{"id":465,"date":"2017-05-13T11:10:00","date_gmt":"2017-05-13T14:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/comunicacao\/arco\/2017\/05\/13\/post465\/"},"modified":"2021-05-27T11:24:31","modified_gmt":"2021-05-27T14:24:31","slug":"post465","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/post465","title":{"rendered":"M\u00e3es no c\u00e1rcere"},"content":{"rendered":"

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Nos \u00faltimos 15 anos, o n\u00famero de mulheres privadas de liberdade no Brasil cresceu 567%, mais do que o dobro do n\u00famero de encarcerados homens. Em 2000, existiam 5.601 mulheres no sistema penitenci\u00e1rio, j\u00e1 em 2015 esse n\u00famero era de 37.380 encarceradas. Segundo o \u00faltimo Levantamento Nacional de Informa\u00e7\u00f5es Penitenci\u00e1rias, de 2014, 75% das penitenci\u00e1rias recebem apenas homens, 17% recebem homens e mulheres e apenas 7% apenas mulheres.<\/span><\/p>\n

Uma das principais repercuss\u00f5es desse cen\u00e1rio para a vida das mulheres apenadas est\u00e1 relacionada \u00e0s dificuldades com a maternidade. Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) mostrou que h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre sintomas de depress\u00e3o apresentados pelas apenadas e o afastamento dos filhos. Elas relataram sentirem-se tristes por n\u00e3o poderem manter contato pr\u00f3ximo com os filhos e ficam preocupadas com as condi\u00e7\u00f5es em que eles vivem. O estudo foi desenvolvido pela psic\u00f3loga Fernanda Hoffmeister e defendido no ano passado no Mestrado em Psicologia da UFSM. \u201cApesar de hoje cada vez mais se falar sobre a problem\u00e1tica prisional, ainda s\u00e3o poucos os que querem discutir o assunto. Muitas pessoas tem uma vis\u00e3o deturpada da situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eu acredito que \u00e9 importante discutir esse assunto para dar visibilidade e, quem sabe, abrir os olhos das pessoas, para que possam ver de outro \u00e2ngulo e n\u00e3o s\u00f3 com aquele pensamento fechado\u201d, ressalta Fernanda. <\/span><\/p>\n

Al\u00e9m de Fernanda, a jornalista Nana Queiroz tamb\u00e9m pesquisou sobre a vida das mulheres que passam pelo sistema penitenci\u00e1rio no Brasil. Ela ouviu sobre a vida e a situa\u00e7\u00e3o do c\u00e1rcere atrav\u00e9s de hist\u00f3rias e experi\u00eancias contadas por estas mulheres, por agentes penitenci\u00e1rios e por familiares. Nana viajou pelo Brasil conhecendo os estabelecimentos prisionais e conta que existem diferen\u00e7as entre a pris\u00e3o de um homem e de uma mulher. Quando homens s\u00e3o encarcerados, a estrutura familiar se mant\u00e9m e aguarda seu regresso, quando mulheres s\u00e3o encarceradas, elas perdem a casa e o marido, e seus filhos s\u00e3o redistribu\u00eddos entre familiares ou entregues ao Estado. As hist\u00f3rias dessas mulheres foram registradas no livro \u201cPresos que Menstruam\u201d (Editora, 2016).<\/span><\/p>\n

Em maio de 2009, a Lei 11.942, que dava nova reda\u00e7\u00e3o \u00e0 Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal de 1984, foi sancionada pelo ent\u00e3o Presidente Luiz In\u00e1cio da Silva \u201c<\/span>para assegurar \u00e0s m\u00e3es presas e aos rec\u00e9m-nascidos condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de assist\u00eancia\u201d. A\u00a0nova reda\u00e7\u00e3o da lei prop\u00f5e-se a assegurar acompanhamento m\u00e9dico \u00e0 mulher, principalmente pr\u00e9-natal e p\u00f3s-parto, al\u00e9m de garantir a amamenta\u00e7\u00e3o de no m\u00ednimo seis meses, disponibilidade de ber\u00e7\u00e1rio e creche para crian\u00e7as com mais de seis meses e menos de 7 anos. <\/span><\/p>\n

Apesar da san\u00e7\u00e3o desta Lei, das penitenci\u00e1rias que recebem somente mulheres – que representam apenas 7% do total de unidades – em torno de 30% garantem dormit\u00f3rios adequados para gestantes e disponibilizam ber\u00e7\u00e1rios. Das penitenci\u00e1rias que recebem homens e mulheres – que correspondem a 17% do total de unidades prisionais no Brasil \u00a0– a porcentagem daquelas que garantem dormit\u00f3rios adequados para gestantes diminui para 13% e 3% que disponibilizam ber\u00e7\u00e1rios. <\/span><\/p>\n

Durante os seis primeiros meses de vida, portanto, as mulheres apenadas em institui\u00e7\u00f5es com a estrutura adequada podem ter garantido o direito \u00e0 conviv\u00eancia com seus beb\u00eas. Mas a partir disso, a crian\u00e7a \u00e9 entregue ao pai, familiares ou ao Estado. No caso daquelas que n\u00e3o est\u00e3o apenadas em institui\u00e7\u00f5es com a estrutura adequada, nem mesmo essa garantia de contato nos primeiros meses de vida est\u00e1 garantida.<\/span><\/p>\n

Como sabemos que a maior parte das mulheres que s\u00e3o privadas de liberdade perdem a casa e o marido, seus filhos acabam sendo encaminhados para abrigos. Quando isso acontece, a mulher, ap\u00f3s o cumprimento da sua pena, pode reconquistar a guarda dos filhos, mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio comprovar que possui emprego e endere\u00e7o.<\/span><\/p>\n

Depress\u00e3o e maternidade no sistema penitenci\u00e1rio<\/strong><\/span><\/p>\n

A pesquisa de Fernanda foi aplicada em tr\u00eas estabelecimentos prisionais do Rio Grande do Sul: Pres\u00eddio Regional de Santa Maria e Pres\u00eddio Estadual de Santiago, que atendem homens e mulheres, e a Penitenci\u00e1ria Feminina de Gua\u00edba, que atende apenas mulheres. O estudo foi dividido em duas parte, a primeira investiga a rela\u00e7\u00e3o da maternidade com a personalidade de mulheres em priva\u00e7\u00e3o de liberdade e a segunda correlaciona duas escalas, a <\/span>Psychopathy Checklist Revised<\/span><\/em> – PCR-L e a Medida Interpessoal de Psicopatia – IM-P, que identificam tend\u00eancias comportamentais antissociais e psicopatia. <\/span><\/p>\n

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A primeira parte do estudo, que investiga a rela\u00e7\u00e3o da maternidade com a personalidade de mulheres em priva\u00e7\u00e3o de liberdade, foi aplicada nas tr\u00eas penitenci\u00e1rias citadas acima. Para n\u00e3o prejudicar o resultado do estudo, foram aplicados dois instrumentos de exclus\u00e3o, o <\/span>Structured Clinical Interview for DSM Disorders<\/span><\/em> (SCID), ferramenta que fornece diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico, e a escala <\/span>Psychopathy Checklist Revised<\/span><\/em> – PCR-L, ferramenta utilizada exclusivamente no sistema carcer\u00e1rio para avalia\u00e7\u00e3o de psicopatia e comportamentos antissociais. Com a ferramenta de exclus\u00e3o, ao total, 28 mulheres concordaram em participar das entrevistas. Para diagnosticar os sintomas de depress\u00e3o, foi utilizada a Escala Beck de Depress\u00e3o (BDI) al\u00e9m de um question\u00e1rio produzido por Fernanda para reunir dados sociodemogr\u00e1ficos das entrevistadas.<\/span><\/p>\n

Ao serem questionadas sobre o afastamento dos filhos, 14 das 28 mulheres sentiam-se muito mal e duas\u00a0sentiam-se mal com o afastamento, oito\u00a0sentiam-se muito bem, pois sabiam que os filhos estavam bem cuidados, uma\u00a0sentia-se bem e uma\u00a0n\u00e3o sentia-se nem bem, nem mal. Depois das entrevistas, seis\u00a0mulheres apresentaram sintomas de depress\u00e3o e, com seus consentimentos, foram encaminhadas para atendimento psicol\u00f3gico da equipe do estabelecimento.<\/span><\/p>\n

Al\u00e9m disso, a pesquisa relata que 22 das 28 entrevistadas respondiam por crime de tr\u00e1fico ou associa\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico. As mulheres contaram que seu envolvimento com tr\u00e1fico teve in\u00edcio por causa do marido ou companheiro, quando transportavam droga para dentro do pres\u00eddio em que o marido estava, ao presenciar a circula\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico dentro da sua casa ou at\u00e9 mesmo como alternativa para sobreviv\u00eancia quando o marido era preso.<\/span><\/p>\n

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O estudo ressalta que apesar da limita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho da amostra, sabe-se que mulheres no c\u00e1rcere, assim como as fora deste contexto, possuem maior \u00edndice de depress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Isso, aliado com a situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria que vivem essas mulheres dentro do sistema prisional e o afastamento em rela\u00e7\u00e3o a seus filhos, pode indicar um agravamento desses sintomas depressivos, apesar de n\u00e3o ser a causa prim\u00e1ria. \u00a0<\/span><\/p>\n

Rep\u00f3rter: Paola Dias
\nIlustra\u00e7\u00e3o: Filipe Duarte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"

Pesquisa da UFSM relaciona as condi\u00e7\u00f5es da maternidade em pris\u00f5es com sintomas de depress\u00e3o em mulheres apenadas<\/p>\n","protected":false},"author":26,"featured_media":959,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1814],"tags":[436,348,438,440],"class_list":["post-465","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-humanidades","tag-maternidade","tag-mulheres","tag-penitenciarias","tag-sistema-carcerario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/users\/26"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media\/959"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"http:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}