{"id":1704,"date":"2014-09-08T14:03:56","date_gmt":"2014-09-08T17:03:56","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.55bet-pro.com\/arco\/sitenovo\/?p=1704"},"modified":"2021-05-25T15:11:14","modified_gmt":"2021-05-25T18:11:14","slug":"revoada-de-memorias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/revoada-de-memorias","title":{"rendered":"Revoada de mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\t\t
\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t\u201cKalu vivenciou com intensidade todos os momentos. Queria ser livre, queria ser feliz, queria festejar a diferen\u00e7a. Mas o regime era cruel e autorit\u00e1rio. Todavia, Kalu e seus amigos jamais baixaram a cabe\u00e7a. A palavra era uni\u00e3o. A homossexualidade n\u00e3o era bem vista pelos conservadores, mas um monte de coisa tamb\u00e9m n\u00e3o era. Os negros, os \u00edndios, os socialistas, as feministas: todos \u00e0 margem.\u201d trecho de \u201cP\u00e1ssaro da Manh\u00e3\u201d, de Marlon Dias.<\/strong><\/em><\/p> Em 2009, o diretor Marcelo Caetano lan\u00e7ou o curta-metragem \u201cBail\u00e3o\u201d, um document\u00e1rio filmado em uma casa noturna de S\u00e3o Paulo, cujos clientes s\u00e3o homens homossexuais com idade acima de 60 anos. Em entrevista ao programa Zoom, da TV Cultura, Caetano afirmou que aquele era um grupo muito invis\u00edvel, que n\u00e3o gostava de falar sobre sua sexualidade, o que tornava aquela pesquisa um desafio muito grande. Dois anos depois, um aluno da UFSM do curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social – Jornalismo assistiu ao curta e decidiu abra\u00e7ar um desafio que focava no mesmo grupo: homossexuais com mais de 60 anos.<\/p> O trabalho de Marlon Santa Maria Dias, atualmente mestrando em Comunica\u00e7\u00e3o Midi\u00e1tica, procurou uma maneira diferenciada para contar as hist\u00f3rias de dois idosos, Kalu e Silvio. Marlon optou por um Projeto Experimental em seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso e o intitulou\u00a0<\/span>P\u00e1ssaros da mesma gaiola: mem\u00f3rias de homossexuais idosos em biografias de curta dura\u00e7\u00e3o no estilo Jornalismo Liter\u00e1rio<\/em>. O trabalho conta com a produ\u00e7\u00e3o de dois textos nomeados \u201cP\u00e1ssaro da Manh\u00e3\u201d, sobre Kalu, e \u201cP\u00e1ssaro Proibido\u201d, protagonizado por Silvio.<\/span><\/p> A escolha pelo estilo Jornalismo Liter\u00e1rio veio de um interesse anterior pela \u00e1rea. Marlon entrou em contato com o g\u00eanero em uma Disciplina Complementar de Gradua\u00e7\u00e3o oferecida no curso de Jornalismo. O professor Paulo Roberto Araujo, que ministra a disciplina, tornou-se seu orientador.\u00a0 Este contato, somado ao aspecto de humaniza\u00e7\u00e3o deste tipo de relato, fez com que o pesquisador optasse pelo estilo. Segundo Marlon, haveria outras maneiras de tratar o assunto, mas n\u00e3o uma maneira melhor: \u201cEstamos trabalhando com pessoas que est\u00e3o contando sua hist\u00f3ria de vida. Acho que o estilo Jornalismo Liter\u00e1rio possibilita algo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 escrever um texto bonito. \u00c9 poder modificar a tua postura como jornalista e encarar a pauta e as fontes com um olhar diferenciado, mais humano. \u00c9 um tema muito delicado, mas acho que o estilome ajudou a trabalh\u00e1-lo de uma forma mais humana.\u201d<\/span><\/p> Como \u00e9 exposto na pesquisa, o Jornalismo Liter\u00e1rio n\u00e3o ignora o jornalismo convencional, apenas busca a hist\u00f3ria que pode estar por tr\u00e1s de acontecimentos que, por vezes, merecem apenas uma nota no jornal. Os textos convencionais apresentam vidas rasas, se comparadas \u00e0 sua magnitude. A inten\u00e7\u00e3o do jornalista liter\u00e1rio \u00e9, ent\u00e3o, humanizar o relato sobre o outro, na tentativa de compreender a maneira como ele construiu sua hist\u00f3ria e o lugar que ocupa nela. Como escreve Felipe Pena, cujas teorias foram utilizadas no TCC de Marlon, \u201cNo dia seguinte, o texto deve servir para algo mais do que simplesmente embrulhar o peixe na feira.\u201d<\/span><\/p> \u201cAos 65 anos, Silvio acha desnecess\u00e1rio esconder a idade. Cada ruga de seu rosto \u00e9 uma marca esculpida pelo tempo que sinaliza o quanto viveu, como se cada uma contasse uma de suas hist\u00f3rias. […] Os olhos tamb\u00e9m s\u00e3o grandes, atentos far\u00f3is que por vezes parecem perder-se na imensid\u00e3o de escuro \u00e0 sua frente. E n\u00e3o raro percebi seu olhar vago, como se procurasse algo que a escurid\u00e3o recobrisse.\u201d\u00a0Trecho de \u201cP\u00e1ssaro Proibido\u201d, de Marlon Dias.<\/span><\/p>