{"id":425,"date":"2017-02-15T17:08:04","date_gmt":"2017-02-15T19:08:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2017\/02\/15\/post425\/"},"modified":"2021-05-27T11:10:53","modified_gmt":"2021-05-27T14:10:53","slug":"post425","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post425","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o preciso provar que sou bissexual\u201d"},"content":{"rendered":"

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No Brasil,<\/span> a visibilidade bissexual \u00e9 muito reduzida. Existem poucas pesquisas cient\u00edficas sobre suas especificidades e <\/span>h\u00e1 pouca organiza\u00e7\u00e3o coletiva em torno do debate. Marina Martinuzzi \u00e9 mulher e bissexual. Essa condi\u00e7\u00e3o permite que ela perceba os pontos em que esses aspectos se cruzam, e \u00e9 isso que d\u00e1 forma \u00e0 sua fala. <\/span><\/p>\n

Ela compreende como um problema a dificuldade que a educa\u00e7\u00e3o tem de abrir espa\u00e7o para a discuss\u00e3o da sexualidade, de maneira geral, e, especialmente, das express\u00f5es de sexualidade desviantes do padr\u00e3o heteronormativo. Seu discurso tem como quest\u00e3o central o reconhecimento – ou a falta dele: quem n\u00e3o identifica no outro uma semelhan\u00e7a, n\u00e3o consegue se organizar enquanto grupo e, consequentemente, tem pouco poder pol\u00edtico. Com a Arco ela falou sobre a descoberta da sua bissexualidade, a dificuldade de se encontrar nas personagens da m\u00eddia e os problemas que os bissexuais enfrentam enquanto grupo. Confere:<\/span><\/p>\n

Como foi o contato com a sua sexualidade ao longo da inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia?<\/strong><\/p>\n

Acho que a primeira vez que tive contato com alguma coisa fora das express\u00f5es heteronormativas foi quando vim morar em Santa Maria, entre 2010 e 2011. Por mais que eu j\u00e1 tivesse \u201cficado\u201d com uma mulher, foi s\u00f3 nesse momento que comecei a sentir alguma coisa diferente de s\u00f3 um beijo em uma festa. Nunca tinha parado pra refletir que n\u00e3o sou <\/span>h\u00e9tero<\/span><\/em>. Eu lembro que falava: \u201cAh, n\u00e3o quero rotular! Fico com pessoas, independente do sexo. Eu gosto de pessoas\u201d.<\/span><\/p>\n

Existe uma coisa sens\u00edvel em voc\u00ea se identificar enquanto sujeito sexualmente ativo na sociedade e assumir essa caracter\u00edstica: \u201csou bissexual\u201d ou \u201csou l\u00e9sbica\u201d ou \u201csou gay\u201d. Querendo ou n\u00e3o, \u00e9 um fato pol\u00edtico, porque a popula\u00e7\u00e3o LGBT \u00e9 marginalizada, sofre preconceito. Eu s\u00f3 me assumi bissexual depois de um tempo, acho que quase um ano depois consegui pensar sobre tudo isso. As primeiras conversas que tive com a minha fam\u00edlia reca\u00edam em estere\u00f3tipos: de uma pessoa prom\u00edscua, de algu\u00e9m que n\u00e3o decidiu o que quer fazer da vida. \u201cIsso acontece em uma festa? Tu vai ficar com homem e com mulher indiscriminadamente?\u201d. A sexualidade ainda \u00e9 tabu, n\u00e3o tem visibilidade. O movimento LGBT, como um todo, tem problemas neste sentido, de visibilizar s\u00f3 a luta dos homens gays – muito mais representada e pautada. Isso \u00e9 problem\u00e1tico, porque invisibiliza e deixa de tratar a bissexualidade em outras esferas, como a das pol\u00edticas p\u00fablicas, da sa\u00fade, da sa\u00fade das mulheres.<\/span><\/p>\n

A proximidade com o termo [bissexualidade] s\u00f3 chegou quando pesquisei sobre isso, procurei textos e relatos. Estar no movimento estudantil, feminista e LGBT facilitou bastante o contato. Para pessoas que n\u00e3o t\u00eam nenhum envolvimento com isso se torna muito mais dif\u00edcil entender.<\/span><\/p>\n

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Qual foi o papel da sua fam\u00edlia nesse processo? Voc\u00eas falam sobre o assunto?<\/strong><\/p>\n

A gente fala \u00e0s vezes. H\u00e1 um tempo, minha m\u00e3e falou \u201cbissexual\u201d, eu achei genial porque ela nunca tinha falado de mim enquanto bissexual, foi massa (risos). Depois que contei, namorei uma menina e isso parece que ficou estabilizado: \u201ca Marina est\u00e1 com uma mulher, ent\u00e3o ela j\u00e1 se decidiu\u201d. Acontecem muitas intera\u00e7\u00f5es preconceituosas no dia a dia. \u00c0s vezes, quando saio, minha m\u00e3e fala coisas como \u201cv\u00ea se pega um cara bem bonit\u00e3o, v\u00ea se troca um pouco, acho que vai te fazer bem\u201d. Eu me considero muito privilegiada por tamb\u00e9m ter tido essa compreens\u00e3o em casa. Por mais que aconte\u00e7am esses coment\u00e1rios, nada me afetou t\u00e3o bruscamente a ponto de eu repensar ou de me castigarem por assumir essa condi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n

Como foi quando voc\u00ea contou para os seus amigos?<\/strong><\/p>\n

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Foi mais tranquilo entre os amigos, porque acab\u00e1vamos compartilhando festas, envolvimento com pessoas. Eu tenho v\u00e1rias amigas l\u00e9sbicas e amigos gays. Apesar de me identificar bem mais com mulheres, n\u00e3o excluo a possibilidade de me interessar por homens, e acho que neste sentido existe um pouco de resist\u00eancia. Ent\u00e3o, j\u00e1 ouvi alguns coment\u00e1rios, como \u201cs\u00f3 falta pegar homem agora\u201d.<\/span><\/p>\n

Claro que esses coment\u00e1rios v\u00eam de um ambiente completamente saud\u00e1vel e \u00edntimo, ent\u00e3o encarei como uma brincadeira e respeitei a opini\u00e3o dessa amiga l\u00e9sbica. Acho que existe muito respeito e que essa compreens\u00e3o est\u00e1 sendo constru\u00edda no dia a dia. N\u00f3s reafirmamos essa orienta\u00e7\u00e3o por entender a sua import\u00e2ncia pol\u00edtica, a import\u00e2ncia do ativismo LGBT como um todo para a conquista da igualdade de direitos. Com os c\u00edrculos de amizade, em que n\u00f3s prezamos pelas pessoas, as admiramos por elas serem quem s\u00e3o de fato, penso que, quanto menos julgamento acontecer, mais f\u00e1cil o relacionamento sincero e essas trocas de viv\u00eancias que englobam tanta subjetividade. <\/span><\/p>\n

Voc\u00ea acha que a aus\u00eancia de pessoas p\u00fablicas assumidamente bissexuais reflete na compreens\u00e3o da sociedade sobre esse tema?<\/strong><\/p>\n

Essa representa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica \u00e9 fundamental porque, se ela existir, o indiv\u00edduo v\u00ea que \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o ser <\/span>h\u00e9tero<\/span><\/em>. Mas n\u00e3o tem como condenar as pessoas que n\u00e3o se assumem, porque ainda existe muita discrimina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n

Se a pessoa sai do arm\u00e1rio e fala \u201ceu sou bissexual\u201d, ela d\u00e1 margem para outra pessoa ao lado falar \u201ceu tamb\u00e9m sou bissexual, vamos falar sobre isso, como foi com a tua fam\u00edlia? Como foi com os teus amigos?\u201d. A representa\u00e7\u00e3o de figuras p\u00fablicas \u00e9 important\u00edssima nesse sentido tamb\u00e9m, de ter com quem se reconhecer. Lembro de uma mat\u00e9ria com a [cantora] Ana Carolina, que foi capa da Veja, quando se identificou como bi. Foi um dos momentos em que existiu essa discuss\u00e3o, porque todo mundo chamava ela de \u201cmachorra\u201d e \u201csapat\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n

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Na sua opini\u00e3o, existe alguma cobran\u00e7a sobre se \u201cprovar\u201d como bissexual?<\/strong><\/p>\n

Uma amiga l\u00e9sbica estava comentando, em conversa com outra amiga bissexual, os \u00faltimos relacionamentos dela, que foram s\u00f3 com homens. Ent\u00e3o essa minha amiga l\u00e9sbica falou: \u201cah, mas ent\u00e3o cad\u00ea tu beijando menina?\u201d, e ela se posicionou: \u201ceu n\u00e3o preciso ficar beijando menina na sua frente pra comprovar que eu sou bi\u201d. Ent\u00e3o, muitas vezes, existe essa necessidade de comprova\u00e7\u00e3o, mesmo por parte de pessoas LGBTs. Se voc\u00ea n\u00e3o pode nem contar com o reconhecimento de pessoas que minimamente conhecem o que voc\u00ea est\u00e1 sentindo, como \u00e9 que voc\u00ea espera que seja recebido por quem est\u00e1 fora dessa comunidade? N\u00e3o preciso ficar anotando as mulheres e os homens com quem fiquei pra provar que sou bissexual.<\/span><\/p>\n

H\u00e1 uma certa contradi\u00e7\u00e3o no que se refere \u00e0 \u201cpromiscuidade\u201d, n\u00e3o? Isso porque, ao mesmo tempo em que se pede para que bissexuais provem a sua sexualidade ficando com homens e mulheres, isso \u00e9 visto como negativo.<\/strong><\/p>\n

\u00c9 bem uma contradi\u00e7\u00e3o mesmo, e ela existe hoje ainda muito latente, muito vis\u00edvel. As pessoas cobram que n\u00f3s beijemos homens e mulheres e, se chegamos a expressar isso na frente de algu\u00e9m, recai num outro estere\u00f3tipo de \u201cah, t\u00e1 pegando todo mundo\u201d.<\/span><\/p>\n

Isso s\u00f3 existe por n\u00e3o haver uma articula\u00e7\u00e3o maior. Vemos opini\u00f5es, textos que denunciam esse discurso pronto da promiscuidade, s\u00f3 que isso acontece de uma forma bem esparsa: sai um texto aqui, tem outro blog ali, mas voc\u00ea v\u00ea que n\u00e3o existe uma unidade que possibilite dizer \u201ceu n\u00e3o preciso dar explica\u00e7\u00e3o\u201d. Isso incide muito mais sobre as mulheres, porque \u00e9 a mulher que \u00e9 a \u201cputa\u201d, a que est\u00e1 \u201cficando com todo mundo, que est\u00e1 enlouquecida, b\u00eabada\u201d. Ao contr\u00e1rio dos homens, porque \u201cse ele deu um beijo triplo, ele s\u00f3 estava curtindo\u201d.<\/span><\/p>\n

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Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, existe tamb\u00e9m o problema da fetichiza\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n

Sim, se tem duas mulheres se beijando, sempre vai ter um cara que vai querer se meter. Isso se v\u00ea em festa, em grupo no Whatsapp, em conversa. A bissexualidade tamb\u00e9m recai nessa desculpa de \u201cah, mas tu n\u00e3o \u00e9 bissexual?\u201d, sendo que isso desrespeita a subjetividade, o que a pessoa est\u00e1 afim de fazer no momento.<\/span><\/p>\n

As mulheres bissexuais s\u00e3o fetichizadas porque [se pensa]: \u201cse elas podem satisfazer os homens, porque elas v\u00e3o querer satisfazer as mulheres?\u201d. Dentro desse sistema machista que a gente est\u00e1 inserido, um homem pensa que \u201cse ela pode satisfazer os dois, por que eu n\u00e3o posso estar a\u00ed tamb\u00e9m?\u201d. E isso acontece por n\u00e3o haver um grupo fortificado que consiga se identificar, se expressar e que consiga afirmar: \u201csou bissexual e a minha sexualidade n\u00e3o est\u00e1 para satisfazer o que tu pensa e deseja pra ela\u201d.<\/span><\/p>\n

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Parece um ciclo vicioso. Falta essa identifica\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos enquanto bissexuais, o que faz com que eles n\u00e3o se articulem entre si, o que faz com que o tema n\u00e3o tenha visibilidade\u2026 E come\u00e7a de novo. Como resolver isso?<\/strong><\/p>\n

Primeiro, a import\u00e2ncia de n\u00e3o ter medo de assumir isso enquanto posicionamento pol\u00edtico. Acho que isso, al\u00e9m de fortalecer o di\u00e1logo e a organiza\u00e7\u00e3o, consegue mudar a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia individual. Porque voc\u00ea n\u00e3o vai ter mais medo quando vierem jogar uma piadinha. Voc\u00ea, enquanto indiv\u00edduo, sabendo dessa import\u00e2ncia de se colocar e falar: \u201cn\u00e3o fala desse jeito\u201d ou \u201crespeita porque existe um grupo aqui, existem essas pessoas, existe minha forma de expressar a minha sexualidade\u201d. A visibilidade s\u00f3 \u00e9 constru\u00edda quando, de fato, as pessoas conseguem enxergar outras que passam por situa\u00e7\u00f5es semelhantes, e a partir disso construir essa rede de sentimento e discursos.<\/span><\/p>\n

Rep\u00f3rteres: Kauane Muller e Paola Dias
\nFotos: Rafael Happke<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Marina Martinuzzi discute sobre os estere\u00f3tipos do bissexual e os desafios para a visibilidade da tem\u00e1tica<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":937,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1530],"tags":[],"class_list":["post-425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossie-diversidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/937"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}