{"id":271,"date":"2016-06-09T09:57:07","date_gmt":"2016-06-09T12:57:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/06\/09\/post271\/"},"modified":"2021-05-26T22:28:29","modified_gmt":"2021-05-27T01:28:29","slug":"post271","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post271","title":{"rendered":"Do por\u00e3o ao sobrado"},"content":{"rendered":"
Quando vim de mudan\u00e7a para Santa Maria, na virada para o s\u00e9culo XXI, o cen\u00e1rio geral era relativamente distinto do que vivemos agora. Os tempos eram outros – pol\u00edtica, econ\u00f4mica e culturalmente falando. O Brasil ainda era governado pelos tucanos, e a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas ruas passava pela oposi\u00e7\u00e3o ao programa neo-liberal de privatiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico – na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, nos setores extrativistas. No plano da economia, apesar da consolida\u00e7\u00e3o do Real como uma moeda s\u00f3lida, a d\u00edvida com os credores internacionais – simbolizados pelo \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo de subordina\u00e7\u00e3o das economias sub-desenvolvidas, o famigerado FMI – era um fantasma onipresente nas discuss\u00f5es sobre a gest\u00e3o nacional. <\/span><\/p>\n Mas o marco daquele fat\u00eddico primeiro ano do novo mil\u00eanio seria, sem sombra de d\u00favida, a imagem das torres g\u00eameas desabando no c\u00e9u de Nova York ap\u00f3s a colis\u00e3o premeditada de dois avi\u00f5es sequestrados. Sem par\u00e2metros tr\u00e1gicos com os quais ser contrastado, o ataque terrorista que resultou na morte imediata de milhares de pessoas – e se desdobrou em milh\u00f5es de cad\u00e1veres como resultado da rea\u00e7\u00e3o norte-americana – configurou tamb\u00e9m um fen\u00f4meno midi\u00e1tico de novo tipo, ao lado da cobertura espetacular que narrava ao mundo, conforme as conveni\u00eancias imperialistas, as investidas estadunidenses contra o mundo \u00e1rabe.<\/span><\/p>\n Sem exageros, podemos afirmar que os estilha\u00e7os daquele acontecimento atingiram, ao menos simbolicamente, todo o mundo globalizado. Tamb\u00e9m no extremo sul do Brasil respir\u00e1vamos o miasma dos explosivos. Tudo que era s\u00f3lido explodia no ar.<\/span><\/p>\n Na Santa Maria da Boca do Monte, cidade em que vim parar no rastro dos milhares de estudantes que c\u00e1 chegam ano ap\u00f3s ano, viv\u00edamos uma esp\u00e9cie de ressaca cultural. Ap\u00f3s uma d\u00e9cada de profus\u00e3o musical, em que uma gera\u00e7\u00e3o de bandas estabeleceu a cena ol\u00edmpica que at\u00e9 hoje perdura como os anos dourados do rock local, os poucos palcos ativos se elitizavam, apostando no blues como uma op\u00e7\u00e3o \u2018limpa\u2019 para atrair a clientela abastada. A Catacumba do DCE era ent\u00e3o o reduto alternativo por excel\u00eancia – e tamb\u00e9m por falta de op\u00e7\u00f5es. Mas l\u00e1 o ru\u00eddo era alto demais para qualquer tentativa de conversa. Os cinemas de cal\u00e7ada j\u00e1 haviam todos desaparecido, dando lugar a igrejas e outros neg\u00f3cios igualmente rent\u00e1veis.<\/span><\/p>\n Nesse contexto, uma pequena casa situada na rua Andr\u00e9 Marques, nos arredores do Parque Itaimb\u00e9, come\u00e7ou a mobilizar uma turma de simp\u00e1ticos desordeiros envolvidos com o muy amplo universo da cultura. Foi nesses encontros dominicais, sob o pretexto de frequentar as sess\u00f5es do Cineclube Por\u00e3o, que muitas pessoas compartilharam ideias e projetos que floresceram, ganharam a luz do sol ou mofaram antes de chegar ao calor do asfalto. A casa em quest\u00e3o era a sede central da TV Ovo, que eu vim a conhecer atrav\u00e9s do ent\u00e3o colega no curso de Hist\u00f3ria da UFSM, o Marcos Borba, articulador incans\u00e1vel do coletivo de audiovisual criado anos antes na Vila Caramelo.<\/span><\/p>\n Rapidamente, foi se formando uma malta multi-facetada de artistas visuais, escritores, teatreiros, cineclubistas, zineiros, m\u00fasicos, agitadores e curiosos. O vinho que se bebia em copos descart\u00e1veis entre um filme obscuro de David Lynch e um curta-metragem de autor semi-an\u00f4nimo tamb\u00e9m inflamava os debates sobre cria\u00e7\u00e3o, contexto social e pol\u00edticas culturais. N\u00e3o que se maturassem ali apenas projetos bem definidos, ou alguma f\u00f3rmula infal\u00edvel para solucionar os obst\u00e1culos muito concretos que se interpunham entre o desejo realizador e a viabilidade efetiva das ideias. Era mais como uma caixa de resson\u00e2ncia em que se excitavam mutuamente as inspira\u00e7\u00f5es, os imagin\u00e1rios, as evoca\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias. Aquele p\u00e1tio discreto foi, ao mesmo tempo, um ambiente f\u00e9rtil e um potente fertilizador cultural.<\/span><\/p>\n
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