{"id":386,"date":"2016-09-16T14:56:10","date_gmt":"2016-09-16T17:56:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/09\/16\/post386\/"},"modified":"2016-09-16T14:56:10","modified_gmt":"2016-09-16T17:56:10","slug":"post386","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post386","title":{"rendered":"Igreja e Homossexualidade"},"content":{"rendered":"

O senso comum diz que, para a religi\u00e3o, a sexualidade praticada entre pessoas do mesmo sexo \u00e9 um pecado ou desvio daquilo que \u00e9 considerado natural. Mas a religi\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, uma das principais fontes de socializa\u00e7\u00e3o: seus ensinamentos oferecem respostas para questionamentos profundos sobre a vida, e as regras e valores de uma igreja apontam modelos de conduta ainda hoje fundamentais para a nossa compreens\u00e3o de sociedade.<\/span><\/p>\n

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Essa dicotomia entre Igreja e homossexualidade, aparentemente irreconcili\u00e1vel, pode se tornar um elemento de sofrimento para pessoas que desejam viver sua orienta\u00e7\u00e3o sexual sem abandonar uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com a f\u00e9 e com o sagrado. E foi essa a preocupa\u00e7\u00e3o central da psic\u00f3loga Alexandra Ribeiro Leite no desenvolvimento de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco.<\/span><\/p>\n

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\u201cPercebi que a religi\u00e3o ocupava um lugar especial no discurso dos clientes que [eu] acompanhava, regulando suas escolhas e condutas: ora a religi\u00e3o e seus dogmas traziam al\u00edvio e conforto, ora propiciavam culpa e sofrimento; sendo estes \u00faltimos associados, na maioria das vezes, \u00e0s viv\u00eancias sexuais\u201d, conta a pesquisadora.<\/span><\/p>\n

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A pesquisa acad\u00eamica, defendida no come\u00e7o deste ano, teve como objetivo compreender \u00a0de que forma homens com pr\u00e1ticas homossexuais lidam com as \u201cestigmatiza\u00e7\u00f5es\u201d religiosas, e encontram pra si mesmos um lugar de perman\u00eancia no catolicismo. A Igreja Cat\u00f3lica foi escolhida como base para a pesquisa por ser a religi\u00e3o com maior n\u00famero de fi\u00e9is no Brasil, al\u00e9m de congregar uma vis\u00e3o particular sobre a homossexualidade. Alexandra explica que \u201ca vis\u00e3o dos fi\u00e9is cat\u00f3licos sobre a homossexualidade est\u00e1 marcada pelo preconceito, resultando, muitas vezes, no afastamento dos homossexuais das igrejas e dos servi\u00e7os religiosos\u201d.<\/span><\/p>\n

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Link do documento Persona Humana<\/a><\/p>\n

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A pesquisadora utilizou a metodologia conhecida como \u201chist\u00f3rias de vida\u201d para conversar com homens cat\u00f3licos que encontraram formas de se conciliar com os dogmas da Igreja, e que procuraram nela ref\u00fagio e acolhimento ap\u00f3s enfrentarem diversas dificuldades para aceitar sua sexualidade. Os resultados da pesquisa apontaram que a ades\u00e3o de um fiel a uma religi\u00e3o n\u00e3o acontece, necessariamente, a partir da obedi\u00eancia total de seus dogmas e doutrinas. Ao contr\u00e1rio, cada pessoa realiza \u201cnegocia\u00e7\u00f5es\u201d entre o novo e o tradicional, o que permite ajustes entre as cren\u00e7as religiosas e a acomoda\u00e7\u00e3o dos dogmas mesmo quando existem restri\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas.<\/span><\/p>\n

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Alexandra tamb\u00e9m explica que para os homens entrevistados a aceita\u00e7\u00e3o da homossexualidade frente \u00e0s restri\u00e7\u00f5es das cren\u00e7as religiosas acontece de diferentes formas, visto que \u201ca dificuldade tamb\u00e9m pode estar relacionada \u00e0 maturidade e at\u00e9 mesmo \u00e0 forma como cada sujeito vivenciava sua homossexualidade\u201d, explica.<\/span><\/p>\n

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As conversas com os homens que participaram da pesquisa apontaram, entretanto, um distanciamento das pr\u00e1ticas cotidianas e do engajamento com a Igreja. A maioria dos entrevistados atualmente apenas frequenta as missas. \u201cInterpretamos essa postura como um reflexo do estigma e das desregula\u00e7\u00f5es religiosas que eles, em suas negocia\u00e7\u00f5es com os conflitos, foram estabelecendo para dar sentido a viv\u00eancia de sua sexualidade e viv\u00eancia religiosa\u201d, conclui Alexandra.<\/span><\/p>\n

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O que importa para esses homens \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o de Deus: \u201celes compreenderam que sua rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 mais importante do que ser aceito pela sociedade. Assim, os dogmas e discursos propalados pela Igreja assumiram uma menor import\u00e2ncia na constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade dos sujeitos. Desta forma, eles passaram a se aceitar, uma vez que compreenderam que se Deus os amava, eles tamb\u00e9m teriam que se amar\u201d, conclui a pesquisadora.<\/span><\/p>\n

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ARCO ENTREVISTA<\/strong><\/h3>\n

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\u201cQuero ajudar outras pessoas que est\u00e3o se descobrindo para que n\u00e3o abandonem a f\u00e9, pois Deus os ama acima de tudo\u201d<\/strong><\/p>\n

A viv\u00eancia da orienta\u00e7\u00e3o sexual na Igreja, no Semin\u00e1rio e na comunidade<\/span><\/em><\/p>\n

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Jer\u00f4nimo*, de 23 anos, \u00e9 homossexual e foi seminarista por mais de seis anos – per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o e amadurecimento para se tornar um padre, onde s\u00e3o aprimoradas as quest\u00f5es humanas, intelectuais, espirituais e pastorais no indiv\u00edduo atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o, da fraternidade, de estudos e do trabalho na comunidade. O rapaz contou para a Arco sobre sua experi\u00eancia e como foi conviver com sua sexualidade durante o semin\u00e1rio.<\/span><\/p>\n

*nome fict\u00edcio para assegurar a identidade do entrevistado<\/span><\/em><\/p>\n

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Quando e por que voc\u00ea entrou no Semin\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n

A minha rela\u00e7\u00e3o com a igreja, at\u00e9 os 7 anos, era de um cat\u00f3lico relaxado, que n\u00e3o participava e nem praticava. Certa vez, decidi come\u00e7ar a ir na missa e passei a atuar desde os trabalhos mais leves aos mais pesados, como limpar a igreja, tocar sino, participar da liturgia\u2026 Passava um bom tempo da minha vida na igreja, sendo mais frequente no Ensino M\u00e9dio. Com o tempo, senti uma forte vontade de pertencer ao Semin\u00e1rio e conhecer mais de perto. Foi uma experi\u00eancia muito boa que foi acontecendo aos poucos.<\/span><\/p>\n

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Quais eram suas expectativas com a Semin\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n

Eu desconhecia o que era ser seminarista. O ambiente era novo e tinha muita disciplina: hor\u00e1rios definidos para estudar, descansar, orar\u2026 Uma das novidades que encontrei l\u00e1<\/span> foi a terapia, em grupo e individual. Assim fui trabalhando minha sexualidade nas sess\u00f5es e consegui canalizar o ato de impuls\u00e3o por sexo.<\/span><\/p>\n

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Eu soube, desde pequeno, que sou homossexual, isso me levou a entender melhor e a seguir corretamente os passos do Semin\u00e1rio, onde encontrei um acolhimento por parte dos padres que n\u00e3o encontro em outros lugares. Em conversas particulares, confiss\u00f5es e aconselhamentos, encontrei um apoio grandioso – como de fato \u00e9 o amor de Deus por todas as pessoas. \u00c9 um convite a viver a sexualidade de uma forma diferente. Durante o tempo em que estive no Semin\u00e1rio contei com a ajuda da terapia em todos os momentos, e nunca me senti frustrado. <\/span><\/p>\n

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\u00a0\u201c<\/strong>Quem n\u00e3o tem amor e n\u00e3o tem uma boa acolhida com seu pr\u00f3ximo, n\u00e3o pode se dizer crist\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n

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Por que voc\u00ea saiu do Semin\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n

Fiquei 6 anos e meio, tive uma experi\u00eancia muito forte e intensa e fui muito feliz. Minha sa\u00edda se deu por problemas familiares: minha fam\u00edlia pediu que eu pensasse bem sobre continuar ou n\u00e3o, pois me distanciei muito deles – j\u00e1 que tinha outros servi\u00e7os a fazer. Mas a minha decis\u00e3o se deu a partir do momento em que tive que olhar mais de perto para a minha m\u00e3e, que passou por uma separa\u00e7\u00e3o e veio morar comigo. A minha miss\u00e3o agora \u00e9 cuidar da minha m\u00e3e, pois de nada adiantaria cuidar de outras pessoas, sendo que minha fam\u00edlia precisa de mim.<\/span><\/p>\n

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Para os padres, minha sa\u00edda se deu de forma bem dif\u00edcil, porque viam em mim sinais de uma voca\u00e7\u00e3o muito forte: eu abra\u00e7aria a castidade, a pobreza e a obedi\u00eancia. Eles acabaram ficando tristes, porque houve um tempo investido e contavam comigo.<\/span><\/p>\n

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Como foi, para voc\u00ea, contar para sua fam\u00edlia que \u00e9 gay?<\/strong><\/p>\n

Essa foi uma decis\u00e3o bem forte, demorei muito tempo para falar para minha m\u00e3e que sou gay. Foi recentemente, quando achei que era o momento certo. Tudo na vida tem um momento certo, um momento para tomar decis\u00f5es e fechar ciclos. Muitas pessoas pr\u00f3ximas j\u00e1 sabiam, e eu vivo minha homossexualidade de forma discreta e tranquila. Mas confesso que tive muito medo de contar para minha m\u00e3e, porque certa vez, quando eu mencionei que sou homossexual, ela n\u00e3o aceitou. Mas agora lidou de uma maneira que me surpreendeu. Acho que toda m\u00e3e tem medo que seu filho homossexual v\u00e1 se \u201ctransformar\u201d ao se assumir, e a minha tinha medo disso, mas eu me identifico como homem e n\u00e3o quero mudar isso.<\/span><\/p>\n

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Voc\u00ea conhece algum cat\u00f3lico que prefere esconder sua sexualidade por medo de ser rejeitado?<\/strong><\/p>\n

N\u00e3o, na verdade aconteceu alguma situa\u00e7\u00e3o assim com um jovem que tamb\u00e9m era homossexual e descobriu algo de mim. N\u00f3s conversamos sobre isso abertamente e ele me perguntou se eu me sentia amado por Deus, porque eu continuava na Igreja. <\/span><\/p>\n

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\u201cMe sinto t\u00e3o amado por Deus sendo quem eu sou! Mais do que sinto [ser amado] pela minha m\u00e3e, em rela\u00e7\u00e3o a minha sexualidade\u201d.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n

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H\u00e1 preconceito dentro da igreja por parte dos fi\u00e9is?<\/strong><\/p>\n

Sim, acontece. Alguns fi\u00e9is agem de forma machista, s\u00e3o preconceituosos, mal resolvidos, mal orientados por outras pessoas, mant\u00e9m um preconceito alt\u00edssimo e desonesto, sem viver os preceitos crist\u00e3os – pois a caridade \u00e9 o princ\u00edpio mais forte do cristianismo.<\/span><\/p>\n

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Quem n\u00e3o tem amor e n\u00e3o tem uma boa acolhida com seu pr\u00f3ximo, n\u00e3o pode se dizer crist\u00e3o. \u00c9 l\u00f3gico que dentro da pr\u00f3pria Igreja h\u00e1 pessoas que se escandalizam com homossexuais, mas isso acontece em todos os lugares: na escola, na faculdade, no grupo de amigos, na balada\u2026 Ent\u00e3o, n\u00e3o seria diferente dentro da Igreja. Mas deve ser feito um trabalho maior de conscientiza\u00e7\u00e3o de que os homossexuais s\u00e3o acolhidos e amados dentro da Igreja, e tamb\u00e9m em outras partes da nossa sociedade.<\/span><\/p>\n

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Por que voc\u00ea continua sendo cat\u00f3lico?<\/strong><\/p>\n

Eu continuo cat\u00f3lico porque eu amo a Igreja Cat\u00f3lica e quero continuar assim. Me sinto t\u00e3o amado por Deus sendo quem eu sou! Mais do que sinto [ser amado] pela minha m\u00e3e, em rela\u00e7\u00e3o a minha sexualidade.<\/span><\/p>\n

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Em rela\u00e7\u00e3o ao pronunciamento do papa sobre os homossexuais, digo que de forma alguma ele \u00e9 moderno, contempor\u00e2neo ou revolucion\u00e1rio. A moral sexual, documento que afirma o dever da Igreja para acolher os homossexuais, existe desde a reforma protestante e sempre orientou sobre isso. A imprensa se escandalizou porque n\u00e3o estuda de fato o que a Igreja pensa sobre certas quest\u00f5es, sobre assuntos do mundo.<\/span><\/p>\n

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Nem o papa, nem os bispos, nem os leigos tem o direito de julgar um homossexual quando ele procura a Deus. O \u00fanico que pode nos julgar \u00e9 Deus. E se um homossexual procura de cora\u00e7\u00e3o o Senhor, de forma alguma Ele vai rejeit\u00e1-lo ou deixar de acolher esse jovem que est\u00e1 sendo sincero.<\/span> Ent\u00e3o, de fato quero continuar e quero ajudar outras pessoas que est\u00e3o se descobrindo para que n\u00e3o abandonem a f\u00e9, pois Deus os ama acima de tudo. <\/span><\/p>\n

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