{"id":267,"date":"2016-06-03T15:29:25","date_gmt":"2016-06-03T18:29:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/06\/03\/post267\/"},"modified":"2016-06-03T15:29:25","modified_gmt":"2016-06-03T18:29:25","slug":"post267","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post267","title":{"rendered":"Patrim\u00f4nio Cultural"},"content":{"rendered":"
<\/p>\n O curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSM organizou a 11\u00ba edi\u00e7\u00e3o da Oficina Transdisciplinar, para refletir, entre outros temas, sobre os patrim\u00f4nios abandonados e a relev\u00e2ncia deles na sociedade. Na abertura do evento, a palestra foi conduzida pelo historiador portugu\u00eas Jo\u00e3o Paulo Avel\u00e3s, professor da Universidade de Coimbra. Ele esteve em Santa Maria para conversar e capacitar os futuros arquitetos sobre a import\u00e2ncia dos patrim\u00f4nios culturais das cidades. Avel\u00e3s foi convidado para que os alunos tivessem refer\u00eancia de atua\u00e7\u00e3o em patrim\u00f4nio cultural para al\u00e9m do Brasil, e que expandissem seus olhares al\u00e9m dos edif\u00edcios enquanto mat\u00e9ria f\u00edsica, resgatando as ideias de mem\u00f3ria, identidade e pertencimento. <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n A Revista Arco aproveitou a passagem de Avel\u00e3s em Santa Maria e conversou com ele sobre \u00a0a forma\u00e7\u00e3o dos estados nacionais atrav\u00e9s da mem\u00f3ria e identidade dos patrim\u00f4nios culturais. O professor tamb\u00e9m falou da import\u00e2ncia econ\u00f4mica desses locais para as sociedades atuais e da necessidade de se pensar novas formas de ocup\u00e1-los e preserv\u00e1-los, levando em conta as car\u00eancias de cada sociedade. <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n O que \u00e9 um patrim\u00f4nio cultural?<\/strong><\/p>\n Para isso eu posso dar duas respostas. Primeiro, \u00e9 aquilo que a hist\u00f3ria (ou seja, a capacidade das coisas sobreviverem e terem import\u00e2ncia nos nossos dias) determina que seja. Essa \u00e9 a resposta tradicional, o patrim\u00f4nio preexistia e direcionava as sociedades atuais. As coisas tinham sua dignidade e sua grandeza, bastava olhar para elas e se reconheceria imediatamente o que era patrim\u00f4nio. Essa era a vis\u00e3o tradicional. Por isso, o que era considerado patrim\u00f4nio era muito pouco e podia ser classificado em uma lista mais ou menos completa. Em fun\u00e7\u00e3o disso, patrim\u00f4nios eram monumentos ou objetos associados normalmente \u00e0s elites e aos seus aspectos de vida relacionados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural, poder pol\u00edtico, religi\u00e3o e guerra. <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n Hoje, tamb\u00e9m se pensa que patrim\u00f4nio cultural \u00e9 tudo que seja representativo de uma sociedade a partir de um determinado olhar sobre ela. Significa que tudo pode ser patrim\u00f4nio, porque, se existe, foi gerado por uma sociedade e \u00e9 significativo para conhec\u00ea-la. Portanto, tudo pode ser patrim\u00f4nio. Mas, como nem tudo pode ser patrimonializado, temos que fazer escolhas.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n Quem faz essas escolhas? <\/strong><\/p>\n As escolhas s\u00e3o feitas por quem, em cada contexto, tem essa vontade ou essa capacidade. Podem ser as pessoas que produzem discursos cient\u00edficos sobre a realidade e que, por isso, ajudam a identificar objetos que s\u00e3o relevantes, como historiadores, soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos. Podem ser as pessoas que se especializam em patrim\u00f4nio cultural ou museologia, e que proponham e construam processos de classifica\u00e7\u00e3o. Podem ser pessoas do turismo, que por levarem outras pessoas para visitas acabam por dizer o que \u00e9 relevante e merece ser observado e visitado. Podem ser as empresas, [quando dizem] \u201cn\u00f3s temos essa hist\u00f3ria, esse edif\u00edcio, esse objeto, isso ilustra o que n\u00f3s fomos e portanto deve ser observado enquanto tal\u201d. O nosso patrim\u00f4nio \u00e9 a nossa identidade, nossa mem\u00f3ria, nossa cultura organizacional. Podem ser os arquitetos ao decidirem o que \u00e9 demolido e o que n\u00e3o \u00e9, o que \u00e9 reutilizado para criar um espa\u00e7o de desenvolvimento que salienta e real\u00e7a o que j\u00e1 existe. S\u00e3o pessoas pol\u00edticas que aplicam, ou n\u00e3o, recursos a determinadas coisas.<\/span><\/p>\n <\/p>\n Qual a rela\u00e7\u00e3o entre os patrim\u00f4nios culturais e o surgimento dos estados nacionais?<\/strong><\/p>\n A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que o estado-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o existia at\u00e9 o in\u00edcio da \u00e9poca contempor\u00e2nea. O que havia eram territ\u00f3rios que tinham fronteiras, nas quais havia estruturas de poder com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. N\u00e3o era necess\u00e1rio que as pessoas se sentissem parte de um todo, pois elas viviam em nichos separados. Por exemplo, em Portugal, diziam que as \u00fanicas pessoas que faziam parte de uma na\u00e7\u00e3o eram os judeus, pois eles n\u00e3o eram dali, n\u00e3o tinham territ\u00f3rio ali, n\u00e3o dependiam da hierarquia feudal que existia, estavam fora dela e viam-se a si pr\u00f3prios como fazendo todos parte de uma entidade coletiva que era organizada em torno de uma mem\u00f3ria cultural. <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n A certa altura, a partir das ideias liberais, se viu que a melhor maneira da sociedade funcionar era se todas as pessoas fossem transformadas, milagrosamente, em cidad\u00e3os de um pa\u00eds e todos decidirem como o pa\u00eds deveria funcionar. Portanto, o patrim\u00f4nio cultural foi inventado para convencer as pessoas que, dentro daquela fronteira, elas tinham a mesma hist\u00f3ria e a mesma mem\u00f3ria e portanto fazia sentido conversarem uns com os outros para se auto governarem. <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n Enquanto isso n\u00e3o aconteceu, n\u00e3o valia a pena investir em patrim\u00f4nio, pois n\u00e3o era preciso para nada. Havia rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia pessoal, desde o topo da pir\u00e2mide at\u00e9 a base, e isso era suficiente. Quando se decidiu transformar isso em uma quest\u00e3o coletiva de uma entidade coletiva, foi necess\u00e1rio caracterizar a entidade coletiva com o que somos, quais nossas caracter\u00edsticas, de onde viemos, porque hoje somos assim e como fomos no passado, e convencer as pessoas que elas pertenciam a entidades coletivas. Para isso, era necess\u00e1rio que houvesse algum monumento que dissesse \u201cessa entidade existe desde tal ano, e este monumento demonstra isso. Podemos fazer a cronologia da nossa hist\u00f3ria observando esses monumentos.\u201d S\u00e3o instrumentos de constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria \u00fanica.<\/span><\/p>\n <\/p>\n <\/p>\n A quest\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio parece muito restrita aos especialistas. Quanto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, \u00e9 preciso trabalhar mais essa ideia? <\/strong><\/p>\n Sim, pois a maior parte das pessoas considera que o patrim\u00f4nio \u00e9 um luxo dos pa\u00edses e classes ricas. Eles consideram que \u00e9 desperd\u00edcio de recurso. A l\u00f3gica normalmente \u00e9 dizer \u201cse h\u00e1 pr\u00e9dios para construir, sal\u00e1rios para aumentar, e se h\u00e1 desempregados, como vamos gastar dinheiro em preservar coisas do passado que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o sendo utilizadas?\u201d.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n O que se tem a fazer \u00e9 mostrar para as pessoas que o recurso ser\u00e1 bem investido. Primeiro, temos que dar instrumentos para que as pessoas possam viver melhor. Segundo, a popula\u00e7\u00e3o precisa saber que estamos aplicando recursos de maneira racional e poupada. N\u00e3o \u00e9 colocar dinheiro fora, \u00e9 investir para que depois haja vantagens com isso. Em terceiro lugar, temos que construir pontes entre patrim\u00f4nio e educa\u00e7\u00e3o profissional, patrim\u00f4nio e cultura organizacional, patrim\u00f4nio e planejamento urban\u00edstico, patrim\u00f4nio e turismo e lazer, entre patrim\u00f4nio e cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fados ficcionais.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n Temos que gerir o patrim\u00f4nio como um instrumento de gera\u00e7\u00e3o de riqueza. Se fizermos isso, e explicarmos isso para as pessoas, o patrim\u00f4nio deixa de ser um luxo e passa a ser um instrumento para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas. \u00c9 a mesma coisa que construir uma f\u00e1brica ou uma autoestrada: gasta-se dinheiro, mas est\u00e1 se investindo dinheiro que ser\u00e1 multiplicado no futuro. Esse tipo de racionalidade e discurso deve ser compartilhado, porque, sen\u00e3o, continuar\u00e1 havendo pessoas que pensam: \u201cpara que gastar dinheiro em uma coisa que \u00e9 in\u00fatil e que poucas pessoas v\u00e3o aproveitar, quando h\u00e1 outras prioridades para fazer e que beneficiam a maioria da popula\u00e7\u00e3o?\u201d <\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n O patrim\u00f4nio cultural est\u00e1 ligado \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de renda para o lugar onde ele est\u00e1 sediado. Para o senhor, h\u00e1 problema nesta pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n Isso acontece atualmente. Eu n\u00e3o vejo mal nenhum, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma enorme vantagem, pois traz riqueza e recurso para o patrim\u00f4nio. Se outras pessoas est\u00e3o interessadas em preservar patrim\u00f4nio porque v\u00e3o ganhar dinheiro com isso, elas est\u00e3o dispon\u00edveis para aplicar recurso. O \u00fanico problema \u00e9 quando se distorcem todas as convic\u00e7\u00f5es entre o que d\u00e1 dinheiro e o que n\u00e3o d\u00e1. Ou seja, se o crit\u00e9rio \u00fanico for investir em patrim\u00f4nio que gera \u00a0visitante, e que assim gera imagem para as empresas, esse \u00e9 um fator de preocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que s\u00f3 esses tipos de patrim\u00f4nio ser\u00e3o financiados.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n A quest\u00e3o \u00e9 equilibrar entre aquilo que \u00e9 importante que seja preservado, e por isso gera riqueza, e n\u00e3o aplicar apenas no que gere riqueza em curto e m\u00e9dio prazo. Porque, muitas vezes, o que gera riqueza no curto prazo n\u00e3o \u00e9 o que ir\u00e1 gerar em m\u00e9dio e longo prazo. Mesmo no ponto de vista racional econ\u00f4mico, estamos desperdi\u00e7ando oportunidades, pois haver\u00e1 um momento em que o que hoje \u00e9 considerado irrelevante em dimens\u00e3o de riqueza ser\u00e1 o fator de riqueza no futuro. Portanto, por n\u00e3o considerar isso em um determinado momento, estamos impedindo que no futuro ganhemos dinheiro. Deve haver uma l\u00f3gica mais participada e compartilhada na decis\u00e3o desses fatores.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n Quanto aos patrim\u00f4nios abandonados da cidade, a restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n Em Portugal, utilizamos dois voc\u00e1bulos: conserva\u00e7\u00e3o e restauro. Se pensarmos em patrimonializar apenas objetos desativados e abandonados, o uso que ser\u00e1 dado a esses ser\u00e1 apenas espa\u00e7o de observa\u00e7\u00e3o e de visita. Isso deve ser feito, mas em quantidade limitada, pois, primeiro, n\u00e3o h\u00e1 recurso, e segundo, \u00e9 absurdo que n\u00f3s reconstruamos um espa\u00e7o e depois digamos \u00e0s pessoas que a \u00fanica coisa que podemos fazer nele \u00e9 visit\u00e1-lo. Isso cria um espa\u00e7o completamente superficial.<\/span><\/p>\n \u00a0<\/span><\/p>\n A outra alternativa \u00e9 reutilizar. Ou seja, \u00e9 pegar coisas que est\u00e3o degradadas, dar um novo uso, mas aproveitando as caracter\u00edsticas dessa estrutura, a mem\u00f3ria e o passado que elas tiveram, [e assim] acrescentar valor \u00e0quilo que se far\u00e1 de novo l\u00e1. Se for assim, n\u00f3s podemos ter conserva\u00e7\u00e3o, restauro, e reutiliza\u00e7\u00e3o. Podemos ter novas atividades, que saem mais qualificadas e competitivas pelo fato de ser instaladas em edif\u00edcios que tem uma mem\u00f3ria do passado.<\/span><\/p>\n <\/p>\n Reportagem: Andressa Foggiato Historiador portugu\u00eas fala da import\u00e2ncia dos patrim\u00f4nios para as cidades<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":943,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[],"class_list":["post-267","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/267\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/943"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}
A din\u00e2mica das cidades tem mudado. O intenso crescimento urbano, aliado ao \u00eaxodo rural, fez com que elas precisassem ser repensadas. \u00c9 necess\u00e1rio encontrar espa\u00e7o para casas, ruas e em
\npreendimentos. Mas, para haver lugar para a inova\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso que velhos lugares deixem de existir? Esses locais carregam consigo a mem\u00f3ria coletiva de uma sociedade inteira. E, al\u00e9m disso, s\u00e3o a pr\u00f3pria identidade desta sociedade. Pensar na manuten\u00e7\u00e3o dos patrim\u00f4nios \u00e9 garantir a preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do mundo, seja pelas pir\u00e2mides do Egito, a cidade hist\u00f3rica brasileira de Ouro Preto, em Minas Gerais, as miss\u00f5es jesu\u00edticas no Rio Grande do Sul, ou o Theatro Treze de Maio em Santa Maria. <\/span><\/p>\n\u201cTemos que gerir o patrim\u00f4nio como um instrumento de gera\u00e7\u00e3o de riqueza. Se fizermos isso, o patrim\u00f4nio deixa de ser um luxo e passa a ser um instrumento para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas\u201d<\/strong><\/h2>\n
<\/h5>\n
\u201cSe pensarmos em patrimonializar apenas objetos desativados e abandonados, o uso que ser\u00e1 dado a esses ser\u00e1 apenas espa\u00e7o de observa\u00e7\u00e3o e de visita. Um espa\u00e7o completamente superficial.\u201d<\/strong><\/h2>\n
<\/span><\/p>\n
\nFotografias: Rafael Happke<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"