{"id":405,"date":"2016-10-25T15:23:53","date_gmt":"2016-10-25T17:23:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2016\/10\/25\/post405\/"},"modified":"2016-10-25T15:23:53","modified_gmt":"2016-10-25T17:23:53","slug":"post405","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post405","title":{"rendered":"A doen\u00e7a da normalidade"},"content":{"rendered":"
O termo \u201cnormose\u201d ainda \u00e9 desconhecido para muitos alunos e professores de Universidades, entretanto \u00e9 uma doen\u00e7a que afeta boa parte da academia. O conceito de \u201cdoen\u00e7a da normalidade\u201d foi definido na d\u00e9cada de 1980, em um trabalho simult\u00e2neo do psic\u00f3logo brasileiro Roberto Crema; o fil\u00f3sofo, psic\u00f3logo e te\u00f3logo franc\u00eas Jean-Ives Leloup e o tamb\u00e9m psic\u00f3logo franc\u00eas, Pierre Weil. Nesta \u00e9poca, e depois de descobrirem a familiaridade entre seus estudos, o trio organizou um simp\u00f3sio em Bras\u00edlia onde lan\u00e7aram o livro \u201cNormose: A patologia da normalidade\u201d.<\/span><\/p>\n Para comemorar os 35 anos da Editora da UFSM, no 1\u00ba Semin\u00e1rio Din\u00e2mico de Forma\u00e7\u00e3o, o professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Extens\u00e3o Rural, Renato Santos de Souza, trouxe a discuss\u00e3o sobre a \u201cNormose Acad\u00eamica\u201d. O termo normose se refere a um sofrimento, a busca da conformidade que impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagna\u00e7\u00e3o. Souza acrescenta \u00e0 discuss\u00e3o o termo Normopatia, que embora signifique quase a mesma coisa, traz da psican\u00e1lise o aspecto doentio, onde a pessoa que vive em fun\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias externas de comportamento \u00e9 aparentemente normal, mas tem imensa dificuldade de fazer um mergulho profundo em seu mundo interno, no que produz um afastamento, ou esquecimento do seu pr\u00f3prio ser.<\/span><\/p>\n Em entrevista \u00e0 Arco, Renato Souza falou um pouco sobre as causas e consequ\u00eancia da doen\u00e7a no ambiente universit\u00e1rio, onde a hiperadapta\u00e7\u00e3o \u00e0s estruturas burocr\u00e1ticas do ensino bloqueia a iniciativa e inibe o potencial humano. <\/span><\/p>\n Em seu artigo o senhor fala que normose acad\u00eamica \u00e9 causada pela meritocracia produtivista. Na sua opini\u00e3o, porque essa necessidade de produzir tornou-se t\u00e3o essencial?<\/strong><\/p>\n Em fun\u00e7\u00e3o das necessidades de legitima\u00e7\u00e3o na carreira acad\u00eamica, de financiamento dos projetos, de aprova\u00e7\u00e3o em concursos, de obten\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de bolsas de produtividade, de manuten\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, etc. As pessoas se submetem a produzir \u201cconhecimentos\u201d guiadas pelos crit\u00e9rios acad\u00eamicos de avalia\u00e7\u00e3o, que se tornam estas estruturas hipernormativas ante as quais as pessoas buscam uma adapta\u00e7\u00e3o defensiva, para viabilizar seus pr\u00f3prios projetos acad\u00eamicos. Ou seja, ao adotarem os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o produtivistas como um crit\u00e9rio externo de valor para orientar a sua produ\u00e7\u00e3o, elas renunciam ao seu verdadeiro potencial, renegam seus pr\u00f3prios desejos de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, e provavelmente ajam como os burocratas, que orientam suas a\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es mais pelas regras do seu cargo do que pelos valores pr\u00f3prios que t\u00eam.<\/span><\/p>\n De que forma a normose vitima o conhecimento?<\/strong><\/p>\n A grande quest\u00e3o \u00e9 que o sistema cient\u00edfico atual funciona como uma grande burocracia, cujos crit\u00e9rios produtivos de avalia\u00e7\u00e3o funcionam como as estruturas normativas em uma organiza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, orientando as a\u00e7\u00f5es de seus membros.<\/span><\/p>\n Visando padronizar a a\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, reduzir a incerteza na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e tornar compar\u00e1veis os desempenhos acad\u00eamicos, estas estruturas normativas prejudicaram muito a autonomia e a iniciativa dos pesquisadores, inviabilizaram o amadurecimento das pesquisas e da reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre elas, e estimularam toda a sorte de fraudes na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, reduzindo sobremaneira o potencial do que poder\u00edamos ser, n\u00e3o em termos produtivos, mas qualitativos.<\/span><\/p>\n A normose acad\u00eamica poderia ser entendida como algo ben\u00e9fico, na medida que auxilia o pesquisador na busca pelo conhecimento, indicando, por exemplo, linhas de pesquisa?<\/strong><\/p>\n Certo grau de \u201cnormalidade\u201d \u00e9 necess\u00e1rio, sem o qual seria<\/span> imposs\u00edvel qualquer a\u00e7\u00e3o coletiva. A Normose ocorre quando esta normalidade assume caracter\u00edsticas doentias, de hipernormatividade e adapta\u00e7\u00e3o em excesso das pessoas ao sistema, comprometendo n\u00e3o s\u00f3 os indiv\u00edduos, a express\u00e3o da sua individualidade e potencialidade, mas tamb\u00e9m os resultados agregados daquilo que produzimos, sua relev\u00e2ncia social e sua contribui\u00e7\u00e3o para o enriquecimento cultural e cient\u00edfico da humanidade. Neste sentido, a Normose \u00e9 danosa.<\/span><\/p>\n \u00c9 poss\u00edvel se livrar da normose?<\/strong><\/p>\n \u00c9 muito dif\u00edcil, por v\u00e1rias raz\u00f5es que se devem \u00e0 forma como se estrutura o atual sistema cient\u00edfico brasileiro e seus dispositivos de avalia\u00e7\u00e3o, financiamento e legitima\u00e7\u00e3o das carreiras acad\u00eamicas. Primeiro, porque \u00e9 um sistema institucionalizado e burocratizado, extremamente regulamentado e organizado hierarquicamente, e burocracias institu\u00eddas, como se sabe, s\u00e3o dif\u00edceis de mudar. Segundo, porque ele traz uma ilus\u00e3o de racionalidade e objetividade, e estes s\u00e3o dois valores centrais tanto para a legitima\u00e7\u00e3o de qualquer a\u00e7\u00e3o na academia quanto para o uso dos recursos p\u00fablicos. Terceiro, porque a meritocracia produtivista e burocr\u00e1tica que temos hoje, sobretudo ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, se desenvolveu a partir de uma pauta democr\u00e1tica, e supostamente atende a ela: a objetividade e racionalidade das avalia\u00e7\u00f5es substituiu e superou o clientelismo, o patrimonialismo, o elitismo catedr\u00e1tico e a balcaniza\u00e7\u00e3o na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos na academia brasileira. Portanto, as sa\u00eddas n\u00e3o podem ser uma volta ao passado, elas t\u00eam que atender \u00e0 necess\u00e1ria democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade e do acesso aos recursos p\u00fablicos. Em quinto lugar, o modelo vigente persiste tamb\u00e9m por raz\u00f5es de poder e interesses acad\u00eamicos e de carreira envolvidos na sua manuten\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a, pois o sistema empodera exatamente aqueles que decidir\u00e3o por ele, e sendo assim, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que estes decidam contra os seus pr\u00f3prios interesses.<\/span><\/p>\n Assim, as perspectivas de \u201cse livrar\u201d da Normose s\u00e3o remotas, o que podemos fazer s\u00e3o aprimoramentos no sistema visando a minimiza\u00e7\u00e3o de danos, e trabalhar coletivamente pela elabora\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o de um outro modo de produzir conhecimento. Mas o fundamental, para mim, \u00e9 entender o fen\u00f4meno e os seus fundamentos, reconhecer que n\u00e3o \u00e9 um problema apenas brasileiro, mas que de certa forma \u00e9 comum \u00e0 maneira como se organiza a ci\u00eancia na contemporaneidade na maioria dos pa\u00edses ocidentais, e perceber os danos causados por ele.<\/span><\/p>\n Na l\u00f3gica da minha reflex\u00e3o, a chave est\u00e1 em tentar quebrar ou minimizar o efeito do que eu chamo de \u201cracionalidade formal\u201d (conceito que tomo emprestado de Max Weber) que as atuais estruturas normativas provocam, que corresponde a moldar as iniciativas e decis\u00f5es de estudos, pesquisas e publica\u00e7\u00f5es dos pesquisadores e estudantes pelas estruturas normativas de avalia\u00e7\u00e3o, em lugar de estimular a autonomia de pensamento e dar vaz\u00e3o \u00e0s iniciativas e potencialidades de cada um. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio reafirmar a defesa da Universidade p\u00fablica, pois um sistema de ensino, pesquisa e extens\u00e3o com mais autonomia e que produza resultados mais significativos para a sociedade, e tamb\u00e9m para o acervo de conhecimentos da humanidade, n\u00e3o condiz com qualquer \u201csa\u00edda\u201d via mercado, que torne a Universidade uma prestadora de servi\u00e7os para setores privados, por exemplo. A discuss\u00e3o que eu fa\u00e7o s\u00f3 tem relev\u00e2ncia e sentido para um sistema de ensino, pesquisa e extens\u00e3o com orienta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que, a meu ver, est\u00e1 na raiz do pr\u00f3prio sentido de ser universidade.<\/span><\/p>\n O senhor percebe que hoje os acad\u00eamico<\/strong>s reivindicam maior autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, ou a doen\u00e7a da normalidade no meio acad\u00eamico tende a se perpetuar?<\/strong><\/p>\n Sem d\u00favida, a enorme repercuss\u00e3o que teve o meu estudo sobre a \u201cNormose Acad\u00eamica\u201d, as discuss\u00f5es que ele provocou e o retorno que recebi s\u00e3o de pessoas que, na sua maioria, se identificavam com o meu diagn\u00f3stico e com as minhas reflex\u00f5es. No fundo, talvez eu tenha apenas dado um nome e proposto uma reflex\u00e3o a respeito de algo que j\u00e1 \u00e9 identificado e reconhecido amplamente dentro da academia brasileira, e que \u00e9 motivo de grande ang\u00fastia, tamb\u00e9m, por muitos que atuam dentro dela.<\/span><\/p>\n Reportagem: B\u00e1rbara Marmor Pesquisador da UFSM prop\u00f5e debate sobre a burocratiza\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":996,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1524],"tags":[],"class_list":["post-405","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/996"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}
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\nFotografia: Rafael Happke
\nEdi\u00e7\u00e3o: Laura Storch<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"