gerado maior demanda por alimentos, o que levou à ampliação de áreas de plantio e criação de animais. Esse processo inclui o desmatamento, que agrava o efeito estufa: as árvores, que absorvem gás carbônico e liberam oxigênio, deixam de cumprir esse papel ao serem cortadas ou queimadas, liberando mais CO₂ na atmosfera.

Segundo Simone Erotildes Ferraz, doutora em Meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o problema maior não está no pequeno agricultor ou em práticas isoladas, mas na escala das emissões globais, particularmente nas atividades das grandes indústrias e no desmatamento. “Não é o pequeno agricultor que planta arroz ali em Agudo (RS) que vai afetar a atmosfera, mas as grandes empresas”, afirma a especialista. A agropecuária também contribui significativamente para as emissões de gases de efeito estufa, como o metano (CH₄), liberado pelo gado durante a ruminação.

Consequências do efeito estufa intensificado

As consequências do aumento das emissões de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa já são visíveis. A temperatura média global está subindo, e os impactos se manifestam em diferentes formas:

  • Expansão térmica dos oceanos: o aquecimento da água faz com que seu volume aumente, resultando na elevação do nível do mar e na invasão de áreas costeiras.
  • Derretimento das geleiras: isso altera a salinidade dos oceanos, afetando a vida marinha.
  • Eventos climáticos extremos: secas severas, chuvas intensas e outros fenômenos climáticos rigorosos estão se tornando mais frequentes.

Simone Erotildes alerta que estamos próximos de um ponto crítico. “É muito complicado resolver isso. Estamos chegando a um ponto de não retorno, do qual não conseguiremos mais voltar para as condições de antes da industrialização”, explica.

Como mitigar os impactos?

A professora Débora Regina Roberti, do Departamento de Física da UFSM, destaca que ações globais são fundamentais. “Nas últimas COPs (Conferências das Nações Unidas sobre Mudança Climática) foram ou têm sido  desenvolvidas tentativas para diminuir a emissão de gases e evitar que a temperatura suba. Mas a gente já passou um grau e meio da média adequada”, afirma.

Entre as soluções globais discutidas, estão:

  • Adoção de energias renováveis e eficiência energética.
  • Redução do desmatamento e incentivo à preservação florestal.
  • Acordos internacionais para limitar as emissões dos principais países e empresas poluidoras.

Em escala individual, as ações também têm sua importância:

  • Reduzir o uso de automóveis, optando por transportes coletivos ou bicicletas.
  • Diminuir o consumo de carne, especialmente carne bovina.
  • Fazer o descarte correto de resíduos.

No entanto, Débora Roberti enfatiza: “Essas medidas individuais são insuficientes sem mudanças significativas nas políticas globais e nas práticas de grandes emissores de gás carbônico”.

Veredito: COMPROVADO! O gás carbônico (CO₂) é um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

Texto: Jéssica Mocellin
Ilustração: Evandro Bertol
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/antibioticos-servem-para-matar-virus Tue, 03 Jun 2025 17:42:02 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10025 Um dos mitos mais comuns sobre medicamentos é a crença de que antibióticos podem tratar infecções virais, como gripes e resfriados. Segundo a última edição da pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia de 2023, 71,8% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, com a afirmação de que “antibióticos servem para matar vírus”. No entanto, a verdade é que esses medicamentos atuam exclusivamente contra bactérias e são ineficazes contra vírus. O uso inadequado não apenas impede o tratamento correto da doença, mas também representa um sério risco à saúde pública, contribuindo para o aumento da resistência microbiana.

O que são antibióticos?

Os antibióticos são substâncias que combatem infecções causadas por bactérias, podendo matá-las ou inibir sua multiplicação. Eles compõem a gama de medicamentos conhecidos como antimicrobianos, que inclui, também, os antifúngicos, antivirais, antimaláricos e anti-helmínticos.

Segundo a professora Terimar Ruoso, do Departamento de Ciências da Saúde do campus da UFSM de Palmeira das Missões, todo medicamento age a partir de sua interação com um alvo específico e, no caso dos antibióticos, sua interação sempre se dá com alguma estrutura bacteriana. Ela explica que o medicamento deve ser utilizado pelo tempo necessário para eliminar todas as bactérias responsáveis pela infecção, um período que geralmente varia entre sete e 14 dias.

Às vezes, as pessoas fazem uso de antibiótico quando estão com infecções virais e podem acreditar que foram curadas por esse medicamento. Porém, isso não é verdade. O que acontece é que, para ‘funcionar’, o antibiótico atua em conjunto com a reação do nosso sistema imunológico. Em casos de virose tratadas com antibióticos, como não há bactéria, a melhora dos sintomas não ocorre devido ao medicamento, mas pela reação do próprio organismo. 

Vírus x bactérias

As bactérias surgiram há cerca de 3,5 bilhões de anos e são caracterizadas por sua adaptabilidade, sobrevivendo a diversas mudanças no planeta. Elas têm uma estrutura celular organizada e podem se reproduzir de forma autônoma, desde que o ambiente ofereça condições adequadas a elas. Já os vírus não possuem estrutura celular (são acelulares) e são dependentes de outro ser vivo para se reproduzirem. Além disso, são muito pequenos, em torno de cem a mil vezes menores que as bactérias – o que contribui para replicação abundante e dispersão facilitada.

Resistência microbiana e riscos associados

O uso incorreto de antibióticos, como tomá-los em excesso ou utilizá-los para tratar infecções causadas por vírus (como resfriados e gripes), é um problema comum. Isso contribui para o surgimento da resistência microbiana, que acontece quando as bactérias se tornam capazes de resistir e sobreviver aos efeitos dos medicamentos que deveriam eliminá-las. Assim, os antibióticos que antes eram eficazes perdem a capacidade de combater certas infecções.

Como resultado, as bactérias mais sensíveis são destruídas pelo antibiótico, mas as resistentes sobrevivem e se multiplicam, tornando o tratamento mais difícil. Infecções causadas por essas superbactérias apresentam maior risco de complicações, como explica a professora Rosmari Horner, do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da UFSM: “As infecções persistem no corpo, aumentando o risco de propagação a outras pessoas, podendo levar a complicações graves nos pacientes e até mesmo a óbitos, já que os medicamentos se tornam ineficazes”.

Nesse contexto, a resistência aos antibióticos está tornando infecções que antes eram tratáveis muito mais difíceis de controlar. Doenças como pneumonia, tuberculose e sífilis se tornaram desafiadoras de combater porque as bactérias que as causam desenvolveram resistência aos tratamentos disponíveis.

Automedicação e Covid-19

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), em 2024, colocou o Brasil como recordista em automedicação, revelando que 86% dos entrevistados tomam medicamentos sem orientação de um prescritor, mesmo com a exigência de receita médica para a compra de antibióticos em farmácias e drogarias no país.

No mesmo ano, o Conselho Federal de Farmácia divulgou um levantamento sobre o aumento na venda de antimicrobianos, incluindo antibióticos. Segundo os dados, em 2019, foram vendidas cerca de 170 milhões de unidades desses medicamentos, e esse número continuou crescendo nos anos seguintes. Em 2022, as vendas saltaram para 228 milhões de unidades.

O aumento da venda dos antimicrobianos ocorreu simultaneamente à pandemia de Covid-19, com o boom da automedicação, associada à comercialização do “kit covid” – que contava com a azitromicina, um antibiótico comumente utilizado para tratamento de infecções do trato respiratório. Isso levou a Anvisa a publicar, em agosto de 2021, uma Nota Técnica reforçando que os antibióticos não são indicados no tratamento de rotina da Covid-19, já que a doença é causada por vírus e esses medicamentos atuam apenas contra bactérias.

 

Veredito: MITO! Os antibióticos não servem para matar vírus. Seu uso em infecções virais só é recomendado caso haja uma infecção bacteriana associada. Por isso, não utilize antibióticos sem prescrição profissional e sempre siga corretamente as orientações do seu médico.

Orientações da Anvisa sobre o uso de antibióticos:

  • Use antibióticos somente quando indicados por receita de um profissional qualificado;
  • Não compartilhe seu antibiótico com terceiros nem use antibióticos que sobraram do tratamento de amigos ou familiares;
  • Mesmo que esteja se sentindo melhor, termine o tratamento conforme indicado pelo profissional na receita;
  • Previna infecções com medidas simples: faça sexo seguro, mantenha sua vacinação em dia, lave sempre as mãos e cubra o nariz e a boca quando for espirrar;
  • Não espere que antibióticos curem doenças provocadas por vírus, como gripes ou resfriados; esses medicamentos tratam apenas doenças bacterianas.



Texto: Júlia Zucchetto
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/temperatura-de-ebulicao-da-agua-depende-da-altitude Tue, 03 Jun 2025 17:36:17 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10023 A água é a substância mais abundante na natureza e é essencial para a sobrevivência dos seres vivos, pois contribui com o equilíbrio da biodiversidade, a regulação do clima e a manutenção da umidade do ar, além de ser fundamental para a agricultura e a geração de energia. 

Apesar de diversas características da água serem ensinadas na escola, como sua composição química (duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio), a capacidade de dissolver substâncias (é chamada de “solvente universal”), e os seus três estados físicos (sólido, líquido e gasoso), nem sempre esses conhecimentos são absorvidos pelas pessoas, que ainda apresentam incertezas sobre noções básicas relacionadas à água. Por exemplo: a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2023 mostrou que os brasileiros ainda têm dúvidas quando confrontados com a seguinte informação: “A água não ferve sempre a 100 graus Celsius (°C) em um recipiente aberto. Depende da altitude”. Das pessoas entrevistadas, 27,8% discordaram, em parte ou totalmente, da noção científica apresentada, e 20,2% não souberam responder. Já as que concordam totalmente com a informação somam 35,6%.  

Para esclarecer essa questão, conversamos com o professor Mateus Henrique Köhler, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Maria, que explica como mudanças na altitude e na pressão atmosférica afetam a temperatura de ebulição e outras propriedades da água, desmistificando crenças frequentes sobre o comportamento dessa substância.

Para começar: o que é altitude? 

A altitude consiste na distância vertical entre um ponto da Terra em relação ao nível do mar (que corresponde à altitude zero). Quando um ponto está abaixo do nível do mar, a altitude é negativa. Já quando o ponto está acima do nível do mar, a altitude é considerada positiva.

A altitude é inversamente proporcional à pressão atmosférica: ou seja, quanto maior a altitude, menor vai ser a pressão. Por exemplo, em uma montanha – que fica acima do nível do mar –  a altitude é maior e a pressão atmosférica é menor, e isso influencia fenômenos como a temperatura de ebulição da água e a sensação térmica. 

Temperatura de ebulição da água x altitude

A partir dessas informações, é possível explicar por que a água não ferve sempre a 100°C em um recipiente aberto. Segundo o professor Mateus, é importante considerar que, além da altitude, a pressão também interfere no ponto de ebulição da água. Segundo ele, “é correto afirmar que, ao nível do mar, em um recipiente aberto, a água ferve a 100°C. Porém, em altitudes mais elevadas, onde a pressão atmosférica é menor, a água ferve a temperaturas mais baixas.”  Ele traz como exemplo o fato de que, no Monte Everest, na Cordilheira do Himalaia, a mais de 8 quilômetros de altitude, a água entra em ebulição muito mais rápido, a aproximadamente 71°C.

Ele explica que, além da altitude, o recipiente estar aberto também interfere diretamente no ponto de ebulição da água, pois a pressão atmosférica diminui com o aumento da altitude – ou seja, quando o recipiente está aberto, a pressão atmosférica e a pressão interna da água são equivalentes, levando ao ponto de ebulição de 100°C ao nível do mar. Contudo, se o recipiente for fechado, o professor esclarece que a dinâmica muda: “ao fecharmos o recipiente, poderíamos aumentar a pressão interna, elevando o ponto de ebulição”. 

Como a água se comporta em situações do cotidiano?

Essas condições se aplicam somente à água, as demais substâncias têm propriedades específicas e, por isso, apresentam comportamentos distintos quando expostos às mesmas situações. 

“A água é conhecida particularmente por apresentar diversos comportamentos que chamamos de anômalos, por serem muito diferentes daqueles que ocorrem em outras substâncias. Esse é o fato, inclusive, pelo qual dizemos que a água é fundamental para a vida como a conhecemos”, comenta o professor.  A água é uma das únicas substâncias encontradas nos estados sólido, líquido e gasoso sob as temperaturas normalmente medidas na Terra. Entre suas especificidades, está o alto calor específico: a água absorve muito calor antes de começar a aquecer efetivamente. O elevado índice de calor específico de água ajuda a regular as variações da temperatura do ar – explicando a mudança gradual de temperatura entre estações do ano, especialmente na proximidade do mar.

No nosso cotidiano, podemos observar essas peculiaridades da água em ações comuns, como cozinhar. Segundo o professor Mateus, um exemplo é o uso da panela de pressão, em que a água pode ferver a temperaturas muito superiores a 100°C: “essa pressão adicional também faz com que os alimentos experimentem temperaturas mais elevadas, proporcionando aquela maciez típica de produtos cozidos em panelas de pressão.”

Esse é, inclusive, um dos mitos mais comuns sobre o cozimento de alimentos. Mateus explica que “deixar a panela de pressão no fogo alto não faz o alimento cozinhar mais rápido, pois se a água já estiver fervendo, mesmo recebendo mais energia, sua temperatura permanecerá igual – da mesma forma que deixar a água do café fervendo por mais tempo não aumenta sua temperatura”. Afinal, deixar a água ferver por mais tempo não faz com que sua temperatura aumente, já que durante a passagem de um estado físico para outro a temperatura permanece constante.

Veredito: COMPROVADO! A variação da altitude determina o ponto de ebulição da água e ela não ferve sempre a 100ºC em um recipiente aberto. 

Texto: Júlia Zucchetto
Ilustração: Vinicius Gumisson Motta
Edição: Luciane Treulieb
Revisão: Fabiana Coradini

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Revista Arco-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/arco/ep7-com-ciencia-quantica Thu, 23 May 2024 14:45:47 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/arco/?p=10014

Ep7: Com ciência quântica

De onde surgiu essa associação entre consciência e teoria quântica, que aparece tanto em conteúdos pseudocientíficos? Encerramos a temporada falando sobre mentalização, experimentos que envolvem a força do pensamento, reducionismo e a diferença entre charlatões quânticos profissionais e amadores.

 

Acesse a transcrição do episódio e a tradução para o inglês.

No primeiro bloco, a gente conta alguns dos possíveis motivos dessa associação entre física quântica e a ideia de que “o nosso pensamento constrói a nossa realidade”. No segundo bloco, a gente discute experimentos que se propõem a investigar essas conexões. E no bloco três, a gente encerra o episódio e a temporada com algumas conclusões sobre esse panorama da pseudociência quântica que a gente vem traçando aqui. 

 

No bloco 1, o Osvaldo Pessoa Jr. nos guia pela linha de raciocínio pseudocientífica que tenta argumentar que o nosso pensamento constrói a realidade. A gente deixa aqui um link para o artigo de um estudo que argumenta que a escala de tempo da decoerência quântica é muito menor que as escalas de tempo relevantes para os processos neurais. O que mostra a implausibilidade de haverem fenômenos quânticos no cérebro. M. Tegmark, Importance of quantum decoherence in brain processes, Phys. Rev. E 61, 4194 (2000).

 

No bloco 2, a gente conta o caso do físico Gabriel Guerrer que tentou reproduzir um experimento que dizia comprovar a influência da mente sobre sistemas quânticos. Nesse link, você encontra a palestra em que o Gabriel Guerrer anuncia os resultados do seu experimento, em que não foi possível observar nenhuma diferença no comportamento dos  fótons na presença de pessoas.




Créditos do episódio:

  

Idealização: Leonardo Guerini e Gláucia Murta

Produção: Gláucia Murta, Leonardo Guerini, Luciane Treulieb, Samara Wobeto e Vitor Zuccolo

Apresentação: Glaucia Murta, Leonardo Guerini e Luciane Treulieb.

Roteiro do episódio: Leonardo Guerini, com contribuições da Gláucia Murta, Luciane Treulieb e Samara Wobeto

Consultoria de roteiro: equipe do podcast Ciência Suja 

Edição de som: Leonardo Guerini

Suporte de gravação: Pablo Ruan

Mixagem: Felipe Barbosa

Música original: Pedro Leal David

Identidade visual e as ilustrações de capa: Augusto Zambonato

Mídias sociais: Milene Eichelberger

Site: Daniel M. De Carli

 

O Q Quântico é produzido dentro de universidades públicas. Contamos com o apoio de diversos funcionários das nossas instituições que contribuíram para que o podcast chegasse ao seu formato final. Agradecemos o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do cluster de excelência “Matter and Light for Quantum Computing” (ML4Q) da Alemanha. E o suporte e infraestrutura da Heinrich-Heine-Universität Düsseldorf e das rádios da Universidade Federal de Santa Maria.

 

 

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