Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima Programa de Educação Tutorial Mon, 13 Oct 2025 19:56:42 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=6.9 /app/themes/ufsm/images/icons/favicon.ico Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima 32 32 Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/10/13/dilemas-do-carro-eletrico-a-producao-e-o-descarte-desses-veiculos-ainda-representam-desafios-socioambientais-significativos Mon, 13 Oct 2025 19:56:40 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=329 Apresentados como solução limpa para o futuro da mobilidade, os carros elétricos conquistam cada vez mais espaço nos discursos sobre sustentabilidade. Mas, por trás das promessas de um planeta menos poluído, a produção desses veículos é feita de mineração intensiva, consumo energético elevado e problemas ainda distantes de serem superados.

Mais limpos… ou apenas diferentes?

De fato, os veículos elétricos reduzem as emissões diretas de gases poluentes e o ruído nas cidades. No entanto, a pesquisadora Meiry Mayumi Onohara, coautora do estudo “Comparações entre a Eficiência Energética de Carro Elétrico e de Carro à Combustão: uma análise dos impactos socioambientais e financeiros” (2022), alerta que a imagem de sustentabilidade é, em parte, ilusória.

“Existe uma percepção de sustentabilidade dos veículos elétricos que não considera totalmente os impactos ao longo de todo o seu ciclo de vida, incluindo o maior impacto ambiental inicial durante a fabricação e os desafios com o descarte e a reciclagem das baterias”, explica Onohara. “A fase de produção de veículos elétricos pode gerar significativamente mais emissões do que a de carros convencionais, principalmente devido à fabricação de baterias.”

Segundo dados da International Energy Agency (IEA), um carro elétrico pode demandar até cinco vezes mais minerais do que um modelo tradicional. A título de comparação, enquanto são necessários de 2 a 3 gramas de lítio para produzir a bateria de um iPhone 11, o módulo de energia de um Tesla Model S precisa de 12 quilos do metal, mas dependendo do veículo, essa quantidade pode chegar a 30 quilos.
A estimativa impressiona: se os 1,6 bilhões de carros no mundo fossem convertidos para modelos elétricos, seriam necessários mais de 19 milhões de toneladas de lítio, e isso sem considerar a troca desnecessária e constante para um novo modelo, incentivada por práticas de consumo cada vez mais aceleradas.

O estudo de Onohara e Onohara (2022) confirma que, embora os carros elétricos apresentem rendimento energético de até 90% na conversão da energia elétrica em movimento, frente aos 25% dos veículos a combustão, a fase de produção ainda é responsável por um impacto ambiental expressivo. A extração e o transporte das matérias-primas dependem de combustíveis fósseis e provocam degradação ambiental, especialmente em países latino-americanos que concentram as reservas minerais.

Carro elétrico sendo carregado em ponto recarga em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A corrida por minérios e os riscos para o Brasil

Boa parte do lítio que alimenta essa transição energética está na América do Sul, no chamado “Triângulo do Lítio”, formado por Chile, Bolívia e Argentina. De acordo com o “Guia Latam de Lítio”, produzido pela Agência EY, esses países detêm, juntos, metade das reservas globais conhecidas do mineral. 

 O Brasil também desponta como potência, com reservas significativas localizadas em Minas Gerais, na chamada Província Borborema e no Vale do Jequitinhonha, o qual equivale a 85% das reservas conhecidas, segundo reportagem do canal VE

A gigante chinesa BYD, uma das maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo, adquiriu direitos minerários sobre uma área em Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha (MG),  De acordo com documentos obtidos pela Reuters, a empresa já detém títulos de exploração emitidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM), o que marca a entrada direta da montadora na corrida global por minerais estratégicos.

Além disso, a mineradora Sigma Lithium, uma das líderes do setor, foi acusada por comunidades locais de ter contaminado um rio da região. Em resposta, a empresa passou a enviar caminhões-pipa semanalmente para cerca de 70 famílias. O caso reacende o debate sobre os impactos diretos da mineração em comunidades vulneráveis.
Outro ponto a se destacar é que a Sigma Lithium recebeu cerca de R$ 500 milhões do BNDES via o Fundo Clima, criado justamente para financiar ações de mitigação às mudanças climáticas. O financiamento serviu para dobrar a capacidade de produção da mina, o que gerou críticas sobre a real sustentabilidade desse modelo de desenvolvimento.

“Terras raras” na Amazônia

Além do lítio, os veículos elétricos dependem de um conjunto de 17 elementos químicos, as chamadas terras raras, que são essenciais em imãs, motores elétricos, catalisadores e componentes eletrônicos das baterias e sistemas de tração. 

Pesquisas geológicas recentes conduzidas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) indicam que províncias minerais do Norte do país, especialmente a Província Mineral de Carajás, no Pará, concentram depósitos significativos de minerais estratégicos, incluindo elementos de terras raras. De acordo com levantamentos apresentados pelo SGB, já foram documentadas assinaturas desses elementos em amostras coletadas na região, o que reforça o potencial da Amazônia como polo de exploração de insumos críticos para a transição energética.

O Brasil, aliás, está entre os países com maiores reservas estimadas de terras raras no mundo, de acordo com o SGB, corresponde a cerca de 23%,  fato que atrai atenção de investidores e de governos interessados em diversificar cadeias de abastecimento fora da China, hoje dominante no refino e na produção global. Ao mesmo tempo, a expansão da mineração na Amazônia levanta alertas por impactos ambientais e sociais conhecidos: a extração de minerais na região tem histórico de danos a ecossistemas e de conflitos com populações tradicionais. 

Ao mesmo tempo, a expansão da mineração na Amazônia levanta alertas ambientais e sociais. Especialistas apontam que a extração de minérios na região tem um histórico de impactos severos sobre ecossistemas e populações tradicionais. No Pará, os riscos são intensificados por casos de contaminação industrial, como o da refinaria Hydro Alunorte, em Barcarena, que foi alvo de investigações e relatórios parlamentares após o vazamento de rejeitos que afetaram igarapés e comunidades locais.

Belém será a sede da COP30, que ocorrerá entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025. Há expectativa de que a Conferência coloque a Amazônia no centro das negociações globais sobre clima e conservação. Mas especialistas e lideranças locais temem que a atenção internacional possa, em vez de resultar em proteção efetiva, abrir avenida para um modelo de “extrativismo climático”, isto é, favorecer a exploração acelerada de minerais estratégicos sem garantias ambientais e de direitos para as comunidades afetadas

O dilema da eficiência energética

Quando se trata de eficiência energética, a vantagem elétrica é clara. Um carro a combustão converte apenas 10% a 30% da energia do combustível em movimento, enquanto o elétrico aproveita até 90% da energia armazenada na bateria.

Mas, segundo Onohara, “a sustentabilidade dos carros elétricos é relativa e depende fortemente de fatores como a matriz energética utilizada para geração da eletricidade e os desafios associados ao descarte e à reciclagem das baterias”.

Além disso, os custos ainda são altos: o valor da bateria pode representar até 50% do preço total de um carro elétrico. Como apontam os autores do estudo da UFU, a produção desses veículos demanda investimentos pesados em infraestrutura elétrica e redes de recarga, o que reforça o caráter elitizado da “mobilidade verde”.

Transporte público e bicicletas

O investimento em ônibus elétricos, corredores exclusivos, metrôs e bicicletas compartilhadas têm impacto mais direto, democrático e ambientalmente responsável do que a substituição dos veículos individuais.

Por isso, em vez de apenas trocar motores a combustão por baterias, propostas mais sustentáveis priorizam transporte coletivo eficiente, infraestrutura para pedestres e ciclovias integradas. De acordo com o Caderno Técnico de Rotas Tecnológicas de Descarbonização do Transporte Coletivo no Brasil (ANTP) e estimativas do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), a expansão do transporte público e o incentivo à mobilidade ativa, como o uso de bicicletas e deslocamentos a pé, podem reduzir entre 20% e 30% das emissões de CO₂ do setor de transportes urbanos nas grandes cidades brasileiras, especialmente quando combinadas com políticas de planejamento urbano sustentável.

Além disso, cidades mais compactas, com serviços acessíveis a pé, o chamado urbanismo de proximidade, têm se mostrado mais resilientes às crises climáticas, econômicas e sociais.

O futuro sustentável com carro elétrico

Para Meiry Onohara, tornar o carro elétrico realmente sustentável no Brasil exigirá uma série de mudanças estruturais. “É necessário fortalecer a matriz energética com fontes renováveis, desenvolver a logística reversa para as baterias e expandir a infraestrutura de recarga e superar barreiras financeiras e de aceitação social.”, defende. 

É essencial investir em políticas públicas e conscientização sobre o descarte correto, para que a transição energética não repita os mesmos erros do extrativismo tradicional. Enquanto as tecnologias de reciclagem e reaproveitamento avançam lentamente, a corrida por minérios se acelera e o dilema permanece: Estamos realmente caminhando para um futuro sustentável, ou apenas repetindo velhos padrões de exploração sob um novo discurso?

Gabriela de Menezes | Integrante PET Educom Clima

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/09/24/a-narrativa-individualista-no-cenario-ambiental Wed, 24 Sep 2025 17:32:57 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=327 Enquanto pequenos grupos de pessoas dispersas reduzem seu impacto ambiental, as empresas utilizam a narrativa individualista para danificar o meio ambiente e não serem devidamente responsabilizadas. 

Em entrevista publicada no Mídia Ninja, uma das coordenadoras da Fundação Heinrich Böll Brasil, Maureen Santos, comentou sobre o tema. “É muito importante você mudar a sua prática e estar de acordo com a sua consciência, dando coerência à sua luta e militância, mas nada vai mudar se você não transformar o coletivo através da busca por políticas públicas, construindo ações coletivas e de engajamento”, afirma.

Diante da busca por um cotidiano consciente e de controle sustentável, surge o conceito de Green New Deal, Novo Acordo Verde, que teria como base implementar hábitos verdes na economia, por exemplo: trocar combustíveis fósseis por energias renováveis e limpas. Mas, segundo Santos, continuaríamos sob a ótica capitalista e consumista. “Esse esverdeamento do capitalismo trazendo o sistema para ser um pouquinho mais ambientalmente correto, na verdade não muda as verdadeiras práticas do próprio modelo”, diz ela. 

Outro termo criado dentro deste contexto é o greenwashing, que em sua tradução significa “lavagem verde”. A prática diz respeito à divulgação de sustentabilidade falsa por meio de empresas com o intuito de enganar consumidores, através do marketing. De acordo com pesquisa do Market Analysis Brasil e do Instituto Akatu, 85% das empresas que vendem seus produtos com alegações ambientais possuem propagandas enganosas ou falsas. Tal prática induz o público ao erro e tem reconhecimento pelo Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), o órgão aceita denúncias com provas emitidas pelos compradores.

Outra abordagem individual para um problema coletivo e global foi o estabelecimento da chamada ‘pegada de carbono’. O conceito foi inicialmente implementado por campanhas publicitárias, que evoluíram para aplicativos que notificavam as pessoas quando utilizavam serviços com emissões de gás carbônico na atmosfera, como forma de culpar o consumidor e não a empresa fornecedora.

A raiz dos problemas

Educados em fazer banhos curtos, economizar na hora de escovar os dentes, muitas vezes não nos damos conta de cobrar dos grandes responsáveis pela crise. Porém, relatórios especiais demonstram que um número pequeno de empresas é quem mais contribui com a maior parte das emissões globais. Segundo o relatório Carbon Majors, publicado em 2017, aponta a responsabilidade do aumento de emissões de gases do efeito estufa na indústria de combustível fóssil desde 1998. A culpabilidade de hábitos rotineiros se torna um desvio de atenção para os verdadeiros poluentes.

Foto: Worldpackers

Para sair desse circuito individualista, pode-se pensar por que esta estratégia é usada? Ela é considerada eficaz porque se conecta com o nosso senso de responsabilidade e de um sentimento de culpa. Aliás, em algumas pessoas também essas narrativas podem ampliar a ecoansiedade.

No episódio “Ecoansiedade” do projeto de extensão Mão na Mídia, a psicóloga Laís Piovesan fala sobre o que pode ser feito para que o excesso de informações sobre o aquecimento global não se torne um adoecimento. “Em relação à questão específica de como canalizar esse incômodo, essa preocupação, uma das formas que eu vejo que tem uma grande potência é o envolvimento em causas coletivas, seja por meio de projetos mais acadêmicos, seja por meio de voluntariado”, diz a psicóloga. 

Um grupo que sai da lógica singular é o Engajamundo, composto por jovens ativistas em prol da mobilização social sobre o meio ambiente. A organização promove formações, participação e advocacy para conscientizar os integrantes sobre seus impactos socioambientais e colocá-los à frente na tomada de decisões sobre o tema. Atualmente, o grupo utiliza as redes sociais como forma de disseminar informações ambientais ao público. 

Por Emylli Mariana Fontoura | Integrante do PET Educom Clima

 

Fontes:

Maureen Santos: Soluções individuais não mudam o meio ambiente http://midianinja.org/maureen-santos-solucoes-individuais-nao-mudam-o-meio-ambiente/

Quem são os maiores poluidores do planeta e qual a nossa parte nisso? http://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/12/25/quem-sao-os-maiores-poluidores-do-planeta—-e-qual-a-nossa-parte-nisso.htm?cmpid 

Greenwashing: entenda o que é e aprenda a se defender de propagandas falsas http://share.google/50PeMOgeHAQfwPD2S

Greenwashing no Brasil: Estudo revela que 85% das alegações ambientais nos produtos são enganosas http://envolverde.com.br/governanca/greenwashing-no-brasil-estudo-revela-que-85-das-alegacoes-ambientais-nos-produtos-sao-enganosas/

Home – Engajamundo http://share.google/9yJyEvachzH0JxSGK

Projeto de extensão Mão na Mídia – Ecoansiedade http://open.spotify.com/episode/2wEZwDqpdQxmCU4w20wW3n?si=Jsn0qA4sQHGpjzz62YO7hw 

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/09/03/entre-a-ciencia-e-as-redes-sociais-a-urgencia-da-educacao-midiatica-para-o-clima Wed, 03 Sep 2025 20:39:57 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=267 Não há como negar: as redes sociais se tornaram a principal forma de comunicação e fonte de informação dos dias atuais. Segundo dados da pesquisa global Digital News Report 2025, produzida anualmente pelo Reuters Institute, 63% da população brasileira afirma consumir notícias via redes sociais. Elas intermediam nossas relações pessoais, influenciam nossos gostos e comportamentos e, especialmente, adaptam as informações (ou desinformações) que chegam até nós. Nesse cenário complexo, a educação midiática ganha maior importância. 

Enquanto você navega pelos vídeos curtos no Instagram ou no TikTok, é bem provável que você já tenha se deparado com algum conteúdo de educação midiática, a partir de divulgadores de ciência. Ao se divertir e achar graça de um vídeo da bióloga Mari Kruger, por exemplo, estamos colocando em prática essa ideia. Não estamos apenas consumindo entretenimento, mas aprendendo com informações de qualidade, de forma clara, verídica, didática e bem-humorada. Em outras palavras: estamos nos educando midiaticamente. 

A educação midiática nasceu justamente com o intuito de possibilitar o desenvolvimento de habilidades para acessar essas informações, interpretá-las criticamente e assim compreender e produzir conteúdos com responsabilidade.

Com o avanço da desinformação climática, especialistas defendem esforços para a compreensão deste processo, bem como incluem a educação midiática como forma de enfrentamento. Para a professora e pesquisadora Cláudia Herte de Moraes, tutora do PET Educom Clima na UFSM, entender a realidade dos meios de informação e comunicação é hoje tão importante quanto, por exemplo, aprender as lições básicas de alimentação saudável e cuidados com a saúde. “A educação midiática é uma ferramenta importante para a educomunicação, uma área mais ampla que propõe a transformação social, principalmente pelo exercício do direito à comunicação, de forma dialógica e participativa.”

Redes sociais são mais utilizadas pelos brasileiros para consumir notícias. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Quem está na contramão do algoritmo… 

Segundo dados do Instituto Locomotiva, quase 90% da população brasileira admite ter acreditado em algum conteúdo falso nas redes sociais. Por outro lado, divulgadores e influenciadores utilizam essas mesmas ferramentas e plataformas para enfrentar as ondas de fake news e desinformação que atingem um número cada vez maior de pessoas.  

É o caso da divulgadora científica Karina Lima, que integra um perfil dedicado a comunicar a ciência climática. Por meio das redes, ela informa sobre a emergência do clima e o aquecimento global, além de combater o negacionismo climático. Doutora em Climatologia pela UFRGS, Karina compartilha conhecimento de forma acessível e engajada. Em entrevista recente ao podcast Eco Vozes, do projeto de extensão Mão na Mídia, Karina comentou como iniciou nesta área. “Eu sou uma cientista do clima e quando percebi que eu poderia contribuir também de outra forma, no caso, por meio da divulgação científica, eu comecei a fazer isso nas redes sociais. Eu acho que desde 2020, mais ou menos.”

Ela destaca a importância de fazer divulgação científica, levando dados e informações ao público sem alarmismo. “É bem difícil, porque ao mesmo tempo que a gente tem que mostrar a gravidade da situação, a gente não pode ficar relevando isso ou subestimando essa gravidade […] Mas ao mesmo tempo, essa comunicação não pode ser paralisante. Ela não pode chegar ao ponto em que as pessoas se sentem desmobilizadas ou achem que acabou tudo, que induz a um fatalismo.” A divulgadora defende que ao mesmo tempo que mostramos a gravidade da situação climática, também às sensibilizamos. E só assim conseguiremos gerar transformação.  

Projetos educomunicativos

“Você já parou para pensar no que faz com que a Terra seja habitável?” É com esse questionamento que inicia o primeiro capítulo, O Efeito Estufa, do guia ilustrado Eunice, o espaço unificado de informação climática e engajamento, criado pelo Observatório do Clima. O nome do projeto foi dado em homenagem à cientista estadunidense Eunice Foote, que foi uma das pioneiras na descoberta do efeito estufa, e tem um objetivo simples: ajudar o público a entender as mudanças climáticas de forma didática e acessível.

Guia ilustrado Eunice/Reprodução.

No formato de um mapa, o guia inicia no passado, explicando o que é o efeito estufa; então percorre o presente, falando da descoberta da crise climática e mostrando as causas e os culpados do aquecimento global, e vai até o futuro, explicando o que pode acontecer se não fizermos nada para mudar o nosso destino. Nesse caminho, ele passa por questões econômicas e políticas e exemplifica os efeitos delas no meio ambiente.

Eunice faz parte de um conjunto de projetos que mesclam educação e comunicação com o objetivo de ampliar o acesso à informação e a construção de conhecimento por meio da participação ativa dos educandos na sociedade. Entre a ciência e as redes sociais, a educação midiática mostra que há caminhos possíveis para transformar informação em consciência — e consciência em ação.

Por Bruna Einecke | Bolsista PET Educom Clima

 

Saiba mais

http://eunice.oc.eco.br/ 

http://papodedev.com.br/2025/06/28/consumo-de-noticias-brasil-2025/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-04/quase-90-dos-brasileiros-admitem-ter-acreditado-em-fake-news

http://educamidia.org.br/educacao-midiatica/

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/08/18/licenciamento-ambiental-a-queda-de-braco-que-ameaca-os-biomas-brasileiros Mon, 18 Aug 2025 21:45:53 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=261 O desmatamento no bioma Pampa representa uma preocupação ambiental significativa, impulsionado pela conversão de áreas de vegetação nativa em lavouras e pastagens. Embora um relatório recente, realizado pela MapBiomas, tenha apontado uma redução de 42% no desmatamento do Pampa em 2024, a perda contínua de cobertura vegetal reflete a expansão constante da agricultura, especialmente do cultivo de grãos. Os cenários atuais em todos os biomas preocupam, ainda mais com as possibilidades de retrocessos na legislação de proteção ambiental no Brasil.

Esse é o caso da discussão sobre a flexibilização das regras de licenciamento ambiental que ganhou força com a tramitação de uma ampla reforma na legislação. A proposta, aprovada na Câmara dos Deputados em 2021 e no Senado em meados de 2025, criava um arcabouço legal que, segundo críticos, poderia facilitar a poluição descontrolada, aumentar o risco de tragédias como a de Brumadinho e intensificar a crise hídrica e o desmatamento. Desde sua aprovação inicial na Câmara, o projeto passou a ser visto por pesquisadores, pelo Ministério Público Federal e por organizações da sociedade civil como o maior retrocesso ambiental das últimas décadas no Brasil. Pela gravidade dos possíveis impactos, ganhou apelidos como “PL da Devastação” e “mãe de todas as boiadas”.

O “PL da Devastação” reflete o interesse econômico de setores que contrariam o Artigo 225 da Constituição Federal, que estabelece o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado como um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”. O texto constitucional impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. “Pode ser considerado o maior ataque à legislação ambiental brasileira”, afirma André Trigueiro, jornalista da Globo News, em um vídeo divulgado em seu perfil no Instagram

Na prática, o PL da Devastação poderia abrir caminho para a “passagem da boiada” em áreas de preservação. Dos 31 deputados federais do Rio Grande do Sul, 21 votaram a favor do Projeto de Lei 2.159/2021. Mesmo após testemunharem e sentirem na pele as consequências da degradação da vegetação nativa, como nas enchentes de 2024, o que evidencia a contínua priorização de interesses econômicos em detrimento do meio ambiente por parte de seus apoiadores.

Mobilização nas ruas e redes pressionam pelo veto presidencial

Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

O ativismo ambiental mobiliza ruas e redes. Nos últimos meses, centenas de organizações e movimentos sociais e ambientais têm realizado manifestações em diversas cidades do país contra o PL da Devastação. Em São Paulo, o ato ocorrido na Avenida Paulista, no dia 13, contou com o apoio de 80 dessas entidades.

As mobilizações tiveram como objetivo pressionar os deputados a rejeitarem a proposta e também o presidente da República. A expressão “mãe de todas as boiadas” tornou-se um símbolo dessa luta, em referência à fala do ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que em 2020 sugeriu aproveitar que a atenção da mídia tinha foco na pandemia de Covid-19 para “passar a boiada” nas regras ambientais, no momento em que as pessoas estavam fragilizadas e preocupadas com a doença que se alastrava no país.

Além das manifestações presenciais, as organizações lançaram o site PL da Devastação para ampliar a pressão sobre os congressistas. Para o site de notícias “Agência Brasil”, o arquiteto urbanista, ativista e porta-voz da Rede Sustentabilidade em São Paulo, Marco Martins, alerta que o projeto antes dos vetos, “desestrutura completamente o licenciamento ambiental no Brasil”.

Nas ruas de Curitiba, com cartazes e palavras de ordem, manifestantes exigiram o veto integral ao PL pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, unificando o grito nacional: “Veta tudo, Lula!”. O protesto realizado em 02 de agosto reuniu ambientalistas, movimentos sociais, trabalhadores e estudantes, encerrando com performances simbólicas, como a queima de uma bandeira dos Estados Unidos, em crítica à submissão de interesses ambientais a pressões econômicas internacionais.

Presidente veta pontos-chave, mas governo edita MP

Enfim, em 8 de agosto de 2025, o presidente Lula sancionou o projeto com vetos considerados estratégicos. Dos quase 400 dispositivos aprovados pelo Legislativo, 63 foram vetados, impedindo a implementação da licença automática (o chamado “autolicenciamento”), reforçando a proteção de áreas mais sensíveis e garantindo a exigência de estudos de impacto ambiental para projetos prioritários. Conforme a ministra Marina Silva, os vetos também foram essenciais para defender direitos de povos tradicionais e originários, que ficariam privados de serem ouvidos.

O veto presidencial também manteve a possibilidade de impor condicionantes para impactos indiretos, preservou a análise técnica obrigatória em Unidades de Conservação e impediu que produtores rurais com Cadastro Ambiental Rural (CAR) pendente fossem dispensados do licenciamento. Um dos vetos mais importantes foi à criação da Licença por Adesão e Compromisso (LAC) no formato monofásico, o “autolicenciamento”, no qual o próprio empreendedor se declararia em conformidade com a lei.

No entanto, no mesmo dia, o governo publicou a Medida Provisória (MP) 1.308/2025, que institui a mesma LAC, mas em um formato distinto. A nova versão não prevê a análise em fase única, mas ainda permite acelerar a autorização para obras e empreendimentos considerados estratégicos pelo Executivo. Embora já esteja em vigor, a MP é vista com ressalvas por ambientalistas.

Toda essa discussão tem muitos interesses econômicos em jogo. E o cenário ainda é incerto, pois há uma forte pressão de setores poderosos para a derrubada dos vetos de Lula, especialmente da bancada ruralista e de outros parlamentares que querem maior autonomia a estados e municípios. Um dos alvos principais é o veto que impediu a transferência irrestrita da competência para definir critérios de licenciamento aos entes federativos, com senadores argumentando que a manutenção do veto fere o pacto federativo. A derrubada deste e de outros vetos restauraria a versão original e mais controversa do projeto, intensificando a probabilidade de judicialização. Para derrubar um veto presidencial, é necessária a maioria absoluta dos votos em ambas as Casas.

Assim, da mesma forma que a mobilização da sociedade civil foi fundamental para garantir os vetos aos piores retrocessos, o tema agora segue para uma nova rodada de embates, debates e ativismo, definindo o futuro da proteção ambiental no Brasil.

Por Raquel Teixeira Pereira | Bolsista PET Educom Clima

Fontes:

http://www.camara.leg.br/noticias/1186832-lula-sanciona-novo-licenciamento-ambiental-com-63-vetos/

http://apublica.org/2025/08/sobre-os-vetos-de-lula-e-os-proximos-capitulos-da-novela-do-pl-da-devastacao/

http://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/08/marina-silva-detalha-vetos-no-pl-do-licenciamento-ambiental-no-bom-dia-ministra-desta-quinta-14

 

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/06/25/na-expectativa-da-cop-30-educacao-ambiental-e-caminho-para-engajamento Wed, 25 Jun 2025 14:23:53 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=243 Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado desastres ambientais recorrentes como enchentes, deslizamentos de terra, queimadas e secas que deixam marcas profundas, sobretudo nas regiões mais vulneráveis. Embora as mudanças climáticas e a má gestão do território sejam fatores evidentes, há um elemento crucial muitas vezes negligenciado: a falta de preparo e de consciência da população para lidar com os riscos. Diante da repetição dessas tragédias, é urgente olhar para além das medidas emergenciais e das obras de contenção. Em ano de COP no Brasil, a Educação Ambiental surge como um caminho capaz de formar cidadãos mais conscientes, engajados e preparados para prevenir e enfrentar esses desafios com responsabilidade coletiva.

Educação Ambiental como prática de escuta e transformação

A educação ambiental vai além de ensinar conceitos sobre natureza e sustentabilidade. Para quem vive essa prática no dia a dia, como a bióloga Maria Clara Pinheiro, supervisora do Projeto Meros do Brasil no Pará, ela é um processo de acolhimento, troca e transformação. “Educação ambiental não é só levar conhecimento técnico para as comunidades. É antes de tudo criar um espaço de escuta, entender os modos de vida, os saberes que muitas vezes são passados de geração em geração e que a gente, da universidade, nem sempre conhece”, diz. À frente das ações de educação ambiental do projeto na região de Belém, Maria Clara atua com crianças, jovens e adultos em comunidades tradicionais. Nessas localidades, a pesca é a principal atividade econômica e de subsistência, mas também um setor marcado por dificuldades. “Os pescadores são fundamentais para a nossa região, mas são os que menos recebem apoio e políticas públicas. Quando se fala em conservação marinha ou em evitar desastres, muitas vezes se aponta para eles como vilões. Mas a realidade é outra. São eles que mais sentem os impactos das mudanças no ambiente”, explica.

Exibição do Cine Meros: sessão com curtas sobre o meio ambiente e documentário do peixe mero, promovendo reflexão e consciência ambiental.

O Projeto Meros do Brasil tem como foco a preservação do mero (Epinephelus itajara), conhecido também como bodete, canapú, badejão, merote ou “senhor das pedras” na tradução tupi-guarani, espécie que há mais de 20 anos está em processo de extinção e que ainda é capturada na região. Maria Clara conta que, ao trabalhar a educação ambiental com os pescadores, o objetivo nunca é culpabilizar. “Eles não são os responsáveis pelo desaparecimento do mero. O nosso papel é sensibilizar, mostrar como cada um pode contribuir, mas sempre com respeito e diálogo. Muitas vezes, o que a gente acha que vai ensinar, eles já sabem de outra forma, porque aprenderam com os pais, com os avós.” Para ela, a educação ambiental em comunidades tradicionais deve ser construída de dentro para fora. Quando o assunto são os desastres climáticos, como as enchentes e queimadas que se intensificam no Brasil, Maria Clara defende que a educação ambiental deve ser feita com cuidado, principalmente com crianças. “Não podemos tirar das crianças o direito ao livre brincar, sobrecarregando-as com um peso que não cabe a elas. Com os adultos, o desafio é outro: mostrar que podemos transformar nossa realidade local, sem gerar aquele sentimento de impotência diante de problemas tão grandes”, afirma.

Maria Clara também critica a forma como as decisões sobre o meio ambiente costumam ser tomadas pelos governos. “As leis e normas vêm de cima para baixo, sem diálogo com quem vive na base, com quem está na linha de frente dos impactos. Isso precisa mudar. Precisamos dar voz às comunidades para que elas participem das decisões que vão afetar suas vidas”, reforça. Para transformar essa realidade, Maria Clara acredita que o primeiro passo é cultivar a empatia e o senso de comunidade. “A gente só vai avançar na preservação ambiental e na prevenção de desastres quando entender que o problema do outro também é meu. É ajudando o vizinho, cuidando do nosso entorno, que a mudança acontece. A educação ambiental deve despertar esse olhar coletivo”, defende. Além disso, ela destaca a importância de projetos que levem conhecimento prático e despertem novas perspectivas em crianças e jovens. “Às vezes, um simples exemplo, como construir um terrário ou observar o ciclo da água, já acende uma chama de curiosidade. Isso abre um mundo novo para quem vive em realidades muito duras, onde a perspectiva muitas vezes se limita ao que está ao redor.”

A professora Cláudia Rodrigues Castro, jornalista, doutora em Educação e pesquisadora da área de comunicação e questões sociais, destacou a importância da educomunicação socioambiental como ferramenta essencial na formação de professores e na conscientização das comunidades. Segundo ela, o trabalho que desenvolve busca orientar docentes para atuar em parceria com a população, utilizando as mídias comunitárias como forma de alerta e prevenção a desastres. “A educomunicação socioambiental é um processo que vai além do conhecimento técnico. É um trabalho que visa preparar professores para atuar em comunidade, criando espaços de escuta e aprendizado mútuo, onde se compreendam os riscos e se desenvolvam ações preventivas antes, durante e depois de desastres”, explica.

Cláudia também trouxe uma reflexão crítica sobre como a educação ambiental ainda é tratada nas escolas. “Enquanto a gente trabalhar a educação ambiental com conceitos duros, técnicos, sem estimular uma consciência crítica, vamos continuar só na superfície. Falta o que eu chamo de reforma íntima, uma consciência ética de pertencimento ao meio ambiente”, afirmou. Para ela, o ser humano precisa se enxergar como parte do ecossistema e abandonar a visão de superioridade que, muitas vezes, ainda predomina na sociedade e no próprio ambiente escolar. “Foi um choque quando percebi em minha pesquisa que muitos professores ainda veem o ser humano como algo à parte da natureza, como se fosse um ser supremo”, contou. Sobre o papel das universidades, Cláudia ressalta: “A universidade precisa formar profissionais conscientes, que atuem de forma transformadora na sociedade. Isso vale para professores, comunicadores, assistentes sociais, engenheiros, todos que lidam diretamente com questões socioambientais”. Ela também destaca a urgência de levar o debate ambiental para além das escolas e das situações de emergência. “Infelizmente, muitas vezes só se leva educação ambiental às comunidades mais vulneráveis quando ocorre um desastre de grande proporção. A gente precisa atuar antes, com uma pedagogia que ensine a contemplar, observar, sentir o ambiente para preveni-lo de chegar à degradação”.

Espaço de escuta

As expectativas de Maria Clara Pinheiro e Cláudia Rodrigues para a COP 30 se encontram no desejo comum de que o evento vá além das palavras e promessas. Maria Clara demonstra preocupação com a exclusão das populações que mais deveriam ser ouvidas no processo, como as comunidades periféricas e tradicionais. “Infelizmente, quem deveria ser ouvido não vai ser. A cidade está sendo modificada sem considerar a realidade de quem mora aqui. Minha esperança é que a gente consiga usar esse momento para fazer barulho, sensibilizar mais pessoas e reivindicar o direito das periferias, que são as mais impactadas, de participar das decisões sobre o próprio futuro”, relata a bióloga, que atua diretamente junto às comunidades na região amazônica.

Cláudia reforça essa crítica ao destacar que discussões e articulações, por si só, não bastam para transformar a realidade socioambiental. “Vai haver muita discussão, muita articulação, e isso é importante. Mas só o discurso não resolve. É preciso formar consciência e mudar a prática. A natureza não é só biologia; é também relação social. E a maior dificuldade que temos hoje é que o ser humano ainda não se entende como parte desse contexto”, afirma a pesquisadora. Ambas defendem que a COP 30 precisa ser um espaço de real escuta e de construção de caminhos concretos, que integrem as vozes das populações mais afetadas e promovam mudanças efetivas na forma como a sociedade se relaciona com o meio ambiente.

Por Franchesco de Oliveira Y Castro | Bolsista PET Educom Clima

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/05/07/o-papel-da-juventude-no-ativismo-ambiental Wed, 07 May 2025 13:29:19 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=165 Nas últimas décadas, o agravamento das mudanças climáticas e seus impactos globais têm exigido não apenas respostas institucionais e governamentais, mas também um envolvimento cada vez mais ativo da sociedade civil na busca por soluções sustentáveis e justas. Nesse cenário, destaca-se a crescente participação da juventude como um dos atores sociais mais expressivos e engajados na luta ambiental. Longe de se limitar a uma posição passiva diante das transformações ambientais e sociais que marcam o século XXI, os jovens vêm assumindo um papel de protagonismo nas mobilizações por justiça climática, influenciando discursos, políticas e comportamentos por meio de múltiplas formas de ativismo e resistência.

O artigo “Juventude e Mudanças Climáticas”, de Marcos Aurélio Freire da Silva Júnior e Rylanneive Leonardo Pontes Teixeira, oferece uma contribuição relevante para a compreensão desse fenômeno ao analisar como a juventude, especialmente nos contextos periféricos e do Sul Global, tem se articulado politicamente em torno das pautas ambientais. Segundo os autores, a juventude não apenas reconhece os riscos e as desigualdades associadas às mudanças climáticas, mas também busca transformar esse reconhecimento em ação política concreta. Essa mobilização se dá tanto em espaços institucionais — como conferências climáticas internacionais e conselhos de juventude — quanto em ações locais, coletivas e autônomas que combinam ativismo digital, ocupação do espaço público e pressão sobre os tomadores de decisão.

O envolvimento juvenil nas causas ambientais, portanto, não se limita a uma adesão discursiva ou simbólica às agendas ecológicas. Ao contrário, trata-se de uma participação ativa, crítica e criativa, que questiona as estruturas de poder que sustentam o atual modelo de desenvolvimento baseado na exploração desenfreada dos recursos naturais e na exclusão de populações vulneráveis. Em suas múltiplas expressões — que vão desde o movimento global Fridays for Future até iniciativas comunitárias em bairros marginalizados — o ativismo ambiental juvenil representa uma ruptura com formas tradicionais de participação política e inaugura novas práticas de engajamento que combinam inovação, sensibilidade social e consciência planetária. Entre outros exemplos, podemos citar a Amanda Costa (Perifa Sustentável) e a Txai Suruí, que iniciaram suas mobilizaçoes comunitárias muito jovens e hoje são destaque do ativismo ambiental.

Fonte: Site Green Peace (Foto:Marie Jacquemin/Greenpeace) Dísponivel em: http://www.greenpeace.org/static/planet4-brasil-stateless/2021/11/67ddc888-gp1swilb_medium_res-1.jpg. Acesso em 03 Mai 2025.

Outro elemento central na atuação ambiental da juventude é o uso estratégico das redes sociais digitais como ferramentas de mobilização, visibilidade e construção de narrativas críticas. Plataformas como Instagram, TikTok e Twitter têm se consolidado como espaços fundamentais para a denúncia de injustiças socioambientais, a organização de protestos e a elaboração de discursos alternativos àqueles difundidos pelos grandes meios de comunicação. No Brasil, essa prática vem sendo estudada por autores como Raquel Recuero (2014), que destaca como as redes digitais possibilitam formas de ação coletiva em rede, caracterizadas por dinâmicas descentralizadas, colaborativas e marcadas pelo engajamento afetivo.

No campo ambiental, esse ativismo digital tem permitido que jovens de diferentes regiões e realidades se conectem em torno de pautas comuns, como justiça climática, preservação dos biomas e defesa dos territórios tradicionais. Essa conectividade amplia o alcance das mobilizações e fortalece identidades coletivas que atravessam fronteiras geográficas e culturais. Iniciativas como os perfis de coletivos indígenas, quilombolas e de juventudes periféricas nas redes sociais são exemplos de como esses espaços digitais têm sido apropriados para visibilizar lutas historicamente silenciadas.  A exemplo, é possível citar Maira Gomez, uma jovem descendente de povos originários do Brasil que possui uma conta nas redes sociais, mais especificamente no Instagram. Nesse perfil, a mesma demonstra seu dia a dia e tira dúvidas do público a respeito de suas raízes e cultura.

Assim, compreender o papel da juventude no ativismo ambiental é reconhecer que ela não é apenas herdeira de um planeta em crise, mas coautora das soluções necessárias para sua regeneração. Suas vozes, práticas e propostas devem ser valorizadas e incorporadas em todas as esferas decisórias, se quisermos enfrentar a emergência climática com justiça, equidade e esperança.

Por Marcos Vinícius de Castro Lourenço Caldeira | Bolsista PET Educom Clima

 

Saiba mais em:

Silva Júnior, M. A. F., & Teixeira, R. L. P. Juventude e Mudanças Climáticas. Revista Brasileira de Estudos da Juventude, 2021.

Recuero, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2014.

http://periodicos.ufrn.br/interlegere/article/view/26192

Instagram da Maira: http://www.instagram.com/cunhaporanga_oficial/ 

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/05/01/negar-a-ciencia-climatica-e-parte-da-tragedia Thu, 01 May 2025 12:14:12 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=163 Como explicar que, mesmo em uma era de tanto avanço tecnológico e acesso à informação, ainda existam pessoas que negam o que está escancarado diante de seus olhos? A tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 reacendeu esse debate. Muito se tem discutido sobre o negacionismo climático e ambiental como um dos fatores que agravaram o desastre. Em muitos casos, essa negação, que parte dos próprios negacionistas, parece surgir como uma forma de minimizar responsabilidades, uma tentativa, consciente ou não, de se isentar diante da calamidade que paralisou o estado.

Mas, afinal, o que significa negar a crise climática? Trata-se apenas de uma rejeição à ciência, ou seria também um reflexo de interesses políticos, econômicos e culturais profundamente enraizados?

Segundo o professor Renato Souza, do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria, em artigo publicado no Brasil de Fato, a origem do negacionismo climático e ambiental é antiga e está diretamente ligada a movimentos conservadores e de extrema direita, que historicamente defenderam a propriedade privada da terra e a desregulamentação da economia. No Brasil, essa postura se entrelaça com os interesses do agronegócio e das atividades extrativistas, que buscam deslegitimar políticas ambientais para expandir a fronteira agrícola e flexibilizar o uso de áreas de preservação.

Com isso, o professor Souza conclui que o negacionismo climático no país visa preservar e ampliar o modelo de produção primária agroexportadora, frequentemente em detrimento da conservação ambiental e da resposta urgente que as mudanças climáticas exigem.

Imagem retirada da reportagem “Negacionismo climático: conheça suas ideias e características” do site de notícias Politize!

Negacionismo climático 

O negacionismo climático consiste, basicamente, na rejeição das evidências científicas que comprovam o aquecimento global e as mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas. Trata-se de uma postura que se sustenta muito mais em crenças, interesses pessoais e ideologias do que em dados ou comprovações científicas.

Além disso, é curioso que as pessoas que negam a ciência o fazem geralmente  de forma bastante seletiva. Ou seja, elas rejeitam descobertas científicas apenas quando essas conclusões contrariam suas crenças ou interesses. 

Muitos que questionam ou descredibilizam as pesquisas sobre o aquecimento global, dificilmente recusariam um tratamento odontológico, por exemplo. Mesmo sabendo que ambos os conhecimentos, tanto o que possibilita o avanço da medicina quanto o que aponta os riscos das mudanças climáticas, partem do mesmo método científico. No fim das contas, é a mesma ciência que desenvolveu anestesias, tratamentos dentários e vacinas que também alertam sobre o aumento preocupante dos gases de efeito estufa na atmosfera.

O que está em jogo, portanto, não é uma rejeição à ciência em si, mas o desconforto com o que ela representa quando questiona privilégios, o modelo econômico vigente ou a liberdade de consumo. O negacionismo climático, nesse sentido, é uma reação defensiva à possibilidade de mudanças estruturais na economia e no estilo de vida, necessárias para enfrentar a crise ambiental.

Esse cenário se torna ainda mais evidente diante de acontecimentos concretos, como a tragédia em Porto Alegre em 2024. Mesmo após as enchentes devastadoras que atingiram a cidade, o poder público manteve posturas criticadas. O presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda, em uma entrevista concedida para a rede de notícias DW, questionou a liberação de R$27 milhões em dinheiro público para o evento privado South Summit, em vez de priorizar projetos de reconstrução e recuperação ambiental. Lacerda e outras entidades levaram a denúncia ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado, destacando também a ausência de ações efetivas de recomposição de matas e áreas naturais.

Apesar da experiência traumática vivida pela população, o governo estadual, segundo a Agapan, não alterou sua postura de pressão sobre o meio ambiente. O que evidencia o quanto o negacionismo climático, ou a resistência em aceitar e agir sobre as evidências científicas, ainda influencia decisões políticas e administrativas.

Como explicar para alguém que não acredita?

O escritor norte-americano Andrew Hoffman, em seu livro “Como a Cultura Molda o Debate do Clima”, propõe que o caminho agora é construir confiança. Em sua obra, ele explora como as diferenças culturais e ideológicas moldam a compreensão e a resposta ao aquecimento global, defendendo que a ciência, sozinha, pode não conseguir convencer os mais resistentes a serem ignorantes. 

Segundo Hoffman, existem três possíveis caminhos para sair do impasse atual. O primeiro é otimista: surgiria uma solução técnica capaz de reverter os danos, como uma tecnologia que removesse o excesso de carbono da atmosfera. O segundo é pessimista: o debate continuaria se polarizando, com cada lado defendendo seus valores e tentando impor suas crenças, o que favoreceria a propagação de dúvidas e dificultaria ações efetivas. 

O terceiro caminho, e o único viável para Hoffman, é a busca por consenso. Esse cenário exige que ambos os lados reconheçam a radicalização de suas posições e trabalhem juntos para encontrar interesses em comum.

Como parte do esforço para combater a desinformação no debate ambiental, que dialoga justamente com a ideia de Hoffman, o Observatório do Clima, uma rede de organizações da sociedade civil, criou a plataforma Fakebook.eco em 2019. A iniciativa visa sistematizar, de maneira didática, o conhecimento sobre mitos, distorções e mal-entendidos comuns relacionados ao meio ambiente no Brasil. Além de funcionar como um repositório para desmentir informações falsas, a plataforma também realiza checagens rápidas de declarações de autoridades e fake news ambientais.

Um exemplo de uma dessas produções foi a realizada pela Fakebook.eco em 2022, que aborda a falsa ideia de que não há consenso na comunidade científica sobre o aquecimento global. O trabalho destaca que mais de 99% dos estudos científicos revisados por pares entre 2012 e 2020 reconhecem a influência humana na mudança climática. Esses dados foram confirmados por uma pesquisa da Universidade de Cornell, publicada em outubro de 2021. O estudo, liderado pelo professor Mark Lynas, analisou cerca de 90 mil publicações científicas sobre a crise climática. Segundo o autor, os resultados tornam a discussão sobre a existência de consenso científico um “caso encerrado”. De acordo com o levantamento, não há debate relevante entre especialistas que neguem a mudança climática induzida pela ação humana.

Frente a esse contexto de desinformação e resistência, surgem iniciativas como o PET Educom Clima, criado em 2024 no curso de Jornalismo da UFSM, campus Frederico Westphalen, sob a coordenação da professora Cláudia Herte de Moraes. O grupo nasceu a partir de uma chamada do governo federal para fortalecer a integridade da informação, uma diretriz proposta pela ONU para enfrentar a desinformação no ambiente digital.

O PET Educom Clima trabalha com a educomunicação climática, promovendo o diálogo aberto e crítico com a sociedade, especialmente no ambiente escolar. Através da produção de conteúdos sobre meio ambiente e do incentivo à análise crítica das informações que circulam na mídia, o grupo busca explicar, de forma acessível, as bases científicas válidas sobre o aquecimento global. Assim, contribuindo para a formação de uma cidadania ambientalmente consciente.

A superação do negacionismo climático passa, portanto, pela implantação de políticas de promoção da educação, da informação de qualidade, bem como pela mobilização social. Tarefas essas que se tornam ainda mais urgentes diante das consequências reais e trágicas da crise ambiental.

Raquel Teixeira Pereira | Bolsista do PET Educom Clima

 

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/04/09/o-clima-esta-mudando-e-com-isso-o-acesso-aos-alimentos-tambem Wed, 09 Apr 2025 12:05:21 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=128 As mudanças climáticas são amplamente reconhecidas pela comunidade científica que, há mais de 30 anos, acompanha atentamente os efeitos da aceleração do  aumento da temperatura média global, conhecido como aquecimento global. Nos últimos meses, as notícias sobre fenômenos climáticos extremos têm atraído cada vez mais atenção mundialmente, e não é muito difícil ter a sensação de que a natureza está fora de controle. Mas e aí, você já parou para pensar como as mudanças climáticas afetam, de forma direta, o dia a dia das pessoas?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os anos de 2030 e 2050, espera-se que as mudanças climáticas causem aproximadamente 250 mil mortes adicionais por ano, sendo a desnutrição uma das principais causas. Esse impacto já é sentido na prática, visto que as alterações no clima afetam diretamente a disponibilidade e a qualidade dos alimentos, como destaca Luiza Pigozzi, presidente da Cooperbio: “Hoje a gente sente na pele as mudanças climáticas na produção de alimentos. A gente vê períodos de extrema seca, de estiagem, sem chuvas, que prejudicam a produção de alimentos. E em outros períodos do ano, enchentes”. Isso evidencia como as mudanças climáticas afetam diretamente a oferta de alimentos, impactando o crescimento e a produção, desde as plantas até os produtos como o leite. 

O diretor executivo da Agência de Desenvolvimento do Médio Alto Uruguai (ADMAU) Eliseu Liberalesso  pontua que “o maior desafio diante das mudanças climáticas é, sem dúvida, promover a conscientização para a adoção de uma agricultura sustentável dentro desse contexto produtivo”. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), a agricultura familiar precisa adotar práticas como o uso eficiente da água, o manejo adequado do solo, o cultivo diversificado e o uso de sementes adaptadas às novas condições climáticas para garantir sua sustentabilidade.

Agricultores do Quilombo Dona Bilina, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, preparam sua produção para entrega ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – Rio de Janeiro (RJ), 19/12/2023

A agricultura familiar enfrenta desafios crescentes devido às mudanças climáticas. A adoção de práticas agrícolas sustentáveis é urgente para mitigar os impactos desses eventos extremos, que ameaçam a produtividade das pequenas propriedades e aumentam a vulnerabilidade dos pequenos agricultores. O estudante de Agronomia e agricultor familiar Vinicius Klunk ressalta: “A produção de leite está ligada principalmente à produção das áreas de lavoura, porque nada adianta tu querer produzir leite mas se tu não tem não tem alimento suficiente para alimentar seu gado. Então por isso você tem que cuidar bem das lavouras para que elas possam ter retorno.”

O desmatamento representa outra ameaça frequentemente negligenciada: ele está contribuindo para as mudanças climáticas. A agricultura convencional, destacada por Luiza Pigozzi, é caracterizada por práticas que envolvem o desmatamento, o uso excessivo de venenos, maquinários e fertilizantes. Pigozzi relata que, como alternativa, a agroecologia surge como uma prática de agricultura camponesa tradicional, sem o uso de químicos, voltada à preservação ambiental. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), apenas a derrubada de árvores em áreas tropicais libera mais de 5,6 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa a cada ano, intensificando o aquecimento global. A chefe do setor de Adaptação e Resiliência às Mudanças Climáticas do PNUMA Mirey Atallah enfatiza: “Se quisermos ter alguma esperança de desacelerar as mudanças climáticas, precisamos parar de desmatar.” 

A graduanda do sétimo semestre do curso de Engenharia Florestal e integrante do PET Engenharia Ambiental Geisa Zanini, salienta que é possível observar as mudanças bruscas de temperatura, por exemplo, na diferença na disponibilidade hídrica e de alimentos. “É nesse cenário que entra o engenheiro florestal, como profissional que pode estar ali auxiliando nesse manejo adequado das águas e das florestas, atuando na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”. Portanto, o papel do engenheiro florestal se torna fundamental para a gestão dos recursos naturais, auxiliando na garantia de um futuro mais sustentável para as próximas gerações.

Jéssica Hemsing | Voluntária do PET Educom Clima 

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/03/26/como-a-desinformacao-impacta-a-acao-climatica Wed, 26 Mar 2025 12:32:11 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=108 Embora o termo “fake news” tenha se popularizado nos últimos anos, o surgimento da desinformação tem origem em períodos históricos de crise, guerra e manipulação política. A invenção dos jornais sensacionalistas no final do século XIX, por exemplo, já refletia o desejo de manipular a opinião pública por meio de informações distorcidas.

Nos últimos anos, o fenômeno das fake news consolidou-se como um dos maiores desafios da comunicação. Com o avanço das redes sociais e o alcance massivo da internet, a propagação de informações falsas tornou-se mais rápida e difícil de controlar. As fake news não apenas distorcem a realidade, mas têm o poder de influenciar decisões políticas, prejudicar a credibilidade de instituições e até mesmo colocar em risco a saúde pública, como evidenciado durante a pandemia de Covid-19. Além disso, esse fenômeno afeta a confiança das pessoas na mídia tradicional e contribui para a polarização social, alimentando o ciclo de desinformação. 

Charge Reprodução/Cazo.

O termo “infodemia” surgiu com força durante a pandemia da Covid-19 para descrever a grande disseminação de informações, tanto verdadeiras quanto falsas, que ocorreram de forma descontrolada. A palavra é uma junção de “informação” e “epidemia”, destacando como o excesso de dados pode se espalhar rapidamente, muitas vezes dificultando a distinção entre fatos confiáveis e desinformação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) utilizou o termo para alertar sobre os perigos da circulação de fake news, teorias da conspiração e dados imprecisos relacionados ao coronavírus, tratamentos e vacinas. A infodemia contribuiu para o aumento do medo, desconfiança nas instituições de saúde e adoção de comportamentos inadequados, como o uso de medicamentos sem eficácia comprovada.

Com o avanço das redes sociais e aplicativos de mensagens, a propagação de informações sem verificação tornou-se ainda mais rápida e impactante. Elas facilitam o alcance global de rumores, teorias conspiratórias e boatos. Esse fenômeno ressaltou a importância da alfabetização midiática, do papel do jornalismo responsável e da checagem de fatos para combater a desinformação. A infodemia não se limitou apenas à pandemia, mas mostrou como, em qualquer crise global, a gestão da informação é crucial para evitar pânico e garantir que as pessoas tenham acesso a conteúdos confiáveis para tomar decisões seguras.

Impactos sociais e políticos das fake news

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada pela Agência Brasil, revela que quase 90% da população brasileira admite já ter acreditado em conteúdos falsos. Segundo o levantamento, oito em cada dez brasileiros já confiaram em fake news. No entanto, 62% afirmam confiar em sua própria capacidade de distinguir informações falsas das verdadeiras.

Os impactos das fake news são profundos e amplos. Em âmbito social, elas contribuem para a polarização política, criando bolhas informativas em que indivíduos se cercam apenas de conteúdos que reforçam suas crenças preexistentes. Isso dificulta o diálogo e o entendimento entre diferentes grupos, gerando uma sociedade mais desconfiada, na qual as pessoas questionam a veracidade de informações provenientes de fontes confiáveis, como a mídia tradicional e os especialistas.

Desinformação climática: um desafio à crise ambiental

A desinformação climática se apresenta como um dos aspectos mais preocupantes da atual crise ambiental, uma vez que afeta diretamente a forma como a sociedade compreende e responde às mudanças climáticas. Apesar de a ciência climática ser clara e sólida, com um consenso global sobre a gravidade do aquecimento global e suas consequências, a disseminação de informações falsas ou distorcidas ainda representa um obstáculo significativo para ações políticas e sociais eficazes. A desinformação climática se espalha rapidamente pelas redes sociais. Informações falsas ou alarmistas, muitas vezes exageradas ou distorcidas, geram maior engajamento online, criando um ciclo vicioso em que a desinformação se propaga mais rapidamente do que os fatos científicos verídicos. Em um cenário como este, muitos são expostos a teorias conspiratórias, como a ideia de que as mudanças climáticas seriam uma “fraude” ou um “mito”.

Nesse sentido, podemos citar o Observatório do Clima (OC) que é uma coalizão composta por mais de 50 organizações não governamentais dedicadas à promoção da sustentabilidade e ao combate às mudanças climáticas no Brasil. Além de atuar como centro de monitoramento e análise de políticas ambientais, o OC desenvolve iniciativas para combater a desinformação climática, como o projeto “Fakebook”, que identifica e desmascara informações falsas sobre o meio ambiente. Por meio de sua plataforma, a organização reforça a transparência e a responsabilidade na disseminação de informações ambientais, garantindo que a sociedade tenha acesso a dados precisos e confiáveis sobre as mudanças climáticas e suas implicações.

Os impactos da desinformação climática são devastadores. Além de afetar a percepção pública sobre a gravidade do problema, contribui para a polarização social e política, especialmente quando utilizada para dividir grupos e desviar a atenção das soluções reais. Aqueles que se opõem à ação climática frequentemente se aproveitam dessa desinformação para fomentar a divisão, retratando as iniciativas ambientais como uma ameaça ao modo de vida das pessoas e utilizando argumentos distorcidos para gerar medo e resistência.

Essa desinformação também possui um custo humano, pois impede que as pessoas compreendam adequadamente os riscos e as soluções para desastres naturais, que se tornam cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas — como inundações, secas, incêndios florestais e tempestades mais intensas. Em regiões vulneráveis, onde os impactos dessas mudanças são mais acentuados, a falta de informação correta pode significar a diferença entre a preparação e a tragédia.

Uma solução contra a desinformação

A educomunicação surge como uma solução importante para combater a desinformação, especialmente em temas complexos como as mudanças climáticas. Sendo assim, no segundo semestre de 2024 uma oficina sobre fake news, foi realizada na Escola Estadual Padre Abílio Sponchiado, em Vista Alegre, promovida pelos alunos da disciplina de Educomunicação do curso de Jornalismo da UFSM-FW e teve como principal objetivo conscientizar os estudantes sobre os perigos da desinformação no ambiente digital. Destinada aos alunos do primeiro e segundo ano do ensino médio, a atividade foi conduzida de maneira interativa, permitindo que os participantes aprendessem, na prática, como identificar notícias falsas e compreender seus impactos na sociedade. Sob a orientação das professoras Janaina Gomes e Cláudia Herte de Moraes, a oficina começou com uma exposição teórica sobre o conceito de desinformação, explicando como ela se propaga nas redes sociais e pode influenciar a opinião pública de maneira negativa.

Oficina sobre Desinformação na Escola Estadual Padre Abílio Sponchiado, na cidade de Vista Alegre, localizada no interior do Rio Grande do Sul. Foto: Kemily Jenifer.

Para tornar o aprendizado mais dinâmico, os alunos participaram de uma atividade interativa utilizando QR codes, que direcionavam para conteúdos variados, misturando informações verdadeiras e falsas. O desafio proposto era analisar criticamente os materiais apresentados e identificar quais eram falsos. A dinâmica não apenas despertou a curiosidade dos estudantes, como também estimulou um olhar mais crítico sobre o consumo de informações digitais, evidenciando a importância da verificação dos fatos antes de compartilhar conteúdos online.

Além da temática central sobre desinformação, a oficina também proporcionou um momento de experimentação artística por meio da fotografia, permitindo que os alunos explorassem novas formas de expressão e criatividade. Eles tiveram a oportunidade de utilizar uma câmera profissional, tornando a experiência ainda mais enriquecedora. A ação demonstrou a relevância de abordar temas como fake news dentro do ambiente escolar, principalmente considerando que os adolescentes estão em contato constante com as redes sociais, um dos principais canais de disseminação de notícias falsas. A oficina contribuiu, assim, para o desenvolvimento de um pensamento crítico nos jovens, capacitando-os a consumir e compartilhar informações de maneira mais responsável e consciente.

Em tempos de disseminação acelerada de desinformação pelas redes sociais e meios digitais, a educomunicação oferece uma base sólida para que as pessoas possam discernir fatos de ficção, permitindo uma ação mais eficaz em prol da preservação do meio ambiente. Ao invés de sermos reféns das mentiras que circulam pelo mundo, a educomunicação nos oferece as ferramentas necessárias para sermos protagonistas na defesa de um futuro mais justo e sustentável. Em um mundo saturado de informações falsas, a educação crítica é a chave para desarmar a desinformação e construir um futuro mais consciente. 

A educomunicação desempenha um papel fundamental no combate às fake news sobre desastres climáticos, promovendo a construção de uma base crítica na sociedade. No caso do Rio Grande do Sul, iniciativas como o Programa de Extensão Mão na Mídia da UFSM-FW atuam na produção e divulgação de informações verificadas sobre os impactos das chuvas intensas. Em parceria com redes de jornalismo e projetos acadêmicos, essas ações garantem que a população tenha acesso a dados confiáveis, evitando a desinformação e contribuindo para estratégias de prevenção e adaptação frente às emergências climáticas.

Franchesco de Oliveira Y Castro | Bolsista PET Educom Clima

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Máterias – PET Educom Clima-55BET Pro http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/2025/03/19/o-impacto-das-mudancas-climaticas-nas-cidades-brasileiras Wed, 19 Mar 2025 11:50:43 +0000 http://www.55bet-pro.com/pet/educom-clima/?p=98 As mudanças climáticas têm causado, cada vez mais, impactos para os seres humanos e, infelizmente, os brasileiros estão ainda mais familiarizados com essa realidade.  Em pesquisa recente do Datafolha, quase a totalidade dos entrevistados (97%) afirmaram sentir as mudanças climáticas no dia a dia e quase 77% disseram ter passado por algum fenômeno climático recentemente. Os principais eventos vivenciados pelos entrevistados foram o calor extremo, seguido por chuvas intensas ou tempestades e situação de secas extremas. 

Em nosso país que, segundo dados do IBGE, mais de 87% da população vive em áreas urbanas, as diferenças sociais são decisivas para entender quem mais sofre com as mudanças climáticas. As cidades brasileiras, marcadas pela rápida urbanização e sem planejamento adequado, levam a uma ocupação de espaços indevidos e áreas de risco pela população mais pobre. Essa população que está mais vulnerável aos impactos climáticos como deslizamentos, enchentes e ilhas de calor.

Bairro Passo de Estrela, onde todas casas foram destruídas pela enchente de abril 2024. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil – Cruzeiro do sul (RS), 27/04/2025

As chamadas “ilhas de calor” são um fenômeno climático que ocorre nas cidades, onde o calor se intensifica devido a alta densidade urbana e poucas áreas verdes. Mas a chuva não é a salvação que se espera, porque o aumento das chuvas intensas traz grandes riscos. Nas favelas e bairros periféricos, os perigos dos deslizamentos de terra são reais. Com a retirada da vegetação nativa, que iria drenar a água e estabilizar o solo, para realocação da população de baixa renda, as encostas dos morros perdem a sua proteção natural e estão sujeitas aos deslizamentos. Com a chuva ainda há outro risco: as enchentes. Os escoamentos de águas de grandes áreas, sobrecarregadas e antigas, não conseguem lidar com um volume de água tão intenso e assim resultam em alagamentos e inundações.

Para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras, é preciso do esforço conjunto, de uma ação mobilizadora, entre diversos âmbitos da sociedade. Precisamos que nós, como sociedade, repensemos nossos hábitos de consumo e relação com a natureza. Precisamos que mais áreas verdes sejam plantadas nas áreas urbanas. E, acima de tudo, precisamos que mais políticas públicas assistam pessoas em vulnerabilidade social. Pois, como o geógrafo Wagner Ribeiro diz “somente com habitação segura, bem edificada e em local correto serão eliminados os efeitos mais perversos das mudanças climáticas no Brasil.” 

Bruna Einecke | Bolsista PET Educom Clima

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