{"id":244,"date":"2016-05-09T10:34:28","date_gmt":"2016-05-09T13:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/05\/09\/post244\/"},"modified":"2016-05-09T10:34:28","modified_gmt":"2016-05-09T13:34:28","slug":"post244","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post244","title":{"rendered":"A arte como tratamento"},"content":{"rendered":"

A Reforma Psiqui\u00e1trica Brasileira mudou a forma de compreender os pacientes \u00a0de cl\u00ednicas psiqui\u00e1tricas, que se encontravam em uma perspectiva excludente. Desde <\/span>a d\u00e9cada de 1970<\/span>, as mudan\u00e7as de concep\u00e7\u00e3o sobre pacientes psiqui\u00e1tricos e tratamentos foram a porta de entrada para novas possibilidades de atua\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da sa\u00fade mental. Dentre essas novas din\u00e2micas metodol\u00f3gicas, existe a musicoterapia.<\/span><\/p>\n

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Uma das refer\u00eancias nacionais em atua\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica na terapia psiqui\u00e1trica se localiza no bairro Gamboa, zona portu\u00e1ria de Rio de Janeiro. Em 1998, no Centro Psiqui\u00e1trico Rio de Janeiro (CPRJ), foi oferecida aos pacientes uma oficina chamada \u201cConvivendo com a m\u00fasica\u201d. A partir de ent\u00e3o, alguns pacientes sentiram a necessidade de ampliar sua rela\u00e7\u00e3o com a arte e come\u00e7aram a compor.<\/span><\/p>\n

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Formou-se o grupo Harmonia Enlouquece, que teve sua estreia em 7 de abril de 2001, no \u201cDia Mundial da Sa\u00fade\u201d. O grupo retrata uma realidade dos pacientes de cl\u00ednicas psiqui\u00e1tricas, e suas m\u00fasicas servem como reflexo de um contexto estigmatizado e pouco explorado. Essa iniciativa propiciou uma express\u00e3o art\u00edstica que resultou em uma metamorfose paciente-m\u00fasico.<\/span><\/p>\n

\u201cEstou vivendo<\/strong><\/p>\n

No mundo do hospital<\/strong><\/p>\n

Tomando rem\u00e9dios<\/strong><\/p>\n

De psiquiatria mental<\/strong><\/p>\n

Haldol, Diazepam<\/strong><\/p>\n

Rohypnol, Prometazina<\/strong><\/p>\n

Meu m\u00e9dico n\u00e3o sabe<\/strong><\/p>\n

Como me tornar<\/strong><\/p>\n

Um cara normal\u201d<\/strong><\/p>\n

Trecho de \u201cSufoco da Vida\u201d – Harmonia Enlouquece<\/span><\/em><\/p>\n

Desde o in\u00edcio das atividades do Harmonia Enlouquece, j\u00e1 passaram pelo grupo mais de 42 pacientes, muitos dos quais n\u00e3o mais integram o conjunto, mas em algum momento precisaram do espa\u00e7o em suas vidas. Para alguns deles, os resultados do processo terap\u00eautico e art\u00edstico apareceram tamb\u00e9m na redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de interna\u00e7\u00f5es e na melhora na ades\u00e3o ao tratamento.<\/span><\/p>\n

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A musicoterapia tem sido adotada como parte do tratamento psiqui\u00e1trico em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Para nos contar um pouco mais sobre a din\u00e2mica terap\u00eautica, entrevistamos o psic\u00f3logo Vinicius Geissler, formado pelo Centro Universit\u00e1rio Franciscano de Santa Maria e coaching graduado pela Sociedade Latino Americana de Coaching. Semelhante ao trabalho desenvolvido no CPRJ, Geissler v\u00ea na musicoterapia um grande potencial de integra\u00e7\u00e3o e fomento \u00e0s habilidades musicais e art\u00edsticas de pacientes em tratamento.<\/span><\/p>\n

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Como funciona a musicoterapia?<\/h4>\n

A musicoterapia \u00e9 a t\u00e9cnica que utiliza os elementos musicais com fins de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. A utiliza\u00e7\u00e3o dos elementos musicais \u2013 som, ritmo, melodia e harmonia \u2013 para a reabilita\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mental e social \u00e9 o foco do trabalho do musicoterapeuta. Ele pode ser oferecido de forma individual ou para grupos. O emprego de instrumentos musicais, canto e ru\u00eddos s\u00e3o ferramentas comuns e muito utilizadas no tratamento de pessoas com dist\u00farbios da fala e audi\u00e7\u00e3o, ou defici\u00eancia mental. O trabalho tamb\u00e9m pode ser aplicado em estudantes que buscam maior aproveitamento, e no trabalho com dependentes qu\u00edmicos e menores infratores. O trabalho pode ser exercido em diversos ambientes, tanto em hospitais quanto com equipes esportivas, empresas e escolas.<\/span><\/p>\n

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\u201cEm uma cultura cada vez mais isolacionista, descobrir como a pessoa se expressa \u00e9 primordial para aliviar a ansiedade do paciente\u201d.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n

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Como voc\u00ea come\u00e7ou a trabalhar com musicoterapia?<\/strong><\/p>\n

Desde meu primeiro trabalho com atletas de voleibol, na Associa\u00e7\u00e3o Voleibol Futuro, me valho da influ\u00eancia que a m\u00fasica exerce sobre as pessoas. Em dias de jogos, era comum as atletas reunirem-se para se concentrar para o confronto escutando m\u00fasica, cantando junto e dando risada. Essa t\u00e9cnica \u00e9 amplamente apoiada na redu\u00e7\u00e3o da ansiedade antes de eventos cr\u00edticos. A m\u00fasica sempre esteve presente no meu trabalho oferecendo o seu car\u00e1ter terap\u00eautico aos pacientes.<\/span><\/p>\n

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Qual a sua experi\u00eancia com musicoterapia?<\/strong><\/p>\n

N\u00e3o fosse a m\u00fasica, eu n\u00e3o teria me graduado como psic\u00f3logo, n\u00e3o teria aprendido a tocar viol\u00e3o, nem a falar ingl\u00eas, e isso me levou a escrever contos e livros. Eu inicio a resposta desta forma porque, sem testar na gente, o m\u00e9todo fica pela metade. Com a minha experi\u00eancia de vida, sinto-me \u00e0\u00a0vontade para dialogar com os pacientes sobre sua maneira de expressar a criatividade. Eles tocam instrumentos? Tem vontade de aprender mais? Escrevem poemas, poesias, can\u00e7\u00f5es, hist\u00f3rias? Relaxam escutando m\u00fasica, ou preferem o sil\u00eancio? Em uma cultura cada vez mais isolacionista, descobrir como a pessoa se expressa \u00e9 primordial para aliviar a ansiedade do paciente que busca o servi\u00e7o.<\/span><\/p>\n

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Como foi realizado\u00a0o teu trabalho com o DTG Noel Guarany?<\/strong><\/p>\n

Apresentei, em abril de 2015, junto com o Marcelo Dias, treinador das equipes de voleibol da UFSM, um workshop sobre a pr\u00e1tica da Psicologia no voleibol na semana acad\u00eamica do curso de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica da UFSM. Um dos integrantes do DTG Noel Guarany da UFSM estava no p\u00fablico e entrou em contato comigo ap\u00f3s o evento. Uma semana depois, eu iniciei a consultoria com a equipe de dan\u00e7a.<\/span><\/p>\n

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Como ocorreu o exerc\u00edcio da musicoterapia nestas atividades?<\/strong><\/p>\n

Os exerc\u00edcios oferecidos visavam \u00e0 dan\u00e7a castanhola, em que o casal n\u00e3o se toca durante sua execu\u00e7\u00e3o. O desafio era estabelecer uma maior intimidade e confian\u00e7a entre as duplas, assim montei, em conjunto com os respons\u00e1veis do DTG, uma sequ\u00eancia de din\u00e2micas em que os integrantes deveriam conduzir uns aos outros sem se tocar, apenas com o olhar e a pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o como auxiliares. Em alguns exerc\u00edcios a can\u00e7\u00e3o a ser apresentada era a trilha sonora, em outros o sil\u00eancio total indicava a atmosfera do trabalho. E, mesmo sendo exigidos a todo o momento, os integrantes apoiaram a execu\u00e7\u00e3o do trabalho. <\/span><\/p>\n

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Qual a din\u00e2mica da pr\u00e1tica musicoter\u00e1pica num ambiente tradicionalista, com a m\u00fasica nativista?<\/strong><\/p>\n

O ambiente tradicionalista visto \u00e0\u00a0dist\u00e2ncia talvez aparente a necessidade de rigidez e de respeito \u00e0 cultura. Tudo muito diferente do que ocorreu no trabalho feito no DTG Noel Guarany. Mesmo com a tem\u00e1tica do local, que exige concentra\u00e7\u00e3o e respeito, todos os envolvidos aderiram ao trabalho, mesmo os mais distantes.Como gosto de parceiros de trabalho, a todo momento convidava os integrantes para assumir a reg\u00eancia do exerc\u00edcio. Contei com a ajuda de uma aluna do curso de Dan\u00e7a, integrante do DTG, que foi de extrema import\u00e2ncia. O seu conhecimento aliado \u00e0 intimidade do conv\u00edvio estabelecida com os colegas acelerou o processo de absor\u00e7\u00e3o do que foi trabalhado.<\/span><\/p>\n

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\u201cA arte sempre ser\u00e1 auxiliar na reabilita\u00e7\u00e3o emocional do paciente, porque oferece canais muito mais suaves para a express\u00e3o do sujeito que se encontra em desequil\u00edbrio\u201d.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n

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Voc\u00ea est\u00e1 envolvido em algum projeto atualmente?<\/strong><\/p>\n

Hoje meu envolvimento com a pr\u00e1tica pode ser ilustrado no trabalho que exer\u00e7o com as equipes masculinas de futsal e voleibol da UFSM. As din\u00e2micas de grupo trabalhadas foram todas criadas a partir dos princ\u00edpios de ritmo como fator socializador, oportunizando canais de express\u00e3o para os atletas, que, muitas vezes, durante os jogos, n\u00e3o disp\u00f5em do tempo necess\u00e1rio para um di\u00e1logo reorganizador da t\u00e1tica proposta. Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, utilizo seguidamente a rela\u00e7\u00e3o do paciente com a m\u00fasica como uma ferramenta de aux\u00edlio. Sou muito interessado no potencial criativo dos meus pacientes, e confio na m\u00fasica como um forte canal para estimular suas qualidades.<\/span><\/p>\n

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Como esse m\u00e9todo fez parte da Reforma Psiqui\u00e1trica Brasileira?<\/strong><\/p>\n

Hoje em dia \u00e9 comum encontrar nos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS) projetos que acolhem sujeitos atrav\u00e9s da m\u00fasica, com oficinas de instrumentos, de t\u00e9cnicas vocais, ou com o car\u00e1ter de socializa\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o coletiva. Aos poucos as antigas pr\u00e1ticas chocantes nos hospitais psiqui\u00e1tricos v\u00e3o ficando no passado e pr\u00e1ticas como a da musicoterapia avan\u00e7am. As artes de forma geral sempre ser\u00e3o auxiliares na reabilita\u00e7\u00e3o emocional do paciente, uma vez que s\u00e3o canais muito mais suaves para a express\u00e3o do sujeito que se encontra em desequil\u00edbrio do que empanturr\u00e1-lo de rem\u00e9dios ou exclu\u00ed-lo da sociedade.<\/span><\/p>\n

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Esse m\u00e9todo terap\u00eautico \u00e9 estudado na faculdade, ou em cursos de especializa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n

Na minha gradua\u00e7\u00e3o o tema foi pouco abordado, por\u00e9m as poucas aulas que tive foram marcantes e essa ferramenta sempre foi mais indicada para trabalhos em grupos. Para quem estiver interessado em fazer algum dos in\u00fameros cursos de Musicoterapia oferecidos no pa\u00eds, pode acessar ao site:<\/span> http:\/\/www.musicoterapia.mus.br\/ondeestudar.php<\/span><\/a> .<\/span><\/p>\n

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Como se d\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o do paciente atrav\u00e9s da m\u00fasica?<\/strong><\/p>\n

O poder de transforma\u00e7\u00e3o do sujeito est\u00e1 sempre ativo e pronto para florescer, uma vez que a musicoterapia busca a comunica\u00e7\u00e3o com o \u201cm\u00fasico\u201d dentro de cada um, seja ele apenas um simpatizante da m\u00fasica, ou um m\u00fasico com um g\u00eanio das composi\u00e7\u00f5es elaboradas e po\u00e9ticas dentro de si. O que realmente importa \u00e9 o potencial criativo do sujeito e as oportunidades de se manifestar.<\/span><\/p>\n

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Todos podemos ser m\u00fasicos e usu\u00e1rios da musicoterapia ao mesmo tempo, n\u00e3o se trata de uma f\u00f3rmula onde um exclui o outro, pelo contr\u00e1rio, a m\u00fasica sempre foi terap\u00eautica. \u00cdcones da cultura musical, como Kurt Cobain e Renato Russo, por exemplo, utilizaram suas famosas composi\u00e7\u00f5es para aliviar seus sintomas de tristeza e expressar suas d\u00favidas sobre a vida e o amor. Sentimentos muito comuns para eu e voc\u00ea, n\u00e3o \u00e9 mesmo? A diferen\u00e7a inicial \u00e9 de que eles insistiram at\u00e9 a dor virar arte. E essa arte pode chegar at\u00e9 n\u00f3s.<\/span><\/p>\n

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Quais s\u00e3o os principais beneficios da musicoterapia?<\/strong><\/p>\n

O ritmo musical tem total influ\u00eancia na vida do paciente e \u00e9 um dos maiores benef\u00edcios oferecido pela musicoterapia, j\u00e1 que as pessoas normalmente possuem desordem nos ritmos de sono, alimenta\u00e7\u00e3o, lazer e trabalho. A musicoterapia oferece uma sa\u00edda para isto. O sujeito envolvido pode adquirir novas habilidades, como aprender a tocar um instrumento, desenvolver habilidades vocais, aprender novos estilos de dan\u00e7a. Com o passar do tempo, isto acabar\u00e1 por influenciar o sujeito, trazendo uma s\u00f3lida rela\u00e7\u00e3o com seus pr\u00f3prios ritmos. Lembrando tamb\u00e9m que a musicoterapia sempre ser\u00e1 uma ferramenta auxiliar do terapeuta em busca da promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental e bem estar do paciente, tendo tanta efic\u00e1cia e encontrando um desafio t\u00e3o amplo quanto todas as outras t\u00e9cnicas oferecidas pela Psicologia e terapias em geral. O importante mesmo \u00e9 que o paciente\/grupo encontre o seu profissional\/meio ideal para se entregar \u00e0\u00a0experi\u00eancia. Lembrando que o ditado \u201cquem canta os males espanta\u201d pode ser um bom exemplo do que a musicoterapia pode oferecer \u00e0 sociedade.<\/span><\/p>\n

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