{"id":349,"date":"2016-09-16T14:56:03","date_gmt":"2016-09-16T17:56:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/09\/16\/post349\/"},"modified":"2016-09-16T14:56:03","modified_gmt":"2016-09-16T17:56:03","slug":"post349","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post349","title":{"rendered":"Document\u00e1rios queer"},"content":{"rendered":"

Uma trajet\u00f3ria de pesquisa que nasce de um desajuste social. \u00c9 assim que Dieison Marconi, que ganhou o pr\u00eamio de Melhor Disserta\u00e7\u00e3o de 2016 pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o (Comp\u00f3s), define seu percurso acad\u00eamico.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

A disserta\u00e7\u00e3o \u201cDocument\u00e1rio <\/span>queer<\/span><\/em> no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representa\u00e7\u00f5es das personagens LGBT\u201d teve orienta\u00e7\u00e3o do professor C\u00e1ssio Tomaim, no curso de mestrado do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da UFSM. A pesquisa analisa como s\u00e3o representadas personagens l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais nos document\u00e1rios produzidos na regi\u00e3o sul do pa\u00eds durante 14 anos. Ou, pelas palavras de Dieison, o objetivo do trabalho \u00e9 dar um <\/span>close<\/span><\/em>.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

\"\"<\/span><\/p>\n

Dieison \u00e9 jornalista, e atualmente faz doutorado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As motiva\u00e7\u00f5es da pesquisa, suas considera\u00e7\u00f5es sobre os document\u00e1rios analisados e a import\u00e2ncia do pr\u00eamio foram alguns dos temas abordados na entrevista para a revista Arco.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

Como foi a escolha desse tema de pesquisa e por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n

A escolha desse tema foi tanto pessoal quanto pol\u00edtica. No primeiro ano da gradua\u00e7\u00e3o, entrei para o Moviola, grupo de pesquisa e extens\u00e3o que trabalha com cinema, document\u00e1rio e mem\u00f3ria. Nessa \u00e9poca eu ainda me sentia muito desajustada, me sentia monstruosa e estava em processo de sair do arm\u00e1rio. Quando entrei para o Moviola, comecei a me perguntar: por que n\u00e3o estudar os modos de produ\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade nos filmes document\u00e1rios? <\/span>Minha trajet\u00f3ria de pesquisa brotou de um desajuste social. A universidade me ajudou a perceber que eu n\u00e3o devia me sentir culpada e continuar me machucando por me sentir t\u00e3o desajustada dentro dessas estruturas sexuadas e <\/span>generificadas <\/span>da nossa cultura. Mas para sair do arm\u00e1rio e tirar o peso das costas, eu senti que precisava aprender como essas estruturas funcionam, eu senti que precisava de bons argumentos para combater as viol\u00eancias a que eu era subjugado por ser bicha. Ent\u00e3o, percebi tamb\u00e9m que eu queria muito entender as opera\u00e7\u00f5es que elegem algumas pessoas como humanos, outros como desumanos e outros como inumanos. Querendo ou n\u00e3o, o sexo\/g\u00eanero \u00e9 uma categoria prim\u00e1ria de reconhecimento. E pessoas como eu, que destoam das marcas intelig\u00edveis de sexo\/g\u00eanero s\u00e3o sim desumanizadas ou, pior, n\u00e3o s\u00e3o consideradas humanas. Qual a humanidade que as pessoas veem em uma travesti brutalmente assassinada? Nenhuma. Quais s\u00e3o os c\u00f3digos que n\u00f3s estamos acostumados a utilizar para definir o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 um humano? Ent\u00e3o vem da\u00ed a escolha desse tema de pesquisa.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

Por que voc\u00ea escolheu analisar especificamente document\u00e1rios? <\/strong><\/p>\n

Primeiro, porque o document\u00e1rio, desde as primeiras revistas especializadas em cinema no Brasil, sempre foi discriminado, como sin\u00f4nimo de um pa\u00eds e de um cinema subdesenvolvido. Em segundo lugar, ao contr\u00e1rio do filme de fic\u00e7\u00e3o de longa-metragem, que sempre foi considerado a vitrine do nosso cinema, o filme document\u00e1rio tamb\u00e9m sofreu com um apagamento na historiografia cl\u00e1ssica do cinema brasileiro. Al\u00e9m disso, s\u00e3o poucos os estados brasileiros que produzem (de forma cont\u00ednua) filmes de fic\u00e7\u00e3o de longa-metragem. Nesse caso, podemos citar S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Mas todos os estados do pa\u00eds produzem document\u00e1rios ou mesmo fic\u00e7\u00e3o e document\u00e1rios de curta e m\u00e9dia metragem. Al\u00e9m disso, os (poucos) estudos em cinema <\/span>queer<\/span><\/em> no Brasil raramente lan\u00e7am um olhar sobre o filme document\u00e1rio. Ent\u00e3o, n\u00e3o podemos deixar que a ideia totalizante de estudos sobre \u201ccinema <\/span>queer<\/span><\/em>\u201d omita o fato de que o document\u00e1rio nem sempre \u00e9 objeto de pesquisa desses estudos. Quais s\u00e3o e como s\u00e3o os document\u00e1rios <\/span>queer <\/span><\/em>no Brasil? O que os filmes document\u00e1rios dizem sobre as pessoas LGBT? O que \u00e9 document\u00e1rio <\/span>queer<\/span><\/em>? Foram essas perguntas que persegui. Al\u00e9m disso, vejo o filme document\u00e1rio como um campo muito frut\u00edfero de explora\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e narrativas. Isso \u00e9 um prato cheio para ser devorado por uma est\u00e9tica e uma pol\u00edtica <\/span>queer.<\/span><\/em><\/p>\n

 <\/p>\n

\u201cEu queria muito entender as opera\u00e7\u00f5es que elegem algumas pessoas como humanos, outros como desumanos e outros como inumanos. Pessoas como eu, que destoam das marcas intelig\u00edveis de sexo\/g\u00eanero s\u00e3o desumanizadas ou, pior, n\u00e3o s\u00e3o consideradas humanas\u201d<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n

 <\/p>\n

 <\/p>\n

 <\/p>\n

Como foi a sele\u00e7\u00e3o dos 19 filmes que fizeram parte da pesquisa?<\/strong><\/p>\n

Para essa pesquisa eu me situei na regi\u00e3o Sul do Brasil. Resolvi fazer o recorte de document\u00e1rios com personagens gays, l\u00e9sbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). A partir da\u00ed, eu realizei o mapeamento dos document\u00e1rios com personagens LGBT que a regi\u00e3o Sul produziu entre 2000 e 2014. A partir do in\u00edcio dos anos 2000, cresceu bastante a produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios no pa\u00eds e as LGBT tornaram-se mais recorrentes em produtos midi\u00e1ticos. E 2014 foi o ano que entrei no mestrado.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

Busquei mapear os filmes nos Dicion\u00e1rios de filmes brasileiros, na Cinemateca Brasileira, nas Cinematecas de Santa Catarina, Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul, nos documentos da Ag\u00eancia Nacional de Cinema (Ancine) e em muitos festivais de cinema do pa\u00eds, principalmente naqueles voltados para \u00e0 diversidade sexual e de g\u00eanero. Tamb\u00e9m usei <\/span>tags<\/span><\/em> para pesquisar no <\/span>Google<\/span><\/em> e no <\/span>Youtube. <\/span><\/em>Ap\u00f3s fechar o mapeamento, selecionei apenas os filmes feitos por produtoras de cinema, grupos\/coletivos de ativismo e ONGs. Descartei filmes feitos por universit\u00e1rios, por exemplo. Ent\u00e3o, fiz uma an\u00e1lise dos 19 filmes selecionados. Sempre fa\u00e7o a ressalva de que n\u00e3o afirmo que esses foram os \u00fanicos filmes que a regi\u00e3o Sul produziu em quatorze anos, mas que foram aqueles que consegui encontrar durante o processo de mapeamento. Logo, a preocupa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi mais qualitativa do que quantitativa.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

\"Dieison<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

Como voc\u00ea avalia, de forma geral, a produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios sobre a tem\u00e1tica LGBT no Sul do Brasil, no per\u00edodo da sua an\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n

Considerando que desde 1995 a regi\u00e3o [sul do Brasil] produziu mais de 300 document\u00e1rios (entre longa, curta e m\u00e9dia metragem), e que eu encontrei apenas 19 filmes com personagens LGBT realizados por produtoras de cinema\/grupos de ativismo, podemos dizer que temos uma produ\u00e7\u00e3o muito pequena. O que noto nesses filmes, com personagens LGBT, \u00e9 que as tem\u00e1ticas que eles mais abordam coincidem com os temas que o documentarismo aqui do Sul aborda de modo geral. Em Santa Catarina e Paran\u00e1, por exemplo, o tema mem\u00f3ria\/hist\u00f3ria est\u00e1 na prefer\u00eancia dos realizadores, representando de 20% e 25% das produ\u00e7\u00f5es. Aqui no Rio Grande do Sul os temas comportamento (19%) e Artes em geral (18%) predominam, mas 14% dos nossos document\u00e1rios tratam de assuntos relacionados \u00e0 mem\u00f3ria\/hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

\u00c9 por isso que os document\u00e1rios com personagens LGBT que cartografei para a minha pesquisa tratam de personagens LGBT hist\u00f3ricas, como a Gilda [\u201cGilda, o beijo na boca maldita\u201d, dirigido por Yanko Del Pino], Caio Fernando Abreu [\u201cSobre Sete ondas verdes Espumantes\u201d, de Bruno Polidoro e Cac\u00e1 Naz\u00e1rio] e Ivo [\u201cIvo e suas Meninas\u201d, de Bet\u00e2nia Furtado]. H\u00e1 tamb\u00e9m os filmes que se dedicam a retratar momentos hist\u00f3ricos, como a cena LGBT na Porto Alegre dos 1970, 1980 e 1990 [como \u201cMeu tempo n\u00e3o parou\u201d, de Jair Giacomini e S\u00edlvio Barbizan, e \u201cFlores de 70\u201d, de Vin\u00edcius Cruxen]. Outras tem\u00e1ticas abordadas foram sexualidade e envelhecimento, sociabilidades LGBT e reivindica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas. Ent\u00e3o, tudo faz parte de um cen\u00e1rio diversificado de produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rio dos \u00faltimos 15 ou 20 anos.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

Na sua pesquisa, voc\u00ea destaca a grande concentra\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es sobre a tem\u00e1tica LGBT em uma mesma produtora, a Avante. E situa as contribui\u00e7\u00f5es de um reconhecido grupo ativista de Porto Alegre, o Somos, na constru\u00e7\u00e3o dos roteiros. Na sua opini\u00e3o, essa colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de expandir os modos de compreens\u00e3o dos personagens para al\u00e9m do \u201csenso comum\u201d midi\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n

Na verdade, n\u00e3o \u00e9 que o Somos contribui na produ\u00e7\u00e3o dos roteiros dos filmes feitos pela Avante Filmes. A Avante e o Somos produziram, juntos, alguns curtas-metragens. Acho muito interessante que a maioria dos filmes ga\u00fachos que tratam das quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade das pessoas LGBT tenham sido realizados pela Avante, que \u00e9 comprometida com essas quest\u00f5es.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

Em 2015, o Felipe Matzembacher e o M\u00e1rcio Roelon lan\u00e7aram o primeiro longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o da Avante Filmes, o “<\/span>Beira Mar. <\/span><\/em>Os guris est\u00e3o tendo um reconhecimento muito bacana. E o Somos \u00e9 um grupo de ativismo que j\u00e1 tem um capital simb\u00f3lico muito forte em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, j\u00e1 s\u00e3o muitos anos de atua\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o momento, a atua\u00e7\u00e3o do grupo tem sido em \u00e1reas diversas, incluindo a comunica\u00e7\u00e3o e o audiovisual. Eles contribuem para uma produ\u00e7\u00e3o de sentidos diversos a respeito dessas pessoas de sexo\/g\u00eaneros dissidentes.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

\u201cEu sou uma bichona que tenta fazer ci\u00eancia. E durante muito tempo a ci\u00eancia nos produziu como doentes e anormais. A ci\u00eancia ainda faz isso. Enquanto a ci\u00eancia n\u00e3o produzir e disseminar novos conhecimentos, vamos continuar matando travestis na rua\u201d.<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n

 <\/p>\n

 <\/p>\n

Chamou aten\u00e7\u00e3o o caso do filme produzido pelo Grupo RBS, que voc\u00ea define como \u201chigienizado\u201d, onde as personagens \u201csofrem um apagamento\u201d em sua representa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea avalia que a \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d LGBT se configura na rela\u00e7\u00e3o com as audi\u00eancias?<\/strong><\/p>\n

De acordo com o tipo de abordagem das pessoas LGBT, eu dividiria os filmes mapeados em dois grandes grupos. No primeiro est\u00e3o justamente aqueles filmes que se disp\u00f5em a apresentar uma est\u00e9tica e resist\u00eancia de combate aos estere\u00f3tipos e discrimina\u00e7\u00f5es por meio do <\/span>assimilacionismo<\/span>. Nisso, eles se aproximam muito das reivindica\u00e7\u00f5es do ativismo LGBT brasileiro: casamento homoafetivo, leis de identidade de g\u00eanero, criminaliza\u00e7\u00e3o da homofobia e da transfobia, etc. Ent\u00e3o, esses filmes exigem reconhecimento, visibilidade e inteligibilidade dentro de uma ordem reinante: sexuada, <\/span>generificada<\/span>, <\/span>heteronormativa <\/span>e <\/span>cisnormativa<\/span>.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

E h\u00e1 um segundo grupo que est\u00e1 muito mais preocupado em quebrar com essa ordem reinante, s\u00e3o filmes que est\u00e3o dispostos mais a incomodar do que se acomodar aos n\u00edveis de inteligibilidade cultural. S\u00e3o esses filmes que s\u00e3o realmente <\/span>queer, <\/span><\/em>pois perturbam tanto na forma narrativa quanto no conte\u00fado e na est\u00e9tica: s\u00e3o po\u00e9ticos, performativos, reflexivos, estranhos, questionadores, desconstruidores. \u00c9 claro que, neste ponto, s\u00e3o tanto as personagens quanto o olhar do diretor que possibilita essa est\u00e9tica <\/span>queer<\/span><\/em>.<\/span><\/p>\n

\u00a0<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n

O filme \u201cIvo e Suas Meninas\u201d, da RBS, \u00e9 justamente um filme que tenta higienizar ou castrar a diferen\u00e7a e a subvers\u00e3o de Ivo. Ivo foi uma <\/span>drag queen<\/span><\/em> (ou, talvez, uma travesti) que administrou uma <\/span>casa de prostitutas\u00a0<\/span>em Uruguaiana nos anos 1940\/1950. Ent\u00e3o, imagina s\u00f3: uma bicha, cafetina, <\/span>drag queen<\/span><\/em> na regi\u00e3o da Campanha nos anos 1940? Gente, isso \u00e9 uma hist\u00f3ria incr\u00edvel! Mas isso foi muito sutilizado durante todo o curta-metragem, pois ficou se tentando provar a \u201cgauchidade\u201d da personagem. Ent\u00e3o, ficou essa tens\u00e3o entre a performatividade n\u00e3o normativa (<\/span>drag queen<\/span><\/em>) e a performatividade normativa (o ga\u00facho). Eu acho essa tens\u00e3o \u00f3tima, mas durante a an\u00e1lise deu para perceber que foi essa \u00faltima que prevaleceu. Ivo pode ter sido muito <\/span>queer, <\/span><\/em>mas o filme n\u00e3o \u00e9. Ainda assim, \u00e9 atrav\u00e9s dele que podemos entender que a RBS j\u00e1 tem um projeto de mem\u00f3ria para seus filmes que est\u00e1 apoiada em fortalecer a identidade tradicional do ga\u00facho.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

\"\"<\/span><\/p>\n

Por que voc\u00ea escolheu a Teoria Queer?<\/strong><\/p>\n

Os Estudos ou Teoria <\/span>Queer <\/span><\/em>\u00e9 uma perspectiva te\u00f3rica que encontrou terreno f\u00e9rtil nas normas sexuadas e generificadas da cultura ocidental para se dedicar de forma antiassimilacionista, grosseiramente direta e antinormativa \u00e0s cr\u00edticas da identidade, \u00e0 pol\u00edtica identit\u00e1ria, \u00e0s grandes narrativas, aos discursos hegem\u00f4nicos e conservadores da sexualidade. Ela \u00e9 mais radical do que algumas outras vertentes da filosofia, da sociologia e da antropologia. Escolhi justamente por isso, porque vejo nela um potencial te\u00f3rico, pr\u00e1tico, epistemol\u00f3gico e pol\u00edtico muito grande. Al\u00e9m disso, ela n\u00e3o \u00e9 apenas um campo de estudo. \u00c9 tamb\u00e9m uma vertente de ativismo e inspira (e \u00e9 inspirada por) movimentos art\u00edsticos e cinematogr\u00e1ficos, como o cinema <\/span>queer.<\/span><\/em><\/p>\n

 <\/p>\n

Ainda existe, na comunidade cient\u00edfica de Humanidades, uma certa restri\u00e7\u00e3o a essa vertente te\u00f3rica? Voc\u00ea poderia explicar como a Teoria <\/strong>Queer <\/em><\/strong>se forma e qual a sua import\u00e2ncia para os estudos de g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n

N\u00e3o sei se h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria <\/span>Queer <\/span><\/em>nas humanidades, nos \u00faltimos tempos tenho notado uma certa populariza\u00e7\u00e3o desses estudos aqui no Brasil. A vinda de Judith Butler para o Brasil, em 2015, \u00e9 s\u00f3 mais uma mostra disso. Aqui no Brasil, desde os anos 2000, temos gestado com mais profus\u00e3o uma vertente de estudos <\/span>queer. <\/span><\/em>Mas o nascimento da Teoria <\/span>Queer <\/span><\/em>data do in\u00edcio dos anos 1990, nos Estados Unidos. E ela nasce se apropriando justamente desse termo desqualificador e pejorativo, o <\/span>queer<\/span><\/em>, e tenta politiz\u00e1-lo. Em ingl\u00eas o <\/span>queer<\/span><\/em> \u00e9 um uma ofensa, um xingamento: bicha, traveco, esquisito, nojento, estranho. A\u00ed j\u00e1 se nota uma cr\u00edtica radical \u00e0s normas de sexo\/g\u00eanero da nossa cultura que s\u00e3o respons\u00e1veis pelas viol\u00eancias e silenciamentos daqueles que n\u00e3o se conformam a essas regras. Ela tem influ\u00eancia das obras de Michel Foucault, dos estudos de Jacque Derrida, dos Estudos Culturais e do Feminismo. Mas nem tudo \u00e9 feito de influ\u00eancias, pois a Teoria <\/span>Queer <\/span><\/em>perturba muitas ideias do pr\u00f3prio feminismo de uma sociologia\/antropologia can\u00f4nica.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

Sobre o pr\u00eamio da Comp\u00f3s. Seu trabalho \u201cconversa\u201d muito com outras \u00e1reas de Humanidades, como Antropologia, por exemplo, onde os estudos de G\u00eanero tem ganhado cada vez mais destaque nos \u00faltimos anos. O que significa essa premia\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito das pesquisas em Comunica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n

O pr\u00eamio da Comp\u00f3s \u00e9 o mais importante das pesquisas em Comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, para mim \u00e9 simb\u00f3lico que a Comp\u00f3s tenha premiado um trabalho com esse tema, que levanta quest\u00f5es e reflex\u00f5es t\u00e3o caras para a nossa sociedade. Me orgulho de receber um pr\u00eamio falando das travecas, das sapatonas, das bichas, de homens trans, de pessoas bissexuais e de toda essa gente abjeta. Eu sou uma bichona que tenta fazer ci\u00eancia. E durante muito tempo a ci\u00eancia nos produziu como doentes e anormais. A ci\u00eancia ainda faz isso. Nosso problema \u00e9 epistemol\u00f3gico e, enquanto a ci\u00eancia n\u00e3o produzir e disseminar novos conhecimentos, vamos continuar matando travestis na rua.<\/span><\/p>\n

 <\/p>\n

Reportagem: Gabriele Wagner de Souza<\/p>\n

Fotografia de capa: Tainan Tomazetti<\/p>\n

Infogr\u00e1ficos: Nicolle Sartor
\nFotografia: Neli Mombelli<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Pesquisa premiada da UFSM discute a representa\u00e7\u00e3o de personagens LGBT em filmes do sul do pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":948,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1530],"tags":[],"class_list":["post-349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossie-diversidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/948"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}