{"id":1731,"date":"2015-10-08T15:04:20","date_gmt":"2015-10-08T18:04:20","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.55bet-pro.com\/arco\/sitenovo\/?p=1731"},"modified":"2021-05-25T15:34:37","modified_gmt":"2021-05-25T18:34:37","slug":"conectados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/conectados","title":{"rendered":"Conectados"},"content":{"rendered":"
No Brasil, existem cerca de 277 milh\u00f5es de linhas de celular, segundo a Anatel. Os principais usu\u00e1rios? A juventude. Desde que os celulares chegaram ao pa\u00eds, na d\u00e9cada de 90, houve mudan\u00e7as de formato, tamanho e cores dos aparelhos, al\u00e9m da pr\u00f3pria tecnologia, que ultrapassou o objetivo inicial que deu origem ao equipamento \u2013 o de estabelecer di\u00e1logos \u2013 e agora permite capturar imagens, ouvir m\u00fasicas, escrever textos e acessar a internet.<\/p>\n
Os jovens, que est\u00e3o no centro das principais discuss\u00f5es sobre as redes sociais e a mobiliza\u00e7\u00e3o online, tamb\u00e9m representam a base do consumo dos gadgets (aparelhos eletr\u00f4nicos como tablets e celulares). Esses gadgets possibilitam aos jovens de classe popular novas pr\u00e1ticas sociais, antes indispon\u00edveis pelo alto custo de compra.Foi observando a movimenta\u00e7\u00e3o da juventude no dia a dia, que a ent\u00e3o mestranda de Comunica\u00e7\u00e3o Social da UFSM Flora Dutra detectou uma realidade: o celular \u00e9 um objeto em comum que conecta a juventude.<\/p>\n
A pesquisa de Flora \u00e9 um estudo dos usos e apropria\u00e7\u00f5es do telefone celular por jovens de classe popular, cujo objetivo \u00e9 identificar como os jovens da fra\u00e7\u00e3o baixa da classe popular (considerada a classe trabalhadora precarizada, sem acesso privilegiado ao capital cultural, econ\u00f4mico e social, tamb\u00e9m chamados de nova classe m\u00e9dia) distinguem-se uns dos outros pelos usos do aparelho m\u00f3vel no espa\u00e7o escolar.<\/p>\n
A pesquisadora entrevistou, entre junho e agosto de 2012, dez jovens (5 mo\u00e7as e 5 rapazes, a maioria benefici\u00e1ria de programas governamentais como Bolsa Fam\u00edlia), na faixa et\u00e1ria entre 15 e 18 anos, estudantes de ensino m\u00e9dio em Santa Maria, que possu\u00edam perfis na rede social Facebook. Nos resultados, a pesquisadora p\u00f4de concluir que a posse do celular por jovens de baixa renda constr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o de novos significados com a m\u00eddia, fam\u00edlia e a sociedade em geral. O celular, para os jovens entrevistados, est\u00e1 relacionado cotidianamente com a propaga\u00e7\u00e3o de gostos, desejos e distin\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n
Flora conta, no trabalho, que a elabora\u00e7\u00e3o de um di\u00e1rio de campo foi fundamental para organizar as observa\u00e7\u00f5es feitas por ela na escola. Pelo fato de a pesquisa ter um car\u00e1ter qualitativo com enfoque etnogr\u00e1fico, a autora optou pela observa\u00e7\u00e3o participante como t\u00e9cnica. Nela, o di\u00e1rio de campo foi a ferramenta utilizada para o registro dos aspectos sociais e culturais do grupo de jovens.<\/p>\n
A seguir, alguns trechos dos registros descritivos feitos pela pesquisadora no conv\u00edvio com os entrevistados e de algumas pr\u00e1ticas presenciadas na escola A. Assim como os entrevistados, a escola n\u00e3o foi identificada por motivos \u00e9ticos, a fim de preservar a identidade dos envolvidos.<\/p>\n
S\u00e3o treze horas, sol a pino, mais de mil alunos entram pelos port\u00f5es do col\u00e9gio A. Suas roupas s\u00e3o leves, deixando muitas vezes transparecer partes \u00edntimas do corpo. Parecem mudos ao atravessar os port\u00f5es. Pude perceber que quase todos possu\u00edam fones de ouvido e escutavam em sua individualidade alguma m\u00fasica que poderia facilmente ser reconhecida pelos c\u00f3digos identit\u00e1rios do vestu\u00e1rio: punks, funkeiros, gaud\u00e9rios, roqueiros.<\/p>\n
Os corredores do col\u00e9gio s\u00e3o compridos, e em cada um deles cerca de 20 salas de aula comportam os alunos, distribu\u00eddos em tr\u00eas andares. N\u00e3o h\u00e1 filas formais, mas quando o sinal soa e todos caminham na mesma dire\u00e7\u00e3o para entrar nas salas lembra-me do romance de Gorki A m\u00e3e, em que a f\u00e1brica absorvia todo o dia do homem, no esgotamento dos seus m\u00fasculos. Sem perceber, o dia parecia ter sido mais um riscado da vida dos estudantes. Assim \u00e9 para os alunos. Submetidos a uma disciplina r\u00edgida que pune e condena o uso dos celulares, parecem aut\u00f4matos no processo de ensino-aprendizagem.<\/p>\n
Sempre caminho pelos corredores entre um intervalo e outro e observo pela janela de vidro de cada turma, tento capturar atitudes \u201cinvis\u00edveis\u201d que podem revelar o que precisa ser descoberto e est\u00e1 oculto. Na minha vis\u00e3o pelas janelas constato que todas as atitudes s\u00e3o as mesmas. Alunos cansados, muitos com fome e sono, bocejam sentados em classes de madeira, um atr\u00e1s do outro. N\u00e3o demora em aparecer os celulares como distra\u00e7\u00e3o. Ajeitando daqui e dali, os alunos que utilizam os telefones n\u00e3o s\u00e3o notados pelos professores. Posso perceber a adrenalina da atividade \u201cil\u00edcita\u201d. No intervalo das aulas em que o sinal soa como toques da f\u00e1brica ou das pris\u00f5es, os corredores se enchem de jovens, que, encostados na parede, se colocam na mesma posi\u00e7\u00e3o, eretos, com as m\u00e3os abaixo do peito, segurando o objeto comum que os conecta no mesmo grupo: o celular.<\/p>\n
Poucos alunos apresentam descaso com a higiene pessoal, pois a imagem individual perante a escola \u00e9 muito bem elaborada antes de sair de casa. Geralmente vestem-se com a roupa que possuem e usam o celular como acess\u00f3rio de moda ao combinar a capinha com as cores do vestu\u00e1rio.<\/p>\n
Nos encontros em shoppings, foi poss\u00edvel notar certo desconforto quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de consumidor. Muitos produtos expostos foram alvos de sentimento de tristeza por n\u00e3o terem poder aquisitivo de compra. Estes produtos, na maioria das vezes, estavam relacionados ao vestu\u00e1rio e a bens eletr\u00f4nicos de comunica\u00e7\u00e3o, como tablets e celulares mais modernos.<\/p>\n
Sete entrevistados n\u00e3o possuem computador em casa, e eles adicionam esta desvantagem perante os estudantes de \u201cpais ricos\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua culta, a abrevia\u00e7\u00e3o das palavras nos trabalhos escolares, em conte\u00fados nas redes sociais e nas avalia\u00e7\u00f5es, predomina, mesmo sendo un\u00e2nime que \u201cescrever abreviado\u201d \u00e9 criar uma nova linguagem entre o grupo, que distingue gera\u00e7\u00f5es. Transgredir as regras ortogr\u00e1ficas \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cliberdade de express\u00e3o, modernidade e velocidade\u201d.<\/p>\n
A exposi\u00e7\u00e3o do aparelho na escola e diante do grupo de amigos \u00e9 sempre pensada na hora da troca do aparelho, pois os estudantes de baixa renda veem no celular uma melhoria da qualidade de vida, visto que \u00e9 a \u00fanica fonte de Internet dispon\u00edvel no espa\u00e7o dom\u00e9stico para estudo, pesquisa e acesso \u00e0s redes online.<\/p>\n
Na disserta\u00e7\u00e3o, Flora tra\u00e7a os perfis dos entrevistados a fim de analisar seu comportamento na rede social. Quatro dos dez perfis elaborados pela pesquisadora podem ser conferidos abaixo.\u00a0<\/strong><\/p>\n Ela tem dezessete anos, cursa o primeiro ano do Ensino M\u00e9dio pela manh\u00e3 e \u00e0 noite \u00e9 garota de programa. A m\u00e3e da estudante \u00e9 faxineira e o pai recolhe lixo hospitalar em uma empresa terceirizada. A renda aproximada da fam\u00edlia \u00e9 de R$ 950,00\/m\u00eas e seis pessoas dividem a casa \u2013 incluindo a irm\u00e3 mais velha, de dezenove anos, que est\u00e1 gr\u00e1vida e foi abandonada pelo namorado caminhoneiro. Alice* revela que \u00e9 atrav\u00e9s do celular que consegue marcar os programas, fazer trabalhos da escola e acessar o Facebook, pois a fam\u00edlia n\u00e3o possui computador em casa.<\/p>\n O pai da estudante \u00e9 pedreiro e cursou at\u00e9 a quinta s\u00e9rie do Ensino B\u00e1sico; a m\u00e3e \u00e9 dom\u00e9stica e foi at\u00e9 a s\u00e9tima s\u00e9rie. A fam\u00edlia de Cl\u00e1udia \u00e9 evang\u00e9lica, e a estudante participa ativamente das atividades da Igreja no bairro. Ela coordena o grupo de jovens evangelistas, participa da banda da escola e \u00e9 dedicada aos estudos. Atualmente a jovem tem o sonho de ser m\u00e9dica e j\u00e1 cursa paralelamente ao col\u00e9gio um curso t\u00e9cnico de enfermagem. O curso \u00e9 pago com muita dificuldade pela fam\u00edlia, e o valor da educa\u00e7\u00e3o dentro da casa de Cl\u00e1udia \u00e9 frisado diariamente pelos pais, assim como valores morais e religiosos. A estudante \u00e9 ativa em manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais e se diz abertamente a favor da \u201cCura Gay\u201d, assunto pol\u00eamico que envolve alunos homossexuais durante o intervalo na escola. A jovem usa o celular para falar com amigos e fam\u00edlia diariamente.<\/p>\n