Como surgiu o livro \u2018A queda do c\u00e9u\u2019?<\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Primeiro, eu vi o antrop\u00f3logo, o Bruce Albert. Eu n\u00e3o sabia o que esse antrop\u00f3logo faz. Ele vem de longe, chegou no Brasil, a\u00ed ele pensou que ele queria escutar, escutar a lideran\u00e7a tradicional, a lideran\u00e7a da comunidade, e foi perguntando devagar e aprendendo nossa l\u00edngua yanomami. Ele viveu mais ou menos um ano na floresta yanomami. Encontrei ele na minha comunidade que se chama <\/span>Toototobi<\/span>. L\u00e1 ele tava tirando foto e conversando com meu pata, pata \u00e9 uma lideran\u00e7a antiga que guarda a hist\u00f3ria. A\u00ed eu descobri que quando ele tava l\u00e1, ele escreveu o livro antropol\u00f3gico dele pra voc\u00eas. A\u00ed eu abri o livro dele, olhei, tinha nome do pata yanomami que explicava pra ele sobre a queda do c\u00e9u, contando como surgiu a terra, como surgiu a lua, o sol, e claridade e escurid\u00e3o, e v\u00e1rias perguntas que eles fizeram. Eu falei pra ele: \u2018Bruce, eu t\u00f4 te conhecendo agora. Antes de voc\u00ea escrever, voc\u00ea n\u00e3o consultou, voc\u00ea n\u00e3o conversou comigo e os outros\u201d, explicando pro antrop\u00f3logo que ele t\u00e1 coletando a nossa sabedoria, coletando o nome bonito para o livro dele sair bonito. Ent\u00e3o eu falei: \u2018Bruce, eu t\u00f4 meio chateado com voc\u00eas, pouquinho n\u00e9, ent\u00e3o vamos conversar. Esse livro de antropologia pro n\u00e3o ind\u00edgena que voc\u00ea escreveu, esse a\u00ed n\u00e3o vai contar. Quem vai contar? Eu. Eu sou yanomami. Voc\u00ea \u00e9 antrop\u00f3logo e n\u00e3o \u00e9 yanomami, voc\u00ea n\u00e3o nasceu na comunidade\u201d. E assim que n\u00f3s come\u00e7amos. Eu falei: \u2018Eu vou gravar com gravador, depois voc\u00ea vai escrever\u2019. Assim que n\u00f3s combinamos pra contar <\/span>xapiri<\/span>. O que \u00e9 <\/span>xapiri<\/span>? \u00c9 o esp\u00edrito da floresta que vive nas montanhas. Para n\u00f3s \u00e9 muito importante. O hist\u00f3rico do povo yanomami \u00e9 muito rico. Eu sou yanomami e n\u00e3o conheci tudo, mas metade eu conhe\u00e7o. Ent\u00e3o assim que n\u00f3s fomos escrever. Quem vai contar? Eu, que estou lutando, que estou andando pra explicar, ele escreve no papel o que eu t\u00f4 falando. \u2018A minha palavra voc\u00ea n\u00e3o pode tirar fora, do jeito que eu t\u00f4 falando voc\u00ea escreve pra outras pessoas n\u00e3o pensar que voc\u00ea t\u00e1 inventando\u2019. A\u00ed ele me respeitou. Ele contou como surgiu o yanomami, de onde que eles vieram, como que <\/span>xapiri <\/span>funciona, como que sonha, de onde vem a <\/span>xawara<\/span>, uma doen\u00e7a, a fuma\u00e7a do metal. N\u00f3s gravamos e ficamos duas ou tr\u00eas semanas na minha comunidade yanomami, sem sair. Assim que eu pensei: eu falando com voc\u00ea – como eu t\u00f4 falando aqui e voc\u00eas anotando – voc\u00eas n\u00e3o entendem. A\u00ed olhei outro n\u00e3o ind\u00edgena que ficava abrindo um livro e lendo e pensei: \u2018eu falando ele n\u00e3o t\u00e1 acreditando, mas se escrever no papel, o papel n\u00e3o vai sair, o livro vai ficar na casa dele. L\u00ea pouquinho, depois ele sai, volta de novo, vai lendo\u2019. Acho que o meu pensamento, a minha luta, eles v\u00e3o entender o que eu t\u00f4 lutando.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>Teve uma confer\u00eancia online que acompanhei em que voc\u00ea falou o seguinte: \u201cN\u00f3s, yanomami, n\u00e3o somos coitadinhos. Voc\u00eas \u00e9 que est\u00e3o doentes\u201d. Eu queria que o senhor falasse um pouco mais a respeito disso. O que significa essa mensagem?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Falei assim: olha, n\u00f3s, origin\u00e1rios, n\u00e3o somos coitadinhos n\u00e3o. \u00cdndio n\u00e3o \u00e9 coitadinho. \u00cdndio, yanomami, ele sabe pensar. Sabe pensar, sabe falar, sabe explicar, sabe fazer <\/span>xapiri<\/span>, sabe fazer grande festa, sabe pensar o mundo inteiro, sabe pensar lua, o sol, e sabe pensar claridade, escurid\u00e3o, onde que n\u00f3s estamos vivendo. Eu vou falar certas coisas: \u00edndio n\u00e3o \u00e9 coitadinho, essa plantinha [aponta para um cactus em cima da mesa] t\u00e1 coitadinha, ela n\u00e3o tem pai, n\u00e3o tem pensamento, n\u00e3o tem energia. N\u00f3s, yanomami, n\u00e3o somos coitados. Da natureza o yanomami t\u00e1 cuidando. N\u00f3s estamos conectados com a floresta, com a terra, com a chuva, com ar limpo. \u00c9 por isso que eu falei \u2018\u00edndio n\u00e3o \u00e9 coitado\u2019, quem t\u00e1 coitadinho \u00e9 o povo da cidade, t\u00e1 sofrendo. As casas s\u00e3o pequenas, n\u00e3o tem lugar pra ca\u00e7ar, pra pescar, pra trabalhar, o homem que t\u00e1 cuidando tudo n\u00e3o t\u00e1 repartindo, n\u00e3o t\u00e1 distribuindo pro povo da cidade n\u00e3o ficar coitadinho. Eu falei isso porque eu vi que na cidade de S\u00e3o Paulo tem muita gente dormindo no ch\u00e3o, com fome, doente, sem apoio, e a crian\u00e7a comendo lixo, e n\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7a, a pessoa n\u00e3o tem lugar pra mijar, pra cagar, pra tomar \u00e1gua. N\u00f3s somos livres, n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, povos origin\u00e1rios, somos livres, n\u00f3s temos espa\u00e7o pra andar, pra buscar nosso alimento, pra comer, n\u00f3s temos <\/span>xapiri <\/span>grande pra cuidar quando esp\u00edrito mau da floresta pega nossa sombra e deixa doente. Ent\u00e3o n\u00f3s temos <\/span>xapiri <\/span>pra deixar a gente ficar com sa\u00fade de novo. N\u00f3s n\u00e3o usamos rem\u00e9dios, n\u00f3s usamos o <\/span>xapiri, <\/span>usamos a for\u00e7a da natureza pra cuidar o povo do planeta terra.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
O pensamento da sociedade n\u00e3o ind\u00edgena est\u00e1 preocupado, voc\u00eas t\u00e3o doentes na cabe\u00e7a e \u00e9 preocupante. A briga \u00e9 muito ruim pra cidade e voc\u00eas t\u00e3o preocupados, com pouco dinheiro pra pagar casa, pagar \u00e1gua, pagar luz, voc\u00eas t\u00e3o preocupados e doentes. Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o conseguindo seguir no caminho. Voc\u00eas t\u00e3o com pensamento doente, n\u00e3o t\u00e3o conseguindo pensar direito, escutar, sonhar, olhar longe. O capital t\u00e1 crescendo, mas ele n\u00e3o t\u00e1 deixando o seu pensamento andar pra frente pra descobrir pra onde n\u00f3s vamos, o pensamento com sa\u00fade, pensamento bom, pensamento livre, pra n\u00e3o ficar triste, andando triste, com cabe\u00e7a abaixada. <\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH:<\/span> O senhor fala dessa liberdade que voc\u00eas t\u00eam na floresta. Na d\u00e9cada de 1970, teve aquela primeira invas\u00e3o do garimpo que o senhor lutou e a\u00ed se tornou uma voz. Depois, a terra ind\u00edgena foi reconhecida e esta homologa\u00e7\u00e3o est\u00e1 completando 30 anos agora, mas o garimpo est\u00e1 de novo a\u00ed: de alguma forma eles est\u00e3o impedindo a liberdade de voc\u00eas?<\/span><\/b><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Sobre o garimpo a hist\u00f3ria \u00e9 muito antiga. O garimpo come\u00e7ou, os homens sem terra come\u00e7aram a busca de pedras preciosas nos Estados Unidos, os americanos que inventaram, que come\u00e7aram a garimpar nos igarap\u00e9s, nos rios, na procura das pedras preciosas. As pedras preciosas, ouro, diamante, areia, terra, elas s\u00e3o uni\u00e3o, elas est\u00e3o unidas para n\u00e3o desequilibrar nossa terra planeta. Os garimpeiros vieram andando por aqui, eles chegaram aqui, fizeram caminho, estrada. Os invasores n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 garimpeiros, tamb\u00e9m pol\u00edticos, a coloniza\u00e7\u00e3o. Os garimpeiros que est\u00e3o a\u00ed n\u00e3o t\u00eam terra. Quarenta mil garimpeiros que entraram sem consulta do povo origin\u00e1rio, sem consultar a lideran\u00e7a que fala portugu\u00eas, como Raoni Metuktire, Ailton Krenak, eu, n\u00f3s j\u00e1 tava lutando contra outros invasores, os fazendeiros e arrozeiros que estavam desmatando, eu tava lutando contra garimpeiro. Eles entraram. Entrou primeiro na Perimetral Norte [BR 210, na regi\u00e3o Norte], passou dentro da terra yanomami, mataram meu povo, mataram meu pai e minha m\u00e3e, e por isso que entrei na briga. Garimpeiro n\u00e3o \u00e9 bom. <\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>Mas eles est\u00e3o mais violentos agora do que em anos anteriores?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Tentaram entrar pra matar. Mataram metade, os garimpeiros s\u00e3o teimosos, eles s\u00e3o bravos, com grupo grande, eles t\u00eam armas pesadas. Aconteceu isso. Mataram quatro yanomami em 1986, o <\/span>Haximu<\/span>. Eu fui l\u00e1 pra ajudar a comunidade yanomami, mas eles come\u00e7aram a matar nossos parentes. Hoje \u00e9 pior. S\u00e3o os mesmos garimpeiros que estavam l\u00e1 garimpando em 1986 at\u00e9 1991. Pra mim tava muito dif\u00edcil, eu era sozinho junto com os parceiros n\u00e3o ind\u00edgenas, mas conseguimos [homologar o territ\u00f3rio dos povos ind\u00edgenas yanomami]. Em 2016, [os garimpeiros] entraram de novo e hoje t\u00e1 pior: aumentou o n\u00famero dos garimpeiros, pra mim \u00e9 de 70 mil a 100 mil garimpeiros atuando. Uma pessoa que compra ouro, o dono do avi\u00e3o, o dono da loja, e estrangeiros que est\u00e3o comprando, t\u00e3o mandando dinheiro, d\u00e3o apoio ao garimpo. Quem compra ouro \u00e9 garimpeiro tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
Arco: <\/span>Qual \u00e9 a import\u00e2ncia das universidades terem pol\u00edticas de inclus\u00e3o e de perman\u00eancia para ind\u00edgenas, como a casa do estudante e a lei de cotas?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>A universidade \u00e9 do governo. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o muito bem. Mas eu sou um yanomami desconfiado. Eu tenho dois pensamentos, tem dois caminhos: na universidade, tem o jovem que estuda pensamentos diferentes, de trabalho, de pol\u00edtico, e que \u00e9 pela destrui\u00e7\u00e3o, pra destruir e garimpar, botar minera\u00e7\u00e3o e desmatamento. Nesse caminho, n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, estamos preocupados. E o outro lado, o caminho que escolhemos, \u00e9 aonde estamos indo, vivendo bem, com sa\u00fade, muito contente, trabalhando e cuidando da nossa beleza, do nosso pa\u00eds. E nesse caminho, eu, Davi, tamb\u00e9m sou estudante, do xamanismo que aprendi, que conheci nesse caminho. Ent\u00e3o \u00e9 muito importante voc\u00eas pensarem em n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra pensar a cidade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pra pensar trabalho de capitalista, que n\u00e3o serve pra n\u00f3s. <\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
Arco: <\/span>Por que \u00e9 importante falar do Brasil como terra ind\u00edgena?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Brasil: essa palavra n\u00e3o \u00e9 minha. Botaram o nome do Brasil. A minha l\u00edngua yanomami, <\/span>urihi<\/span>, \u00e9 terra-floresta, e a terra \u00e9 dos \u00edndios. Voc\u00eas me chamam \u00edndio. Eu n\u00e3o sou \u00edndio, eu sou yanomami. Yanomami, yekuana, kayap\u00f3, xavante e outros parentes. A nossa terra \u00e9 dos povos origin\u00e1rios, que o nosso povo, o nosso pai, protegeram. Protegiam. Hoje est\u00e1 destru\u00edda.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
Arco: <\/span>E o que \u00e9 resist\u00eancia pra voc\u00eas?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Resist\u00eancia \u00e9 a terra n\u00e3o morrer. N\u00f3s morreremos. A terra n\u00e3o tem fim, a terra n\u00e3o morre. Ela est\u00e1 sofrendo, mas n\u00e3o vai morrer. As \u00e1rvores v\u00e3o morrer, morrer queimado, morrer derrubado e morrer raspado. A terra n\u00e3o. A terra est\u00e1 sofrendo, mas \u00e9 resist\u00eancia. Ent\u00e3o quando tem resist\u00eancia, a terra est\u00e1 viva, e por isso os povos ind\u00edgenas lutamos: resist\u00eancia junto com a terra e a floresta.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
Arco: <\/span>Se voc\u00ea tivesse que destacar uma coisa que os homens brancos deveriam aprender com os povos ind\u00edgenas, o que seria?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>[Ri] Bom, n\u00f3s estamos ensinando. O ensinamento mesmo j\u00e1 tem a\u00ed [aponta para o livro que est\u00e1 sobre a mesa]. O livro \u201cA queda do c\u00e9u\u201d t\u00e1 entrando na universidade e, em cada universidade, n\u00f3s estamos ensinando. Ailton Krenak tamb\u00e9m tem um livro que \u00e9 ensinamento para voc\u00eas, para voc\u00eas abrirem as ideias e olharem para frente. Ent\u00e3o n\u00f3s estamos iniciando e voc\u00eas est\u00e3o come\u00e7ando a abrir os olhos. Voc\u00eas, jovens, t\u00e3o sabendo que n\u00f3s temos ensinamento atrav\u00e9s do livro e da fala tamb\u00e9m. Isso \u00e9 importante para n\u00f3s todos, n\u00e3o s\u00f3 para os yanomami, n\u00e3o s\u00f3 pro povo ind\u00edgena, \u00e9 pra voc\u00ea tamb\u00e9m. A floresta vive. Sem n\u00f3s, o outro povo exterior que chega aqui vai derrubar tudo, vai colocar do jeito que quer.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>O senhor falou na entrevista dada anteriormente para a r\u00e1dio UniFM que \u00e9 muito bom ter um Minist\u00e9rio dos Povos Origin\u00e1rios. Qual seria a primeira a\u00e7\u00e3o que que precisaria ser feita por esse minist\u00e9rio, se ele realmente for criado?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Aw\u00eb!<\/span> N\u00f3s nunca pensamos isso. Quem falou isso \u00e9 Lula, Lula que fala a todo mundo pra nos escutar. Eu penso que t\u00e1 dando oportunidade pra ter minist\u00e9rio dos povos origin\u00e1rios dentro do congresso nacional, t\u00e1 faltando isso. Congresso Nacional tendo algu\u00e9m, tem cadeira pra ele pra come\u00e7ar a conversar entre deputados, entre outros minist\u00e9rios, deputados n\u00e3o ind\u00edgenas e outras autoridades. Pensar o que se \u00e9 criado pro minist\u00e9rio ind\u00edgena origin\u00e1rio, com as jovens mulheres [deputadas ind\u00edgenas eleitas] que j\u00e1 aprenderam a falar as suas l\u00ednguas, sabem escrever, sabem mexer no computador e sabem mandar mensagem para outros lugares. Pra mim \u00e9 estaca, como se coloca estaca pra fazer uma casa.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>\u00c9 o come\u00e7o?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>\u00c9 o come\u00e7o pra nascer as \u00e1rvores, nascer as nossas frutas e crescer as nossas ra\u00edzes, pra ficar seguro. Ent\u00e3o essa oportunidade \u00e9 muito importante pro meu povo e o de voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/b><\/span> E<\/span>st\u00e1<\/span> acontecendo agora <\/b>a COP 27<\/span> <\/span>, que \u00e9 a Confer\u00eancia Mundial do Clima, organizada pela ONU l\u00e1 no Egito. Se o senhor estivesse l\u00e1, o que falaria para aquelas lideran\u00e7as mundiais que est\u00e3o reunidas falando sobre o clima?<\/b><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>[Ri] Eu n\u00e3o t\u00f4 com vontade de ir n\u00e3o, o problema \u00e9 deles. Do jeito que estragaram, eles v\u00e3o conseguir tapar os buracos. Essa mudan\u00e7a clim\u00e1tica que eles falam, pra mim \u00e9 a insignific\u00e2ncia da nossa terra-planeta. A insignific\u00e2ncia da natureza est\u00e1 deixando acontecer e adoecer nossos rios, a \u00e1gua \u00e9 vida. A terra fica revoltada com o estrago capitalista sempre usando, explorando, derrubando, queimando, ent\u00e3o a nossa m\u00e3e-terra fica brava. A chuva t\u00e1 suja, em outro lugar n\u00e3o tem sol, em outro lugar t\u00e1 muito quente e em outro lugar t\u00e1 rachando a terra. Ent\u00e3o isso significa a insignific\u00e2ncia do nosso mundo. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o vai ser sarada, vai crescer, vai chegar a doen\u00e7a como chegou a doen\u00e7a coronav\u00edrus. <\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
Arco: <\/span>Com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, h\u00e1 perigo de o c\u00e9u cair novamente?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Sem \u00edndio, sem n\u00f3s, sem <\/span>xapiri<\/span>, vai acontecer, esse \u00e9 o meu sonho*, o que eu aprendi com o grande paj\u00e9 que j\u00e1 faleceu no territ\u00f3rio yanomami. Ele passou esse conhecimento pra mim e falou, \u2018voc\u00ea escreve e ensina pros n\u00e3o ind\u00edgenas\u2019. N\u00e3o ind\u00edgenas est\u00e3o usando muito m\u00e1quinas pesadas, cavando buraco, arrancando as pedras e com f\u00e1bricas muito grandes, a fuma\u00e7a t\u00e1 venenosa, vai sair no ar, vai chegar l\u00e1 em cima e se juntar com <\/span>xawara <\/span>grande e o peito do <\/span>hotom\u00f6si <\/span>fica enferrujado, fica doente. Eu falo sempre essa mensagem pra voc\u00eas: muito cuidado, eu acredito que sem \u00edndio, vai acontecer. Sem \u00edndio, n\u00e3o estamos protegidos. Eu e as lideran\u00e7as da aldeia que est\u00e3o fazendo o trabalho pra cuidar do nosso universo, pro universo n\u00e3o desequilibrar. N\u00f3s estamos lutando por isso. Pra n\u00f3s \u00e9 perigoso e \u00e9 perigoso pra voc\u00eas. Como aconteceu antigamente, vai acontecer. N\u00e3o \u00e9 agora. N\u00f3s estamos vivos ainda: eu e <\/span>pata <\/span>estamos fazendo <\/span>xapiri<\/span>, estamos lutando para cuidar do nosso planeta, pra n\u00e3o acontecer como aconteceu antigamente.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>O senhor j\u00e1 sofreu algumas amea\u00e7as, inclusive de morte. O que faz o senhor n\u00e3o se calar e continuar trabalhando e defendendo a natureza e a floresta?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa: <\/span>Eu fui amea\u00e7ado. Eu sofri amea\u00e7a dos fazendeiros, garimpeiros e outras pessoas da cidade, porque eu t\u00f4 atrapalhando o trabalho deles, divulgando, denunciando, \u00e9 direito meu, \u00e9 direito do meu povo, pra n\u00e3o deixar fazer mal pra gente. Eles t\u00e3o revoltados comigo. Eles me procuram na cidade, eles querem acabar com a minha vida. Mas eu me protejo, eu me cuido com os paj\u00e9s, eu fico na minha comunidade. Eu fico na cidade s\u00f3 pra trabalhar e pra lutar, n\u00e3o pra ganhar dinheiro. \u00c9 trabalhar pra lutar e pra defender o direito do meu povo, direito da nossa terra, da nossa fam\u00edlia, da floresta, tudo que existe dentro no universo. Ent\u00e3o, realmente, eles n\u00e3o gostam de mim, at\u00e9 hoje t\u00e3o brabos porque o presidente atual perdeu. Duas vezes perdeu: quando n\u00f3s conseguimos, conquistamos a homologa\u00e7\u00e3o da terra yanomami, eles perderam. E agora o presidente Bolsonaro perdeu de novo, e eles t\u00e3o p*** comigo, p*** mesmo, com meu filho e outras lideran\u00e7as que t\u00e3o lutando.<\/span><\/p>\n <\/b><\/p>\n
ZH: <\/span>O senhor n\u00e3o vai parar?<\/b><\/span><\/p>\nDavi Kopenawa:<\/span> N\u00e3o, eu n\u00e3o vou parar. Eu n\u00e3o vou parar, porque eu n\u00e3o t\u00f4 roubando. Eu n\u00e3o t\u00f4 roubando a terra dele – terra \u00e9 pra todo mundo – , eu n\u00e3o t\u00f4 roubando a casa, o que eles t\u00eam, eu n\u00e3o t\u00f4 roubando dinheiro, eu n\u00e3o t\u00f4 roubando nada. Eu t\u00f4 fazendo um bom trabalho, em parte pra viver bem e pro povo ind\u00edgena viver bem. Esse \u00e9 meu papel de lideran\u00e7a. Essa \u00e9 minha miss\u00e3o pra continuar. A luta n\u00e3o vai parar. A minha luta vai ficar at\u00e9 o fim. Isso a\u00ed eu sempre falo.<\/span><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t