De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima Programa de Educação Tutorial Thu, 27 Nov 2025 12:56:38 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima 32 32 De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/11/27/enquanto-discutimos-o-mapa-do-caminho-o-futuro-nos-escapa Thu, 27 Nov 2025 12:56:36 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=357
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Franchesco de Oliveira* e Cláudia Herte de Moraes**

Depois de dias intensos em Belém, a COP-30 deixa de ser apenas um encontro global e se torna um ponto de virada (ou de cobrança) para o mundo. Agora, no pós-COP-30, é hora de olhar para além dos discursos e avaliar o que realmente ficou: os compromissos firmados, as tensões expostas, os avanços possíveis e as lacunas que persistem. Entre análises que apontam divergências internas, acordos considerados tímidos e expectativas não atendidas por cientistas, ambientalistas e negociadores, estamos em um momento decisivo para entender o que, de fato, mudou e o que ainda permanece na agenda climática mundial.

A conferência terminou com promessas de acelerar a transição energética, elevar o financiamento climático e estabelecer mecanismos mais rígidos de adaptação. Houve avanços, mas também frustrações: os países maiores emissores ainda resistem a metas vinculantes, e o financiamento aos países do Sul Global continua marcado por burocracias e disputas políticas. Ainda assim, Belém deslocou o eixo das discussões: a urgência climática tem território, tem povo, tem nome. E tem pressa. 

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, acompanhamos a preparação e a realização da COP-30 a partir de diferentes abordagens e jornalismos. Podemos afirmar que a pauta se consolidou como mais relevante e mais aprofundada nesta edição do evento, realizado no coração da Amazônia. A atmosfera e a proximidade da COP-30 trouxeram elementos de destaque para o debate sobre a emergência climática que, afinal, já está sendo vivenciada de forma avassaladora no mundo. 

Para a análise do Nexo, mesmo com a inclusão de temas na COP que geralmente passam ao largo da visibilidade midiática (justiça racial, gênero e participação social com a Cúpula dos Povos), o ponto central sobre os combustíveis fósseis e desmatamento foi considerado vago e incapaz de reparar minimamente a dívida histórica do Norte Global com o Sul Global. Neste sentido, a reportagem analisada colabora para um debate mais aprofundado sobre as causas do aquecimento global e não apenas sobre as consequências já sentidas em vários cantos do mundo. 

Da mesma forma, a BBC destacou que a COP-30 terminou sob o peso das ausências, sobretudo a dos Estados Unidos, e de um texto final que frustrou ambientalistas ao não incluir qualquer referência aos “mapas do caminho” para abandonar os combustíveis fósseis e zerar o desmatamento, duas das propostas centrais defendidas por Lula. Embora o “Mutirão Global” tenha sido saudado por evitar a implosão do Acordo de Paris, o recuo diante da pressão de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China, marcou um dos pontos mais sensíveis da conferência. Ainda assim, a BBC apontou avanços moderados, como o aumento do financiamento para adaptação agora com a meta de triplicar até 2035, a inclusão histórica do termo “afrodescendentes” nos documentos oficiais e a adoção de 59 indicadores globais para medir a capacidade de adaptação climática. Ou seja, o veículo destacou o avanço da justiça racial, incorporando uma visão mais complexa da questão climática que é socioambiental em sua base.

Para o G1 a palavra que resume a COP30 é frustração. A principal decepção foi a ausência total de menções aos combustíveis fósseis nos documentos finais, assim como  nos textos de Nexo e BBC.  O portal inclui uma avaliação de que  houve avanços simbólicos, como a inclusão inédita de referências a afrodescendentes. Indicou ainda que para a ONU, a falta de ambição reflete a conjuntura geopolítica fragmentada, com os Estados Unidos ausentes, a União Europeia enfraquecida e China relutante em assumir liderança. Observamos que a análise do G1 trouxe a visão da governança global, de forma indireta, indicando que para a construção de um caminho ainda há fortes entraves de Estados negacionistas e/ou pressionados pelas elites econômicas que atuam globalmente.

Diante desse conjunto de avanços pequenos e problemas que continuam sem solução, os textos do pós-COP funcionam como um alerta: o mundo não está discutindo apenas metas, mas o que ainda é possível evitar diante da crise climática. Belém mostrou a força dos povos da floresta, das vozes que quase nunca são ouvidas e da pressão social que tenta mudar o centro das decisões. 

Ficou evidente que as grandes potências defendem de forma cada vez mais aguerrida os seus interesses ligados aos combustíveis fósseis e que a política internacional segue dividida. Relembramos aqui uma análise deste Observatório sobre a cobertura da COP-28, em 2023, que tratava do mesmo tema: o abandono dos combustíveis fósseis é uma exigência de nosso tempo

Durante a “barqueata” que integrou a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30, o cacique Raoni disse: “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro.” O pós-COP-30 não é um encerramento, e sim um aviso: o planeta continua cobrando medidas concretas enquanto muitos países ainda hesitam em agir. O relógio climático não para e a história vai registrar quem escolheu empurrar o problema para depois, enquanto o futuro escapava.

*Franchesco de Oliveira é graduando em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: franchesco.castro@acad.55bet-pro.com

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com

***Publicado originalmente no no Observatório de Jornalismo Ambiental.

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De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/11/12/o-agro-nao-enche-o-prato-a-denuncia-que-a-cop-ignora Wed, 12 Nov 2025 19:05:52 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=352
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP 30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL. 

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental. 

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

 

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.55bet-pro.com

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com

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De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/10/22/vozes-indigenas-e-quilombolas-seguem-a-margem-da-cobertura-antes-da-cop-30 Wed, 22 Oct 2025 11:44:00 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=331
Indígenas descem a esplanada dos ministérios em direção ao STF para a realização de uma vigília contra o Marco Temporal. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**

Cerca de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas, estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações, secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna, de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.

Essa questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a 21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67 delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação aos eventos climáticos extremos.

Além das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil, em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.

Mas, ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.

Por outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.

A pouca atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas mais eficazes para todos nós.


*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.55bet-pro.com. 

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com.

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Crédito: Fotos Públicas

Por Jéssica Thaís Hemsing * e Cláudia Herte de Moraes**

Na reunião técnica preparatória para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30) em Bonn, na Alemanha, foi anunciada uma decisão inédita sobre a alimentação dos participantes: pela primeira vez na história, alimentos oriundos da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais estarão incluídos no cardápio da cúpula. 

No evento ocorrido em junho, o Brasil comprometeu-se a utilizar, no mínimo, 30% de alimentos produzidos na região, fortalecendo produtores locais. Mais do que incentivar a economia regional, essa medida impacta diretamente o combate às mudanças climáticas, contribuindo para a redução das emissões de carbono e outros gases de efeito estufa. Isso porque as cadeias curtas de alimentos reduzem o uso de transporte, enquanto a agroecologia utiliza menos insumos fósseis.

Fica, no entanto, a questão: trata-se apenas de um “prato bonito” para a foto oficial ou de um compromisso histórico capaz de deixar legado?  

A comunidade tem se mobilizado para que não seja um gesto pontual. A Comissão de Meio Ambiente (CMA) realizou uma audiência pública no Senado para lançar o Manifesto do Cooperativismo da Agricultura Familiar para a COP 30, reunir propostas sobre justiça climática, energias renováveis e agroecologia. 

Esse é um tema que merece centralidade no debate da COP 30. O que nos leva a questionar sobre a forma como a imprensa brasileira tem abordado essa relação.

Uma das poucas repercussões surgiu na revista Veja, que destacou o  fortalecimento de práticas agrícolas que respeitam a floresta e os saberes ancestrais das populações amazônicas. Por outro lado, o jornal independente Brasil de Fato, além de falar sobre a importância da preservação ambiental, buscou entender os desafios e oportunidades para a agricultura familiar e a agroecologia na COP30. O artigo do Brasil de Fato evidenciou que, pela primeira vez, a proposta de transformação dos sistemas alimentares é um eixo da Agenda de Ação da COP.

A existência de projetos e instituições dedicados à promoção da agricultura sustentável é fundamental. Um exemplo é o projeto “Na mesa da COP”, idealizado pelos institutos Regenera e Comida do Amanhã, que acompanharão de perto a implementação dessa nova política e atuarão na mobilização por políticas públicas e práticas alimentares capazes de fortalecer a agricultura familiar mesmo após a COP.

Segundo o Regenera, a compra de alimentos para o evento pode injetar até R$ 3,3 milhões na economia da agricultura familiar da região. Além de gerar renda, a política protege a diversidade biológica e cultural, junto com povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares que, acima de tudo, mantêm práticas agrícolas sustentáveis, respeitando os ciclos naturais e preservando o meio ambiente.

Uma das funções do jornalismo é – ou deveria ser, chamar a atenção de temas importantes e relevantes para a sociedade. Como é o caso da agricultura familiar e sua relação com as mudanças climáticas. Mesmo com o anúncio de que a COP30 contará com alimentos da agricultura familiar, esta pauta pouco repercutiu na discussão climática.

A agricultura familiar é potencialmente regeneradora e é uma forma de mitigação e adaptação climática. Isso demonstra um compromisso com os desafios socioambientais. A COP precisa pautar a soberania alimentar brasileira, e o jornalismo precisa dar a atenção devida a um debate que é central para nossa sociedade. Reportar a agricultura familiar não é apenas cobrir um evento, mas pensar que estamos diante do futuro do nosso planeta, a partir daquilo que será  semeado hoje na Amazônia.

 

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima (UFSM), E-mail: jessica.thais@acad.55bet-pro.com

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com

***Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) no RJ. Foto: Ricardo Stuckert/PR 

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes** 

A preocupação com a geopolítica, quando o assunto é a realização da 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) em Belém, acendeu o alerta sobre os desafios que estão postos, entre eles, a postura do presidente Trump ao retirar novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris. A tarefa do Brasil como país sede e um dos líderes do debate climático é ainda maior, como analisado pelo site Brasil de Fato, em função da necessidade de que os BRICS, bloco econômico que reúne países emergentes ao redor do mundo, sejam atraídos para a pauta ambiental, fazendo frente aos desafios globais.

Na primeira semana de julho, os países do BRICS enviaram um importante recado à comunidade internacional: países do Norte Global teriam que assumir mais protagonismo e responsabilidade na luta contra o aquecimento global. Em uma declaração divulgada em conjunto, o bloco cobra a ampliação da  participação dos países mais ricos nas metas de financiamento climático, reivindicando US$1,3 trilhões de dólares em investimento até a COP-30. 

Esse apelo relembra uma dura realidade: enquanto os países do Norte Global estão entre os que mais emitem gases de efeito estufa, quem ainda está mais vulnerável aos efeitos da crise climática são os países do Sul Global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, queimadas mais constantes e destrutivas afetam cada vez mais regiões que, como a América Latina, já enfrentam desigualdades sociais profundas. 

O governo brasileiro busca influenciar o debate para a questão climática com várias iniciativas, como noticiou o portal G1, quando o presidente Lula pautou o tema junto ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Também o site Opera Mundi relatou os esforços do Brasil em dar prioridade para o debate climático em razão da realização da COP, até mesmo como uma bandeira da política externa do governo federal. No entanto, a pauta econômica é ainda o foco principal da atualidade, especialmente pelo aumento de tarifas ao comércio internacional, impostas pelo governo estadunidense, o que dificulta que o meio ambiente receba maior ênfase entre os desafios regionais dos blocos econômicos e políticos.

Vale lembrar que os países latino-americanos, mais que apenas vulneráveis ao aquecimento global, também aparecem como protagonistas na busca por soluções para esta crise. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes, o continente latino-americano tem uma das regiões mais biodiversas do planeta. Sediar a COP-30 dentro da maior floresta tropical do mundo não é apenas importante simbolicamente, mas estrategicamente. Assim, podemos dizer que a COP-30 representa um espaço mais plural aos países latino-americanos e reacende uma integração regional em torno da luta contra as mudanças climáticas.

A América Latina pode se tornar referência em um desenvolvimento verde, mais justo e que respeite suas especificidades sociais, culturais, econômicas e ecológicas. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), 60% da eletricidade da América Latina é gerada a partir de energia renovável, posicionando-a como uma das redes elétricas mais limpas do mundo. Países como Brasil, México e Chile lideram o caminho para diversificação de fontes de energia eólicas e solares. A agroecologia, por sua vez, também está se enraizando cada vez mais nos países latino-americanos. Um estudo realizado em quase duas mil propriedades rurais na América Central constatou que os locais onde são implementadas práticas agroecológicas têm um solo mais arável, com mais umidade e menos erosão, e sofrem menos perdas do que os sistemas convencionais. A agroecologia representa uma alternativa ao modelo agroindustrial e propõe novas economias centrada no cuidado das pessoas e da natureza. 

A COP-30 pode ser o recomeço para pensarmos em uma sustentabilidade menos colonialista. Enquanto não olharmos para quem mais sofre com as mudanças climáticas, não poderemos desenvolver ações mais justas e eficazes para enfrentá-las. Ser mais sustentável talvez tenha a ver com assumir a latinidade de forma ampla, o que inclui perceber a rica diversidade biológica e cultural, seus povos originários, as influências diversas e saberes construídos coletivamente. Para o jornalismo ambiental importa trazer esse debate de forma aprofundada, pautando o papel da América Latina, como tratado por Um Só Planeta. A inclusão de um sentido de engajamento regional ao enfrentamento da crise climática passa por entender os caminhos possíveis desde os nossos territórios.

 

*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.55bet-pro.com

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com 

***Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental.

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Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Por Julia Weber* e Cláudia Herte de Moraes**

O debate climático internacional tem se concentrado em temas como desmatamento, emissões industriais e transição energética. No entanto, os conflitos armados também representam uma fonte relevante de emissões de gases de efeito estufa e devem ser considerados nas negociações climáticas multilaterais. A imposição da guerra de Israel contra a população palestina em Gaza chama a atenção tanto pelo volume de emissões gerado quanto pela complexidade da reconstrução.

Diante disso, a inclusão desse tipo de impacto no debate climático ganhou visibilidade com a recente missão humanitária internacional que chegou a Gaza por via marítima. A iniciativa envolve ativistas de diferentes países, entre eles nomes como Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila. A missão foi interceptada por Israel, evidenciando os  abusos e arbitrariedades das autoridades locais.

Greta Thunberg e seus colegas foram deportados. A jovem ativista, conhecida mundialmente por sua luta climática, passou a ser alvo de críticas por se manifestar em defesa da Palestina, “mas, na realidade, as causas andam intimamente ligadas”, conforme analisa Leo Sakamoto. Em sua coluna divulgada nas redes sociais do portal UOL, Sakamoto situa que a mudança climática pode ser considerada um tema urgente, mas é difuso, enquanto que falar contrariamente ao genocídio em Gaza é um tema silenciado. Desta forma chovem críticas à ambientalista sueca. A própria Greta Thunberg explicou que sua preocupação ambiental não é apenas para “salvar árvores”, mas que se importa com o bem- estar humano e planetário, afirmando que não há justiça climática sem justiça social.

A guerra mata inocentes e também ajuda ao declínio das condições ambientais da Terra. Segundo reportagem do portal “Um Só Planeta”, a ofensiva militar israelense em Gaza, entre outubro de 2023 e maio de 2024, foi responsável pela emissão de aproximadamente 281 mil toneladas de CO₂ equivalente. Esse volume supera as emissões anuais de mais de 100 países, conforme levantamento do “Social Justice and Ecology Secretariat”. De acordo com o estudo, as principais fontes dessas emissões foram os ataques aéreos, o deslocamento de tropas e o uso de equipamentos militares.

Além das ações militares, os impactos ambientais se estendem ao processo de reconstrução. Dados reunidos pelo portal “ClimaInfo” estimam que a reconstrução da infraestrutura de Gaza poderá gerar emissões superiores às de 135 países em um ano. O cálculo considera as atividades necessárias para reerguer cidades destruídas, incluindo o transporte de materiais, produção de cimento e geração de energia.

Esses aspectos revelam que os efeitos da guerra ultrapassam os limites da destruição imediata. Eles se projetam no ambiente e deixam marcas no território e no clima. Ao mesmo tempo, reforçam a compreensão de que seres humanos e natureza não estão desassociados, pois os impactos sobre um inevitavelmente repercutem no outro. Como lembra o pensador indígena Ailton Krenak, “a ideia de que a humanidade está separada da natureza é uma ficção moderna que tem custado caro ao planeta e à vida”.  Em contextos de conflito, a degradação ambiental e as condições de vida humana caminham lado a lado, demonstrando que é preciso considerar essas relações de forma integrada.

Sakamoto destaca que, segundo Greta Thunberg, o genocídio em Gaza aplica a destruição ambiental como arma de guerra, provocando perda de biodiversidade, contaminação da água, erosão do solo, destruição de terras agrícolas, e uso ainda mais intenso de combustíveis fósseis. Porém, o tratamento destas questões nos veículos de comunicação ainda é muito pontual, circulando apenas entre colunistas e portais não hegemônicos, como nesta repercussão na Pública. Chama a atenção, portanto, que grande parte da imprensa deixe de lado essa interseção entre clima e guerras, ações de poderosos que são totalmente inaceitáveis pelos danos aos direitos humanos, sociais e ambientais nos territórios afetados.

Discutir esta questão em fóruns como a COP 30, em Belém (PA), representa uma oportunidade para ampliar o entendimento da variável climática nos assuntos de segurança, geopolítica e desenvolvimento. Este tema deve fazer parte do debate público e contribuir para fortalecer a abordagem da justiça climática, conceito que tem ganhado espaço nas edições recentes das conferências. Para além disso, é necessário pensar em uma transição ambiental justa e que situe a dignidade da vida humana em todos os territórios. O respeito à diversidade deve orientar humanistas e ativistas em defesa da ação climática, da justiça e da paz. Também a comunicação precisa se pautar pela ética da sustentabilidade e da vida.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, bolsista do PET Educom Clima  E-mail: weber.julia@acad.55bet-pro.com.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com.

***Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental.

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De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/06/13/os-povos-no-centro-das-decisoes Fri, 13 Jun 2025 22:31:50 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=236
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por Patrícia Kolling*

 “Não haverá futuro possível sem os povos indígenas no centro das decisões globais. Ignorar os povos indígenas é comprometer qualquer chance real de enfrentar a crise climática”, essa é a essência da primeira NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) indígena, uma decisão política elaborada na Pré-COP Indígena, um encontro que reuniu 30 organizações indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil, entre 2 e 5 de junho, em Brasília (DF).

O documento, conforme notícia, exige que os Estados-membros da Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheçam a proteção dos territórios indígenas como ação climática prioritária. Também defende a criação de zonas livres de exploração extrativista em terras indígenas e a incorporação dos saberes tradicionais como estratégia legítima de restauração ambiental.

Como o evento citado acima, outros tantos têm acontecido no Brasil para a organização da participação dos movimentos sociais na COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil, em novembro de 2025, em Belém, Pará. O site Amazônia Real destaca que os movimentos sociais e organizações da sociedade civil da Amazônia, da América Latina e do mundo têm protagonizado uma mobilização histórica para garantir que as vozes dos territórios mais afetados pela crise climática sejam ouvidas nos espaços de decisão do evento.  Além de serem ouvidos, eles exigem participar das decisões globais que estarão acontecendo durante o evento. 

Paralelamente, a conferência mundial acontecerá a Cúpula dos Povos rumo à COP30, com a participação de 700 entidades representando indígenas, ribeirinhos, quilombolas, população negra, juventudes periféricas. Mais de 15 mil pessoas são esperadas na Cúpula dos Povos. “Queremos discutir soluções reais para os problemas ambientais e sociais sem nos limitarmos ao debate técnico, como as relacionadas à transição energética justa ou infraestrutura de matriz energética” destaca Iury Paulino, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O diretor do MPEG (Museu Paraense Emilio Goeldi, Nilson Gabas Júnior, reforça que as comunidades tradicionais da Amazônia precisam ser ouvidas e participar ativamente das decisões. “Não dá para falar de meio ambiente nem reconhecer a biodiversidade sem falar das pessoas que moram na amazônia e ajudam a preservá-la”, destaca o pesquisador.

Além das atividades previstas no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, a Cúpula dos Povos também pressiona por metas climáticas mais ambiciosas e pelo fim da presença de lobistas dos combustíveis fósseis nas COPs . Essas pautas são complexas, e mais do que citadas precisam ser debatidas pelos veículos de comunicação jornalísticos. Grandes interesses estão em jogo, e falar em profundidade sobre o assunto exige coragem.

Como diz texto da Folha de S. Paulo, a Cúpula dos Povos cobra decisões eficazes para o enfrentamento da crise climática, além de retomar o protagonismo da sociedade civil.  

Enfim, espera-se uma COP diferente, e a imprensa, principalmente os veículos focados nas questões ambientais, tem destacado este grito dos povos da floresta para fazerem parte de forma efetiva das decisões mostrando, que são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Na grande imprensa, as vozes dos movimentos sociais ainda está tímida. Mas, ainda há tempo para que a imprensa, se prepare para cobrir o evento com a criticidade e complexidade necessária. Pela primeira vez o evento acontece em solo amazônico, o que já é diferencial, e os veículos de comunicação podem fazer uma cobertura que vá além das reuniões das grandes cúpulas e repercuta as pautas e reivindicações dos povos tradicionais.

*Professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, 55BET Pro Araguaia. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental.

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De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/06/04/criancas-e-adolescentes-na-pauta-climatica-a-urgencia-de-inclui-los-nas-politicas-e-debates-da-cop-30 Wed, 04 Jun 2025 17:13:13 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=223 Por Nadja Nobre*

A crise climática é um dos principais desafios globais da atualidade, mas seus efeitos não recaem de forma igual sobre todos. Entre os mais impactados, crianças e adolescentes frequentemente são invisibilizados ou pouco considerados nos espaços de negociações internacionais, como a Conferência das Partes (COP), acordos climáticos, fóruns e também nas políticas ambientais brasileiras.

Dados apresentados pela ANDI que fazem parte do relatório The Climate Crisis is a Child Rights Crisis (2021), do Unicef, mostram que mais de 1 bilhão de crianças, quase a metade de todas as crianças do mundo, vivem atualmente em países expostos a riscos climáticos. Além disso, a exposição a eventos extremos, como enchentes, ciclones, secas e ondas de calor, afeta de maneira desproporcional meninos e meninas, colocando em ameaça seus direitos à saúde, educação, proteção e participação. 

No Brasil, essa vulnerabilidade é ainda mais acentuada. Os grupos mais expostos a desastres climáticos são, majoritariamente, famílias lideradas por mulheres negras e com presença de crianças, conforme aponta estudo do Unicef. Estima-se que 8,3 milhões de pessoas vivem em áreas classificadas como de risco no país, sendo que cerca de 2,1 milhões são crianças e adolescentes com até 14 anos de idade. O panorama é mais crítico na Região Norte, onde os menores de cinco anos correspondem a mais de 13% da população residente nessas áreas suscetíveis a desastres. 

À medida que nos aproximamos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que acontecerá em Belém (PA), o Brasil tem uma grande oportunidade e responsabilidade nas negociações globais, podendo liderar discussões estratégicas sobre financiamento para adaptação e mitigação, justiça climática e, sobretudo, garantir que os grupos mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, sejam incluídos nos debates e decisões. Mais do que uma oportunidade, trata-se de uma necessidade ética e política, especialmente para assegurar que as políticas ambientais integrem efetivamente essa faixa etária.

Com esse objetivo, a ANDI lançou recentemente o guia “Os direitos das crianças e dos adolescentes na pauta climática: guia para a cobertura jornalística”, de autoria de Aline Falco. A publicação busca apoiar profissionais da comunicação na abordagem da crise climática sob a perspectiva dos direitos de crianças e adolescentes, destacando como esse grupo é particularmente vulnerável aos seus impactos.

O guia está estruturado em quatro capítulos. Para começar, a autora apresenta informações essenciais sobre o histórico e o funcionamento das COPs, explicando como se dão as negociações e destacando a relevância do Brasil ao sediar a 30ª edição da Conferência das Partes. 

Na sequência, a publicação concentra-se em traçar um panorama sobre os principais instrumentos da política climática no Brasil, apontando avanços, desafios e o papel fundamental das políticas subnacionais e das ações locais. Afinal, as cidades são responsáveis por grande parte das emissões e, ao mesmo tempo, são vulneráveis aos seus impactos.

O guia aprofunda, então, a relação entre mudanças climáticas, infância e adolescência, propondo reflexões sobre o fato de que, embora crianças e adolescentes não sejam responsáveis pela crise climática global, são eles quem mais sofrem com a falta de medidas eficazes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Essa seção também evidencia como os impactos climáticos se entrelaçam com questões de renda, gênero, raça e desigualdade.

O estudo “Mudanças climáticas e seus impactos na sobrevivência infantil” (2024), da Fundação Abrinq, também mostra como os impactos climáticos afetam de maneira mais profunda meninas e meninos que vivem em contextos sociais e econômicos desfavoráveis. Esses efeitos se sobrepõem a outros fatores, como pobreza, falta de acesso a serviços básicos e infraestrutura inadequada, ampliando a vulnerabilidade dessa população. Além disso, o mesmo estudo revela que as crianças nascidas em 2024 estarão expostas, ao longo da vida, a riscos significativamente maiores devido ao aquecimento global. Se o planeta sofrer um aumento médio de 3°C, essas crianças poderão vivenciar até duas vezes mais incêndios e ciclones, três vezes mais enchentes, quatro vezes mais quebras de safra e até cinco vezes mais períodos de seca do que aquelas que nasceram na década de 1970. A vulnerabilidade a doenças tropicais, como dengue, malária e leishmaniose, também será maior, já que essas enfermidades tendem a se tornar mais frequentes com o avanço das alterações climáticas.

Por fim, o guia analisa criticamente a presença, e, na maioria das vezes, a ausência de referências à infância e adolescência nos principais acordos e documentos internacionais sobre mudanças climáticas. Mapeia também iniciativas e movimentos que buscam incluir as vozes dessa faixa etária nas negociações globais, não apenas como vítimas, mas também como sujeitos políticos com direito à participação.

Com essa publicação, a ANDI contribui para ampliar e qualificar a cobertura jornalística sobre as mudanças climáticas, especialmente ao articular a pauta ambiental com a garantia dos direitos de crianças e adolescentes. E destacar como a crise climática impacta de forma desproporcional esse grupo social é importante, especialmente agora, com a realização da COP-30 no Brasil.

Portanto, é fundamental e urgente que os profissionais de comunicação, a sociedade civil e formuladores de políticas públicas reconheçam e integrem as especificidades e vulnerabilidades desse grupo nos debates e na construção de soluções climáticas.

*Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com

**Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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De Olho na COP – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/05/21/central-da-cop-quando-futebol-vira-estrategia-de-comunicacao-climatica Wed, 21 May 2025 14:42:54 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=170 Por Júlia Gonsalo de Carvalho* e Cláudia Herte de Moraes**

A menos de seis meses da COP30, sediada em Belém (PA), o Observatório do Clima lançou a plataforma Central da COP. Por meio da linguagem do futebol, o projeto busca aproximar a população brasileira dos temas centrais da conferência climática da ONU. A iniciativa aposta na cultura popular como ferramenta de engajamento, com uma estética esportiva e metáforas típicas de narrações do futebol: rankings, placares, torcida, camisa 10 e até uma “Copa do Mundo da Ambição Climática”.

A proposta carrega um importante valor educomunicativo: traduzir, de forma acessível, os conceitos, riscos e decisões que moldam a agenda climática global. A plataforma combina linguagem didática com uma abordagem crítica, promovendo conteúdo sobre justiça climática, licenciamento ambiental, exploração de fósseis, desmatamento e educação climática. A comparação com o futebol não é apenas estética; é uma estratégia para inserir a questão climática no cotidiano, tornando-a mais compreensível e próxima de públicos que historicamente têm menos acesso à informação científica.

Observando o alcance da campanha, constata-se que ainda é limitado. A cobertura midiática sobre o lançamento da Central da COP permanece restrita a veículos especializados, como O Eco, e canais institucionais ligados ao terceiro setor, a exemplo do ISA. A ausência de repercussão nas mídias tradicionais, especialmente em canais mais acessados, evidencia um desafio comum às iniciativas de comunicação ambiental: a dificuldade de sair dos espaços já engajados. Por isso a importância de ações que buscam furar as bolhas da informação ambiental, de forma criativa. 

Além disso, a ideia da Central da COP é promissora ao colocar a educação climática como protagonista. Ao assumir que o acesso à informação é condição para a participação social, o projeto reconhece que a educação deve estar no centro das estratégias de enfrentamento à crise climática, como tratam ativistas do The Climate Reality Project Brasil, com o texto É o camisa 10 do clima. Essa concepção dialoga com a segunda proposta mais votada na 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente (5ª CNMA), que defende uma educação ambiental decolonial, contínua, crítica, integrada aos territórios e conectada aos saberes tradicionais e à justiça climática.

No entanto, para que iniciativas como a Central da COP cumpram seu papel estratégico, é preciso avançar em sua difusão. Não basta produzir conteúdos acessíveis se eles não chegam às comunidades escolares, aos territórios periféricos e aos grupos historicamente excluídos dos debates ambientais. A circulação da informação precisa ser articulada de forma ampla, por meio de redes educativas, canais populares de mídia, projetos de extensão universitária e ações territoriais. Mais do que comunicar, é necessário dialogar. Infelizmente parece que há pouco interesse em veículos de comunicação de grande alcance para esse diálogo.

 A COP30 é uma oportunidade para o Brasil reafirmar seu papel na diplomacia climática, mas também para fortalecer uma comunicação que eduque, mobilize e envolva as comunidades mais afetadas pela crise ambiental. A popularização dos debates climáticos não deve ser vista como um esforço secundário, mas como parte fundamental da resposta à emergência climática. Sem acesso à informação qualificada, não há participação cidadã efetiva. Sem engajamento, a justiça climática permanece restrita ao discurso, distante da realidade de quem mais sofre com os efeitos da crise. A falta de compromisso com a pauta ambiental ainda é um dos principais entraves para uma “virada no placar” da efetiva ação climática.

* Graduanda em Relações Públicas na UFSM, integrante do PET Educom Clima (UFSM), bolsista do Fundo de Incentivo à Pesquisa  (FIPE), E-mail: julia.gonsalo@acad.55bet-pro.com.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@55bet-pro.com.

***Publicado originalmente no Observatório de Jornalismo Ambiental.

Imagem: Reprodução do site Central da COP
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