{"id":1790,"date":"2016-06-08T16:31:14","date_gmt":"2016-06-08T19:31:14","guid":{"rendered":"http:\/\/coral.55bet-pro.com\/arco\/sitenovo\/?p=1790"},"modified":"2021-02-11T14:49:35","modified_gmt":"2021-02-11T17:49:35","slug":"ilhados-em-prol-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/ilhados-em-prol-da-ciencia","title":{"rendered":"Ilhados em prol da ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"
Em dezembro de 2014, cinco pesquisadores canadenses, um austr\u00edaco, uma belga e 16 brasileiros participaram de uma expedi\u00e7\u00e3o a Anavilhanas, arquip\u00e9lago localizado no rio Negro, no estado do Amazonas.<\/p>\n
Organizada pelo professor Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), a expedi\u00e7\u00e3o teve o objetivo de estudar a fisiologia de peixes amaz\u00f4nicos. O professor do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFSM Bernardo Baldisserotto e sua orientanda de doutorado Ana Paula Almeida estavam entre os pesquisadores que passaram 14 dias alojados em um barco, envolvidos com experimentos realizados com peixes da regi\u00e3o.<\/p>\n
O professor Bernardo lidera na UFSM o Laborat\u00f3rio de Fisiologia de Peixes, que estuda extrativos vegetais como anest\u00e9sicos, antiparasit\u00e1rios e antibacterianos em animais aqu\u00e1ticos. Ana Paula pesquisa o efeito de dois \u00f3leos essenciais na anestesia de peixes e foi at\u00e9 a Amaz\u00f4nia para verificar se esses \u00f3leos, que tiveram bom efeito no jundi\u00e1 (peixe utilizado nas pesquisas realizadas em Santa Maria), podem ser utilizados tamb\u00e9m em peixes daquela regi\u00e3o.<\/p>\n
Sol escaldante, vento forte, pesquisadoras mordidas por peixes, inexist\u00eancia de acesso a internet e telefone: a rotina do grupo de pesquisadores, as dificuldades e as curiosidades foram relatadas pelo professor Bernardo, dia a dia, a pedido da Arco.<\/p>\n
DIA 1 (1\/12)<\/strong> DIA 2 (2\/12)<\/strong> Ao final do dia, sa\u00edmos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esta\u00e7\u00e3o Lago do Prato, do Ibama, no arquip\u00e9lago de Anavilhanas. Nosso barco leva cerca de 8 horas para ir de Manaus at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o, subindo o rio Negro. Fa\u00e7o a \u00faltima liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica para a fam\u00edlia, pois fomos informados de que no local onde atracaremos n\u00e3o h\u00e1 sinal de telefone nem de internet. A cidade mais pr\u00f3xima \u00e9 Novo Air\u00e3o, que est\u00e1 de 1 a 3 horas de viagem, dependendo da velocidade do barco. O nosso barco cont\u00e9m cabinas com ar-condicionado e banheiro, nas quais os pesquisadores e alunos s\u00e3o instalados dois a dois.<\/p>\n DIA 3 (3\/12)<\/strong> No momento da instala\u00e7\u00e3o de um fot\u00f4metro de chama para an\u00e1lise da concentra\u00e7\u00e3o de \u00edons na \u00e1gua, n\u00e3o consigo faz\u00ea-lo funcionar. Ap\u00f3s conversar com outros colegas, recebo ajuda do Dr. Chris Wood, meu orientador de p\u00f3s-doutorado no Canad\u00e1, e ele coloca o equipamento em funcionamento. Em torno das 11 horas, todo nosso material est\u00e1 pronto e aguardamos a chegada dos peixes, que s\u00e3o trazidos ao final da manh\u00e3.<\/p>\n Em fun\u00e7\u00e3o da grande quantidade dispon\u00edvel em Anavilhanas, escolhemos trabalhar com piranha branca e piranha preta. S\u00e3o peixes muito agressivos, com dentes afiados, e \u00e9 preciso ter cuidado no seu manuseio. Trabalhamos com piranhas de 10 a 20 cent\u00edmetros, mas algumas piranhas pretas capturadas pelos pescadores tinham at\u00e9 45 cent\u00edmetros.<\/p>\n Uma pesquisadora de outro grupo levou uma mordida de uma piranha, mesmo tendo usado sempre uma luva de metal para manuse\u00e1-las. N\u00f3s, felizmente, n\u00e3o tivemos problemas.<\/p>\n Ap\u00f3s o almo\u00e7o, iniciamos os experimentos de anestesia, testando diferentes concentra\u00e7\u00f5es dos \u00f3leos essenciais que trouxemos de Santa Maria. \u00c0 tarde, o sol bate no local que escolhemos para trabalhar, embora tivessem nos dito que isso n\u00e3o ocorreria. Um dos funcion\u00e1rios do Inpa instala uma lona pl\u00e1stica para nos proteger dos raios solares, mas o calor continua forte, em torno de 34\u00baC. \u00c9 necess\u00e1rio tomar \u00e1gua continuamente. Seguimos trabalhando at\u00e9 20h30min, quando paramos para a janta e depois dormimos. Ficamos sabendo que existiria um local espec\u00edfico na casa flutuante onde \u00e0s vezes \u00e9 poss\u00edvel captar sinal no celular. N\u00e3o conseguimos sinal.<\/p>\n DIA 5 (5\/12)\u00a0<\/strong> Apesar do calor e da \u00e1gua convidativa (30-32\u00baC) do rio Negro, ningu\u00e9m pensa em entrar na \u00e1gua, porque o local est\u00e1 infestado de jacar\u00e9s, que nadam periodicamente a poucos metros da casa flutuante.<\/p>\n DIA 6 (6\/12)<\/strong> Na janta h\u00e1 a comemora\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio de um dos pesquisadores, com direito a brinde com vinho, \u201cParab\u00e9ns a voc\u00ea\u201d em portugu\u00eas e ingl\u00eas, bem como bolo de anivers\u00e1rio. Esse foi um dos nossos poucos momentos de folga. Durante toda nossa estadia, apenas paramos de trabalhar durante as refei\u00e7\u00f5es, e ap\u00f3s a janta conversamos por alguns minutos com os demais pesquisadores. Nesses momentos de folga \u00e9 que existe alguma intera\u00e7\u00e3o entre os brasileiros e estrangeiros, pois durante o dia cada um est\u00e1 envolvido com seu pr\u00f3prio experimento ou an\u00e1lises.<\/p>\n N\u00e3o h\u00e1 nenhuma divers\u00e3o dispon\u00edvel no barco, e mesmo que houvesse, n\u00e3o haveria tempo ou disposi\u00e7\u00e3o. Depois de trabalhar o dia inteiro, o \u00fanico desejo \u00e9 dormir. Alguns alunos e pesquisadores continuam executando experimentos e an\u00e1lises durante a madrugada.<\/p>\n DIA 7 (7\/12)<\/strong> Consigo um r\u00e1pido sinal de celular na minha cabine e aproveito para fazer uma liga\u00e7\u00e3o de dois minutos para minha esposa. No in\u00edcio da tarde, h\u00e1 um vento forte e somos obrigados a ajustar as lonas, que estavam presas apenas na parte de cima, para evitar que batam no nosso sistema de filmagem e ele seja derrubado. Pequenas ondas se formam no rio, mas o nosso barco nem chega a balan\u00e7ar. Logo ap\u00f3s, uma chuva torrencial cai por cerca de uma hora, mas n\u00e3o h\u00e1 problema, porque o vento diminui. As medidas de consumo de oxig\u00eanio prosseguem durante a noite, pois uma das pesquisadoras do Inpa, Daiani Kochhann, formada em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas na UFSM, dever\u00e1 voltar na manh\u00e3 do dia 9 de dezembro para Manaus.<\/p>\n DIA 8 (8\/12)<\/strong> As medidas de consumo de oxig\u00eanio, que seguiram durante todo o dia, terminam apenas na madrugada.<\/p>\n DIA 9 (9\/12)<\/strong> DIA 10 (10\/12)<\/strong> DIA\u00a013 (13\/12)\u00a0<\/strong> DIA 14 (14\/12)<\/strong> Rep\u00f3rter<\/strong>: Luciane Treulieb<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Pesquisadores da UFSM participam de expedi\u00e7\u00e3o em arquip\u00e9lago amaz\u00f4nico para realizar experimentos com peixes da regi\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":32,"featured_media":1769,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1613],"tags":[4285,396,4492,4491],"class_list":["post-1790","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diario-de-campo-6-edicao","tag-amazonas","tag-diario-de-campo","tag-piranha","tag-rio-negro"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1790"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1769"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}
\nAp\u00f3s a chegada em Manaus no dia anterior, vamos ao laborat\u00f3rio do Dr. Val, no Inpa, em Manaus, para conferir se todos os materiais necess\u00e1rios para nossos experimentos e an\u00e1lises est\u00e3o prontos. Nos reunimos com os demais participantes para acertar os \u00faltimos detalhes da expedi\u00e7\u00e3o. Toda a discuss\u00e3o \u00e9 feita em ingl\u00eas para que os pesquisadores estrangeiros possam entender. Funcion\u00e1rios do Inpa iniciam o carregamento dos materiais e equipamentos a serem transportados para o barco que nos levar\u00e1 at\u00e9 o arquip\u00e9lago.<\/p>\n
\nDois caminh\u00f5es contendo os equipamentos, material para a excurs\u00e3o e alguns peixes para os experimentos seguem at\u00e9 o local onde o barco est\u00e1 ancorado. A pesquisadora belga v\u00ea uma tra\u00edra saltar da caixa de onde est\u00e1 sendo transportada e corre para peg\u00e1-la e coloc\u00e1-la de volta. Leva uma mordida no dedo, que sangra e tem de ser tratado.<\/p>\n
\nO barco chega de madrugada junto \u00e0 casa flutuante da esta\u00e7\u00e3o Lago do Prato, onde alguns pesquisadores (inclusive n\u00f3s) colocar\u00e3o seus equipamentos para fazer os experimentos. N\u00e3o temos problemas para dormir, pois o barco n\u00e3o balan\u00e7a nada nas \u00e1guas calmas do rio Negro. Ao nosso redor h\u00e1 apenas o rio e as margens cobertas pelas florestas. Al\u00e9m do guarda e do fiscal da esta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m nos arredores. Ap\u00f3s o caf\u00e9 da manh\u00e3, os pescadores do Inpa saem para pescar \u2013 atividade que repetir\u00e3o tr\u00eas vezes por dia enquanto estivermos aqui.<\/p>\n
\nIniciamos uma nova s\u00e9rie de experimentos com as piranhas brancas, em que os peixes s\u00e3o expostos por quatro horas aos anest\u00e9sicos, mas numa concentra\u00e7\u00e3o bem baixa, apenas para deixar os peixes mais calmos. Os peixes s\u00e3o filmados durante alguns segundos a intervalos de tempo definidos. \u00c9 um experimento para ver qual concentra\u00e7\u00e3o dos anest\u00e9sicos seria mais adequada para o transporte dos peixes.<\/p>\n
\nNo final da manh\u00e3, alguns turistas portugueses chegam num barco vindo de Novo Air\u00e3o e v\u00eam olhar os peixes e perguntar sobre nossos experimentos. Ao final do dia, combinamos com alunos e pesquisadores do Inpa um novo experimento a ser feito nos pr\u00f3ximos dois dias, quando o equipamento para medir consumo de oxig\u00eanio dos peixes estar\u00e1 dispon\u00edvel. Faremos essas medidas com o objetivo de verificar se os anest\u00e9sicos em baixas concentra\u00e7\u00f5es alteram o metabolismo dos peixes. Quanto maior o metabolismo do peixe, maior o consumo de oxig\u00eanio.<\/p>\n
\nS\u00e3o quase tr\u00eas horas para ajustar o equipamento para medir o consumo de oxig\u00eanio dos peixes. A primeira esp\u00e9cie de peixe que tentamos era muito grande para o equipamento. Como precisamos em torno de 30 peixes, n\u00e3o temos muitas op\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies.<\/p>\n
\nAvistamos um casal de botos cor-de-rosa e seu filhote nadando perto do barco. \u00c9 poss\u00edvel apenas avistar rapidamente os dorsos cor-de-rosa quando emergem para respirar.<\/p>\n
\nUm bote a motor leva uma pesquisadora e duas alunas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Inpa para Novo Air\u00e3o, onde um carro as levar\u00e1 de volta a Manaus. O bote retorna trazendo vegetais e frutas para nossa alimenta\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas cozinheiras preparam nossas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias: caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o, caf\u00e9 da tarde e janta. No almo\u00e7o e na janta, o card\u00e1pio \u00e9 bastante variado. \u00c0 medida que vamos terminando nossos experimentos, levo algumas piranhas para as cozinheiras aproveitarem nas refei\u00e7\u00f5es, pois durante a expedi\u00e7\u00e3o comemos peixe apenas quando sobram dos experimentos.<\/p>\n
\nNo final da manh\u00e3, terminamos os experimentos com as piranhas brancas. Chove boa parte do dia, aliviando o calor. N\u00f3s achamos a temperatura de 26\u00ba agrad\u00e1vel, mas algumas pessoas da expedi\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o da regi\u00e3o Norte, colocam camisas de manga comprida ou casacos leves, pois sentem frio. Iniciamos um experimento complementar com exposi\u00e7\u00e3o de piranhas pretas a baixas concentra\u00e7\u00f5es dos anest\u00e9sicos testados por 15 minutos, filmando em alguns tempos para verificar poss\u00edveis mudan\u00e7as de comportamento. Iniciamos as medidas de algumas amostras de \u00e1gua que hav\u00edamos coletado nos nossos experimentos com as piranhas brancas. Ao final do dia, terminamos todos os experimentos com as piranhas pretas, pois os pescadores conseguem neste dia pescar todas as que necessit\u00e1vamos.<\/p>\n
\nDe manh\u00e3, empacotamos os equipamentos que estavam na casa flutuante e, \u00e0 tarde, eles s\u00e3o carregados para o barco. Ainda de manh\u00e3, continuamos a an\u00e1lise dos dados obtidos. \u00c0 tarde, o Dr. Val sai com um bote a motor para registrar as coordenadas geogr\u00e1ficas dos locais onde os peixes foram coletados e vamos junto. Descemos um pouco e entramos em terra firme para visualizar a floresta, cujo ch\u00e3o estava cheio de folhas e troncos em decomposi\u00e7\u00e3o. Quando a \u00e1gua subir e cobrir essa parte, toda a mat\u00e9ria em decomposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 arrastada para dentro do rio, contribuindo para dar a sua cor negra.<\/p>\n
\nCom o fim da expedi\u00e7\u00e3o e dos experimentos, o barco retorna a Manaus.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n