Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo Wed, 04 Dec 2024 23:38:33 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo 32 32 Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/12/03/editorial-historias-diversas Wed, 04 Dec 2024 00:13:41 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=431 A reportagem tem o poder de aproximar pessoas e alimentar laços por meio de histórias. Quando iniciamos no jornalismo, um dos maiores desafios é, justamente, criar espaço para a escuta atenta e o olhar apurado. Aos poucos, quando nos abrimos diante do Outro, percebemos como contribuir com as conexões humanas. Quando somos tocados pelas histórias que escutamos e acompanhamos, sabemos por onde conduzir nosso relato e as imagens que produzimos.

Oferecer espaço para histórias de personagens da região de abrangência da UFSM 55BET Pro Frederico Westphalen é um dos motes da nossa publicação, uma revista experimental, espaço de aprendizado, de tentativa e de apostas.

A edição número 13 da Meio Mundo foi produzida com esse intuito. Juntos, procuramos ouvir e contar histórias que fazem parte do nosso cotidiano. Aproximar mundos a partir da reportagem é o que nos move, pensando na força da diversidade de temas e na pluralidade.

O processo de desenvolvimento desta edição começou ainda no primeiro semestre de 2024, com a apuração, entrevistas e captação fotográfica. Foram muitos os encontros, checando dados, conhecendo pessoas, relatos e realidades.

Esta é uma revista que vai da cultura até o esporte, passa por matérias sobre comportamento, fala de educação e recorda eventos históricos. Nesta edição, temos dois perfis, valorizando o cenário artístico local. Além disso, nossos repórteres falam de fé, de cura, de desafios e hábitos das novas gerações e de temas que fazem parte da nossa identidade, como a alimentação, o vestuário e até a famosa erva-mate e o hábito do chimarrão. Recordando datas históricas, falamos das vozes estudantis no movimento das Diretas Já! e as disputas políticas que localmente marcaram o período anterior à ditadura.

Na educação, temos reportagens relacionadas à participação das pessoas negras na universidade, alunos que utilizam subsídios para sua permanência e sobre a religiosidade no ambiente universitário. Para finalizar este número, a editoria de esportes valoriza atletas da região, falando de ciclismo, de atletismo e de futebol.

A edição número 13 da Meio Mundo é um trabalho experimental do terceiro semestre do curso de Jornalismo da UFSM FW. Convidamos você a conhecer as histórias que moldam nosso mundo.

Boa leitura.

Equipe Meio Mundo 13


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Expediente da edição 13

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/talpaitalfilha Wed, 27 Nov 2024 17:56:08 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=425

A sucessão do legado rural por mulheres na região do Alto Uruguai.

Texto e foto: Joana Seger

Foto: Franchesco de Oliveira Y Castro

“Das roupas velhas do pai

queria que a mãe fizesse

uma mala de garupa

e uma bombacha e me desse

Queria boinas, alpargatas

e um cachorro companheiro

pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro”

 

Os versos da canção guri, conhecida na voz do gaúcho César Passarinho, traduzem, em parte, as histórias aqui contadas. Só que nesta reportagem, são as gurias, de bota e bombacha, que estão seguindo o legado dos pais, assumindo a linha de frente em propriedades rurais na região do Médio Alto Uruguai.

A estudante Luani Aparecida Calegari, 19 anos, terceiro semestre do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen, é uma delas. Primogênita entre os irmãos, Rafaella, 11, e Davi, três anos, aos cinco já estava atenta aos passos do pai, Roberto.

Quando fala dele, Luani se emociona. Busca o acalento no calor do chimarrão. A cuia fica na mão durante toda a entrevista. Diz ter o mesmo jeito dele, mais fechado, mas que não deixa trancado o sentimento de amor e de gratidão. Hoje, ela já assume a criação especializada de terneiras, parte da produção leiteira, além dos terneiros que ficam para gado e a lavoura. Com a mãe, ainda divide as tarefas domésticas e o cuidado com os irmãos. Focada na inseminação, com curso realizado em 2022, ela diz que o incentivo veio da veterinária Ana Paula Ferigollo e do consultor Jeferson Vidal Figueiredo, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).

A irmã, Rafaella Calegari, é estudante do quinto ano do ensino fundamental. Chama a atenção pelos olhos brilhantes, curiosos e a inquietude corporal, que logo a colocam no centro da entrevista. “Ah! Morar no campo é bom, pelo menos não tem que ficar dentro de casa como na cidade. Dá para sair, ajudar também”. Rafa, como é chamada, explica que “ajudar” é ir para o chiqueiro. De modo lúdico, ela vê que, ao colocar a ração, consegue brincar com os porcos e subir na escada. A filha do meio já plantou alface, girassol, milho e algodão. Para vida profissional, vislumbra, sem hesitar, ser veterinária de pequenos animais. A família adotou cinco cães que a rodeiam.

O pai, o produtor rural Roberto Calegari, 48 anos, ensino médio completo, é natural de Frederico Westphalen (RS). Confiante na continuidade do seu legado, nota que Luani foi tomando gosto pelas questões da propriedade com as visitas para acompanhamento da produção pela Emater. Roberto lembra que, desde muito pequena, a filha mais velha já o acompanhava na lida. Hoje, tem plena confiança nela e credita o desempenho da propriedade ao envolvimento dela no manejo e nas decisões. Com a formação da filha, novas oportunidades e uma renda melhor devem ser alcançadas pela pequena propriedade. “Mas não é fácil, tem que ser persistente”, conclui.

A comunidade Linha Barra do Braga ainda segue a política de troca dia. As famílias se ajudam mutuamente, com rara necessidade de contratação de mão de obra externa. Nesses períodos, cada um organiza-se na rotina interna para contribuir com os afazeres dos vizinhos. São áreas não mecanizadas, a maioria de produção leiteira e criação suína, cultivando alimentos para consumo próprio, buscando-se minimamente o comércio alimentício na cidade. Sentem falta de políticas públicas voltadas à pequena propriedade, e estão preocupados com os reflexos climáticos, seja pela estiagem, seja pelo excesso de chuvas e temporais.

O agrônomo Jeferson, consultor da Emater em Frederico há 13 anos, pontua que para a sucessão rural acontecer, é necessária uma renda, um incentivo financeiro, para que as novas gerações permaneçam na propriedade. Além de assistência técnica e extensionista, os consultores buscam incluir crianças e jovens nas tarefas cotidianas de forma gradativa.

Para ele, a sucessão não é nada fácil quando se trata de choque de gerações. “Nós temos uma geração com setenta anos que talvez seja a mais difícil de lidar, de fazer aceitar que tem que dar salário aos filhos, de implantar mudança de manejos”, reflete.

O consultor também observa que muitos homens deixam o campo em função de suas mulheres. Elas preferem a vida urbana a permanecer na atividade rural, tocando o negócio conjuntamente. “Exige manhã, tarde, noite, não tem final de semana, não tem domingo, não tem feriado”, acrescenta. O êxodo para as cidades era comum. Os próprios pais criaram a geração que hoje tem entre quarenta, cinquenta anos dizendo que a vida no interior era difícil. Hoje, Jeferson, já vê uma migração de volta ao campo. “É algo importante, os filhos decidirem ficar porque os pais abriram as porteiras para o diálogo”, salienta. Para isso, o protagonismo feminino nas propriedades é a chance de futuro.

A força da agricultura está representada por famílias que colocam a produção agrícola como uma das principais atividades no Brasil, com grande destaque econômico na geração de renda e no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Ainda há uma visão pessimista de muitas mulheres por não se sentirem reconhecidas e respeitadas no meio, porém os números já indicam um novo cenário em construção.

 

Indicadores sociais

Em 2020, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentaram dados sobre mulheres rurais no Brasil, baseados no último Censo Agropecuário de 2017. Dos 5,07 milhões estabelecimentos rurais, 947 mil (19%) eram dirigidos por mulheres, destes 104 mil na região Sul (11%). Com terras próprias somavam 755 mulheres (18%), onde a atividade econômica é 50% de pecuária e criação de outros animais e 32% de produção de lavouras temporárias. Produtoras rurais associadas às cooperativas eram apenas 8,6% à época.

Segundo o Censo, a área total de estabelecimentos no campo, em Frederico Westphalen, era de 18.592 hectares (ha), com 8.912 ha de lavouras e 4.613 ha com pastagens. A zona rural estava legalmente ocupada por 431 produtores individuais, com 70 mulheres, entre 25 e mais de 75 anos, colaborando nos resultados da produção familiar. Na faixa etária dos 45 aos 75 anos, 55 produtoras estavam na ativa.

Outro dado importante foi o número de pessoas com laço de parentesco com o produtor. Dos 995 estabelecimentos agropecuários, apenas oito não estavam sendo ocupados por pessoas da mesma família. Eram 2.593 produtores nesses espaços, com a atuação de 1.010 mulheres, das quais 32 com menos de 14 anos. E como em outros espaços, no meio rural elas se ocupam da produção, mas também do aprimoramento das atividades e do cuidado com os filhos, com a casa e o bem-estar da família.

De acordo com um estudo publicado pela Fundação Getúlio Vargas as mulheres respondem por quase um terço da população ocupada com o agronegócio, sendo que 34% delas em cargos de gestão na área. Isso representa mais de um milhão de mulheres no comando de mais de 30 milhões de hectares no país. A remuneração, todavia, é desigual. Elas recebem em média 20% menos, mesmo exercendo as mesmas funções dos homens, o que contribui para a dificuldade em conseguir crédito e insumos.

Transformações culturais, ao longo dos anos, diminuíram as situações desconfortáveis e intimidadoras. Em Frederico Westphalen, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais promove encontros de mulheres produtoras, e inclusive, possui uma Comissão de Mulheres, ligada à diretoria do Sindicato. Segundo o presidente Amarildo Manfio, o Sindicato está atento à sucessão feminina na região e busca oferecer formação e treinamentos específicos para as trabalhadoras. “Elas se sentem mais valorizadas como agricultoras familiares, vendo que têm um papel fundamental”, comenta.

A coordenadora do curso de Agronomia da UFSM campus Frederico Westphalen, Denise Schmidt, 53 anos, está na docência há 22. Formada em Engenheira Agronômica, relata que a média de mulheres na área vem crescendo progressivamente. “Nos últimos cinco anos, temos a média de 46% de ingressantes mulheres. Atualmente, o curso conta com 117 alunas, 42% do total de alunos do curso. Hoje, se observa aumento exponencial no número de vagas para cargos gerenciais dentro das fazendas e empresas ligadas ao agro. Independentemente do setor, é estratégico entender que a presença feminina só tem a agregar. A competência feminina é vista em todos os processos do agro”, comenta Denise.

Caminhos para a roça

Na região do Médio Alto Uruguai gaúcho, encontramos a Casa Familiar Rural, uma escola de ensino médio que prepara e qualifica jovens para a continuidade da agricultura familiar. Hoje, a escola conta com 70 jovens de 18 municípios nas três turmas, 15 são meninas. Em 2023, a escola formou 21 jovens, com oito mulheres compondo o grupo. Desses jovens, 15 seguiram para cursos de graduação na área.

A diretora, Dulcinéia Zonta, explica que a metodologia de ensino é a de alternância, criada na França, na década de 1930. Na Casa Rural, os estudantes conhecem a realidade das propriedades, fazem um levantamento do patrimônio familiar, o que já permite a reflexão de quanto tempo levariam para adquirir o montante, caso optassem pela vida na cidade. Esses jovens despertam para novos percursos ou para aprimorar aquilo que os pais já cultivam ao elaborar um projeto profissional com metas de curto a longo prazos, aplicados na própria terra. Conhecem os aspectos econômicos, o mercado local, a viabilidade de suas decisões e adquirem autonomia.

Na sala dos professores, tímidas e internamente eufóricas, aguardam oito gurias, todas alunas do primeiro ano do ensino médio. São Daianas, Karolines, Larissas, Alessandras, Marianas, Kétnis, Micheles e Alanas que ocupam seus lugares na produção agrícola e na Casa Familiar, que, na época da fundação, em 2002, só dispunha de alojamento masculino. A primeira mulher formada em Ciências Agrárias a trabalhar na escola foi Dulcinéia, que chegou em 2013. “Nosso objetivo não é formar jovens para o mercado de trabalho porque eles já têm um emprego, já têm as suas propriedades e desenvolvem o projeto de vida junto com a família”, esclarece Dulcinéia.

O agricultor Valdeir Sarmento, 52 anos, pai de duas mulheres, chegou a cogitar morar na cidade. As filhas, alunas da Casa Familiar, no entanto, manifestaram o interesse pela continuidade. Isso fez com que ele investisse outra vez na propriedade. O conhecimento de Valdecir veio dos pais. Agora, com auxílio das filhas estão conseguindo melhorar a genética das vacas, por exemplo. “Elas sempre dizem, o pai que decide. Mas eu converso com elas, a gente planeja juntos. Uma família não existe sem metas, uma de ser feliz e outra de trabalho”, reflete.

Formada em Agronegócio e com especialização em inseminação artificial, a primeira filha dos Sarmento, Debora, 23 anos, hoje está cursando Tecnologia em Agropecuária. Tentou a vida na cidade aos 17 anos, mas foi a partir de uma fala do presidente da cooperativa de créditos onde trabalhava, que decidiu retornar ao campo. “Era aniversário da cooperativa, e ele disse que no próximo ano queria ver todos ali, mas felizes no que faziam. Mas eu não estava feliz”, relembra. Para ela, é preciso perseverar, ter vontade de fazer diferente, ter determinação e ambicionar novos resultados. Em 2019, ela ganhou o prêmio Jovem Empreendedor Rural, oferecido pelo município de Frederico Westphalen e pela Emater local: “Significou muito, deu um gás. Tinha recém saído do banco. Para muitos foi um espanto: ‘nossa!’, sair do banco para trabalhar com vaca?”, recorda.

A aluna do terceiro ano na Escola de Ensino Médio Casa Familiar Rural, e irmã caçula de Debora, Helen, 17 anos, é coringa na propriedade da família: “Eu sou meio um faz tudo. Posso tirar leite ou tratar, ajudo onde falta mão de obra naquele dia”. A formação traz reflexos para o trabalho: “a gente sempre contribui com o que sabe. Como a gente estuda também, e recebe um incentivo, sempre vem com novas ideias, trazemos para a propriedade”. Nessa caminhada inicial como agricultora, já sentiu dificuldade por ser mulher. Foi ao realizar o curso de inseminação artificial junto com a irmã. Mas não desanimaram. “Desistir nunca é uma opção, não é? Às vezes, aparecem as dificuldades, mas a gente vai e enfrenta”, completa. O pai transmite conhecimento e incentivo. Entre lágrimas e sorrisos, contam que o trabalho e a família caminham juntos. O refúgio dos pais reafirma a certeza de que a propriedade familiar continua.

 

Bons ventos

O produtor rural Roberto Piovesan, 57 anos, também tem duas filhas, mas há um ano e pouco atrás olhava para a propriedade onde nasceu e não via lugar para as meninas. Por sorte, as previsões não formam assertivas. Hoje, a filha mais velha lida com suínos e a caçula com vacas e terneiras. Homem de poucas palavras e de sorriso fácil, ele compara as gerações e as histórias e reconhece a importância das filhas e da mulher. “Se não fossem elas, eu acho que não estava mais conseguindo tocar. Aqui é a minha vida. Está tudo aqui, desde o começo”, conta. Ao mesmo tempo que  tenta motivar as filhas, sente falta do incentivo público para as estradas e infraestrutura básica, por exemplo. “Um acesso bem caprichado, não precisa muita coisa, só olhar mais para o agricultor que trabalha e que depende disso”, pondera.

Agricultora e artesã, Jéssica Maria Frizon Piovesan dos Santos, 31 anos, é a primogênita do Roberto. A conversa foi dividida entre suas histórias e a atenção com os dois filhos, Cecília, sete anos, e Miguel, cinco, que brincam livremente pela propriedade. Na lida, é a responsável pelo chiqueirão. Acredita que que a maioria das pessoas não valoriza a mulher do campo: “Dizem, ela é uma colona. Ela só está lá para ir na roça, parece que ela não pode se arrumar”.

Estudante de Medicina Veterinária no Instituto Federal Farroupilha (IFFAR), campus Frederico Westphalen, Larissa Frizon Piovesan, 18 anos, completou o ensino médio na Escola Casa Familiar Rural, onde começou a despertar para a atividade com os animais. A caçula dos Piovesan tem curso de inseminação artificial, atende a propriedade da família e as de vizinhos. “Hoje, toda a parte de inseminação, reprodução, ração das terneiras, das vacas, os pedidos para os animais é comigo”, explica. Mas pondera: “Quando tem alguma coisa para resolver, geralmente o pessoal chega e já procura o homem da casa”. A diferença está em pessoas como o consultor da Emater, Jeferson Figueiredo, “que conversa do mesmo modo com todos”.

Do anonimato ao compartilhamento do espaço e ao protagonismo, as meninas e mulheres igualzitas aos pais, dão eco a outros versos da canção de César Passarinho, lembrada na abertura da reportagem: “E de lambuja permita, que eu nunca saia daqui”.

Família Frizon Piovesan, de produtores rurais. A filha mais velha, Jéssica, se divide entre a agricultura, o artesanato e o cuidado com os filhos. A mais nova, Larissa, ex-aluna da Casa Familiar Rural, estuda Medicina Veterinária no IFFAR

Mantendo o rancho

O fôlego da família Gabbi da Silva vem da matriarca, Jurema Bulegon da Silva, 78 anos. As terras ficam na linha Peixeira, em Rodeio Bonito (RS), onde criou sozinha os onze filhos. Os caminhos dessa área, literalmente, foram abertos com a participação dela com enxada e picão, e levam às lembranças de gerações. O patrimônio, hoje, é conservado pelo filho Valdir e pela neta Caroline, que seguem cultivando essa história.

Alegria, força, entusiasmo pela vida, assim é a prosa com a vó Jurema. Ela conta que desde os cinco anos já pegava o arado de manhã cedo, e seguia até a noite lavrando os peraus. Ela estava trabalhando até quatro anos atrás, quando vendeu a terra para o filho Valdir, que chama carinhosamente de Dile. Fala que ainda chega a sonhar que está na lida. Se vê refletida na neta. “A Carol é igual a mim, porque eu não paro de lidar, eu não paro um dia”, conta. 

Jurema nunca quis ir para a cidade. Quando visita as filhas em Ametista do Sul não vê a hora de voltar para casa. “Eu não quero estar lá parada na cidade, olhando pro céu. Aqui, nós pegamos o ar livre. De noite, é a coisa mais linda. Tu se entretém, tu distrai a cabeça, tu vai lá e faz uma horta, tu vê as galinhas, junta um ovo, cuida os porcos”, explica.

O sofrimento que passaram também foi pauta. Comentou que não tinha dinheiro, não tinha bolsa escola, não tinha bolsa família. Tinha que trabalhar de peão, na lavoura, no garimpo, tratando os bichos, dirigindo a carroça pelo perau, abrindo estradas. “Quantas vezes eu chorei na roça, porque a mãe quer ver os filhos comerem. Se a gente comeu, comeu. Nunca abandonei meus filhos, tudo em roda de mim”, relembra. Carol, então, aparece com uma foto antiga, com parte dos filhos de Jurema, e mais um álbum com boas recordações.

Filho, o produtor rural Valdir Gabbi da Silva, 47 anos, começou cedo no garimpo e na lida na roça. Foi para Novo Hamburgo (RS) com 16 anos, trabalhar numa fábrica de calçados. O sonho era comprar uma moto, então foi juntando dinheiro dos trabalhos realizados um ano e meio na cidade, bastou. “Saudade do lugar? Eu nunca gostei da cidade. Fui pra trabalhar, pra ganhar um dinheiro, né? O dinheiro que eu empreguei lá, segurei”, compartilha. A mãe, Jurema, representa a base. Comprou a terra que pertencia à mãe, em 2009, e já trazia a filha Caroline junto. “Eu levava ela na carretinha agrícola, carregada, e ela com duas caninhas lá atrás levando, me ajudando. Não que ela me ajudasse, mas eu tentando ensinar. Sempre a minha ideia. Já digo, me ajudar a fazer a diferença, é o ensinamento”, considera. 

Valdir, com humor, prontamente fala sobre a confiança que tem na filha. “Só com os olhos fechados que eu confio. Com os olhos abertos não dá pra confiar muito não”, brinca. “Eu não estresso nada. Se eu tocar de sair viajar, alguma coisa, se ela tiver aqui, é tranquilo. Ela sabe fazer negócio, sabe como trabalhar”, completa. A comunidade já chegou a rotulá-lo de “provalecido” por carregar a filha ainda pequena, mas Caroline sempre frequentou a escola e hoje está na universidade. Os anos mudaram a visão e os comentários pela redondeza. Pensa na filha tocando o próprio negócio, todavia entende que ela pode sair, fazer um pé de meia, mas sempre ter o canto para voltar. Do seu legado, o maior é a educação, afirma. também é pai do Moisés, oito anos, a quem orienta a enfrentar os problemas de frente. 

Caroline Gabbi da Silva, 19 anos, além de produtora rural, é estudante do terceiro semestre de Agronomia da UFSM-FW, decisão pela continuidade na propriedade veio por amor a tudo que o pai ensinou, além das histórias aguerridas da avó paterna. Com o incentivo da família, está segura da sua escolha. “Olhar para um pasto, ver ele verde, cheio de gado, sabe? Todo esse processo que tem de plantar cana e colher. Olha, uma coisa que eu tenho certeza, é que eu nunca vou abandonar a terra ali, sabe?”, comenta ela, enquanto fala dos planos: “Eu quero muito viajar, fazer estágio e tal. Mas, independente, do lugar para onde eu for nunca vou deixar a propriedade abandonada. Quero que continue de onde meu pai deixou, pra melhor. Essa é a minha ideia”, relata emocionada. 

Menina de sorriso amplo, cuja delicadeza não comporta fragilidade, Caroline é assertiva, inquieta e trabalha muito. Traz consigo uma fala do pai, que nunca esqueceu. “Foi numa conversa aleatória que a gente estava tendo. Ele olhou para o pasto e disse: ‘eu vejo Deus nesse pasto’. E eu entendi totalmente o sentido daquela frase, sabe? Vejo Deus nesse pasto, desde a força que Deus dá pra gente trabalhar, pra plantar e a continuidade, tipo, de ter chuva pra regar, e está verde, está bonito, sabe?”, recorda. 

A guria se assemelha ao pai pelo amor por aquela terra, a visão empreendedora e o valor pelo trabalho. Carol também ajuda na colheita da uva em uma propriedade vizinha. O brilho nos olhos da estudante só aumenta ao falar da lida. “Ia pro meio da lavoura com toda aquela turmada, sabe? Daí a gente colhendo ali, batendo papo, ver o dia desde o orvalho até chegar no meio-dia, aquele calorão, sabe? Não tinha coisa melhor, não tem ainda”, declara. Entre as incumbências dela na propriedade está a piscicultura. Ademais,  tem o sonho de trabalhar na EMATER, visitar as propriedades, apresentar e aplicar o melhor. No meio da realidade da produção, as trocas com a avó Jurema aliviam o estresse. Quando pensou em desistir dos estudos e ficar no campo, lembrou dos ensinamentos da família: “Aonde chega a tua limitação, entra a tua fé”, finaliza.

Do anonimato ao compartilhamento do espaço e ao protagonismo, as meninas e mulheres igualzitas aos pais, dão eco a outros versos da canção de César Passarinho, lembrada na abertura da reportagem: “//E de lambuja permita/ que eu nunca saia daqui//”. 

FREDERICO WESTPHALEN, RS

RODEIO BONITO, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/sobreduasrodas Wed, 27 Nov 2024 17:10:17 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=423

A história de três ciclistas do interior do Rio Grande do Sul que fizeram do esporte um estilo de vida.

Texto e foto: Melissa Cristina Cardoso dos Santos

Seja em estradas pavimentadas ou em trilhas desafiadoras, sob o brilho intenso do sol ou entre as gotas de chuva, o único elemento essencial para a prática de um dos principais esportes do mundo é a bicicleta. Muito mais que um meio de transporte, é o coração dos amantes do ciclismo, um esporte que engloba pessoas de todas as idades e culturas, une comunidades e promove um estilo de vida saudável.

Quanto uma pessoa precisa doar de si mesma para transformar sua saúde? Começar a praticar exercícios físicos não é uma tarefa fácil, exige muita determinação e é essencial a criação de um hábito. Zulmir Pegoraro, gerente financeiro, 40 anos, já chegou a pesar 149 quilos. Quando enfrentava problemas de saúde, por indicação de um amigo, aceitou um desafio de exercícios. Foi então que decidiu pedalar. Começou a ter mais cuidado com a saúde, treinou, evoluiu e decidiu participar de competições: “O meu principal objetivo é me manter com saúde. Isso me despertou o amor, a paixão pela bicicleta”, conta.

Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento e Ministério do Desenvolvimento Regional sobre mobilidade urbana mostrou que 26% dos entrevistados pedalam por preocupação com a saúde, assim como Zulmir, que sobre duas rodas, conseguiu mudar sua vida. 

O cicloturismo representa o início da jornada de muitos ciclistas, onde o objetivo principal é explorar novos lugares utilizando uma bicicleta como meio de transporte. Assim foi o início de Zulmir em competições, já no ano seguinte. “Todo mundo passa por aí. Primeiro se faz o cicloturismo, um passeio. Lá tem seus pontos com água, Coca-Cola, paçoquinha, enfim. É uma modalidade sem competir, você começa por aí e depois vai melhorando”.

Determinado a conseguir um bom desempenho nas competições, Zulmir desenvolveu sua preparação. “Eu falho geralmente dois dias: segunda e sexta. Treino terça, quarta, quinta, sábado e domingo. A gente também tem a questão da suplementação, da alimentação. Na semana pré-provas, ingerir mais carboidratos, se hidratar bem. Tem a parte da musculação também, mas é mais para fortalecimento de alguns músculos”, conta.

A paixão pelo esporte

Desde pequena, a professora Marceli Pazini Milani, 40 anos, do curso de medicina veterinária do Instituto Federal Farroupilha (IFFar) de Frederico Westphalen, sempre foi apaixonada por esportes. Sua primeira bicicleta veio ainda na infância, aos sete anos de idade. Foi em Rodeio Bonito, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Lá ela nasceu, cresceu e começou a pedalar. Usava a bicicleta para lazer e como meio de transporte. Aos 18 anos, quando ingressou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para estudar, deixou a bicicleta de lado.

Mas afinal, o que é necessário para praticar o ciclismo? A resposta pode parecer simples: uma bicicleta. Mas não é só isso. Marceli viu-se temporariamente afastada do esporte. “Fiquei um tempo da minha vida sem pedalar. A gente fica muito focado em estudar, tem aquela pressão, então praticamente parei com o esporte e fez muita falta, se eu pudesse ter continuado a praticar teria sido bom”, diz.

Mesmo sem ter muito tempo livre, Marceli percebeu que poderia pedalar. Passou no concurso e com seu primeiro salário, comprou uma bicicleta. Ela descobriu um grupo de ciclistas da cidade e viu que aquilo poderia ser mais que uma atividade de lazer. “Lá comecei a pedalar já como um esporte mesmo. Pensando em melhorar, performar, no tipo de bicicleta, em cuidar da alimentação, treinar”, comenta Marceli.

Marceli destaca a importância que a UFSM tem em sua trajetória. Mais que um lugar de estudos, a UFSM foi o local onde ela participou de sua primeira experiência em uma competição de ciclismo. A largada ocorreu em frente ao prédio de Educação Física, dando início ao circuito formado no campus universitário. Ainda inexperiente, Marceli descobriu um truque do esporte. “Eu não tinha tática nenhuma. Chegou uma certa altura, perto da chegada, que eu tava alcançando as gurias mais velhas e uma chegou para conversar comigo, foi aí que me liguei que ela deveria estar tentando se recuperar e não me deixar ir, ela descansou, me largou e chegou na minha frente. Depois dessa prova eu me liguei que tem tática e não dá pra ficar conversando”.

Apaixonada pelo esporte, lutou para manter o ciclismo em sua vida. Apesar das exigências intensas da pós-graduação, mestrado e doutorado, ela encontrou tempo para pedalar. Além dos compromissos acadêmicos, Marceli também assumiu o desafio da maternidade duas vezes, mas determinada, nunca abandonou a bicicleta.

O ciclismo também é importante na vida da professora de taekwondo Ruti dos Reis Pereira, XX anos, que sempre amou praticar esportes. Começou pedalando duas, três vezes na semana. Então, decidiu que queria evoluir. Participou de provas de 200km e 300km, no interior do Rio Grande do Sul, e descobriu que havia professores, treinos e orientações que permitiriam um crescimento pessoal. Os treinos aumentaram, outras competições surgiram e ela decidiu comprar uma bicicleta. Na loja, foi convidada pelo dono a fazer parte de uma equipe do Rio Grande do Sul e em 2023 competiu em todas as provas como estreante.

Em 2024, foi convidada a participar de uma equipe de Santa Catarina, a Ciclismo Rio do Sul, e competir em provas catarinenses: “Está sendo uma experiência muito única, porque a competição tem atletas de alto nível. Então, estou tendo várias experiências muito bacanas que acredito que vão contribuir muito para minha vida nesse esporte”, relata. 

Ruti introduziu o ciclismo em sua vida aproveitando momentos oportunos, com uma abordagem flexível que permitiu que ela desfrutasse do esporte sem interferir nas demandas de sua vida cotidiana. “Eu comecei pedalando no Mountain Bike, ia com as amigas aqui na região e depois eu participava das provas que tinha aqui na nossa cidade ou em cidades vizinhas, mas eu não participava certinho do circuito, participava quando realmente dava oportunidade”.

O empenho e o comprometimento de Ruti geraram resultados positivos que marcaram sua trajetória. Ruti treina diariamente e segue a planilha estipulada por seu professor. “Tem semanas que são bem volumosas, que dá vinte, vinte e duas horas da semana. Tem semanas que são menos horas, dá catorze, quinze, mas a intensidade aumenta”.

Em 2023, ela se desafiou a participar de uma prova em Bento Gonçalves/RS. “Eu consegui completar aquela prova, consegui chegar também com as meninas da frente e isso me marcou bastante porque eu vi que todo o meu esforço, toda a minha dedicação realmente estava tendo resultado”, conta. 

Ao falar sobre seus objetivos no ciclismo, Ruti ressalta a importância do esporte para a saúde: “Eu só pratico ciclismo porque faz bem para o meu corpo e para a minha mente. Acho que quanto mais eu me sinto bem, mais eu quero praticar. Com isso eu consigo me desenvolver para ir bem nas provas. Acho que se torna um ciclo”, reflete.

A comunidade

Pedalada após pedalada, o ciclismo não apenas apresenta destinos variados, mas também ensina importantes lições. É mais do que um esporte ou um estilo de vida, é também uma forma de unir as pessoas. “O ciclismo tá na minha rotina pela qualidade de vida, pelo bem que ele me faz, pelas amizades que ele me traz. Nossa, conheci muita gente!”, compartilha Marceli.

Orgulhoso, Zulmir falou sobre o grupo que participa. “Nós iniciamos o grupo em 2021. Surgiu de amigos que saíam pra treinar, se encontravam de manhã cedo nos treinos. Hoje o grupo conta com setenta integrantes e o principal do grupo são as ações sociais. A gente não busca valores para ter caixa no grupo. A gente busca valores para poder ajudar”.

E o esporte está cada vez mais presente no país. A pesquisa “Ciclismo ao Redor do Mundo”, realizada em 2021 pelo Autotempo, revela que 28% dos brasileiros utilizam a bicicleta pelo menos uma vez por semana. Há também aplicativos que promovem a união dos praticantes por meio de desafios e compartilhamentos de fotos e de pedaladas. O Strava, por exemplo, conta com 120 milhões de usuários no mundo. Em seu mais recente relatório, mostra que o ciclismo foi o esporte mais praticado no Brasil em 2023.

FREDERICO WESTPHALEN, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/rostos-negros-na-universidade Wed, 27 Nov 2024 17:03:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=414

A promoção da igualdade e da representatividade passa pela presença da diversidade racial no ensino superior.

Texto e foto: Tainara Laís Teixeira Pompermaier Gonçalves

“Eu era a pessoa negra, meus colegas me viam como uma pessoa negra”, Maria Luíza Lima, estudante do sétimo semestre de Jornalismo na UFSM, campus Frederico Westphalen, reflete sobre como sempre se reconheceu como pessoa negra devido ao contexto ao seu redor. Para Maria Luíza, representatividade é poder se ver em diferentes espaços e sentir felicidade ao ver que pessoas como ela “estão simplesmente vivendo e sendo felizes”. Diferente do ensino médio, onde era a única aluna negra de sua turma, na universidade ela encontrou mais colegas negros, o que trouxe uma nova experiência de pertencimento.

A representatividade, em seu sentido literal, para o Priberam Dicionário significa “1. Caráter do que é representativo”. 2. Qualidade reconhecida a uma pessoa, a um grupo, a uma entidade ou a um organismo, mandatado oficialmente por um grupo de pessoas para defender ou representar os seus interesses ou exprimir-se em seu nome”. Mas qual a definição de representatividade para estudantes negros do ensino superior?

Eloísa Andrade, estudante do oitavo semestre de Relações Públicas, define representatividade como algo pessoal e político, um direito de ocupar espaços e lutar por eles para representar outros. Mariana Marçal,  estudante do sétimo semestre de Jornalismo, destaca a importância de as pessoas negras ocuparem cargos de chefia e serem mais presentes em áreas como bolsas de pesquisa e extensão. Já Maurício Ferraz, estudante do sétimo semestre de Relações Públicas, enfatiza que representatividade para ele é se ver em espaços desejados, incluindo tanto pessoas negras quanto membros da comunidade LGBTQIAPN+, defendendo a diversidade em todos os setores.

O Coordenador do Observatório de Direitos Humanos da UFSM, Victor de Carli Lopes, diz que a representatividade é muito mais do que pessoas negras estarem inseridas em alguns espaços. “Muitas vezes se a gente só tem pontualmente uma pessoa, ela não consegue se mexer de toda estrutura racista que nós temos”, acrescenta.

Segundo o censo do IBGE, a população de pretos e pardos no Brasil passou de 50,7% em 2010 para 56,1% em 2022, tornando-se a maioria no país. No entanto, essa maioria ainda ocupa apenas 48,3% das vagas nas universidades, sejam públicas ou particulares, evidenciando uma disparidade. Victor comenta sobre a percepção equivocada de que as cotas são vistas por muitos como “esmola” ou um meio injusto de acesso à educação superior.

A Lei nº 12.711/2012, a Lei das Cotas, promulgada em 29 de agosto de 2012, destina 50% das vagas disponíveis em universidades públicas para estudantes com deficiência, pretos, pardos, indígenas e quilombolas. Também abrange alunos de baixa renda e provenientes de escolas públicas. Essa ação afirmativa surgiu com a finalidade de minimizar os impactos do colonialismo e da escravatura, e equalizar os direitos à educação para esses estudantes.

O REAL PERTENCIMENTO

O desenvolvimento do pertencimento e de se enxergar em um lugar ou grupo, se dá pela  presença de pessoas, locais ou elementos, que consigam trazer à tona o sentimento de identificação. O ser humano é um ser social que necessita fazer parte de determinados grupos, que representem suas ideologias e suas identidades, como estilo musical e a forma de arrumar o cabelo, por exemplo, assim como a negritude, e tudo que ela carrega consigo.

“As condições das pessoas negras não estão em nosso curriculo formal, eles acabam muitas vezes vindo por estudantes negros que leem adicionalmente o que é o curriculo oficial, e tentam, às vezes, interpelar nas aulas, impor e falar sobre isso”, afirma Victor. Outro ponto é a criação de bolsas e de projetos direcionados especificamente para pessoas pretas e pardas, fazendo com que elas estejam inseridas nesses ambientes e consigam desenvolver melhor suas habilidades profissionais.

A construção de uma representatividade racial nas universidades depende de políticas públicas e ações afirmativas eficazes. Essas iniciativas devem garantir que pessoas negras tenham acesso ao espaço acadêmico, proporcionando estrutura e suporte para que possam permanecer, criar laços e se sentir parte da instituição. Nessa perspectiva, Maurício relata que seu maior desafio na universidade é a permanência, já que quase não há iniciativas institucionais que promovam a integração de estudantes negros. Ele destaca a ausência de apoio ou ações específicas do campus voltadas para essa questão.

Há uma grande lacuna em cargos de técnicos administrativos, docência e posições de chefia que deveriam ser ocupados por pessoas negras, o que evidencia a falta de formação e suporte institucional para que essas pessoas possam acessar esses espaços. Maurício, relata que, ao longo de seu curso, apenas a disciplina de Legislação e Ética abordou questões indígenas e africanas, enquanto as demais aulas foram baseadas exclusivamente em perspectivas coloniais e eurocêntricas. Isso revela a carência de discussões mais inclusivas e representativas no ensino.

A totalidade dos entrevistados não possui nenhum docente negro. Todos sentem carência da presença deles nas salas de aula, quando questionados sobre a temática. “Eu acho que no nosso campus falta essa representatividade de professores também. Se a gente for falar de acolhimento de estudantes negros daqui, a gente também tem que falar de colhimento de professores, porque se a gente não se sentir representado nem dentro da sala de aula, como a gente vai se sentir fora dela?”, indaga Eloísa.

MOVIMENTO NEGRO

Com o propósito de diminuir as brechas de representatividade, promover o auto-reconhecimento racial, acolhimento e a minimização da solidão dos estudantes negros nos ambientes academicos, os coletivos negros se apresentam como um objeto de aquilombamento, rede de apoio, construção de laços afetivos e valorização dos saberes e da cultura negra. “Quanto mais a gente tem interação com essa nossa rede de apoio, é que essa rede de apoio, de alguma forma, nos representa e assim nos fortalece”, fala Maurício.

Os encontros dos coletivos são espaços de diálogo, aceitação e descoberta de novas identidades raciais, onde se discutem questões como a responsabilidade das universidades em oferecer uma formação anticolonial e momentos de validação da presença negra. Nessas reuniões, a negritude é abordada para englobar colorismo e ancestralidade, promovendo a troca de histórias de vida e o acolhimento de inseguranças. Além disso, os encontros destacam a importância dos movimentos sociais e como a música e a arte funcionam como atos de resistência, seja criticando o racismo ou celebrando a felicidade das pessoas negras apesar das adversidades históricas.

O AFRONTA é o primeiro coletivo negro da UFSM, criado em 2010 em Santa Maria, por estudantes que estiveram presentes no  2° Encontro Nacional de Negros e Negras da UNE (ENUNE). No dia 23 de novembro de 2023, o Coletivo Parada Preta, do campus de Frederico Westphalen, criado em 2017 por estudantes dos cursos de comunicação, realizou a Primeira Feijoada Quilombola, com o intuito de fortalecer as raízes e contar experiências vividas.

 “Muitas vezes é um processo que se tem na universidade mesmo, de uma consciência racial. Às vezes as pessoas entram sem saber, sem se entender como negras”, expôs o coordenador do Observatório de Direitos Humanos da UFSM. É importante que esses coletivos existam e tenham garantia de que continuarão existindo. Victor diz que atualmente, os coletivos enfrentam dificuldade na permanência e adesão de membros. É preciso que os estudantes entendam sua relevância para o movimento estudantil negro, permitindo que sejam construídas pontes para que as lutas da causa não sejam perdidas.

Segundo dados do Senado Federal, o número de pretos e pardos nas universidades públicas aumentou cerca de 400%. Mariana relata que, ao chegar na universidade, havia poucos negros, mas, com o tempo, a presença deles se tornou comum, sem mais causar estranhamento. Ela também nota que a cidade de Frederico Westphalen está mais acostumada com pessoas de fora. Esse aumento é uma revolução social, provando que a Lei de Cotas e ações afirmativas estão funcionando como reparação histórica, promovendo equidade racial e diminuindo a desigualdade gerada pelos 300 anos de escravidão no Brasil.

Para alcançar uma verdadeira equidade de oportunidades, é essencial superar a complacência de permitir que apenas alguns negros ingressem e permaneçam na universidade. Sem isso, a representatividade negra continua sendo ilusória, parecendo uma exceção, e não uma regra. Embora a população brasileira seja majoritariamente preta e parda, o número de pessoas brancas na graduação permanece desproporcionalmente maior, evidenciando a falta de uma equivalência real no acesso ao ensino superior.

FREDERICO WESTPHALEN, RS

SANTA MARIA, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/sonhos-subsidiados Wed, 27 Nov 2024 16:49:21 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=420

Auxílios e benefícios nas universidades públicas garantem acesso e permanência a estudantes de baixa renda.

Texto e foto: Júlia Pattoli

 

“Se não fossem os auxílios, talvez eu não estaria aqui estudando”. A frase é de Kellin Andriguetto, 21 anos, estudante de Engenharia Florestal na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) campus Frederico Westphalen. Kellin, assim como 70% dos universitários do país, possui uma renda mensal abaixo de um salário mínimo e meio per capita, fator econômico que, além de lhe garantir vagas dentro do sistema de cotas, também lhe garante acesso a uma série de benefícios e subsídios oferecidos pelas universidades públicas. Werik Furtado, 23 anos, estudante de Sistemas de Informação na UFSM campus Frederico Westphalen, é um dos demais jovens representados pelas estatísticas. Apesar de terem histórias de vida e origens diferentes, ambos escolheram seguir o caminho dos estudos para que possam vislumbrar um futuro na profissão que almejam seguir.

 

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Kellin é natural de Santo Augusto, cidade gaúcha a aproximadamente 90 km da universidade. Apesar da considerável proximidade com o município natal, ela só obteve conhecimento sobre o campus quando começou a pesquisar sobre instituições que ofereciam graduação em Engenharia Florestal, curso que sempre foi seu sonho. Após aplicar sua nota no SISU, sistema responsável por agrupar e distribuir vagas em mais de 125 instituições públicas do país, e ser aprovada, Kellin se deparou com uma questão que fugia de seu controle. “O que pesava era a questão do dinheiro. Eu ia ter como me manter aqui?”. Esse receio foi diminuído ainda durante o processo de matrícula, quando ela e a família tiveram conhecimento sobre os benefícios e subsídios que a universidade oferece aos alunos de baixa renda: “Porque na minha cabeça eu ia ter que estudar e trabalhar para conseguir me sustentar, mas como eu descobri que tinham todos esses auxílios, já fiquei mais tranquila com essa questão.”

Werick Furtado, nascido e criado em Lorena, cidade do interior de São Paulo, possui um ponto de partida similar ao de Kellin: “Eu escolhi aqui por achar que o custo de vida era um pouco mais barato por ser uma cidade pequena.” Para muitos estudantes brasileiros, as inseguranças quanto às questões econômicas surgem quase que em sintonia com a sensação de felicidade de serem classificados no vestibular. A trajetória de Werick começou ainda em Lorena, quando passou a vender paçocas a fim de arrecadar dinheiro para se deslocar até o campus de Frederico Westphalen e poder dar continuidade à graduação.

Esses pensamentos espelham o que mais de 40% dos universitários brasileiros vivem. Dividir a rotina entre estudos e trabalho muitas vezes se torna cansativo ou até mesmo inviável, como em casos em que a graduação demanda tempo integral. Por isso, a existência de bolsas de ensino e auxílios não só garantem que grande parte da sociedade possa ter acesso à educação de qualidade, mas também funcionam como uma forma de possibilitar que essas pessoas possam se dedicar exclusivamente aos estudos.

Desafios e Auxílios

Durante o ano de caloura, em 2019, Kellin Andriguetto morou em uma pensão, tipo de moradia que oferece quartos privados e áreas comuns, como cozinha e banheiro, compartilhadas e por um preço acessível. Esse custo de aluguel era inteirado pela universidade por meio do Auxílio-Moradia, que oferece aos alunos com BSE (Benefício Socioeconômico) ativo a quantia de 400 reais mensais. Para ter direito a esse benefício, Kellin teve que apresentar uma série de documentos que comprovaram que a renda mensal de sua família não passava de um salário mínimo e meio per capita. Essa comprovação deu a ela o direito de acesso a uma série de outros auxílios, como o Alimentação, que lhe dá o direito de se alimentar de maneira gratuita no RU (Restaurante Universitário), e Material Pedagógico, que custeia aos estudantes uma série de materiais a serem utilizados para fins acadêmicos.

Esses auxílios foram responsáveis por garantir a Kellin uma certa sensação de concretude durante o primeiro ano de faculdade. E fizeram com que ela pudesse se sentir segura para continuar os estudos. No início do ano seguinte, em 2020, ela se deparou com uma situação que fugia de seu controle e que poderia afetar sua permanência na universidade: a pandemia de COVID-19, na época ainda considerada uma epidemia, foi o fator responsável por fazer com que ela passasse a dividir seu tempo entre idas e vindas da casa de seus pais para a universidade. Em seus períodos longe de Santo Augusto, Kellin dedicava o tempo para produzir ciência, já que, assim como em muitas outras universidades públicas, a UFSM também manteve algumas pesquisas ativas durante a pandemia.

Essa adesão de Kellin à produção científica é um dos fatores que refletem na estimativa de que mais de 95% das pesquisas feitas no Brasil passam pelas mãos de jovens, que, assim como Kellin, não teriam condições de concluir seus estudos se não fossem assistidos pelos Núcleos de Assistência Estudantil de suas universidades. O engajamento científico também deu a ela a oportunidade de se tornar bolsista no PET (Programa de Educação Tutorial). Inicialmente, o valor estipulado para a bolsa era de R$ 400,00, mas com um novo orçamento em vigência, esse valor passou a ser de R$ 700,00 mensais, o que garantiu a Kellin um certo conforto após o período pandêmico.

Mesmo podendo contar com o valor dessa bolsa, Kellin não se sentia 100% segura quanto à manutenção do auxílio-moradia. “O governo estava querendo cortar gastos, então eu achei que ia perder o auxílio moradia. Aí eu decidi me candidatar para morar na CEU, porque aí pelo menos não preciso do auxílio, né?”. Essa insegurança não era infundada, pois em 2021 o orçamento destinado ao Ministério da Educação sofreu uma redução de cerca de 30%​, o que poderia causar uma série de carências nos repasses destinados às políticas de permanência. 

Evasão e Permanência

A evasão no ensino superior brasileiro é um desafio contínuo. Segundo o Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), a taxa de evasão no ensino superior alcançou 57% em 2023​​. Essa alta taxa reflete a precariedade de muitas instituições e a dificuldade que muitos estudantes enfrentam para conciliar estudos e trabalho. Entre os fatores que mais contribuem para a evasão estão a necessidade de trabalhar para sustentar a família e a falta de apoio financeiro adequado durante o período acadêmico. 

Um estudo realizado pela UFSM em 2023 mostra que a evasão está diretamente relacionada a fatores econômicos. Por isso, estudantes com renda familiar baixa ou sem apoio financeiro têm maior probabilidade de abandonar os estudos. Aqueles com renda individual ou familiar abaixo de um salário mínimo e meio per capita, como os beneficiários do BSE (Benefício Socioeconômico), são os mais vulneráveis a essa realidade e os que se apresentam em maior número quando analisamos as características socioeconômicas por trás das evasões.    

Porém, para além apenas de evitar a evasão e visar a permanência dos estudantes nas universidades, algumas iniciativas funcionam de maneira a encorajar os acadêmicos a buscarem conhecimentos para além da sala de aula. Na UFSM existem diversas possibilidades que funcionam como meios de manter os alunos interessados e envolvidos com seus cursos e futuras profissões. A mobilidade acadêmica internacional é uma dessas possibilidades que encorajam os alunos a buscarem qualificações e por consequência se manterem ativos durante a graduação, evitando assim que eles se desinteressem ou que desistam dos cursos por falta de perspectiva na área.

Kellin faz parte do grupo de estudantes que buscam ampliar seus conhecimentos por meio de intercâmbios. No primeiro semestre de 2023, ela embarcou rumo à Argentina, com o auxílio de mil reais recebido da UFSM e com a garantia de que a universidade destino iria custear sua estada lá, oferecendo-lhe moradia e comida. “Todo mundo foi muito prestativo, se eu precisasse de alguma coisa, eles estavam lá dispostos a me ajudar para o que fosse, por isso que consegui ir”.

As histórias de Kellin e Werick se entrelaçam com as de milhares de brasileiros que buscam, através dos estudos, uma vida mais digna e próspera. A presença dos auxílios e subsídios nas universidades federais são capazes de garantir a permanência de diversas pessoas no ensino superior, e para além disso, também permitir que eles se dediquem exclusivamente aos estudos, para que assim apresentem um bom rendimento acadêmico e um maior engajamento com as pesquisas realizadas pela universidade.

Os cortes no orçamento da educação pública, especialmente os de 2021, colocaram em risco a permanência de muitos estudantes de baixa renda nas universidades. A redução de verbas afetou significativamente a oferta de auxílios, como o auxílio-moradia e bolsas de pesquisa. Essa situação gerou um clima de incerteza e preocupação entre os alunos que dependem desses benefícios para continuarem seus estudos. Se não fossem pelos auxílios, a história de Kellin seria muito diferente. Quando seu pai a trouxe para a universidade, conversou com o dono da pensão onde ela ficaria, mencionando que se ela não conseguisse um emprego ou uma bolsas em dois meses, ela teria que voltar para Santo Augusto, pois a família não teria condições de mantê-la ali.

Essa conversa entre o dono da pensão e seu pai só veio a tona na reta final da graduação de Kellin, por isso ela nos conta essa história com certo tom de dever comprido e gratidão a todas as possibilidades encontradas dentro do ensino superior. “Quando eu consegui os auxílios, e deu tudo certo, o dono da pensão veio falar comigo. Ele disse que se eu tivesse ido embora nos dois meses que meu pai falou eu teria perdendo uma grande oportunidade. Mas eu entendo que por mais que pai quisesse  que eu fizesse a graduação, ele não tinha condições de me bancar aqui.”

As trajetórias de Kellin e Werick são exemplos vivos da importância dos auxílios e subsídios nas universidades públicas brasileiras. Eles demonstram como essas políticas de assistência estudantil são essenciais para garantir o acesso e a permanência de jovens de baixa renda no ensino superior. Além de proporcionar condições para que esses estudantes possam se dedicar integralmente aos estudos, os auxílios contribuem para a formação de profissionais qualificados e para o avanço da pesquisa científica no país. A história de Kellin, em particular, ressalta o impacto transformador que esses auxílios podem ter na vida dos estudantes, permitindo que sonhos sejam realizados e futuros sejam construídos.

FREDERICO WESTPHALEN, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/27/exaustao-invisivel Wed, 27 Nov 2024 16:32:35 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=418

O esgotamento físico e emocional das mulheres é despercebido e naturalizado há anos.

Texto e foto: Mabel da Rosa

Era início do ano letivo e eu estava mudando de apartamento. Minha rotina voltaria ao normal em três dias, imaginava. Mas eu estava carregando um cansaço imenso de lidar com contratos, viagens, namoro e um novo semestre da faculdade. Eu e meu namorado nos mudamos e fomos dividindo as tarefas, seguindo assim por um mês inteiro. Na primeira semana, com a volta das demandas, a minha cabeça não parava. Eu pensava na faculdade enquanto organizava as coisas, e na montagem dos móveis enquanto estava nas aulas. A exaustão já tomava conta de mim. 

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem cerca de 104 milhões de mulheres no Brasil. Os dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que elas são 51,5% da população do país. O estudo Esgotadas, da organização não governamental Think Olga, que aborda empobrecimento, sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres, fez um relatório sobre as áreas da vida delas, e concluiu que nenhuma está minimamente satisfeita em nenhuma área da vida.  

Ninguém nasce mulher, e sim torna-se mulher, nos mostram os estudos feministas. É uma construção que se dá em meio aos desafios da vida. A transição mental e física da infância para a pré-adolescência traz inúmeras mudanças, assim como a fase de menina para mulher, que gera grande impacto, e para muitas, um impacto assustador. 

Essa idade, geralmente, traz o aumento de responsabilidades, da pressão, e uma rotina que leva ao cansaço. Os compromissos surgem todos os dias e só aumentam. A pressão social e a ansiedade parecem ser companheiras para lidar com as provas da escola e da faculdade, para cuidar de uma casa, para se manter estudando, para ter um trabalho. Além disso, vigiar a saúde e o bem estar da família, função historicamente atribuída  às mulheres. 

É comum que a sociedade responsabilize o sexo feminino por vários papeis, dentro de um estereótipo do que cabe e do que é ser mulher. Dona de casa, casada, que cuida do lar e dos filhos. É quem lava a louça, a roupa, alimenta as crianças, assim como quem trabalha fora, chega em casa à noite e brinca com enfrenta a jornada interna do lar, mesmo com o estresse e o cansaço de um dia que já foi cheio.

Desde a infância, as mulheres são cobradas sobre como se portar e o que fazer, como que destinadas a determinadas funções. A necessidade de repesar estas questões já apareceu até como tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2023, o Exame solicitou uma redação sobre o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil. Uma realidade presente na maioria das famílias brasileiras, mas invisibilizada. Nos últimos dez anos, o país testemunhou um acréscimo de 1,7 milhão de mães que assumiram a responsabilidade exclusiva pela criação dos filhos, sem a colaboração dos pais. 

CANSAÇO MENTAL 

Em 2019, a Síndrome do Burnout faz parte da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Desde lá, muitas pessoas passaram a identificar com mais clareza os episódios de  sobrecarga que já tinham ou tiveram. Burnout é uma alteração psíquica provocada por exaustão extrema e diretamente relacionada ao ambiente de trabalho. Por isso, ela é conhecida também como a “síndrome do esgotamento profissional”, que tende a surgir devido ao acúmulo de estresse.

A estudante Camila Fagundes de Lima, 20 anos, desde criança teve o sonho de ser médica. Desde 2022, vem se preparando para ingressar na faculdade. No primeiro ano de cursinho, ela não conseguiu ser aprovada. Foi um choque de realidade. Havia mudado de cidade, de casa, e de vida para conquistar o objetivo. Tentou recuperar o tempo perdido estudando até dez horas por dia. A crença de que precisava dar conta do conteúdo era grande ao ponto de não se permitir descansar, até mesmo quando estava passando mal. Como a demanda do cursinho estava muito pesada, a ansiedade chegou em um nível muito maior do que imaginava, resultando em um problema gástrico.

Eu parecia que estava dando tudo de mim e não conseguia ver resultado. Em algum momento, quando dava uma evoluída, baixava de novo [no resultado das provas]. Estava muito difícil e eu comecei a ver que eu não estava buscando auxílio médico, porque eu estava nessa coisa de ‘não posso perder tempo’. Estava acontecendo de eu me sentir muito mal. Era o meu corpo dando sinais do estava acontecendo com a minha parte mental. Minha psicóloga me falava disso em todas as sessões”, relembra. 

Muitas meninas se veem na obrigação de dar uma melhor condição de vida para si e para a família. Elas lutam por isso todos os dias, e mesmo seu cansaço sendo desvalorizado e diminuído, dar um futuro melhor para a família é indispensável, ou ao menos imprescindível retribuir todo o esforço empenhado por anos nelas. 

As mulheres ainda assumem a maior parte das responsabilidades domésticas, mesmo quando trabalham fora de casa. Em muitas famílias, elas são as principais cuidadoras dos filhos, o que pode envolver desde atividades diárias até a gestão de todos os compromissos escolares e de saúde.

Bianca*, 26, tem um filho de três anos. Mãe, filha, e responsável pelo lar, concilia os outros compromissos que a vida exige, batalhando por seus objetivos todos os dias. Ela conta que nos primeiros meses de vida do filho, a prioridade era ele. Qualquer roupa estava boa, qualquer calçado, um coque no cabelo e nada mais. O importante era a criança estar bem, bem vestida: “Quando tu é mãe, tu esquece que é mulher”, comenta.

Mãe aos 23 anos, ficou grávida no período da pandemia do Covid-19, em 2020. Assim, atividades “normais”, como caminhar ao ar livre, acabaram restritas em alguns momentos pelo contexto sanitário. Bianca foi uma das pessoas afetadas pela falta do convívio social e ficou deprimida, pois estava isolada, gerando uma criança, sem ter contato com o mundo lá fora. Além disso, estava cursando uma graduação da qual não gostava. Decidiu trocar de curso e reiniciar do zero. “[Naquele momento] Tu só pensa na criança, só vive pela criança. Depois, eu não sabia voltar a ser eu”, reflete. Recorda que se sentiu perdida, sem olhar para si e para a sua condição mental. Em uma consulta com sua a psicóloga, a básica pergunta sobre o que ela gostava, ficou sem respostas. Percebeu que seus gostos eram os de outras pessoas, principalmente do filho. 

O relatório Esgotadas indica que 45% das mulheres brasileiras têm um diagnóstico de ansiedade, depressão, ou outros tipos de transtornos mentais, especialmente decorrentes do contexto pós-pandemia de Covid-19. A maioria desses sintomas foram acarretados pelo isolamento, pelo medo, pelo luto, pela insegurança financeira e pelo sentimento de incerteza. Segundo a pesquisa, 68% dos casos de ansiedade foram registrados em mulheres, com destaque para as faixas de 20 a 40 anos para depressão, e de 15 aos 40 anos para ansiedade. 

CASA, REFLEXO DA MENTE

Três das quatro entrevistadas para esta reportagem relataram que a carga de limpar e organizar a casa recai nelas, mesmo morando com outras pessoas. Maitê*, 29, microempreendedora, também foi mãe jovem. Na chegada do filho, hoje com cinco anos, ela passou a conviver com a culpa por não ter conseguido amamentar. A sobrecarga mental e física com a nova rotina de uma criança recém nascida, mais as demandas de cuidar da casa e do casamento, pesaram. Sentia não conseguir se doar 100% em todos os afazeres: “Nasce uma mãe, nasce a culpa”, desabafa.

Querer abraçar o mundo cansa, mas nem sempre é só o físico, é um cansaço mental. Estudos confirmam que a carga do trabalho e do estudo esgotam a energia das pessoas, causando estresse e irritabilidade mais frequente, geralmente em mulheres. Segundo pesquisa da plataforma Vittude, mantida por psicólogos e voltada a pessoas que procuram uma terapia mais acessível, 10,4% das mulheres enfrentam níveis graves ou extremamente graves de estresse, um índice mais alto do que o observado nos homens. No âmbito da saúde mental, essa disparidade persiste, principalmente nas crises de ansiedade severa que seguem em maior proporção entre elas (15,72%). E na realidade da mulher brasileira, chegar em casa significa roupa a ser estendida, comida a ser preparada, cadernos e deveres dos filhos para serem revisados, além das demandas por atenção e cuidado das crianças. A mulher olha para tudo à sua volta, menos para sua condição mental.

SOBRECARREGADAS

Ao longo da história, o imaginário sobre a mulher foi sendo imposto por achismos e construções machistas da sociedade. O feminino esteve associado às bruxas ou à pessoas maléficas, carregando inúmeros adjetivos pejorativos e depreciativos. O feminino era sempre o errado e inadequado. Excluídas por séculos dos ambientes de trabalho fora de casa, muitas abandonaram os negócios familiares por falta de espaço. Eram taxadas de incapazes de ocupar papeis de liderança e de destaque por uma pretensa instabilidade mental. Por muito tempo não puderam votar, decidir sobre questões financeiras e do seu próprio corpo. Até hoje, os reflexos disso fazem com que as mulheres sejam consideradas menos capacitadas do que homens. 

De acordo com o relatório Women in the Workplace 2022, da McKinsey & Company, um estudo com uma das centenas de empresas participantes, mostra que a promoção de um nível básico para cargos gerenciais é majoritariamente masculina. No geral, 60% dos gestores analisados eram homens. Os homens superam significativamente as mulheres no nível gerencial, e elas nunca conseguem alcançá-los. “Há simplesmente muito poucas mulheres promovidas a cargos de liderança sênior”, diz a pesquisa. 

A carga mental ainda é agravada por uma expectativa social de que toda mulher veio ao mundo para casar e ser mãe. O roteiro ainda inclui, no caso do trabalho fora de casa, uma boa carreira profissional. E, nos espaços em que atuam, devem atender aos padrões estereotipados, ou seja, se portar como a sociedade espera. E se calar.

Maitê percebeu isso. Ela é a filha mais velha de três irmãos. No relato, lembra da mãe, que teve um casamento marcado por momentos difíceis. Mesmo assim, seguiu em frente porque, afinal, tinha uma casa, um marido e três filhos para cuidar. Quando Maitê se viu seguindo os mesmos passos da mãe, percebeu que era hora de terminar o relacionamento e preservar o filho, podendo cuidar melhor dele.

VOCÊ DORMIU ESSA NOITE? 

Algumas mulheres passam por estresses contínuos que são um desafio significativo para a saúde do sono. É o caso de Bianca. Ela acorda todos os dias por volta das 5h da manhã. Concilia faculdade, trabalho e família. São quatro percursos de ônibus para os dois empregos em cidades diferentes. Só vê o filho à noite, na volta para casa. Hoje, aproximadamente 15% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres mães, que enfrentam uma jornada solo. 

Segundo um estudo publicado na revista Sleep Epidemiology, 65,5% dos brasileiros têm sono de má qualidade e dormem de 6,5h à 7,7h por noite. Gislaine conta que quando virou mãe, não conseguia dormir durante uma noite inteira. “Tu fica preocupada com a criança. Ela dá uma mexida, tu já desperta. Não se dorme, tu não relaxa”. 

A sobrecarga consome as mulheres. Elas acabam deixando de lado seus sonhos e seus desejos. Muitas abandonam projetos pessoais, trabalho, formação. No correr diário, repleto de tarefas que não são só nossas, mas que realizamos sozinhas, esquecemos do principal, nós mesmas. Perceber-se vulnerável é um ato de coragem, para o qual não fomos educadas. A sociedade nos dize que se abalar, se frustrar é ser fraca e incapaz. Poderia dizer que somos parecidas por lutarmos pelos mesmos direitos. Mas não somos. Talvez hoje, sejamos mais parecidas por carregar a mesma sobrecarga e a mesma exaustão, fingindo estar tudo bem. Mas seguimos fortes, porque precisamos ser. 

*Nomes fictícios.

FREDERICO WESTPHALEN, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/11/26/chuva-sol Tue, 26 Nov 2024 15:07:57 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=409

Pequenos agricultores nos contam sobre as transformações no clima.

Texto e foto: Caroline Schepp

O início do dia na casa dos meus pais é sempre igual. Meu pai, Leandro Schepp, acorda às 5 da manhã, prepara o chimarrão, e logo chama minha mãe, Maristela de Fátima Schepp. Eles assistem o telejornal estadual para saber a previsão do tempo e planejar como será o dia. Depois, vão ordenhar as vacas e cuidar dos outros animais da propriedade. Quando viajo para casa deles nos finais de semana, em Braga (RS), sempre tento acordar cedo e ajudar na ordenha.    

Em um desses dias, resolvi fotografá-los no galpão, enquanto ordenhavam as vacas e tomavam chimarrão, companheiro de todas as horas. As fotos ficaram muito boas, minha mãe sorrindo com a cuia na mão, meu pai na lavoura, observando os buracos que as fortes chuvas fizeram na terra. Foi nesse momento que resolvi conversar com eles sobre como estavam enfrentando as alterações que temos percebido no clima. As mudanças climáticas estão afetando a produção leiteira na propriedade? 

Você deve saber que, desde junho de 2023, o Rio Grande do Sul está enfrentando eventos extremos, com um grande volume de chuvas, decorrentes da intensidade da ação do fenômeno El Niño. Apesar desse fenômeno ser natural, ele foi mais intenso agora, sob influência das mudanças climáticas. O resultado, aqui no estado, foram enchentes nos meses de junho, setembro e novembro de 2023 e em maio de 2024. 

Clima e leite

As fortes chuvas que vêm afetando o estado trouxeram prejuízos graves para a agricultura familiar. Cerca de 420 famílias sem terra, assentadas em várias regiões do Rio Grande do Sul, foram atingidas. Os estragos não afetaram somente os lares, foram muito além, impactando a produção de alimentos, instalações, equipamentos e a vida de animais.

A pecuária leiteira, que está em 80% das propriedades agrícolas familiares do Brasil, também foi atingida, com uma vasta extensão de pastagens prejudicadas e perda de animais. Além dos bovinos de leite e de corte, aves, suínos, peixes e abelhas foram perdidos. O Relatório de perdas referente à calamidade climática, que atingiu o Rio Grande do Sul, em maio deste ano, elaborado pela Emater/RS-Ascar (Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural), prevê um impacto direto na produção de leite e de carne nos próximos meses.

Meu pai, o agricultor Leandro Schepp, 46 anos, do noroeste do estado, me contou que nos últimos meses, com as adversidades climáticas, a produção de leite diminuiu cerca de 30%. Além disso, o aumento de preços nos alimentos para os animais, e também nos insumos, somado à instabilidade nos preços pagos aos produtores, e a concorrência com produtos importados, são alguns dos desafios que ele e grande parte dos agricultores familiares, que trabalham com a produção e comercialização de leite, vêm enfrentando. 

Segundo a pesquisadora Gizelli Moiano de Paula, do Departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais da UFSM/FW (Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen), existe um consenso entre pesquisadores que os efeitos das mudanças climáticas vêm intensificando fenômenos como  El Niño e La Niña. O El Niño é um fenômeno natural que provoca o aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico na sua porção equatorial, provocando, no Brasil, secas prolongadas e calor na região Norte e Nordeste e chuvas intensas e volumosas no Sul. Já o La Niña, gera secas severas e muito calor no Sul e chuvas torrenciais no Norte e Nordeste.

Com áreas de atuação em agrometeorologia, modelagem agrícola e estudos de séries históricas de dados meteorológicos, Gizelli diz que as mudanças climáticas e a variabilidade climática afetam significativamente a agricultura familiar, tanto nas culturas agrícolas como na criação de animais, impactando diretamente a produtividade e a renda dos agricultores. As altas temperaturas podem reduzir a produção de leite, pois afetam o bem-estar animal.

Maristela em seu trabalho com produção leiteira.

Produção agroecológica 

Além de conversar com meus pais sobre como as mudanças climáticas estão afetando a agricultura familiar, falei com Ibanez Gonçalves, 53 anos, e com a família dele. Eles são agricultores agroecologistas de Vicente Dutra (RS). Segundo Ibanez, nos últimos três anos é perceptível a instabilidade dos fenômenos climáticos naturais, como as chuvas e o calor, que acabam prejudicando a produtividade na propriedade. Apesar de cultivarem palhada para a cobertura do solo, que evita a erosão, além de não praticarem ações que revolvem a terra, a família vem notando queda na produção. Uma das estratégias de Ibanez para a adaptação às mudanças climáticas é a implementação do sistema agroflorestal na propriedade. 

A agrofloresta é um sistema de produção que imita o que a natureza realiza habitualmente, dispensando o uso de agrotóxicos. No sistema, encontramos um solo coberto pela vegetação, várias espécies de plantas juntas, uma mistura de culturas anuais, árvores perenes, frutíferas e leguminosas, além da criação de animais, e a própria família vivendo nessa mesma área. 

Ibanez ainda conta que na produção agroecológica, com todas as transformações que vêm ocorrendo no clima, é cada vez mais difícil ter um planejamento para plantar. Dessa forma, o produtor está realizando o cultivo de várias espécies em diferentes épocas do ano e observando em qual há maior produção. 

 

O agricultor Leandro Schepp observa os estragos que as fortes chuvas causaram na lavoura.

Apoio a Agricultura Familiar 

Conversando com meus pais e com Ibanez, quis saber sobre o apoio técnico que recebem como agricultores familiares. “Nós temos acesso ao apoio técnico oferecido pela Emater do município, mas não temos incentivo financeiro para desenvolver estratégias para nos adaptarmos às mudanças climáticas, por exemplo, áreas de irrigação para os períodos de estiagem”, relatou, Leandro. 

A Emater é uma instituição pública que oferece serviços para agricultores, principalmente os pequenos e os produtores familiares. A missão da organização  é promover o desenvolvimento rural sustentável e melhorar a qualidade de vida dos agricultores e de suas comunidades.

Ibanez Gonçalves tem uma situação diferente. Ele e a família recebem assistência de técnicos de uma rede certificadora e do Senar-RS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), que trabalham com o planejamento dentro da produção orgânica. Além disso, informam sobre possíveis tendências na agricultura e as mudanças que estão acontecendo no clima. “Nós vamos nos adaptando com culturas, variedades diferentes, mudando um pouco a forma de fazer para nos adaptarmos. Mas no caso das chuvas em excesso, não temos como fazer um planejamento”, explica Ibanez.

Além da Emater, existem outras instituições e políticas públicas que visam o apoio à agricultura familiar. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária), por exemplo, é voltada à inovação, com o objetivo de gerar conhecimentos e tecnologias para a agropecuária brasileira. Além disso, o Brasil tem sido reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) pelo apoio à agricultura familiar. Atualmente, existem quinze políticas públicas voltadas ao setor, entre elas o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), Pnater (Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). 

O PRONAF é uma das políticas públicas de maior relevância para a agricultura familiar. Criado em 1995, tem como objetivo fortalecer a agricultura familiar por meio de financiamento subsidiado de serviços agropecuários e não agropecuários. Além disso, garante a diversificação de atividades agrícolas nas propriedades familiares, possibilitando o empreendedorismo através da agroindustrialização de alimentos produzidos pelos agricultores. Com esse programa, a agricultura familiar adota práticas conservacionistas, visando uma produção ambiental, econômica e socialmente sustentável.

A Pnater foi concebida para promover o desenvolvimento sustentável com uma abordagem ampla. Ela enfatiza métodos participativos e a construção coletiva do conhecimento, seguindo os princípios da Agroecologia. A Pnater respeita as identidades dos agricultores familiares e das comunidades tradicionais, valorizando o potencial interno dessas comunidades. Ela também busca resgatar e integrar os conhecimentos tradicionais, incluir enfoques de gênero, geração, raça e etnia, e priorizar os grupos historicamente mais excluídos dos processos de desenvolvimento.

O PNAE visa garantir a oferta de alimentação adequada e saudável aos alunos da rede pública de ensino. O programa foi instituído em 1955 e, ao longo dos anos, passou por várias atualizações e melhorias para atender às necessidades nutricionais dos estudantes e contribuir para o desenvolvimento biopsicossocial dos alunos. Priorizando a compra de alimentos variados e saudáveis, incluindo produtos da agricultura familiar, o que também incentiva a economia local e a produção sustentável, é um dos maiores programas de alimentação do mundo. 

Com o desastre ambiental que o Rio Grande do Sul sofreu neste ano, medidas foram tomadas para ajudar os agricultores familiares, como o prolongamento de dívidas e das parcelas do crédito rural.

O Governo Federal, por meio do PRONAF, abriu um crédito especial de 600 milhões de reais, com 120 meses para pagar, três anos de carência e um desconto de 30%. Para ajudar a agroindústria familiar, principalmente os produtores de queijo e derivados, o Ministério da Agricultura e Pecuária, liberou por 90 dias, a comercialização interestadual de produtos de origem animal do Estado.

Leandro e Maristela conversam. Na foto, os alimentos produzidos na propriedade para o consumo familiar.

Perspectivas futuras

Leandro e Maristela buscam um pouco de esperança para continuarem com a produção de leite. “É muito difícil pensar em continuar na atividade leiteira, com os preços pagos para nós muito baixos, falta de incentivo, às mudanças no clima. Continuamos aqui, mas o cenário é desanimador,” relatou Maristela. 

Para o futuro na agricultura familiar, meu pai vê que é necessário planejamento na produção. “Quando produzir alimento para o gado, por exemplo, armazenar o quanto puder para ter sempre uma reserva e estar preparado para possíveis períodos de estiagem”, concluiu Leandro. 

Ibanez olha com apreensão, insegurança e incerteza para o futuro da agricultura familiar. O agricultor me contou que apesar de trabalhar com a diversidade de culturas e estratégias de adaptação na propriedade, há uma preocupação muito grande em relação à produção de alimentos no futuro. Com os eventos climáticos que estão acontecendo, Ibanez diz que os governantes não estão oferecendo respostas imediatas, além de não existir um compromisso com o meio ambiente.

Compartilho dos mesmos sentimentos de meus pais e de Ibanez em relação ao futuro do pequeno agricultor. Há uma desvalorização muito grande da agricultura familiar. São inúmeras as dificuldades enfrentadas pelos produtores, entre elas, falta de assistência técnica, de boas estradas para realizar a comercialização dos produtos, instabilidade nos preços pagos aos agricultores e custos de produção muito altos.

Atualmente, no Rio Grande do Sul, segundo a Emater/RS-Ascar, 48.674 produtores de grãos, grande parte de milho e soja, foram prejudicados. Mais de 19 mil famílias tiveram perdas referentes às estruturas das propriedades rurais. Cerca de 200 agroindústrias foram atingidas. Na pecuária, as perdas de animais afetaram 3.711 criadores gaúchos, além disso, uma vasta extensão de pastagens foi prejudicada. Os citros e a banana, foram as culturas mais prejudicadas e o abastecimento de hortaliças nos centros urbanos foi fortemente afetado. Os agricultores estão buscando se reerguer e se adaptar ao cenário atual. 

BRAGA, RS
VICENTE DUTRA, RS

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/futebol-raiz Thu, 31 Oct 2024 18:05:33 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=379

Do interior às capitais, campeonatos amadores reúnem apaixonados pelo esporte.

Texto: Fillipe Orlando

Ilustração: Raquel Teixeira Pereira

 

Neste exato momento, em algum lugar do Brasil, há uma partida de futebol sendo disputada, faça frio, calor ou chuva. E em cada lugar, essa paixão ganha um nome: varzéa, baba, peleja, rachão e, o mais famoso deles, pelada.

O futebol amador sempre foi uma grande potência em todo Brasil. É também um meio de atrair olhares do mundo futebolístico profissional, abrindo a chance de um jogador chamar a atenção de clubes de maior expressão. Profissional ou amador, toda partida é levada a sério.

O secretário de esportes de Rodeio Bonito (RS), Luan Oliveira, 31 anos, organiza campeonatos no município: “É muito importante incentivar o esporte, aprender a competir. E a gente consegue revelar jovens para o Brasil, para o mundo”, destaca ao relembrar o caso do Pedro Perotti, “que cresceu jogando bola conosco e hoje está na Chapecoense [time de Santa Catarina]. Já jogou no Japão, em Portugal”.

Muitos estados têm competições de futebol amador. No Estado, a Copa RS; em São Paulo, a Taça das Favelas, precedida pela Federação Paulista de Futebol Amador, que permitiam às equipes classificadas o direito de jogar a final no estádio do Pacaembu, local onde nomes como Pelé, Ronaldo Fenômeno e Romário já jogaram.

Na região norte do país, o Peladão movimenta o futebol amador há mais de cinco décadas. Neste ano, congrega mais de 400 equipes, divididas em quatro categorias: feminino, principal, master e peladinho. A cada edição, mais de 20 mil pessoas estão diretamente envolvidas, jogando ou atuando em outras frentes. É o maior campeonato amador do Brasil. Em 2010, teve 1211 times participantes, um recorde. Em 2009, o Peladão contribuiu para que Manaus (AM) fosse uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014.

 

Crias da Varzéa

Para o Secretário de Esportes de Caiçara (RS), Elias da Rosa, 47 anos, o que chama a atenção das pessoas para assistir às competições é a rivalidade local e a emoção, além da chance de ver talentos emergentes em ação. Elias destaca também “o senso de comunidade que elas geram”.

Muitos jogadores famosos iniciaram nesses campeonatos. Um exemplo é o atual atacante do Flamengo, Bruno Henrique, campeão da Copa Itatiaia,  em Minas Gerais, em 2012, que foi depois para o Real Madrid, na Espanha. Leandro Damião é outro. Em 2006, aos 17 anos, o atacante ganhava 30 reais por jogo para defender o Nós Travamos, time do Jardim Ângela, em São Paulo. Em 2009, assinou com o Sport Clube Internacional, de Porto Alegre (RS). Dois anos depois, foi o artilheiro do ano no Brasil. Outro exemplo é Edinaldo Batista Libânio, o Grafite. Aos 21, jogava em times amadores de Campo Limpo Paulista (SP) e de Várzea Paulista (SP). Aos 22, entrou para o futebol profissional, defendendo a Matonense. Passou por Santa Cruz, Grêmio, Goiás, São Paulo e Wolfsburg da Alemanha. Pela Seleção Brasileira, disputou a Copa do Mundo de 2010.

 

Esporte comunitário

Em Jaboticaba (RS), a Copa Adrenalina reúne equipes da cidade e da região. O organizador é Vitor Botton, 30 anos. “Acho que [a Copa Adrenalina] é o melhor passatempo dos habitantes daqui. É o maior evento do município em arrecadação financeira e participação de público, quatro mil pessoas, no decorrer da competição, que dura de dois a três meses, nas quintas-feiras à noite e nos domingos à tarde, com direito a almoço para garantir a diversão no evento.

Na região do Médio Alto Uruguai, há competições intermunicipais, como a Copa Amzop. Quando não há parceria com prefeituras, os campeonatos se organizam por conta própria e algumas pessoas cumprem mais de uma função. É o caso do secretário de esportes de Novo Tiradentes (RS), Volnei Alexandre, 38 anos, jogador e organizador. “Os campeonatos do interior são importantes porque reúnem as pessoas, alimentam amizades, movimentam as famílias e a economia”, explica. Sobre a experiência como atleta diz se sentir “parte de uma história, integrado com a comunidade”.

O secretário de esportes de Erval Seco (RS), Juliano Pilger do Amaral, 38 anos, acredita que os campeonatos amadores nunca deixam de empolgar. “É uma mistura de competição saudável, diversão em família e comunhão entre vizinhos. Une gerações e fortalece os laços comunitários”, afirma.   O

 

Caiçara (RS) / Erval Seco (RS) / Jaboticaba (RS) / Novo Tiradentes (RS) /  Rodeio Bonito (RS)

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Revista Meio Mundo-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/2024/10/31/erva-mate Thu, 31 Oct 2024 18:01:45 +0000 http://www.55bet-pro.com/midias/experimental/meio-mundo/?p=307

Uma riqueza da terra sorvendo o resultado da cultura, da economia e da sociabilidade do homem.

Texto e Fotografia: João Vicente Custódio Magalhães

A erva-mate, para o gaúcho, faz parte de uma tradição carregada e transmitida de mão em mão; é una vieja companheira, produzida e comercializada em qualquer estação. Assim, se mistura com o sal da peonada que mantém ainda em pé essa ancestral produção; e, que no fim, vira uma seiva quente, correndo pelo campo, pela carne e em cada vertente, seja no Uruguai, Paraguai, Argentina ou Brasil.

A Erva-Mate se tornou mais que uma planta para nós, andarilhos do cone sul latino-americano. Virou lenda e até ingrediente de receita culinária. Porém, desconhecemos o trajeto da erva até chegar ao pacotinho fechado nas estantes de supermercado, principalmente no Brasil, o maior produtor sul-americano de erva-mate (concentra sua produção nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul). Também não conhecemos a identidade de um pé de erva-mate, nem a tradição que ronda as rodas de chimarrão, muito menos o que se passa na mente de alguém que ceva um amargo solito. Portanto, te aprochegue…

 

Que tal um mate?

O mate – ou chimarrão – é a principal forma de ingerir a Ilex paraguariensis (nome científico da erva-mate). E assim como nós, ela também é nativa dessa região que agrega o oeste do RS, de Santa Catarina e do Paraná, como também o Paraguai e o norte da Argentina. Constrói, assim, uma relação próxima das pessoas com o território, uma planta que faz qualquer vivente com saudade da terra ter um pedaço dela sorvido em cada casa ou galpão.

Essa relação remonta aos indígenas e as antigas reduções jesuíticas, mesmo os padres não obtendo sucesso na proibição da erva-mate. Foi nas reduções que o processo sistemático de extração da erva-mate iniciou, dando partida na história da vasta produção e de consumo atual na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e no sul e centro-oeste do Brasil.

 

Riqueza além da plata

Atualmente, outras plantas dominam essas bandas. Por exemplo, o Rio Grande do Sul é o quarto maior produtor de soja dentre as unidades da federação, superado pelo Mato Grosso, Goiás e Paraná. De acordo com o IBGE, o Estado produziu 13,7 milhões de toneladas em média em 2020-22, mostrando um aperto no ramo da erva-mate no mercado atual.

O Brasil é o maior produtor de erva-mate, tendo o Paraná com 46% da produção nacional, com 261.016 toneladas por ano no período de 2020-22. Em seguida o RS, contribuindo com 39%, produzindo 222.344 toneladas por ano e consumindo 1,2 kg per capita, conforme a pesquisa Dinâmicas de produção e comercialização da erva-mate no Rio Grande do Sul, de Abitante, de 2007.

Por isso o mate foi reconhecido como a bebida oficial do Rio Grande do Sul e símbolo nacional da Argentina. Segundo o governo hermano, o país consome uma média de 6,4 quilos de erva-mate ao ano por habitante, contrapondo o Brasil.

A tradição da erva-mate data de mais de mil anos antes da Era Cristã, sendo consumida e produzida em larga escala desde as tribos indígenas até hoje. 

 

Papel do ervateiro

A extração da erva iniciou com os nativos, sendo industrializada pelos colonizadores, que modificaram esse processo, dando vida, assim, à figura do ervateiro e à uma nova produção, que se inicia pela colheita (normalmente os ervateiros vão em matas profundas ou em plantios de erva-mate e podam vários ramos que são transportadas), indo ao sapeco (tem o intuito de desidratar as folhas, passando-as levemente pela labareda), para, então, ir à secagem (término da desidratação das folhas) que pode ser feita por meio do carijo ou pelo barbaquá; finalizando com o cancheamento ou moagem (trituração das folhas feita pelo soque)

Em qualquer forma de consumo, seja mastigando as folhas igual aos índios charruas faziam no Uruguai; ou bebendo o mate ou o tereré (comum no centro-oeste do Brasil), que passam por esse processo para serem fabricados, as funções da erva no organismo ainda são as mesmas: a eliminação da fadiga, ser uma bebida diurética e auxiliar na digestão. Além disso, no passado, a erva-mate foi objeto de adoração pelos indígenas, como também moeda de troca entre comerciantes, segundo Glênio Fagundes no livro Cevando Mate, de 1986.

 

A ERVA-MATE EM OUTRAS BANDAS

Antigamente, como o transporte era feito por tração animal, ele era lento; assim cada jornada de tropeiro virava uma epopeia. Esse contexto influenciou muito no gosto da erva. Por exemplo, o produto feito no Rio Grande do Sul demorava para chegar ao Uruguai; fazendo a erva ficar levemente mais amarelada, velha e amarga. Isso diversificou o consumo e as tradições em cada lugar.

◊La yerba hermana: os argentinos costumam tomar mate quase sempre sozinhos. Lá, a erva, após acabarem de produzi-la, é conservada em um processo chamado de descanso, além de ser menos moída que a tradicional brasileira. O descanso se refere ao armazenamento da erva-mate a fim de preservá-la; deixando-a mais amarelada e mais amarga

◊A erva da banda oriental: os uruguaios também fazem o processo de descanso. Porém, ao contrário dos hermanos argentinos, eles separam as folhas dos palos (ramos de erva). Esse processo de moagem se chama “pura folha”

◊A erva tupiniquim: nós brasileiros aproveitamos tanto os ramos como as folhas da erva-mate, deixando-a mais suave, além de ingerirmos ela ainda fresca e com uma cor verde-vivo.

MOAGEM

◊Tradicional: todo o ramo da erva-mate é bem moído

Grossa: usa-se todo o ramo, pouco moída e com sabor mais forte e encorpado

◊Pura Folha: sem palos, usa apenas as folhas, sabor suave mas bem marcado

 

SECAGEM

◊Carijo: modo primário. Levanta-se um jirau que suspende os ramos por cima de um tapete de brasas. Leva, aproximadamente, sete horas até as folhas ficarem quebradiças

 

◊Barbaquá: modo mais usado pela indústria. O calor segue um caminho que parte do fogo a um quarto pequeno onde estão depositados os ramos suspensos. Leva por volta de 16 horas para ser concluído

A árvore de erva-mate

Bueno… mas e a árvore? Pertence à região subtropical da América Latina, seu tamanho assemelha-se ao de uma laranjeira e se desenvolve melhor em climas frios. Quando nativa, pode alcançar de seis a oito metros. Quando cultivada, apresenta cerca de três metros. O tronco apresenta uma casca lisa, um pouco rugosa e esbranquiçada; as folhas são perenes – não caem no inverno – com uma margem serrilhada; as flores são brancas e pequenas e o fruto tem formato de globo com uma coloração roxa-escura.

O pé encontrado na natureza, influencia no sabor da erva-mate. Segundo o professor Nilton Mantovani, da Universidade Federal de Santa Maria, a erva nativa cresce sobre a sombra de outras árvores, ou seja, um exemplar que sofre o processo de sombreamento – quando a planta não recebe tanta luz solar. Isso diminui o amargor característico da erva-mate tradicional, cultivada em campo aberto, recebendo mais luz solar: “Quanto mais sombreado, mais suave é o mate depois”, resume o professor.

 

Por trás da história…

Além de todo estudo, há uma mística por detrás. As lendas da erva-mate são exemplos disso. Uma delas conta que um velho guerreiro guarani, já pesado na idade, começou a sentir os freios que o tempo lhe guardava, restando-lhe apenas a companhia da filha, Yari. Certa vez, receberam a visita de um andarilho pedindo abrigo. Mui generosos, ofereceram sua hospitalidade.  Ao amanhecer, o estranho quis agradecer pelo apoio anunciando que era um enviado divino, propondo-lhes realizar qualquer pedido. Assim, o velho respondeu que se recordaria saudosamente do viajante, mas gostaria de ter um companheiro durante o silêncio causado por essas lembranças, que lhe desse a força e a amizade que sentia falta. O enviado divino entregou-lhes uma planta, chamada Caa. Prometeu que o líquido extraído dela seria um amigo silencioso, como também traria vigor ao velho e ao seu povo. O andarilho concedeu à Yari o título de Deusa da Erva-Mate. 

A ERVA É O TRATAMENTO, A CUIA A VACINA

Sobre o mate ser uma bebida sagrada, tu já sabes. Mas que a palavra “mate” se refere tanto ao nome da bebida como à “cuia” é algo ainda desconhecido para muita gente. O recipiente, a cuia, pode ser feito de muitos materiais, (porongo, madeira, alumínio, porcelana) e formatos, que influenciam no sabor e no aproveitamento da erva:

◊Galleta: cuia pequena em formato de bolacha

◊Tradicional gaúcha: formato do porongo tradicional. Em geral são grandes e com bocal largo

◊Coquinho: assim como a galleta, é mais usada no Uruguai, parece-se com o formato de um côco

◊“Getulinho”: Getúlio Vargas popularizou um formato de cuia único, o qual apenas ele usava na época

◊Guampa: feita da aspa de boi, usada para beber tereré

SAINT HILAIRE

Em 1823, o naturalista francês Saint Hilaire, em seu estudo Viagem ao Rio Grande do Sul, nomeou de Ilex paraguariensis a erva-mate

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Atletas de alto rendimento que brilham na seleção brasileira de atletismo.

 

Texto e Fotografia: Jéssica Thaís Hemsing

 
Atleta Camila realizando o lançamento do disco. Ao fundo, Cleison e Tainara.

 

Todos os dias, nas primeiras horas da manhã, seu João pedala com sua bicicleta na pista da Associação JBS de Itapiranga. O local está sempre movimentado, de trabalhadores à amantes do esporte. Quem transita por lá, como seu João, talvez não imagine que divide o espaço com atletas da elite do atletismo brasileiro. Camila Flach, 18 anos, e a prima dela, Tainara Mees, 19, compartilham o mesmo sonho: viver do esporte. Se manter no alto rendimento requer compromisso e muito treino, por lá, de segunda a sábado, são realizadas repetições incansáveis. Camila compete nas provas de campo, arremesso de peso e lançamento de disco, já Tainara disputa provas combinadas, o heptatlo.

Nascidas e criadas em uma cidade pequena, do extremo oeste de Santa Catarina, Itapiranga tem um pouco mais de 17 mil habitantes e faz divisa com a Argentina e o Rio Grande do Sul. Assim como em muitas cidades do país, em Itapiranga o esporte é muito praticado em diversas modalidades. No entanto, apesar da prática generalizada, a profissão de atleta não é muito comum. 

Cleison Back é o grande incentivador da dupla. Ele conheceu as atletas na escola onde trabalhava, quando as convidou para participar de um projeto do município voltado ao atletismo. Cleison percebeu que Camila e Tainara tinham potencial físico. O projeto começou em 2018, e os resultados chegaram no mesmo ano com Tainara, e no ano seguinte com Camila.

No início, tinham pouca infraestrutura, tudo era cuidadosamente planejado por Cleison para que pudessem, dentro de suas possibilidades, aprimorar seus treinamentos. No começo, o treinador se deslocava até a comunidade de Popi, interior do município, para realizarem os treinos em um campo. Camila e Tainara residem em Popi, e percorriam dois quilômetros de bicicleta para chegar ao local.

Conforme o tempo passou, os resultados foram justificando os investimentos realizados. Com os resultados positivos, surgiu a necessidade de um espaço maior e melhor. Inicialmente eram dois treinamentos por semana, que passaram a ser realizados seis dias por semana. Assim, foi estabelecida uma parceria com a Associação JBS, onde a equipe usufrui de uma pista de corrida. Com tudo isso, em menos de quatro anos, os três foram convocados para representar a Seleção Brasileira de Atletismo em competições nacionais e mundiais.

Atleta Tainara realizando o lançamento o dardo.

O caminho

Camila e Tainara sempre tiveram contato com vários esportes, mas a paixão pelo futebol está no sangue. A família toda é praticante. As duas contam que, antes mesmo de descobrirem as habilidades no atletismo, frequentavam escolinhas de treinamento de futebol. Camila sorri e conta que seu sonho era ser jogadora profissional de futebol: “Ainda bem que minha mãe não me deixou jogar bola” , reflete.

No decorrer dos treinos, mesmo já tendo conquistas relevantes, a escolha das provas era um assunto delicado. Camila sempre foi corredora, e foi na busca da sua segunda prova, em um dia de treino qualquer, que Cleison pediu para Camila arremessar o peso pois ela era “fortinha”. Foi nesse momento que Camila arremessou muito perto da marca campeã estadual do Jogos Escolares. Isso foi o suficiente para o arremesso de peso ser sua prova escolhida. Depois de alguns meses, Camila foi campeã brasileira no arremesso de peso, e, na mesma competição, foi segunda colocada no lançamento de disco.

Tainara transitou de provas de velocidade e salto em distância para o heptatlo, que é um conjunto de tudo. Ela conta que sempre tinha negação com a prova . “Heptatlo era uma prova que eu sempre falava que eu nunca na minha vida ia fazer, mas nunca, porque competir dois dias, fazer um monte de prova, fazendo a prova de fundo que é 800 metros, que é muito puxado, eu pensava nossa eu nunca vou fazer isso na minha vida. É, me lasquei”, ressalta com um sorriso no rosto. 

Treinador Cleison e atleta Tainara realizando o aquecimento.

A rotina

A vida de um atleta profissional é muito exaltada e pouco observada. De um lado, treinos diários. Do outro, cobranças insistentes. Camila e Tainara aumentam seus rendimentos a cada temporada, mas as cobranças também. Por disputarem modalidades individuais, a exigência interna está muito presente.

A preparação mental é necessária para um bom desempenho. Treinos, alimentação e descanso são os pilares que estão interligados no dia a dia. Cleison fala sobre a comparação que a sociedade determina entre as profissões. “Eu acho que o atleta precisa ser mais determinado ainda. Ele é atleta 24 horas por dia, porque aquilo que ele come, a quantidade que ele come, o tempo que ele dorme, a qualidade do sono, a qualidade do treino, o momento e as alterações hormonais das meninas interferem muito em todo o processo”, explica.

Hoje, Camila e Tainara contam com o apoio de fisioterapeuta, nutricionista e psicóloga. A importância desses acompanhamentos afeta diretamente o desempenho delas. A fisioterapia é indispensável para acompanhar os treinamentos intensivos, na precaução e tratamento de lesões. A nutricionista esclarece as linhas a serem seguidas para o melhor desempenho possível. Assim, enquanto esses fatores moldam o corpo, a psicoterapia molda a mente. É neste momento que as frustrações do trabalho (no atletismo) e da vida pessoal são conduzidas de maneira equilibrada e leve.

A psicóloga é o suporte principal para conduzir principalmente os momentos de adversidade, como lesões. Camila se lesionou durante uma temporada e fala com propriedade sobre a importância dessa profissional nesses momentos. “Tem que preparar tua cabeça e começar a recuperar mentalmente,  porque cabeça e corpo estão interligados, né? Então se a tua cabeça não estiver bem, tua lesão automaticamente vai ter um processo mais longo, tem que começar pelo psicológico mesmo”, relata.

A família

A família desempenha um papel fundamental na evolução de um atleta. É ela quem é o suporte para lidar com eventuais dificuldades, seja em competições ou no dia a dia. A família fortalece sua identidade, agregando autoestima e motivação para o esporte. Tainara conta que no início, o suporte familiar foi crucial. “Às vezes eu não queria treinar, mas meu pai falava, vai treinar sim”, relata. 

O apoio foi fundamental em todos os momentos, mesmo que muitas vezes tenha sido involuntário. Elas moram longe do local de treinamento, e por muito tempo quem fazia o transporte para que pudessem treinar eram os pais. Camila relembra a época em que eram menores de idade e não tinham liberdade de locomoção. “No começo, tanto os meus pais como os dela, levavam a gente todo dia. Era todo dia alguém indo para rua, deixando as suas coisas de lado para levar a gente para treinar”, ressalta.

A caminhada de quem vive do esporte é árdua. A cobrança por não estar presenciando de perto passos importantes da família, amigos e filhos é dura. De pequenas vivências no dia a dia a eventos únicos. Cleison descreve seu sentimento pelas abdicações necessárias das suas escolhas. “Saber que por você não estar com a tua família, não estar com os teus amigos, não é uma coisa que está errada, mas que naquele momento você está priorizando teu sonho, e se a tua família e os teus amigos também te entenderem nesse sentido, eles vão estar te apoiando incondicionalmente”, alega.

Treinador Cleison orientando a atleta Tainara.
PROVAS DE CAMPO E COMBINADAS

O atletismo é considerado um dos esportes mais antigos do mundo, mas foi somente no ano de 1928 que as mulheres passaram a competir também.

Camila Flach disputa provas de campo, como arremesso de peso e lançamento de disco. Ambas demandam força explosiva, habilidade técnica elaborada e uma compreensão refinada da mecânica do lançamento e arremesso. Mas, além de toda apresentação física, essas provas exigem controle emocional e intensa concentração psicológica. Saber manter a calma sob pressão é fundamental para alcançar marcas pessoais ou recordes.

Tainara Mees compete em uma das provas combinadas do atletismo, o heptatlo. É uma legítima maratona de habilidades, combinada com uma demonstração de excelência esportiva e determinação. O heptatlo consiste em sete provas disputadas ao longo de dois dias de competição. No primeiro dia, as provas são: 100 metros com barreiras, salto em altura, arremesso de peso e 200 metros rasos. No segundo dia, as atletas competem em: salto em distância, lançamento de dardo e 800 metros rasos. Por fim, o somatório de pontos de cada prova é que decide o resultado final. Esta prova testa a versatilidade das competidoras e destaca aquelas que têm a capacidade de se adaptar a diferentes situações. Um dos elementos essenciais do heptatlo é o alinhamento entre mente e corpo. Gerenciar o desgaste físico e mental ao longo de dois dias, mantendo o foco necessário, é uma prova adicional de resistência.

Verde, amarelo e azul

Vestir a camisa do Brasil é o sonho de todo atleta profissional. É muito mais que um uniforme. É ser honrado por seus resultados, por seus sacrifícios e por sua paixão pelo esporte. A oportunidade de viver esses momentos únicos foi conquistada pelo destaque em competições nacionais. O trabalho de Cleison com as atletas foi preciso. Em menos de quatro anos, vivenciaram a tão sonhada convocação para a Seleção Brasileira de Atletismo.

Cleison menciona o quanto o ano de 2021 foi especial. Foi o ano em que os três foram convocados pela primeira vez. Além da experiência de competir internacionalmente, Camila relata a felicidade que foi poder desfrutar da estrutura que o Time Brasil proporciona. “A gente ficou de boca aberta com tudo”, relembra. 

Apesar de ser uma emoção diferente a cada convocação, a responsabilidade e o compromisso de representar um país andam lado a lado. Tainara conta que depois de cinco convocatórias, ser convocada envolve coisas que não são observadas. “A gente querendo ou não vai criando o nosso nome dentro do atletismo brasileiro também, então tem toda essa questão, digamos assim, pressão de ir bem, de representar bem o Brasil, de manter o nível bom, de fazer o teu melhor resultado. E isso também implica não só para ti mesmo, mas em relação a, por exemplo, patrocínio, visibilidade”, explica.

Subir ao pódio é o ápice de um caminho repleto de dedicação e determinação. É o momento em que a emoção do reconhecimento do seu trabalho e de representar o país se misturam. Camila cita que poder vivenciar isso faz elevar cada vez mais o nível de seus sonhos. “Nossa, a melhor coisa, cantar o hino no pódio é uma sensação indescritível assim, você tá lá e perceber, tô aqui com a camisa do Brasil, representando o Brasil, numa competição internacional, é uma coisa que eu não sei nem falar em palavras, porque é a realização de um sonho mesmo”, relata.

Atleta Camila realizando o lançamento de disco.

O futuro

À medida que os treinamentos se intensificam, os sonhos se transformam em objetivos concretos. Cada treino, cada renúncia pessoal, é mais um passo em direção aos propósitos. Atletas de alto rendimento aprendem muito cedo que o caminho é trilhado por muita disciplina e uma resiliência inabalável. Quando perguntado às atletas qual palavra resume sua jornada, a resposta é unânime. “É resiliência, porque eu, por exemplo, tive muitos altos e baixos. Às vezes eu imaginava uma coisa e não acontecia, então, se eu não quisesse mesmo eu poderia ter desistido, mas aí eu pego isso como força” afirma Tainara.

Quando se trata da elite do atletismo, atletas podem parecer ter uma vida de glamour e sucesso, mas o caminho para o topo requer muitos sacrifícios. Dedicar horas intermináveis de treinos ao longo da semana e ao mesmo tempo abdicar de momentos de lazer com familiares e amigos exige determinação. Para alcançarem seus sonhos mais ambiciosos, a paixão é o impulso necessário. 

Camila abre seu coração sobre seu sentimento atual. “Amo o que eu faço. Adoro a sensação de estar dentro da pista e saber que eu sou realizada com o que faço hoje, mesmo abrindo mão de muitas coisas para fazer isso e mesmo que tem que saber lutar contra várias coisas, vários pensamentos, mas sei que é uma coisa que me faz muito feliz hoje, que realiza meus sonhos hoje” comenta.

Amor e dedicação são os pilares que sustentam nossos sonhos. Cleison explica suas ambições para o futuro. “2028 tem Olimpíadas, é o planejamento a mais longo prazo que a gente vai montar. Em 2028, vai ter que acontecer”, declara o treinador. Quando perguntada sobre seus sonhos, Camila afirma com confiança: “Eu não acredito que sonhos sejam impossíveis, porque se a gente consegue sonhar, a gente consegue realizar”.   O

 

Itapiranga, SC

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