FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio Emissoras Públicas da UFSM - AM/FM Tue, 14 Oct 2025 19:27:26 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio 32 32 FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2025/05/30/ponto-de-partida-estreia-nas-manhas-da-unifm-107-9 Fri, 30 May 2025 19:34:25 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7888 A partir do dia 2 de junho de 2025, a programação da UniFM 107.9 ganha um novo espaço para quem quer começar o dia bem informado e com boa companhia. Vem aí o “Ponto de Partida”, programa ao vivo que vai ao ar de segunda a sexta, das 7h às 8h30min, apresentado pelo jornalista Pedro Pereira.

Com uma proposta leve, dinâmica e próxima do público, o “Ponto de Partida” reúne as principais notícias da UFSM, de Santa Maria, do Rio Grande do Sul e do Brasil, além de muita música e interatividade. É um programa para quem quer começar a manhã conectado com o que acontece sem abrir mão de uma dose de descontração.

Para acompanhar a estreia do “Ponto de Partida” e fazer do programa parte da rotina nas manhãs, é possível escutar pela frequência 107.9 ou pelo site das rádios da UFSM.

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2025/01/23/democratizacao-e-justica-social-a-atuacao-dos-cursinhos-populares-no-vestibular-da-ufsm Thu, 23 Jan 2025 13:37:26 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7871

 

O Coletivo de Educação Práxis e o Pré-Universitário Popular Alternativa são dois dos maiores programas de extensão da Universidade Federal de Santa Maria. Com sede no Complexo Multicultural Antiga Reitoria da Universidade, ambas as iniciativas atuam como cursinhos populares que atendem dezenas de estudantes todos os anos de forma gratuita. O objetivo é auxiliar esses alunos na busca pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e demais vestibulares. 

Como forma de resistência à hegemonia dos cursos preparatórios particulares no acesso à UFSM, esses programas nasceram no final dos anos 90 pelas mãos do corpo estudantil, estudantes do Centro de Ciências Rurais e do curso de História. Sua missão é promover a educação popular por meio de um método que interliga a realidade social dos estudantes com os conteúdos das provas.

O professor de Química e membro coordenador do Práxis, Rafael Ita, conta que a metodologia de ensino do cursinho é contextualizar o porquê daquele conteúdo estar sendo estudado. “Nós mostramos como a aplicação dele na vida do estudante tem importância a nível coletivo, mostramos como aquele objeto de estudo se aplica na vida cotidiana”, explica.

O método é aprovado pela educanda Ana Amaral, que, antes de ingressar no Práxis, estudava sozinha. “É bem diferente da educação tradicional em que eles só nos jogam o conteúdo, sem ter uma aula mais prática sobre ele. Me sinto mais preparada para enfrentar isso”, relata.

Segundo a educadora e integrante da coordenação do Alternativa, Vitória Carolini, cerca de 23% dos estudantes do cursinho demonstraram interesse no Vestibular da UFSM em 2024. Uma vez que o foco do programa é o ENEM, houve adaptação na forma de ensino, os gêneros textuais da redação do vestibular, artigo de opinião e carta aberta, tiveram que receber mais atenção dos educadores, por exemplo.

Além disso, Vitória define a educação popular como uma chave para a transformação social. Para ela, essa prática tem o poder de “democratizar o acesso à universidade ao proporcionar formação de qualidade àqueles que não a encontram na educação tradicional”.

Os cursinhos populares são alguns dos maiores agentes na luta pela democratização do acesso ao ensino público e de qualidade em Santa Maria. Com o poder da ligação entre educação e realidade social, os educadores agem com o objetivo de dar chance a quem já entra nos processos seletivos em desvantagem. Sendo, assim, agentes contribuintes para a promoção da justiça social e democratização do ensino superior. 

Ambos os cursinhos atendem no período noturno no Prédio da Antiga Reitoria, localizado na rua Floriano Peixoto, 1184, Centro de Santa Maria. Há seleção de novos educadores e estudantes todos os anos. Interessados devem ficar atentos às redes sociais dos programas: @pup.alter e @praxispopular.

 

União sinistra: cursinhos realizam aula pública 

No dia 5 de janeiro, Práxis e Alternativa se uniram para realizar a “União Sinistra”, um aulão público na Praça Saldanha Marinho sobre a redação do vestibular da UFSM. O evento, ministrado pelas educadoras Vitórias Carolini e Laura Stalin, durou 3 horas e contou com discussões sobre os gêneros textuais do vestibular, artigo de opinião e carta aberta, critérios de avaliação. Atrações culturais também marcaram o encontro.

Práxis lança o “Vestibular Comentado”

No último dia de provas do Vestibular de Verão 2025 da UFSM (12), o Coletivo de Educação Práxis lançou o “Vestibular Comentado”, um documento de 146 páginas que pontua problemáticas sobre questões e temas das provas do vestibular de 2024. O conteúdo também abordou o retorno da forma de ingresso na UFSM, as privatizações que afetaram a vida dos estudantes e as polêmicas em torno dos restaurantes universitários. O link de acesso ao documento está disponível na biografia do perfil do Práxis no Instagram. 

Atrações culturais do aulão

Thomas Machado

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM.
Contato: thomas.souza@acad.55bet-pro.com

 

Fotos: João Gabriel Monteiro

Revisão: Isadora Bortolotto, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. 

Contato: isadora.bortolotto@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/11/25/gritos-do-silencio-tranquilidade-para-menstruar-iniciativa-pauta-saude-intima-da-mulher-encarcerada Tue, 26 Nov 2024 02:07:22 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7870

A saúde da mulher é um tema comumente relegado, especialmente em contextos de privação de liberdade. Segundo a Cartilha Pré-Natal, Parto e Puerpério para Mulheres Privadas de Liberdade e Parceiros (as), em 2023, cerca de 2.500 mulheres encontravam-se em regime prisional no Rio Grande do Sul. Em ambientes penitenciários, o público feminino enfrenta uma  realidade complexa e desafiadora, marcada por camadas de vulnerabilidade. 

Um dos aspectos críticos que afetam a saúde das mulheres encarceradas é a pobreza menstrual, questão reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um problema global de saúde pública e dignidade humana. Esse cenário se agrava pela limitação do acesso a saneamento básico, serviços de saúde e informação adequada sobre higiene menstrual. Pessoas que menstruam e se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica são as mais afetadas pelo problema.

O projeto “TPM: Tranquilidade para Menstruar”, vinculado ao Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFSM, tem como objetivo combater a pobreza menstrual. O programa realiza visitas ao Presídio Regional de Santa Maria, uma das principais penitenciárias femininas da região, para distribuir materiais de higiene e sensibilizar as detentas sobre o cuidado com a saúde íntima. 

 

De acordo com a  coordenadora do projeto e professora vinculada ao CCS, Melissa Medeiros Braz, muitas dessas mulheres não conhecem seu ciclo menstrual. “Ensinamos o uso correto dos absorventes internos e a lidar com cólicas. Orientamos sobre cuidados de higiene íntima, já que muitas não sabem que sabonetes agressivos podem causar problemas”, relata.

 

A psicóloga da Polícia Penal, Renata Cauduro, conta que a maioria das presas escolhe a injeção anticoncepcional trimestral, um método oferecido pelo SUS que inibe a menstruação. Pessoas que optam por continuar menstruando ganham mensalmente absorventes do governo estadual e doações de projetos como o TPM. No entanto, Renata destaca que, embora os absorventes sejam fornecidos regularmente, a disponibilidade de sabonete e papel higiênico é escassa, o que leva a campanhas de doação para garantir a higiene das presas. 

 

No Presídio Regional, as detentas podem consultar toda semana com um médico clínico geral que realiza encaminhamento para o ginecologista quando há uma demanda específica. Periodicamente, são realizados mutirões do exame preventivo, conhecido como “Papa Nicolau”, responsável pela detecção dos primeiros sinais de aparecimento de câncer de colo do útero e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) que atingem o sistema genital feminino. A psicóloga ressalta que a enfermaria possui todos os equipamentos para os exames preventivos, com uma cama adequada e todos os materiais necessários.

 

A saúde de homens trans que estão em ambientes penitenciários também entra em pauta. Renata informa que esse público é atentido na galeria feminina e tem acesso aos mesmos cuidados de saúde que as mulheres cis, uma vez que o SUS não cobre a harmonização, mas custeia os exames e consultas. A profissional ainda reforça que a maioria dos homens trans opta por não menstruar, também utilizando a injeção trimestral.

Conscientização sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)

Segundo dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (INFOPEN), de junho de 2021, foram identificadas 27.033 pessoas com agravos transmissíveis nas unidades carcerárias do país. Dentre elas, cerca de 7,5 mil são acometidas por HIV. 

Melissa aponta que, na situação de cárcere, é comum que as presas tenham relações sexuais entre si e a desinformação torna-se um fator complicador para a prevalência de ISTs. “Muitas mulheres acreditam que não há transmissão de infecções sexualmente transmissíveis entre elas. Durante nossas visitas, abordamos como as mulheres podem se cuidar para evitar a transmissão de doenças entre si, além de falarmos sobre práticas sexuais seguras”, explica.

A Universidade como um espaço multiplicador para a sociedade

A atuação da UFSM vai além da formação acadêmica e serve como um espaço de conscientização e transformação social acerca de questões que não são vistas, nos âmbitos culturais, socioeconômicos, de gênero e de raça. Melissa ressalta que muitas das mulheres atendidas pelo projeto são invisibilizadas e não recebem a atenção devida. “É fundamental orientá-las para que possam se instrumentalizar e cuidar melhor da sua saúde. Essa é uma questão de extrema relevância para essa população”, afirma.

A sensibilização da sociedade sobre as condições das mulheres no sistema prisional, principalmente em relação à saúde menstrual, deve ser debatida para chamar a atenção à saúde em pessoas em situação de vulnerabilidade. “A partir do momento em que essas mulheres estão encarceradas, elas estão pagando pelos seus crimes, mas isso não significa que não mereçam ser tratadas com dignidade”, defende a coordenadora. 

 

Melissa também enfatiza a importância de considerar questões como a maternidade, mencionando a necessidade de atenção às presidiárias gestantes ou que estão amamentando. “Essas mulheres precisam ser vistas e aprender a cuidar de seus corpos e de seus filhos”, destaca.

A vaidade no cárcere

A vaidade é um aspecto significativo na vida das mulheres encarceradas que influencia em sua autoestima e bem-estar. Renata observa que a falta de produtos de higiene pessoal e beleza, como shampoos, condicionadores e cremes específicos, afeta a autopercepção. “Muitas delas relatam a insatisfação com a aparência, expressando preocupações sobre seus cabelos, peles e cuidados pessoais”, conta. 

O ambiente prisional, por limitar o acesso a itens básicos de cuidados, pode levar a um sentimento de descuido e impactar a saúde mental e a autoconfiança das detentas. Para suprir essa necessidade, o presídio promove o “Dia da Beleza”, uma iniciativa que permite que as detentas realizem cuidados pessoais.

 

Conforme a psicóloga, nessas ocasiões, serviços de manicure e corte de cabelo são ministrados pelas detentas com experiência e material próprio. “Elas podem fazer as unhas, o cabelo. Tem chapinha e secador que são de algumas das presidiárias. Até cílios e sobrancelhas elas fazem. Ficam felizes da vida. Muito, muito felizes”, conclui.

 

Isadora Bortolotto

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: isadora.bortolotto@acad.55bet-pro.com

Ilustração: Instituto Avon

Edição e publicação: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. 

Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/10/11/gritos-do-silencio-saude-mental-academica-pressao-e-rotina-atribulada-podem-causar-ansiedade-depressao-e-ate-sindrome-de-burnout Fri, 11 Oct 2024 12:45:04 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7855
Foto: Kemyllin Dutra

Como você se sente em relação a si mesmo é um fator que influencia em todos os aspectos da vida: relacionamentos, vida pessoal, profissional e até mesmo nos estudos. Conforme mapeamento da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e do Instituto Ayrton Senna, aplicado na volta às aulas de 2021 em 642 mil estudantes paulistas, 18,8% dos entrevistados se sentiam totalmente esgotados e sob pressão e 13,6% relataram perda de confiança em si, dificuldade para se concentrar e sentimentos de tristeza. 

No contexto de pandemia, esses altos números podem ser explicados devido ao isolamento social que aumentou os índices de problemas emocionais, principalmente entre os jovens. Entretanto, a problemática não se resume a esse aspecto e não ficou para trás com o fim do período de combate à Covid-19 e suas complicações. 

Uma pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) entre 2022 e 2023 com 76.406 estudantes universitários norte-americanos apontou que 41% tinham sintomas de depressão e 36% de transtorno de ansiedade. Em 2023, a Revista Eletrônica Acervo Saúde publicou um levantamento que identificou prevalência da síndrome de Burnout em 60% dos 250 acadêmicos de medicina de uma universidade particular do Maranhão consultados. O estudo concluiu que a rotina acadêmica pode causar estresse crônico e, por consequência, o distúrbio.

Estudante de residência integrada em saúde na Escola de Saúde Pública (ESP), a psicóloga Ariane Minuzzi avalia o período de estudos como uma fase que pode gerar ou intensificar questões psicológicas. Para ela, a rotina pesada vivenciada durante a residência, a distância da família e a carga horária semanal elevada são agentes prejudiciais à saúde mental dos residentes. 

Além disso, a psicóloga cita que, em nosso sistema social, o valor dos indivíduos é ligado ao seu nível de produtividade, o que alavanca a sensação de mal-estar nas pessoas. “A escola, a residência e o meio acadêmico não fogem dessa lógica de que é preciso produzir, então é muito difícil quebrar esse paradigma, ele já está instituído”, declara.

Pressão por aprovação

O psicólogo clínico Rudinei Brum conta que atende muitos estudantes que estão se preparando para enfrentar maratonas de vestibulares e ENEM para adentrar a universidade. Segundo ele, uma das principais queixas desse público é a pressão por aprovação e a maioria dos diagnósticos aponta ansiedade.

Brum menciona que, por vezes, mesmo após conquistar a aprovação, o aluno ainda sente-se pressionado e a ansiedade é associada à necessidade de validação acadêmica e de destaque. O profissional elenca a distância da família e dos amigos e a falta de pertencimento como elementos que podem acarretar, além da ansiedade, depressão e síndrome de burnout ao longo do processo universitário.

Ele explica que a ansiedade gerada pela pressão pode levar à procrastinação. “Sentir um mal-estar que paralisa, não sentir-se bem consigo mesmo e não dar conta [de fazer as atividades] são sintomas de que a pressão está gerando uma ansiedade tão grande que tu fica preso e começa a procrastinar. A procrastinação é um sintoma da ansiedade, é um sinal vermelho”, alerta. 

O psicólogo recomenda que, ao notar esses sinais, o estudante busque ajuda profissional ou converse com alguém que talvez possa o auxiliar. “Procure uma pessoa para alcançar esse braço de ajuda e te tirar desse nervosismo que te acompanha diariamente no mundo dos estudos, seja pela pressão do resultado do cursinho ou já na vida acadêmica mesmo”, indica Brum.

Maneiras de fortalecer a saúde mental

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE 2024) aponta que a saúde emocional está diretamente relacionada à qualidade de vida, à sensação de bem-estar e à capacidade de resolver problemas no dia a dia. Contrariando essa definição, a mesma pesquisa – feita com 180 países – revela que os estudantes brasileiros ocupam o segundo lugar no ranking de mais ansiosos.

Para amenizar os sentimentos de insuficiência e ansiedade, Brum entende que o primeiro passo é falar sobre o assunto. “É preciso que existam grupos de apoio dentro das universidades, com momentos e pessoas que acolham os estudantes. Espaços de conversa são essenciais para que eles possam expressar seus sentimentos e essa pressão de que é tudo novo para ele”, explica.

O psicólogo comenta, ainda, sobre a importância dos alunos conseguirem ter tempo livre para descansar e como isso auxilia no tratamento da ansiedade. Brum considera que atividades de relaxamento e autocuidado ajudam a tirar o foco dos resultados e das notas e a valorizar a interação entre os acadêmicos. 

Sobre o papel das instituições, o profissional sugere que sejam ofertadas oficinas de gestão de tempo para que o estudante não se sobrecarregue e saiba destinar um tempo para ficar com a família e amigos. Ademais, o psicólogo frisa que a psicoterapia faz bem a todos. “ Ela é como uma medicação: talvez tu nem acredite na medicação, mas se tu estiver exposto à medicação ela vai funcionar. A terapia é um suporte para o aluno manter a saúde mental durante os estudos”, conclui.

 

Myreya Antunes

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: myreya.antunes@acad.55bet-pro.com

Edição e publicação: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. 

Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

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A comunicação é um direito humano fundamental, ratificado no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. No entanto, para os 18,6 milhões de brasileiros com deficiência, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse direito encontra empecilhos significativos. Os desafios mais críticos são a falta de acessibilidade digital e as dificuldades de comunicação e compreensão verbal. Essas questões não só limitam o acesso à informação, à educação e ao trabalho, como também perpetuam a exclusão social de pessoas com deficiência.

Conseguir usufruir da internet e de serviços digitais é essencial em uma sociedade cada vez mais conectada. Contudo, muitas pessoas com deficiência enfrentam obstáculos diários na navegação online. Conforme pesquisa realizada pelo BigData Corp, em parceria com o Movimento Web para Todos, apenas 0,46% dos sites foram considerados acessíveis para pessoas com deficiência no ano de 2022, evidenciando uma lacuna significativa na inclusão digital. A acessibilidade digital vai além de uma questão técnica: ela é um pré-requisito para a inclusão social. 

Recursos como descrições alternativas em imagens e legendas em vídeos são, respectivamente, indispensáveis para que pessoas cegas e surdas consumam conteúdos visuais. Entraves adicionais para pessoas com baixa visão estão presentes em sites sem contraste adequado e com layouts confusos e fontes pequenas. Documentos em PDF não formatados com tags que permitem a leitura por softwares específicos são impeditivos para o uso de leitores de tela, o que dificulta ainda mais o acesso de pessoas com deficiência visual a informações vitais.

Educação inclusiva

 

A docente do Departamento de Educação Especial da UFSM, Andreia Inês Dillenburg, entende a inclusão e a acessibilidade como temas historicamente interligados que mostram sua influência mundial crescente. Para ela, a oferta de tecnologias e a construção de uma cultura sólida de acessibilidade ainda não são ideais para atender a grupos diversos e tornar a acessibilidade um valor concreto que garante a participação social plena de todos.

A professora cita que recursos de acessibilidade não são de uso exclusivo de pessoas com deficiência. “Ao criar materiais, é crucial lembrar que há usuários com deficiência visual e demais demandas de acessibilidade ou comodidade. Um exemplo são as legendas, que, embora destinadas principalmente a pessoas com deficiência auditiva, são úteis em situações cotidianas, como quando não podemos utilizar o som do smartphone em um ambiente silencioso e estamos sem fones de ouvido”, defende.

Apesar disso, a educadora aponta que os dispositivos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) têm evoluído substancialmente, tornando-se cada vez mais intuitivos e acessíveis. Esses dispositivos, que utilizam símbolos, texto ou voz para permitir que pessoas com deficiências na fala se comuniquem de maneira eficaz, têm o potencial de revolucionar a comunicação para pessoas com deficiência, promovendo maior autonomia e inclusão social.

As formas de comunicação habituais utilizadas no cotidiano também podem se tornar uma barreira invisível, mas poderosa. O uso de termos inadequados e ofensivos, como “surdo-mudo” ou “retardado”, reforça estereótipos negativos e desumaniza as pessoas com deficiência. Substituir essas expressões por termos mais respeitosos e precisos, como “pessoa surda” ou “pessoa com deficiência intelectual”, é um passo básico para a promoção da inclusão. 

Outro ponto é a ausência de intérpretes de Libras em muitos ambientes públicos, o que impede a compreensão de informações essenciais por parte de pessoas surdas e resulta em exclusão comunicacional. Além disso, a linguagem por vezes técnica e complexa de documentos oficiais e educacionais pode ser de difícil compreensão para algumas  pessoas.

No contexto educacional, a docente ressalta que a formação de professores deve ser mais do que a simples apresentação de conceitos de educação especial. Para ela, é necessário um esforço contínuo para integrar esses conceitos na prática pedagógica das diferentes áreas, o fornecimento de suporte especializado e a promoção de uma compreensão mais profunda das necessidades e potencialidades de cada indivíduo. “A educação especial é essencial,  pois com ela podemos realizar muitas formas de adaptação, como por exemplo ensinar a cor para quem não consegue ver e os conceitos musicais para quem não consegue ouvir”, conclui Dillenburg.

Legislação e Luta

A legislação brasileira conta com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), sancionada em 2015, que estabelece diretrizes abrangentes para garantir os direitos das pessoas com deficiência. A LBI, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, abarca desde a educação inclusiva, com a proibição de recusa de matrícula e a exigência de adaptações necessárias, até normas de acessibilidade física e digital e proteção no ambiente de trabalho. 

A LBI representa um avanço significativo, mas a integração de legislações internacionais e o aprimoramento contínuo das práticas de acessibilidade são fundamentais. Dillenburg observa que, embora seja um marco, a implementação da lei precisa ser monitorada para uma inclusão mais efetiva. “Iniciativas como a distribuição de tecnologias assistivas e a oferta de recursos têm contribuído para melhorar o acesso à comunicação. No entanto, a realidade prática muitas vezes não acompanha a legislação”, afirma.

Ela explica que a aplicação da legislação e a alocação de recursos financeiros para a acessibilidade não podem ser negligenciadas. “As barreiras atitudinais, atitudes ou comportamentos que impedem ou prejudicam a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas, estão profundamente enraizadas no preconceito e constituem a base de outras formas de exclusão”, declara Dillenburg.

A professora menciona, ainda, que a escassez de infraestrutura, investimento e profissionais capacitados para a instituição de tecnologias assistivas em larga escala resultam em desigualdades no acesso à comunicação, especialmente em regiões menos favorecidas. Sem acessibilidade, a promessa de uma sociedade igualitária permanece inalcançável e restringe-se aos textos oficiais.

 

Renan Silveira

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: renan.silveira@acad.55bet-pro.com

 

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Edição e publicação: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM.

Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/07/29/do-rio-ao-mar-uma-palestina-que-chora-e-sangra-enquanto-resiste Mon, 29 Jul 2024 16:51:50 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7828
Polícia estadual de Indiana barra manifestantes

Desde 7 de outubro de 2023, mais de 38 mil assassinatos de palestinos foram notificados na Faixa de Gaza. Contudo, no início deste mês, um estudo publicado na revista “The Lancet” aponta que o número real de mortes pode ultrapassar os 186 mil. A pesquisa considera pessoas que faleceram por falta de água, alimentação ou tratamento de ferimentos e soterramento sob escombros de edifícios e demais construções bombardeadas.

Embora tenha eclodido no último ano, o que acontece hoje na Faixa de Gaza se originou em 1917, quando a ideia de estabelecer um estado judeu permanente na Palestina foi apoiada pelo governo britânico. Alguns anos depois, a Liga das Nações (corpo antecessor da Organização das Nações Unidas) permitiu que esse processo de ocupação fosse iniciado.

Com a declaração do Estado de Israel em 1948, uma guerra árabe-israelense se instaurou por conta da divisão do território palestino entre árabes e judeus. Nessa fase, que ficou conhecida como a Nakba, catástrofe palestina, houve a morte de aproximadamente 15 mil palestinos e o êxodo forçado de mais de 700 mil cidadãos. Especialistas alegam que o cenário atual é uma continuação desse revoltante episódio.

 

Israel não age sozinho

Mestre em História pela Indiana University – localizada em Bloomington, no estado norte-americano de Indiana -, João Pedro Correa pesquisa escravidão no Brasil, na América Latina, no Caribe e nos Estados Unidos e entende que o processo genocida é histórico e se repete com diferentes povos. O historiador cita que esse momento faz perceber as estruturas do genocídio no caso dos indígenas e dos africanos na Américas e na Europa, dos judeus na Segunda Guerra Mundial e dos palestinos.

Para ele, é muito fácil perceber que há uma política de extermínio, especialmente por parte da extrema-direita israelense, da figura de Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel) e de imperialistas dos Estados Unidos. “Não tem muito o que dizer sobre isso. É genocídio, ponto final. As pessoas estão morrendo o tempo todo de forma criminosa. Israel está matando gente inocente o tempo todo com desculpas cada vez mais fracas”, pontua Correa.

As relações entre Israel e os Estados Unidos começam após o Holocausto, quando o então presidente americano, Harry S. Truman, se posicionou a favor do reconhecimento do estado. Ainda durante a Nakba, no ano de 1967, a vitória israelense sobre a aliança árabe na Guerra dos Seis Dias, apoiada pela União Soviética, fortaleceu o apoio financeiro, militar e diplomático dos EUA a Israel. 

O pesquisador menciona que esse pode ser o maior genocídio da história recente, motivado por interesses econômicos e políticos de Israel e dos Estados Unidos em manter controle sobre a Faixa de Gaza que já vive em um estado de sítio há anos. “Isso não é novo, mas a quantidade absurda de pessoas, crianças mortas é. Tenho amigos palestinos com família nos EUA e amigos judeus lá que são absolutamente contra o massacre. A questão não é judeu contra palestino, é o uso da mentira do terrorismo por Israel, tática batida dos EUA para invadir o Afeganistão e o Iraque, para se apropriar de um território e aniquilar seus habitantes”, complementa.

A cobertura do genocídio

O jornalista e ativista Kais Husein, que é de família palestina e utiliza suas redes sociais para divulgar conhecimento sobre a Palestina, colabora com a Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL). Husein cobre há 9 meses o genocídio em Gaza pela entidade e explica que ela é um espaço para mostrar a opressão, a colonização e os crimes cometidos pela ocupação israelense, questões que ele juga não abordadas pelos grandes veículos de informação.

Em relação à cobertura internacional, o ativista compara a atuação da mídia a uma agenda de propaganda de guerra que tenta justificar ou amenizar as ações israelenses. “Eu vivi pessoalmente na Palestina e pude visualizar a ocupação com os olhos e na pele. Nesses 9 meses de genocídio percebi que os veículos hegemônicos, principalmente nacionais, optam pela desumanidade e parcialidade ao tema Palestina e atrelam-se a Israel. Me questiono se alguém viu a mesma intensidade de reportagens e matérias trazendo um olhar humano aos palestinos”, ressalta.

O jornalista analisa a cobertura brasileira como fraca, desrespeitosa e pobre. Para ele, essa maneira de noticiar o que acontece com os palestinos é não somente um ataque aos Direitos Humanos e à ética, mas também a todos os profissionais da comunicação. “Os veículos financiados por empresas e pelos interesses políticos de seus chefes ou patrocinadores transformaram o trabalho do jornalista sério em uma espécie de marketing ambulante. Fico decepcionado com a linha editorial dos grandes veículos”.

Segundo o comunicólogo, um dos obstáculos para a divulgação séria e comprometida de informações da FEPAL são os ataques falaciosos sobre a entidade e seus integrantes. Entretanto, em seu ponto de vista, o grupo tornou-se a principal fonte de notícias relacionadas à Palestina de todas as pessoas no Brasil. O jornalista define a cobertura do genocídio na organização como impecável e pontual.

Manifestações pró-Palestina atravessam fronteiras

Diversos países têm sediado manifestações pró-Palestina e 75% deles reconhecem o Estado palestino. Na última quarta-feira (24), em Paris, o time de Israel foi vaiado durante a execução de seu hino em sua estreia no futebol masculino nas Olimpíadas. Israel já assassinou 342 atletas palestinos, incluindo o técnico da seleção olímpica de futebol da Palestina, Hani Al-Mossader, e o primeiro atleta olímpico da história do país, Majed Abu Maraheel, conforme o Jornal A Verdade.

No mesmo dia, Benjamin Netanyahu discursou no Congresso dos Estados Unidos a fim de manter a relação de apoio e financiamento militar entre as nações. Aplaudido pela maioria dos representantes, exceto pela política Rashida Tlaib que levantou placas com as mensagens “War Criminal” e “Guilty of Genocide”, esse momento gerou manifestações no território norte-americano em prol da causa palestina e contra o massacre na Faixa de Gaza.

Correa participou, em abril deste ano, de uma mobilização em favor da Palestina no campus da Indiana University. O evento ocorreu no Dunn Meadow, espaço criado na década de 60 para ações do gênero que já presenciou manifestações de acadêmicos e professores na Guerra Fria e na Guerra do Vietnã.

Na noite anterior ao protesto, o corpo diretivo da universidade tornou ilegal o ato de acampar no Dunn Meadow. Com a negativa dos ativistas quanto a se retirarem, a Polícia estadual foi acionada e, em meio ao uso de gás de pimenta e a ameaças de suspensão por 1 ano, prendeu alunos e professores. Os policiais organizaram um enfrentamento antimotim com drones, snipers (atiradores especiais), helicóptero e tanque blindado.

Snipers posicionados no campus

De acordo com o historiador, o corpo policial foi violento e destruiu a barraca de primeiros socorros disponível no local. “Foi diferente de qualquer manifestação no Brasil. No primeiro momento, estávamos em um ambiente de aprendizado sobre Gaza e a causa, mas depois se tornou assustador e violento. O líder do sindicato dos estudantes foi preso e banido por 5 anos da faculdade. Naquele momento, eu tive medo de deporte”, declara.

Professora é retirada do protesto por policial

Husein, que vive em Santana do Livramento, município que faz fronteira com Rivera, no Uruguai, também tem integrado e cobrido manifestações no interior do Rio Grande do Sul desde outubro. O ativista explica que a região abriga uma grande comunidade de árabes cristãos e muçulmanos e que há apoio de entidades políticas de ambos os lados da fronteira para eventos, marchas e protestos pela Palestina.

O jornalista observa esse fenômeno como uma quebra de paradigmas que constrói novas narrativas sobre a realidade, em especial nos EUA e na Europa onde a pressão popular foi inflamada por repressão policial e censuras de entidades políticas. “O povo se revoltou ao perceber que seu governo financia com bilhões de dólares, que poderiam ser voltados a setores como saúde e educação, um organismo colonial para exterminar pessoas. Isso fez com que a própria população chegasse a ponto de bater de frente com os seus representantes políticos, dando total instabilidade no partido democrata em pleno ano de eleição”. 

Do rio ao mar, a Palestina será livre

Os antepassados de Husein foram vítimas da Nakba e seus pais são da região de Ramallah, na Cisjordânia. Ele e seus familiares querem uma Palestina livre, mas com justiça. “Não consigo enxergar um futuro nessa vida sem ter direito a retornar para as terras dos meus ancestrais e tenho certeza absoluta de que a dor que seguro agora, cobrindo o genocídio dos meus em Gaza, vai intensificar ao fim desse extermínio com os números da tragédia”, afirma. 

Quanto a expectativas para o fim do genocídio, o ativista coloca a ONU em uma posição de incapacidade devido ao relacionamento entre EUA e Israel. Segundo ele, a organização está, de certo modo, impedida de tomar algumas atitudes pelo fato de que líderes do Conselho de Segurança com poder de veto podem negar resoluções que abririam margem para a efetividade de sanções e embargos.

O jornalista cita a unificação dos partidos palestinos na China, noticiada na última quinta-feira, como um caminho para a descolonização e autodeterminação do povo palestino. “Eu, enquanto um homem gay e descendente de palestinos, aspiro por uma Palestina livre e democrática. Que todos os nossos possam gozar dos privilégios que foram saqueados de nós”, conclui Husein.

Kemyllin Dutra

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

Fotos: João Pedro Correa

Revisão: Isadora Bortolotto, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. 

Contato: isadora.bortolotto@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/07/22/gritos-do-silencio-tiktok-e-criancas-exposicao-e-adultizacao-nas-redes-sociais Tue, 23 Jul 2024 00:29:05 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7821

Em tempos de intensificação da presença no ambiente virtual, o uso das redes sociais por crianças torna-se cada vez mais predominante. Ainda que haja sistemas regulatórios de idade para barrar o acesso de menores nas plataformas, eles são facilmente burlados devido a falhas na confirmação de identidade.

Conforme a pesquisa TIC Kids Online Brasil de 2023, coordenada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), a porcentagem de menores de idade na faixa etária de 9 a 17 anos que possuem alguma rede social é equivalente a 88% de sua população. Dentre as plataformas digitais utilizadas por esse grupo, o TikTok se encontra em 3º lugar, com 27% do público.

Conhecido pelos vídeos de curta duração, o aplicativo chinês TikTok, lançado em 2016, se popularizou no período pós pandemia como um espaço aberto para a criação de conteúdos de entretenimento e a expressão da criatividade. Durante o isolamento social, o público aderiu à rede como um meio de interação e compartilhamento de informações. A resposta positiva dos usuários sobre ela permitiu a expansão de suas funções para usos que ultrapassam o lazer, se transformando em um lugar favorável para a comercialização de produtos e serviços. 

A consultoria de marketing estadunidense Her 55BET Pro Media indica que o TikTok é responsável por influenciar o consumo de 75% da geração Z. Além de provocar um grande impacto no funcionamento do mercado, hoje o TikTok dita as tendências do momento, desde o nicho de moda e músicas até o de estilo de vida.

O acesso do público infantil a essa quantidade de informações, muitas vezes voltada a jovens e adultos, pode gerar danos às etapas de entendimento do mundo e de si para a criança. Um dos fenômenos observados com o excesso do uso de redes sociais pelas crianças é a adultização infantil.

 

Redes sociais e adultização infantil

O termo “adultização infantil” se refere à aceleração forçada do desenvolvimento da criança para que ela tenha comportamentos não esperados de sua idade. Quando inserida nas mídias sociais, sem a supervisão adequada de um responsável, a criança está sujeita a essa circunstância.

A psicóloga Bruna Cousseau, especializada em Desenvolvimento Infantil, explica que, no período da infância e adolescência, as redes sociais podem promover distorções de imagem e causar confusão na percepção moral, uma vez que faculdades mentais ainda estão em formação. “Sabemos que a constituição da percepção de quem somos é modelada e aprendida no ambiente em que estamos inseridos. Esse ambiente virtual também se torna fator influenciador das crenças em formação sobre nós, nossas capacidades, nossas qualidades e defeitos, autoconceito e autoimagem, tornando fácil a apropriação desses modelos”, afirma.

Com a cultura do cancelamento fortificada nas plataformas, movimento que pode incitar o linchamento virtual para individuos que cometem algum erro, a preocupação sobre a saúde mental de crianças e adolescentes expostas a essas situações é redobrada. “Eles estão mais vulneráveis às críticas e julgamentos recebidos, compreendendo que o senso de si está em formação e que habilidades como de avaliação, senso crítico e discernimento ainda se encontram muito incipientes”, destaca a psicóloga.

Bruna ressalta que, a depender das características individuais e temperamentais da criança e do adolescente, a exposição a comentários negativos e a exclusão podem ser fatores agravantes para o surgimento de psicopatologias, como a ansiedade e depressão. Segundo ela, o uso excessivo das plataformas digitais reflete, também, nas relações interpessoais do público infantojuvenil. “A aptidão para comunicar a própria opinião e emoções, se autorregular e controlar impulsos, se posicionar e estabelecer limites, falar em público e ser empático se tornam possíveis problemas”, salienta.

 

Segurança digital

Para proteger as crianças e adolescentes de danos à sua integridade e preservar a fase da infância, Bruna aconselha os responsáveis a manterem um diálogo aberto sobre os perigos online. “É fundamental a abertura para trocas de ideias e orientações sobre os comportamentos e pessoas que devem ser evitadas, como não compartilhar endereço, fotos ou informações pessoais. Também deve-se falar claramente sobre os perigos e deixar claro que, na internet, é preciso tomar os mesmo cuidados com desconhecidos e com o que publica e acessa”, reitera.

Em 2023, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) implementou o portal “De Boa na Rede”, que dispõe de orientações para pais e responsáveis sobre como proteger os filhos dentro das mídias sociais. Com o objetivo de combater os crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes, o site disponibiliza ferramentas para controle parental, instruções para verificar a maneira como as redes estão sendo acessadas e uma área destinada à realização de denúncias.

A indicação de Bruna é que sejam aliados a esse monitoramento de atividades a adição de filtros de conteúdo e o controle de tempo nas telas. “Esse cuidado deve ser reforçado, principalmente, nas redes sociais, que são locais onde se pode interagir com outras pessoas, muitas vezes desconhecidas. É necessário estar próximo enquanto a criança estiver utilizando as telas e realmente acompanhar, além de ter acesso a todas as suas senhas”, adiciona.

 

Sociabilidade e vida acadêmica

A psicopedagoga Rafaela Nascimento, que também possui especialização na área de Desenvolvimento Infantil, menciona que crianças e adolescentes muito expostos à internet possuem mais dificuldades em lidar com outras pessoas pela falta de paciência e autocontrole. “Eles não têm muita paciência para momentos de diálogo e fazer novas amizades. Não conseguem trabalhar em equipe e ter um raciocínio de resolver conflitos, são crianças mais ansiosas. Vivem em uma bolha e essa é a realidade delas, então, quando se deparam em uma situação em que devem ver a realidade do outro, podem não entender e achar que é errado”, complementa.

Outra área vulnerável a esses efeitos é a vida acadêmica. Em contraste com o modelo de vídeos rápidos de entretenimento, os conteúdos de aprendizagem se tornam maçantes e exigentes. Segundo o estudo OPEE 2023 – Educadores Brasileiros: educando na era digital, profissionais da educação consideram que os impactos da tecnologia no desenvolvimento do comportamento infanto-juvenil são, de modo majoritário, negativos. As principais consequências são a redução da interação e da convivência entre os pares (30,20%) e a dificuldade de concentração e foco (29,86%).

De acordo com Rafaela, atualmente, a leitura de crianças e adolescentes está fragilizada, assim como a capacidade de interpretação de texto. “Elas já estão mais habituadas a ficar assistindo o vídeo. Não conseguem organizar os pensamentos para fazer atividades da escola. Então tem aí esses prejuízos”, alerta.

 

Camila Castilho

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: camila.castilho@acad.55bet-pro.com

 

Ilustração: Isadora Bortolotto, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. Contato: isadora.bortolotto@acad.55bet-pro.com

Revisão e publicação: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/07/18/gritos-do-silencio-a-face-oculta-da-internet Thu, 18 Jul 2024 18:32:53 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7815

No mundo digitalizado de hoje, onde as fronteiras parecem desaparecer diante de um clique, a violência e a discriminação racial encontraram uma nova arena: a internet. O que deveria ser um espaço de conexão e conhecimento muitas vezes se transforma em palco para manifestações de ódio e intolerância racial.

 

A violência online pode assumir diversas formas, incluindo bullying, stalking ou perseguição, difamação, ameaças, xenofobia, racismo e a disseminação de discursos de ódio ou crimes de ódio. A “terra sem lei”, como muitas pessoas se referem ao mundo digital, permite que violações como essas sejam cada vez mais recorrentes no dia a dia. No entanto, mesmo por trás das telas, o criminoso não está impune.

 

O crime de ódio, por exemplo, é definido como uma forma de ataque verbal ou simbólico contra pessoas ou grupos em virtude de sua identidade, sexo, origem, orientação sexual, raça ou cor, religião, gênero, entre outras características. Esse tipo de prática vem ganhando notoriedade nas redes sociais nos últimos anos. A Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, da Safernet, recebeu entre os anos de 2017 e 2022 um total de 293.289 denúncias relacionadas à transgressão. O ano de 2022 foi o que registrou o maior número de casos nesta série. 

Violência contra mulheres

Em 2019, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, realizou a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) que aponta que mais de 1,6 milhão de pessoas sofreram agressão on-line em um período de um ano. As principais vítimas foram as mulheres, com quase 53% dos relatos de ameaça, ofensa, xingamento ou exposição de imagens sem o consentimento.

Estudos revelam que mulheres negras são frequentemente atacadas por uma combinação de sexismo e racismo, o que resulta em uma forma especialmente virulenta de discriminação. Pesquisas da organização Stop Online Violence Against Women indicam que 53% das mulheres negras nos Estados Unidos já passaram por algum modo de assédio online, comparado a 29% das mulheres brancas. Além disso, relatórios da ONG britânica Glitch revelam que mulheres negras são 84% mais propensas a serem alvo de discurso de ódio nas redes sociais do que mulheres brancas.

Os números alarmantes mostram a urgência da implementação de políticas e ações específicas para proteger mulheres negras contra a violência digital. Quando sexismo e racismo se aliam, um ambiente duplamente hostil silencia e distorce as vozes e as experiências das mulheres negras. A falta de representação e de proteções adequadas online também contribui para perpetuar esse ciclo de discriminação, exacerbando as desigualdades já existentes na sociedade fora das plataformas digitais.

A voz do povo

Enfrentar a violência e a discriminação racial na internet requer um esforço coletivo de governos, empresas de tecnologia, sociedade civil e usuários individuais. É um desafio que exige soluções multifacetadas, desde políticas rigorosas até educação contínua sobre inclusão e respeito. Movimentos sociais contra ataques online também são uma resposta ao aumento alarmante de casos de assédio, difamação e discriminação digital.

Alguns exemplos são as iniciativas #MeToo e #BlackLivesMatter, que ampliam suas plataformas para incluir denúncias e conscientização sobre abusos cometidos na internet. O movimento #MeToo, criado para expor e confrontar assédios sexuais, também abrange casos de cyberbullying e stalking digital, promovendo a solidariedade entre vítimas e encorajando a responsabilização dos agressores. A campanha #BlackLivesMatter tem sido um farol de resistência contra o racismo, nas ruas e também nas redes sociais, que amplifica vozes e expõe incidentes de discriminação racial online.

 

Essas movimentações não apenas visam aumentar a conscientização sobre a violência digital, mas também pressionam por mudanças estruturais em políticas e plataformas digitais. As mobilizações globais incentivam comunidades online a apoiar minorias e exigir medidas concretas das empresas de tecnologia e das autoridades para combater e prevenir abusos online. Essa ação coletiva representa um passo crucial na criação de um ambiente digital mais seguro, inclusivo e justo para todos.

"Terra sem lei"

O aumento dos crimes online é frequentemente atribuído à impunidade dos agressores, mas, mesmo no ambiente virtual, leis e regulamentações existem para proporcionar maior proteção a todos. No Brasil, diversas legislações foram criadas para punir delitos cometidos na internet e proteger os cidadãos contra abusos digitais.

A Lei nº 12.737/2012, conhecida como Lei Carolina Dieckmann, criminaliza invasões de dispositivos eletrônicos para obtenção de dados sem autorização e prevê penas de reclusão de até 3 anos. Além disso, a Lei nº 13.718/2018 tipifica o crime de divulgação de cena de estupro ou de nudez sem consentimento, ato conhecido como “pornografia de vingança”, com penas que podem chegar a até 5 anos de prisão. Essas leis visam combater práticas como cyberbullying, difamação e ameaças online, garantindo que os responsáveis sejam responsabilizados legalmente.

Adicionalmente, o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece direitos e deveres para usuários e provedores de internet no Brasil, regulamentando questões como privacidade, proteção de dados e responsabilidade civil por conteúdos gerados pelos usuários. Essa legislação não somente protege os direitos dos indivíduos na era digital, mas também define um quadro jurídico que permite a remoção de conteúdos ilegais ou prejudiciais das plataformas online e instaura um ambiente digital mais seguro e responsável.

 

 

Prisley Zuse

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: prisley.zuse@acad.55bet-pro.com

 

Ilustração: Instituto Avon

Revisão e publicação: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/06/26/gritos-do-silencio-o-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome Thu, 27 Jun 2024 01:37:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7793
Uma imagem de fundo vermelho. No centro tem um prato de comida vazio, com um rosto triste desenhado.

“O que vai ter de janta? Não sei, meu filho”. Não é incomum que esse diálogo seja repetido em centenas de lares brasileiros. Em agosto de 2022, a Globo News publicou uma reportagem especial com relatos de pessoas que sofrem com a insegurança alimentar grave no Brasil. Nela, o repórter cinematográfico Joelson Maia reuniu algumas histórias de pessoas que perderam sua renda e passaram a viver em situação de incerteza quanto às suas refeições.

Uma das histórias abordadas foi a de Cássia de Souza, moradora da favela Sol Nascente, local onde 79,94% dos domicílios são próprios em terrenos não regularizados, no Distrito Federal. Naquele momento, Cássia estava desempregada e vivia com seus filhos e sua mãe, também desempregada. Em um trecho da reportagem, ela conta sobre a carência de diferentes refeições e a dificuldade de acesso a uma renda regular: “Todo dia é arroz e feijão, raramente tem um ovo ou uma carne. A gente não tem como comprar porque hoje tudo está caro. Eu queria ter um emprego fixo, assim a gente poderia comer algo diferente e não só arroz e feijão”.

A realidade de Cássia e sua família não é única. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) define a insegurança alimentar como uma situação de irregularidade no acesso a alimentos de qualidade e suficientes para uma nutrição adequada. De acordo com o relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI), publicado em 2023, pela FAO, o Brasil possui 20,1 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, 9,9% da população. O levantamento revelou, ainda, que 70,3 milhões de brasileiros, ou seja 32,8% da população, estavam em estado de insegurança alimentar moderada, em 2022.

Segundo o mesmo documento, em 2014, o Brasil havia saído do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas. Os dados revelaram que, de 2002 a 2013, caiu em 82% a população de brasileiros considerados em situação de subalimentação, estado de insuficiência alimentar e prejudicial à saúde. Na época, a FAO destacou alguns aspectos eficazes na política de combate à fome no país, como o aumento da oferta de alimentos e da renda dos mais pobres com o crescimento real do salário mínimo, a geração de empregos e a criação do programa do Governo Federal de Acesso à Renda. No entanto, o país retornou a um cenário no qual a insegurança alimentar é grave.

Bolsonaro e a pandemia

Em 2019, no seu primeiro ano de governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) extinguiu, por meio da Medida Provisória 870, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão instituído em 1993 no governo de Itamar Franco. O conselho foi idealizado para atuar no combate à fome no país com a elaboração de políticas públicas e coordenação dos Conselhos Municipais de Segurança Alimentar (Comsea).

Para a professora do Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no campus Palmeira das Missões, Adriane Cervi Blümke, a extinção do Consea representou um retrocesso às políticas de combate à fome no Brasil. “Isso trouxe um impacto obviamente muito significativo, porque houve uma falta de articulação entre os outros setores que trabalham no combate à fome, como o setor da saúde, da agricultura e da educação, por exemplo. O Consea Nacional era responsável pelo planejamento e objetivos no combate à fome de 4 em 4 anos. Então o fato de ter sido extinto em 2019, a gente ficou sem esse plano justamente num período extremamente crítico, que foi a pandemia”, ainda explica Blümke.

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2020  –  início da pandemia de Covid-19 -, o número de indivíduos na condição de insegurança alimentar leve, moderada e grave, aumentou em 7,2%. A professora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM, Rita Ines Paetzhold Pauli reflete sobre o retorno do Brasil ao Mapa da Fome. “Quando o Brasil entra novamente no Mapa da Fome é porque houve a retração de políticas públicas ou um governo que não deu a devida importância para a questão, mas claro que muitas vezes também temos o problema das crises econômicas, como a crise mundial em 2008”, afirma. 

Para a professora, esse regresso tem a ver com desmonte de políticas públicas, principalmente no período pandêmico, quando houve demora na resposta do governo Bolsonaro na elaboração de medidas. Devido a esse cenário, em fevereiro de 2023, o presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que reinstalou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Distribuição de renda e o acesso a alimentação

De acordo com Pauli, o Brasil é visto como um “celeiro”. “Do ponto de vista do nosso desenvolvimento na agricultura, sempre se pressupõe que no Brasil não deveria haver fome, pois nós produzimos e exportamos muito. O problema da fome e da insegurança alimentar não tem sempre a ver com a possibilidade de oferta, mas sim com dificuldade na acessibilidade de renda”, explica.

A economista ainda aponta que a fome é uma consequência do sistema econômico capitalista, vigente na maioria dos países do mundo, inclusive no Brasil. “A gente não consegue reduzir totalmente, por exemplo, o desemprego. Ele é uma categoria do capitalismo que não vai ser extinta. O nosso governo já consolidou o Seguro Desemprego, porque já existe o reconhecimento de que sempre terá uma parcela da população desempregada, o mesmo funciona para a questão da fome, ela sempre vai existir, porque a fome é uma categoria do capitalismo”, elucida Pauli.

Conforme Blümke, é preciso garantir a segurança alimentar da população brasileira por meio de investimentos em equipamentos públicos, ou seja, mecanismos de acesso à alimentação adequada, como bancos de alimentos, restaurantes populares e cozinhas comunitárias. Entretanto, essas ferramentas não funcionam isoladamente, sem que haja uma ação conjunta dos outros setores sociais. “Em lugares onde o centro fica distante dos bairros periféricos, por exemplo, uma passagem de ônibus acessível é essencial para que as pessoas tenham acesso aos bancos de alimentos, às cozinhas, entre outros. É importante fazer essa coordenação para facilitar o acesso à população, não só uma parcela”, exemplifica Blümke.

Qualidade do alimento e consequências à saúde

Por muitos anos, a principal preocupação no combate à fome era a falta de recursos. No entanto, a qualidade nutricional dos alimentos acabou sendo negligenciada. Blümke alerta sobre as consequências de uma alimentação irregular e desbalanceada à saúde da população: “Existem sim efeitos negativos no desenvolvimento, no crescimento, no desenvolvimento cognitivo. Pensando nessa dimensão de saúde física e mental, a gente vai ter uma uma repercussão notável daqui alguns anos”.

“Hoje, vivemos num cenário não apenas de fome, mas de um acesso a uma alimentação totalmente desqualificada, por estarem mais disponíveis os alimentos ultraprocessados. Nos mercados mais periféricos, por exemplo, os produtos mais industrializados são os mais consumidos, já que a população dessas localidades, muitas vezes, não possui conhecimento sobre as consequências do consumo desse tipo de alimento”, acrescenta Blümke.

No Brasil, a agricultura familiar contribui para o fornecimento de alimentos mais saudáveis para a população. Segundo levantamento do IBGE, a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no país. “A agricultura familiar produz para as novas demandas urbanas que querem alimentos orgânicos e mais ecológicos. Isso permite uma acessibilidade da população a esse nicho de mercado que busca por esses alimentos livres de agrotóxicos, por exemplo”, conclui Pauli.

Embora muitos agricultores familiares busquem uma produção mais sustentável e livre de agrotóxicos, nem toda a agricultura familiar no Brasil é isenta desses produtos químicos. Diversos produtores ainda utilizam agrotóxicos devido a questões de custo, acesso a informações, pressão por altos rendimentos ou falta de alternativas viáveis para lidar com pragas e doenças. Em 2022, por exemplo, foram importadas 283 mil toneladas de agrotóxicos, conforme o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Pedro Pagnossin

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: pedro.moro@acad.55bet-pro.com

Foto: Acervo de imagens sem copyright.

Revisão: Kemyllin Dutra, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: kemyllin.dutra@acad.55bet-pro.com

Publicação: Elisa Bedin, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. Contato: elisa.bedin@acad.55bet-pro.com

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FM – Rádios-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/2024/06/26/gritos-do-silencio-o-pais-da-diversidade-que-nao-aceita-a-cultura-e-a-crenca-distinta Wed, 26 Jun 2024 18:21:26 +0000 http://www.55bet-pro.com/orgaos-suplementares/radio/?p=7795
Uma mulher preta, com vestimentas brancas que remetem a cultura religiosa da umbanda. Ela está no centro da fotografia, e foi retratada dos ombros para cima, com enfoque no rosto. O fundo está desfocado.
Foto: Helemozão (@helesalomao)

A religião desempenha um papel significativo na vida de muitas pessoas, com aproximadamente 8 em cada 10 indivíduos declarando ter alguma filiação religiosa. No Brasil, conhecido por sua vasta diversidade étnica e cultural, essa pluralidade estende-se também ao campo religioso, abrigando uma ampla gama de crenças. No entanto, apesar da presença de muitas religiões distintas, algumas crenças passam por questões de preconceito e perseguição. 

O cristianismo, a religião que detém mais fiéis no país, tem um número bem expressivo em relação às demais, sendo seguida por mais de 80% da população, os dados são da pesquisa do Datafolha, de 2021, a pesquisa foi realizada com 2.948 entrevistados em 176 municípios de todo o país. A dados também detalham que 50% dos entrevistados apontaram ser católicos e 31% disseram ser evangélicos, ou seja, mais de 80% dos entrevistados relatam serem cristãos. A pesquisa ainda apontou que 10% das pessoas relataram não ter religião, 3% relatam serem espíritas e 2% alegam serem de religiões de matriz africana.

Esses números são apenas reflexos do que encontramos no mundo, onde o cristianismo também é a crença com mais adeptos, segundo o relatório Global Religious Landscape (Panorama Global da Religião) de 2012, o qual revelou que 31,5% da população mundial considera-se cristã. Em seguida temos a religião muçulmana que segundo os dados do relatório consta com 23,2% da população mundial. Além disso, 16,3% declaram não ter nenhuma religião.

A presença de diversas religiões em um país, como, por exemplo, o Brasil, é um princípio básico do estado laico, mesmo que isso não ocorra da melhor maneira possível. O termo “estado laico” significa que um estado, país ou nação não admite a influência religiosa no seu modo de governar, ou de conduzir as instituições públicas. Além disso, o estado laico é o que permite, protege e respeita as distintas crenças e religiões em seu território.

Em contraste com o significado de estado laico, infelizmente, presenciamos a intolerância religiosa que afeta muitas religiões no país e no mundo. No entanto, no Brasil, especificamente, esse preconceito sobressai-se quando se trata de religiões de matriz africana, que são perseguidas, ameaçadas e amedrontadas por algumas pessoas de religiões distintas. 

Essa intolerância em relação às religiões de matriz africana é carregada de racismo, um preconceito que se instaurou no Brasil desde a chegada dos europeus ao país. Essa problemática não tem melhorado no decorrer das décadas, muito pelo contrário, ela se intensificou durante os mais de 300 anos do período escravocrata e não mudou apesar do fim da escravidão no país e nem com as Leis da Constituição Federal de 1988.

A infeliz presença da intolerância religiosa no Brasil tem um processo longo e duradouro, foi marcada e ocorreu de diferentes formas, pela perseguição, difamação e catequização sofrida por povos indígenas, povos quilombolas e pelo povo negro brasileiro.

Ressalta-se, essa afirmação do racismo sofrido pelo povo negro no Brasil, devido a todas as crenças ou cultura deste povo, que no país, de forma errônea, é considerada como algo de menor valor do que as demais culturas, e a religião não é uma exceção, pois assim como a capoeira, o samba ou a própria dança, em algum momento da história já foi perseguido, considerada como feitiçaria ou ainda como vagabundagem por algumas pessoas da sociedade brasileira que desconhecem ou são intolerantes com a cultura afro-brasileira.

Em contrapartida aos ataques e difamações que a cultura negra sofreu e sofre no país, destaca-se a resistência, palavra que representa a cultura negra que sobrevive no país, uma herança dos antepassados que resistiram às atrocidades sofridas e que hoje marca a identidade dessa nação. 

Racismo religioso

O termo racismo religioso, apresenta-se como uma forma de distinguir o preconceito que algumas outras religiões sofrem, pois o preconceito com religiões de matriz africana ocorre por serem religiões praticadas por pessoas negras e africanas, que foram escravizadas no Brasil, e não apenas por serem religiões diferentes das predominantes no país, mas sim por conta da cor da pele das pessoas que a praticam, ou seja, a intolerância religiosa é uma marca do racismo, e por conta disso é denominado como racismo religioso.

Essa denominação distinta decorre do histórico de racismo que está enraizado no país, e esse preconceito ocorre por conta da tradição dos povos tradicionais e originários. Os elementos históricos que constituem esses povos sofreram e sofrem com a repressão, escravidão e tiveram suas culturas usurpadas e demonizadas por povos europeus, colonizadores do país, sendo a religião um dos principais alvos desse racismo. 

Segundo os dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, as denúncias de intolerância religiosa no Brasil aumentaram 45% nos últimos dois anos. Relembramos que as denúncias podem ser feitas no disque 100.  Além disso, o combate à intolerância religiosa no país passou a ser comemorado no dia 21 de janeiro e passou a ser reconhecido como o dia de combate à intolerância religiosa no Brasil. Essa data foi escolhida, pois foi o dia do falecimento da baiana, Iyalorixá, conhecida como Mãe Gilda, que teve sua casa religiosa invadida diversas vezes por pessoas de religião diferente o que agravou a sua saúde, e no dia 21 de janeiro, Mãe Gilda reencontrou os ancestrais. O reconhecimento da data foi instituído por meio da Lei 11.635, de 2007 .

A Lei 10.639 e a saída para combater o racismo religioso

O combate à intolerância religiosa, principalmente em relação às religiões de matriz africana, pôde ser fortalecido através da implementação da Lei 10.639 de 2003, que completou 20 anos em 2023. A lei estabelece como uma das diretrizes de base da educação nacional o ensino da história e da cultura Afro-Brasileira nas escolas públicas como uma obrigatoriedade, como destacou a pesquisadora e umbandista Marina Pereira Furtado.

O ensino da cultura afro-brasileira se faz necessário dentro das escolas para justamente tornar os jovens conhecedores da cultura, a fim de não reproduzirem o racismo institucional e estrutural que ainda ocorre na sociedade brasileira, mesmo que algumas vezes ele ocorra de forma inconsciente. Além disso, por consequência, o ensino também é um meio para reduzir o racismo religioso.

Evidencia-se a riqueza das religiões de matriz africana existentes no Brasil, que por conta da escravidão diferentes povos vindos da África trocaram elementos que se assemelhavam e que acabaram a se fundir e criar as religiões afro-brasileiras que temos hoje, essas religiões de matriz africana, como denominamos, tem características que se assemelham, mas cada uma tem a sua especificidade. Destaca-se como algumas das religiões de matriz africana mais conhecidas no país, o Candomblé, a Umbanda e Quimbanda, além dessas, existem outras que são parecidas e que muitas vezes o nome de cada religião muda conforme a região em que está.

Além disso, o artigo 1° da Lei n° 12.735, de 2012, relata que serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.  Ressalta-se que o crime de racismo no último ano passou a ser inafiançável, e o período de reclusão é de 2 a 5 anos, com multa. A efetivação da Lei, é uma forma concreta de combater o racismo em um período de curto espaço de tempo. Para além do amparo legislativo, destaca-se novamente a importância de tornar os jovens cientes do quão prejudicial é a prática do racismo e conhecedores da riqueza da cultura afro-brasileira, sua historicidade e dinâmica cultural do próprio país, pois foi a partir dessa interação cultural que se elevou a cultura identitária e seus patrimônios imateriais pelos quais o Brasil é conhecido mundialmente.

Willian da Silva

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: willian-silva.ws@acad.55bet-pro.com 

Foto: Artista Helen Salomão (Insta: @helesalomao)

Revisão: Pedro Pagnossin, repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: pedro.moro@acad.55bet-pro.com

Publicação: Elisa Bedin, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. Contato: elisa.bedin@acad.55bet-pro.com

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