{"id":387,"date":"2016-10-07T17:54:00","date_gmt":"2016-10-07T20:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/10\/07\/post387\/"},"modified":"2016-10-07T17:54:00","modified_gmt":"2016-10-07T20:54:00","slug":"post387","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post387","title":{"rendered":"Sexismo no mundo nerd"},"content":{"rendered":"

A primeira obra de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da hist\u00f3ria foi escrita por uma mulher. Em 1918, Mary Shelley publicou o livro Frankstein, embora, nesta \u00e9poca, o livro tenha sido editado sem os cr\u00e9ditos \u00e0 autora. Neste momento surgia o que mais tarde seria chamado de universo nerd, uma c<\/span>omunidade que, durante muito tempo, abrigou especialmente meninos com dificuldade de socializar com outros grupos, de fazer amigos. Jovens que n\u00e3o se importavam com esportes, tend\u00eancias de roupas ou as fofocas do momento. Assim, n\u00e3o havia assuntos em comum com boa parte dos outros adolescentes. A leitura, a pesquisa e as obsess\u00f5es investigativas que, hoje, se desmembram tamb\u00e9m em diversos subprodutos culturais, como desenhos, fanfics e jogos tamb\u00e9m sempre demandou tempo, o que tornou estes jovens mais propensos a uma aproxima\u00e7\u00e3o entre si. A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento sentida por estas pessoas formou um grupo ligado a estudos e assuntos de ci\u00eancia e tecnologia. Na ind\u00fastria do entretenimento, encontraram a proje\u00e7\u00e3o dos seus desejos em hist\u00f3rias de homens com dupla vida ou habilidades que ultrapassavam as caracter\u00edsticas que um ser humano normal pode ter.<\/span><\/p>\n

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No s\u00e9culo passado, o mundo dos super her\u00f3is teve como foco a cria\u00e7\u00e3o de personagens masculinos, que conduziam a hist\u00f3ria e eram a chave para o desenrolar do enredo desde seu in\u00edcio, passando por momentos cr\u00edticos at\u00e9 o \u00e1pice da hist\u00f3ria, quando, de forma milagrosa e com t\u00e9cnicas al\u00e9m da capacidade humana, conseguia salvar o mundo e sua amada. E esse era o \u00fanico papel reservado \u00e0s mulheres, coadjuvantes com caracter\u00edsticas f\u00edsicas sensuais e delicadas e emocionalmente fr\u00e1geis \u00e0 espera de uma salva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n

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\"\"<\/span>Em julho de 2016, a Sony Pictures lan\u00e7ou um reboot do filme Ca\u00e7a-Fantasmas (<\/span>Ghostbusters), lan\u00e7ado em 1984. O filme dos anos 80 conta a hist\u00f3ria de tr\u00eas parapsicologistas que, ap\u00f3s serem depostos de seus cargos na Universidade, abriram seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio e acabaram encontrando um portal para outra dimens\u00e3o em Nova York que levou a equipe a viver aventuras para capturar fantasmas com uma tecnologia caseira. No filme de 2016, dirigido por Paul Feig, o elenco ao inv\u00e9s de ser composto por quatro homens, como o longa produzido em 1984, foi protagonizado por quatro mulheres com diferentes caracter\u00edsticas.<\/span><\/p>\n

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Desde o lan\u00e7amento do primeiro trailer em mar\u00e7o de 2016, a rejei\u00e7\u00e3o do novo longa recebeu mais de 1 milh\u00e3o de dislikes no site YouTube contra 290 mil likes. Em entrevista \u00e0 AFP, o diretor Paul Feig desabafa: \u201c<\/span>estou frustrado porque conhe\u00e7o muitas mulheres talentosas que n\u00e3o conseguem se destacar como deveriam, que parecem estar sempre relegadas a pap\u00e9is secund\u00e1rios\u201d.<\/span><\/p>\n

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A rejei\u00e7\u00e3o do novo filme tem se confundido entre opini\u00f5es que defendem que os filmes \u201cpoliticamente corretos s\u00e3o uma chatice\u201d e outras que acreditam que o problema n\u00e3o est\u00e1 na mudan\u00e7a do g\u00eanero das personagens, mas sim no comodismo em que se encontra o p\u00fablico nerd em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade est\u00e9tica, sexual, \u00e9tnico-racial ou de g\u00eanero. Segundo Julia do Carmo, jornalista, mestre em Ci\u00eancias Sociais e\u00a0consumidora da cultura nerd, a representatividade \u00e9 muito importante para o reconhecimento das pessoas com o produto: <\/span>\u201cnunca me vi na primeira vers\u00e3o do filme, eu fui assistir Ca\u00e7a-Fantasmas no cinema agora e eu realmente sa\u00ed com os olhos cheios de \u00e1gua pensando que se a Julia crian\u00e7a tivesse visto aquelas quatro mulheres incr\u00edveis e com corpos diferentes fazendo o que elas fazem no filme, eu acho que eu teria ampliado muito a minha cabe\u00e7a, eu teria gostado muito desse mundo que n\u00e3o era para mim\u201d.<\/span><\/p>\n

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A falta de representatividade feminina \u00e9 hist\u00f3rica e foi naturalizada dentro do universo nerd, que funciona como um reflexo da sociedade. Neste espa\u00e7o, assim como em esportes como o futebol, o maior problema \u00e9 a falta de acesso e incetivo. A escritora Luciana Minuzzi percebe que, desde a inf\u00e2ncia, s\u00f3 seu irm\u00e3o era estimulado a ter contato com tecnologia, super her\u00f3is e videogames. Ela conta que, quando crian\u00e7a, acabava exclu\u00edda das brincadeiras ou era a \u00fanica menina do grupo, situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 conhecida como S\u00edndrome de Smurfette – refer\u00eancia ao filme Os Smurfs, quando, em grupo, existe um n\u00famero muito pequeno de mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao de homens. \u201cEu escrevo literatura de terror e, no meu caso, sempre fui incentivada a n\u00e3o ver esses filmes, a n\u00e3o ler sobre essas coisas, porque isso n\u00e3o era feminino, era muita viol\u00eancia pra mulher\u201d, explica Luciana.<\/span><\/p>\n

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A exclus\u00e3o na cultura nerd come\u00e7a na inf\u00e2ncia, como contou Luciana. Desde muito cedo \u00e9 determinado a partir da educa\u00e7\u00e3o o que \u00e9 para meninos e o que \u00e9 para meninas e, definitivamente, cultura nerd n\u00e3o est\u00e1 na lista do que \u00e9 \u201cpara meninas\u201d. Isso significa que o material produzido \u00e9 feito para o consumo masculino e, para agradar os homens, a industria sempre investiu em um estere\u00f3tipo de mulher que fosse mais sensualizado. Na pr\u00e1tica isso se d\u00e1 tanto com desenhos quanto com personagens em filmes que, ou esperam pela salva\u00e7\u00e3o masculina – como Mary Jane, de Homem Aranha – ou, se forem a hero\u00edna, lutam em cima de saltos muito altos, usam roupas muito pequenas e s\u00e3o enquadradas em \u00e2ngulos sexualizadores. \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n

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\"\"<\/span><\/span>A reprodu\u00e7\u00e3o de um tipo f\u00edsico de mulher que n\u00e3o existe e de personagens infantilizadas e mentalmente inst\u00e1veis torna esse ambiente um lugar hostil para as pr\u00f3prias mulheres. Isso acontece porque estas personagens representam uma imagem objetificadora. Assim, \u00e9 dada ao consumidor homem a liberdade e o poder de fazer o que quiser com esta mulher – personagem e, por reflexo, tamb\u00e9m com as mulheres reais – em fun\u00e7\u00e3o de ele se reconhecer no personagem masculino que \u00e9 dominante na hist\u00f3ria.<\/p>\n

Por outro lado, sempre houve mulheres produzindo, e a mudan\u00e7a foi\u00a0que a internet possibilitou a cria\u00e7\u00e3o de uma rede de contatos e de influ\u00eancia entre escritoras, produtoras de games e quadrinistas. P\u00e1ginas nas redes sociais, como a <\/span>Lady\u2019s Comics<\/a>\u00a0<\/strong>e a <\/span>Mulheres nos Quadrinhos<\/strong><\/a>, por exemplo, divulgam o trabalho destas mulheres, que ainda est\u00e3o alocadas principalmente no meio alternativo. Luciana atribui este crescimento da visibilidade e do consumo destes produtos tamb\u00e9m \u00e0 recente populariza\u00e7\u00e3o do feminismo. Segundo ela, isto permitiu e ampliou o empoderamento feminino, o que encorajou as mulheres a publicar o que produziam e a buscar uma rede de prote\u00e7\u00e3o e de consumo entre si.<\/span><\/p>\n

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Quer conhecer produ\u00e7\u00f5es nerds de mulheres?<\/span><\/p>\n

Site Lady\u2019s Comics: <\/span>http:\/\/ladyscomics.com.br\/<\/span><\/a><\/p>\n

Um guia dos quadrinhos das minas na internet: <\/span>http:\/\/minasnerds.com.br\/2016\/08\/09\/um-guia-dos-quadrinhos-das-minas-na-internet-9\/<\/span><\/a><\/p>\n

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Reportagem: Kauane M\u00fcller e Paola Dias
\nInfogr\u00e1ficos: Nicolle Sartor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Estrelado por mulheres e rejeitado pelo p\u00fablico, novo filme Ca\u00e7a-Fantasmas aponta para o preconceito de g\u00eanero no cinema<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":838,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[],"class_list":["post-387","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=387"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/838"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}