{"id":295,"date":"2016-07-04T10:33:57","date_gmt":"2016-07-04T13:33:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/07\/04\/post295\/"},"modified":"2016-07-04T10:33:57","modified_gmt":"2016-07-04T13:33:57","slug":"post295","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post295","title":{"rendered":"Crise brasileira"},"content":{"rendered":"

O professor Jos\u00e9 Luis Oreiro, membro do Departamento de Economia da Universidade de Bras\u00edlia, esteve na UFSM participando do ciclo de palestras \u201cCaminhos do Saber\u201d. Ele, que \u00e9 mestre e doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, foca sua pesquisa na acumula\u00e7\u00e3o de capital, crescimento econ\u00f4mico, autonomia de pol\u00edtica monet\u00e1ria e taxas de juro.<\/span><\/p>\n

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A Arco aproveitou a passagem do professor e conversou com ele sobre o momento atual do pa\u00eds. Diante da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica do Brasil, Oreiro falou dos poss\u00edveis caminhos para fugirmos do aumento da infla\u00e7\u00e3o e da desindustrializa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, ele ressaltou a import\u00e2ncia do ajuste fiscal, cortando gastos e aumentando a receita, j\u00e1 que a d\u00edvida p\u00fablica ultrapassa 2,5 trilh\u00f5es de reais.<\/span><\/p>\n

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Confira abaixo nossa entrevista.<\/span><\/p>\n

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Professor, primeiramente, quais s\u00e3o os principais motivos que nos levaram a chegar \u00e0\u00a0situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que enfrentamos hoje?<\/strong><\/p>\n

A crise econ\u00f4mica brasileira \u00e9 a uni\u00e3o de uma redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento da economia devido \u00e0\u00a0desindustrializa\u00e7\u00e3o e \u00e0\u00a0predomin\u00e2ncia de bens prim\u00e1rios na exporta\u00e7\u00e3o, com uma \u201ctempestade perfeita\u201d composta pela deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de troca a partir de 2013, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre pre\u00e7os dos produtos exportados e pre\u00e7os dos importados, o que reduziu o valor das exporta\u00e7\u00f5es; acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o entre 2014 e 2015, o que resultou numa grande redu\u00e7\u00e3o da renda real do trabalho e levou o Banco Central a elevar a taxa de juros, o que terminou por produzir uma redu\u00e7\u00e3o dos gastos de consumo; efeitos da opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato sobre os contratos e investimentos da Petrobras, o que contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o bruta de capital fixo, dado que a Petrobras responde por aproximadamente 10% do investimento realizado no Brasil; e, por fim, a crise pol\u00edtica que culminou com o impeachment da presidente Dilma aumentou a incerteza percebida no ambiente econ\u00f4mico levando os empres\u00e1rios a postergar gastos de investimento. Dessa forma, a semi-estagna\u00e7\u00e3o observada entre 2012 e 2013 devido \u00e0\u00a0redu\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento se transformou numa forte recess\u00e3o em 2015. \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n

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H\u00e1 tend\u00eancia para retomada da economia? Caso n\u00e3o, qual solu\u00e7\u00e3o o senhor enxerga para voltarmos a crescer?<\/strong><\/p>\n

No primeiro trimestre de 2016, come\u00e7aram a aparecer os primeiros sinais de que o processo de queda do n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica est\u00e1 perdendo for\u00e7a. As exporta\u00e7\u00f5es de produtos manufaturados, produzidos em grande quantidade, est\u00e3o aumentando, reflexo do ganho de competitividade das exporta\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o da forte desvaloriza\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio ocorrida em 2015. A infla\u00e7\u00e3o acumulada em 12 meses tamb\u00e9m est\u00e1 se reduzindo, o que ajuda a estabilizar a renda real dos trabalhadores. Por fim, temos um novo governo e uma nova equipe econ\u00f4mica o que deve ajudar, ainda que marginalmente, na melhoria do estado de confian\u00e7a dos empres\u00e1rios e dos consumidores. Nesse contexto, acredito que o n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica ir\u00e1 se estabilizar \u2013 ou seja, parar de cair \u2013 na passagem do primeiro para o segundo semestre de 2016.<\/span><\/p>\n

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A proje\u00e7\u00e3o do FMI para 2016 \u00e9 de que o PIB brasileiro sofra retra\u00e7\u00e3o de 3,5%. Como isso reflete na vida do cidad\u00e3o brasileiro? <\/strong><\/p>\n

A consequ\u00eancia inevit\u00e1vel \u00e9 o aumento da taxa de desemprego. Atualmente existem quase 11 milh\u00f5es de desempregados no Brasil. Como o mercado de trabalho responde mais lentamente do que o n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o a uma queda da demanda agregada, eu acredito que o desemprego continuar\u00e1 aumentando por muito tempo ap\u00f3s a estabiliza\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica. \u00c9 poss\u00edvel que no final de 2016 o n\u00famero de desempregados no Brasil chegue ao contingente de 13 milh\u00f5es de pessoas ou 13% da for\u00e7a de trabalho.<\/span><\/p>\n

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Muitos economistas e pol\u00edticos citam o ajuste fiscal como solu\u00e7\u00e3o. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n

O ajuste fiscal \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio para reverter a trajet\u00f3ria de crescimento da d\u00edvida p\u00fablica como propor\u00e7\u00e3o do PIB. No momento a d\u00edvida p\u00fablica est\u00e1 numa trajet\u00f3ria que \u00e9 insustent\u00e1vel no m\u00e9dio e longo prazo, o que pode levar o Estado Brasileiro \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia. Se isso ocorrer, o Banco Central ser\u00e1 obrigado por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias a realizar a monetiza\u00e7\u00e3o dos d\u00e9ficits p\u00fablicos, ou seja, a imprimir dinheiro para pagar o excesso de gastos sobre arrecada\u00e7\u00e3o. Se isso acontecer, o Brasil voltar\u00e1 ao passado ingl\u00f3rio de infla\u00e7\u00e3o alta e persistente, como o que ocorria antes do Plano Real. <\/span><\/p>\n

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A crise econ\u00f4mica est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 crise pol\u00edtica? <\/strong><\/p>\n

Com certeza. Se a economia estivesse apresentado uma performance razo\u00e1vel, a popularidade da Presidente Dilma n\u00e3o teria ca\u00eddo tanto, tornando invi\u00e1vel qualquer tentativa de impeachment. Mas \u00e9 preciso deixar claro que a crise econ\u00f4mica \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, para um impeachment. O Brasil viveu uma crise econ\u00f4mica bastante forte em 1998-1999 mas nem por isso ocorreu o impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso. <\/span><\/p>\n

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“Mas \u00e9 preciso deixar claro que a crise econ\u00f4mica \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, para um impeachment”<\/strong><\/h2>\n

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Na sua palestra, o senhor fala sobre a situa\u00e7\u00e3o de recess\u00e3o e depress\u00e3o, sendo a primeira a que enfrentamos no momento. O que determina que entremos em depress\u00e3o? Qual a diferen\u00e7a entre os dois estados?<\/strong><\/p>\n

A depress\u00e3o ocorre quando a queda do n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica \u00e9 grande o suficiente para afetar a solidez do balan\u00e7o dos bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras. Se isso ocorrer o governo ser\u00e1 obrigado a intervir no sistema banc\u00e1rio como ocorreu em pa\u00edses como os Estados Unidos e a Espanha. Tor\u00e7o e espero para que isso n\u00e3o ocorra no Brasil. <\/span><\/p>\n

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A acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o faz com que os consumidores passem a retrair seu consumo, o que ocasiona a queda da economia. Como sair deste ciclo?<\/strong><\/p>\n

A recupera\u00e7\u00e3o da economia brasileira ser\u00e1 o resultado do aumento das exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados devido ao c\u00e2mbio mais competitivo e \u00e0\u00a0redu\u00e7\u00e3o da taxa de juros que dever\u00e1 ter in\u00edcio no segundo semestre de 2016. A redu\u00e7\u00e3o dos juros levar\u00e1 os bancos a aumentar gradualmente a oferta de cr\u00e9dito, permitindo assim um aumento da demanda por bens de consumo dur\u00e1veis. N\u00e3o devemos esperar por um aumento do investimento privado neste momento, uma vez que a economia brasileira se encontra com uma grande capacidade ociosa. Dessa forma, a recupera\u00e7\u00e3o vir\u00e1 por interm\u00e9dio das exporta\u00e7\u00f5es e pelo aumento do consumo de bens dur\u00e1veis que se seguir\u00e1 a redu\u00e7\u00e3o da taxa de juros. <\/span><\/p>\n

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At\u00e9 1999, o Brasil tinha como caracter\u00edstica um percentual muito maior de exporta\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados do que tem hoje, j\u00e1 que passamos a ser exportadores essencialmente de <\/strong>commodities<\/em><\/strong>. As exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados t\u00eam um valor agregado muito maior, no entanto at\u00e9 aquela data esse incremento de valor n\u00e3o se refletia num desenvolvimento econ\u00f4mico e social distribu\u00eddo de forma homog\u00eanea para o pa\u00eds. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n

A distribui\u00e7\u00e3o de renda no Brasil reflete dois fatores. Em primeiro lugar, a participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda nacional \u00e9 muito baixa. Como os que vivem de sal\u00e1rios s\u00e3o muito mais numerosos do que os que vivem de outras rendas, segue-se que a distribui\u00e7\u00e3o de renda s\u00f3 por esse motivo tende a ser muito concentrada. Em segundo lugar, dentro da parcela de renda que \u00e9 apropriada na forma de sal\u00e1rios existe muita desigualdade, ou seja, a diferen\u00e7a entre os sal\u00e1rios mais altos e os sal\u00e1rios mais baixos \u00e9 muito grande. A \u00fanica forma de aumentar de forma sustent\u00e1vel a participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda nacional ao mesmo tempo em que se reduz a desigualdade salarial \u00e9 por interm\u00e9dio do aumento da qualifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, o que exige maci\u00e7os investimentos em educa\u00e7\u00e3o. Ora, o Brasil \u00e9 historicamente deficiente nisso. Nos \u00faltimos anos houve alguma melhora nesse quesito, mas os sucessivos governos do PT optaram por for\u00e7ar um aumento da participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda por interm\u00e9dio de politicas que induzissem os sal\u00e1rios reais a crescer acima da produtividade do trabalho. Essas pol\u00edticas s\u00e3o insustent\u00e1veis no longo-prazo, porque geram infla\u00e7\u00e3o no setor de bens n\u00e3o-transacion\u00e1veis e esmagamento de lucros no setor de bens transacion\u00e1veis. <\/span><\/p>\n

Reportagem: Andressa Foggiato
\nFotografias: Rafael Happke<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Economista Jos\u00e9 Luis Oreiro fala das expectativas econ\u00f4micas para o Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":770,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[],"class_list":["post-295","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/770"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}