Depois de explicar o funcionamento do fenômeno El Niño e projetar o nível de alerta para 2026 na primeira reportagem, e de cruzar as histórias de produtores rurais para entender os desafios e a recuperação do campo gaúcho na semana passada, a série especial da Agência de Notícias da UFSM volta seus olhos para o perímetro urbano.
Para cientistas da UFSM, as inundações urbanas escancaram que o desastre possui uma raiz profundamente social. O professor Daniel Gustavo Allasia Piccilli, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental (PPGECAM) da UFSM, estuda inundações urbanas há anos e monitora o fenômeno de maneira contínua através do Grupo de Pesquisas em Modelagem Hidroambiental e Ecotecnologias. “A confirmação do El Niño automaticamente não significa que teremos enchentes e inundações na mesma proporção”, esclarece o professor.
O alerta ganhou corpo em uma nota técnica elaborada em conjunto pelo PPGECAM e pelo Programa de Pós-Graduação em Meteorologia (PPGMET) da UFSM. Diante de chances de até 90% de ocorrência do fenômeno nos próximos meses, a pergunta que desafia os gestores públicos é: dois anos após a maior tragédia climática do estado, as cidades gaúchas estão preparadas?
Será que as cidades mudaram de lá para cá?
A resposta para a prontidão dos municípios gaúchos varia conforme o setor observado. Por um lado, houve avanços forçados pela destruição em 2024. Por outro, a lentidão estrutural permanece.
“Será que as cidades mudaram de lá para cá? Eu diria que a infraestrutura viária está melhor preparada hoje porque as pontes antigas caíram. As novas levaram em conta condicionantes climáticas: são mais altas, robustas e firmes. Se chegar um evento extremo, as cidades não devem ficar tão incomunicáveis”, avalia Allasia.
No entanto, o expert em inundações urbanas pondera que a adaptação profunda esbarra em uma gangorra de extremos meteorológicos emergentes no estado, a qual ele denomina como câmbio climático. “Desde 2019, estamos vivendo uma sequência severa de secas e cheias intercaladas. Estamos andando em extremos”, detalha.
Segundo ele, adaptar a drenagem das cidades a essa realidade exige tempo e planejamento, mudando desde a arquitetura das casas até a escolha da vegetação nas ruas, já que o plantio de espécies erradas pode resultar em árvores caídas durante vendavais.
Preparação de “baixo arrependimento”
Como a intensidade definitiva do El Niño só costuma ser confirmada cientificamente com cerca de dois meses de antecedência, Allasia defende que os gestores adotem uma postura preventiva baseada em medidas de “baixo arrependimento”: ações rápidas, de custo quase zero, mas que salvam vidas.
“A recomendação agora é focar em logística: organizar plantões da Defesa Civil para finais de semana e feriados, testar canais de comunicação e limpar calhas. São medidas simples que não impactam o orçamento, mas mudam o cenário no momento da crise”, defende o professor.
O pesquisador da UFSM recomenda um checklist de ações imediatas que as prefeituras devem adotar:
• Limpeza preventiva: retirada de galhos e lixo de bueiros, galerias pluviais e arroios
• Escalas de plantão: organização prévia de equipes de emergência para recessos e feriados
• Antecipação burocrática: abertura antecipada de licitações para contratação ou manutenção de maquinários (como retroescavadeiras), evitando a escassez do mercado no pico da crise
• Comunicação direcionada: Criação de protocolos de alerta direto com os moradores de áreas vulneráveis

Para o professor Daniel Allasia, os avisos de evacuação não podem ser genéricos, mas sim direcionados aos moradores de áreas de risco através de canais diretos como o WhatsApp. Em consonância com o cientista da universidade, a Defesa Civil de Santa Maria realizou nesta semana uma força-tarefa multidisciplinar de cadastramento de moradores no distrito de Passo do Verde, área com alta suscetibilidade a inundações.
Em dois dias de trabalho de campo, equipes formadas por agentes públicos, geólogo, engenheiro florestal e assistente social analisaram o padrão das residências, identificaram 243 imóveis e cadastraram 206 pessoas. Os dados coletados revelam a complexidade humana por trás de um plano de evacuação:
• Perfil de vulnerabilidade: Dos cadastrados, 101 são idosos e 9 são pessoas com deficiência (PcD), grupos que exigem maior agilidade em resgates. Além disso, 37 famílias dependem do Cadastro Único para Programas Sociais.
• Famílias multiespécie: O levantamento contabilizou 202 animais de estimação na área, entre cães, gatos e aves. O fator é considerado crucial pela Defesa Civil para o planejamento de abrigos, já que muitas famílias se recusam a evacuar se precisarem abandonar seus animais.
O abismo entre os municípios
Se cidades maiores conseguem articular essas forças-tarefas, o interior enfrenta um isolamento técnico e financeiro. Allasia cita o caso de São João do Polêsine – município de apenas 2.649 habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – que passou bem por uma cheia de 150 milímetros em dezembro após receber consultoria gratuita da UFSM para desobstruir canais e remover açudes irregulares. O oposto ocorre na vizinha Ivorá, que por ficar em um vale cercado de montanhas, exige projetos de engenharia e obras hidráulicas.
O grande entrave é que a maioria das pequenas prefeituras tem equipes reduzidas, ficando sem braço técnico até mesmo para pedir socorro financeiro. Allasia revela um bastidor crítico sobre como a falta de registros prejudicou a captação de recursos públicos em Brasília. “Quando sofremos o pior da cheia na região central em maio de 2024, o satélite só via nuvens. Não há registro visual de satélite das nossas enchentes, as imagens limpas só começaram a aparecer quando a água chegou a Porto Alegre”, revela o professor.
“Isso afetou o interior na hora de pedir recursos federais, porque o técnico em Brasília exige provas. É aí que a engenharia precisa do jornalismo para documentar o desastre em pastas estruturadas. Muitas prefeituras pequenas ficaram sem verbas simplesmente porque não tinham pernas para montar essa documentação”, complementa Allasia.
Plano Municipal de Redução de Riscos

Se faltam braços na administração pública do interior, a ciência local tem feito o mapeamento minucioso dos gargalos. Santa Maria conta com uma ferramenta crucial: o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR). Na UFSM, o projeto foi coordenado pela professora Andrea Valli Nummer, do Departamento de Geociências e pesquisadora do Laboratório de Geologia Ambiental (Lageolam).
“A ciência já sabe praticamente tudo sobre as áreas de risco. Nós só estamos evoluindo na técnica. Sabemos que é importante mapear a inundação, o alagamento, o escorregamento, o movimento de massa. Antes andávamos a pé, hoje usamos drone. Temos a meteorologia para nos ajudar com dados”, explica a professora Andrea. “O que precisa é que cada vez mais municípios possam ter esses planos. Para ter um documento de planejamento urbano, de gestão de risco. Isso é importante. E se apropriar desse documento, manter esse documento atualizado e utilizá-lo mesmo para a captação de recurso.”
O plano de Santa Maria começou a ser desenhado no segundo semestre de 2023, focando em seis regiões que concentram habitações informais e populações vulneráveis:
• Região Sul: vilas Urlândia e Santos
• Região Oeste: vilas Babilônia, Lídia, Chaminé e Arco-Íris
• Região Centro-Oeste: Vila Beco do Guarani
• Região Nordeste: vilas Schirmer e Km 3
• Região Norte: vilas Bilibio e Favarin
• Região Leste: vilas Canário, Bela Vista, Bürger e Churupa
“Nós escolhemos e estudamos essas áreas entre 2023 e o início de 2024, antes dos eventos extremos acontecerem”, ressalta a doutora em Geotecnia. A pedido da prefeitura, os pesquisadores do Lageolam também realizaram um mapeamento suplementar voluntário na Vila Santa Tereza (no bairro Chácara das Flores), após o local sofrer um processo de abatimento de terra.
O sucesso metodológico expandiu as fronteiras da pesquisa. A partir da próxima semana, a professora Andrea assume a coordenação do primeiro PMRR de Cachoeira do Sul, em parceria com o Governo Federal, com previsão de entrega para o próximo ano. “Antes, a metodologia focava apenas nos graus de risco ‘alto’ e ‘muito alto’. Agora, o Governo Federal incluiu também o risco ‘médio’. Vai dar muito mais trabalho para a equipe de acadêmicos, mas será um novo e interessante desafio”, destaca a geóloga.
O dilema da “teia social” e as soluções a longo prazo
Quando os mapas apontam uma residência em área de alto risco, a remoção das famílias parece ser a resposta imediata. Contudo, o PMRR adota uma diretriz humanizada: a retirada definitiva deve ser o último recurso.
“Evita-se ao máximo a remoção porque essas populações construíram uma ‘teia social’. Há uma relação profunda de vizinhança, o vínculo com o emprego, a escola dos filhos. A recomendação do plano, alinhada ao Governo Federal, é que as famílias permaneçam e o poder público faça obras de mitigação, como contenção de encostas e melhoria nas margens dos rios. A remoção definitiva só deve ocorrer quando há risco iminente à vida”, esclarece a coordenadora do PMRR.
Para além das ações emergenciais de curto prazo, o professor Daniel Allasia enfatiza que as cidades precisam implementar a drenagem urbana sustentável no longo prazo, através de um Plano Diretor de Drenagem Urbana. “Não se trata apenas de obras cinzas e estruturas rígidas de concreto. É preciso trabalhar junto com a vegetação e com a própria água, auxiliando a infiltrá-la no solo e a armazená-la. Isso não substitui os canais e reservatórios tradicionais, mas deixa as cidades muito mais resilientes.”
Baixa capacidade técnica e burocrática
Se a ciência desenvolve os mapas e a engenharia projeta as soluções, as cidades esbarram na engrenagem política de captação de recursos. A professora Andrea Nummer lembra que a prevenção climática exige proatividade e preparo burocrático das prefeituras. “Município e estado funcionam exatamente como uma universidade. Ninguém bate aqui na minha porta para me oferecer dinheiro”, desabafa a pesquisadora. “Aparece um edital público e eu tenho que estar com a minha proposta pronta, porque ele fica aberto por pouco tempo, às vezes apenas um mês”, completa.
Para Andrea, a falta de um corpo técnico qualificado na maioria das cidades pequenas para caçar esses editais e estruturar projetos complexos em tempo recorde é, atualmente, um dos grandes empecilhos para a prevenção de desastres no Estado. O El Niño traz a chuva, mas é a capacidade técnica, burocrática e social das cidades que dita o tamanho do seu impacto.
Texto: Marina Brignol, estudante de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Arte gráfica da capa: Daniel De Carli
Edição: Lucas Casali