{"id":6592,"date":"2021-05-06T09:55:45","date_gmt":"2021-05-06T12:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/?p=6592"},"modified":"2021-05-06T11:00:38","modified_gmt":"2021-05-06T14:00:38","slug":"maternidade-no-lattes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.55bet-pro.com\/midias\/arco\/maternidade-no-lattes","title":{"rendered":"A maternidade no Lattes"},"content":{"rendered":"\t\t
Em abril deste ano, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) anunciou uma mudan\u00e7a significativa na plataforma do Curr\u00edculo Lattes: uma se\u00e7\u00e3o para o registro dos per\u00edodos de licen\u00e7a-maternidade de pesquisadoras. Tal mudan\u00e7a tem como objetivo justificar os per\u00edodos de queda na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica por parte das pesquisadoras m\u00e3es. A plataforma Lattes, mantida pelo CNPq, consiste em um ambiente virtual no qual s\u00e3o integrados dados curriculares, grupos de pesquisa e institui\u00e7\u00f5es em um \u00fanico sistema de informa\u00e7\u00f5es, o que resulta em um curr\u00edculo acad\u00eamico dos pesquisadores e pesquisadoras, o Curr\u00edculo Lattes.<\/p>
A adi\u00e7\u00e3o desse registro na plataforma \u00e9 fruto de um pedido, feito em 2019, pelo projeto Parent In Science<\/i><\/a>, coordenado pela professora Fernanda Staniscuaski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O Parent In Science<\/i> surgiu com o intuito de levar a discuss\u00e3o sobre maternidade e paternidade para dentro do universo da ci\u00eancia do Brasil, e a luta por equidade para pesquisadoras (e pesquisadores) que tiveram filhos. O \u201cevento da maternidade\u201d pode desacelerar por um per\u00edodo a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e afetar o curr\u00edculo, o que gera desvantagem em rela\u00e7\u00e3o a outros colegas ou poss\u00edveis concorrentes em, por exemplo, processos seletivos.<\/p> De acordo com a pesquisa \u201cMulheres e Maternidade no Ensino Superior no Brasil\u201d<\/a>, da mesma organiza\u00e7\u00e3o, <\/i>a presen\u00e7a de mulheres na \u00e1rea cient\u00edfica brasileira sofre um efeito tesoura: conforme se avan\u00e7a no n\u00edvel da carreira cient\u00edfica, reduz o percentual de mulheres. Na inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica – primeira etapa de uma carreira de pesquisa e que acontece na gradua\u00e7\u00e3o, 55% dos bolsistas s\u00e3o mulheres. Mas, quando se olha para as bolsistas de produtividade em pesquisa – etapa mais avan\u00e7ada da carreira cient\u00edfica, geralmente vinculada ao CNPq -, as mulheres s\u00e3o apenas 36% do total de pesquisadores.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t Milena Freire \u00e9 professora do Departamento de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da UFSM, embaixadora do Parent In Science <\/i>e coordenadora do grupo de pesquisa Comunica\u00e7\u00e3o, G\u00eanero e Desigualdades. A docente desenvolve uma pesquisa cuja tem\u00e1tica central \u00e9 voltada para observa\u00e7\u00f5es da maternidade no Instagram e que visa problematizar a sua romantiza\u00e7\u00e3o. No estudo, busca-se refor\u00e7ar que outras pessoas devem fazer parte do cuidado com as crian\u00e7as, com servi\u00e7os que podem vir a ser feitos por outras pessoas que n\u00e3o apenas a m\u00e3e. Essas problem\u00e1ticas escancaram a desigualdade de g\u00eanero em todos os espa\u00e7os, sejam eles familiares, de trabalho ou cient\u00edficos. Para a pesquisadora, as redes sociais digitais s\u00e3o um espa\u00e7o muito representativo na nossa cultura, no qual atuam valores, conven\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is sociais e a sua pesquisa visa demonstrar a apropria\u00e7\u00e3o de determinados valores pelas pessoas: \u201capesar de estarmos falando de um aparato t\u00e9cnico, o que na verdade a gente v\u00ea \u00e9 como as pessoas se apropriam e fazem circular determinados valores. Ent\u00e3o, no que diz respeito \u00e0 maternidade, o que a gente v\u00ea \u00e9 muito o ideal dessa maternidade, uma maternidade que a gente t\u00e1 chamando de \u201cromantizada\u201d, mas que muitas vezes refor\u00e7a o papel da mulher como principal cuidadora, como respons\u00e1vel\u201d, conta a pesquisadora.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t Al\u00e9m da doc\u00eancia, Milena Freire tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e pesquisadora, e dedica seu tempo entre ser professora da UFSM e m\u00e3e de Tom\u00e1s, de 12 anos, e Nina, de quatro. Ela conta que o trabalho no Parent In Science<\/i> se d\u00e1 no sentido de sensibilizar as universidades e as ag\u00eancias de fomento p\u00fablicas e privadas para a tem\u00e1tica da parentalidade. Al\u00e9m disso, objetiva a considera\u00e7\u00e3o do tempo da licen\u00e7a-maternidade e do evento de ser m\u00e3e como algo que \u00e9 significativo na produ\u00e7\u00e3o das pesquisadoras. \u201cIsso \u00e9 uma busca que pretende impactar essa realidade que \u00e9 vivida por essas m\u00e3es em raz\u00e3o do trabalho que elas assumem a partir do momento que elas s\u00e3o m\u00e3es.\u201d<\/p> Mariana Fauerharmel tem 34 anos e \u00e9 m\u00e3e da Maria Rita, de 17 anos, e da Helena, de dois anos. Tamb\u00e9m \u00e9 doutora em Engenharia Florestal. Para ela, \u201cser m\u00e3e pesquisadora n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil, especialmente em um pa\u00eds como o Brasil, onde os pesquisadores n\u00e3o recebem a devida valoriza\u00e7\u00e3o, e quando esta fun\u00e7\u00e3o se soma \u00e0 maternidade, as dificuldades aumentam\u201d.\u00a0<\/p> A gesta\u00e7\u00e3o da filha mais nova aconteceu durante o doutorado, em 2018. Mariana menciona que teve direito a quatro meses de licen\u00e7a maternidade. \u201cAo retornar do per\u00edodo de licen\u00e7a, entrei em processo de depress\u00e3o p\u00f3s-parto, que certamente foi agravado pela press\u00e3o e cobran\u00e7a em fun\u00e7\u00e3o do doutorado\u201d. Para Mariana, o apoio do orientador, da fam\u00edlia, dos amigos e da pr\u00f3pria UFSM, por meio de afastamento por motivos de sa\u00fade, foi fundamental para retornar \u00e0s atividades posteriormente.\u00a0<\/p> Juliana Petterman, de 39 anos, \u00e9 m\u00e3e do Moreno, de um ano. E tamb\u00e9m \u00e9 professora no Departamento de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da UFSM e pesquisadora apaixonada pela \u00e1rea de Publicidade e Propaganda. \u201cSer m\u00e3e pesquisadora \u00e9 ser uma grande equilibrista: \u00e9 tentar ser m\u00e3e e ser pesquisadora da melhor forma, gerando a menor ansiedade poss\u00edvel. Isso porque \u00e9 muito f\u00e1cil de se deixar levar pela sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre em d\u00e9bito\u201d. <\/p>\n Ela relata situa\u00e7\u00f5es em que sentiu que n\u00e3o foi uma boa m\u00e3e – quando respondia e-mails enquanto cuidava do beb\u00ea ou quando o pensamento voava para a lembran\u00e7a da coleta de dados enquanto brincava com ele – ou que n\u00e3o foi uma boa pesquisadora – quando n\u00e3o conseguiu enviar um artigo para o principal congresso da \u00e1rea, ou quando atrasou a corre\u00e7\u00e3o de textos de orientandos e orientandas. A docente menciona que precisou aprender a ser paciente consigo mesma: \u201cEu sempre fui apaixonada pelo meu trabalho e acabei trabalhando muito mais do que deveria, comprometendo inclusive minha sa\u00fade mental. A maternidade veio para me ensinar a eleger prioridades, para me ajudar a entender que eu n\u00e3o sou uma m\u00e1quina e que \u00e9 preciso mudar muitas coisas em rela\u00e7\u00e3o ao modo como a maternidade \u00e9 vista na universidade.\u201d<\/p>\n As diferen\u00e7as entre uma m\u00e3e pesquisadora e um pai pesquisador come\u00e7am no tempo concedido para o per\u00edodo de licen\u00e7a: seis meses para a m\u00e3e, e de cinco a 20 dias corridos para o pai. Dessa forma, as obriga\u00e7\u00f5es da parentalidade e do cuidado com a crian\u00e7a iniciam de forma desigual e refor\u00e7am estere\u00f3tipos de g\u00eanero. Milena Freire trouxe, durante a entrevista, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios – PNAD, de 2019, anterior \u00e0 pandemia. A pesquisa<\/a> revela que, em m\u00e9dia, no Brasil, as mulheres brasileiras usam 21,4 horas semanais no envolvimento com o trabalho dom\u00e9stico, enquanto o tempo gasto por homens nas mesmas tarefas \u00e9 de 11 horas por semana.<\/p>\n \u201cEnquanto as mulheres est\u00e3o trabalhando na casa ou cuidando das pessoas da casa, homens t\u00eam a possibilidade ou de descansar, ou de se aperfei\u00e7oar, se dedicar mais ao trabalho remunerado e assim por diante. Ent\u00e3o, essa desigualdade acaba se mantendo, e \u00e9 por isso que a gente chama a dupla jornada como um conceito que \u00e9 feminino. N\u00e3o escutamos falar da dupla jornada do homem, porque n\u00f3s temos a manuten\u00e7\u00e3o da mulher em casa\u201d, explica Milena.<\/p>\n Para Juliana Petterman, a m\u00e3e pesquisadora j\u00e1 \u00e9 vista de antem\u00e3o como aquela que n\u00e3o conseguir\u00e1 manter sua produtividade depois do nascimento do beb\u00ea. \u201cEu lembro que, antes de sair de licen\u00e7a-maternidade, uma pessoa, no contexto da universidade, me sugeriu que eu me desligasse do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, visto que minha produ\u00e7\u00e3o cairia\u201d. Mesmo com planejamento e consci\u00eancia da queda de produ\u00e7\u00e3o, julgamentos como os que Juliana recebeu s\u00e3o comuns no meio acad\u00eamico. \u201cMeu barrig\u00e3o de nove meses – que eu carregava na ocasi\u00e3o deste acontecimento – era sin\u00f4nimo de algo que me impediria de dar conta do recado. E, ainda que minha produ\u00e7\u00e3o caia, o ambiente da universidade deveria ser de apoio e n\u00e3o de pr\u00e9-julgamentos ou de cr\u00edtica. Dificilmente um pai pesquisador passaria por uma situa\u00e7\u00e3o parecida com essa que relatei\u201d, desabafa.<\/p>\n Mariana Fauerharmel diz que a principal diferen\u00e7a entre uma m\u00e3e pesquisadora e um pai pesquisador \u00e9 a falta de tempo que as m\u00e3es t\u00eam para a pesquisa. Para ela, \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil conciliar a maternidade e a vida acad\u00eamica, al\u00e9m de tantas outras demandas que temos diariamente. Acredito que isso afeta diretamente a carreira de uma m\u00e3e pesquisadora\u201d. Milena Freire, quando fala sobre essa diferen\u00e7a, relembra que, quando os homens se tornam pais, tornam-se os \u201cprovedores\u201d, e por isso passam a se dedicar mais ao trabalho remunerado do que \u00e0 fam\u00edlia. \u201cParece um pensamento at\u00e9 arcaico, mas muito presente na nossa sociedade ainda hoje, e isso se d\u00e1 no \u00e2mbito da academia tamb\u00e9m, porque n\u00f3s n\u00e3o vemos, de modo geral, os pesquisadores diminuindo a sua produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica quando seus filhos nascem\u201d.<\/p>\n
\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\tA maternidade romantizada e a <\/b>desigualdade de g\u00eanero<\/b><\/h3>
\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\tApoio como elemento essencial<\/b><\/h3>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t
\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\tA vida como equilibrista<\/b><\/h3>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t
\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\tM\u00e3e pesquisadora X Pai pesquisador<\/b><\/h3>\n